Adelson Elias Vasconcellos
Provavelmente, a grande maioria da população brasileira desconhece o que significa viver e tentar sobreviver numa ditadura. Ou eram muito pequenos quando o Brasil agonizou durante 21 anos sua última experiência nas mãos dos militares, ou sequer haviam nascido. Assim, talvez uma pequena parcela da população é que pode comemorar e sentir o gosto quando de nossa redemocratização. E, mesmo sendo atualmente uma minoria, sabem ou deveriam saber valorizar o regime de liberdades e garantias individuais que só o regime democrático é capaz de oferecer. E, em razão deste sentimento, deveriam repelir qualquer tentativa da volta do autoritarismo, de qualquer iniciativa de se ressuscitar a prática da tutela da sociedade pelo Estado. Infelizmente, assim como o dragão inflacionário se dissimula e vai espalhando tentáculos, o autoritarismo vai firmando suas bases e em doses cada dia mais firmes.
Fica cada dia mais difícil ter que engolir esta degenerada classe política que assaltou o Brasil, cada vez mais devotada a si mesma, cada vez mais transformada em esgoto moral. Doloroso reconhecer que se transformaram em meros despachantes de luxo do poder Executivo. Jogaram no lixo sua independência que a constituição lhes impõe e lhes garante. E, para ser mais rigoroso na análise, traíram a pátria que os escolheu para representar os cidadãos e VIGIAR e FISCALIZAR o Poder Executivo e não ajoelhar-se para satisfazer-lhe qualquer capricho.
Há dez anos o Brasil vem perdendo a essência de sua democracia, e a tal ponto, que nosso quadro institucional se tornou, na prática, como “poderes constituídos da República”, em mera peça de ficção, não mais do que um simples arremedo de “estado democrático”.
Claro que há um projeto de poder por trás desta máscara toda. E, em cada passo avante que este poder consegue andar, mais nossa democracia falece, mais podre se tornam as instituições, mais retrocedemos naquilo que era sonho de toda uma geração que precisou suportar, muitas vezes no silêncio, o regime militar que sufocou o país por 21 anos. Como também se acentua a pouca intimidade que os guerrilheiros de esquerda tinham com o sonho de redemocratização, dada a sua têmpera autoritária e seu sonho inafastável de ver triunfar, no solo pátrio, a utopia cubana. Tanto isto é verdade, que as teias que ligam o sonho desta gente ao inferno imposto pelos irmãos Castro ao seu povo, tornaram-se cada vez mais próximas. Visitam a ilha com sorrisos largos, bolsos (os nossos) abertos e fartos à financiar o regime cubano de opressão, e são cada vez mais próximas estas visitações em busca de conselhos e instruções do “como fazer”.
Basta-nos ver o que se passa com a Venezuela: tutelada e comandada por Cuba, que exerce um poder político tão sólido que a presidência venezuelana é comandada desde Havana, e não na sua capital Caracas. A Venezuela das utopias bolivarianas e do desvario das esquerdas abriu mão de sua identidade, de sua história, de sua autonomia sobre seu próprio destino. Se a gente for reparar, por aqui, não são poucos os aventureiros que, seguidamente, vão à Cuba para o beija-mão aos irmãos Castro. O próprio Lula passou pela ilha há poucos dias e a se registrar: não pode sequer visitar o moribundo Chavez e nem lhe permitiram se deixar fotografar ao lado do companheiro. Sem contar com o fato de muitos organismos estatais da própria Venezuela foram aparelhados e são comandados por cubanos.
Não se pense que o julgamento do Mensalão terá força suficiente para impedir a marcha do atraso. O retorno de Renam à presidência do Senado é a porteira aberta para que o Executivo se torne cada dia mais poderoso e o Congresso mais submisso à esta vontade, a este autoritarismo. Não são eleições que demarcam a linha que separa a democracia plena da ditadura. É um conjunto imenso de valores presentes nas instituições, nos poderes constituídos e no temperamento que modela o caráter dos governantes.
Basta que façamos uma retrospectiva do que tem sido este “congresso” genuflexo, para se ter a dimensão plena de sua pequenez. E, das poucas instituições que ainda tentam manter ares de independência neste mar de lama, o Ministério Público ainda corre o risco, por vingança da própria classe política que não se conforma em ser confrontada por seus crimes, perder grande parte de suas prerrogativas constitucionais.
O doloroso não é o quadro de total falência moral dos nobres deputados, senadores e a gangue toda que circula à sua volta, todos se locupletando de forma imoral e ilegal: doloroso mesmo é que, apesar de agirem abertamente, por se saberem impunes diante de um judiciário lerdo e ineficiente, são sempre reconduzidos aos seus postos pelo voto “popular”, comprado na esquina, nas bancas, pelos bandos e pelos becos, pelos cordeirinhos de ocasião.
Sim, por mais triste que pareça, é o próprio povo brasileiro quem deve ser acusado pelo quadro cafajeste que vive a política brasileira, e pelo atraso institucional que estamos vivendo. Assim, e me parece que as perspectivas não são nada animadoras para vislumbrar uma mudança no cenário, o povo brasileiro jamais poderá se dizer “inocente” se a decadente democracia que ainda nos resta, vier falecer de vez no curto e médio prazos.
Ninguém pode se declarar inocente depois de reconduzir os Renans, Sarneys e a corja política que os acompanha aos postos. Infelizmente, temos que constatar que o povo brasileiro não está fazendo por merecer a democracia de que desfruta. Talvez a maioria dos eleitores não tenham vivido as agruras de um regime de exceção para tratar com tamanho desprezo a sua responsabilidade indissociável para com um regime de liberdades e garantias individuais plenas. Ilude-se com meia tigela de esmolas em troca de um voto, vende sua alma e consciência em troca de promessas vazias, demagógicas e que nunca se realizam.
Cada povo tem o governo que merece e, no caso brasileiro, isto se torna mais do que lugar comum. Estamos escolhendo um caminho torto, de atraso, de entrega do nosso individualismo, perdendo a noção de moral, de compromisso de cada um consigo mesmo, e numa bandeja apodrecida e corrida pela ferrugem, estamos delegando ao poder dominante o absoluto império sobre nossos atos, palavras e escolhas.
Hoje, olhando-se a dura realidade pelo que não faz o congresso nacional, impossível nele reconhecer um representante máximo de defesa dos cidadãos que deveriam representar. Eles buscam beneficiar apenas a si mesmos, e sejam ditadores ou presidente eleito pelo voto, não lhes importa o autoritarismo presente no Planalto, importa-lhes as vantagens em seu exclusivo favor para dar suporte e sustentação ao “regime”, ou ao “sistema”.
Deem o nome que quiserem para isto que está aí, mas não se confunda o nosso “regime” com democracia plena. Trata-se, como disse acima, de um arremedo, uma falsa aparência de um estado de direito democrático. Neste ponto, se fecharmos as portas do congresso e expulsar a cambada de vagabundos que chicoteiam por lá, não fará falta, além da enorme economia de dinheiro público que hoje eles torram sem retorno algum para a sociedade.
Democracia alguma autoriza a existência de qualquer Congresso, e sim de uma casa de legítimos representantes do povo que os elege justamente para agirem em benefício de todos, e não apenas de alguns.
Vão se passar muitos anos para que este povo alienado de sua responsabilidade desperte deste marasmo, desta letargia e tire da vida pública, por seus votos e protestos, esta cambada de gigolôs e cafajestes. Assim como estamos hoje, não seria nenhuma surpresa se algum mensaleiro acabasse eleito de forma consagradora para presidência desta república. Afinal, o Congresso, essa “notável” casa de tolerância, já abriga alguns deles dentre outros criminosos diversos, e escolhe para comandá-la gente da pior espécie, indo contra até a um protesto com mais de 300 mil assinaturas pela internet, como foi o caso do rei do gado de Alagoas.
Ter eleitos como presidentes das duas casas do Congresso, dois parlamentares que tem muito mais folha corrida a apresentar do que currículos, dois que ficam em linha direta de sucessão para a presidência respondendo a processos variados na Justiça, não é apenas uma bofetada no rosto dos homens sérios deste país. Demonstra a total inapetência da oposição para ocupar a posição que lhe cabe na república. E quanto mais se acovardam, menores ficam. E, mais do que tudo, é a prova cabal do quanto nosso regime democrático está falido, sedado e respirando por aparelhos.
O PMDB comemora seu fortalecimento no aparelhamento do Estado e o PT sorri satisfeito por ver triunfar seu obscurantismo. Fora destes, o resto da nação só tem motivos para lamentar.
Em sua mensagem ao Congresso na abertura dos trabalhos legislativos de 2013, dona Dilma afirmou que a classe política está sendo vilipendiada. Com efeito, nunca os políticos foram tão vilipendiados como agora, mas pelo próprio Executivo. E a soberana poderia ter até acrescentado: nunca a democracia foi tão esculachada pela classe política e seus governantes como tem sido nestes últimos dez anos, a ponto de os ditos representantes do povo serem tão desacreditados por este mesmo povo que os elegeu.
Em política, precisamos aprender com urgência urgentíssima, não existem espaços vazios: se a oposição, por covardia e incompetência, se nega em ocupar o espaço que a sociedade lhe reservou, o governismo vai lá e...pimba!, toma conta. Do mesmo modo, se o Legislativo não faz sua parte, o Executivo acaba roubando-lhe as prerrogativas e aumentando seu espaço e poder. Definitivamente, isto não é democracia. E não foi por "isso aí" que muitas gerações lutaram para restaurar no Brasil.
Consolo real
Do site Alerta Total, do Jorge Serrão:
Piadinha que circula entre os hermanos amantes da realeza.
A Holanda ganha em 30 de abril uma linda rainha argentina chamada Máxima.
E a Argentina continua com a Mínima, até Deus sabe quando...
