segunda-feira, maio 23, 2011

O trágico e o cômico de um livro cheio de erros

Claudio Carneiro, Opinião & Notícia

Quando a sigla MEC é citada, o nome de Fernando Haddad vem a reboque. Foi ele que, ainda ministro do governo Lula, permitiu os vazamentos da prova do Enem.

Livro de português distribuído pelo MEC admite erros de concordância

Segundo dados do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), o Brasil pode ter um terço de sua população formada por analfabetos funcionais: gente que assina o nome ou copia frases inteiras – mas não sabe o significado do que acaba de transcrever. O episódio do livro de português recheado de erros gramaticais a ser distribuído para 485 mil estudantes é o que podemos chamar de “cômico se não fosse trágico”. Mostra o descaso com a educação e que o MEC não pretende mover uma palha sobre a questão, sinalizando que pode haver motivação política no Programa Nacional do Livro Didático para distribuir tal baboseira.

Tem-se a impressão de coisa encomendada de cima para baixo. A empáfia, misto de certeza, da professora Heloísa Ramos – autora deste libelo contra o português erudito intitulado “Por uma vida melhor” (para ela, que recebeu R$ 700 mil) – leva à desconfiança de que tenha, digamos assim, forte retaguarda para oferecer a seus leitores e alunos frases como “os menino pega o peixe”. Até o Word sublinha e realça tanta falta de erudição. Preconceito linguístico da ferramenta?

Quando a sigla MEC é citada, o nome de Fernando Haddad vem a reboque. Foi ele que, ainda ministro do Governo Lula, permitiu os vazamentos da prova do Enem – desmoralizando o mecanismo de avaliação e deixando indignados milhões de pais e estudantes. Mas Haddad foi petista de primeira hora na campanha de Dilma. Por isso, e somente por isso, manteve o cargo no novo governo. Não se pode esperar muito deste “companheiro” – que tem no currículo o recente escândalo da merenda estragada e desviada de escolas públicas — em termos de benfeitorias à educação. Mesmo que aspire à prefeitura de São Paulo.

Desagravo inoportuno
O fato de não ter esquentado os bancos de escola — mas ter chegado ao trono do planalto – não deveria conferir ao ex-presidente o direito de se vangloriar desse feito, nem mesmo a vontade de perpetuar a baixa escolaridade entre as características de um povo que não desiste nunca. Se este livro for um tributo ou um desagravo, terá sido o maior dos erros.

O humor brasileiro ocupa-se de amenizar essa triste realidade. Com sua inteligência habitual, Marcelo Tass reuniu no livro “Nunca antes na história desse país” as lapidares e polêmicas frases de um presidente pouco letrado, mas nem por isso menos capaz. Se analisarmos um dos exemplos colhidos por Tass – “Minha mãe era uma mulher que nasceu analfabeta” – concluiremos que Lula talvez esteja mesmo incluído na legião de analfabetos funcionais. Afinal, toda mãe é uma mulher. É uma premissa. Além disso, toda mulher – o mesmo ocorre com os homens – nasce mesmo analfabeta. Não há nada de diferente entre Dona Lindu e as mães de todos os brasileiros e brasileiras – sem exceção. A frase é uma profusão de imprecisões e pleonasmos.

Mais debochado, o jornalismo José Simão se ocupou de criar o “Lulês”, o idioma falado pelo ex-presidente. Entre os verbetes, estão a irresistível “Alopatia” (dar um telefonema para a tia) e “Razão” (lago muito extenso porém pouco profundo). Quanto ao verbete “Barbicha” parece desnecessária sua tradução. Resta torcer para o MEC não dicionarizar a irreverência de Simão ou a pesquisa minuciosa de Tass. Mas o fato é que se educação não é brincadeira, introduzir ideologia em livro didático é, definitivamente, um escândalo.