sábado, novembro 06, 2010

Dois em um

Adelson Elias Vasconcellos

Em janeiro de 1999, poucos dias de seu segundo mandato, tendo em vista a especulação sobre o real, com rápida deterioração das reservas internacionais do país, Fernando Henrique obrigou-se a mudar o câmbio brasileiro: mudou o regime de fixo para flutuante pondo fim ao bombardeio que o país vinha sofrendo.

O PT que, na oposição, sempre praticou o quanto pior, melhor, reagiu. E a reação não poderia ter sido mais hedionda do que foi: Tarso Genro, do alto de seu mau caratismo, bradou: “Isto é um estelionato eleitoral. Fora FHC.”

Durante um certo tempo, ele comandou a marcha contra um governo eleito legitimamente e que governava legitimamente e que, legitimamente, mudou o regime cambial para a forma que até hoje se mantém, e que ajudou o país a enfrentar e sair da turbulência.

Agora, passados 11 anos, fazendo uma campanha em que defendia a redução de juros e da carga tributária, e prometendo uma saúde pública mais do que perfeita, Dilma Rousseff, em conluio com os governadores recém eleitos da base aliada de sua coligação, anunciaram ao país a intenção de que ressuscitariam a famigerada CPMF. Justificativa? Cumprir a promessa de campanha sobre a saúde pública.

Agora, por muito mais forte razão, deveriam as oposição devolver o “estelionato eleitoral” ao PT. Falar-se, depois de encerradas as eleições, em dar retorno à contribuição enterrada em 2007, é no mínimo sacanagem para com a sociedade.

Lula, numa entrevista coletiva no início da semana, insinuou que não haveria como bancar os gastos com a saúde pública sem o tributo. Esquece o ainda presidente que, tão logo a contribuição foi reprovada, ele elevou o IOF para 0,38% sobre todas operações financeiras, o que acabou cobrindo a perda da arrecadação? Esquece que, nos últimos anos, a própria arrecadação tem crescido em níveis acima do crescimento do PIB? Esquece, ainda, que contou com a CPMF durante cinco anos, e que nem por isso a saúde pública melhorou, até pelo contrário, vem minguando desde que ele assumiu o poder em 2003?

Já disse aqui várias vezes: o problema no Brasil nunca foi falta de recursos para o Estado brasileiro melhorar e qualificar os péssimos serviços que retorna à sociedade. Sempre foi má gestão, e gastança desenfreada em itens absolutamente dispensáveis e inúteis. Houvesse de parte do governo federal maior seriedade e responsabilidade e, por certo, não se precisaria elevar a carga tributária para melhorar aquilo que é dever do Estado, mas que ele não cumpre por absoluta incompetência e falta de planejamento.

E quanto à senhora Dilma Rousseff, nem bem fazia seu discurso inaugural de recém eleita, assumindo o compromisso de não ferir a liberdade de expressão, de outro lado, os laranjas do partido já se aventuravam em criar comissões de comunicação para fiscalização a mídia do país, nome novo para a prática antiga da censura.

Ou seja, em menos de 48 horas, duas foram as agressões à sociedade desferidas pela presidente. Ao invés de reduzir a carga, vai é aumentá-la e a censura tentará ser restabelecida via laranjas de sua base aliada. Assim, temos na conta de Dilma, mesmo antes de empossada, dois claros estelionatos eleitorais a demonstrar a pouca seriedade que esta senhora tem para com sua própria palavra e promessas.

Ou seja, se ilude quem quer se desiludir. Deste mato não espero grandes surpresas positivas, não. Diante do cenário internacional, em que se cobra do governo brasileiro melhor postura em relação ao equilíbrio fiscal, o que temos são anúncios de maiores gastos supérfluos em escala desmedida, o que implica em não se conceder espaço para a necessária redução de juros, tornando ainda maior e perigosa a valorização excessiva da moeda nacional.

Como afirmei logo após encerrado o pleito em 31 de outubro, esta é a hora da reza. E, pelo andar desta carruagem, não tendo mais a desculpa porca da herança maldita para transferir responsabilidades, o governo Lula e sua sucessora Dilma, vão tratar de encontrar outros personagens em quem possam imputar as culpas de seus próprios erros, cujas consequências, como se vê, recairá nos ombros da sociedade que é, em suma, quem acaba bancando os prejuízos decorrentes.

Além de ter sido eleita de forma ilegítima, agora Dilma já comete seu estelionato eleitoral pós-eleições. Dois crimes em um só momento não deixam de ser um belo (e cretino) cartão de visitas do que o país precisará suportar nos próximos quatro anos.