Claudio Schiamis, Opinião & Notícia
Não tem locução de modo, lugar, tempo ou intensidade que faça alguém se dar conta do advérbio que está cometendo contra o nosso português.
Vixe, será que agora nóis vai se entender melhó? Se depender do ministro da Educação, Fernando Haddad, sim, nóis vai! A regra é clara, mas não é culta. Pra que regra? Afinal, estamos no Brasil e aqui regras são feitas para serem quebradas. E porque não quebrar as regras da educação? Já que ela está mesmo capenga, vamos fazer o serviço completo. Como sempre temos dois pesos e duas medidas, e enquanto no exame do Enem é exigido o domínio da norma culta da língua portuguesa, não se admitindo a norma popular, o livro “Por uma vida melhor” é distribuído pelo Programa Nacional do Livro Didático a 485 mil estudantes jovens e adultos pelo próprio MEC que lava as mãos na questão do livro com erros.
Uma coisa é o sujeito falar errado e apesar disso ser compreendido sem substantivos e delongas. Outra coisa é a escola começar a ensinar errado e ser objeto direto e não indireto do assassinato da nossa língua-mãe ou de seu meio assassinato, não querendo usar nenhuma metáfora para mascarar o erro e também nenhuma hipérbole para aumentá-lo. Não tem jeito, por mais predicativo que seja essa medida, o ministro Haddad não quer nem de perto assumir nada, prefere ser o sujeito oculto, e não tem preposição que consiga fazer com que ele mude de ideia. Aliás, não tem locução de modo, lugar, tempo ou intensidade que faça alguém se dar conta do advérbio que está cometendo. A sentença, independentemente de o artigo ser masculino ou feminino, foi dada, e a gramática sai ferida, sem saber se o núcleo do sujeito ou o do predicado foi atingido. Mas a grande verdade é que com essa novela o governo perde mais uma vez a chance de não errar e de educar de verdade, mostrando competência em um país carente e debilitado no aprendizado.
E falando em aprender, até quando vamos continuar sem aprender a escolher melhor nossos representantes? Não é possível que com os exemplos que temos diariamente nada mude na cabeça das pessoas. E a questão nem fica só no que vemos. Muitos sentem na pele o resultado dessa escolha, mas na hora de votar parece que tomaram uma dose de Desmemoriol. E o engraçado é que esse medicamento não falta, mas se formos perguntar aos gaúchos talvez eles sintam falta de alguns medicamentos, já que uma dúzia de secretários municipais, titulares das pastas de Saúde, Fazenda e Finanças de várias prefeituras do Rio Grande do Sul foram presos por desvio de verba pública destinada à compra de remédios para a população mais carente. Mas quem é que vai sentir falta de um carente a mais ou a menos, né? Pois deveriam.
Assim como deveria ser também obrigatório que deputados trabalhem mais um pouco. Mas só um pouquinho. Hoje apesar do acúmulo de matérias, o expediente é dado somente às terças e quartas. Pra que mais não é mesmo? Quinta-feira é dia de temas consensuais, e acontecem sessões extraordinárias deliberativas onde deputados marcam presença e picam a mula.
E agora só se for de mula mesmo. Depois de causar tanta polêmica a novela dos carros de luxo que foram comprados pela Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro está se encaminhando para o seu final feliz. Feliz em termos, pois tinha vereador que até o final queria porque queria o carro. O problema é que mesmo sabendo que vereadores não iriam aceitar o carro, a compra foi feita, o pagamento foi feito e agora vamos ter que ficar de olho para ver se o dinheiro irá voltar, como irá voltar e quando. Uma solução simples a meu ver seria trocar a frota de 51 veículos por ambulâncias, carros para a polícia, para o combate da dengue. Ideias não faltariam. Basta querer e pensar um pouco. Em nós.
E existe uma remota possibilidade de o presidente do Senado, José Sarney, ter pensado no que nós pensaríamos se ele realmente pagasse a despesa de um jantar oferecido ao ex-presidente do Superior Tribunal de Justiça, Cesar Asfor Rocha, com recursos públicos. Então numa atitude de desespero depois que o site Contas Abertas divulgou a despesa de R$ 23,9 mil, ele, Sarney, um homem incomum segundo Lula, bateu no peito e disse: “Deixa que eu pago”. Eu tô pagando pra ver.
E quem pagou caro foi Palocci, que é Antonio, ministro e chefe da Casa Civil, que desembolsou R$ 6,6 milhões na compra de um apê nos Jardins em São Paulo e outros R$ 882 mil em um escritório também em São Paulo. Palocci diz que adquiriu esses imóveis antes de assumir. O cargo. (Ato falho, será?) Queria, juro que queria saber a fórmula de como uma pessoa pública consegue multiplicar seu patrimônio por 20 em quatro anos.
Será que é a mesma matemática – e me dou o direito de voltar ao tema do livro com erro – que o erro proposital dos 485 mil livros usa? Esses livros renderam à autora R$ 700 mil e R$ 5 milhões à editora. Um verdadeiro negócio da China. Literalmente. Se é que você me entende.
Ou nóis vai ter que comprá uns livro pra mode você aprender?
Salvem as baleias. Não joguem lixo no chão. Não fumem em ambiente fechado. E salvem, mais uma vez, nossa educação.