terça-feira, dezembro 28, 2021

Brasil vive o maior êxodo de sua história

 Edison Veiga

Deutsche Welle

Número de brasileiros no exterior saltou de 1,9 milhão em 2012 para 4,2 milhões hoje. E o fenômeno tende a prosseguir: em 2018, 70 milhões afirmaram que deixariam o país se pudessem.

 

Uma conjunção histórica de fatores tem feito com que muitos brasileiros achem mais verde a grama do vizinho. Em um fenômeno sem precedentes na história do país, este início de século registra o maior movimento de migração de cidadãos brasileiros rumo a outros países pelo mundo.

Segundo um levantamento do Ministério das Relações Exteriores, o número de brasileiros vivendo no exterior saltou de 1.898.762 em 2012 para 4.215.800 hoje — os últimos dados foram consolidados a partir de informações coletadas pelos consulados em 2020. No período, portanto, o aumento foi de 122%. E, pela quantidade atual de expatriados, pode-se dizer que cerca de 2% dos brasileiros moram hoje em um país estrangeiro.

"Esse movimento de saída de brasileiros nos últimos anos é inédito e, de fato, representa a maior diáspora da história brasileira", analisa Pedro Brites, professor na Fundação Getúlio Vargas.

Se o Brasil foi construído, desde a colonização portuguesa, por levas e levas de imigrantes — de várias partes do mundo, em ondas sucessivas — o atual momento indica uma virada de maré, como se o país que sempre recebeu agora tivesse se tornado um "exportador de gente". "O Brasil passou a ser um lugar de onde as pessoas saem. Isso significa que a sociedade de afluência que aqui se formou está extinta", comenta o sociólogo Rogério Baptistini Mendes, professor na Universidade Presbiteriana Mackenzie.

"Agora o horizonte é sombrio, com a experiência do desemprego estrutural contemporâneo, associado aos males herdados: a desigualdade e a exclusão do passado", completa o sociólogo.

Vontade de sair

E o fenômeno tende a prosseguir. Uma pesquisa realizada pelo Instituto Datafolha em 2018 indicou que, se pudessem, 70 milhões de brasileiros maiores de 16 anos se mudariam para o exterior. No recorte por qualificação, essa era uma vontade de 56% dos adultos com curso superior. 

De acordo com levantamento publicado este ano pelo Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas, 47% dos brasileiros entre 15 e 29 anos gostaria de deixar o país, se possível. É um recorde histórico. Entre 2005 e 2010, este era o desejo de 26,7% dos jovens; de 2011 a 2014, anseio de 20,1%.

"Em geral, todos movimentos migratórios são ocasionados por motivações religiosas, perseguições políticas, guerras ou questões econômicas. As crises econômicas pelas quais o Brasil tem passado nos últimos anos fez com que muitos decidissem emigrar buscando melhores condições de trabalho, quer sejam profissionais altamente qualificados, ou de baixa qualificação", contextualiza a historiadora Renata Geraissati Castro de Almeida, pesquisadora de imigração na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e na Universidade de Nova York, nos Estados Unidos.

"No cenário atual, de aumento da inflação, afetando o preço do que consumimos no dia a dia, a alta do dólar, e com a ausência de perspectivas de melhorias, a situação tende a piorar", acrescenta.

Brites enumera como sendo três as razões que motivam essa diáspora de brasileiros. Em primeiro lugar, "o mais relevante deles", segundo o professor: a economia. "Ao longo dos últimos anos, o Brasil tem perdido postos de emprego em pontos-chave, com enfraquecimento de setores como a engenharia civil, baixo investimento em tecnologia, pesquisa e desenvolvimento. Essa mão de obra qualificada tem procurado oportunidades fora", exemplifica.

"O Brasil atravessa um período de baixo crescimento econômico, estagnação relativa da economia. Isso efetivamente tira perspectivas de oportunidades de boa parte da população, que passa a procurar mecanismos para seguir sua vida", afirma. 

O segundo fator é a instabilidade política, um cenário que se agravou com o movimento de impeachment da então presidente Dilma Rousseff e, em 2018, a eleição de Jair Bolsonaro. "Essa turbulência acirrada afasta parte da população do nosso país", reconhece o professor.

"Por fim, há a questão da violência urbana, uma chaga social brasileira crônica que sempre tem de ser considerada. As pessoas buscam outras opções, nos Estados Unidos e na Europa, para tentar levar uma vida um pouco mais tranquila e segura", diz o especialista.

"A instabilidade econômica e política do país na última década, associada a um crescimento da violência, e das taxas de desemprego tem servido de gatilho para que muitos decidam buscar melhores oportunidades de emprego e qualidade de vida em outros países", resume a historiadora Castro de Almeida.

País do futuro?

Para o sociólogo Mendes, "a saída de brasileiros é indício de algo mais grave do que o encerramento de um ciclo de desenvolvimento". "É o processo civilizatório, de construção da nação imaginária, que sofre um abalo profundo", pondera.

"É fato que, do ponto de vista econômico, o Brasil moderno, com mercado interno forte sustentado no setor industrial e capaz de oferecer empregos de qualidade aos cidadãos, está quase que definitivamente sepultado", prossegue o sociólogo. "Mas o principal é que os grupos no poder promoveram uma ruptura com a própria história e, portanto, como o povo, sem oferecer nenhum tipo de projeto alternativo de futuro. O país é apresentado aos viventes como um acampamento de estranhos, não uma sociedade política. Um certo discurso que junta agentes do mercado, governantes e líderes religiosos neopentecostais conduz à lógica do salve-se quem puder ou, em termo mais brandos, o mundo é dos eleitos. Isso explica a fuga do desastre."

Em outras palavras, as gerações atuais já não se iludem mais com o discurso de que o Brasil é o tal "país do futuro". "Sem emprego, renda e assistência, em um cenário absolutamente hostil, sair passa a ser a solução", diz Mendes.

"O Brasil, terra do futuro, já não faz mais parte do imaginário de uma geração de brasileiros que vaga errante em busca daquilo que imagina ser uma boa vida: salário, segurança, educação, assistência. Ou seja: comunidade política organizada. É o paradoxo das ideias que conduziram ao poder o representante dos que negam o Estado e a própria política", contextualiza.

Em termos de destinos escolhidos, a América do Norte e a Europa estão entre as principais escolhas. Nos próximos dias, a DW Brasil vai contar histórias de emigrantes brasileiros nos destinos que mais os acolhem ao redor do mundo. São biografias distintas, ligadas por alguns pontos em comum: a superação e a esperança.

Ou, como comenta o sociólogo Mendes, "em todos os casos, o que está em causa é a ideia de que a vida vai mudar para melhor no país de chegada".


Cresce número de brasileiros fora do País; classe média foge da crise e da violência

 Pablo Pereira e Roberta Jansen, 

O Estado de S.Paulo

Ministério das Relações Exteriores aponta alta de 16% no total de brasileiros no exterior entre 2018 e 2020: são 4,2 milhões

 Foto: WILTON JUNIOR / ESTADAO

Os jornalistas Flavio Pessoa (à esquerda), Fernanda Portugal (à direita) 

e o filho Arthur (no centro), durante embarque no Aeroporto

 Santos Dumont, no centro do Rio, com destino ao Canada. 

De uma estante cheia de livros, sobraram apenas cinco exemplares. As mais de 50 taças de cristal foram substituídas por três copos de plástico. "Nossa vida toda precisou caber em três caixas e três malas, tivemos de nos desapegar de tudo", conta a jornalista carioca Fernanda Portugal, de 50 anos. Ela, o marido e o filho adolescente deixaram praticamente tudo para trás e embarcaram na quarta-feira para o Canadá – país que não conhecem, mas onde pretendem morar por ao menos dois anos. Pode ser até mais tempo.

Eles não estão sozinhos. O sonho de uma vida melhor no exterior – e fugir do Brasil, marcado por longa crise econômica, violência urbana e fases de descontrole da pandemia – atrai cada vez mais gente. Não são apenas trabalhadores mais simples, como muitos daqueles saídos de Governador Valadares (MG), nem só a fuga de cérebros, dos que vão ocupar um emprego de ponta. São brasileiros de classe média, escolarizados, que cruzam a fronteira em busca de novas chances.

Segundo dados do Ministério das Relações Exteriores, houve alta de 16% no total de brasileiros no exterior entre 2018 e o ano passado: de 3,6 milhões para 4,2 milhões. Em uma década, o número aumentou 36%. Especialistas dizem ser difícil comparar o movimento dos últimos anos com períodos anteriores, mas veem aumento fora da curva.

"Esse movimento nos últimos anos é inédito e, de fato, representa a maior diáspora da história brasileira para os nossos padrões, um país que, historicamente, sempre recebeu imigrantes", avalia Pedro Brites, professor de Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Levantamento do Colégio Notarial do Brasil (CNB), que reúne os cartórios, indica alta de 67% nos apostilamentos no 2º semestre deste ano. Esse é o serviço de validação internacional de documentos pessoais, escolares e de dupla cidadania requeridos por quem vai morar fora. De junho a novembro, foram cerca de 912 mil apostilamentos, ante 544 mil no mesmo período de 2020.

Se analisar apenas as solicitações de visto para estudos ou abertura de processos de dupla cidadania, o salto é ainda maior: de 299,5 mil no 2º semestre do ano passado para 693 mil no mesmo período deste ano. Para Giselle Oliveira de Barros, presidente do CNB, os dados expõem essa saída de mão de obra mais qualificada.

Sem perspectiva

"Sempre tivemos o sonho de morar fora, mas quando fizemos 50 anos percebemos que ocupávamos cargos abaixo do que já ocupamos antes, ganhando menos do que já ganhamos e sem perspectiva de melhorar", conta o também jornalista Flávio Pessoa, de 53, marido de Fernanda. "Uns meses depois do começo da pandemia, a gente se tocou também do quanto a vida é fugaz e do tanto de tempo que já tínhamos perdido sem realizar esse sonho." 

Com a mudança, acrescenta Fernanda, o casal vê mais chances de garantir boa formação acadêmica e empregabilidade do filho, de 14 anos. Fernanda também mira os estudos: pretende cursar Turismo em uma universidade canadense. Já o marido não tem emprego em vista, mas, garante, está disposto a encarar qualquer desafio no exterior. 

  Foto: WILTON JUNIOR / ESTADAO

'Nossa vida toda precisou caber em três caixas e três malas’, diz Fernanda  

Um dos cinco livros que levaram nas malas é O Conto da Ilha Desconhecida, do português José Saramago. "Quero encontrar a ilha desconhecida, quero saber quem sou quando nela estiver. Não o sabes. Se não sais de ti, não chegas a saber quem és", diz um trecho da obra.

Perfis

Consultora especializada em imigração, a advogada Isabel Nardon diz que a reabertura de fronteiras causada pelo avanço da vacinação (agora abalada com a variante Ômicron, mais contagiosa) elevou a procura para Portugal. Segundo ela, o perfil dos que miram a residência lusa é de pessoas com poder aquisitivo: investidores e aposentados que têm como comprovar renda no Brasil, mas temem pelo futuro aqui.

A debandada aparece também no movimento de remessas financeiras. Só na corretora de câmbio B&T, que tem mais de 200 pontos e atua em mais de 180 países, dados apontam aumento da movimentação no exterior. Conforme registros da empresa até outubro, o volume de operações de transferências de moeda de Portugal para o Brasil, por exemplo, mais do que quadruplicou em 2021 ante o ano anterior.

Em alguns casos, facilidades expostas na pandemia também ajudam na mobilidade. Gustavo Da Broi, de 27 anos, chegou a Lisboa em outubro, para fazer mestrado em Direito Bancário e Securitário, com prazo de dois anos. "Estudo e trabalho daqui para o escritório", conta ele, em referência ao escritório de advocacia onde atua, em Porto Alegre.

No caso do jovem, a cidadania ajudou na mudança e a adaptação foi tranquila. O clima de segurança e a qualidade dos serviços de transporte são apontados como diferenciais. "Como gaúcho, só sinto falta é do churrasco", brinca Da Broi.

Professora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) que estuda migrações, Ana Maria Carneiro vê dois perfis principais. "Se a pessoa vai trabalhar numa entidade, numa universidade, se é empreendedora ou exportadora e se faz parceria de pesquisa, com certeza estará com a situação regularizada", diz. "Por outro lado, pode ter gente qualificada, com graduação, que na literatura é considerada um talento, mas que estaria migrando de forma ilegal e vai atuar em profissões que não demandam a qualificação profissional que tem no Brasil." Segundo ela, parte desse grupo ocupa até postos que não exigem qualificação formal, como os setores de limpeza, transporte ou de alimentos.

Fluxo

O médico Carlos Eduardo Siqueira, professor da Universidade de Massachusetts, de Boston, diz que há migração significativa, mas acredita que os dados do Itamaraty são superestimados. Nos Estados Unidos, pelos dados oficiais, há 1,7 milhão de brasileiros – 360 mil estão em Boston, atrás de Nova York (450 mil) e Miami (410 mil). Siqueira, porém, estima que a comunidade brasileira em Boston não supere 100 mil. "A imigração brasileira para os EUA é contínua, mas não é constante." Para ele, o Brasil viveu fase similar de desalento e migrações na gestão Fernando Collor (1990-1992).

Já para Guilherme Otero, do programa da Organização Internacional para as Migrações das Nações Unidas, os dados do Itamaraty podem estar subestimados. Ele diz que muita gente sai de forma irregular. Ou vai para o exterior para ficar seis meses regulares, como no caso dos EUA, mas não retorna. Além disso, destaca, há brasileiros com dupla cidadania que, quando migram, preferem o direito de usar o passaporte da outra nacionalidade. 

Para Pedro Brites, da FGV, o dinheiro escasso está por trás do êxodo. "A questão econômica é o fator propulsor para qualquer tomada de decisão desse tipo, e o Brasil não atravessa um período exitoso há alguns anos. Isso efetivamente tira a perspectiva de oportunidades para boa parte da população."

As sucessivas crises políticas – agravadas desde a eleição do presidente Jair Bolsonaro, em 2018 – também pesam. "Essa turbulência afasta parte da população de nosso País", afirma Brites, que aponta a falta de segurança pública como outro acelerador de despedidas.

 Instalados

Entre os que trocaram de endereço há mais tempo, muitos dizem não se arrepender. "Estou muito satisfeita", conta a bióloga Bárbara, que abandonou tudo no Rio e foi viver com o marido e as duas crianças em Aveiro, região central de Portugal, no fim de 2017. "Migramos por causa da violência do Rio", afirma. "Larguei tudo, meu trabalho, que eu amo, e me tornei uma migrante", acrescenta ela, que vê a chegada de mais brasileiros. "E muita gente vem usando Portugal como porta de entrada na Europa."

A paraense Suellen Vallaindhaim, de 26 anos, deixou o calor de Belém para morar em Trondheim, na gelada Noruega. Casada com um cidadão meio americano, meio norueguês, ela foi embora do Brasil no fim de 2018. Hoje, cria a filha de 2 anos nos fiordes do outro lado do mundo – e se vê cada vez mais acompanhada de conterrâneos. "Aqui também tem muitos brasileiros chegando." Pelos dados do Itamaraty, a Noruega abriga 10.858 brasileiros. Somam-se a eles os 323 que vivem na Islândia, também atendidos pela Embaixada do Brasil em Oslo.

Suellen acaba de lançar uma loja de comércio virtual e estuda o complicado idioma norueguês. Para o futuro, quer fazer faculdade, mas não tem planos de voltar à terra natal. "Os primeiros meses foram muito difíceis, mas agora estou bem. Não penso em voltar, não."


O drama das crianças brasileiras deportadas para o Haiti

 Thomas Milz, Coluna Realpolitik

Deutsche Welle

Parte dos haitianos deportados do Texas são crianças nascidas no Brasil – que portanto têm direito de ser assistidas pelo governo brasileiro, escreve Thomas Milz.

Foto: Joseph Odelyn/AP Photo/picture alliance

Haitianos deportados dos EUA chegam ao Aeroporto

 Internacional Toussaint Louverture, em Porto Príncipe

Mais de 7 mil migrantes que se encontravam em baixo da Ponte Internacional, na cidade fronteiriça texana de Del Rio, já foram deportados para o Haiti, segundo dados publicados pela Organização Internacional para as Migrações (OIM) na segunda-feira (04/10). Entre elas, estavam 381 crianças nascidas no Chile e 85 no Brasil. Estas são, portanto, brasileiras natas, ainda que de pais haitianos. Elas têm o direito de ser assistidas pelo governo brasileiro e de ser repatriadas.

Mas ao chegarem, forçadas pelo governo americano, ao aeroporto de Porto Príncipe ou de Cabo Haitiano, cidade no norte do Haiti que também recebe os voos vindos do Sul dos Estados Unidos, essas crianças e seus pais estão jogados no meio de um país à beira do colapso, em meio a uma violência quase generalizada pelas gangues que dominam, hoje em dia, grandes partes da região. Cada pessoa recebeu da OIM 120 dólares, o salário mínimo haitiano, suficiente apenas para sobreviver os primeiros dias num país que suas famílias, na maioria das vezes, tinham abandonado há muitos anos.

Na mídia, diz-se que o governo brasileiro, através da embaixada em Porto Príncipe, já está fornecendo ajuda a essas crianças. Estive no aeroporto da capital haitiana na ocasião da chegada de alguns voos, mas não encontrei nenhum representante do governo brasileiro. Por outro lado, encontrei haitianos que, durante anos e anos, tinham vivido e trabalhado no Brasil, onde seus filhos haviam nascido.

Alguns deles não sabiam que o governo brasileiro tem obrigação de ajudá-los; outros não sabiam como acionar tal ajuda. Assim, acabam se espalhando pelo Haiti, uns com a ajuda de familiares, outros se refugiando em favelas, na busca de uma moradia barata. Muitos carregam traumas pelos acontecimentos em tais viagens. Afinal, para se chegar do Chile ou do Brasil até a fronteira com os Estados Unidos, leva-se de um a dois meses. Neste percurso, eles gastam milhares de dólares com os "coyotes" – os facilitadores na travessia de um país para o outro.

Caos e miséria da América Latina

Há relatos chocantes de passagens de migrantes pelas selvas do Peru e, principalmente, pelo região de Darién, no Panamá, com sua selva densa e perigosa de atravessar. Lá, na região que liga o país à Colômbia, eles são vítimas de gangues que roubam e matam. O mesmo perigo espera os migrantes no México, onde regiões inteiras estão sobre o domínio de bandos criminosos.

Além de haitianos e migrantes hispano-americanos, há também muitos brasileiros tentando entrar nos Estados Unidos de forma ilegal. Nos últimos tempos, houve inclusive notícias de crimes contra eles. Estão à busca de uma vida melhor, já que a situação econômica de muitos países – como o Brasil e o Chile – tem se deteriorado ultimamente. Assim, os EUA se transformam, cada vez mais, na "terra prometida" para muitos latinos. E também na única opção.

Cheguei ao Brasil no começo do século, quando o otimismo com o futuro era palpável. Havia uma onda de governos "progressistas" na região, que ensaiavam iniciativas de mais inclusão social. Hoje, olhando para o caos e a miséria que ronda o Haiti, encontro muitas similaridades com cidades brasileiras. A falta de comprometimento das administrações públicas com a melhoria das vidas dos cidadãos se reflete numa negligência com as cidades e seus habitantes.

Pergunto-me o que será dessas crianças haitiano-brasileiras, que, com pouca idade, já sentiram na pele as veias abertas da América Latina. Uma região cada vez mais fragilizada pela fragmentação das instituições governamentais e dominada pelas gangues do tráfico de drogas, de armas e humano. A América Latina se encontra num estado lamentável, numa emergência humanitária. E, aparentemente, sem governantes responsáveis e com visão de futuro para dar uma esperança à população. Dar uma perspectiva às crianças brasileiras que chegaram, sem querer, ao caos haitiano, já seria um começo. Pelo menos isso.

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Brasil: de país do futuro para o país sem amanhã

 Nathan Blanche

O Estado de São Paulo 

O ano de 2021 no Brasil chega ao fim com indicadores socioeconômicos bastante desfavoráveis. De um lado, uma taxa de inflação acima de 10%, o que não era observado desde 2015. Como sempre, as classes de baixa renda têm sido muito castigadas pela alta dos preços, em especial de itens de primeira necessidade como alimentos e energia elétrica. De outro, uma taxa de desemprego ainda elevada, em 12,6% no trimestre encerrado em setembro, a despeito de uma tendência de recuo nos últimos meses. Mais importante, a atual situação do mercado de trabalho não tem permitido a recomposição das perdas inflacionárias, de modo que projetamos um recuo de 2,0% da massa de rendimentos do trabalho em termos reais em 2021.

Em relação ao crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), as projeções para 2022 apontam um número próximo de zero. Para o médio prazo, estimativas de crescimento potencial usualmente oscilam entre 1,5% e 2,0% ao ano. Assim, o Brasil segue refém da armadilha do baixo crescimento e da manutenção dos níveis elevados de miséria e pobreza. Vale lembrar que este cenário socioeconômico para 2022 é semelhante ao vivenciado nos últimos momentos do governo Dilma, que foi interrompido pela grave crise econômica, por acusações de corrupção e pelo impeachment.

Todo este panorama eleva os anseios por mudanças para melhor no ambiente econômico. No entanto, é difícil de contarmos com um amanhã promissor, especialmente tendo em conta as perspectivas para os próximos anos considerando os atuais sinais do quadro eleitoral de 2022. Inexiste, por ora, uma alternativa eleitoralmente viável às duas opções mais cotadas, que possa conduzir o País de forma responsável e com uma agenda econômica modernizadora capaz de destravar a produtividade e o crescimento sustentável, sem repetir erros do passado.

Isso traz consequências, por exemplo, em relação às expectativas quanto à condução da política fiscal. Se no passado, quando não havia o teto de gastos e o País era comandado por esta esquerda que ensaia voltar ao poder, o Orçamento foi tratado como praticamente ilimitado, com espaço para reajustes salariais generosos ao funcionalismo, ganhos reais contínuos para o salário mínimo e subsídios vultosos às empresas “amigas do rei” via empréstimos de bancos públicos, atualmente podemos apontar a irresponsabilidade com a qual foram conduzidas as recentes discussões sobre novos auxílios sociais e a questão dos precatórios. O apoio a certas medidas e a políticos populistas, que vendem para a população ilusões de um Orçamento infinito, ilustra uma face de nossa democracia muito longe dos países de Primeiro Mundo, onde há respeito aos recursos públicos.

Como exemplo mais recente deste descaminho fiscal, a aprovação da PEC dos Precatórios no Congresso, que limita os pagamentos anuais desta dívida e traz o risco da criação de uma grande “bola de neve” de precatórios acumulados para pagamento pelo poder público. E toda esta mudança foi promovida apenas para viabilizar maiores gastos no ano eleitoral de 2022, mais notadamente com o Auxílio Brasil. Neste caso dos precatórios, ficou marcada a frase do ministro Paulo Guedes no dia 3 de agosto, recorrendo à famosa citação “devo, não nego, pagarei quando puder”.

O amplo apoio a esta PEC no Congresso reforçou, mais uma vez, a forma de fazer política no Brasil, que tem como base um pesado instrumento de distribuição de recursos orçamentários que beneficiam os congressistas com emendas – agora, inclusive, secretas. O emaranhado de vários partidos políticos contribui para este cenário. Enquanto democracias mais desenvolvidas contam com não mais do que uns poucos partidos políticos com relevância no Parlamento, no Brasil temos 24 partidos com representantes no Congresso, cuja ideologia aparente da maioria é tão somente oferecer apoio em troca dos recursos destinados às emendas de seu interesse.

Se Executivo e Legislativo são merecedores das críticas feitas, não se pode esquecer do Judiciário, sempre citado como fonte de privilégios corporativistas, custos elevados para a sociedade e baixa eficiência em sua prestação de serviço. Como agravante, sua corte suprema tem protagonizado episódios lamentáveis recentemente, como no enterro da Lava Jato e na tentativa de reescrever o passado sombrio de personagens envolvidos com os maiores esquemas de corrupção da história.

Se não ocorrerem mudanças no atual cenário, com o surgimento de alternativas políticas viáveis para as eleições de 2022, podemos decretar mais uma década perdida na história brasileira. Será mais um forte motivo para continuarmos no grupo de países emergentes de baixa credibilidade e altos prêmios de risco, pouco atrativo para investidores sérios. Urge o surgimento de uma nova liderança, capaz não apenas de colocar o País na direção do desenvolvimento econômico de forma responsável e sustentável, mas também de conduzir um processo de reformas, como a administrativa e a tributária, capazes de impulsionar esta mudança de perspectiva e reverter o atual quadro de desânimo com o futuro.

SÓCIO-FUNDADOR DA TENDÊNCIAS CONSULTORIA INTEGRADA


Boas festas numa hora dessas?

 Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

Até o último dia 22, portanto já incluindo a Ômicron, a Covid-19 havia causado 277 milhões de infecções, com 5,4 milhões de mortos no mundo. Com a nova variante se espalhando muito mais rápido que as anteriores, como encarar as festas de fim de ano? Que festas?

Por outro lado, os mesmos dados da Johns Hopkins University mostram que 8,8 bilhões de doses haviam sido aplicadas, com muitos países já avançando na terceira dose, e Israel iniciando o programa da quarta aplicação.

Visto assim, já se encontra algum espaço para comemoração, mas só para vacinados e em ambientes seguros.

A Covid-19 continua sendo um desastre, mas é preciso admitir que o mundo reagiu de forma espetacular. E continua. As vacinas foram produzidas e aplicadas numa rapidez inédita e já começam a aparecer os remédios para tratar quem apanha a doença.

Não foi, entretanto, de uma hora para outra. As vacinas não saíram do nada, mas resultaram de anos e anos de pesquisa conduzida globalmente, com os cientistas compartilhando dados e conclusões. As farmacêuticas reuniram cérebros do mundo todo, a que entregaram material e insumos valiosos.

Eis aí um claro triunfo da globalização.

O problema maior é velho conhecido: a distribuição desigual dos benefícios. Mas também é verdade que a renda global estava crescendo antes da Covid-19 — o que, obviamente, facilita os planos de melhor distribuição —, como é certo que o mundo volta a crescer neste momento.

De novo é desigual — alguns países à frente, outros mais devagar. O Brasil está no grupo de trás — e isso nos leva ao ponto principal: a responsabilidade de cada país, sociedade, cidadãos, governos.

O Brasil provavelmente passará por nova recessão — e não por causa de um ambiente externo negativo ou, como diriam os bolsonaristas, de uma conspiração globalista-comunista (seja lá o que isso queira dizer).

O governo Bolsonaro é ruim não apenas na política, mas revela uma incompetência inédita mesmo num país que já teve tantos administradores da pior qualidade.

Governos estaduais e prefeituras continuam vacinando e tratando dos casos. Mas Ministério da Saúde, fora do ar em todos os sentidos, não consegue registrar e ainda faz de tudo para atrasar a vacinação de crianças.

Num país que pode se orgulhar de seus infectologistas e de seu sistema de vacinação, o ministro da Saúde chama uma audiência pública para ouvir a opinião de quem quer que se apresente. Resultado óbvio: uma enxurrada de veiculações de robôs contra a vacinação.

É certo que, em democracias, a decisão final cabe aos eleitos pelo povo. Mas é certo também que gestores inteligentes compreendem a complexidade do mundo atual, da economia às ciências, por isso foram criadas as agências técnicas para dar base às decisões.

Bolsonaro acha que tudo isso é bobagem — o que era de esperar considerada sua (má) formação e seu passado (condenável). O que surpreende é a quantidade de pessoas supostamente bem formadas que o acompanham.

Governos estaduais e prefeituras têm de agir por conta própria para apressar a terceira dose e vacinar as crianças. A sociedade deve exigir isso.

O momento é difícil, mas afinal o país conseguiu avançar na vacinação e no controle das infecções com um governo federal agindo contra.

A ciência global, de novo, está fazendo sua parte, descobrindo os diversos aspectos da Ômicron — mais contagiosa, menos grave.

Há diversas maneiras de medir os impactos da Covid-19. A revista The Economist encontrou uma bem original. O pior dia da vida em sociedade foi 9 de abril de 2020, uma quinta-feira: o número de reservas em restaurantes, pelo site OpenTable, nos EUA, Austrália, Inglaterra, Canadá, México e Alemanha caiu para zero — isso mesmo, nenhuma reserva. O normal? Na casa dos milhões.

Vacinas, tratamentos, restrição de circulação, lockdowns — e assim caímos na virada de 2021/22, com muitas famílias podendo se reunir e parte dos restaurantes aberta. Boas festas? Mais ou menos, né?


Um sonho de fim de ano.

 Carlos Brickmann

 

E eis que chega o trenó, voando sem piloto: no comando, as quatro renas, por apelido 01, 02, 03, 04. Nada casual: multiplique 01 por 02, o resultado por 03, o resultado por 04, e terá o número mágico 24. Deixe a malícia de lado: é a data em que se comemora o Natal em quase todo o mundo, dia 24.

E cadê o piloto, o Papai Cruel? De acordo com a rena 02, a mais falante, Papai Cruel disse algo como “Chega! Estou de saco cheio, porra! Eu vou é para a praia. E chega de me vestir de vermelho, cor de comunista, talkey?” Papai Cruel estava com o saco cheio, mesmo: presentes para a turma do Centrão se comportar bem, mas, com os bons fluidos do Natal, também para os que falam como inimigos, mas, felizes com os afagos discretos, se comportam direitinho, sem desvios, como amigos secretos.

Papai Cruel, na verdade, está irritado com o vermelho. Não queria vestir vermelho, nem sobrevoar países vermelhos ou avermelhados, tipo China, Estados Unidos, Suécia, Argentina, Venezuela, França, Alemanha, Noruega. Onde já se viu dar presentes para os chilenos que votam em comunistas? E essa maluquice de continuar a combater a pobreza, depois que os pobres já foram derrotados? Gente maluca, essa, que prefere comprar feijão e arroz a gastar seu dinheirinho contado em fuzis e munição, coisa fina, importada!

Papai Cruel tirou férias. Mas volta, ele sempre volta. Ainda mais agora, que falam em apreender suas renas por pastar a grama dos vizinhos.

Cadê a velhinha?

Foi só um sonho, dos tempos em que havia uma Velhinha, em Taubaté, que ainda acreditava no Governo – pelo menos é o que nos garantia seu esplêndido biógrafo, Luís Fernando Veríssimo. É diferente dos dias de hoje, em que algo como 20% dos eleitores brasileiros acreditam nas narrativas do Governo.

Não deviam acreditar: narrativa, que já foi sinônimo de história, hoje está mais para lenda, mito. Mas acreditam – mesmo sabendo que renas não falam. Algumas fritam hambúrguer em redes que vendem apenas frango, outras vivem de sugar rachadinhas. Mas falar, não falam. Só escrevem.

Igualdade

O lema da Revolução Francesa – Liberdade, Igualdade, Fraternidade – é conhecido por boa parte dos nossos políticos. Nem todos são favoráveis à Liberdade e vivem tentando desmontar a democracia. Há quem ache que a Fraternidade é descartável: a morte de parte da população pelo atraso de vacinas e a fome por falta de recursos (desviados para outras finalidades, tais como campanhas eleitorais) não são consideradas importantes. Igualdade é outra coisa: quase todos desejam, principalmente quando lhes é favorável.

O caso do “orçamento secreto”, ou das “emendas de relator”, um esquema de distribuição de verbas que oculta o parlamentar que as distribui, é um ótimo exemplo: os governistas falam a favor, e recebem boas verbas do orçamento secreto; os oposicionistas falam contra, às vezes com veemência, e recebem também boas verbas do orçamento secreto (isso explica como é que Arthur Lira se elegeu presidente da Câmara, como candidato de Bolsonaro, tendo o voto de tantos parlamentares oposicionistas).

Os meus, os nossos

O Globo fez um levantamento de quanto coube de orçamento secreto a cada partido oposicionista. O maior beneficiado foi o PSD, R$ 612 milhões distribuídos entre 44 deputados. O PT recebeu R$ 34 milhões, distribuídos entre três deputados. Diferença das verbas ofertadas ao PSD e ao PT: de 13,9 milhões para 11,3 milhões por pessoa. O feroz oposicionista PSDB faturou R$ 90 milhões, distribuídos entre 17 deputados, ou R$ 5,3 milhões por pessoa. Sérgio Moro é o candidato do Podemos, R$ 72 milhões para oito deputados – R$ 9 milhões cada um. E Ciro Gomes viu seu PDT dividir R$ 59 milhões via onze deputados: R$ 5,6 milhões por pessoa, pouco mais que o atribuído ao PSDB.

Quanto aos partidos governistas, o céu é o limite.

Desvendando segredos

Não se impressione com a enorme quantidade de candidatos à Presidência de que nunca ouviu falar. Tranquilize-se: não ouviu, não ouve, não ouvirá. Só estão ali para marcar presença e não gastarão quase nada das bilionárias verbas de campanha (que, a propósito, é o caro leitor que paga). O objetivo de muitos partidos não é a Presidência, mas a bancada na Câmara Federal. É o tamanho da deputança que define a distribuição do Fundo Partidário pelos partidos. Analisar a trajetória de certos partidos é como investigar crimes: o importante é seguir o caminho do dinheiro.

Mas só até certo ponto: acharam aquele monte de dinheiro no apartamento de um parlamentar baiano, ele foi condenado a 14 anos e dez meses de prisão. Logo obteve prisão domiciliar e em pouco tempo passou a regime semiaberto. Tem de passar a noite em casa.

Outro parlamentar, no momento em que a Federal chegou à sua casa, pôs parte do dinheiro na cueca e outra parte, enroladinha, em um orifício corporal que se imaginava de saída. Foi descoberto. E continua exercendo o mandato.

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Bolsonaro ‘ripou’ quem lhe desagradou e está sendo ‘ripado’ pelo eleitor

  Eliane Cantanhêde, 

O Estado de S.Paulo

É fácil, portanto, entender por que a aprovação, o apoio e os votos de Bolsonaro esfarinham e ele é o grande eleitor de Luiz Inácio Lula da Silva

Ao assumir a Presidência, uma das primeiras providências de Jair Bolsonaro foi punir o fiscal do Ibama que o multou por pesca ilegal em santuário ecológico. Uma mesquinharia e o prenúncio de que estava disposto a fazer o que bem entendesse, impor suas próprias convicções e visões de mundo e usar os instrumentos de poder em favor dele e dos filhos, amigos e aliados e contra quem lhe desagradasse.

Não sossegou até tirar o delegado Maurício Valeixo da direção-geral da PF e o ex-juiz Sérgio Moro do Ministério da Justiça. Moro, bem mais popular do que ele, não admitia a ingerência política do presidente na PF, órgão de Estado, armado e responsável por investigações, logo, autônomo por definição. 

Valeixo foi apenas a vítima mais lustrosa na PF. Remoendo desde 2018 a antipatia pelo primeiro delegado responsável por sua campanha, Bolsonaro tratou de afastá-lo ao descobrir, no tenso 7 de Setembro, que ele ocupava uma função-chave na PF, onde a lista de perseguidos é grande.

Mas não para aí. Bolsonaro “ripou” o presidente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) após o embargo de uma obra do bolsonarista Luciano Hang. Como “ripou” a cúpula do Inmetro e um candidato ao Tribunal Superior do Trabalho (TST) para nomear quem fizesse o jogo das empresas. Não dá uma palavra sobre desemprego e fome, mas cuida bem dos endinheirados.

Os médicos Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich caíram por não se sujeitarem a um presidente que dá de ombros para a ciência e os órgãos técnicos do governo e que pôs um capacho no Ministério da Saúde, o general da ativa Eduardo Pazuello, até achar Marcelo Queiroga, um médico disposto a adotar a máxima de que “um manda, o outro obedece”.

Em vez de comemorar a vacinação de 67% dos brasileiros com a dose completa, Queiroga titubeia e tropeça no passaporte de vacinas, na imunização de crianças e no apagão do Conecte SUS. Por quê? “O que manda” combate a vacina, não o vírus.

Na contramão de Pazuello e Queiroga, o contra-almirante médico Antonio Barra Torres descolou-se das guerras pessoais de Bolsonaro contra máscaras e vacinas e a favor da cloroquina, transformando-se no novo alvo n.º 1. Mas não pode ser “ripado”. Bolsonaro pediu os nomes dos técnicos da Anvisa que deram parecer pela vacinação de crianças, como nos EUA e em 30 outros países, e Barra Torres reagiu: lideraria a lista.

É fácil, portanto, entender por que a aprovação, o apoio e os votos de Bolsonaro esfarinham e ele é o grande eleitor de Luiz Inácio Lula da Silva. Quem está sendo “ripado” é Jair Messias Bolsonaro. 


O Brasil colocou seu futuro no prego

  Vera Magalhães

O Globo 

A discussão do Orçamento de 2022 é a coroação de toda a deterioração do processo de definição de políticas públicas e planejamento de longo prazo que o Brasil vem sofrendo nos últimos anos.

A pandemia apenas agravou essa distorção absurda, que cada vez mais parece difícil de reverter, de prioridades diante das emergências do país.

O que os congressistas, em alinhamento com o governo Bolsonaro, trataram de consumar neste restinho de ano foi a confissão de que, diante de um barco à deriva, a ordem é salvar tudo o que for possível para a própria sobrevivência da classe política e deixar para ver se há algo a salvar ou reconstruir depois das eleições.

Aparentemente são fatos desconexos a demora proposital em começar a vacinar crianças contra a Covid-19 e a destinação de bilhões de recursos públicos a propósitos tão paroquiais quanto fundo eleitoral e emendas do orçamento secreto — mas não são.

Ambos os movimentos têm como origem um governo que abriu mão deliberadamente de salvar o futuro, colocou-o no prego das faturas eleitoreiras para tentar se salvar de uma derrota até aqui mais provável.

Como tubarões que sentem cheiro e gosto de sangue na água, deputados e senadores só aceleraram o rumo ditado pelo Palácio do Planalto na hora de escolher as batalhas a lutar e os escaninhos onde colocar os bilhões.

As crianças e as vacinas ficaram lá no fim da fila, com todas as outras obrigações que o Brasil tem para com um amanhã minimamente igualitário, sustentável e humano.

Diante da percepção de que a PEC do Orçamento abriu uma clareira maior que as da Amazônia na responsabilidade fiscal, tratou-se de lotear esses bilhões conseguidos de forma anômala nas premências daqueles que têm um encontro marcado no ano que vem com um eleitor mais pobre, menos saudável, com menos horizonte educacional e menor perspectiva de ascensão profissional e salarial.

A perversão de empenhar tudo na bacia das almas eleitoreira é que, de novo e sempre, se sacrifica o futuro que deveria ser construído por meio de políticas públicas que financiassem grandes projetos de superação da crise e alinhamento do país à nova economia e à necessidade de, outra vez mais, superar a fome e a miséria.

Nada menos que R$ 5 bilhões serão gastos para custear a campanha eleitoral. Sim, a democracia precisa ser financiada de forma lícita, sob pena de o dinheiro do crime organizado se embrenhar para dar vantagens econômicas a seus postulantes em detrimento de outros.

Porém a derrama de dinheiro público na ordem de 144% a mais do que foi gasto em 2020 não garante que esse dinheiro do “caixa 3” não correrá solto. E, além disso, está na hora de o Judiciário, que tem revisitado tantas de suas decisões nos últimos anos, avaliar se considerar o financiamento privado das campanhas inconstitucional (!) foi a melhor resposta que poderia ter dado à corrupção. Não teria sido mais racional construir um sistema eficaz de fiscalização da lisura das doações, em vez de simplesmente interditá-las e espetar mais essa conta na Viúva?

Da mesma forma, os mais de R$ 16 bilhões que serão pulverizados com o cartãozinho do deputado e senador lá na sua base seriam mais bem empregados se consolidados em políticas verticais, amplas, definidas por meio de projetos. Ainda que cada um pudesse “carimbar” sua participação para colocá-las em pé. Isso seria a boa política.

Por fim, o reajuste casuístico e enviesado ideologicamente a policiais federais desencadeará um efeito cascata de cobrança de outros agentes de segurança tão líquido e certo que sobra a percepção de que o objetivo foi justamente esse: criar mais um fator de instabilidade institucional num já tumultuado 2022.


Nada mais que a verdade.

  Carlos Brickmann

 

Sempre os outros é que são ladrões. Já a turma de quem fala dos outros é sempre honestíssima, aguardará tranquilamente que a Justiça comprove que as acusações contra ela são apenas armações. E, enquanto aguarda com plena confiança e serenidade que a Justiça se manifeste, toma providências para adiar os julgamentos e descobrir falhas processuais que anulem os processos.

Boa parte dos políticos mente muito. Mas o pior aparece, quase sempre, quando falam a verdade. O general Augusto Heleno disse que precisa tomar calmante na veia para conversar com o presidente Bolsonaro e evitar que ele reaja como gostaria às decisões do Supremo. Já o presidente, em conversa com empresários da Fiesp, Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, disse que foi informado de que o Iphan, após constatar que o local era um sítio arqueológico, tinha paralisado a construção de mais uma loja Havan, de um amigo e seguidor, Luciano Hang – aquele careca que, segundo o escritor Olavo de Carvalho, anda vestido de Zé Carioca. Como não sabia o que era o Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), perguntou a um ministro do que se tratava. Completou: “Tinham mandado paralisar a obra porque acharam um azulejo. Ripei todo mundo do Iphan”. Onde já se viu desagradar um empresário amigo da casa só para fazer o que é certo?

Os empresários o aplaudiram. Este colunista tem uma dúvida: em outros tempos, não se diria que o general e o presidente fizeram uma confissão?

As duas verdades

Fernando Bezerra, líder do Governo no Senado, estava tão feliz por ter obtido o apoio de Bolsonaro à sua candidatura ao Tribunal de Contas da União que até acreditou nele. Tirou o terceiro lugar, muito abaixo de Kátia Abreu e do vencedor, Antonio Anastasia, do PSD de Gilberto Kassab. E, ao descobrir que tinha sido traído pelo chefe, deixou a liderança do Governo. Bolsonaro se irritou: disse que Bezerra “já ia tarde” e que, por causa dos problemas do senador em Pernambuco, teve de intervir na Polícia Federal do Estado.

Pois é: a declaração de Bolsonaro também tem cara de confissão.

Cadê o nosso?

Governistas, oposicionistas, lavajatistas, evangélicos, esquerdistas, todos unidos e coesos: juntaram-se para multiplicar as verbas públicas destinadas à campanha eleitoral. Nas últimas (e já milionárias) eleições, as excelências tinham devorado R$ 1,8 bilhão. Agora, poderão gastar até R$ 5,7 bilhões. A coisa era tão escandalosa que o presidente Bolsonaro havia vetado a quantia monumental. Mas o veto foi derrubado na sexta, dia em que o Congresso nem costuma funcionar – mas dessa vez era para legislar em causa própria. A quantia exata não deve chegar aos R$ 5,7 bilhões, mas ficar perto de uns quatro bilhões, quatro bilhões e meio – assim, todos poderão dizer que não foram com tanta sede ao pote. Mas, gastando desse jeito, com a economia do país sem crescimento real, acaba sendo necessário furar o teto de gastos para conseguir R$ 400,00 de auxílio para famílias que estão à beira da fome.

E o veto?

Bolsonaro tinha vetado o absurdo. Mas não deve estar triste com a queda do veto: quem articulou a votação foram três partidos de sua base, aquele ao qual pertence (o PL, de Valdemar Costa Neto), o PP, maior dos partidos que o apoiam, e o Republicanos, ligado a movimentos evangélicos, em especial a Igreja Universal do Reino de Deus. Marcelo Crivella, que Bolsonaro tentou sem êxito nomear embaixador na África do Sul, pertence ao Republicanos. O presidente não fez qualquer articulação para que o seu veto fosse mantido.

O predestinado

O ministro André Mendonça, que acaba de tomar posse como ministro do Supremo Tribunal Federal, disse numa das igrejas do pastor Silas Malafaia que Deus o escolheu para o STF desde antes da criação do mundo.

Por falar nele

A propósito do pastor Silas Malafaia, será que ele já seguiu o conselho oferecido publicamente pelo jornalista Ricardo Boechat, na BandNews FM?

O conselho que ficou famoso de Ricardo Boechat a Malafaia está no ink  https://www.youtube.com/watch?v=IP0CLLJIe9o

Lula de lavada?

As últimas pesquisas mostram Lula ganhando no primeiro turno, com mais votos do que todos os adversários somados. Mostram que Moro incomoda Bolsonaro, tirando-lhe votos, porém não o suficiente para afastá-lo de um eventual segundo turno. Mas é cedo: como diz Gilberto Kassab, fino analista político, a preocupação com as eleições começa depois do Carnaval. Lula leva uma vantagem: tudo o que se podia dizer dele já foi dito. E, embora o fato real seja que ele não foi inocentado das acusações, tanto que algum dia os processos deverão recomeçar, a imagem que fica para a população é de que Lula é inocente, vítima de perseguição política, tanto que o Supremo mandou anular os processos.


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Como a ideologia quer moldar a comunicação

 Antonio Risério

O Estado de São Paulo

A essa altura do campeonato, com a polícia da língua em ação repressora incansável, já nem faço ideia de como hoje, nas Minas Gerais, as pessoas estão chamando o Aleijadinho, que, por sinal, era um mulato (ou negro?) escravista.

E agora, que decretaram que a expressão latina “doméstica” se refere a escravas negras e, portanto, seria afrontosa, logo teremos campanhas contra as placas racistas de “embarque doméstico” que vemos em nossos aeroportos.

Também não sei como racialistas neonegros reagiriam à informação de que a palavra preto começou a ser acionada, com referência a pessoas de pele escura, no Portugal do século 15. É um conceito linguístico do colonizador. Vamos deixar de usá-lo?

O fato é que o combate a expressões supostamente “racistas”, que ganha corpo por aqui, é de uma ignorância atroz. Ponto de emergência do fascismo legiferante semiletrado que ameaça se impor (graças à ignorância geral sobre a nossa história linguística) – e que também chega a ser racista.

Como no caso do combate à expressão “macumba”. A palavra é de origem banta, nos veio do kikongo e do kimbundo, originalmente “makuba”, com o sentido de “reza” ou “invocação”. É racismo querer banir palavras africanas da língua que falamos diariamente.

Além disso, surgiu a “língua” do x-@-e ou “linguagem inclusiva”, que não inclui ninguém e exclui muitos. Pessoas com dislexia, por exemplo. Pessoas semianalfabetas ou em processo de alfabetização, também.

A “língua” do x-@-e, por sinal, já começa querendo nos obrigar a falar não de língua portuguesa, mas de língux portuguesx ou língue portuguese. No caminho da transformação do português numa pedreira consonantal impronunciável. E haja disparates.

A começar por uma trapalhada elementar: gênero gramatical nunca foi gênero biológico. Basta pensar na dupla “cesto” e “cesta”. Alguém já viu o sexo de um cesto ou de uma cesta? O que uma pobre cesta tem a ver com “identidade de gênero”? Existem cestas “trans”?

É evidente que a diferença entre um barco e uma barca é gramatical, não genital. E a vogal temática, em português, não define gênero. Gênero é definido pelo artigo que acompanha a palavra. Sofá termina em “a” e não é feminino.

Boa parte dos nossos adjetivos pode ser masculina ou feminina, independentemente da letra final. E terminar uma palavra com “e” não faz com que ela seja neutra. A alface que o diga.

A linguista Concepción Company, do Instituto de Investigações Filológicas da Universidade Nacional Autônoma do México, lembra que os que atribuem marcações de gênero à dominação patriarcal branca no Ocidente, deveriam saber que a língua árabe não tem marcador de gênero e, no entanto, o patriarcado muçulmano é um fato.

No Afeganistão, as línguas oficiais, o pastum e o farsi ou persa, não têm distinção morfológica de gênero. Todos são obrigados a dizer “todes”. Há milênios. Deve ser por isso que a igualdade de gênero reina entre os talibãs.

O grave é que, não raro, ao colocar um determinado vocábulo no index inquisitorial, os praticantes do eugenismo verbal podem estar simplesmente apagando ou destruindo a experiência sociocultural que se acumulou ali naquela palavra. O projeto totalitário do identitarismo é amplo e sufocante. Trata-se de colonizar a linguagem e o discurso. Mais um capítulo do imperialismo cultural norte-americano em nossa época. O portinglês, o franglais e o italinglese que o digam.

Os identitários vivem se autoproclamando adversários irredutíveis do imperialismo e do colonialismo, mas alguém acredita? Nada mais mimético do que esses militantes. Eles são totalmente colonizados pelo trio norte-americano esquerda-academia-mídia.

Os Estados Unidos tomaram conta da internet, assentaram os termos da nova doxa planetária e fazem as réplicas locais falar a sua língua, repetir os “ideologemas” que consagrou e fazer o discurso determinado pela matriz. Não faz tempo, encontrei, no jornal El País, um artigo de Antonio Caño, “Un Proyecto Fallido”, onde se lia: “Que resta do projeto com que se iniciou nossa democracia? Apenas nada nos une. Nem sequer nosso idioma, que parecia até há pouco um valor intangível e neutro, está hoje fora do conflito ideológico... Não tardará o dia em que proponham retirar o nome do Instituto Cervantes para buscar uma figura supostamente mais inclusiva, alguém que represente melhor a todos os idiomas da Espanha, que a cada dia são mais”.

O quadro traçado nos faz pensar em nós mesmos. Espanta, aliás, que os movimentos negros não tenham ainda cancelado Machado de Assis, com seu elogio da beleza branca, seu desdém pela “cultura negra” e seus ataques à capoeira.

Mas, enfim, estamos assistindo à emergência da crença numa nova magia nominalista. Ou ingressando no reino da onipotência do palavreado. E o combate à cultura estabelecida invadiu o domínio idiomático.

As pessoas se dispuseram a agir sobre a língua para mudar o mundo – quando, ao contrário, deveriam se dispor a agir sobre o mundo para mudar a língua. Afinal, como sempre digo, as cores existem não porque tenhamos palavras para elas. É o contrário. Existe um léxico das cores porque, graças ao equipamento ótico luxuoso com que fomos premiados, o mundo humano é colorido.

Roland Barthes observou certa vez que os revolucionários de 1789 falaram em desmantelar tudo, menos a língua francesa. Nenhuma comunidade humana existe sem a sua língua. Ela é a mais fundamental de todas as instituições sociais. E línguas são cosmovisões milenares.

A língua possibilita, organiza e estrutura o nosso entendimento do mundo. Ou, por outra, o mundo é visto nos termos de nossas estruturas verbais. Sempre que toco nessas teclas, me repetem o truísmo: tudo muda, as línguas também! Claro que as línguas mudam. Mas uma coisa é a mudança processual ocorrendo, a partir da fala, dentro da lógica da própria língua – a que vai de “vossa mercê” a “você”, por exemplo.

Outra coisa é a tentativa instantânea de imposição ideológica, artificial, “desde fora”, de uma partícula ou micropartícula verbal ou de uma justaposição de partículas – como em “amigxs”.

Coisas que nem sequer nascem na fala, que é a prática da língua, mas na escrita político-acadêmica, brotando de fórmulas discursivas geradas em tubos de ensaio, no laboratório dos novos ideólogos da língua.

Maiakovski escreveu: “o povo, o inventa-línguas” – e não “o ativista, o inventa-línguas”. A diferença está toda aí.

Como bem viu o filósofo Adrien Louis, em artigo recente no Figaro, o que estamos no dever de contestar é a tentativa absurda de querer impor uma determinada instrumentalização ideológica da língua. Esta é a questão central.

O argumento de Adrien se organiza em torno desse problema. Diz ele que se o caráter desgracioso – le caractere disgracieux – da escrita inclusiva é um fato evidente, isto apenas traduz a “ambição original” do projeto.

A disgrâce esthétique “reflete bem fielmente a obsessão moral que aquela escrita quer introduzir em nosso uso da língua e, mais fundamentalmente, em nosso pensamento”.

Ou ainda: a disgrâce esthétique traduz uma “intenção exorbitante”, no sentido mesmo de arbitrariedade que ultrapassa a medida justa das coisas, qual seja a de “colocar deliberadamente a língua a serviço de uma certa moral” – ou de “introduzir a pureza moral na textura mais íntima de nosso pensamento”.

E tal “intenção exorbitante” não é dissimulada. Encontra-se sempre explícita na pregação dos militantes desse projeto de eugenismo verbal. A partir do seguinte raciocínio: o dever primeiro de nossa civilização não é liberar os espíritos, mas simplesmente prendê-los ao porto da “boa ideologia”.

Adrien considera corretamente que a luta contra as discriminações e pela vitória da igualdade é a mais legítima de todas as lutas. Mas, em nome disso, não devemos sacrificar a espécie de liberdade que permite que o pensamento respire e floresça.

Vale dizer – e este é realmente o ponto essencial –, o que os militantes da linguagem ou escrita inclusiva querem é “o sacrifício de uma palavra livre, em proveito de um pensamento constantemente vigiado”.


A raiva de Bolsonaro

 Carlos José Marques 

Revista ISTOÉ 

(Crédito: Pedro Ladeira)

Bolsonaro está com raiva! De todo mundo. Da Anvisa por liberar vacinas às crianças, em mais um esforço de proteger a população — algo inaceitável no abecedário de resistência surreal do capitão. Está com raiva do Iphan, que incomodou um de seus amigos diletos, o empresário Luciano Hang, do Grupo Havan, com restrições a obras capazes de destruir cerâmicas históricas, autêntico patrimônio nacional. Está com raiva do INPE, do Coaf, dos indígenas, da Amazônia, dos chineses, do Supremo, da comunidade LGBT, da esquerda, que ganha terreno, da direita, que não o defende como ele deseja, do centro, que atrapalha seus planos; do povo em geral. E destila seu ódio para todo o lado, embrenhando-se em uma insana contraofensiva de retaliações. 

Para ameaçar à Anvisa, anunciou tornar público o nome dos técnicos que tiveram a “insolência” de autorizar a imunização infantil. A máquina bolsonarista, atendendo ao chamado do chefe, logo entrou em ação e passou a intimidar os funcionários da Agência, reeditando movimentos sombrios dos regimes de exceção. PF e PGR tiveram de intervir para garantir a segurança física dos perseguidos. Em resposta à petulância do Iphan, Bolsonaro jactou-se de mandar embora os responsáveis da autarquia que embargaram o projeto de Hang. A represália do mandatário gerou consequências na Justiça Federal, que determinou a saída imediata do cargo da diretora-presidente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) por inépcia na gestão. O Messias dos trópicos ainda pensa que pode tudo e não aceita ser contrariado. Deve estar convencido de que virou soberano absoluto ou procura impor essa realidade sem cabimento à democracia brasileira. Bolsonaro, na verdade, alimenta muita raiva, sobretudo devido à surra monumental que vem sofrendo nas pesquisas diante do arquirrival dos grotões, o demiurgo de Garanhuns e ex-presidiário, Luiz Inácio Lula da Silva, que hoje o derruba com um só golpe certeiro (do dobro de votos) e o coloca no chão, fora do cargo, talvez ainda no primeiro turno. 

Bolsonaro quer descontar em todo mundo o medo de uma iminente e fragorosa derrota eleitoral — algo cada dia mais palpável e dramático para um mandatário considerado, por quase 50% dos entrevistados, como o pior presidente da história. No momento, Bolsonaro perde de qualquer um que dispute com ele em um eventual segundo turno. Tem a maior rejeição (mais de 65%) dentre os postulantes e, enquanto ainda goza das benesses do poder, vai procurando arrotar valentia a torto e a direito. Não aceita, não tolera, a ideia da avalanche de revezes nos seus desmandos totalitários. Sobrou até para a Suprema Corte, novamente na mira do capitão por analisar a não aceitação do marco temporal. Revoltado, com ódio mesmo, de levar nova rasteira, disse que tomará “providências sérias” e que entrará em campo, botando para quebrar, caso os magistrados barrem a medida. Não detalhou exatamente como fará isso, mas deixou no ar o tom de coação. Bolsonaro está disposto a ir às últimas consequências para alterar a todo custo o marco temporal em terras indígenas, permitindo, dessa maneira, o avanço da garimpagem, dos ruralistas e da grilagem. Ao estabelecer uma espécie de linha de corte nas demarcações, freia direitos indígenas seculares. 

Ele não tolera a possibilidade do STF atrapalhar a sua estratégia, mesmo com base em fundamentos constitucionais. Quer impor suas vontades à revelia do previsto em lei. Parece mesmo não ter limites a ignorância crônica do inquilino do Planalto. Espécie de fanfarrão do mal, com a popularidade derretendo dia a dia, ele resolveu despir a fantasia e a máscara de bom moço para revelar a faceta mais tenebrosa de seus pendores arbitrários. Não tem alcançado melhores pontos com isso. Também pudera. Até a vacina ele considera “porcaria”, como classificou um “zé mané” no esgoto das redes digitais, e o mandatário (por incrível que pareça) achou por bem repassar adiante, compartilhando a “abalizada” desinformação no seu universo de canais online. E aí reside a insustentável dúvida: como pode um chefe de Estado, nos dias de hoje, ser capaz de endossar e respaldar tamanha estultice? O sujeito alegou até chances de morte pelo imunizante. E Bolsonaro achou ok, avalizou. O mandatário também enxerga fantasmas de perseguição por onde passa. Mesmo a Polícia Federal, que ele tentou controlar trocando quadros, mandando embora quem o contrariava, teve a pachorra – imagine só! – de acusá-lo de atuar de forma “direta e relevante” para desinformar sobre o sistema eleitoral.

Como é possível? O Messias quase não acreditou quando viu. Reclamou a interlocutores sobre a “traição”. Logo a PF, onde acreditava mandar e desmandar, lhe aplicou mais essa manobra. É para ficar com muita raiva mesmo. Gradativamente o cerco se fecha. Não há quem tolere tanta demência. A não ser os colaboradores mais próximos que, por indulgência, idolatria ou cegueira irreversível corroboram suas insanidades. A interferência do presidente na Anvisa, por exemplo, não é apenas ilegal como criminosa. Ele fez confissão de público do ato e, por mais surpreendente que possa parecer, parte expressiva da elite nacional resolveu aplaudí-lo em cerimônia na Fiesp quando ele contou o episódio. Suas investidas sorrateiras e antidemocráticas contra instituições são ainda toleradas, sem represálias, consagrando uma era de infâmia. Há quase três anos Bolsonaro vai promovendo a destruição generalizada de fundamentos basilares da civilidade. E alguns ainda acham pouco. O sumidouro de vidas e o avanço da miséria, do desemprego e da inflação não aparecem como meros detalhes da cruzada em curso rumo à terra arrasada. Representam obras de um atraso sem precedentes. Nesses dias de retrocesso, até o ministro Paulo Guedes decidiu exercer outro diminuto papel de arrivista e mandou às favas o FMI. Pediu para que a entidade batesse em retirada do Brasil. E foi prontamente atendido. Escritório fechado e especialistas arrumando a mala para sumir de vez daqui. Na vizinha Venezuela, muitos assistiram ao então caudilho Hugo Chávez fazendo o mesmo, expulsando uma a uma instituições internacionais. Deu no que deu. 

O Brasil de Bolsonaro constrói o mesmo caminho, de maneira calculada e milimétrica, não há dúvida. Ele e suas falanges estão com raiva da realidade, das derrotas em série, do próprio fracasso. Raiva daqueles que apontam as falhas e desvios de um desgoverno sem reparo. Queriam montar a baderna autoritária por essas bandas sob a complacência do capital. Mas, com fábricas fechando, o mercado encolhendo, os consumidores na miséria e o lucro se esvaindo, o projeto foi para o beleléu. E Bolsonaro não gostou. O delírio rudimentar das igrejinhas ideológicas e setoriais, levadas por esses salvadores da pátria e por seus gabinetes do ódio, está com os dias contados. Para desespero do “mito”, que apenas sobrevive em meio ao binarismo idiota e à guerra tribal e banal de extremistas — de lado a lado condenados à extinção e ao esquecimento. Pode anotar. Afinal, o Brasil merece mais que a muvuca dos loucos.


Inocente ou culpado? Isso não interessa, o que importa é o “processualismo patolóogico!”

 Carlos Alberto Sardenberg, O Globo

Tribuna da Internet 

Charge do Zappa (Arquivo Google)

A volta ao tema do sábado passado se justifica por dois motivos: primeiro, porque a Segunda Turma do Supremo continuou nesta semana o processo liberou geral de réus e/ou condenados pela Lava Jato e operações afins; segundo, e mais importante, porque encontramos em comentários do professor Joaquim Falcão, jurista tão sábio quanto técnico, as palavras exatas para descrever o que acontece em tribunais superiores.

Começando pelo fato: na última terça, a Segundona decidiu retirar da competência do juiz federal Marcelo Bretas o caso do empresário Jacob Barata Filho.

SEMPRE GILMAR – Conhecido como o “rei do ônibus”, Barata já havia sido condenado por Bretas, junto com Sérgio Cabral, por fraudes e propinas variadas na concessão e administração do sistema de transportes do Rio. Mas com relatoria de Gilmar Mendes, a Segunda Turma decidiu que o caso deveria ir para a Justiça Estadual – e lá começar de novo.

O placar foi o de sempre, 3 a 1. Gilmar Mendes, o líder,  Ricardo Lewandowski e Nunes Marques, de um lado e, de outro, Edson Fachin, sempre voto vencido na tese de manter as decisões da Lava Jato.

Há um detalhe adicional neste caso. Gilmar Mendes e sua mulher foram padrinhos de casamento do filho de Barata. O ministro já havia dado três habeas corpus ao empresário. Perguntado uma vez se não havia suspeição, Gilmar respondeu que não via problema algum em julgar pessoas de suas relações, inclusive políticos.

SEMPRE 3 A 2 – O novo ministro, André Mendonça, vai para essa Segunda Turma. Ele já defendeu a Lava Jato, mas, na sabatina do Senado, declarou-se garantista, estrategicamente. De todo modo, mesmo que se alinhe com Fachin, será sempre 3 a 2, como era quando a ministra Carmen Lúcia integrava a turma.

Ou seja, vai continuar o desmonte do combate à corrupção. E aqui entra Joaquim Falcão. Ele encontrou as palavras exatas – e, pois, a tese – para definir o que está acontecendo: “processualismo patológico”.

Quer dizer o seguinte: as cortes não estão dizendo se a pessoa é inocente ou culpada, mas recorrem a suposta “impropriedade processual” para anular condenações e provas. Ora, acrescenta Falcão, conforme citado na revista Crusoé, a sociedade não quer saber de labirintos processuais, mas se o suspeito cometeu ou não o crime.

TIPO PRESCRIÇÃO – É típico o caso de Lula. O Supremo não entrou no mérito, não disse se ele é culpado ou inocente, apenas mandou os casos para outro foro, onde prescreveram.

A civilização ocidental e a democracia reconhecem a presunção de inocência e, mais, que fazer justiça depende, sim, do devido processo legal. Mas quando uma pessoa torna-se suspeita de algum crime, quando é denunciada, fazer justiça é levar o devido processo até o fim e declarar que o sujeito é culpado ou inocente.

Juízes com os quais tenho conversado, supergarantistas, dizem que não importa o tempo do processo. Assim, se encontrada uma impropriedade processual, em qualquer momento, deve ser corrigida.

EXCESSO DE BOA FÉ – Quase me saiu o comentário – quanta ingenuidade! – mas troquei por excesso de boa fé. Ocorre que as cortes brasileiras, especialmente aquelas lá de cima, encontram ou afastam impropriedades processuais por razões nada técnicas. E, sim, por conveniências variadas – desde pessoais até políticas, nestes casos, para defender o pessoal que instituiu um sistema de poder favorável a grupos igualmente variados, de políticos e altos funcionários a empresários e lobistas, incluindo seus advogados. Trata-se do pessoal que controla os orçamentos públicos, as estatais, os cargos nos governos.

É uma turma de muitas vidas. Já sofreu derrotas duras, como no Mensalão e no Petrolão, quando figurões foram condenados e presos. Mas sempre arranja um jeito de dar a volta por cima. Como agora: centenas de condenações sendo anuladas por “impropriedade processual”.

Os grandes escritórios de advocacia criminal, que acumularam anos e derrotas,  estão agora modo de boas festas. Grandes festas.

(Artigo enviado por Celso Serra) 



É permitido roubar. porque os fatos comprovam que vale a pena viver do crime no Brasil

 J. R. Guzzo, Estadão

Tribuna da Internet

Charge do Duke (O Tempo)

O Brasil, por responsabilidade direta do seu aparelho judiciário mais alto, está se transformando oficialmente num país onde o crime compensa. Não qualquer crime, é claro – só os crimes de corrupção e os que são cometidos por quem tem dinheiro para pagar escritórios milionários de advocacia criminal.

É óbvio que o público pagante ouve os proprietários do sistema dizerem o tempo todo que estão aplicando a lei. Mais: a cada bandido solto, garantem que estão salvando a democracia e o “estado de direito”. Mas os fatos, derivados da matemática, comprovam que vale a pena viver sistematicamente do crime no Brasil de hoje. É roubar, recorrer à Justiça de primeira grandeza e correr para o abraço.

LÓGICA ELEMENTAR – Fica claro que é assim que as coisas funcionam no mundo das realidades quando se deixa de lado o palavrório hermenêutico, propedêutico e incompreensível da altíssima magistratura e se vai para a lógica mais elementar dos números.

Poucas evidências poderiam demonstrar com clareza tão devastadora essa aberração como reportagem publicada há pouco por O Estado de S. Paulo. Está tudo ali: em apenas nove meses, em 2021, os tribunais superiores anularam 277 anos de prisão para crimes cinco-estrelas, 80% de corrupção. Existe alguma coisa parecida com isso, em qualquer lugar do mundo? Diante de cifras assim, qualquer um fica autorizado a dizer que a Justiça brasileira está declarando, em suas sentenças, que no Brasil é permitido ser corrupto. A qual outra conclusão alguém poderia chegar?

DIFÍCIL ACREDITAR – Não está claro como uma sociedade séria consegue funcionar desse jeito.

Como seria possível, diante daqueles quase 300 anos, esperar que o cidadão comum tenha um mínimo de respeito pelo STF, pela tribunalzada toda de Brasília e pelo resto do sistema judiciário brasileiro?

Um poder judiciário desprezado pela população não apenas falsifica a ideia básica de qualquer democracia. Também espalha o veneno da insegurança jurídica – se a lei, sabidamente, não vai ser respeitada, a quem a população pode pedir proteção?

DISSE LUIZ FUX – “Honra-nos constatar que os brasileiros estão do lado do STF”, disse outro dia o presidente Luiz Fux. De onde ele foi tirar um disparate desses? É uma prova, mais uma, de que os ministros estão rompendo relações com a vida real.

Têm espasmos de exibicionismo ilegal, oportunista e sem o menor risco quando se trata de punir os donos e cantores de uma boate que pegou fogo, e são pobres diabos sem poder nenhum. Na hora de punir ladrão poderoso anulam as penas até de réus confessos, e autores de delações premiadas.

Como seria possível condenar alguém no Brasil se o Supremo Tribunal Federal absolve criminosos que dizem: “Sim, eu cometi um crime”? É onde estamos.


Uma santa vitória dos evangélicos

 Elio Gaspari

O Globo

Bancada evangélica travou trama que pretendia legalizar os jogos de azar e reabrir cassinos, chamando-os de resorts

Os bons costumes nacionais devem à boa parte da bancada evangélica da Câmara um grande serviço. Ela travou a trama que pretendia legalizar o jogo em Pindorama. À primeira vista, o que havia era apenas um truque do presidente da Câmara, Arthur Lira, levando ao plenário no escurinho de Brasília um velho projeto, que legaliza os jogos de azar e permite a reabertura de cassinos, chamando-os de resorts. O filé mignon e o pote de veneno dessa iniciativa estão na abertura dos cassinos. Por trás de uma panaceia arrecadatória e turística, há muito mais.

Aos fatos:

Em maio de 2018, entrando pela cozinha do Copacabana Palace, o candidato a presidente Jair Bolsonaro e o economista Paulo Guedes se encontraram com o bilionário americano Sheldon Adelson. Ele veio ao Brasil com dois objetivos: obter a promessa da instalação da embaixada brasileira em Jerusalém e tratar da abertura de cassinos em cidades turísticas. Adelson, grande financiador do partido Republicano nos Estados Unidos, tinha cassinos em Las Vegas, Singapura e Macau.

O jabuti andou. Em dezembro daquele ano, o então prefeito do Rio, Marcelo Crivella, defendeu a criação de um complexo hoteleiro com cassino no Porto Maravilha. Meses depois, já na presidência da República, Bolsonaro informou: “Não quero adiantar aqui. Brevemente, estará sendo apresentado aos senhores um projeto que, com todo o respeito ao Paulo Guedes, a previsão é de termos dinheiro em caixa maior do que a reforma previdenciária em dez anos”.

Nas contas dos amigos do jabuti, os cassinos poderiam render à Viúva até R$ 18 bilhões em arrecadação. Bolsonaro teria discutido o assunto num de seus encontros com o presidente americano Donald Trump, dono de cassinos na sua terra.

Em novembro de 2019, o ministro Paulo Guedes veio para a vitrine e louvou os cassinos de Las Vegas: “Imagina ter o mesmo na região da Amazônia? Mistério, turismo, entretenimento e um centro mundial de energia sustentável”. Outros príncipes do bolsonarismo circularam pelo circuito mundial da jogatina e pelo escritório de Adelson.

Na famosa reunião do ministério de abril de 2020, o tema dos resorts reapareceu com sua roupagem de vestal do turismo. Foi rebatido pela terrivelmente evangélica ministra Damares Alves: “Pacto com o diabo.”

Damares vocalizava uma posição arraigada no meio evangélico que não bebe, não fuma e não joga. O assunto poderia ter morrido, mas Paulo Guedes retomou-o: 

“Tem problema nenhum. São bilionários, são milionários. Executivos do mundo inteiro. (...) O turismo saiu de cinco milhões em Singapura para 30 milhões por ano. O Brasil recebe seis. (...) O sonho do presidente de transformar o Rio de Janeiro em Cancún lá, Angra dos Reis em Cancún . (...) É um centro de negócios. É só maior de idade. O cara entra, deixa grana lá que ele ganhou anteontem, ele deixa aquilo lá, bebe, sai feliz da vida. Aquilo ali não atrapalha ninguém. Deixa cada um se foder. Ô Damares. Damares. Damares. Deixa cada um ... Damares. Damares. O presidente fala em liberdade. Deixa cada um se foder do jeito que quiser. Principalmente se o cara é maior, vacinado e bilionário. Deixa o cara se foder, pô! Não tem ... Lá não entra nenhum, lá não entra nenhum brasileirinho.”

Ninguém seria capaz de imaginar que esse seria o nível do debate de um doutor pela universidade de Chicago, mas vá lá.

A discussão de abril se tornou pública e o projeto continuou sua caminhada pelo escurinho de Brasília. Se uma parte da bancada evangélica tivesse ficado quieta, Arthur Lira teria colocado na pauta a legalização dos cassinos. Com a reação, ele aprovou a urgência, mas se comprometeu a só colocar o mérito do projeto em votação a partir de fevereiro. Até lá, como diz o croupier da roleta: façam seus jogos, senhores. 

Sheldon Adelson terá que esperar. Ele morreu em janeiro passado, aos 87 anos, deixando algo como US$ 30 bilhões.

Madame Natasha saúda o neologismo

Madame Natasha adorou ouvir que delegados da Polícia Federal criticaram o espetáculo da ação praticada contra os irmãos Ciro e Cid Gomes na terça-feira, classificando-a de “lavajatismo”.

A expressão Lava-Jato, que designava ações contra a corrupção de políticos e empresários, gerou um neologismo que designa teatralidades intimidatórias, destinadas a condenar suas vítimas pela construção de espetáculos.

Natasha encantou-se com o neologismo, que a remeteu ao grande momento literário de Dean Acheson, o secretário de Estado americano (1949-1953) que ela adorava na sua juventude. Imponente, chique e mordaz, Acheson comeu o pão que Asmodeu amassou nas mãos do senador Joseph McCarthy, que comandou uma caça às bruxas na administração americana. Bebum e mentiroso, ele acabou censurado pelos colegas. Morreu em 1957, levado pela cirrose e pela amargura.

Anos depois, ao escrever suas magníficas memórias, Acheson deu-lhe poucas e memoráveis palavras. Disse que, como o juiz Lynch (pai do verbo linchar) e do capitão Boycott (pai do verbo boicotar), o senador “enriqueceu a língua inglesa” gerando a palavra macartismo. 

Lexotan para Guedes

Desde 1959, quando o governo brasileiro vai para as cordas, o presidente ou seu ministro da Fazenda arrumam uma encrenca com o Fundo Monetário Internacional. Agora foi a vez do doutor Paulo Guedes. Aborrecido com as previsões pessimistas e erradas do Fundo para o desempenho da economia brasileira, ele dispensou os serviços do escritório do Fundo em Brasília.

Poderia ter feito isso em silêncio ao estilo de Pedro Malan ou de Octavio Gouveia de Bulhões, mas preferiu dar ao gesto uma marca bolsonariana: “O FMI fez uma lambança, e eu descredenciei a missão”.

Não precisava, até porque por mais lambanças que o Fundo faça, elas não se comparam com as que as ekipekonômikas de Pindorama patrocinam.

Na mesma apresentação, Guedes maltratou o economista Ilan Goldfajn, o ex-presidente do Banco Central que assumirá uma diretoria do Fundo em Washington. Goldfajn é acima de tudo uma pessoa educada que irradia bom humor. Explicando-se, Guedes informou: “O Ilan é um ótimo brasileiro. Boa pessoa, tudo isso. Ontem, criticou a gente pesado, então estou devolvendo hoje”.

O general da reserva Augusto Heleno, chefe do Gabinete de Segurança Institucional, disse que toma Lexotan na veia para aguentar o Supremo Tribunal Federal. Ele poderia aproveitar a oportunidade, criando um posto de atendimento para ministros que precisam de ansiolíticos. Algumas doses fariam bem a Guedes. 

Petista feliz

De um petista feliz com as últimas pesquisas debaixo do braço:

“Do jeito que vão as coisas, Bolsonaro não irá ao segundo turno porque não haverá segundo turno.”


Brasil não pode ser governado por viciados em dinheiro público, milícias digitais e gangues virtuais

 Celso Serra

Tribuna da Internet

Santos Cruz não aceita essa cultura de “tolerar a corrupção”

O artigo que cito abaixo, editado em O Globo deste sábado, dia 18/12, traça um retrato impressionante do Brasil de hoje, que se tornou o paraíso da corrupção, com impunidade garantida aos empresários e políticos que são “viciados em dinheiro público”, no dizer do ex-ministro e general Santos Cruz, que se torna uma espécie de testemunha ocular da História.

Santos Cruz diz que vai se candidatar para evitar que Bolsonaro envolva as Forças Armadas em seu jogo político; para alertar sobre o perigo do fanatismo político; e para apoiar a terceira via como alternativa à polarização entre Lula e Bolsonaro. E onde tem fumaça é provável que haja fogo…


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UM PAÍS DOENTE DE CORRUPÇÃO E FANATISMO

Carlos Alberto dos Santos Cruz  –  O Globo

A corrupção é o câncer brasileiro. Não só é crime organizado, como institucionalizado. Os mecanismos de defesa da corrupção ao longo da História criaram uma tolerância descabida à prática do roubo do dinheiro público. Naturalizaram o “rouba mas faz”. Criaram a crença de que “é assim mesmo”, de que “não é possível governar” sem fechar os olhos ao roubo do povo brasileiro. As vítimas da corrupção não têm “cara”? Têm, sim. Cada vítima tem um rosto. É o rosto de cada um de nós, principalmente dos mais desfavorecidos.

A corrupção e seu suporte histórico precisam ser atacados: privilégios imorais, foro privilegiado, mau funcionamento da Justiça, impunidade, prisão em segunda instância, progressão da pena etc.

CULTURA DA CORRUPÇÃO – O enraizamento da cultura da corrupção e seus mecanismos na sociedade conseguem sempre colocar na prioridade um outro problema mais urgente. A própria corrupção produz um problema mais urgente do que ela para poder se perpetuar. É a estratégia para que nunca fique em primeiro lugar na lista de problemas a resolver.

Em consequência de vícios históricos e outros problemas circunstanciais, hoje a prioridade do Brasil é resolver o problema do auxílio aos necessitados, do desemprego! Essa é a emergência! Não quer dizer que outros problemas não sejam urgentes, até porque são eles que sustentam o ciclo de fome, miséria, falta de qualidade no serviço público, ensino, saúde etc.

Nos últimos anos, o fanatismo político veio se somar ao câncer da corrupção, deixando o país mais doente ainda. Fanatismo e extremismo, sejam de “direita, esquerda ou centro”, permitem manipular a opinião pública.

ABERTURA AO CRIME – O fanatismo e a corrupção toleram privilégios, protegem o foro privilegiado, sustentam a impunidade, promovem aparelhamento e desmoralização das instituições. Nesse contexto, viceja toda forma de crime: corrupção, mensalões, petrolões, roubo de fundos de pensões, orçamentos secretos, viagens e “festas” com dinheiro público, controle de áreas e atividades pelo crime organizado e pelas milícias etc.

Os fanáticos intoxicam a população, manipulam a opinião pública, espalham fake news, desinformam, assassinam reputações, fabricam falsos mitos, cultuam personalidades, fazendo crer que precisamos de “salvadores da pátria”. Não precisamos! O Brasil precisa é de instituições fortes, de união, de solução dos problemas nacionais.

O Brasil não aguenta mais governantes mentirosos, traidores de seu próprio discurso, estelionatários eleitorais, covardes, corruptos, despreparados, que não assumem a responsabilidade de suas funções.

CAMPANHA SUJA – O país não pode ser governado por viciados em dinheiro público, apoiados em milícias digitais e gangues virtuais que consideram os brasileiros um povo idiota. Basta de governos que promovem desunião e divisão social em busca de projetos de poder pessoal, familiar, de grupos e partidos! O brasileiro não é estúpido e não se deixará arrastar para a mediocridade de uma campanha eleitoral suja e rasteira, baseada em mentiras, fake news e desinformação.

O fanatismo sempre leva à violência e ao desrespeito. Está deteriorando e infectando relações pessoais, sociais e familiares. Está destruindo amizades por causa de governantes que não têm princípios nem compromisso com ninguém nem com nada, que serão temporários seja em dez meses ou quatro anos e dez meses, mas temporários de qualquer modo.

O prejuízo ficará para famílias, instituições, amigos e o povo brasileiro… A vigarice seguirá em frente, na busca incessante da impunidade.

AVENTUREIROS SEM PÁTRIA – O Brasil não pode continuar na mão de aventureiros sem projeto de Brasil se dizendo patriotas e “salvadores da pátria”. Patriota é todo cidadão que ama seu país e leva vida decente, e não um pequeno bando de viciados em dinheiro público, benesses funcionais e foro privilegiado.

O Brasil precisa de união. Precisa rejeitar os extremistas e a polarização, repudiar o show político que tenta encobrir o despreparo e a incompetência. O Brasil tem de dizer “não” à armadilha do populismo, do embuste e da polarização. O Brasil não pode continuar vítima da corrupção e do fanatismo. A eleição é o remédio democrático para essas duas doenças.

A sociedade precisa exigir uma campanha com propostas de soluções, e não aceitar um show político populista, baseado numa indústria de fake news e demagogia.