O Globo - Editorial
Dilma Rousseff foi eleita sob a marca do continuísmo.
Nada expressa melhor a relação entre criatura e criador, explorada ao máximo na campanha pelo lulopetismo, do que a qualificação de “a mulher de Lula” dada à candidata por eleitores de baixa instrução, de regiões sustentadas pelo Bolsa Família e benefícios previdenciários, onde a presidente teve votação maciça.
Mas, como nem sempre as contingências da vida real se curvam aos planos dos políticos, a Era Dilma se confronta com questões intricadas na área econômica cujo enfrentamento requer mudanças de políticas seguidas no segundo governo Lula, com entusiasmado apoio da então ministra chefe da Casa Civil, principalmente as relacionadas aos gastos públicos.
São positivos os primeiros sinais emitidos pela presidente eleita. Ao deixar claro, logo no domingo, na noite da comemoração da vitória, que governo não pode gastar além das possibilidades, além do que seja “sustentável”, a presidente eleita, Dilma Rousseff, demonstrou saber qual um dos pontos nevrálgicos da futura administração: a depender da forma com que maneje as contas públicas, poderá garantir o sucesso da sua gestão ou fomentar o fracasso dela, em meio à volta da inflação e perda de impulso do crescimento, num trágico retorno ao passado.
Naquele discurso e nas entrevistas concedidas segunda-feira nas TVs Globo e Record, Dilma reafirmou a postura, interpretada como uma reedição da Carta ao Povo Brasileiro, em que Lula, em meados de 2002, no início da fase final da campanha que seria vitoriosa, se comprometeu a não cometer delírios à frente do país — delírios que ele e o PT não se cansaram de defender nos tempos de oposição.
Nestas primeiras declarações, de fato, Dilma Rousseff seguiu aquele roteiro: não deixará de cumprir contratos, manterá a política de câmbio flutuante — adaptado à conjuntura de guerra cambial no planeta, acrescentou.
Em resumo: “Eu manterei todos os princípios que regeram nosso governo no período do Lula”, comprometeu-se na entrevista ao “Jornal Nacional”. Uma notícia positiva, se confirmada, é a da criação de metas para os gastos correntes (que precisam ser contidos) e os investimentos (estimulados), de forma a se obter superávits primários que voltem a reduzir o peso da dívida interna em relação ao PIB.
Caso não se continue a executar maquiagens contábeis no endividamento, será uma política bem-vinda. Termômetro sensível das expectativas dos agentes financeiros, radar atento de tendências, o mercado futuro de juros apontou para baixo.
Em um mundo globalizado, com os mercados informatizados e interligados, essas reações podem ser acompanhadas em tempo real. Deverá haver uma transição curiosa.
Em 2003, Lula, eleito pela primeira vez, teve de debelar os efeitos negativos do seu próprio risco político. Em 2006, reeleito, o presidente se beneficiou da política de estabilização executada pela dupla Palocci/Meireles, e, com Dilma e Guido Mantega no centro do poder, permitiu que se acelerassem os gastos.
Agora, a presidente Dilma precisa conter uma política de gastos pela qual se bateu.