domingo, setembro 21, 2008

O mal-estar dos "progressistas"

Reinaldo Azevedo, Revista VEJA

"É preciso que não se faça do laicismo e do "progressismo" umanova religião. Nas democracias, não existe "o" Salvador: nemo que vem em nome de Deus nem o que vem em nome das Luzes"

A exemplo de todo mundo e do mundo todo, considero Barack Obama o favorito nas eleições presidenciais americanas – desconfio que até o republicano John McCain pense o mesmo. Com o tsunami que colheu a economia, a todos parece impensável, e a mim também, que o democrata perca a disputa. Até o dia em que escrevo este artigo, as pesquisas indicam, no entanto, um empate técnico entre ambos. Na contagem dos delegados, dada a tendência dos estados, McCain leva ligeira vantagem. O chamado "pensamento progressista" tem reagido de modo um tanto estranho aos fatos – especialmente depois da indicação de Sarah Palin para vice na chapa republicana.

O mal-estar dos "progressistas" com o persistente McCain chega a relativizar o valor da própria democracia – que só provará a sua força se Obama vencer. As virtudes e fraquezas dos postulantes deixam de ser debatidas na terra. O confronto é transferido para uma esfera abstrata, que o poeta Bruno Tolentino (1940-2007) chamava de "o mundo como idéia" – título de um formidável livro seu. Nesse lugar-nenhum, dá-se, então, o choque entre o velho e o novo, a mudança e a reação, os modernos e os reacionários. Como um dos lados da disputa advoga uma natural e intrínseca superioridade moral, resta evidente que uma eventual vitória de McCain poria em dúvida as virtudes do próprio sistema.

Há dias, um articulista do jornal inglês The Guardian escreveu que, por enquanto, considera injusto o antiamericanismo presente em boa parte do mundo. Mas, alertou, se Obama não for eleito, ele começará a achar que o ódio faz sentido. E aqui lhes deixo uma dica do que eu chamaria "modo de ler": percebam como o candidato democrata, com alguma freqüência, é apresentado como a chance que os americanos têm de se redimir perante a história, de se desculpar por todos os seus malfeitos, de fazer um ato de contrição. Bem, eu não creio que eles devam desculpas a ninguém.

Esse "mundo como idéia" pode, eventualmente, recorrer à trapaça e mesmo à mentira em nome do futuro. No dia 11 de setembro, Sarah concedeu uma entrevista a Charlie Gibson, da ABC News (disponível no site abcnews.go.com), e foi indagada sobre o que poderia acontecer se a Geórgia, uma vez integrante da Otan – aliança militar integrada por países ocidentais, liderados pelos EUA –, sofresse um ataque da Rússia. Gibson fez uma pergunta indutiva: "A gente não teria de partir para a guerra?". E Sarah respondeu o óbvio: um tratado supõe a proteção mútua dos países que o integram. Noto: ela já havia dispensado generosas palavras de paz à Rússia, que chamou de "vizinho de porta" – afinal, ela governa o Alasca. Inútil. Foi tratada como uma cretina beligerante, para quem uma guerra com os russos é uma trivialidade – além de ser favorável à exploração do petróleo e contra o aborto...

Jamais se deve duvidar da fé de Obama, a menos que o sujeito seja um porco reacionário e fundamentalista. Mas a de Sarah pode ser objeto de chicanas e chacotas as mais diversas. A sua firme posição contrária ao aborto – e convenham que boa parte da América está com ela – é apresentada como uma das mais claras evidências de seu atraso mental, suposta manifestação de um país que nega as conquistas do mundo contemporâneo. Na entrevista a que me referi, foi indagada: "Acredita que os EUA estão numa guerra santa?". A resposta foi boa. Ela citou o presidente Lincoln (1809-1865), um republicano: "Não devemos rezar para Deus estar ao nosso lado numa guerra ou em outra hora qualquer; devemos é rezar para estar ao lado de Deus". Mais: "Eu acredito que a luta contra o terrorismo islâmico é o lado certo (...). Eu odeio a guerra, e, hoje, Charlie, é o dia em que envio meu filho mais velho (...), com outros 4 000 mulheres e homens americanos admiráveis, para lutar pelo nosso país, pela democracia e por nossas liberdades". Sarah não é boba. E isso pode ser muito irritante.

Ed Andrieski/AP
Obama, o "berlinense"Embora tudo esteja a seu favor, por que o democrata não dispara nas pesquisas?

Obama é o favorito. Todos os analistas estão certos. Raramente as condições objetivas, para lembrar um fraseado antigo da teoria política, concorreram tanto a favor de um nome. Bush é o presidente mais impopular da história; os americanos rejeitam a guerra do Iraque; e já se sabe que a crise econômica está longe do fim – culpar a Casa Branca por ela requer certa torção da realidade, mas não importa. Governos arcam com o peso das crises e são beneficiados por ciclos virtuo-sos. Embora tudo esteja a seu favor, por que Obama não dispara nas intenções de voto? Vim respondendo a essa questão ao longo do texto.


No dia 7 de janeiro deste ano, escrevi no meu blog um pequeno artigo em que indagava: "Que diabo se passa com o Partido Democrata americano, que tem como favoritos uma mulher e um negro com sobrenome islâmico e nenhum homem branco para enfrentá-los?". Em tempos em que as pessoas preferem parecer justas a ser inteligentes, fui alvo de uma saraivada: "Machista!". "Racista!". "Machista e racista!".

Eu apenas tomava o par "homem branco" como "um apelo simbólico à tradição, à conservação de um modelo que, inegavelmente, deu certo e fez a maior, mais importante e mais rica democracia do mundo; que venceu, por exemplo, o embate civilizatório com o comunismo". É evidente que esse sistema só demonstra mais virtudes à medida que se deixa renovar. Mas essa evidência não respondia à minha curiosidade: "Quem encarna, no Partido Democrata, o elogio da tradição, da conservação?". A que chegava mais perto era Hillary Clinton. E foi fuzilada justamente por isso.

Republicanos persistentes
Sarah Palin não é boba, apesar de quererem pintá-la como tal,
e McCain leva ligeira vantagem no número de delegados

A famosa frase "É a economia, idiota", com que um assessor de Bill Clinton definiu a estratégia para vencer George Bush, o pai, brutalizou um tanto a percepção política. Ela é verdadeira apenas quando não falha... Além das condições objetivas de um país, há as subjetivas, plasmadas em valores, em memórias histórica e afetiva, nas crenças, nas religiões. Elas dizem respeito ao "homem moral", não ao "homem econômico". A militância e o pensamento engajado quase nunca representam a média das opiniões – o corriqueiro é que haja um divórcio entre essas duas instâncias. A média das opiniões, aliás, pode ser visualizada no excelente site Real Clear Politics (http://www.realclearpolitics.com/), que mantém atualizado um mapa com a situação eleitoral nos estados americanos: neles se elegem os delegados que escolherão o presidente.

Por enquanto, Obama lidera nos extremos "progressistas" do país, literalmente nas margens dos Estados Unidos. McCain está com o "meião". Se fosse para fazer literatura, diria que o democrata tem a parcela que olha para fora, e McCain, a que olha para dentro; Obama fica com a que quer ser influente em Berlim; McCain, com aquela cujas mães levam os filhos para o jogo de hóquei. Obama pode estar de frente para o mundo, onde transitam os personagens retratados pelo artista pop Andy Warhol (1928-1987), mas também de costas para as vastas dimensões que aparecem nos quadros de Edward Hopper (1882-1967). McCain tem resistido ao furacão Obama, a despeito de tantas crises, porque, nessa parte do país que alguns pretendem caracterizar como reacionária e racista, estão algumas das melhores virtudes da América. E isso inclui, ainda que pareça espantoso, a sua fé, de que Sarah passou a ser um símbolo – que resiste, por enquanto, até à quebradeira na economia.

O governo dos EUA, a exemplo de todos os países democráticos, é laico, não se deixa orientar oficialmente pela religião. E isso é bom. Mas é preciso que não se faça do laicismo e do "progressismo" uma nova religião, também ela com vocação missionária, eventualmente messiânica. Nas democracias, não existe "o" Salvador: nem o que vem em nome de Deus nem o que vem em nome das Luzes.

O ministro trapalhão que só faz espuma

Ruth De Aquino, Revista Época

Nelson Jobim precisa de férias para olhar a biruta dos aeródromos e perceber para onde o vento sopra

Ele tem 1,90 metro, é gaúcho e suas trapalhadas começam a embaraçar o presidente Lula. Convocado em julho de 2007 para resolver o caos aéreo, sua primeira exigência – não cumprida – foi em causa própria: aumentar o espaço entre os assentos dos aviões, porque suas pernas não cabiam. Entrou pisando forte e falando grosso. Na semana passada, enrolou-se todo nos grampos das maletas da Abin. Bateu de frente com um general, não provou suas acusações. E, para coroar, agora quer mudar a lei e obrigar jornalistas a revelar fontes.

O ministro da Defesa, Nelson Jobim, de 62 anos, precisa de umas férias em sua cidade natal, Santa Maria, para dar uma boa olhada na biruta dos aeródromos e perceber para onde os ventos estão soprando. Ele contribuiu para afastar Paulo Lacerda da cúpula da Agência Brasileira de Inteligência, ao garantir que os equipamentos da Abin podiam, sim, ser usados para fazer grampos. O general Jorge Félix, ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, irritado, desmentiu Jobim e afirmou que as maletas eram destinadas a “varreduras”. Isso quer dizer que os equipamentos da Abin só checariam a existência de escutas telefônicas. Félix disse que entregou os laudos do Exército a Jobim. E Jobim, sem laudo e sem provas, tirou o corpanzil fora. Mostrou somente fichas técnicas no site da empresa que fabrica as maletas de grampo. Foi primário.

Para compensar a gafe e angariar apoios, apontou a metralhadora giratória para o inimigo comum e conveniente nessa hora: a imprensa. Na CPI dos Grampos, pediu aos deputados que considerem se “a liberdade é a mesma coisa que a irresponsabilidade”. O ministro quer evitar vazamento de dados. Para dar mais peso ao discurso, usou mais um daqueles verbos que dizem tudo e nada. Jobim deseja “relativizar” o sigilo da fonte jornalística. Quem criou o conceito de “democracia relativa” foi o general Ernesto Geisel, que governou o país de 1974 a 1979. E foi rebatido genialmente por Ulysses Guimarães: “Se não existe o substantivo, que importa o adjetivo!”. Agora, virou verbo.

Não sei não, mas a impressão foi que, sem ter como voltar atrás nem ir adiante em suas acusações à Abin, Jobim resolveu desviar o foco e dar munição aos jornais. Pedir o fim do sigilo da fonte garantiria umas manchetes indignadas e passageiras. Seu desempenho decepcionante na CPI ficaria relegado a segundo plano.

Jobim gosta de cavar manchetes. Quando foi nomeado, prometeu cumprir os três maiores princípios da aviação comercial: “Segurança, regularidade e pontualidade”. Até aí, tudo bem, uma profissão de fé. Mas as histórias de atrasos de vôos e descaso com passageiros persistem. O que foi feito exatamente, em um ano da atual gestão, para melhorar a precisão nas torres de controle aéreo e evitar colisões ou quase-acidentes por erro do controlador? Ninguém sabe.

Uma de suas primeiras espumas foi o tal “espaço vital” entre as poltronas dos aviões. Ninguém acha que os aviões brasileiros são exemplo de conforto. Mas era agosto de 2007, logo após uma tragédia aérea em Congonhas que traumatizara o país. Não fazia sentido o ministro da Defesa exigir uma “definição imediata” das companhias sobre o espaço entre assentos. Lula, com menos de 1,70 metro de altura, deve ter dado uma cutucada em Jobim, porque ele nunca mais tocou no assunto.

Jobim de vez em quando tem rompantes. Recentemente, como se não houvesse problemas suficientes em sua pasta, engajou-se numa campanha. Tornar ainda mais obrigatório o serviço militar obrigatório. Jobim quer nas fileiras do Exército jovens de classe média, de classe alta, mesmo que se alistem depois de formados na universidade. “Hoje, o número de rapazes que entram (no Exército) para ter o que comer e onde dormir é cada vez maior”, disse. Ele acha que a presença de jovens ricos nos quartéis, num país desigual como o Brasil, seria um “nivelador republicano”. Além de relativizar, o ministro quer nivelar.

Lula, que tal perguntar ao Jobim por que ele não se cala?

Os autoritários

Fabio Giambiagi (*), Folha de São Paulo

Um dia o país precisará enfrentar os que, escudados nos "movimentos sociais", obstaculizam maior avanço rumo à modernidade

Se algum dia as reformas que vêm sendo há anos postergadas entrarem finalmente na agenda das (futuras) autoridades, será preciso que o país se prepare para enfrentar aqueles que obstaculizam um maior avanço do país rumo à modernidade, escudados nos chamados "movimentos sociais".

Sob o véu da suposta defesa dos interesses da maioria da população, o denominador comum de muitos desses grupos é o autoritarismo. Com base em uma retórica agressiva, estão na vanguarda de todos os movimentos de resistência à agenda que pretende integrar o Brasil às tendências mais modernas do mundo.

São os mesmos que lideraram o movimento em favor da reestatização da Vale, dez anos depois de ela ter sido privatizada. Que grupos são esses?

Eles representam a confluência de três vetores. O primeiro é o dos intelectuais intolerantes; o segundo, o de certos grupos políticos; e o terceiro, o de grupos sindicais dedicados à administração de recursos milionários.

O primeiro grupo é representado por aqueles que enchem a boca para falar mal do famoso "neoliberalismo".

Vivem fazendo discursos contra o Consenso de Washington, mas 99% deles jamais se deram ao trabalho de ler o trabalho de J. Williamson que deu origem ao termo.

A expressão máxima dessa atitude, pela qual alguns intelectuais fazem a cabeça de parte do espectro dos políticos, foi manifestada por uma das mais conhecidas lideranças políticas brasileiras, que há alguns anos se manifestou nos seguintes termos: "Em nosso partido, estamos abertos a todos. Só não cabem nazistas, racistas, delinqüentes políticos e neoliberais" ("Jornal do Brasil", 8/2/ 04). Nesse meio, ignora-se o conceito do que sejam "adversários": só há inimigos.

O segundo grupo é a constelação de partidos ditos de esquerda, originalmente romântica, mas que em linhas gerais são desprendimentos de uma mesma costela stalinista, em que delírios incompatíveis com a realidade dos dias de hoje se confundem com o apego a diversas formas de coerção.

Nas suas versões mais inofensivas, fazem barulho em passeatas. Nas formas mais radicais, seus congêneres de outros países compõem a tropa de choque do esquerdismo fascistóide latino-americano. Na Venezuela, fecham canais de televisão. Na Argentina, travestidos de "piqueteros", arregimentam capangas para -literal e fisicamente- bater na classe média quando ela vai para a rua protestar contra as políticas oficiais.

O terceiro grupo é o dos sindicalistas encastelados no aparelho de Estado e nas suas diversas ramificações, acostumados a viver das benesses do repasse de recursos públicos, em atitude que faria se virarem nos túmulos os líderes sindicais, ingênuos e modestos, que forjaram historicamente as raízes do sindicalismo autêntico, há várias décadas.

Em 2007, tive a oportunidade de ser testemunha de um exemplo do comportamento desse grupo, quando participei como expositor do Fórum da Previdência. Ao meu lado, ar de quem era dono da situação, pouco ligando para a liturgia do evento, estava o representante de uma das centrais sindicais. Defendi, na ocasião, o que tenho dito há anos: idade mínima para aposentadoria de 60 anos para os homens e 55 para as mulheres, aumento do período contributivo para 25 anos até 2031, redução da diferença entre homens e mulheres para efeito de aposentadoria ao longo de uma transição de 15 anos etc. Nada do que foi proposto pode, honestamente, ser chamado de "draconiano".Ao concluir, quem primeiro pediu a palavra foi a pessoa citada, que começou seu discurso com as seguintes palavras: "Estou impressionado com a crueldade do professor Giambiagi".

Ao concluir, se retirou: ao chegar o momento da tréplica, eu dialogava com uma cadeira vazia.

Ao voltar para suas "bases", a pessoa deve ter dito que "defendeu os interesses do povo contra a tentativa de avanço do neoliberalismo". Quanto ao problema demográfico representado pelo envelhecimento da população nas próximas décadas, dele só se ouviu o silêncio.

Não se trata de um debate entre grupos que, partindo de posições diferentes, negociam para depois chegar a um meio termo razoável. Não nos enganemos: há uma profunda raiz autoritária na atitude de todos esses grupos. Cedo ou tarde, para conquistar corações e mentes em favor das reformas, será preciso enfrentar a resistência desses grupos.

É evidente que poderá ser tentador, com o pré-sal, conservar a política do "deixa estar" e não fazer reforma alguma. Nesse caso, porém, o Brasil daqui a 30 anos será melhor que o de hoje, mas ficará aquém do país que poderíamos ser.

(*) FABIO GIAMBIAGI , 46, mestre em economia pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), é economista do BNDES e autor do livro "Finanças Públicas: Teoria e Prática no Brasil", entre outras obras.

Conte o caso inteiro, ministro

Augusto Nunes, Jornal do Brasil

Em outubro de 2003, o país foi confrontado com a anatomia de uma delinqüência que, praticada 15 anos antes pelo deputado constituinte Nelson Jobim, assumiu dimensões bem mais perturbadoras ao ser revelada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal Nelson Jobim. Com a naturalidade de quem está explicando por que prefere chimarrão a café, o parlamentar gaúcho encarregado de redigir o texto definitivo da Constituição de 1988 confessou ter infiltrado dois artigos que não foram sequer examinados pelo plenário. Se o país tivesse juízo, a reação indignada generalizada obrigaria Jobim a devolver a toga, identificar os textos contrabandeados, pedir perdão ao povo em geral e a seus eleitores em particular, voltar aos pampas e ali esperar a intimação judicial. Mas o Brasil não faz sentido. Como pôde ter sido ministro da Justiça quem faz uma coisa dessas?, berrariam milhões de suecos. Como pode alguém assim ser vice-presidente do tribunal que decide o que é ou não constitucional?, urrariam incontáveis finlandeses. Os balidos franzinos do rebanho confirmaram que o Brasil é o único país com hímen complacente. Três dias depois de se tornar réu confesso, Jobim voltou espontaneamente ao tema, para explicar que não agira sozinho. As infiltrações ilegais, esclareceu, haviam sido encomendadas pelo deputado Ulysses Guimarães, o presidente da Assembléia Nacional Constituinte morto no começo dos anos 90. Ulysses não pôde comentar a versão que o reduziu a mandante do crime de falsificação de documento público. Sem testemunhas por perto, Jobim seguiu adiante. Instalado pouco depois na presidência do STF, cuidou com muito zelo do escândalo do mensalão, virou amigo de Lula e, logo, ministro da Defesa. Se jamais coubera em si mesmo, Jobim não caberia num cargo só. Em um ano, acumulou sucessivamente as funções de general da selva na Amazônia, almirante e timoneiro de submarino nuclear na França e na Rússia, brigadeiro vitorioso no combate ao apagão e pacificador do Exército. É muita coisa.

Nem tanto, decidiu o espaçoso gaúcho: na quarta-feira passada, assumiu sem pedir licença a ninguém o posto de controlador-geral da imprensa brasileira. Faz tempo que o ministro ultrapolivalente anda aborrecido com a divulgação de informações que, ao pousarem nos jornais, colocam em risco a segurança nacional e a boa imagem do governo. Mas só agora descobriu que esses vazamentos antipatrióticos são produzidos pela ação conjunta de jornalistas, promotores públicos, juízes de Direito, sherloques da Polícia Federal e arapongas da Abin. A solução é acabar com o sigilo da fonte, prescreveu Jobim. A notícia não ajuda a nação? Cobre-se de quem pecou a origem do pecado. Por enquanto, não parecem em perigo nem o segredo do confessionário nem o sigilo profissional ­ invocado pelo criminalista Jobim para esconder o que ouviu dos clientes bandidos. Ao menos na primeira etapa, só o sigilo da fonte está na mira do homem que guardava segredos por 15 anos. Jobim pareceria mais convincente se, antes de qualquer outro, quebrasse o próprio sigilo. E contasse quais são os artigos que estupraram a Constituição.

Verão no Rio tem dengue também
Além das mais belas praias urbanas do mundo, do sol, do céu, da paisagem e, de quebra, do carnaval, o verão do Rio agora oferece aos turistas do mundo inteiro outra atração brasileiríssima: epidemia de dengue. Sempre na mesma estação, meia dúzia de chuvas basta para garantir o pouso de amazônicas esquadrilhas de mosquitos, de volta para mais um triunfo. Depois de derrotar dois ministros da Saúde, a dengue prepara-se para a segunda batalha vitoriosa contra o atual. Temporão é o ministro. Os inimigos chegam sempre no prazo marcado. E ficam.

Homem errado no lugar errado
O chanceler Celso Amorim tem feito o que pode para adeqüar o Itamaraty à Era da Mediocridade. Para se tornar diplomata, hoje, nem é preciso falar inglês. Mas decerto ainda existem embaixadores com mais cacife para negociações delicadas que Marco Aurélio Garcia, assessor de Lula para barulhos cucarachas. Enrascadas de alta voltagem requerem mediadores imparciais, sensatos e flexíveis. O homem do top-top-top, parcial, doidão e duro de cintura, foi escalado pelo governo brasileiro para ajudar a Bolívia a escapar do incêndio. Deu no que deu.

A misteriosa história do grampo a favor
Foi o primeiro grampo da história que deixou os grampeados bem na foto, intrigou-se quem leu a transcrição do edificante diálogo por telefone entre o ministro Gilmar Mendes e o senador Demóstenes Torres. Sem concessões à linguagem vulgar nem arranhões em regras protocolares, os pais da pátria examinam com gravidade o problema da pedofilia. Um candidato teria reproduzido a conversa no horário eleitoral gratuito. O presidente do STF passou ao largo do conteúdo para fixar-se na audácia da arapongagem. E não trata de outro assunto. Passadas quase três semanas, o grampeado inconsolável só pensa naquilo. "O compartilhamento de informações entre a Abin e a Polícia Federal é um fato gravíssimo", seguiu em combate o ministro na quinta-feira. Em poucos dias, ele conseguiu tirar Daniel Dantas da cena do crime, afastar do caso o delegado da PF encarregado do caso, constranger o juiz, exonerar o chefe da Abin e aprovar o artigo 2º da Lei de Dantas, que virtualmente aposenta a escuta telefônica como arma investigatória. Mendes acha pouco: quer saber quem consumou o crime hediondo. Por que o ministro não exige também a localização do áudio? Se ficou tão colérico com a leitura da conversa, por que não faz questão de ouvi-la?

Podem apostar
No país dos petralhas confirma: não há no Brasil outro polemista tão talentoso, inventivo, culto, corajoso, bom de raciocínio e bom de mira quanto Reinaldo Azevedo. Quem não tiver lido até o fim do mês essa coletânea de textos exemplares não merece passar de ano. Nem sonhar com a salvação.

Podem conferir
O fascínio pelo nunca ex- perimentado, pela trilha por desmatar, pelo salto sem rede e sem medos ­ um traço fundamental da alma carioca ­ parece ter sobrevivido a balas perdidas. A candidatura de Fernando Gabeira está ficando com cara de movimento.

Demarcações e identidade nacional

Estadão

"O voto do ministro Carlos Britto sinaliza que todo o nosso processo civilizatório não passou de um grande equivoco." Esta frase, do deputado Aldo Rebelo, ex-presidente da Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional da Câmara dos Deputados, em artigo publicado terça-feira no Estado, concita a uma reflexão sobre a responsabilidade do Supremo Tribunal Federal (STF) na definição do sentido de nossa própria formação histórica. Referia-se ele ao julgamento, que corre no Supremo, de ações que contestam a homologação da área contínua de 1,7 milhão de hectares em favor de algumas tribos indígenas, na Reserva Raposa Serra do Sol, em Roraima. O voto do ministro Britto, favorável à homologação - e à chamada extrusão (expulsão) dos não-índios da reserva -, foi o único proferido até agora, já que o ministro Carlos Alberto Direito interrompeu o julgamento com pedido de vista.

Será que, realmente, "o caldeirão étnico em que foi formado o povo brasileiro" não passou de um monumental equívoco antropológico? Afinal, a atual política de demarcação é a negação do que há séculos se faz no País para possibilitar à população indígena condições de mobilidade social e integração étnica. A questão é situada com acuidade pelo articulista ao descrever as expectativas conflitantes de duas índias da Raposa Serra do Sol. Uma, a advogada uapixana Joênia, casada com um "mestiço" e residente na cidade de Boa Vista, primeira indígena a advogar no STF - "num testemunho eloqüente de mobilidade social e integração à sociedade nacional" -, defendeu com ardor a expulsão dos não-índios; outra, a índia macuxi Elielva, acompanhava o julgamento ao lado de outras mulheres igualmente temerosas de terem a "família desfeita", caso os agricultores e trabalhadores da região tivessem que abandonar as terras das quais tiram sustento há muitos anos. Como fazem as índias desde que Bartira se casou com João Ramalho, no século 16, Elielva desposara um camponês egresso do Tocantins e temia que este fosse removido da Raposa Serra do Sol, como muitos outros já foram.

Esse argumento desfaz a impressão, que muitos possam ter, de que o conflito em Roraima é apenas uma disputa de terras entre índios e não-índios. Os indígenas, miscigenados ou aculturados, estão em ambos os lados. E, se é inadmissível que as tribos indígenas não tenham suas reservas, nas quais possam manter sua cultura e sistema de vida, também agride o bom senso dizer que as cinco tribos da Raposa Serra do Sol precisam ocupar uma faixa contínua de 1,7 milhão de hectares. A demarcação daquelas terras, como foi feita, exclui (por extrusão), além dos produtores rurais "vindos de fora", índios que de alguma forma se integraram ao ecúmeno nacional.

Não é, portanto, apenas o fato de a reserva de Roraima estabelecer-se em faixa contínua na fronteira que suscita a discussão sobre a segurança de nossa soberania - na medida em que indígenas ocupando terras contíguas às "suas", mas localizadas em base territorial de outro país, podem assumir identidade nacional diversa da brasileira. A própria extrusão de brasileiros "não-índios" da região desqualifica noções sobre a identidade nacional.

Não bastasse a situação de grave conflito, tendendo a tornar-se explosiva, criada em Roraima, agora a Funai estabelece como prioridade "demarcatória" Mato Grosso do Sul, onde desenvolve estudos sobre cerca de 10 milhões de hectares de áreas férteis, em 26 municípios, por sinal as mais produtivas do Estado e onde se encontram 30% dos seus estabelecimentos agropecuários. A região, que detém 61% da produção de soja do Estado - o maior produtor de soja do País - numa área cultivada de 1,7 milhão de hectares, aposta agora no cultivo da cana-de-açúcar para a produção de etanol.

É claro que o que acontece em Roraima só pode deixar os agricultores de Mato Grosso do Sul muito preocupados. Como essa região concentra aldeias de índios guaranis-caiovás e como a Funai tem até junho de 2009 para apresentar os relatórios de identificação e delimitação das novas "terras indígenas", aqueles produtores rurais só podem ficar em estado de pânico, quando vêem o que está acontecendo em Roraima. Esperemos que a decisão do Supremo ilumine da melhor forma a questão que, acima das demarcações, implica afirmar direitos da identidade nacional - em Roraima, em Mato Grosso do Sul e onde mais seja no território brasileiro.

A lucidez política e a coragem do pessoal da VARIG

Pedro Porfírio

"Mas para fazer diferença este nosso apoio tem de ser ativo, não basta só o seu voto - temos de buscar o voto de nossos familiares e nossos amigos para esses aliados. Por isso, convidamos você a cair na Internet e no telefone". (Do documento das associações de profissionais da Varig).

Num dos mais belos textos já escritos para expor as razões de um apoio político, as lideranças das associações dos funcionários da Varig, cidadelas heróicas de uma resistência inesgotável, traduzem o sentimento de uma corporação que teve a oportunidade de conhecer quem é quem na vida parlamentar do nosso país.

Independente de ser um dos destinatários dessa reflexão corajosa, considero essa atitude uma resposta exemplar dos que têm responsabilidade de liderar e formar a opinião pública, objeto da propaganda maciça direcionada e de todo tipo de pressão espúria, em conseqüência de que temos a cada legislatura casas legislativas do mais baixo nível, dominadas por corruptos inescrupulosos, que lá chegam com a "legitimidade" do voto popular.

Posicionar-se perante seus pares é mais do que um direito, é uma obrigação. Quem está à frente de uma categoria tem acesso privilegiado a informações e lida rotineiramente com os titulares da confiança popular. Os líderes são, portando, testemunhas oculares dos fatos mais íntimos das relações entre governantes e cidadãos.

Nesse caso, as lideranças oferecem não mais do que uma palavra de confiança. Não há comparação com o uso da máquina sindical, prática de certos sindicalistas, em que são disponibilizados para os candidatos desde os seus empregados, até caríssimos caminhões de som, sem falar na contratação de panfletadores com recursos da entidade grosseiramente camuflados.

No caso da Varig, a sucessão de despropósitos que levou a um verdadeiro crime contra a soberania brasileira serviu também para revelar o caráter pervertido da maioria dos políticos brasileiros.

No auge da magna companhia aérea, os políticos faziam filas para festejá-la e usufruir das benesses oferecidas por suas diretorias sempre fartas na adulação dos poderes.

Quando a crise que levou à débâcle foi se desenhando, esses mesmos políticos foram beber em outras fontes, num espetáculo deprimente de indecoroso oportunismo.Logo às manifestações dos primeiros sintomas da crise, quando parecia que ela podia ser enfrentada com placebos de ocasião, o Congresso chegou a formar uma frente de mais de 300 parlamentares em defesa da Varig.

Constatada a gravidade da crise, que exigia atenção honesta dos poderes públicos, esses "defensores" foram se afastando, até porque, como sói acontecer, no móvel da atitude leviana do governo Lula infiltram-se interesses sujos, com a chancela do compadre do presidente, o todo poderoso Roberto Teixeira, e de figuras notórias como o então "premier" José Dirceu, apeado do poder sem largar seu portfólio de negócios variados.

O que se perpetrou contra a octogenária companhia brasileira, seus competentes profissionais e seus valorosos aposentados e pensionistas foi a mais irresponsável violência já cometida neste país, como uma espécie de "serial killer", que fez um universo incontável de vítimas, incluindo os milhões de brasileiros, vendidos de mão beijada aos carroceiros da aviação tupiniquim e, pior, às empresas alienígenas, que já ocupam o melhor do nosso espaço aéreo.

Trapaças tão explícitas teriam de fazer brotar de cada variguiano a percepção política que está adormecida em cada cidadão, objeto de uma científica indústria da alienação, em função da qual as pessoas terceirizam sua capacidade crítica e seu direito de decidir.Uma corporação da mais alta qualificação, provada e reconhecida aqui e alhures, não podia ter sido entregue às feras, como aconteceu de forma vergonhosa por conta da deliberada omissão do governo Lula, o mais gigantesco e bem concebido "cavalo de Tróia" que se instalou neste país.

Para entender o próprio sofrimento, as humilhações e as privações que vivem hoje, esses cidadãos passaram por uma verdadeira redescoberta política.

Como pode o seu holocausto acontecer logo no governo do Partido dos Trabalhadores, em cuja trilha serviram o dorso ao lado de milhares de assalariados, que sonhavam com um governo leal, em que, pelo menos, a defesa do seu emprego seria cláusula pétrea?

Os mais de 10 mil integrantes de uma família que cresceu junta, e que junta imaginou dias melhores com a ascensão de um emergente do movimento operário, estão até hoje sem entender por que os bancos fazem a festa com lucros além da estratosfera e os especuladores são sempre socorridos, enquanto eles, que levavam a bandeira brasileira a quatro continentes, como agentes avançados de nossa beleza, foram parar no hangar dos inservíveis, uma espécie de campo de concentração da modernidade.

Nem com a dívida da defasagem tarifária, processo que se arrasta há 18 anos, dispôs-se esse governo parido da esperança para um encontro de contas que evitasse o assassinato econômico minuciosamente planejado.

Como engolir tamanha monstruosidade?Houve um dia em que a ditadura penalizou a Panair do Brasil por motivos políticos explícitos, próprios de uma época de intolerância e arbítrio.Mas naquele principiar de anos empedernidos - poucos sabem - o então governador Carlos Lacerda, que ainda era um dos pilares do regime imposto, teve a sensibilidade de socorrer aeronautas e aeroviários da inesquecível companhia aérea.

Repartições como o DETRAN, CEHAB e o próprio Banco do Estado acolheram profissionais demitidos, num gesto de grandeza e sabedoria que falta a essa súcia medíocre que governa o país e que ainda vai ser levada ao cadafalso da história quando cair a ficha dos cidadãos, hoje coagidos por abomináveis programas compensatórios, como esse deprimente "bolsa-família", onde vão acabar jogando metade do Brasil.

Nesses dias de tanta hipocrisia, há um clamoroso agravante: com algumas exceções, o aparelho sindical que se alimenta de uma excrescência compulsória, o imposto que eles mesmos apontavam como fonte do peleguismo, foi cooptado pelos velhos métodos de suborno e corrupção subliminar.

Os Sindicatos que deviam postar-se na primeira trincheira juntaram-se no valhacouto da perfídia e ainda ofereceram sua chancela cúmplice à aprovação da negociata apadrinhada pelo cunhado do presidente, que culminou com o mais execrável "negócio do chinês" - aquele leilão de um único lance, que permitiu a um fundo abutre dos Estados Unidos pôr as garras na Varig a preço de banana e depois repassá-la, meses depois, aos paspalhos que puseram seus ônibus para voar, no vazio de um espaço aéreo faxinado pela consciente iniqüidade de um governo de falsos brilhantes.

É, portanto, mais do que OPORTUNO E CORRETO o posicionamento político da corporação agredida por políticas insidiosas. Quisera eu que outras categorias, igualmente feridas em suas jugulares como os beneficiários do Petros e outros fundos de pensão, os servidores públicos e os aposentados em geral, bem como os brasileiros que vêem a paulatina desnacionalização do petróleo e a ostensiva ocupação estrangeira da Amazônia, tenham a mesma percepção, a mesma lucidez e a mesma coragem nessa hora em que a democracia vive seu único momento orgástico, que a diferencia de outros regimes.

Ministro de quatro

Guilherme Fiúza, Revista Época

Se o Brasil passar bem por essa crise financeira internacional, o posto de ministro da Fazenda poderá ser sumariamente extinto. Guido Mantega passará à história como o homem que provou a obsolescência do cargo.

Mantega declarou que, em outros tempos, o Brasil já estaria “de quatro” na crise deflagrada pela quebra do Lehman Brothers. Em outros tempos, se o Brasil tivesse um ministro como Mantega, não teria sobrado país para contar a história.

No momento em que o furacão americano devasta as bolsas do mundo inteiro e deixa os brasileiros de cabelo em pé, a maior autoridade econômica nacional tranqüiliza o país da seguinte forma: a crise vai encarecer o crédito no Brasil, vai desacelerar a nossa economia e vai minguar a entrada de dinheiro externo. Mas vai ficar tudo bem.

Em outras palavras: o monstro existe, é horripilante, sanguinário e está ali atrás da porta, mas eu vou cantar uma bonita canção de ninar para vocês. Durmam tranqüilos.

Nunca se viu tamanho grau de autismo de um homem forte (sic) da economia brasileira. Lula deve ter se arrepiado todo. Tanto que veio a público dizer que a crise será praticamente imperceptível para o Brasil. E teve o cuidado de dizer que tinha acabado de conversar com o ministro Mantega.

Os movimentos do mercado são guiados basicamente pela sinfonia das expectativas. O presidente fez o óbvio: se há razões para se confiar na solidez da economia, ele afirma que a economia está sólida. E ponto.

Se tudo ruir, a conversa será outra. Mas nunca se viu uma autoridade econômica discorrer sobre as ameaças de ruína para explicar que vai ficar tudo bem. Para o mercado, é mais ou menos como explicar que o bicho papão é bonzinho.

O Brasil poderia estar de quatro. E se não ficar, será graças à desimportância do que diz o seu ministro da Fazenda.

O grampo e a ''culpa'' da imprensa

Estadão

A investigação sobre a escuta ilegal e o vazamento de uma conversa telefônica do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, com o senador Demóstenes Torres parece não ter avançado grande coisa com a perícia feita pelo Instituto Nacional de Criminalística da Polícia Federal (PF), em 16 equipamentos da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) - acusada da autoria do grampo. Concluiu-se que eles não servem para interceptar conversas em telefones como os utilizados pelo juiz e o senador (celulares analógicos). Isso não elimina as suspeitas de que agentes da Abin tenham participado do ultraje, à revelia ou não da cúpula do organismo.

Primeiro, porque aqueles equipamentos podem não ser os únicos à disposição da Abin. Foi o que deu a entender o ministro da Defesa, Nelson Jobim, em depoimento à CPI dos Grampos - razão por que a comissão lhe solicitou que forneça a relação completa dos aparelhos comprados pela agência nos últimos quatro anos. Além disso, a CPI encomendará à Unicamp perícia própria nos equipamentos a que tiver acesso. Segundo, porque a arapongagem pode ter sido executada por agentes da Abin ou por terceiros, como aventou o presidente do STF, com engenhocas adquiridas clandestinamente. Terceiro, porque não se conhece o resultado de outra perícia, feita pelo Exército.

De todo modo, o trabalho da PF produziu uma revelação comprometedora para a Abin, já não bastasse o seu ilícito envolvimento com a Operação Satiagraha, do delegado Protógenes Queiroz. Dos 16 aparelhos examinados, 5 se prestam para escutas ambientais - registros de conversas entre interlocutores face a face. Um dos aparelhos pode ser acionado por controle remoto, a mais de 500 metros do local. Antes ainda do escândalo que levou o presidente Lula a afastá-lo do cargo, o diretor-geral da Abin, Paulo Lacerda, disse à CPI que a agência não fazia escuta "nem telefônica, nem ambiental, nem em qualquer outro tipo de equipamento de comunicação".

Não poderia ter dito outra coisa, porque a lei só admite quebras autorizadas de sigilo de comunicações em inquéritos criminais - e a Abin não tem poderes de polícia judiciária. Os fatos tiram o gás das palavras de Lacerda. Ele permitiu que, a pedido de Protógenes, mais de 50 de seus agentes trabalhassem na Satiagraha, uma investigação sob segredo de Justiça. Dias atrás, Lacerda disse a uma comissão do Congresso que "achava" que a solicitação do delegado tinha respaldo superior. A espúria cooperação entre a Abin e a PF e o grampo de que Mendes e Torres foram alvo são frutos da mesma árvore. A elucidação do caso lançará luz sobre os subterrâneos dessa parceria.

Por via das dúvidas, o governo já escolheu um culpado - a liberdade de imprensa. À CPI dos Grampos, o ministro Jobim defendeu duas enormidades. Uma seria "relativizar", em casos de crimes, o direito constitucional da imprensa de manter em sigilo as suas fontes - algo que, abolido, permitiria punir o jornalista para quem a história do grampo foi vazada, caso se recusasse a identificar o vazador. Outra seria proibir a imprensa de publicar informações obtidas por terceiros mediante escutas. O sigilo da fonte, em quaisquer circunstâncias, é indissociável do direito da sociedade à informação - a começar da que se refere às ações dos governos.

Freqüentemente, os malfeitos dos poderosos chegam ao conhecimento do público apenas porque os denunciantes contam com a proteção do anonimato para contar o que sabem. Por outro lado, a informação sigilosa que a imprensa poderá publicar - o conteúdo de uma gravação, por exemplo - já deixou de ser secreta no momento em que o seu detentor a passou adiante. Não é só o ministro da Defesa, porém, que põe na conta da mídia as mazelas que o governo fracassa em sanar. O projeto recém-enviado ao Congresso para reprimir os grampos ilícitos e a violação do sigilo dos grampos legais dá margem a que o grampeado peça a condenação do periódico que divulgou a interceptação, se se considerar caluniado ou difamado por seu teor.
Trata-se de um direito que já assiste a qualquer um em relação ao que se publique a seu respeito. Portanto, que sentido tem, a não ser o de intimidar a imprensa, consignar que alguém poderá fazer o que, afinal, já poderia?