Adelson Elias Vasconcellos
Utilizando-se do mesmo bordão que Lula empregou em 2002, a candidata governista, Dilma Rousseff, amparada nas pesquisas que lhe dão a vitória já no primeiro turno, adotou em seu discurso a frase de que a esperança e o amor vencerão o ódio.
Baseada em que ela tirou o tal ódio, não explica e, dado o quadro político que vive o Brasil desde 2003, também não se encontra nenhum argumento ou fato que amparem esta afirmação.
Primeiro, que, pré-campanha 2010, o que se viu foi uma oposição sem entender direito qual o seu verdadeiro papel. Abandonou seu legado primoroso e virtuoso, adotou uma postura de passividade, não retornou ao tema de seu ideário, e deixou o país ser arrastado por uma mistificação bestialógica do presidente no poder.
Segundo, diante de dezenas de escândalos produzidos com Lula no poder, a oposição sempre temeu tomar iniciativas e fazer cumprir o que a Constituição especificava em cada um dos casos. A recordar, em 2005, durante a CPI do Mensalão, diante da declaração de Duda Mendonça sobre o caixa 2 do PT, que alimentara a campanha de Lula, com depósito no exterior, diante do estarrecimento de todos, a oposição murchou quando deveria ter levado o caso aos tribunais. Caracterizou-se ali um crime eleitoral e, mais do que isso, um crime de responsabilidade da presidência da república, que justificavam o impedimento de Lula. A covardia em 2005, custou a reeleição de Lula para um segundo mandato, e aí, ao invés de levar sua voz com mais veemência, novamente a oposição se acuou em si mesma e deu margem ao crescimento da mistificação em torno de Lula.
Faltou liderança à oposição, faltou vender ao país suas ideias e a continuidade do projeto de reformas do Estado, iniciado por Fernando Henrique, raízes virtuosas que nos encaminharam para a modernidade e a retomada do crescimento nos atuais níveis.
Há mais de dois anos, o país assiste seu presidente transformado e transtornado em cabo eleitoral de Dilma Rousseff. Tudo que se produziu no governo, desde então, foi com olho nas urnas, nada destinado ao bem do país e de seu povo, apenas com o propósito explícito de escolher e colocar no trono a sucessora que ele próprio, de forma arbitrária, resolveu indicar. Todas as políticas, e sobre ela já discorremos inúmeras vezes, ou são fraudes puras, ou projetos atabalhoados que fazem crescer e engordar estatísticas, mas que, no longo prazo, não se sustentam e podem, conforme artigo que publicamos ontem, comprometer a estabilidade econômica atual.
Mas o mote esteve no discurso de José Dirceu na Bahia há cerca de duas semanas. O assim chamado “chefe da quadrilha” pelo Procurador da República, no processo do Mensalão, cujo mandato foi cassado pelo próprio Congresso Nacional numa ação de autodefesa corporativa, deixou bem claro que a eleição de Dilma favorece muito mais ao projeto totalitário de poder do seu partido, do que se fosse o próprio Lula, que, por ser maior do que o próprio partido, consegue vingar sua vontade.
E o que vem a ser o projeto totalitário de poder que o PT carrega debaixo do baixo para, numa provável vitória de Dilma, implantar no país? Descriminalização das drogas, descriminalização do aborto, censura à imprensa, restrição à liberdade de expressão, reforma política para a implantação do regime de partido único, alteração da forma republicana do Estado, colocando o Judiciário em posição subalterna com a implantação dos tribunais “populares”, maior presença do Estado na economia, aliciamento dos grandes grupos econômicos através da troca de favores que assegurem ao PT o poder político, esvaziamento das instituições de regulação e fiscalização dos poderes, transformação da Polícia Federal em Polícia do Governo, dentre outros. Não é pouca coisa. E tudo isso será possível dado que, apesar do temperamento irascível de Dilma Rousseff, esta não terá força política suficiente para se impor junto ao PT.
Ou seja, a eleição de Dilma representa para o país um absoluto retrocesso institucional. Mesmo aqueles que veem em Marina Silva um contrapeso capaz de impedir esta volta ao passado totalitário, só que sob as cores vermelhas, não será suficiente por faltar-lhe uma coisa básica no regime presidencialista brasileiro: base parlamentar suficiente para impedir o apetite petista de privatização do Estado em favor do PT. E, mesmo José Serra, mais habilitado e com melhor apoio no Congresso, terá contra si uma máquina pública extremamente aparelhada pelo sindicalismo pelego e pela militância petista.
Contudo, seja Marina ou Serra, ambos ainda representam os ares de liberdade democrática e podem, um ou outro, serem obstáculos à ambições totalitárias imaginadas por José Dirceu e seu partido. Serra, não fosse a miopia dos péssimos estrategistas de sua campanha, inclusive, poderia estar em condições de levar a eleição para o segundo turno, permitindo que o país conhecesse quem é Dilma, a aventureira. Como ainda, a depender da habilidade política e da capacidade de gestão que um ou outro pidesse desempenhar, seria possível - e necessário - aumentar a fatia de presença da oposição no Congresso, colocando um freio ao projeto de irrelevância institucional a que o país seria entregue com Dilma no poder.
Não há ódios de parte da oposição. Dilma adota um discurso imbecil onde confunde a veiculação da ladroagem implantada dentro de seu gabinete, quando ainda ela própria o comandava, com as ações de puro terrorismo praticadas em passado recente pelo PT. Vê no espelho em que se mira não a atual oposição, mas aquela praticada antes de 2003 pelo PT. Atualmente, o que existe na oposição é pura inércia, inaptidão política e falta de leitura da realidade brasileira, onde, conforme tantas vezes já elencamos aqui, existiriam pelos menos três a quatro dezenas de fatos e motivos para desmascarar Lula e seu governo.
Infelizmente, o dia 3 de outubro pode assinalar a data mágica da ruptura institucional que de há muito alertamos e que, se acontecer, ninguém poderá reclamar de não ter sido avisado. Porque, por mais analfabeto que seja o povo brasileiro, por mais desinformado que se encontre, impossível não saber diferenciar entre candidatos de bom gabarito, e uma aventureira desenhada e forjada nas planilhas da marquetagem política. A opção não se dá no simples “continuidade” ou “continuidade com reformas”. O campo, senhores, é muito outro. Trata-se de escolha de valores, o discernimento correto entre a libertinagem instalada no coração no poder, e que investigações, documentos e personagens, na medida do tempo, se comprovaram, e o rápido retorno à ética, à moralidade, à governabilidade em favor de todos e não de apenas alguns companheiros, além do respeito às instituições e ao estado de direito.
Assim, não dá para fugir do “plebiscito” a que esta eleição se transformou: teremos que escolher entre a manutenção de nossas liberdades, com os direitos e garantias asseguradas pela Constituição que Lula e os petistas não quiseram assinar, e o retrocesso ao totalitarismo, do qual imaginávamos imunizados. Talvez a lição que ficará seja a de que a democracia nunca é uma conquista em si mesma, é um processo a ser assegurada, dia após dia, eleição após eleição, e que a liberdade dela decorrente é um valor que não se vende nem em troca de bolsas qualquer coisa. Infelizmente, e já se vê, não apenas o povo brasileiro está a vender seu voto, mas, o que é mais grave, a vender sua própria consciência, a depender da escolha que fizer.
E, como tem sido usual, na edição de hoje, como praticamente em todas as que COMENTANDO A NOTÍCIA tem reproduzido desde julho de 2006, há uma penca de novas denúncias, de novas falcatruas, de novos assaltos, de novos desvios, de novos favorecimentos imorais tanto quanto ilegais. E é precisamente este estado imoral que a candidata Dilma pretende dar continuidade. É esta degradação que tenta manter a todo custo, sem debate e sem se mostrar. O país está comprando um envelope fechado, um bilhete no escuro. Porém, há de haver um limite porque o país, além da ruptura institucional, ainda se beneficia dos bons ventos vindos do exterior. Contudo, e a história nos ensina, tais políticas tem prazo de validade limitado, além da herança maldita, conforme no texto de ontem sobre Reservas, Dívidas e mentiras, que representam real ameaça à estabilidade econômica, política e social tão duramente reconquistada.
Nem urna é tribunal tampouco eleitor é juiz. Seja no passado, ou no presente, o que não faltam na história da humanidade, são exemplos de tiranos imensamente vitoriosos nas urnas e, uma vez instalados no poder, não perderam tempo para impor repressão, tirania e atraso aos seus povos. Para um povo que mal sabe ler e escrever em seu próprio idioma e não consegue executar as quatro operações básicas de matemática, resta saber até onde vai seu conhecimento de história para dela extrair os ensinamentos indispensáveis para identificar, com clareza, no dia 3 de outubro, quem representa a liberdade e quem representa o retrocesso, quem se identifica com os verdadeiros valores da democracia e do estado de direito, e quem está amarrado à bandeira da degradação de costumes.






