Adelson Elias Vasconcellos
O que mais o PT teme neste imbróglio do Palocci é que façam com ele o mesmo que o partido sempre fez e faz com seus adversários: quebrar sigilos para expor malvadezas e arruinar a vida dos devassados.
Muitos dossiês que o PT fez correr na imprensa, principalmente, contra adversários políticos, não passaram de um mal arranjado conjunto de calúnias e difamações que, no tempo, acabaram não se confirmando. Mas não era a busca da verdade a intenção dos tais dossiês. O objetivo sempre foi a de arruinar a vida de quantos se atravessavam no caminho petista de ascensão ao poder. Uma vez despachados e divulgados na imprensa, a vida dos caluniados jamais seria a mesma. Quem não se recorda de Eduardo Jorge, a quem o próprio José Dirceu, mais tarde, quis se desculpar? Mas o partido sempre foi muito profícuo nesta arte de enlamear a reputação alheia. Se necessário, queima a reputação até de seus próprios companheiros, quando suas palavras e atitudes comprometem a ambição do partido. Muito deste material, que pôs no lixo a honorabilidade de muitas pessoas, sequer tinha um fundo de verdade. Eram calúnias construídas para estourarem na imprensa, e por mais que os acusados comprovassem sua inocência, o mal, em si, já estava feito.
Assim, Palocci espera que Kassab não tenha lembrança deste tempo e não faça o que o próprio PT fez e faz muito em tempos de campanha eleitoral. Na última, em 2010, quem não se lembra da quebra do sigilo de Serra & Cia, quando sequer familiares seus foram poupados? A quebra, sabe-se, foi totalmente ilegal, mas não se levantou absolutamente nada de desabonador e, no final das contas, e apesar do crime, não apareceram nem os culpados tampouco alguém foi punido.
Apesar disto, Palocci conta com a honestidade de Kassab para que este não revele ou deixe que seja revelado o montante de ISS que sua empresa de consultoria pagou, o que indicaria o total de receita recebida por “consultorias” prestadas..
Toda esta blindagem, e dada as declarações e atitudes, algumas até na base do tapa, na marra, o que se esconde deve ser algo que, se revelado, porá fogo na república. Quanto mais o governo Dilma tentar abafar o caso, quanto mais truculência a base governista usar no Congresso para impedir qualquer investigação, mais claro fica de que as suspeitas iniciais, se não tinham o dom de acusar nada contra o ministro Palocci, ele próprio, por omitir informações fundamentais capazes de inocentá-lo ou acusá-lo de vez, atraiu uma suspeita a pesar sobre seus ombros. Não faz muito tempo assim que o caso Francenildo culminou com sua saída do governo Lula. Tanto naquela época como agora, os desmentidos foram muitos e as tentativas de acobertamento partiram dos mesmos artífices de agora.
Segundo o próprio Palocci informou, as consultorias que prestou e que lhe renderam, apenas em 2010, em ano de eleição, cerca de 20 milhões de reais em honorários, estão todas declaradas. Assim, cedo ou tarde, estas informações virão a público, por mais que o governo tente escondê-las da opinião pública. E aí o que teremos? Se tudo estiver em ordem, se as consultorias estiverem todas devidamente enquadradas nos limites legais previstos para a condição de deputado cujo mandato Palocci cumpria, há de se perguntar: por que tanto mistério prá nada? Porém, e se ficar evidenciado que se trataram de consultorias com características flagrantes de tráfico de influência, como ficamos? Como ficarão as instituições com Ministério da Fazenda, Coaf, Polícia Federal e Procuradoria da República que, antes de qualquer investigação preliminar, se apressaram em declarar a inocência do ministro?
Quem nada deve, nada teme. Assim, entendo, que Palocci deveria vir a público e fornecer as respostas as questões relevantes que cercam este seu súbito enriquecimento. Vou mais longe: a lei não pode dar guarida a sigilos que ocultam o cometimento de crimes. Portanto, se dentro do Congresso, a oposição não conseguir abrir caminho para investigação, coisa impensável de vez que não conta com votos suficientes para tanto, deveria buscar os meios legais para obtê-lo. Neste caso, poderia pedir apoio de instituições como a OAB para que a Justiça determinasse a abertura de inquérito com o propósito de apurar o que de fato há de verdade, e se as consultorias prestadas pela empresa do ministro Palocci não feriram os limites legais para a sua condição de parlamentar da base governista.
É claro que se espera do governo Dilma uma contra-ataque violento e ofensivo. E, como é comum quando a lambança estoura no quintal do PT, é bem provável que tentarão puxar alguém da oposição para o centro da discussão. É o modus operandi petista de defesa: ao invés de apurar sua inocência, se defendem acusando o inimigo de alguma malvadeza semelhante.
Seja como for, Palocci está deixando esta corda espichar em demasia. Se nada deve, deveria abrir o jogo, mesmo que forma parcial, para se mostrar inocente. Ao tentar de todas as maneiras ocultar não a origem do dinheiro, mas o objeto do serviço que prestou, dá margem para que se levante contra ele qualquer coisa, menos inocência. Receber 10 milhões de reais entre a eleição de Dilma e a sua posse como ministro, convenhamos, é suspeito demais para ele achar que não deve explicações.
O raio nesta história é que Palocci tem um histórico que não o recomenda. Desde os idos de Ribeirão Preto, sua atuação não é recomendável para nenhum cristão. Até porque, vejam no post abaixo, o caso Francenildo, apesar da decisão do STF, teve testemunhas que o acusam diretamente. Portanto, quanto mais se tenta abafar o caso, mais sujo fica, mais certeza se tem de quem nem tudo foi tão limpo como se apregoa.



