sábado, novembro 06, 2010

Oportunidades perdidas

Adelson Elias Vasconcellos

É claro que o que será dito aqui não teria a menor chance de prosperar num país pouco sério, e em que o Poder Judiciário, principalmente a Justiça eleitoral, parece não ligar muito para o cumprimento da lei quando o seu desrespeito parte do Executivo. Mas deveria, é sua função primordial, para isso foi criada. Da mesma forma, o Ministério Público Eleitoral. Se a Justiça Eleitoral pode alegar estar amarrada ao preceito de que só pode agir quando provocada, ao Ministério Público Federal competiria tomar a iniciativa para fazer valer a lei e a ordem.

Contudo, encaminhar um pedido de impugnação da candidatura governista por abuso do poder político e econômico, consubstanciado em provas as mais fartas possível, também caberia a iniciativa da oposição. Claro, sabemos que o discurso do outro lado seria a de que a oposição tenta ganhar no tapetão, ou que está tentando impor um terceiro turno. Não importa. O que é visível é que a eleição de dona Dilma se deu sob o manto da ilegalidade. Tanto sua coligação quanto o governo Lula não se contiveram em seguir as regras do jogo democrático. Venderam ao país uma candidata qualquer e, para lograr êxito, se esmeraram o quanto puderam em descumprir as leis estabelecidas e que deveriam ser cumpridas pelos dois lados da disputa.

E não apenas deveriam as oposições abrir a disputa no campo jurídico: deveriam esgotar todos os meios legais disponíveis para a impugnação. E, mesmo se nada ganhassem no campo jurídico, pelo menos marcariam importante presença junto à sociedade, já que mais de 40 milhões de votos também disseram “não” à Lula e Dilma, mas, sobretudo, disseram BASTA de trapaças. Que fizessem isto e, por certo, boa parte da sociedade bateria palmas à iniciativa.

Fizeram? Não, deixaram tudo como estava, premiando, desta forma, a ilegalidade, e acenando com a impunidade para os infratores. Doravante fica estabelecido que, numa próxima eleição, o jogo do vale-tudo eleitoral estará liberado, seja porque o PT não se furtará em atropelar as leis novamente, porque não contestado agora, como, também, as oposição, tampouco o Ministério Público tiveram o respeito necessário para com o estado de direito, dando para o país um recado perigoso de que, na luta pelo poder, o que importa é vencer, mesmo para que para tanto, o regime de leis do país seja pisoteado ao máximo.

Durante esta semana, vários foram os líderes da oposição que fizeram manifestações sobre sua derrota nas urnas. A avaliação que todos fazem, todavia, são infelizes algumas e inoportunas outras.

O senador eleito por Minas, Aécio Neves, que surge como liderança maior do partido, falou em oposição generosa e a construção de um projeto.

Primeiro, oposição generosa foi justamente a que o PSDB se dedicou em fazer durante oito anos de governo Lula. Segundo, o PSDB já tem um projeto e foi aquele que o Lula se apropriou sem que os tucanos contestassem. No que, nos planos econômico e social, o governo Lula diferiu do governo FHC? Lula é uma continuidade do governo FHC. Poderia ter aprofundado as reformas de base e não o fez por pura covardia em não querer pagar o preço político que, por certo, resultaria por mexer em coisas como reforma tributária, previdenciária, trabalhista, política, etc. Esperar para ter maioria folgada no Congresso para só depois agir, representa dizer para sociedade que espere até que o partido resolva suas encrencas corporativas. Convenhamos, isto está muito longe de ser um governo pelo país. Trata-se de governar apenas pelo poder e para o poder.

Talvez Aécio Neves esteja ou estivesse se referindo a um projeto de desenvolvimento para o Brasil. Pois bem: que ele então se debruçasse a estudar as linhas mestras do Avança Brasil implementado por FHC, que o PT, na oposição sabotou, e depois no poder, Lula não deu continuidade. Interrompeu o programa no primeiro mandato, para retomá-lo no segundo mandato, mas agora sob nova direção e apelido – o tal PAC. Porém, olhando-se para o PAC não dá para deixar de considerá-lo meramente uma listagem de obras.

Ao longo dos próximos dias, iremos apresentar aqui o que vem a ser o Avança Brasil, este sim, um projeto de desenvolvimento com começo, meio e fim, além de ter sido desenhado em termos de desenvolvimento regional, vistos sob um ângulo estratégico.

Portanto, Aécio não precisa ir longe para que a oposição não tenha apenas discurso. Há no partido um real projeto para o país, como há, também, inúmeras razões para que se saia da pasmaceira com que o PSDB se comportou ao longo dos mandatos de Lula. O que falta? É iniciativa e coragem para fazer e cumprir seu papel, independentemente dos protagonistas que o conduzirão. Falta à oposição, em suma, parar de perder oportunidades e partir para o confronto sem medo, e abandonando o jogo de vaidades e interesses pessoais. Deve, portanto, pensar no país, antes de pensar em si mesma.

É justamente isso que a parcela da sociedade brasileira que é oposição a Lula e Dilma, e não é apenas um contingente insignificante, são mais de quarenta milhões, espera que a oposição faça. Mas, pelo visto, parece que ela não aprendeu a lição e ainda não apanhou o suficiente para tomar jeito.

Dois em um

Adelson Elias Vasconcellos

Em janeiro de 1999, poucos dias de seu segundo mandato, tendo em vista a especulação sobre o real, com rápida deterioração das reservas internacionais do país, Fernando Henrique obrigou-se a mudar o câmbio brasileiro: mudou o regime de fixo para flutuante pondo fim ao bombardeio que o país vinha sofrendo.

O PT que, na oposição, sempre praticou o quanto pior, melhor, reagiu. E a reação não poderia ter sido mais hedionda do que foi: Tarso Genro, do alto de seu mau caratismo, bradou: “Isto é um estelionato eleitoral. Fora FHC.”

Durante um certo tempo, ele comandou a marcha contra um governo eleito legitimamente e que governava legitimamente e que, legitimamente, mudou o regime cambial para a forma que até hoje se mantém, e que ajudou o país a enfrentar e sair da turbulência.

Agora, passados 11 anos, fazendo uma campanha em que defendia a redução de juros e da carga tributária, e prometendo uma saúde pública mais do que perfeita, Dilma Rousseff, em conluio com os governadores recém eleitos da base aliada de sua coligação, anunciaram ao país a intenção de que ressuscitariam a famigerada CPMF. Justificativa? Cumprir a promessa de campanha sobre a saúde pública.

Agora, por muito mais forte razão, deveriam as oposição devolver o “estelionato eleitoral” ao PT. Falar-se, depois de encerradas as eleições, em dar retorno à contribuição enterrada em 2007, é no mínimo sacanagem para com a sociedade.

Lula, numa entrevista coletiva no início da semana, insinuou que não haveria como bancar os gastos com a saúde pública sem o tributo. Esquece o ainda presidente que, tão logo a contribuição foi reprovada, ele elevou o IOF para 0,38% sobre todas operações financeiras, o que acabou cobrindo a perda da arrecadação? Esquece que, nos últimos anos, a própria arrecadação tem crescido em níveis acima do crescimento do PIB? Esquece, ainda, que contou com a CPMF durante cinco anos, e que nem por isso a saúde pública melhorou, até pelo contrário, vem minguando desde que ele assumiu o poder em 2003?

Já disse aqui várias vezes: o problema no Brasil nunca foi falta de recursos para o Estado brasileiro melhorar e qualificar os péssimos serviços que retorna à sociedade. Sempre foi má gestão, e gastança desenfreada em itens absolutamente dispensáveis e inúteis. Houvesse de parte do governo federal maior seriedade e responsabilidade e, por certo, não se precisaria elevar a carga tributária para melhorar aquilo que é dever do Estado, mas que ele não cumpre por absoluta incompetência e falta de planejamento.

E quanto à senhora Dilma Rousseff, nem bem fazia seu discurso inaugural de recém eleita, assumindo o compromisso de não ferir a liberdade de expressão, de outro lado, os laranjas do partido já se aventuravam em criar comissões de comunicação para fiscalização a mídia do país, nome novo para a prática antiga da censura.

Ou seja, em menos de 48 horas, duas foram as agressões à sociedade desferidas pela presidente. Ao invés de reduzir a carga, vai é aumentá-la e a censura tentará ser restabelecida via laranjas de sua base aliada. Assim, temos na conta de Dilma, mesmo antes de empossada, dois claros estelionatos eleitorais a demonstrar a pouca seriedade que esta senhora tem para com sua própria palavra e promessas.

Ou seja, se ilude quem quer se desiludir. Deste mato não espero grandes surpresas positivas, não. Diante do cenário internacional, em que se cobra do governo brasileiro melhor postura em relação ao equilíbrio fiscal, o que temos são anúncios de maiores gastos supérfluos em escala desmedida, o que implica em não se conceder espaço para a necessária redução de juros, tornando ainda maior e perigosa a valorização excessiva da moeda nacional.

Como afirmei logo após encerrado o pleito em 31 de outubro, esta é a hora da reza. E, pelo andar desta carruagem, não tendo mais a desculpa porca da herança maldita para transferir responsabilidades, o governo Lula e sua sucessora Dilma, vão tratar de encontrar outros personagens em quem possam imputar as culpas de seus próprios erros, cujas consequências, como se vê, recairá nos ombros da sociedade que é, em suma, quem acaba bancando os prejuízos decorrentes.

Além de ter sido eleita de forma ilegítima, agora Dilma já comete seu estelionato eleitoral pós-eleições. Dois crimes em um só momento não deixam de ser um belo (e cretino) cartão de visitas do que o país precisará suportar nos próximos quatro anos.

O real perigo do lápis e da borracha

Na Folha.com. Comento em seguida.

Justiça decide manter proibição ao uso de lápis e relógio durante prova do Enem

A juíza federal Maria Claudia de Garcia Paula Allemand, da 5º Vara Cível de Vitória (ES) decidiu nesta sexta-feira manter a proibição do uso de lápis, borracha, apontador e relógio durante a prova do Enem, que acontece nos dias 6 e 7 de novembro. A medida, determinada pelo Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais), tinha sido questionada pelo Ministério Público Federal no Espírito Santo.

Com a decisão, os cerca de 4,6 milhões de inscritos na prova deste fim de semana ficam obrigados a realizar a prova apenas com caneta esferográfica preta, como já havia sido determinado pelo Inep.

Na decisão, a juíza diz que a medida corresponde a "perigo de dano irreparável ou de difícil reparação", além de não ter sido encontrado qualquer evidência de que ela seja irregular. A magistrada citou ainda o roubo da prova do Enem, ocorrido no ano passado, e salientou que as medidas da prova deste ano têm o objetivo de garantir a segurança do exame.

Na contestação feita pelo procurador André Pimentel Filho, ele afirmava que a utilização de relógio é fundamental para controlar o uso do tempo na realização da prova, que tem 90 questões para serem respondidas em quatro horas e meia --média de 3 minutos para cada questão. Já em relação ao uso de lápis, borracha e apontador, o procurador considera que não havia lógica na proibição.

Pimentel afirmava ainda que o Inep poderia ter resolvido a questão, por exemplo, determinando que em cada sala de prova houvesse um relógio de parede e que fosse fornecido material de rascunho para fazer cálculos e o esboço da redação.

***** COMENTANDO A NOTICIA:
Adoraria que a juíza federal Maria Claudia de Garcia Paula Allemand, demonstrasse para o Brasil e para o mundo de que modo pode um simples lápis ouuma ingênua borracha quebrarem a segurança na realização das provas do ENEM? E ainda pergunto mais: por que estapafúrdia razão os alunos precisam ser castigados pela incompetência do MEC em preservar a segurança do exame em 2009?

Há decisões judiciais que, ao contrário do que se argumenta, devem e merecem ser discutidas sim. É um absurdo o que se está praticando com os alunos submetidos a uma corrida de obstáculos, só para preservar a moral dos maus organizadores.

Fica estranho tentar acatar como razoável a afirmação da juíza quando afirma que o uso de lápis e borracha se constituem em “perigo de dano irreparável ou de difícil reparação", além de não ter sido encontrado qualquer evidência de que ela seja irregular.

Irregular, cara senhora, é quererem castigar aqueles que foram vítimas da incompetência em zelar pela segurança da prova.

Irregular, cara senhora, é imaginar que, dada a "excelência" do ensino brasileiro, os alunos sequer precisam de rascunhos para responderem adequadamente aos questionamentos impostos pela prova.

Irregular, prezada senhora, é sua curtíssima memória, porque provavelmente, em vosso tempo de estudante, vossa senhoria gozava de um direito que agora, sem nenhuma explicação no mínimo sensata, nega para os demais estudantes.

Adoraria saber de que forma se pode incluir numa simples borracha elementos que possam provocar perigo de dano irreparável.

Cara senhora: acredito que sua decisão é que representa perigo de dano irreparável aos alunos, por mostrar-lhes que, em alguns níveis do Judiciário, prospera a insensatez e a imbecilidade acima de qualquer princípio ou decência.

E digo isto não sem ter elementos de provas, cara juíza: talvez a senhora esteja desinformada, mas a gente lhe ajuda neste quesito. Os dois maiores vestibulares do país,UNICAMP e Fuvest, permitem o uso de lápis e borracha no exame e, até onde se sabe, jamais ocorreu “perigo de dano irreparável”. Tal qual comentou um aluno sobre sua imperial decisão: “Qual é a relação do roubo da prova do ENEM com usar lápis, borracha e relógio? No que usar esses itens durante a prova por alunos, aumentaria as chances da prova ser vendida dias antes por algum funcionário do INEP ou de uma empresa contratada pelo INEP?

Convenhamos, perigo de dano irreparável é haver no judiciário pessoas sentenciando com base em argumentos vazios e desprovidos de um mínimo de bom senso. Assim como em outras ocasiões aqui elogiamos decisões judiciais absolutamente corretas e as destacamos como exemplos a seguir, a sua, senhora juíza do perigo de dano irreparável, corre em sentido oposto. Bem oposto...

Adoraria entender a formação intelectual de certos juízes e juízas do Brasil. Mas para tanto, precisaria adotar o manual da idiotia para chegar a um veredicto razoável...

Livro de Monteiro Lobato vai continuar sendo usado em sala de aula, afirma o MEC. Mas...

O Globo


RIO - O livro "Caçadas de Pedrinho" de Monteiro Lobato vai continuar sendo usado em sala de aula. Algumas frases que aparecem na história foram consideradas racistas pelo Conselho Nacional de Educação (CNE), que pediu que a obras fosse retirada das escolas. A partir de agora, o livro terá uma explicação sobre o contexto em que foi escrito. Algo parecido com o que uma edição já traz sobre a caça à onça. A editora deixa claro que a aventura aconteceu em uma época em que a espécie não estava ameaçada de extinção, nem os animais silvestres eram protegidos pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).

Para o ministro da Educação, Fernando Haddad não é o caso de tirar o livro das escolas.

- Décadas se passaram. Expressões que não eram consideradas ofensivas, hoje são. Mas, em se tratando de Monteiro Lobato, de um clássico brasileiro da literatura infantil, nós só temos que contextualizar, advertir e orientar sobretudo o professor sobre como lidar com esse tipo de matéria em sala de aula disse durante entrevista ao Bom Dia Brasil.

O clássico da literatura infantil "Caçadas de Pedrinho" foi publicado pela primeira vez em 1933.

Membros da Academia Brasileira de Letras (ABL) são contrários a proposta de censura ao livro. Segundo os imortais, os "professores e formuladores de política educacional deveriam ler a obra e se familiarizar com ela". A ABL sugere ainda que os responsáveis pela educação estimulem uma leitura crítica por parte dos alunos.

Na internet também se multiplicaram as manifestações contrárias ao parecer. Um abaixo assinado, contra a restrição proposta pela CNE, já tem mais de 1.200 assinaturas.

Em nota técnica aprovada por unanimidade e publicada no Diário Oficial da União, o CNE decidiu que:

"A obra Caçadas de Pedrinho só deve ser utilizada no contexto da educação escolar quando o professor tiver a compreensão dos processos históricos que geram o racismo no Brasil. Isso não quer dizer que o fascínio de ouvir e contar histórias devam ser esquecidos; deve, na verdade, ser estimulado, mas há que se pensar em histórias que valorizem os diversos segmentos populacionais que formam a sociedade brasileira, dentre eles, o negro."

Em outro trecho explica que vê como racista a abordagem da personagem feminina e negra Tia Anastácia e as referências aos personagens animais tais como urubu, macaco e feras africanas. "Estes fazem menção revestida de estereotipia ao negro e ao universo africano, que se repete em vários trechos do livro analisado. A crítica feita baseia-se na legislação antirracista brasileira, a partir da promulgação da Constituição de 1988, na legislação educacional em vigor e em estudos teóricos que discutem a necessidade e a importância do trabalho com uma literatura antirracista na escola superando a adoção de obras que fazem referência ao negro com estereótipos fortemente carregados de elementos racistas."

A nota reproduz ainda resposta que a Coordenação Geral do Material Didático, responsável por distribuir o livro por todo o País, deu às perguntas feitas desde o início do processo de avaliação em junho: "(...) naturalmente, como toda leitura escolar, o livro será lido sob a supervisão de um professor que, como leitor maduro, saberá mostrar que trechos isolados não compõem uma obra e que na literatura não é a soma das partes que fazem o todo. Também não deixará de aproveitar para discutir com os seus alunos os aspectos da realidade que a obra busca representar, articulando a leitura do livro com outras leituras e com o próprio cotidiano da escola, do bairro, da cidade e do país. São critérios de avaliação: a qualidade textual, a adequação temática, a ausência de preconceitos, estereótipos ou doutrinações, a qualidade gráfica e o potencial de leitura considerando o público-alvo."

Em seguida, o documento diz que "cabe à Coordenação-Geral de Material Didático do MEC cumprir com os critérios por ela mesma estabelecidos na avaliação dos livros indicados, de que os mesmos primem pela ausência de preconceitos, estereótipos, não selecionando obras clássicas ou contemporâneas com tal teor".

***** COMENTANDO A NOTÍCIA:
Apreciaria muito que o ministro Haddad nos mostrasse um único exemplo de pessoa que, tendo lido o livro do Monteiro Lobato, tenha se tornado racista. Ou, que induzido pelo conteúdo, tenha saído mundo afora exterminando animais silvestres, dentre os quais, a onça . Aliás, sou capaz de apostar que os verdadeiros exterminadores da espécie jamais tomaram contato com a obra do Monteiro Lobato.

E cá prá nós: não passa de pura cretinice esta história de “nós só temos que contextualizar, advertir e orientar...”. O que precisam é estimular os alunos a lerem mais. Aliás, senhor ministro Haddad, diga lá: por acaso estes mesmos professores já estão capacitados a, pelo menos, ensinarem seus alunos a lerem?

Não é a toa que, por conta do péssimo ensino que é oferecido no Brasil, carregado de “analfabetos” conduzidos pelo empreguismo de favor com que se preenchem os cargos do MEC, e até do tal Ministério da Cultura, que o país vem caindo no ranking de desenvolvimento humano. São estes energúmenos que tornam o país cada dia mais analfabeto e atrasado. Gente ridícula!!!

Por que só agora?

Adriana Vasconcelos, O Globo

Mal as urnas foram abertas e os últimos candidatos tiveram suas vitórias anunciadas para o eleitor perceber que a vida poderá ser bem diferente da prometida durante a campanha eleitoral.

É essa a sensação que um grande número de brasileiros teve ao ouvir a presidente eleita Dilma Rousseff anunciar que alguns governadores já se articulavam para encontrar uma nova fonte de financiamento da saúde.

Em outra palavras, isso significa a volta do velho imposto sobre movimentações financeiras: a antiga CPMF ou a nova CSS, como propõe proposta em tramitação na Câmara dos Deputados.

Ainda que fazendo uma ressalva de que preferia não adotar nenhuma medida que significasse aumento da carga tributária, a nova presidente deu a senha para que a iniciativa fosse encampada por seus aliados.

E foi exatamente o que fizeram ontem os governadores do PSB.

O curioso é que em suas campanhas eleitorais, esses mesmos candidatos a governador em qualquer momento mencionaram essa hipótese de ressuscitar a antiga CPMF e impor aos contribuintes mais uma facada no bolso.

Tampouco a candidata do PT à Presidência cogitou essa alternativa.

Pelo contrário, colocou-se contra o aumento da já altíssima carga tributária imposta aos brasileiros.

Só resta agora aos milhões de eleitores que garantiram a eleição da primeira mulher presidente da República no Brasil perguntar: por que só agora o assunto entrou em discussão?

Será porque a próxima eleição agora está longe e o desgaste com uma medida impopular como esta não terá, neste momento, poder de comprometer a vitória de nenhum candidato da base governista? Possivelmente, sim.

Aí eu pergunto: E o eleitor, o que tem a dizer sobre isso?

Embora os brasileiros costumem ter memória curta, o fato é que a CPMF nunca foi integralmente aplicada na saúde e na época em que estava em vigor os serviços prestados aos cidadão era tão ruim como o atual.

Há ainda quem argumente que o fim da CPMF não foi sentido pelos consumidores e que nenhum produto teve seu custo reduzido desde 2007, quando o Senado derrubou a prorrogação da cobrança deste tributo.

Mas também é fato que a arrecadação federal aumentou depois do fim da cobrança da CPMF.

Agora, não nos resta nada mais a não se esperar para ver aonde essa discussão deflagrada agora vai chegar.

Guerra suja

Sebastião Nery

RIO – Na noite de 13 de março de 1961, Jânio Quadros, Presidente, foi para a televisão anunciar a “reforma cambial”, exigida, imposta pelo FMI (Fundo Monetário Internacional) e negociada pelo ministro Clemente Mariani por meio da tragicamente famosa “Instrução 204”.

No discurso, Janio deixou clara a guerra suja do petróleo:

- “Há três anos a Petrobrás dispunha de meios para levar avante investimentos vitais para a nossa indústria petrolífera. Hoje, o seu empobrecimento é tal que se viu obrigada a apelar, um dia desses, a mim, Presidente, para empréstimo de meio bilhão de cruzeiros do Banco do Brasil, a fim de pagar compromissos atrasados”.

Petrobrás
No dia seguinte, vários jornais davam em manchetes “a falência da Petrobras”. O general Idálio Sardenberg, presidente da empresa até a posse de Jânio, ficou uma fera. Os jornalistas o procuraram na diretoria de material de engenharia do Exército, onde estava lotado:

- O senhor acha que as palavras do Presidente ocultam algum plano de destruir o prestígio da Petrobras e depois o próprio monopólio estatal?

- “Não. Não acho nada disso. A Petrobras está definitivamente consolidada e somente o jogo de influências estranhas poderá ameaçá-la”.

Sardenberg
O general disse mais :

- “Quando eu era presidente da Petrobrás, li um trabalho da Shell sobre a sua expansão e entrada no Irã. Dizia a empresa anglo-holandesa que, entre as primeiras tentativas de exploração do petróleo do Irã e a exploração efetiva transcorreram 19 anos. Isso é muito tempo e revela uma persistência formidável da Shell. Acho que não devemos afrouxar nossa vigilância sobre o monopólio estatal. Devemos estar permanentemente alertas. E é com essa intenção que vou lançar um “Manifesto à Nação”.

Jânio mandou avisar ao general que, se ele lançasse o manifesto, seria preso. O general Sardenberg lançou o manifesto, foi preso. E estava certo em seus receios: 17 anos depois, Geisel abriu o Brasil aos contratos de risco para as multinacionais do petróleo. Dois menos do que no Irã.

Pre-Sal
Esta semana,o “Globo” publicou reveladora matéria sobre o Pré-Sal:

1. - “A britânica BG divulgou que revisou as estimativas de volume recuperável de petróleo (que pode ser extraído) para três áreas localizadas na camada do pré-sal da Bacia de Santos, onde a empresa é sócia da Petrobras. De acordo com a companhia, as áreas de Tupi, Iara e Guará podem ter, juntas, reservas de 10,76 bilhões de barris de óleo equivalente (inclui óleo e gás). Em relação à estimativa média anterior, de 8 bilhões de barris para as três áreas, os novos números representam mais 34%”.

2. – “ Para chegar ao novo cálculo, a BG contratou a consultoria Miller and Lents, que teve acesso a todos os dados hoje disponíveis sobre as três áreas. Para Tupi e Iracema, a empresa estimou o volume recuperável de petróleo em 9,14 bilhões de barris de óleo. Até agora, as projeções apontavam para 5 a 8 bilhões de barris. No caso de Guará, onde as estimativas de reservas giravam entre 1,1 bilhão e 2 bilhões de barris, a consultoria avaliou as reservas em 1,62 bilhão de barris, ou seja, abaixo do cenário mais otimista. A elevação da projeção total das três áreas, portanto, deve-se à revisão mais otimista para Tupi e Iracema”.

BG-Repsol
3. - “Caso as estimativas se concretizem e novas descobertas aconteçam, as reservas no Brasil da BG, sozinha, poderiam alcançar 5 bilhões de barris de óleo. A empresa tem 25% de Tupi e Iracema, ao lado de Petrobras (65%) e da portuguesa Petrogal (10%). Em Guará, a BG tem 30%, a Petrobras 45% e a espanhola Repsol 25%. A parte das reservas que caberiam à BG nas três áreas seria da ordem de 2,8 bilhões de barris.

O diretor financeiro da BG, Ashley Almanza, afirmou que as notícias positivas do Brasil levarão a companhia a aumentar a confiança em seu programa exploratório no litoral brasileiro, nos próximos anos”.

Mar Negro
A síntese das reservas já licitadas e as empresas no Pre-Sal é esta :

1. – “Tupi e Iracema – Área : 9,14 bilhões de barris. Consórcios : Petrobrás (65%), BG Group (25% e Petrogal (10%)

2. “Guará” – Área : 1,62 bilhão de barris. Consórcios : Petrobrás (45%), BG Group (30%) e Repsol WFP (25%).

3. - “Iara” – Área : 3 a 4 bilhões de barris. Consórcios : Petrobrás (65%), BG Group (25%0 e Petrogal (10%)

4. – “Parque das Baleias” – Área : 1,5 a 2,5 bilhões de barris – Não houve licitação. Tudo da Petrobras (100%).

5. - “Franco” - Área : 4,5 bilhões. Não houve licitação. É da União.

6. - “Libra” - Área : 3,7 a 15 bilhões.Não houve licitação.É da União.

Dilma e Serra
Dilma dizia que, no governo Lula, a Petrobrás só adotou o sistema de “concessões e parcerias” para o petróleo até o Pré-sal. Com o Pré-sal, um “bilhete premiado”, tudo é no “sistema de partilha”. Mentira. A maioria do Pré-sal (mais de 10 bilhões de barris) já está com licitações de “concessão e parceria” da Petrobrás com empresas estrangeiras (Inglaterra, Espanha, etc.)

Inacreditável é que Serra só respondia que “Dilma também privatizou”. Por que não deu os números? Não sabia?. Não podia?

CPMF - primeiro recuo de Dilma

O Estado de São Paulo

A promessa da presidente eleita de conter o gasto, controlar sua qualidade e aliviar a tributação já está prejudicada. Ela se declarou disposta a discutir a recriação do malfadado imposto sobre o cheque, a CPMF, uma das maiores aberrações do sistema tributário brasileiro. O recuo indisfarçável ocorreu na entrevista de anteontem no Palácio do Planalto, na qual, primeiro, negou a intenção de mandar ao Congresso uma proposta sobre o assunto e, depois, prometeu conversar com os governadores favoráveis à contribuição. Ao anunciar essa disposição, não apenas tornou seu discurso ambíguo, mas abriu uma brecha nos compromissos formulados na primeira fala depois da eleição e deu mais um argumento a quem recebeu com ceticismo o pronunciamento de domingo à noite.

Segundo a presidente eleita, governadores estão mobilizados para a defesa da volta da CPMF, extinta em dezembro de 2007. Foi uma referência ao movimento anunciado pelo governador reeleito do Piauí, Wilson Martins (PSB). Ele disse ter conversado sobre o assunto com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Além de Martins, também os governadores Cid Gomes (PSB-CE), Eduardo Campos (PSB-PE), Renato Casagrande (PSB-ES) e Jacques Wagner (PT-BA) defendem a proposta.

O presidente Lula encarregou-se de levantar o assunto na quarta-feira, antes da entrevista de sua sucessora. Ele mais uma vez lamentou a extinção da CPMF e acusou a oposição de haver prejudicado a maioria dos brasileiros.

Mas os tão pranteados R$ 40 bilhões anuais da CPMF nunca fizeram falta para a política de saúde. A arrecadação e a carga tributária continuaram crescendo nos anos seguintes. Se o presidente quisesse, poderia ter destinado verbas maiores aos programas de saúde. Bastaria conter despesas menos importantes ou claramente improdutivas. Frear o empreguismo e renunciar ao inchaço da folha de pessoal teriam sido boas providências.

Em nenhum outro país emergente a carga tributária é tão pesada quanto no Brasil, onde está próxima de 35% do Produto Interno Bruto (PIB). Além disso, a tributação brasileira é maior que a de várias economias avançadas, como Estados Unidos, Japão, Suíça, Espanha e Canadá. Emergentes com tributação menor que a do Brasil, incluídos México, Chile, Argentina e alguns asiáticos, têm padrões sanitários e educacionais superiores aos brasileiros.

A CPMF é desnecessária. União, Estados e municípios arrecadam, em conjunto, mais que o suficiente para custear os programas de saúde. Só não cumprem seus compromissos como deveriam por ineficiência e porque muitas administrações padecem de empreguismo e corrupção. Dinheiro não falta, mas falta usá-lo bem.

A CPMF serviu sobretudo para dar ao governo maior liberdade de gasto - não necessariamente um gasto bem dirigido. O grau de competência dos administradores continuou - e continua - sendo o fator mais importante para o sucesso ou insucesso das políticas de saúde. Mas o presidente Lula, seu partido e seus aliados nunca deram muita importância a variáveis como produtividade e competência.

Com o aumento dos gastos nos últimos dois anos, era previsível a volta da CPMF à pauta política depois das eleições, disse o economista Raul Velloso, especialista em contas públicas. A única surpresa, segundo ele, foi um retorno tão cedo.

Só "ricos e grandes" pagavam a CPMF, segundo o governador Wilson Martins. Mais que uma tolice, o argumento é indício de notável desinformação. O imposto do cheque incidia sobre toda liquidação financeira e, portanto, sobre cada operação da malha produtiva. Quanto mais complexa a malha, maior o peso dessa tributação, maior o dano ao poder competitivo do produtor nacional e maior o prejuízo para a criação de empregos.

A presidente eleita prometeu valorizar a seriedade fiscal e a eficiência administrativa. Se não quiser comprometer desde já sua credibilidade, deve ser fiel àquelas ideias, definindo-se claramente contra a criação de impostos para financiar a gastança e renunciar de forma inequívoca às aberrações do tipo da CPMF.

5 de novembro

Maria Helena Rubinato Rodrigues de Sousa

Hoje, 5 de novembro, comemora-se no Brasil o Dia da Cultura. A data foi escolhida por marcar o nascimento de Ruy Barbosa. Muito justo. Nada contra Ruy Barbosa, nem poderia ter...

Dele, para ser franca, conheço um pouco da rica biografia, sei que ficou conhecido como Águia de Haia por nos representar com imenso brilho naquela Corte, que é o autor da Oração aos Moços, que cunhou uma frase sempre repetida e muito assustadora (RB) e que recebeu de Joaquim Nabuco um dos mais rasgados elogios de que se tem notícia: "Ruy Barbosa, hoje a mais poderosa máquina cerebral do nosso país".

Vindo de quem veio, Nabuco, essas palavras são impressionantes e, para mim, já bastariam para justificar Ruy como patrono do Dia da Cultura.

Mas vou no popular, como dizem os cariocas com muito humor: já que temos um Dia da Cultura a comemorar, honro nesta data José Bento de Monteiro Lobato, criador de amigos de toda minha infância, juventude, maturidade e velhice. Já fui tratada pelo Dr. Caramujo, já piralampei muito com os meninos em suas viagens, já andei sentada no ombro de Heracles, já usei e abusei do Visconde, já sentei aos pés de Dona Benta, já escapei do Minotauro graças aos bolinhos da tia Nastácia e ainda abro muitas vezes a canastra onde guardo meus tesouros, inclusive a tesourinha de uma perna só.

Ser o país onde fica o Sítio do Picapau Amarelo é mais uma das magníficas dádivas de Deus para com o Brasil. Somos um país abençoado, terras férteis, matas riquíssimas, um litoral deslumbrante, montanhas, planícies e planaltos de extrema beleza. Mas entre essas dádivas, não se iludam, está sermos a terra natal de Monteiro Lobato, criador de criaturas que apaixonam as crianças.

O atual ministro da Cultura, Juca Ferreira, baiano como Ruy, fez publicar hoje uma bela carta sobre o Dia da Cultura no site de seu ministério: “É com enorme alegria que o Ministério da Cultura felicita hoje o Dia Nacional da Cultura. Celebração que neste momento especial não poderia ser mais simbólica em vista a importância que a pauta conquistou na agenda do país. É o momento de celebrarmos a riqueza da diversidade cultural, a plena liberdade de expressão e comemorar a força da arte brasileira”.

Quero, em primeiro lugar, cumprimentar o ministro por louvar e mencionar a “plena liberdade de expressão”, sem a qual não há Cultura que resista, e em segundo lugar, lhe dar os parabéns por ser tão sortudo: imaginem se hoje já estivesse em vigor a ignomínia que estava sendo tramada, proibir as Caçadas de Pedrinho de circular por nossas escolas!

Tenho certeza que essa ideia foi mais uma das que jorram da torneirinha de asneiras da Emília, que deve ter levado um bom sabão do Visconde e um pito muito merecido de Dona Benta. O que ela merece é que tia Nastácia nunca mais lhe remende os estragos...

E eu fecho por hoje minha torneirinha de asneiras, em homenagem ao Dia Nacional da Cultura e aos pacientes leitores que chegaram até aqui. Com um duplo abraço: por termos vencido mais uma campanha eleitoral – ufa! – e por olhar em volta e ver que ainda estamos no mesmo Brasil de sempre: lá vem por aí, bela e fagueira, mais uma das sempiternas promessas furadas que nos fazem, a CPMF. Fazer o que? Dar razão a Ruy Barbosa: o homem chega a desanimar da virtude...

BC dos EUA impõe derrota ao Brasil na "guerra cambial", dizem analistas

Toni Sciarretta, Folha de São Paulo

A injeção de US$ 600 bilhões pode não levar o consumidor americano de volta ao shopping no final do ano, mas com certeza estimulará os maiores fundos de hedge do mundo a trazer ainda mais dinheiro para o Brasil, segundo analistas.

Para o país, a medida terá como efeito nova rodada de apreciação do real, impondo mais uma derrota às tentativas do país de controlar o fluxo de capitais do exterior.

"Certamente, uma parte desse dinheiro todo virá para cá. Vai também para a China, a África do Sul e demais países emergentes onde ainda há oportunidade de ganho", disse Alkimar Moura, ex-diretor do BC brasileiro.

De natureza inflacionária, a injeção de dólares no mundo tem potencial para estimular alta da Bolsa e das moedas globais, além de valorização de commodities e de demais "ativos reais".

Todos esses mercados vêm subindo desde meados da semana passada por conta da expectativa da medida.

A própria China será impelida a estocar dinheiro em insumos e em produtos para se "proteger" da desvalorização do dólar americano.

Editoria de Arte/Folhapress

"A medida cria otimismo para o mercado financeiro global, mas não promove maior entusiasmo para as perspectivas da economia americana. Nos planos anteriores, o fluxo dos recursos para a economia e para o crédito foram pífios, sendo desviados para aplicações no mercado financeiro mundial. Não aumentou a fluidez do crédito nem a geração de empregos. Por que seria diferente dessa vez?", pergunta Sidnei Nehme, diretor da corretora NGO.

Para Alkimar Moura, no entanto, o risco maior hoje não é a inflação, mas uma nova fase da crise econômica do final de 2008. "O Fed impediu o mundo em 2008 de entrar em uma depressão, mas a situação ainda não está normal. Tanto não está que precisou tomar essa medida para aumentar liquidez", disse.

Analistas veem a injeção de recursos como a resposta dos EUA à "guerra cambial", que opõe nações desenvolvidas e emergentes. Ontem, o euro subiu 0,64% e atingiu US$ 1,41. O petróleo chegou próximo de US$ 85 o barril, terminando o dia a US$ 84,69, com alta de 0,94%.

Já o ouro, que desde quinta havia subido 2,5% por conta da expectativa da medida, recuou 1,4% ontem, para US$ 1.337,60 a onça.

Editoria de Arte/Folhapress 


No Brasil, a Bovespa subiu 0,48%, para os 71.904,77 pontos. A expectativa é que o Ibovespa passe hoje de 72 mil. Nos EUA, a Bolsa de Nova York subiu 0,24%.

O mercado de câmbio à vista estava fechado quando a medida foi anunciada nos Estados Unidos. O dólar encerrou o dia a R$ 1,701, com perda de 0,4%. Na BM&F, que fecha mais tarde, o dólar futuro (dezembro) reagiu ao anúncio, recuando 0,5%, para R$ 1,710.

Dilma terá que convencer que não é 'Lula de batom', diz 'Economist'

BBC Brasil

Para revista, eleita abrirá um precedente ruim se permitir que seu antecessor mantenha poder nos bastidores.

Na edição desta semana, a revista britânica Economist publica uma matéria sobre os desafios que a presidente eleita Dilma Rousseff enfrentará para provar que tem ideias próprias e que sairá da sombra de Lula.

"Ela terá de convencer os céticos de que ela não é apenas o Lula de batom", afirma a Economist.

Segundo a revista, até o momento ela vem lidando bem com a situação. Mas criará um precedente ruim para o Brasil se permitir que Lula permaneça no poder, nos bastidores.

Entre os obstáculos citados está a desconfiança de investidores, assim como aconteceu logo após a eleição de Lula, em 2002.

Do mesmo jeito que se preocupavam com ter no poder um ex-líder socialista, eles podem ver com temor o passado de Dilma, que lutou contra a ditadura nos anos 1960.

Segundo a revista, para confortar os eleitores mais ricos que votaram em José Serra, "no dia seguinte às eleições Dilma descreveu seus planos econômicos como 'nada que crie ondas ou confusões'".

Meirelles e Palocci
Mas suas nomeações passarão por forte escrutínio. A revista diz que investidores defendem a permanência de Henrique Meirelles no Banco Central e que estão de olho em Antonio Palocci.

Se Dilma escolher Palocci para a Casa Civil ou colocá-lo de volta no Ministério da Fazenda, ganhará a confiança do setor empresarial, diz a Economist. "Se ele (Palocci) acabar (nos ministérios) de Saúde e Educação, os empresários permanecerão céticos."

Desde as eleições, Dilma vem defendendo responsabilidade fiscal, ao mesmo tempo em que apoia gastos sociais com os mais pobres.

Para manter as duas promessas, a revista afirma que será preciso "cortar gordura das partes do orçamento em que Lula não tocou, como as pensões no serviço público. Mas atacar tais vantagens generosas provocaria a ira de sua base e dos sindicatos, que ainda são uma força considerável dentro do PT".

Dólares perigosos

O Estado de São Paulo

Pode custar caro ao Brasil a decisão do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) de lançar mais US$ 600 bilhões em circulação até o meio do próximo ano. O plano é emitir cerca de US$ 75 bilhões por mês em mais um esforço para reanimar a economia dos Estados Unidos, ainda com baixo ritmo de atividade e desemprego acima de 9% da força de trabalho. Em troca desse dinheiro o Fed comprará títulos federais em poder do público. Dólares continuarão inundando os mercados e forçando a valorização do real e de outras moedas. Produtores brasileiros terão maior dificuldade não só para exportar, mas também para competir no mercado interno, porque a sua moeda já é uma das mais valorizadas do mundo. Chineses continuarão levando vantagem sobre a maior parte dos concorrentes, porque darão um jeito de manter o yuan desvalorizado, talvez um pouco menos do que antes para mostrar alguma boa vontade.

O objetivo do Fed, segundo a explicação oficial, é estimular as operações de crédito para animar o consumo e movimentar a produção. Todos torcem pela recuperação da economia americana, a mais importante do mundo, mas nem todos aplaudem a política monetária dos Estados Unidos, por causa de seus efeitos no mercado internacional de câmbio. Na prática, os americanos exportam sua crise para o resto do mundo, em vez de contribuir para a reativação global.

O Fed já havia indicado a disposição de emitir mais dinheiro. Seria a segunda grande operação desse tipo. A única surpresa foi o montante, porque os analistas apostavam em US$ 500 bilhões. Com os juros básicos na faixa de zero a 0,25% ao ano desde dezembro de 2008, as possibilidades de ação do banco central americano estavam muito limitadas. Pouco ou nada restaria além de jogar mais dólares no mercado.

Críticos da política americana, como o ministro Guido Mantega e alguns de seus colegas europeus, têm defendido outra solução. Seria melhor, segundo seu raciocínio, continuar recorrendo a estímulos fiscais para reativar o consumo e a produção nos Estados Unidos. O cardápio clássico poderia incluir mais investimentos públicos, forma direta e eficiente de criar empregos e de movimentar indústrias de equipamentos e de materiais.

A derrota eleitoral do presidente Barack Obama, nas eleições do meio do mandato, foi uma péssima notícia para quem torcia por uma solução daquele tipo. Os principais vitoriosos são os grupos mais conservadores do Partido Republicano. Eles nunca se mobilizaram para deter a gastança do presidente George W. Bush, responsável por uma devastação nas contas públicas. A contenção dos gastos federais foi, no entanto, uma de suas principais bandeiras na campanha recém-terminada.

Quando a crise se agravou, no terceiro trimestre de 2008, o orçamento federal dos Estados Unidos já estava em más condições. Novas despesas foram realizadas para o combate à recessão. Durante algum tempo, essa política pareceu dar algum resultado. Mas a economia voltou a fraquejar e necessita, agora, de mais um bom empurrão.

Qualquer novo programa de estímulos fiscais apresentado pelo Executivo será recebido, quase certamente, com forte resistência no Congresso. O Partido Republicano conquistou a maioria na Câmara de Representantes e a vantagem democrata no Senado tornou-se mais apertada. O presidente Obama terá maior dificuldade para negociar novos pacotes antirrecessivos.

Esta tem sido, pelo menos, a avaliação mais comum dos analistas. Se estiver correta, a economia americana dependerá quase exclusivamente do afrouxamento monetário para ganhar algum impulso. Nada garante esse resultado. Seria muito mais confiável uma política de gastos públicos, principalmente se orientada para investimentos.

Quanto à política de comércio, dificilmente será influenciada pelo resultado das eleições. Republicanos tendem a ser menos protecionistas que democratas, mas todos, ainda por um bom tempo, tentarão proteger a produção nacional. Quanto mais lenta a recuperação, mais duradoura será a tendência ao fechamento comercial. Não há perspectiva imediata de grandes novidades positivas.

A tartaruga e o poste

Percival Puggina

Nos últimos meses circulou muito na internet a parábola da tartaruga que apareceu em cima de um poste. Ninguém entende como ela chegou lá. Todo mundo sabe que não subiu sozinha, que ali não é o lugar dela e que aquilo não vai terminar bem. Pois neste melancólico final de tarde do dia 31 de outubro de 2010, a tartaruga está no poste. Ou melhor, posta no poste.

Teoricamente, na eleição finda, o eleitor brasileiro tinha que escolher entre governo e oposição. Teoricamente. Na prática a coisa era um pouco diferente. “Governo” queria dizer Lula em qualquer versão que ele ungisse para o substituir e “oposição” queria dizer José Serra – uma das menores vocações oposicionistas que a política brasileira já produziu. Serra tem sido bom no governo, mas é um péssimo líder oposicionista. E a tartaruga acabou em cima do poste.

Não se espante, leitor. E admita: o candidato de Lula poderia ter sido o próprio poste. Ganharia também. Por quê? Porque estavam dadas as condições para que isso acontecesse, a saber: uma oposição sem liderança visível e totalmente desorganizada; uma decadência da capacidade de análise política; a cooptação pelo oficialismo de praticamente todas as estruturas e instituições da sociedade; a gastança dos recursos públicos com fins eleitorais que dá luz verde para qualquer candidatura, mas já acende luz amarela em todos os indicadores da economia brasileira. E por aí vai. Acrescente suas próprias observações. Elas, por certo, serão pertinentes.

A tartaruga está em cima do poste e muitos analistas da grande mídia se interrogavam, hoje à tarde, num assomo de discernimento, num surto de curiosidade que se manteve ausente durante a campanha eleitoral, se o futuro governo seria de Dilma, de Lula, de José Dirceu, do PT ou do PMDB. Interrogações póstumas, como se percebe, perante as quais não há resposta boa nem menos pior. Precisamos de um milagre. Ou melhor, de dois. O primeiro para que o futuro governo contrarie as expectativas pessimistas da minoria que o rejeitou nas urnas. E o segundo para que surja no país, em curto prazo, uma liderança oposicionista competente e confiável. Por isso, daqui para frente, muita oração pelo bem do Brasil. Santa Rita (das causas impossíveis) e Santo Expedito (das causas justas e urgentes) são bons intercessores para a atualidade nacional.

Ou: fazer oposição é uma missão constitucional!

Reinaldo Azevedo

Oposicionistas no Brasil podem aprender com o republicanos nos EUA ou repetir os próprios erros.

Os dias andam muito animados no Brasil, e quase não há tempo para falar sobre o que vai mundo afora. Os EUA estão realizando eleições hoje. Disputam-se as 435 cadeiras da Câmara, 37 das 100 do Senado e 37 dos 50 governos de estado. Começo com um gracejo: quem entende de eleições americanas é o meu amigo Caio Blinder (bem mais progressista do que eu — mas quase todo mundo é…); eu entendo é de oposição desde o regime militar, hehe. Sempre fui oposição!

Barack Obama foi eleito presidente dos Estados Unidos há dois anos. Antes que a maioria dos americanos tivesse decidido votar nele, o mundo já o tinha elegido. Reclamei ontem de um repórter do Jornal da Globo que afirmou que a eleição de Dilma “já é histórica” no Brasil, “a primeira mulher”… À época, critiquei a imprensa brasileira e mundial por causa da também chamada “eleição histórica” de Obama, “o primeiro negro” etc e tal. Ninguém é histórico antes da história. A história que se faz com antecedência costuma ser pura mistificação.

É grande a possibilidade de que Obama perca hoje a maioria na Câmara. No Senado, o risco é menor, mas existe. Os republicanos, quem diria?, estão mais vivos do que nunca. O sistema eleitoral americano, que deu uma vitória acachapante para Obama no Colégio eleitoral — 365 votos a 173 — escondia uma verdade importante: Obama obteve 52% dos votos, e John McCain, o republicado, 47%. Como venceu na maioria dos estados, especialmente nos mais populosos, os democratas arrebatavam todos os delegados. O massacre do colégio estava longe de representar um massacre de votos. Embora a imprensa liberal americana — e a influenciada pela esquerda mundo afora — insistisse em declarar a morte dos republicanos, a verdade é que eles estavam vivíssimos.

Por vivos, decidiram fazer valer aqueles 47% — e é claro que estou batendo na cangalha para ver se os tucanos entendem: os tucanos que obtiveram 44% dos votos no Brasil! Obama tomou posse e tinha uma gigantesca tarefa pela frente. Se alguém podia falar em “herança maldita”, esse alguém era ele. Mas, para sorte dos americanos, essa conversa por lá pega mal. O país tem a sorte de ter uma cultura política que considera que devem se apresentar para governar aqueles que julgar ter uma resposta eficiente a dar aos problemas. Ninguém precisa de governo para reclamar das dificuldades e para jogar a culpa nos ombros dos adversários.

Obama tem um forte lado terceiro-mundista no comportamento político. Sua retórica traz laivos de messianismo às vezes; ele também gosta, como fez hoje durante todo o dia em entrevistas a rádios, de separar os políticos entre os que fazem a América “avançar” ou “recuar”, essas coisas… Mas teve de ser comedido na demonização do passado. Os americanos o haviam escolhido para governar em lugar dos republicados, não para reclamar dos antecessores.

Dadas as dificuldades, ele até foi bem-sucedido nesses dois anos. Conseguiu aprovar seu plano para a Saúde; iniciou a retirada das tropas do Iraque, a economia se recupera com mais dificuldade do que se esperava, mas o país saiu da lama. E, bem, Obama é Obama, não é? Conta com a simpatia da esmagadora maioria da imprensa americana… Ocorre que…

Oposição
Ocorre que existe oposição para valer nos EUA. Obama estava no poder havia 15 dias, e o odiado Dick Cheney, a besta-fera inventada pelos “progressistas”, deu o grito de guerra e convocou as tropas: “Não, ele não pode!” E convocou a tropa. A emergência do “Tea Party”, um movimento ultraconservador dentro do Partido Republicano, trouxe para o primeiro plano os ditos “valores americanos”. Fantasia? Pura construção ideológica? Pode ser. Mas Obama era e é o quê? A encarnação da própria verdade? O movimento tem sido implacavelmente demonizado pela imprensa liberal, mas esse trabalho de desqualificação tem se mostrado inútil.

À diferença do “Cara” no Brasil, Obama é hoje aprovado por apenas 45% dos americanos. Desaprovam-no nada menos de 51%, e acreditam que ele não se reelege em 2012 52% da população. As eleições presidenciais estão longe ainda. Uma coisa é fato: os sinais são péssimos para ele. Ainda que os republicanos não venham a fazer hoje a maioria na Câmara, terão uma avalanche de votos. A situação é tão difícil que, nas entrevistas de rádio, ele abre o jogo, mais ou menos como Lula nos palanques pedindo maioria no Senado: precisa vencer os republicanos nas eleições legislativas para continuar a implementar o seu programa. A retórica é temerária: e se não conseguir? Então admite que seu governo foi para o brejo?

Onde errou?
No que concerne ao jogo político propriamente, onde foi que Obama errou? Em quase nada. Os republicanos é que acertaram. Oposição se faz desde o primeiro dia, todos as horas do dia, todos os dias do mês, todos os meses do ano. Deram um baile nos democratas no chamado plano da Saúde, finalmente aprovado. Mas foi preciso fazer muita concessão. Na questão da recuperação econômica, nada dessa história de “comitê de salvação nacional”… Os oposicionistas botaram a boca no trombone, obrigando o governo a se explicar, justificando cada um dos eventuais insucessos. Obama certamente não esperava uma oposição tão aguerrida e confiou demais no seu charme pessoal— talvez tenha sido seu único erro.

Aqueles que viam em George W. Bush a encarnação do demônio e que enxergavam em Obama o demiurgo humanista tendem a ver os republicanos como símbolos da hipocrisia, do mau-caratismo, da má consciência, essas coisas. “Onde já se viu? Depois de tudo o que fizeram?” Pois é. SÃO PESSOAS QUE AMAM A JUSTIÇA, MAS QUE ODEIAM A DEMOCRACIA. Está cheio de gente assim. Não raro, acabam condescendendo com “totalitários do bem”.

Pois eu já vejo o contrário. Embora seja um “republicano” nos EUA (risos), saudei a eleição de Obama como evidência das virtudes do sistema democrático. E saúde a reação do “meu” partido como prova dessa mesma saúde. Desde que se jogue segundo as regras, a democracia não pode satanizar ninguém. Golpistas, pois, são aqueles que pretendem tirar das forças políticas legítimas as suas prerrogativas — e fazer oposição é uma delas.

Encerrando
Falemos um pouco sobre o Brasil já que é disso que trato aqui desde sempre. O PSDB, o DEM e o PPS têm dois caminhos: podem agir como o PSDB nos últimos oito anos, buscando sempre o, como é mesmo?, “espaço da convergência com o lulo-petismo” em nome daquele sagrado “bem do Brasil”; podem seguir o caminho do Partido Republicano nos EUA e exercer a função para a qual os eleitores os designaram: opor-se. Sim, sim, as diferenças são grandes. Naquele país, existe um quadro de bipartidarismo; por aqui, temos essa massa gelatinosa chamada PMDB. Não ignoro as particularidades. Uma coisa, no entanto, é certa lá e aqui: a ambigüidade da oposição só interessa a quem está no comando.

PS - “E se Obama for reeleito, Reinaldo, o que você vai dizer?” Vou dizer que os republicanos fizeram de tudo para vencer. Puxando o saco do presidente é que não conseguiriam voltar à Casa Branca.

PS2 -”Vejam o Reinaldo! Os republicanos só agem daquele modo porque a popularidade do presidente está abaixo de 50%; aqui, Lula está acima de 80%”. Ainda que os critérios de medição sejam os mesmos, o que duvido um pouco, reitero que os republicanos começaram a cumpir a sua TAREFA CONSTITUCIONAL quando a dita popularidade do presidente estava acima dos 70%.

Vamos identificar pela impressão digital 140 milhões de eleitores. E por que não conseguimos um cadastro central de criminosos?

Ricardo Setti, Veja online

Como um estado capaz de cadastrar 140 milhões de pessoas não conseguiu até hoje montar um banco de dados nacional de criminosos?

Amigos do blog, vejam que beleza: o presidente do Tribunal Superior Eleitoral, ministro Ricado Lewandowski, anunciou que em 2017 todos os eleitores brasileiros estarão cadastrados pelo sistema biométrico, que permite identificação por meio das impressões digitais.

Temos hoje 135,8 milhões de eleitores. Em 2017, deverão passar de 140 milhões.

Agora, a pergunta: como um estado capaz de cadastrar por esse fantástico e infalível método de identificação 140 milhões de pessoas não conseguiu até hoje montar um banco de dados nacional de criminosos condenados, de modo a facilitar o combate ao crime?

Poderiam ser incluídos num banco de dados com o mesmo tipo de tecnologia também todas as pessoas processadas por crimes violentos, mesmo que não condenadas — não para serem perseguidas, mas para facilitar os trabalhos da polícia técnica. A possibilidade de alguém processado por crime violento ser efetivamente um criminoso é alta, do ponto de vista estatístico.

CUSTARIA de 10 a 15% DO PREÇO DO TREM-BALA — Um cadastro desses permitiria, idealmente, que todas as delegacias de polícia do país, as unidades das polícias militares e mesmo veículos de patrulhamento tivessem acesso instantâneo a informações fundamentais para a identificação de suspeitos, o combate e a prevenção do crime.

Pela tecnologia, dar-se-ia um passo gigantesco — repito, gigantesco, colossal — para reduzir a criminalidade e fazer potenciais criminosos pensarem duas vezes antes de agir.

Tudo isso poderia ser feito, ou começar a tomar corpo no governo federal, pelo equivalente a 10% ou 15% dos 33 bilhões de reais do custo estimado para o trem-bala que ligará São Paulo ao Rio — se realmente a ferrovia de alta velocidade sair do papel.

Montado o cadastro com a indispensável colaboração das polícias estaduais, os estados gradualmente implantariam a infraestrutura para os terminais de consulta, com eventual financiamento de Brasília.

Não vale a pena?

A revanche republicana

O Estado de São Paulo

A Lei das Expectativas Frustradas abateu-se implacavelmente sobre o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, nas eleições de meio de mandato, anteontem. O contraste entre o que prometeu na campanha histórica à Casa Branca, em 2008, e o que logrou fazer nos dois anos seguintes traduziu-se para ele e o seu Partido Democrata numa derrota também histórica no pleito para a renovação da Câmara dos Representantes, de 34 das 100 cadeiras do Senado e de 37 governos estaduais.

O chamado "ressurgimento republicano" foi mais contundente do que no pleito de 1994, quando a nova direita do partido acuou o então presidente Bill Clinton ao tomar dos democratas o seu domínio de longa data sobre o Capitólio. Precisando agora recuperar na Câmara 218 assentos para conquistar a maioria na Casa, a oposição obteve 239. Dito de outro modo, 60 lugares mudaram de cor: do azul democrata para o vermelho republicano, na peculiar paleta política americana. Isso não acontecia há 62 anos.

No Senado, onde ocorreu o mesmo com 6 vagas, os democratas ainda conseguiram agarrar-se, como um náufrago ao rochedo, ao mínimo de cadeiras numericamente necessárias (51) para deter a maioria - mas a vantagem nominal não impedirá os republicanos de obstruir sistematicamente as votações de projetos de interesse do governo. E o que pretendem os vitoriosos da hora, que capitalizaram o descontentamento do eleitorado com a política econômica de Obama - incapaz de tirar o índice de desemprego da vizinhança dos 10%.

Segundo pesquisas recentes, praticamente 9 em cada 10 americanos decididos a ir às urnas se declararam preocupados com a economia - que o presidente se gaba de ter "estabilizado" - e 4 em 10 disseram que a vida piorou para as suas famílias nos últimos 2 anos. Outros eleitores dos segmentos da população que foram decisivos para o triunfo de Obama, como os negros, os hispânicos, os jovens, os diplomados por universidades e a elite das novas profissões, exprimiram o seu desencanto deixando de votar.

Não que os republicanos tivessem apresentando uma agenda alternativa viável. As suas únicas propostas marteladas sem cessar - reduzir o biliardário déficit público e cortar mais impostos, além de tornar permanente o que já foi cortado - se excluem umas às outras. "Reaver o nosso governo", a palavra de ordem que a oposição tomou emprestada do movimento ultraconservador Tea Party (que conseguiu emplacar 2 senadores e com o qual simpatizam 40% dos votantes efetivos) significa apenas impedir Obama de governar.

"Faremos tudo que pudermos fazer para retardar, deter, matar" os projetos do presidente, prometeu o novo presidente da Câmara, John Boehner. Ainda assim, Obama lhe telefonou na madrugada de ontem para exortá-lo a procurar "pontos em comum" para a próxima legislatura. Ele há de ter pensado que era a coisa certa a fazer, como se a oposição não tivesse dado as costas às suas ofertas para negociar o projeto de reforma do sistema da saúde e o pacote de resgate da economia - afinal aprovados sem um único voto republicano.

Obama facilitou demais as coisas para os seus adversários - ou melhor, inimigos, dado o ódio que a direita tem por ele. O candidato que eletrizou o país com a sua retórica soberba se revelou um presidente cerebral, distante, incapaz de transmitir emoção mesmo ao falar das agruras do americano comum e acomodado sem constrangimento aparente aos podres de Washington que não se cansara de verberar.

Foi como se do fogo da campanha ele não levasse nem uma fagulha para a Casa Branca. Ao lembrar os americanos de algumas verdades - impediu que a recessão herdada do governo Bush se transformasse em outra Grande Depressão, reformou o sistema financeiro e foi o primeiro presidente a aprovar um programa de acesso universal ao sistema de saúde - as suas palavras soavam inconvincentes diante da lembrança do seu mote eleitoral "Sim, podemos". Há pouco, numa entrevista, ele teve que emendar: "Sim, podemos, mas? não será da noite para o dia." Muito menos de agora em diante. Se a presidente demonstrar a sensatez e sensibilidade de Lula, e seguir o caminho certo, passará por uma metamorfose como a do seu criador. E, no campo das mudanças imprevistas, ela também terá em Lula um conselheiro experiente.

Primeiras impressões da presidente eleita

O Globo - Editorial

Dilma Rousseff foi eleita sob a marca do continuísmo.

Nada expressa melhor a relação entre criatura e criador, explorada ao máximo na campanha pelo lulopetismo, do que a qualificação de “a mulher de Lula” dada à candidata por eleitores de baixa instrução, de regiões sustentadas pelo Bolsa Família e benefícios previdenciários, onde a presidente teve votação maciça.

Mas, como nem sempre as contingências da vida real se curvam aos planos dos políticos, a Era Dilma se confronta com questões intricadas na área econômica cujo enfrentamento requer mudanças de políticas seguidas no segundo governo Lula, com entusiasmado apoio da então ministra chefe da Casa Civil, principalmente as relacionadas aos gastos públicos.

São positivos os primeiros sinais emitidos pela presidente eleita. Ao deixar claro, logo no domingo, na noite da comemoração da vitória, que governo não pode gastar além das possibilidades, além do que seja “sustentável”, a presidente eleita, Dilma Rousseff, demonstrou saber qual um dos pontos nevrálgicos da futura administração: a depender da forma com que maneje as contas públicas, poderá garantir o sucesso da sua gestão ou fomentar o fracasso dela, em meio à volta da inflação e perda de impulso do crescimento, num trágico retorno ao passado.

Naquele discurso e nas entrevistas concedidas segunda-feira nas TVs Globo e Record, Dilma reafirmou a postura, interpretada como uma reedição da Carta ao Povo Brasileiro, em que Lula, em meados de 2002, no início da fase final da campanha que seria vitoriosa, se comprometeu a não cometer delírios à frente do país — delírios que ele e o PT não se cansaram de defender nos tempos de oposição.

Nestas primeiras declarações, de fato, Dilma Rousseff seguiu aquele roteiro: não deixará de cumprir contratos, manterá a política de câmbio flutuante — adaptado à conjuntura de guerra cambial no planeta, acrescentou.

Em resumo: “Eu manterei todos os princípios que regeram nosso governo no período do Lula”, comprometeu-se na entrevista ao “Jornal Nacional”. Uma notícia positiva, se confirmada, é a da criação de metas para os gastos correntes (que precisam ser contidos) e os investimentos (estimulados), de forma a se obter superávits primários que voltem a reduzir o peso da dívida interna em relação ao PIB.

Caso não se continue a executar maquiagens contábeis no endividamento, será uma política bem-vinda. Termômetro sensível das expectativas dos agentes financeiros, radar atento de tendências, o mercado futuro de juros apontou para baixo.

Em um mundo globalizado, com os mercados informatizados e interligados, essas reações podem ser acompanhadas em tempo real. Deverá haver uma transição curiosa.

Em 2003, Lula, eleito pela primeira vez, teve de debelar os efeitos negativos do seu próprio risco político. Em 2006, reeleito, o presidente se beneficiou da política de estabilização executada pela dupla Palocci/Meireles, e, com Dilma e Guido Mantega no centro do poder, permitiu que se acelerassem os gastos.

Agora, a presidente Dilma precisa conter uma política de gastos pela qual se bateu.

Estupidamente incorreto

Nelson Motta - O Estado de S.Paulo

A estupidez humana não conhece limites, principalmente quando acredita estar agindo em nome de Deus ou "fazendo o bem". Além de tentar controlar e censurar a liberdade de opinião, o politicamente correto agora quer reescrever a História.

Nos Estados Unidos, Huckleberry Finn, de Mark Twain, um clássico da literatura americana, foi banido em muitas escolas, sob a acusação de racismo. Porque no livro, que se passa no século 19, os negros são chamados de "nigger", um pejorativo pior do que "crioulo". Por ironia, os negros americanos modernos resgataram criticamente a palavra maldita e se tratam entre si pelo vocativo "nigga", um equivalente afetuoso de "negão". Garotos negros e brancos continuam se encantando com os livros de Mark Twain. E o racismo é história.

No Brasil, macaqueando o gringo, querem banir das escolas o clássico infantil Caçadas de Pedrinho, de Monteiro Lobato, por suposto conteúdo racista, ao comparar Tia Nastácia a uma macaca quando ela trepa agilmente em uma árvore fugindo de uma onça. Numa edição mais correta, Tia Nastácia deveria ser comida pela onça. E não haveria nenhuma caçada, porque a onça é um animal em extinção e a simples ideia de caçá-la é intolerável em "um mundo melhor".

Tia Nastácia foi um dos grandes amores de minha infância e de todos que leram os livros de Monteiro Lobato. Era carinhosa, sabida, engraçada, popular, uma queridona. A cor de sua pele sempre foi um detalhe e só serviu para me incutir a ideia de que gente de qualquer cor poderia ser adorável. Ou detestável. Foi uma vigorosa contribuição contra os preconceitos e a intolerância.

Graças ao amor e à sabedoria de uma velha caipira e uma negra analfabeta, Pedrinho, Narizinho e várias gerações de brasileiros receberam uma rica educação, baseada na cultura e na aventura, na liberdade e na alegria. Com impecável ética pessoal, Dona Benta e Tia Nastácia, além de divertir e ensinar, passavam às crianças valores universais. Mais correto seria adotar em todas as escolas brasileiras o Guia politicamente incorreto da História do Brasil, de Leandro Narloch. Para educar os educadores.

Reedição do 'Febeapá'

O Estado de São Paulo

Numa iniciativa sensata, o ministro da Educação, Fernando Haddad, decidiu não homologar parecer do Conselho Nacional de Educação (CNE) contrário à distribuição, para a rede pública de ensino fundamental, do livro Caçadas de Pedrinho, de Monteiro Lobato. A decisão do ministro foi tomada um dia antes da reunião marcada pela Academia Brasileira de Letras (ABL) para elaborar uma nota de protesto contra a censura do mais consagrado dos autores de literatura infantil do País.

Aprovado por unanimidade, o parecer do CNE considerou racista a construção do personagem Tia Nastácia - uma das mais importantes nas histórias infantis de Lobato. O parecer foi preparado pela conselheira Nilma Lino Gomes, da Câmara de Educação Básica do CNE. Professora do Departamento de Administração Escolar da Universidade Federal de Minas Gerais, onde é coordenadora do Programa de Ações Afirmativas e do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Relações Raciais e Ações Afirmativas, ela afirmou em seu relatório que o tratamento dado por Monteiro Lobato a animais como o urubu e o macaco, nas histórias envolvendo Tia Nastácia e demais personagens da turma do Sítio do Picapau Amarelo, tem elementos de depreciação racial contra negros e o universo africano.

O livro Caçadas de Pedrinho foi publicado em 1933 e os pedagogos sempre o consideraram uma ferramenta pedagógica fundamental para ajudar na alfabetização de crianças, despertando nelas o gosto pela leitura. Em seu parecer, a conselheira Nilma Lino Gomes também sugeriu que, caso optasse por não interromper a distribuição do livro às escolas, o Ministério da Educação (MEC) deveria incluir uma "nota explicativa" sobre a presença de "estereótipos raciais" na obra, sob pretexto de "auxiliar" o trabalho dos professores.

Essa é mais uma amostra das "panes mentais" que a obsessão com ações politicamente corretas costuma produzir. O caso chegou ao CNE por meio de uma denúncia encaminhada por um servidor do governo do Distrito Federal que faz mestrado na área de Gênero, Raça/Etnia e Juventude na Universidade de Brasília. Entre outros absurdos, ele acusou os editores de Caçadas de Pedrinho de não terem adaptado o livro a um novo contexto histórico, "no qual tem sido realizada uma série de estudos críticos que analisam o lugar do negro na literatura infantil". E foi além, afirmando que, como o governo federal implementou "políticas para a educação das relações étnico-raciais" (sic), não faria sentido o MEC distribuir livros com "expressões de prática de racismo cultural, institucional ou individual na educação básica e na educação superior".

Em vez de arquivar a "denúncia", por seu caráter obtuso e ideologicamente enviesado, as autoridades educacionais trataram-na como coisa séria, submetendo-a à apreciação de diferentes órgãos oficias. Antes de chegar ao CNE, a petição passou pela chefia de gabinete do ministro da Educação, pela Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade, pela Coordenação de Material Didático do MEC e pela Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial. E todos eles acolheram os argumentos do "denunciante" e emitiram parecer favorável à suspensão de sua distribuição para as escolas - numa autêntica reedição do famoso Febeapá, o festival de besteiras que assolam o País, do saudoso Sergio Porto.

O parecer do CNE causou perplexidade nos meios educacionais e culturais. Ele foi classificado como "estreito e preconceituoso" por Vladimir Sacchetta - o principal historiador da obra de Monteiro Lobato e autor de uma de suas biografias, o que lhe rendeu o Prêmio Jabuti de 1998. O próprio ministro da Educação endossou a crítica de Sacchetta. "É incomum a quantidade de manifestações que recebemos de especialistas e que não veem prejuízo para que a obra de Lobato continue sendo adotada nas escolas", disse Haddad.

Depois de decidir não homologar o parecer, o ministro anunciou que proporá o reexame da questão ao CNE. Foi a forma que encontrou para tentar proporcionar uma saída honrosa ao órgão.

As contas para mudar o mundo

Washington Novaes - O Estado de São Paulo

Que consequências práticas terão os acordos considerados "históricos" pelos 193 países que os firmaram na Convenção da Diversidade Biológica em Nagoya, no Japão, e relatados neste jornal (29 e 30/10) por Herton Escobar? O fato é que se conseguiu chegar a algumas regras consideradas fundamentais para a sobrevivência humana no planeta - ainda que para isso tenha sido preciso "colocar um valor monetário na vida" (31/10). Os acordos incluem: 1) Um plano estratégico com metas globais para a conservação no período 2011-2020; 2) um protocolo que define regras para o uso de recursos genéticos derivados de plantas, animais e microrganismos, bem como formatos que respeitem a soberania dos países detentores sobre esses recursos e levem à partilha de benefícios entre o detentor e outros países e suas empresas que venham a explorá-los; e 3) a intenção de firmar em 2011, em reunião na Índia, um acordo sobre mecanismos financeiros que tornem viável atingir as metas acordadas.

O ponto de partida é difícil: nenhuma das metas para a conservação previstas para o período 2000-2010 foi atingida. A questão financeira, complicada: em Nagoya os países em desenvolvimento calcularam em US$ 300 bilhões anuais (cem vezes mais que os atuais recursos) os financiamentos necessários para que façam sua parte - e até aqui apenas o Japão se disse disposto a entrar com US$ 2 bilhões. Os países mais pobres reivindicaram também a eliminação de subsídios anuais de US$ 500 bilhões que países desenvolvidos concedem a atividades com impacto negativo na biodiversidade.

Quanto aos recursos genéticos, o tempo vai dizer se será superada a ferrenha resistência dos países industrializados a partilhar benefícios. No Japão, quando os países africanos reivindicaram também o partilhamento dos benefícios de produtos já explorados, os industrializados lembraram que, nesse caso, países como o Brasil e outros deveriam, então, pagar pelo uso secular que fazem de espécies de outros países, como café, laranja, trigo, cana-de-açúcar, arroz, coco, etc. Retrucaram os primeiros que hoje menos de 1% do valor dos produtos industriais derivados da biodiversidade chega aos países detentores dos recursos - quando o biólogo Thomas Lovejoy diz que só o comércio de medicamentos derivados de plantas está hoje em US$ 250 bilhões anuais.

Só no ano que vem, na Índia, vai-se ver quais serão os avanços práticos. Porque os acordos de Nagoya são tratados políticos, não têm força de lei. Cada país terá de criar mecanismos internos para cumpri-los. Mas é tudo muito urgente. Já têm sido citados relatórios como os do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e outras instituições, segundo as os quais os prejuízos na área da biodiversidade têm ficado entre US$ 2 trilhões e US$ 4 trilhões por ano, principalmente por causa de sobrexploração de recursos e serviços naturais, mudanças climáticas, poluição, acidificação dos oceanos, perda e degradação de hábitats (com novas culturas, pastagens, expansão de áreas urbanas). Segundo a Organização para a Alimentação e a Agricultura (FAO), da ONU, em cem anos já se perderam 75% da biodiversidade de plantas alimentares - e mais 22% dos cultivos de batata, feijão e arroz poderão perder-se por causa de mudanças climáticas. Gregory Asner, da Universidade da Califórnia, estima que até o fim do século a perda de florestas tropicais poderá chegar a 82% por causa do clima e da devastação localizada (New Scientist, 14/8).

As metas para 2011-2020 tentam criar caminhos para evitar essa trajetória de perdas. Estabelecem que é preciso reduzir à metade, "e onde for possível a zero", a taxa de perdas de hábitats naturais, incluindo florestas; para isso será preciso ampliar dos atuais 12,5% para 17% a área global de conservação em terra e de 1,5% para 10% as áreas marinhas e costeiras. Além disso, os governos precisarão recuperar pelo menos 15% das áreas degradadas; reduzir a pressão sobre recifes de corais; aumentar os recursos financeiros para conservação da biodiversidade; assumir o compromisso de incluir esses objetivos nas estratégias nacionais e, em dois anos, ter um plano nacional de ação, que deve ter um capítulo sobre a relação entre a diversidade biológica e as cidades.

O Brasil foi criticado por bloquear discussões sobre monitoramento de danos nas culturas geradoras de agrocombustíveis - mas também argumentou no Japão que 75% das áreas de conservação criadas no mundo desde 2003 estão por aqui. Por isso quer receber recursos da ordem de US$ 1 bilhão por ano para essa área.

Talvez o ponto de maior impacto das discussões tenha sido o pronunciamento do presidente do Banco Mundial, Robert Zoellick, segundo quem "o capital natural das nações deveria ser um item calculado em combinação com o capital financeiro, a produção industrial e o capital humano. As contas nacionais precisam refletir os serviços vitais prestados pelos estoques retidos de carbono nas florestas e os valores que os recifes de corais e mangues significam para a proteção costeira. A conservação de recursos naturais, dos ecossistemas e da biodiversidade é decisiva para o desenvolvimento e para melhorar a vida dos pobres". Entra-se aí na discussão sobre que fatores estão implícitos no desenvolvimento e devem ser considerados nas contas nacionais (PIB). O acordo de Nagoya propõe até incluir no balanço das empresas o custo de "externalidades ambientais" que tenham gerado. A Noruega já criou um índice para avaliar a situação dos recursos naturais, com 309 indicadores. Na França, comissão nomeada pelo governo e integrada pelo Prêmio Nobel Amartya Sen e Joseph Stiglitz, entre outros, já está propondo a incorporação de alguns valores ao PIB, como o do trabalho doméstico, do trabalho informal.

Quando chegará aos nossos meios políticos e administrativos essa discussão?

Dia de Luto

Rodrigo Constantino, O Globo

O dia 2 de novembro foi escolhido como data oficial para a homenagem aos mortos. Gostaria de prestar aqui minha homenagem ao mais recente defunto brasileiro: a Ética. Seu falecimento gerou profunda tristeza em milhões de brasileiros. Não foi morte acidental, mas homicídio. Cinqüenta e cinco milhões de brasileiros executaram a Ética à queima-roupa, no dia 31 de outubro. As armas usadas: as urnas.

Esta eleição foi caracterizada pelo total desprezo aos valores éticos. O presidente Lula foi o grande responsável por esta lamentável postura. Colocou na cabeça que a única meta importante era eleger sua candidata, e qualquer meio poderia ser usado para tanto. O presidente da República, representante de todo o povo brasileiro, tornou-se um empolgado cabo eleitoral, ignorando as funções de seu cargo, as leis e o respeito às regras de uma democracia limpa.

A máquina estatal ficou a serviço do partido. Aécio Neves resumiu bem: “Presidente Lula sai menor do que entrou nesta eleição”. Lula mostrou ser um populista que só pensa nas próximas eleições, ao contrário de um estadista, que foca nas próximas gerações. Fazendo analogia com o futebol, ao gosto de Lula, foi como vencer com um gol de mão, sem legitimidade.

Durante as eleições, vários escândalos vieram à tona, envolvendo gente muito próxima de Dilma, como Erenice Guerra, seu braço-direito. Acusada de “tráfico de influência” no comando da Casa Civil, Erenice foi ignorada por boa parte dos eleitores. A mensagem, que já havia sido dada nas eleições de 2006, no auge do escândalo do “mensalão”, foi reforçada: não tem problema usar o Estado como patrimônio particular, desde que a economia vá bem.

O voto com o bolso representa um enorme perigo para a democracia. Lênin dizia que iria comprar da burguesia a corda usada para enforcá-la. Para agravar a situação, a naturalidade com que vários petistas abraçam ditadores mundo afora demonstra seu verdadeiro “apreço” pelo regime democrático, exposto também nas constantes tentativas de censurar a imprensa.

No vale-tudo para se perpetuar no poder, o PT apelou para o terrorismo eleitoral. Sua campanha espalhava que Serra iria acabar com o programa Bolsa Família, que tem suas origens no governo FHC. Em 2000, ainda na oposição, Lula chegou a acusar a distribuição de cesta básica de “esmola” que fazia o pobre votar com o estômago. No poder, o PT mudou de idéia e ainda espalhou que os benefícios acabariam se Dilma fosse derrotada. Resultado: o Nordeste votou em peso na Dilma.

Quem saiu bastante ferido nas eleições foi o Bom Senso. O PT resgatou do fundo do pântano ideológico o tema das privatizações para “atacar” os tucanos. Quem poderia, em sã consciência, condenar as privatizações do setor de telecomunicações? Quem hoje ainda consegue criticar racionalmente as privatizações da CSN, Embraer ou Vale? Mesmo assim, o PT ainda explora este sentimento nacionalista retrógrado, que confunde propriedade estatal com interesse nacional.

A campanha de Dilma abusou da retórica nacionalista, alegando que a candidata salvaria o pré-sal dos interesses privatistas do PSDB. Os tucanos não colocaram em pauta a venda da Petrobras, mas o próprio PT vendeu concessões de exploração ao setor privado. Eike Batista é prova disso. Para o PT da oposição, isso seria “privatização”. Mas para vencer a guerra das eleições, a coerência e a honestidade são as primeiras baixas. Vale até usar a estatal como braço partidário na campanha. Isso sim é uma “privatização” abominável.

O debate regrediu algumas décadas por conta da estratégia do PT. A demagogia atingiu patamares espantosos. Nunca antes na história deste país se viu uma eleição de tão baixo nível. Programas de governo deram lugar aos ataques pessoais nos “debates”. As perguntas importantes ficaram sem respostas. A candidata Dilma não explicou nada sobre os escândalos de corrupção, repetindo apenas que tudo está sendo investigado. O PT está “investigando” até hoje José Dirceu.

Os eleitores, anestesiados pelo bom momento da economia, aceitaram sem maiores cobranças as “explicações”. Venceu Macunaíma, o herói sem caráter. Fica uma enorme “herança maldita” que poderá levar gerações para ser desfeita: a idéia de que a Ética não tem lugar na política. É dia de luto para os que ainda acreditam em certos valores, e que não estão dispostos a fechar os olhos para infindáveis escândalos em troca de migalhas. Não se constrói uma nação livre sem alguns princípios básicos. Foi uma vitória de Pirro, com sabor de derrota. Metade do povo está de luto pela Ética.