sábado, junho 04, 2011

Palocci falou muito sem explicar nada.

Adelson Elias Vasconcellos

A tão aguardada entrevista concedida pelo ministro Chefe da Casa Civil do governo Dilma, Antonio Palocci, ao Jornal Nacional, resultou negativa. Era visível a perturbação do ministro, como era também clara sua falta de coordenação ao responder questões digamos... mais delicadas.

Os pontos principais e nebulosos sobre o caso de seu enriquecimento tão rápido e surpreendente, ficaram, como era de se imaginar, e que antecipamos aqui, sem a resposta necessária. Palocci insiste em alegar a confidencialidade dos contratos para não revelar absolutamente coisa nenhuma. Tirando os salamaleques do autoelogio, das afirmações vazias do tipo “não pratiquei tráfico de influência”, chegou a ser hilariante ver Palocci apelar para sua “ética” de homem público e transferir a encrenca toda para o Procurador da República, Roberto Gurgel a quem, segundo o ministro, serão prestadas todas as informações sobre sua empresa. É hilário porque, antes mesmo de qualquer análise, o próprio procurador se apressou em afirmar não ver motivos para investigar Palocci. Ocorre que evidências existem de sobra e, somente com uma investigação rigorosa e séria, será possível afirmar qualquer coisa sobre se o ministro é ou não culpado de, no mínimo, tráfico de influência.

O que me preocupa no caso desta “análise preliminar” da Procuradoria é que o senhor Gurgel está em fim de mandato e pode se sentir tentado em agradar ao governo que será responsável por sua recondução a um novo mandato ou sua substituição. Talvez tenha sido esta a principal causa daquela declaração apressada e precipitada de Roberto Gurgel de que não havia motivos para investigação. Sua análise agora decorre do fato de ter sido pressionado pela imprensa, oposição e algumas entidades de classe como a OAB.

Por isso, já antevendo qual será a postura final do Procurador Geral, é que Palocci concordou somente agora com a entrevista e tenha colocado a defesa de sua reputação no colo do Procurador Geral. A conferir.

Hilário, ainda, foi o apelo de Palocci durante a entrevista para um “é preciso ter boa fé”. Fosse o ministro uma pessoa cujo passado abonasse este apelo, eu concordaria plenamente que lhe fosse concedida esta “boa fé”. Mas isto, em passado bem recente, se anula. Quando da quebra ilegal de sigilo do caseiro Francenildo, Antonio Palocci negou de pés juntos e mãos postas que não fora responsável nem da quebra nem nunca autorizara que se praticasse o crime. Porém, somente agora, já com o caso julgado pelo STF, do qual resultou um Palocci absolvido, é que a direção da Caixa Federal veio declarar que a ordem da quebra de sigilo partira do gabinete do ministro Palocci, bem como ex-diretor da Globo afirmou ter presenciado que o ministro em pessoa entregou à direção da Globo o extrato da conta bancária do caseiro. Assim, o apelo de boa fé do ministro se esvazia e se inviabiliza.

Como as questões mais importantes sobre o enriquecimento rápido do ministro permaneceram sem resposta, e até pela repercussão do dia seguinte, creio que Palocci queimou seu filme. Pode até ser que Dilma, teimosa como mula, por pura birra, queira mantê-lo no Ministério. Só que, neste caso, pagará um preço cruel demais, uma vez que condenará todo o restante de seu mandato, e são 3 anos e meio, a andar refém deste caso. Sua base de apoio se mostrará ora fiel ora infiel a depender da taxa de sucesso que Dilma esteja disposta a pagar para comprar e garantir o apoio parlamentar.

Não creio, por menos competência e experiência políticas que a presidente possa ter, e tem, ela se disponha a tanto. De alguma forma que talvez já se desenhe de forma furtiva, ela já imagina seu governo sem Palocci e esteja em busca de um nome capaz de suprir a ausência. Não será uma tarefa fácil já que, nos partidos de apoio, será uma luta titânica encontrar um nome de consenso, com moral e autoridade suficientes para se impor e agregar ao ministério competência técnica, sabedoria política e capacidade de negociação.

E, sem que novos fatos positivos se apresentem para afastar a crise de vez, e ela existe mesmo que o ministro Palocci se negue em reconhecê-la, entendo que o tempo de Palocci chegou ao fim como ministro Chefe da Casa Civil. Até porque, convenhamos, o governo e o país têm coisas bem mais importantes com que se preocuparem, do que se ficar perdendo tempo em demasia em justificar o patrimônio de um ministro que não soube e não quer se justificar.

Porque, rigorosamente, a depender de fatos novos, a saída de Palocci do governo pode estar se consumando não apenas a partir de sua entrevista, mas também pelo que a Revista Veja que chega às bancas revela. Vejam:

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Reportagem de Leonardo Coutinho na VEJA desta semana mostra que o mega-apartamento que o ministro aluga há quatro anos, em São Paulo, de 640 metros quadrados, pertence a uma empresa de fachada que está em nome de um laranja de 23 anos, que mora em um casebre de fundos na periferia de Mauá, no ABC paulista, ganha R$ 700 por mês e teve o celular bloqueado por falta de pagamento. Não obstante, ele é “dono” de um apartamentaço com quatro suítes, três salas, duas lareiras, todo ladeado por varandas, avaliado em R$ 4 milhões. Não se aluga um igual por menos de R$ 15 mil; o condomínio chega R$ 4.600, e a parcela mensal de IPTU é de R$ 2.300.

VEJA resolveu saber quem era o dono do apartamento que o ministro aluga. De acordo com 14º Ofício de Registro de Imóveis de São Paulo, ele pertence à Lion Franquia e Participações Ltda.

- E quem é o dono da Lion? São dois sócios: Dayvini Costa Nunes, com 99,5%, e Felipe Garcia dos Santos, com 0,5%. Felipe tem 17 anos e foi emancipado no ano passado.

- Dayvini e Felipe são laranjas. Leia na revista como ele acabou “dono” do imóvel. A Lion não existe. Usou endereços falsos nos últimos três anos.

- A Lion recebeu o apartamento de um certo Gesmo Siqueira dos Santos, tio de Dayvini, que responde a 35 processos, incluindo falsificação de documentos.

VEJA encontrou Dayvini com os dados sobre a posse do imóvel e a tal Lion. Ele afetou surpresa, disse que não sabia de apartamento nenhum e até ironizou: afirmou que sua vontade era pegar o imóvel que estava em seu nome, vender, pagar as contas e comprar uma boa casa para a família. Certo!

Ontem, no entanto, Dayvini telefonou para a VEJA para mudar a sua versão. Sim, ele é laranja da Lion, mas afirmou que participou da fraude.

VEJA - Um homem ligou dizendo ser seu tio. O que ele quer?

Dayvini - Desde que você falou comigo, não consigo dormir, por causa dessas coisas que envolvem pessoas com quem não tenho como brigar, como o Palocci, entendeu? Eu não tenho como bater de frente com essas pessoas. Sou laranja.

VEJA - O seu fio disse que o senhor sabia que era laranja.

Dayvini - Ontem, quando você chegou na minha casa, estava um pouco nervoso.

VEJA - O senhor mentiu ontem ou está mentindo agora?

Dayvini - Eu menti ontem.

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Encerro:
Bem, se o senhor Dayvini diz “eu menti ontem”, Palocci, como os fatos comprovam, vem mentindo ao país há muito mais tempo. Portanto, não se pode conceder-lhe novo indulto sob pena e risco de consagrar a impunidade como valor e fator de governança do seu destino. Que Antonio Palocci retorne às suas consultorias onde, parece, ter enorme aptidão para ficar milionário, mesmo que tais consultorias se realizem com incrível competência no submundo da política brasileira.