quarta-feira, abril 27, 2011

Um governo ainda sem rumo...

Adelson Elias Vasconcellos


 
Ontem, a presidente falou algumas obviedades, mas não deixou de ferir o bom senso. Referindo-se à inflação disse aquilo que se esperava, a de que o seu governo está preocupado. Paulo Rabello Castro (ver abaixo) afirma em seu artigo que, nestes primeiros meses de governo Dilma, não foi possível descortinar qual direção Dilma pretende dar ao seu governo.

A inflação é apenas uma das questões, mas não é a única. E não é como o atrapalhado Mantega tentou insinuar de que a inflação é mundial. Mentira. Quem lê jornais sabe que a inflação brasileira se deriva de causas internas, não externas. Nosso ministro da Fazenda acha que basta dizer qualquer asneira para se justificar que ficará tudo bem. Uma ova, senhor Mantega! O que existe de verdade é que temos um governo que herdou uma herança maldita que, diga-se de passagem, o senhor é co-responsável juntamente com a atual presidente. Aliás, Dilma disse que não podia esconder que a inflação está subindo, entre outros fatores, pelo aumento de preços na área de bens, alimentos e etanol. A presidente, afirmou, no entanto, que está atenta a todas as pressões inflacionárias e fazendo análises. Disse mais: que o governo não vai “aquecer” o debate econômico. Declarando por duas vezes que cumpre seus compromissos, ela voltou a dizer que não permitirá um descontrole da inflação. “Todo aumento da inflação vai exigir que o governo tenha uma atenção bastante especial sobre as suas fontes e causas. Então eu quero dizer a esse conselho: o meu governo está diuturnamente, e até noturnamente (sic), atento a todas as pressões inflacionárias, venham de onde vier, e fazendo permanente análise dela”, disse Dilma. Em um discurso forte na primeira reunião do CDES (Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social) de seu governo, Dilma pediu que os empresários e a sociedade confiem nas medidas adotadas pelo governo para o controle da alta de preço. Segundo a presidente, parte das cobranças por novas medidas é motivada por calor e paixão do debate.

Vamos por um pouco de ordem nesta confusão de “análises presidenciais”. Primeiro, que o governo tentou sim esconder da sociedade que a inflação estava sob controle. Logo no inicio do ano, a subida dos preços não passava de um espirro que arrefeceria em seguida. Mantega inclusive previu que, em março, os preços começariam a cair. Março já foi mas a inflação ainda não.

Dilma disse que está atenta e fazendo análises. Adoraria que saísse logo das análises e partisse para “os finalmente”. Inflação é coisa com a qual não se brinca e, se demorar a agir, ela cria raízes e fica permanente. Quanto a confiar nas medidas que o governo está adotando, adoraria poder colaborar. Mas não dá, e por uma única razão: apesar do discurso, o que não se vê são justamente medidas adotadas pelo governo. Portanto, é difícil confiar em sujeito oculto. Quanto a sociedade cobrar “novas medidas”, ela está em seu direito fazê-lo. O que não pode é o governo dizer que não dá para esconder a inflação e, ao mesmo tempo, dizer que a cobrança que feita, é movida pelo calor e paixão do debate. Ocorre, dona Dilma e senhor Mantega, que o que está faltando é exatamente mais debate. Não se pode é querer tapar a voz da sociedade, já que ela é quem mais sofre pela omissão e incompetência governamentais.

Entendo que dona Dilma padeça de um grave mal, como vimos abaixo, que é sua total falta de capacidade de análise. Seus diagnósticos são, costumeiramente, de um primarismo doloroso.

Já disse que o grande problema de Dilma é ter que fazer escolhas, função por sinal, da alçada de todo o governante. A leitura que deve ser feita é por que, apesar dos juros e do câmbio, os preços internamente teimam em subir? Seria ótimo que dona Dilma olhasse para dentro do próprio governo que comanda, além de dar uma olhada rápida no passado recente, mais precisamente nos últimos dois anos do governo Lula e descobrirá facilmente todas as respostas.

O tempo que tinha para agir com presteza para combater a inflação, recuperar o equilíbrio fiscal e garantir no médio prazo crescimento sustentável foram jogados fora por uma questão de escolha. Mais preocupada em garantir poder político, abandonou de vez as preocupações com a economia por entender que os problemas se resolveriam por osmose ou por causas naturais. Deixar de fazer o que é certo, não é apenas sinal de incompetência, mas, também, de falta de coragem para tomar decisões que, muito embora sejam de alto custo político no curto prazo, garantem ao longo do tempo a estabilidade que o país conquistou com muito sacrifício.

A farra da gastança promovida por Lula para fazer sua sucessão está agora cobrando seu preço. A vitória nas urnas foi de Lula-Dilma, mas a fatura está sendo apresentada e cobrada de todos nós. Além disto, é indiscutível que o aumento do tamanho do Estado, aumento por sinal abusivo, inútil e desnecessário, impõe gastos além da capacidade que a sociedade tem para bancar tamanho desperdício. Não é por outra que, por outro lado, falte dinheiro para saúde, educação, segurança, saneamento e infraestrutura. O inchaço da máquina pública não se dá apenas para acomodar a companheirada. Contando com uma base de apoio onde se regalam cerca de 17 partidos políticos, tanto apoio cobra o preço que os políticos mais adoram: cargos, com altos ganhos e benefícios, mesmo que a natureza do cargo seja totalmente inócua, vazia.

Além disto, some-se que o PT não abre mão de jeito algum de seu projeto de poder, razão pela qual, certas medidas, por mais necessárias que sejam, se colocadas como risco a este projeto, mesmo que em beneficio geral do país, serão imediatamente descartadas. Um caso exemplar deste “modelo” é a situação dos aeroportos brasileiros. Agora, anuncia-se, diante da ameaça real de um vexame mundial, que alguns aeroportos seram concedidos à iniciativa privada, solução que já deveria ter sido tomada há bem mais tempo, mas que foi retardada por conta do interesse eleitoreiro de Lula e Dilma. Entretanto, creio que a medida chega agora com um grande atraso.

No discurso, Dilma se referiu muito à Copa do Mundo em 2014 e às Olimpíadas em 2016. Contudo, alguém precisa avisá-la que, um ano antes da Copa, já em 2013, teremos a Copa das Confederações e, até lá, muita coisa já deverá estar pronta e funcionando. Há muito tempo que alerto que o país está excessivamente preocupado com as arenas e os aeroportos. Mas a Copa não nos exigirá apenas isto. Neste sentido, o Brasil jogou no lixo o tempo útil que tinha e, lamentavelmente, condenou a Copa no Brasil a ser apenas um arremedo do que poderia ser um grande evento em favor da nossa imagem externa. Vamos apenas “quebrar galho”. Nada muito além disto.

Quanto às questões econômicas, infelizmente, o governo Dilma continua sem ação e sem rumo. Jogamos oito anos em puro desperdício de tempo, oportunidades e recursos, sem conduzir o país para as reformas que nos garantiriam um presente menos tumultuado e com melhores perspectivas. Não será com esta turma que está aí que sairemos das dificuldades, a menos que a economia mundial tenha uma recuperação espetacular nos próximos meses e nos impulsione, a exemplo do que ocorreu no governo Lula, entre 2003 a 2007. Como tal hipótese é bastante improvável, teremos que encontrar nossas próprias soluções. O raio é que insistimos na fórmula errada. Precisa reduzir o tamanho do Estado. O PT vai deixar? Precisamos reduzir despesas correntes, o que significa conter gastos ditos “sociais”. O PT vai abrir mão de atender seu curral eleitoral, com eleições no próximo ano? Precisamos de um projeto de desenvolvimento sério e voltado ao interesse do país e que, nas atuais circunstâncias, se contrapõe ao projeto de poder do governo de plantão. O PT vai abrir mão de seu interesse egoísta que prejudica o país visivelmente? E as reformas com seu sabor de prejuízo político, serão levadas avante mesmo diante de um prejuízo nas urnas?

Portanto, se quando podia ter feito o dever de casa, o partido priorizou sua ambição política, não será agora que ele voltará atrás para implementar as medidas que clamam urgência.

Durante a campanha, Dilma prometeu e se comprometeu em reduzir a carga tributária. O que vimos nestes primeiros quatro meses? O oposto do anunciado, ou seja, a carga aumentou. E o comprometimento com novas despesas de custeio, também. Nesta semana, talvez, o Banco Central anuncie nova intenção de aumentar os juros que, por conseguinte, baterão de frente com as dificuldades cambiais. Claro que dá, ao contrário do que afirma Mantega, para compatibilizar câmbio e juros sem comprometer absolutamente nada. Mas para tanto há um preço político a pagar que este governo não tem demonstrado a menor disposição em fazê-lo.

E, apesar do comprometimento das contas públicas ter avançado em demasia o sinal, ainda dá tempo para reverter o atual quadro de dificuldades. O diabo é que não se vê nenhuma intenção do governo em adotar as medidas necessárias para tanto. Assim, seguiremos sem rumo por um bom tempo, com a nossa estabilidade econômica ficando cada dia mais deteriorada.

O doloroso no caso do governo petista, já em seu nono ano de poder, é constatar que eles não aprenderam nada com suas próprias mazelas. Fruto de sua visão desmiolada, o país não para de enfrentar um apagão atrás do outro. Aeroportos, segurança pública, saúde, e até na energia elétrica que, de forma absolutamente vigarista, sofre com apagões em determinadas regiões do país, por absoluta falta de investimentos em equipamentos e linhas de transmissão. A última, conforme vimos nesta edição, era onde menos se poderia esperar: a dos combustíveis. Enterra-se de vez a mentira que Lula se encarregou de contar e enganar o país, a da autossuficiência. Isto tudo demonstra de forma cabal que estamos diante de um governo não apenas incompetente, mas, sobretudo, de um governo sem projeto em favor do país e sem rumo. Sua única obsessão é o poder pelo poder.

Quanto ao combate à inflação que Dilma promete manter, mas sem comprometer o crescimento, é preciso considerar que esta é uma guerra que não se vence apenas no discurso. Não bastam boas intenções, é preciso dosar o remédio e ele é amargo. Enquanto o Brasil experimentou a fantasia, sofreu duramente, e a um custo social escandaloso. Somente quando o país teve um governante com a coragem suficiente de pagar o preço político que era necessário para vencer e derrubar a inflação, conseguimos superar as dificuldades e domar o dragão. Goste-se ou não, será preciso conter o crescimento e, por vias transversas, restringir o crédito, tanto na oferta como nos prazos de pagamento. Tentar compatibilizar as duas coisas, além de se apostar perigosamente no imponderável, é empurrar com a barriga um problema que pode ser resolvido agora, mas sem artifícios, sem enganação, sem acomodações, sem meias-medidas. O caminho que o governo escolheu até aqui, lamento informar, só servirá para acender a chama do dragão inflacionário. É combater incêndio com gasolina pura.

Enfim, Dilma adere à privatização. O país agradece!

Adelson Elias Vasconcellos

Uma das grandes vigarices encenadas pelo governo Lula foi atribuir os erros derivados de sua incompetência e omissão na arte de governar os destinos do país e administrar os problemas que atingem a todos nós, sempre aos outros, nunca a ele próprio. E, em seus oito anos de reinado, o que não faltaram foram erros e omissões.

Muitas destas omissões redundaram em verdadeiro caos para os brasileiros. É o caso dos aeroportos. Aliás, todas as questões que envolvem, de alguma forma, a aviação comercial brasileira foram tocadas pela omissão do governo Lula em fazer a coisa certa. Primeiro, a intromissão indevida nas companhias brasileiras que resultou no maior crime já cometido pelo Estado contra uma empresa nacional, no caso a VARIG, e que resultou na sua falência. E este crime tem um mentor intelectual: José Dirceu que, mais tarde, foi substituído por ninguém menos do que a senhora Dilma Rousseff.

Depois, e como este blog vem noticiando há muito tempo, a falta de investimentos no sistema aeroportuário já provocou centenas de vítimas, e vem atendendo milhões de brasileiros como lixo. As “obras” tocadas pelo senhor Lula tiveram o dom de enfeitar a perfumaria, sem nunca chegar ao cuidado de fazer obras de ampliação tanto dos terminais de passageiros quanto na área de cargas e aduanas. Neste sentido, os portos brasileiros padecem do mesmo mal. Portos e aeroportos, na atual condição em que se encontram, são insuficientes para dar conta da demanda atual, quanto mais a que o país terá dentro de dois a três anos.

Lula acusou os outros de não terem investido nos aeroportos. Tudo bem, apesar da vigarice, vamos admitir que o caos aéreo tenha como causa a culpa dos outros. Mas e o governo Lula, fez mesmo o quê para resolver os problemas que supostamente alega ter herdado dos outros “governantes deste país”? Simplesmente, investiu pouco, mal e em puxadinhos que só tornaram o caos ainda maior. E mais: se negou a admitir que a concessão à iniciativa privada era a melhor solução.

Ontem, Palocci anunciou que o governo vai lançar, no início do mês que vem, editais propondo a concessão à iniciativa privada dos aeroportos de Guarulhos (SP) e de Brasília. No fim de maio, será a vez de Viracopos (Campinas-SP). No fim de junho e início de julho, saem o de Confins (MG) e o do Galeão (RJ). A empresa que vencer a licitação executa as obras necessárias — terminais, pistas, infraestrutura, ligação com outros meios de transporte — e depois explora os serviços: aluguel de lojas, tarefas aeroportuárias etc. O prazo para a concessão será de vinte anos. E que nome isso tem? Privatização! Ora, precisou a turma do PT todo este tempo para se dar conta do óbvio? Temo que as questões econômicas que nos atormentam no presente se deteriorem de vez antes do governo Dilma tomar as medidas urgentes que o país tanto precisa para que a inflação não ressuscite como um flagelo doloroso para os brasileiros.

Claro que sabemos que a iniciativa de agora não conseguirá recuperar em tempo o atraso fruto da demagogia, da omissão, da incompetência e teimosia. Infelizmente, isto ainda não será suficiente para convencer o governo petista de que privatização não é aquele mal sobre o qual ele se aventuram em atacar e condenar. Quando feita em áreas adequadas às necessidades de modernização e progresso do país, com regras claras, sem subterfúgios e contratos de gaveta, todos ganham, principalmente a sociedade que, afinal de contas, é o que definitivamente mais conta e interessa.

Veja-se o espetacular sucesso que foi a privatização da telefonia no país. em 1997, havia 17 milhões de linhas fixas no país e 4,5 milhões de celulares. A Telebras foi privatizada em 1998. Em 2003, ano em que Lula chegou ao poder, os fixos já eram 38,8 milhões, e os móveis, 35,2 milhões. Hoje, o país se orgulha de ter mais de uma linha por habitante, coisa impensável caso a Telebrás permanece estatizada. Mas, a despeito deste cenário, há gente petista que ainda condena a privatização da Telebras. É a turma que gosta de um governo feito para benefício de poucos, mas bancado por todos.

E, já que o governo quebrou este encanto maldoso contra os brasileiros, é de se esperar que olhe, doravante, para outras áreas em que a presença da iniciativa privada também pode ser benéfica para o país, como é o caso das estradas rodoviárias, portos e até os presídios. Enquanto o governo for petista e eles mantiverem esta mentalidade preconceituosa, será impossível dar um ar de modernidade ao país. O Estado pertence à sociedade e à ela deve servir e prestar contas. Não pode ser enjaulado para a propriedade e uso exclusivo de um grupo de políticos arcaicos e obsoletos.

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Dilma autoriza definição de critérios para obras de aeroportos
Folha online

O ministro Antonio Palocci (Casa Civil) anunciou nesta terça-feira que a presidente Dilma Rousseff autorizou a Secretaria da Aviação Civil a definir os critérios para a concessão das obras dos aeroportos de Guarulhos (SP), Viracopos (SP) e Brasília (DF). O ministro disse ainda que o governo vai acelerar os estudos para a concessão das obras em Confins (MG) e Galeão (RJ).

Palocci lembrou que essa é uma das medidas analisadas pelo governo para acelerar os empreendimentos estratégicos para a Copa de 2014 e a Olimpíada de 2016.

"Para que a gente possa dar uma resposta a essas questões em um menor espaço de tempo possível", disse durante reunião do CDES (Conselho de Desenvolvimento Economico e Social).

A Folha mostrou hoje que o governo analisa três modelos simultâneos de concessão para ampliar a capacidade dos aeroportos brasileiros em razão da Copa-2014 e da Olimpíada-2016.

Além do sistema puramente privado, a ideia é viabilizar um regime misto de concessão, com a gestão conjunta entre empresas privadas e poder público.

O terceiro é uma espécie de modelo de permuta, no qual o governo concede um projeto específico ao setor privado -lojas de um terminal, por exemplo- em troca de investimentos em aeroportos deficitários ou pouco atrativos do ponto de vista comercial.

Uma presidente ruim de diagnóstico

Comentando a Notícia



Para quem vive o dia a dia do poder já há mais de oito anos, convenhamos, que dona Dilma já deveria ter uma visão mais correta dos problemas brasileiros. Ocorre que a presidente analisa o país pela ótica ruim das esquerdas. E isto leva, inevitavelmente, a conclusões ruins e despropositadas.

Uma nota no site do Instituto Millenium mostra bem esta falta de clareza de parte de dona Dilma. Segue o texto. Comento em seguida:

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Dilma diz que a pobreza impede o exercício dos valores democráticos

Durante evento de homenagem a Tiradentes, em Minas Gerais, a presidente Dilma Rousseff disse que “a pobreza inibe o exercício pleno da cidadania” e que a democracia é o caminho para o desenvolvimento e a inclusão.

“O Brasil somente será efetivamente próspero quando não existir mais pobreza em nosso país. Por razões evidentes, a pobreza inibe o exercício pleno da cidadania. O resgate da pobreza equivale a uma verdadeira emancipação política”, disse Dilma, na cidade histórica de Ouro Preto.

“Estamos ganhando um novo nível de maturidade em nossa consciência cívica, em um ambiente cada vez maior de liberdade”, acrescentou Dilma. “Queremos uma democracia em sua completa integridade. Uma democracia feita de eleitores, bem como de plenos cidadãos. Neste caminho, desenvolvimento e inclusão se entrelaçam”.

Em Ouro Preto, além de ser condecorada com o Grande Colar da Inconfidência, a presidente assistiu, junto ao governador Antonio Anastasia, ao enterro dos restos mortais de três supostos membros do movimento da Inconfidência Mineira, primeira tentativa de independência do Brasil.

Fonte: Site espanhol “ABC.es”

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***** COMENTANDO A NOTÍCIA:

O que vai acima não passa de uma imensa coleção de asneiras. Quando ouvido numa solenidade pública, pode arrancar aplausos e simpatia da galera. Lido e analisado no seu conteúdo, se vê não ir além de uma imensa coletânea de conceitos equivocados. O significativo nisto é que, esta coleção de equívocos, acaba povoando a sociedade brasileira e empobrecendo o debate.

Primeiro, que pobreza nunca foi impedimento para o pleno exercício da cidadania. O que nos garante vida cidadã é o conjunto de leis democráticas em pleno funcionamento através de instituições também democráticas funcionando rigorosamente em plena harmonia. E todo este conjunto é obtido através de um processo educacional sério e de qualidade. Pobreza é uma condição socioeconômica que se encontra em países ricos também. A diferença é que lá, pobres e ricos, são educados para servirem à sociedade e serem úteis a si mesmos. Portanto, ser pobre ou rico não depende do Estado babá, assistencialista. Até pelo contrário: quanto mais o Estado “garantir” subsistência aos cidadãos, mais eles se tornarão submissos ao interesse e caprichos do partido no poder. O que evita esta condição de submissão é justamente a educação de qualidade e virtuosa.

Por seu turno, a emancipação do cidadão se dá pela via do desenvolvimento econômico. Ora, quando um Estado se comporta como tutor e assume a condição de mantenedor do sustento do cidadão? Em estados autoritários, não em democracias plenas. Assim, tendo o cidadão acesso à educação de qualidade, ele próprio, por seus próprios meios, esforços e méritos, será incentivado a buscar esta emancipação por sua própria conta, sem que seja “assistido” pelo estado babá. Em consequência, ele próprio, não o Estado, acabará se “incluindo” no mercado, via mercado de trabalho.

Isto somente será possível se o país for conduzido de forma responsável para um processo de desenvolvimento sustentável. Tal condição, entretanto, somente será alcançada a partir do momento em que este Estado deixe de ser um peso opressivo para a sociedade que pretende representar.

Assim, dizer que a pobreza impede o exercício de valores democráticos não passa de pura fanfarronice. Nenhum país rico nasceu rico. Ele se fez alçando tal condição a partir da educação plena de seu povo. Valores democráticos só podem ser desenvolvidos em ambientes onde o estado de direito e o respeito às oposições vigoram de forma plena. Quando um presidente de partido demoniza seus adversários e até prega sua extinção, não há valor democrático que se consolide de forma plena. Permite-se que a pobreza seja vencida em uma sociedade onde a educação seja a prioridade das prioridades, e desenvolvida de forma virtuosa pelo mérito, e não pela condição de cor de pele, opinião política ou gênero sexual.

Olhando-se para as políticas públicas que o PT tenta impor ao país, o Brasil que eles imaginam é um país de castas, de categorias, de grupelhos elitizados aos quais se quer garantir benefícios especiais que são negados aos demais cidadãos. E isto, caro leitor, jamais poderá redundar numa sociedade democrática como o discurso mistificador tenta insinuar.

Enquanto vigorarem entre nós estes conceitos e valores pervertidos, jamais poderemos sonhar com uma sociedade igualitária. Nas tiranias, só se tem permissão para consentir e dizer sim. É nas democracias que os contrários se justificam e são eles quem garantem consistência ao regime de liberdades.

Brincando de inflação

Guilherme Fiúza, Revista Época

Nada de novo no front. Enquanto Lula implica com os diplomas de Fernando Henrique – na sua já tradicional elegia da ignorância, que faz tanto sucesso – a inflação ruge.

Tem sido assim nos últimos oito anos. Graças à “herança maldita” do antecessor, o PT enche a barriga de votos e depois vai a público cuspir no prato. É o crime perfeito.

Ou quase. Para a perfeição, faltaria um pouco de carinho com a galinha dos ovos de ouro (a estabilidade monetária). Deixar o Banco Central governar – a contragosto – enquanto rola a grande farra populista com o dinheiro público é uma opção esperta, mas arriscada.

A DisneyLula será infinita enquanto durar. Mas os especialistas em matéria fiscal já cansaram de alertar: vai dar m…

E eis que a inflação de abril vem avisar que a brincadeira começa a perder a graça. Em 12 meses, 6,3% – roçando o teto da meta. As previsões para 2011 já indicam que no fim do ano esse teto será uma espécie de camada de ozônio dos preços – devidamente perfurado.

Mas o governo do PT nada teme.

O primeiro teto rachado foi o do próprio Banco Central, finalmente vencido pela infiltração casuística do lulismo.

Zelando por sua imagem santificada, o filho do Brasil impediu no grito a alta dos juros no final de seu governo.

E o que fez Dilma?

Continuando a obra do padrinho, prosseguiu com o adestramento do BC, que passou a emitir mensagens psicodélicas de fé no desenvolvimentismo e outros sinais exóticos de despreocupação monetária.

O mercado entendeu da única forma que podia entender: liberou geral.

Se Deus não existe (e a polícia está dormindo), tudo é permitido. E o ministro do Desenvolvimento já perfumou as mãos sujas do governo, dizendo que a inflação brasileira é um problema da conjuntura internacional.

Se a inflação sair do controle, como está prometendo, a gastança estatal promovida pelos governos do PT será inocente. A culpa terá sido de Fernando Henrique, aquele que não gosta do povão.

Resta saber se o eleitor continuará hipnotizado pela fábula do governo bonzinho no dia em que o PT conseguir, finalmente, bagunçar a economia brasileira.

O país em que o descanso cansa

Carlos Brickmann, Brickmann & Associados Comunicação

De São Paulo a Atibaia, pouco menos de 60 quilômetros, quase cinco horas de estrada. E este é o menor problema. O problema maior é a segurança das estradas. Esta coluna buscou no UOL, um dos mais importantes portais noticiosos do país, algumas notícias ocorridas em poucas horas do feriadão: acidente com van mata um e fere dez em Minas, colisão entre microônibus e carro mata três no Maranhão, caminhão atropela e mata ciclista em Minas, acidente mata três e fere 45 no Litoral paulista, ônibus tomba e fere dois na Rio-Santos. Descanso mata.

As estradas estão superlotadas, sem dúvida. O transporte ferroviário, tão popular na Europa, no Brasil quase não existe; as cargas, como os passageiros, viajam sobre pneus. Simplesmente ampliar algumas rodovias é caro e talvez não seja eficiente: o país precisa de um estudo logístico, que identifique onde construir e ampliar rodovias, onde colocar trilhos, onde o avião é melhor. Mas preparar um projeto desses é problemático: dificulta os favores políticos e reduz preções. A população que quiser descansar fora que corra o risco - problema dela.

Este colunista citou Atibaia, para onde viajou. Nos postos de combustível, venda livre de bebidas alcoólicas (aquelas que não podem ser vendidas em estradas, lembra?) Meninas simpáticas, aparentemente muito jovens, saíam dos postos com fardos de cerveja. Talvez tivessem 18 anos, mas não os aparentavam. Talvez tivessem documentos de identidade, mas não tiveram de apresentá-los.

E os Governos? Para os governantes, povo é apenas um detalhe incômodo.

Bomba na praça
Um figurão, de forte presença nos jornais, que vive há muitos anos com uma senhora, engravidou outra e lhe fez juras de amor eterno. O fato se tornou conhecido. Ele prometeu à grávida que vai se separar e ficar com ela. E garantiu à atual que reconhecerá o filho mas não ficará com a mãe. A mistura é explosiva.

Essa bomba, não!
O PCdoB quer lançar o pagodeiro e vereador Netinho, primeiro-secretário da Câmara paulistana, a prefeito de São Paulo. Quem é o candidato: Netinho agrediu a esposa Sandra Mendes de Figueiredo e chegou a ser impedido pela Justiça de voltar à casa onde moravam. Netinho disse que não tinha batido na mulher, apenas ameaçado fazê-lo; e que ela, ao tentar fugir, acabou batendo numa porta e ficando com hematomas nos dois olhos. Depois, agrediu a socos o Repórter Vesgo, do Pânico na TV, e a Justiça determinou que lhe pagasse indenização de R$ 44 mil. O PCdoB não teria candidato menos agressivo?

A Big Mac do deputado
Ao defender a criação de cooperativas de apreciadores para plantar a própria maconha, o deputado federal petista Paulo Teixeira, SP, exerceu o direito de manifestar sua opinião. Difícil é entender por que, ao dizer que o Governo não devia proibir a maconha, sustentou a tese de que deveria proibir o sanduíche Big Mac, a seu ver mais nocivo à saúde. Estará querendo trocar o Big Mac pela McOnha?

O perigo
Agora só falta algum radical exigir a mudança do nome do criador do conglomerado, Ray Krok, para Ray Krak.

Maluca mesmo...
Curiosíssimo o caso da promotora Débora Guerner, uma das acusadas no episódio do Mensalão do DEM, de Brasília: ela foi presa por simular problemas mentais (já tirou a roupa diante de policiais, já tentou agredir fotógrafos, já se comportou agressivamente numa sessão do Conselho Nacional do Ministério Público). Segundo a acusação, ela tomou aulas com um psiquiatra que a ensinou a fingir-se de louca. Aí entra a loucura: parece que ela gravou em vídeo as aulas e o vídeo estava no cofre enterrado em seu jardim, junto com um bom dinheiro.

...mas não inédita
No tempo em que Serra tinha cabelo e Mauro Beting não tinha, certo jornalista vivia com suas duas famílias. Nada de esposa e amante: ambas eram esposas, com filhos, cachorros, periquito, tudo normal. Um dia, por falha de um telefonista, a primeira ficou sabendo da segunda, conseguiu o endereço e apareceu por lá de manhã cedo. Encontrou o marido de pijama e a segunda de roupão, bobes nos cabelos, passando um café.

O marido reagiu rápido: gritando muito, puxou a toalha da mesa, jogou tudo ao chão, atirou copos à parede, quebrou o rádio. Saiu de pijama, tomou um táxi e foi para a clínica de um amigo. O amigo o internou, em repouso absoluto. Depois, proibiu para sempre qualquer menção ao caso, para evitar outro colapso. O jornalista voltou à vida normal. Com as duas famílias.

Promessas, promessas
O deputado tucano Roberto Massafera prometeu que o governador Alckmin construirá uma Fatec em São Carlos, SP, promessa não cumprida por seu antecessor, José Serra. São Carlos está em seu terceiro governo petista (Oswaldo Barba, que sucede Newton Lima). Um dia, esperam, a Fatec acaba chegando.

Melhor calar
Do ministro da Fazenda, Guido Mantega: "A inflação está sob controle".

E, o que é preocupante, sob controle dele.

Presidente Dilma, o relógio está correndo

Paulo Rabello de Castro, Revista Época

Os presidentes acham que têm quatro anos para governar. Alguns pensam ter oito. Mas, para produzir resultados, esse tempo é muito mais curto. A grande chance de Dilma está em 2011, como mostram as pesquisas. Austeridade de comportamento, despreocupação em repetir Lula e seus trejeitos únicos, independência de ação na frente externa, todos são atributos que qualificaram Dilma, desde logo, como alguém capaz de produzir e entregar uma agenda própria ao país. Mas qual?

Eis a questão principal dos 100 dias: desvendar a efetiva agenda do governo de Dilma Rousseff. Não ficou claro, até agora, para onde navega o barco presidencial. Numa pesquisa qualitativa feita com o público de um evento da Fecomércio (a federação dos empresários de comércio, serviços e turismo), Dilma saiu-se bem, quando comparada ao governo Lula, e com desempenho razoável, quando cotejada com suas promessas de campanha. Mas, quando seu desempenho é ombreado aos desafios imediatos (inflação, déficit fiscal, câmbio afundando) e, mais ainda, quando avaliada sua agenda de longo prazo para o país, o saldo positivo de respostas do público cede lugar às dúvidas. A posição atual da sociedade parece ser de atenta expectativa em relação à presidente.

O tempo de Dilma começar a mostrar jogo se estreita a cada dia. Ela não tem os longos 1.460 dias de seu mandato para contentar eleitores. O ano ideal para se firmar na liderança do país com uma agenda própria é este mesmo, antes que a esperança e o otimismo reinantes sejam abalados pelo jogo pedestre das eleições municipais no próximo ano, e que comecem as especulações políticas sobre as novas chapas na disputa geral de 2014. O ano de 2011 ainda oferece a Dilma a vantagem de ser uma corrida apenas contra ela mesma.

Em grande parte, é também uma corrida contra a herança econômica, boa e má, que Dilma recebeu. O pior legado de Lula, na economia, é o enorme buraco fiscal que deixou para a sucessora, muito mais difícil de tapar do que se afirma rotineiramente no noticiário corrente. A presidente teve de quase paralisar novos gastos de custeio e capital nestes 100 dias. Há restos a pagar espalhados por todos os ministérios. São bilhões de reais em despesas contratadas na gestão Lula para saldar este ano. Por causa disso, o PAC 2 ainda é uma miragem no deserto de investimentos novos. O relógio da Copa continua parado. Enquanto isso, os compromissos de dívida não param de crescer, por efeito de uma política equivocada de combater inflação com aumento de carga financeira, num país em que o devedor-governo enfrenta juros calculados ao dia, como se fora um péssimo pagador. Em 2011, a rolagem da dívida federal não custará menos que R$ 220 bilhões, uma cifra de encabular o mais empedernido escroque financeiro.

Tem jeito? Óbvio que as escolhas de Dilma não são fáceis. Ela precisa garantir um crescimento sustentado, que não acontecerá no ambiente de desequilíbrio fiscal crescente. Portanto, a essência de sua ação imediata deveria fazer todo o “mal” de uma só vez, exigindo mais que um simples corte de verbas, mesmo um da ordem de R$ 50 bilhões. Para inverter as expectativas de um mercado disposto a duvidar de sua agenda, não basta dar entrevista, mas sim anunciar uma nova governança para o gasto público nacional, em todos os níveis. Ela tem a sua disposição uma arma do mesmo calibre que representou o anúncio da criação do Copom, em 1999, na guerra contra as expectativas inflacionárias. Dilma pode fazer uso do disposto no artigo 67 da Lei de Responsabilidade Fiscal, ao mandar votar um Conselho de Gestão Fiscal – previsto na lei, mas só no papel – que tenha, no campo fiscal, o mesmo impacto de controle antecipado que teve o Comitê de Política Monetária sobre a inflação. Essa é apenas uma ideia, de grande alcance e efeitos quase imediatos. Outras tantas são viáveis, bastando querer confrontar a máquina do atraso. A hora de o novo governo mostrar todo o seu potencial é agora.

O PT e a economia

Luiz Carlos Mendonça de Barros, Exame.com

Na coluna do mês passado disse ao leitor que a presidente Dilma estaria resgatando o pensamento econômico histórico do PT. Minha intuição apontava nesta direção. Nestes últimos 30 dias o comportamento da presidente tornou esta percepção mais sólida. Declarações suas, atos concretos de ministros importantes e manifestações de membros do segundo escalão aumentaram minha convicção.

Dou um exemplo do que quero dizer. Um funcionário do IPEA acusou o mercado financeiro de estar tentando desestabilizar a política econômica via terrorismo com os índices da inflação. Os objetivos destes carbonários da direita seriam o de reverter uma política econômica que visa resgatar os pobres e reduzir a defasagem de renda entre ricos e a classe média. Para ele a inflação mais elevada não é um problema desde que o crescimento econômico seja elevado e, os salários e o emprego, cresçam a taxas robustas. Uma verdadeira quadratura do circulo macro econômico de uma economia de mercado.

Este comportamento de acusar inimigos externos por problemas enfrentados pelo governo é típico do PT. O que varia, de acordo com o grau de militância, são a dureza das expressões e a leviandade das acusações. Com isto as verdadeiras causas dos problemas que enfrenta permanecem sem combate.

Mas volto ao campo mais restrito do pensamento econômico do PT que é o tema principal desta coluna. Conheço o modelo de economia que orienta as ações de um grande número de seus membros, inclusive a própria presidente. Durante seis anos fui professor no curso de doutorado no Instituto de Economia da Universidade de Campinas, centro principal do pensamento econômico do Partido dos Trabalhadores. Neste período, não só pela leitura dos textos básicos utilizados nos diversos cursos mas, principalmente, por participar de debates e seminários internos, fui construindo este meu conhecimento.

Além disto, meu pensamento de hoje incorpora algumas teses deste grupo, que aprendi na minha estada na UNICAMP. Isto me faz um crítico não radical de suas idéias e propostas, diferentemente de outros analistas do mercado financeiro. Dou um exemplo: parecem-me corretas algumas das mudanças realizadas no sistema de metas de inflação pela diretoria atual do BC e que levou os grupos liberais mais radicais a vociferar que ele estava sendo abandonado. Também está correta, no meu entendimento, a política de intervenção no câmbio e as preocupações com o processo de perda de competitividade da indústria por conta de um real hiper valorizado. Idéias como a flutuação limpa do real nos mercados me parecem tolices, como já apontei recentemente.

Mas em relação à leitura da conjuntura econômica, a forma de intervenção do Estado nos mercados e ao entendimento de questões macroeconômicas importantes – como, por exemplo, as causas do processo inflacionário que vivemos hoje – minha discordância é total. Por isto sou extremamente otimista com a economia brasileira e muito pessimista com a política econômica do governo Dilma. Como estas duas leituras não podem existir juntas, ao fim do mandato da presidente duas situações podem ocorrer: os erros de política econômica prevalecem e a economia se degrada, ou a força da economia privada – dentro e fora de nossas fronteiras – acaba compensando os erros do governo e o Brasil continua a crescer, embora a taxas mais medíocres do que se poderia obter com uma política econômica de boa qualidade.

Para colocar estes dois cenários em números diria que no primeiro caso estaríamos crescendo a 2,5% ao ano em 2014 e mais de 4% no segundo. O ponto central desta divergência me parece ser a questão da inflação e como o governo vai combatê-la.

No primeiro caso o governo é colocado contra a parede em 2012 e obrigado a realizar um tratamento de choque por conta da perda da popularidade que certamente virá com taxas de inflação da ordem de 8% ao ano. Nesta hipótese haverá uma redução importante na velocidade de crescimento da economia, depois de um período com taxas anuais acima de 4% aa, mas com a inflação voltando ao nível de normalidade. Na outra hipótese o governo reconhece o dilema inflação e crescimento, que vivemos hoje, e decide sacrificar o nível de atividade em 2011 e 2012, deixando para os anos seguintes a volta de um crescimento econômico mais robusto.

Temo que o governo vai optar pelo primeiro caminho, por ainda acreditar na cartilha econômica do PT. Esta minha hipótese fica ainda mais forte se considerarmos que a partir de maio poderemos ter, por três ou quatro meses, números da inflação menores. Embora a causa principal disto seja de natureza sazonal – e já precificado pelo mercado em suas projeções mais pessimistas – o governo vai tentar passar a idéia de que sua política está funcionando e declarar vitória. Segundo os economistas da Quest poderemos ter inflações mensais de até 0,25% nesta que poderá ser uma doce primavera para o governo.

Se esta declaração de vitória precoce acontecer e o governo abaixar a guarda, a recidiva da inflação no final do ano será muito forte, principalmente porque estará ancorada no aumento de 14% do salário mínimo que entrará em vigor em janeiro de 2014.

Dilma mira na inflação, tropeça no idioma, derruba a sensatez e é capturada por Celso Arnaldo: ‘Ela merece vigilância diuturna’

Augusto Nunes, Veja.com

Foi o grande Reinaldo Azevedo, em texto postado às 18:21 de hoje em seu blog, quem escancarou o momento Odorico Paraguaçu da bem-amada presidente Dilma Rousseff no discurso pronunciado hoje na 37ª reunião do Conselho de Desenvolvimento Econômico Social, o Cades.

Ao falar do recrudescimento da inflação, tentou dizer que seu governo estava ligado dia e noite na questão:

“Então eu quero dizer a esse conselho. O meu governo está diuturnamente, e até noturnamente, atento a todas as pressões inflacionárias, venham de onde vier”.

Será possível? Não terá havido um erro de transcrição? Bem sei que Dilma merece vigilância diuturna – prolongada, prorrogada, protelada, que não se esgota. É virar as costas e ela se supera. Mas essa odoricada seria ultrajante até para os padrões do dilmês. Uma quase mestre e doutora confundindo diuturno com diurno para pespegar um “até noturnamente”, fechar um suposto ciclo de 24 horas e desenhar, enfaticamente, o tamanho da atenção do governo ao surto inflacionário.

Fui checar com minha fonte secreta – o site oficial da presidenta. Tudo verdade e mais um pouco. Reinaldo não falha. Quem falha é Dilma. No auditório do Cades, só faltaram os irmãos Cajazeiras que a acompanharam à China – Mercadante, Lobão e Pimentel.

Aos exatos 10:20 deste vídeo, o governo de Dilma se transfere para Sucupira. Até o ritmo da fala é Paraguaçu puro – o “venham de onde vier” não surpreende, é concordância dilmística lato senso.

Mas reparem que o “até noturnamente” vem acompanhado de um girar repentino de cabeça e do ensaio de um risinho sardônico, conjugado a um lamber nervoso do lábio inferior — sinais inconfundíveis de orador que busca cumplicidade da plateia para uma bobagem dita mas não pensada.

Uma pessoa que conhecesse o significado pleno da palavra diuturno, e do advérbio de modo dela derivado, poderia até ter usado esse contraponto noturno como um quase sofisticado trocadilho semântico. Não é o caso. Eu aposto que não é o caso. E certamente não seria o caso, se fosse o caso, em se tratando de presidente da República diante de um conselho de notáveis e a respeito de um tema tabu, a inflação.

O desconhecimento de Dilma, a respeito de virtualmente todas as coisas, segue o ritmo circadiano que governa biologicamente os seres humanos – é full time, tempo integral, 24 horas por dia, around the clock, sem intervalo, sem trégua, diuturnamente, pelos próximos quatro anos.

Um plano real para os juros

Carlos Alberto Sardenberg, O Globo

Precisamos de estadistas, não de quebradores de galho

O Brasil subiu para a série A da economia mundial, em consequência dos êxitos de seu time e de uma boa ajuda dos parceiros internacionais. Não dá ainda para disputar o título, mas é possível conseguir uma honrosa posição intermediária – isso se a política econômica também evoluir. Não dá para jogar na primeira divisão com estrutura de segunda. Precisamos de um supertécnico, que não invente, mas saiba jogar à moderna.

Os sinais de que chegamos a uma nova divisão estão por toda parte. Um dos mais significativos, e curiosos, é um papel chamado CDS (Credit Default swap). O investidor compra um título emitido pelo governo brasileiro e quer se prevenir contra o calote. Vai então ao mercado internacional e compra uma espécie de seguro, que é o CDS. Quanto menor o preço desse papel, logicamente, menor a possibilidade de calote daquele país.

Pois compra-se um CDS “brasileiro”pagando juros anuais em dólares de 1,1% - apenas um pouco acima do papel americano equivalente, para o qual se paga juros de 0,50% .

Por que diminuiu o risco de calote? Mudanças estruturais. A primeira foi na estrutura legal das contas públicas, postas sob o controle da Lei de Responsabilidade Fiscal. Ela simplesmente exige que as receitas e despesas sejam calibradas de modo a reduzir o endividamento. O governo Lula, no seu final, fez diversas estripulias com a contabilidade, mas não mudou as bases legais, que estão enraizadas.

A segunda grande virada está nas contas externas. O Banco Central do Brasil tem hoje reservas de mais de US$ 300 bilhões, contra uma dívida externa, pública e privada, em torno dos 220 bilhões. Ou seja, de um país que quebrou várias vezes por falta de dólares o Brasil juntou-se ao grupo que tem sobra da moeda americana – é credor líquido em dólares.

A mudança de fundo está na conquista da estabilidade macroeconômica, com suas consequências admiráveis. Por exemplo, a volta do crédito especialmente às pessoas, aos consumidores, e mais especialmente ainda às novas classes médias.

E aqui já temos um exemplo de como algumas políticas básicas que nos trouxeram até aqui já não funcionam do mesmo modo. O BC eleva taxas de juros para encarecer e conter o crédito e, assim, impedir a alta da inflação, já que as pessoas gastam menos nos shopping e supermercados.

Mas o Brasil está em pleno processo de aumento estrutural do crédito, que era de 20% do PIB no início do século e já vai passando dos 50%. Normal, nos países estáveis as pessoas recorrem mais ao crédito. E os bancos competem para oferecer empréstimos.

Chocam-se, portanto, dois movimentos: um “natural”, digamos assim, com a economia se adaptando a mais crédito, outro “conjuntural”, que são as ações do BC na tentativa de esfriar esse mesmo crédito quando a inflação escapa, como ocorre no momento.

Ficamos com juros altos e crédito em expansão, mas muito caro, o que também pressiona preços.

O modo de encarar o dólar é outra esquizofrenia. Dólar caro é para países que sofrem com a falta da moeda internacional para países cujos governos, empresas e pessoas pagam muito caro para tomar crédito lá fora para países que não conseguem atrair investimentos externos.

Ora, o Brasil de hoje é o contrário disso tudo. Nessas circunstâncias, e considerando a economia de primeira divisão, o real será necessariamente uma moeda forte.

Assim, toda vez que o governo usa instrumentos antigos para tentar conter a valorização excessiva do real, só consegue gastar dinheiro (quando toma reais emprestados para comprar dólares) e encarecer os negócios das pessoas e empresas (quando aumenta o imposto sobre operações financeiras).

Uma nova política precisa olhar o seguinte: o que resta de segunda divisão na economia brasileira?

O mais evidente é a taxa de juros, absurdamente elevada. Tem caído ao longo dos anos, o que é uma prova de sucesso da política econômica e do regime de metas de inflação. Mas parece que a taxa real de juros empacou entre 5% e 6% ao ano, quando deveria ser no mínimo a metade disso.

O que o governo Dilma está fazendo, nisto numa continuação de Lula, sob a condução do ministro Mantega, é uma sucessão de quebra-galhos: promete cortar gastos e se compromete com gastos futuros, como um aumento de 14% para o salário mínimo em 2012 promete desindexar a economia e indexa o mínimo e a tabela do IR promete reduzir a dívida e se endivida para emprestar dinheiro ao BNDES Fazenda e BC encarecem e restringem o crédito, o BNDES aumenta empréstimos baratos a empresas selecionadas e assim vai.

Nesses movimentos, só pioram outros dois fatores de segunda divisão: a carga tributária (elevada e custosa) e o gasto público, excessivo e de baixa eficiência.

Comparando, é como se em 1993, Fernando Henrique Cardoso, designado ministro da Fazenda, em vez de partir para a grande virada do Real, tentasse domar a inflação com expedientes como congelamento de preços, confisco de produtos, proibição de exportação e falsificação dos índices de preços.

Qual seria o Real de hoje? Dilma pode dar uma virada como a de FHC?

Voltaremos ao assunto, mas um caminho se apresenta: aceitar um real valorizado e aproveitar isso para aplicar um violento golpe na inflação e daí, sim, derrubar juros para valer. Agora, não será possível para a indústria brasileira sobreviver com dólar barato e custo Brasil muito elevado. Vem daí a outra perna de uma nova política: uma revolução para reduzir o custo Brasil e colocar o ambiente de negócios também na primeira divisão.

Que tal?

Aumento de salários é achatado pela inflação

Anne Warth, de O Estado de São Paulo

Líderes sindicais notam que os acordos fechados neste ano tiveram alta real menor que em 2010

SÃO PAULO - Os ganhos reais dos trabalhadores nas negociações salariais deste ano devem ser menores do que em 2010, apesar da continuidade da expansão econômica, em ritmo mais baixo do que no ano passado, e do mercado de trabalho ainda aquecido. A inflação maior deve achatar os ganhos, avaliam líderes sindicais de diversos setores e regiões do País, tendo como base os acordos fechados nos primeiros meses deste ano, que obtiveram ganhos reais bem mais modestos. Categorias mais fortes, porém, podem ter desempenho melhor.

"O ano de 2011 deve ficar ‘prensado’ entre o de 2010, que foi muito bom para os trabalhadores, e o de 2012, que também deve ser muito bom sob o ponto de vista das negociações", afirmou o coordenador de relações sindicais do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), José Silvestre Prado, que acredita que apenas em 2012 as categorias devem retomar os níveis de aumento real obtidos no ano passado. Ele disse que a inflação é uma variável determinante sobre os porcentuais de ganhos reais dos trabalhadores. "Historicamente, quanto maior a inflação, menor tende a ser o ganho real", explicou.

Para as categorias com data-base em janeiro, os ganhos reais apurados já foram mais baixos, segundo o Dieese. Os trabalhadores da indústria de bebidas do Rio de Janeiro, por exemplo, conquistaram um reajuste de 7,43%, com ganho real de 0,9%. Em Manaus, a área de construção civil e instalações teve aumento de 8%, com ganho real de 1,44%, e a indústria plástica, de 6,47%, sem ganho real. No Paraná, os trabalhadores da indústria gráfica obtiveram aumento de 8%, com ganho real de 1,44% ,e a área de serviços de asseio e conservação teve um reajuste de 7,7%, sendo que o ganho real foi de 1,22%.

Ganhos.
Com data-base em fevereiro, os trabalhadores da indústria calçadista da cidade de Franca (SP) obtiveram aumento de 8,5%. Com data-base em março, os trabalhadores da indústria de bebidas do Estado de São Paulo conquistaram um reajuste de 7,4%, com 1% de aumento real. Os frentistas do Estado de São Paulo conseguiram um aumento de 9%, com ganho real de 2,71%. Os trabalhadores da indústria química de Guaíra (SP) conquistaram reajuste de 10%.

A amostra demonstra que os ganhos reais neste ano estão sendo bem mais modestos do que em 2010, quando o balanço das negociações salariais acompanhadas mostrou que 88,7% de um total de 700 categorias obtiveram aumento real acima do INPC, o melhor resultado de toda a série, iniciada em 1996. Embora a maioria (73,6%) tenha conquistado ganhos reais entre 0,01% e 3% acima do INPC, outros 15,1% das categorias obtiveram ganhos reais acima de 3%.

Para Silvestre, o comportamento das negociações neste ano já dá mostras de que deve ser semelhante ao de 2009, quando a maioria das categorias (79,6%) obteve reajustes acima da inflação, mas com porcentuais bem mais modestos que os de 2010. Em 2009, apenas 5,2% das categorias obtiveram aumentos reais acima de 3%.

Segundo ele, maio deixará a tendência para o ano mais clara, uma vez que a maior parte das categorias de trabalhadores (26,7%) tem data-base neste mês, inclusive setores importantes como os trabalhadores da construção civil, transporte público e indústria química, entre outros.

Visão parcial

Miriam Leitão, O Globo

O governo tem um diagnóstico parcial da inflação e todos, inclusive o Banco Central, estão incentivando uma perigosa interpretação de que a inflação subiu no mundo inteiro e que o Brasil não está tão mal assim.

Parecem não ter entendido que o país tem uma história diferente na relação com esse problema. Não demonstram perceber o risco da reindexação.

O presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, e o ministro Guido Mantega estavam completamente afinados, mas quem mudou o discurso foi o BC para afinar o coro com a Fazenda; quando o ideal é que houvesse sim um coro afinado, mas com a Fazenda entendendo mais decisivamente a parte que lhe cabe nesse combate, que só funciona em várias frentes.

Para o ministro da Fazenda, "o Brasil não está mal na foto" quando se trata de inflação. A taxa está no teto da meta e vai superá-la em breve, mas a "foto" que ele se refere é que relativamente a outros estamos bem.

Tombini tombou na mesma direção e deu números em transparências que mostravam os outros: Reino Unido, 4%; Índia, 8,8%; China, 5,4%. Vários países com metas explícitas já ultrapassaram a meta. Outros, sem metas, estão com taxas altas.

— A inflação é tema de debate internacional. Nos nossos encontros de banqueiros centrais é assunto recorrente — disse Tombini.

Essa ideia de que se os outros podem, também podemos, elide o fato de o Brasil ter convivido por 30 anos com uma superinflação indexada, e o risco é fortalecer os mecanismos de indexação ainda presentes.

Tombini apresentou um mapa-múndi com todos os números e cores para confirmar o diagnóstico de que é um fato mundial. Admitiu que há "outros componentes", como uma inflação de serviços, mas que também seriam "comuns a outros países emergentes", que retomaram o crescimento mais rapidamente e por isso têm uma inflação maior.

O diagnóstico não está errado, mas é parcial. Ao ser parcial, pode errar no remédio. Houve aumento forte nos preços das commodities após a crise de 2008, puxado principalmente pelo crescimento da China e afetado por problemas climáticos.

Mas não é só isso que explica a alta de preços. No Brasil, ela foi alimentada com aumento forte do gasto público, incentivo ao crédito e ao consumo que não foram suspensos no momento certo, por motivos políticos.

O país já havia saído da recessão, mas o governo por imprudência ou cálculo político manteve os gastos e os incentivos fiscais em 2010.

O ministro Guido Mantega disse que o governo fez "uma redução significativa" dos gastos públicos e deu os números: as despesas aumentaram 19,3% em 2010 e vão aumentar 7,1% este ano.

Trocando em miúdos, o que o ministro está admitindo é que num ano em que o país crescia fortemente, ele estava fazendo uma política pró-cíclica, elevando as despesas em quase 20%. Aumentar gasto em ano de crise, faz sentido; mas quando a economia já está acelerada, é uma forma de contratar mais inflação.

Em 2011, as despesas serão maiores do que as do ano passado em outros 7,1%. "Não devemos poupar armas, devemos usar todas as armas possíveis contra a inflação, sejam monetárias ou fiscais", disse Mantega.

Palavras fortes, mas que não convencem quando se comparam com os dados que eles mesmos divulgam. O governo fará superávit primário porque está arrecadando mais e não por corte de gastos. Apenas o ritmo de crescimento das despesas é que foi reduzido.

A ideia de que o atual grupo no poder é inventor de uma nova fórmula econômica atravessou o governo Lula e continua sendo proclamado pela presidente Dilma.

— Nós todos aqui presentes sabemos que o Brasil passou e passa por um novo momento na sua história. Nós mudamos, de fato, os caminhos do desenvolvimento. Quando nós assumimos, de uma forma muito especial, a convicção de que não havia contradição entre desenvolvimento econômico, distribuição de renda e inclusão social, nós mudamos os caminhos que o país tinha traçado até então — disse a presidente.

Isso fica ótimo em campanha eleitoral, mas dado que ela já nos governa há quatro meses pode restabelecer a verdade histórica. Quem dizia que havia essa contradição — e que era preciso fazer o bolo crescer para depois dividir — era o então ministro, hoje aliado do governo, Delfim Netto, nos anos 70.

Não foi o governo atual, nem o de Lula, que inventou a inclusão. Basta olhar as estatísticas de redução da pobreza pós-estabilização e qualquer economista constatará que o círculo virtuoso começou na estabilização.

A inflação, como se sabe, tem o poder perverso de tirar renda exatamente de quem tem menos. Por isso, não se faz distribuição de renda em meio à inflação alta, o que a torna o grande inimigo de qualquer projeto de inclusão.

Para ficar claro que o governo atual tem a mesma visão partida da história recente do Brasil, o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, começou sua explicação com uma série de dados bons que chamou de "conquistas da sociedade brasileira nos últimos dez anos”.

Então fomos informados de que a virtude começou há dez anos. Pena que esse tempo não inclua um dos momentos importantes do processo que foi a introdução da política de metas de inflação em 1999, na qual Tombini teve participação.

A festa e a conta

Rolf Kuntz - O Estado de São Paulo

A economia brasileira continua em festa, e a conta, naturalmente, vai subindo. A inflação passa de 6% e pode superar o limite da banda oficial, 6,5%. Nas contas externas, o déficit em transações correntes bate recordes - US$ 5,7 bilhões em março, US$ 14,6 bilhões no primeiro trimestre e US$ 50 bilhões em 12 meses. A atividade cresce, as empresas lucram, os juros permanecem altos e a inundação de capital estrangeiro continua. Entraram US$ 42,6 bilhões entre janeiro e março, em termos líquidos. Esse dinheiro bastaria para cobrir quase o triplo do déficit em conta corrente do período. O investimento direto estrangeiro, US$ 27,3 bilhões, foi o principal componente da enxurrada financeira. Compensaria quase o dobro do buraco nas transações correntes. Esse tipo de investimento, em geral considerado o mais benéfico para a economia, deve chegar a US$ 60 bilhões em 2011, segundo o governo. Pelos prognósticos oficiais, o setor externo continuará seguro, o ajuste interno será conduzido gradualmente e no fim do próximo ano a inflação estará no centro da meta, 4,5%. Tudo se arranjará maciamente e sem dor.

Seria bom viver nesse mundo imaginado pelo ministro da Fazenda e por seus colegas de governo. Mas o gradualismo, até agora, produziu pouco ou nenhum resultado no combate à inflação. Ao contrário: os indicadores só pioraram desde o trimestre final do ano passado. A inflação tem um importante componente externo - as cotações das matérias-primas, afetadas pela quebra de safras, pela forte procura dos emergentes e pela crise no Oriente Médio. Mas quase dois terços dos preços têm subido, no mercado brasileiro, e esse dado só é explicável se for levada em conta a demanda interna muito forte. Essa mesma demanda se reflete na expansão das importações. A valorização do real sempre afetaria as contas externas, barateando os produtos estrangeiros e encarecendo os nacionais. Mas não há como atribuir o desequilíbrio na conta corrente só ao desajuste cambial, quando todos os dados apontam para um mercado interno ainda muito aquecido.

O grande influxo de capital externo produz efeitos com sinais opostos. Permite cobrir o buraco das transações correntes. Assim se acomoda parte do excesso da demanda interna. Sem esse fator a inflação seria maior. Mas essa mesma enxurrada financeira mantém o real valorizado e mina o poder de competição dos produtores nacionais, pondo em xeque a sobrevivência não só de uma ou de outra empresa, mas de segmentos industriais.

Apesar do amortecedor propiciado pelas importações e pelo influxo de capitais, a inflação permanece elevada e tende a crescer. O gradualismo adotado pelo Banco Central (BC) desde o fim do ano passado pode ser insuficiente para a contenção da alta de preços. Aumentos maiores de juros poderão, no entanto, atrair volumes maiores de dólares.

Os controles de capitais produziram efeito pouco sensível até o mês passado. Neste mês, segundo o presidente do BC, Alexandre Tombini, entradas e saídas estão empatadas - um sinal, segundo ele, da eficácia das novas barreiras adotadas pelo governo. Pode ser, mas será necessário algum tempo mais para se confirmar essa avaliação. Além disso, controles de capitais nunca produzem mais do que efeitos temporários. Essa tem sido a lição mais comum da experiência internacional.

Fatores externos, como o baixo nível de atividade no mundo rico e o excesso de dinheiro nos mercados podem explicar em parte o problema cambial do Brasil. Fatores de atração, como o crescimento econômico, a lucratividade empresarial e os juros altos também entram na conta. Mas o dado politicamente mais importante é outro: o Brasil entrou na armadilha cambial bem antes da crise, por causa da teimosia de um governo disposto a gastar demais e acostumado a deixar ao BC o custo do combate à inflação. O real já estava supervalorizado antes do agravamento da crise em setembro de 2008. Só se depreciou por um período muito curto. A deterioração da conta corrente havia começado em 2007, foi contida por pouco tempo e acelerou-se quando a demanda interna voltou a se expandir velozmente. Os números são claros.

Para tirar o País da armadilha, o governo terá de aceitar um ajuste fiscal de verdade, muito mais sério que esse alardeado pelos ministros da Fazenda e do Planejamento. Mas ninguém pode acreditar numa séria intenção de austeridade quando lê, por exemplo, o projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias. Quanto ao resultado obtido pelo governo central em março, é insuficiente para confirmar a adoção de uma nova política. Além de uma boa dose de seriedade fiscal, o governo precisará cuidar para valer das condições de competitividade, passando da conversa às ações concretas. O resto é espetáculo.

Contra-ataque de gogó

Celso Ming, Estadão.com

O governo Dilma se mostrou especialmente preocupado com os rumos da inflação. Mas ainda não está claro até que ponto está disposto a arcar com os efeitos colaterais de um contra-ataque à disparada dos preços.

Nesta terça-feira, por ocasião da instalação dos trabalhos de abertura do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social – o Conselhão –, a presidente da República, dois ministros de Estado e o presidente do Banco Central se sentiram na necessidade de dar satisfações à sociedade e de alguma maneira corroborar a disposição de dar prioridade total ao combate à inflação. Foi um vigoroso tiroteio de gogó que, no entanto, deixou antever alguma vacilação: “É importante moderar o crescimento da demanda, mas sem matar a galinha dos ovos de ouro, que é o mercado interno”, advertiu o ministro da Fazenda, Guido Mantega.

(FOTO: Dida Sampaio/AE)
Dilma.
A prioridade do governo

Os discursos mostraram algumas distorções de diagnóstico e excessiva valorização das ações até agora colocadas em prática. Não dá para insistir, por exemplo, em que a maior parte da carga inflacionária deva ser descarregada sobre a disparada dos preços internacionais das commodities. Ela atacou todas as economias e, no entanto, no próprio gráfico apresentado no telão por Mantega, o Brasil está entre os países que mostram uma das inflações mais altas. Só perde para a Índia, Rússia e Argentina.

Isso demonstra que as causas locais de inflação brasileira têm um peso não desprezível e que parece minimizado. Ainda assim, dá para identificar uma certa mudança de posição tanto no ministro Mantega como no presidente do Banco Central, Alexandre Tombini.

Até agora, ambos vinham repetindo que a redução dos preços das commodities viria logo em seguida, como resultado da virada do que antes entendiam ser um movimento nitidamente especulativo. Essa aposta não é neutra. Disfarça a pouca disposição de contra-ataque com a ideia de que um pedação da alta dos preços desmanchará sozinho.

Agora, tanto Mantega como Tombini parecem não contar mais com a reversão espontânea. É sinal, também, de terem entendido que a alta das commodities está mais relacionada com o aumento da demanda global do que com movimentos especulativos. Sendo assim, o encarecimento das commodities (alimentos, petróleo, etc.) veio para ficar, com as consequências sobre o comércio e a inflação global.

Além disso, em vez de reconhecer as origens fiscais do problema (despesas correntes excessivas pelo setor público), o ministro Mantega preferiu enfatizar os efeitos que o corte orçamentário começou a produzir, o que não está tão evidente assim.

Tombini, por sua vez, reconheceu que a inflação do setor de serviços (assistência técnica, atendimento de saúde, cabeleireiro, viagens, etc.) está difícil de ser erradicada. Esse é o efeito direto da renda gerada pela expansão dos gastos públicos que, no entanto, não pode ser enfrentado nem com as tais medidas prudenciais, que procuram reduzir a expansão do crédito, nem pela redução do afluxo de dólares no mercado interno.

Dentro de mais algumas semanas provavelmente a inflação pulará para além dos 6,5% em 12 meses. Alguns sinais de alarme serão automaticamente disparados. E, então, talvez o governo sinta que tenha de fazer algo mais do que acionar os gogós disponíveis.

CONFIRA


 
No primeiro trimestre, o Investimento Estrangeiro Direto (IED) aumentou 217% sobre igual período de 2010. Esse afluxo não pode ser coibido com taxação do IOF, porque não interessa coibir investimentos. De todo modo, ajudou a puxar para baixo a cotação do dólar.

Um pouco mais. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse nesta terça-feira que contava com a entrada líquida de US$ 60 bilhões em IED (23,9% a mais do que em 2010). O Banco Central espera menos, US$ 55 bilhões, ou 13,5%.

Governo tenta alinhar discurso de combate à inflação

Economia & Negócios, O Estado de São Paulo

Dilma e ministros manifestam preocupação com a alta dos preços, mas veem crédito e consumo como a 'galinha dos ovos de ouro'

SÃO PAULO - A presidente Dilma Rousseff e os principais integrantes da equipe econômica do governo vieram à público nesta terça-feira, 26, reforçar a preocupação com o aumento da inflação e com outras questões consideradas desafios para a atual gestão, como o ajuste fiscal e a volatilidade do câmbio.

Em sua primeira participação em reunião do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES), Dilma disse que não podia esconder que a inflação está subindo, entre outros fatores, pelo aumento na área de bens, alimentos e etanol. A presidente, afirmou, no entanto, que está atenta a todas as pressões inflacionárias e fazendo análises.

Dilma disse ainda que o controle da inflação só será garantido com o aumento da produtividade e afirmou que manterá todos os programas de investimento em infraestrutura no País, entre eles o PAC e o Minha Casa, Minha vida. "O que garantirá o controle da inflação é o aumento da capacidade produtiva. É isso que vai permitir ao Brasil ter uma inflação estável no futuro", afirmou, garantindo que o governo está empenhado e tomando medidas para evitar que o processo inflacionário corroa a renda da população.

O ministro-chefe da Casa Civil, Antonio Palocci, engrossou o coro e reforçou que o combate à inflação é prioridade de todos. "É importante que estejamos atentos a isso e fortaleçamos o esforço da equipe econômica", disse.

'Surto inflacionário mundial'
O ministro da Fazenda, Guido Mantega, também afirmou que um ajuste importante que o governo busca fazer na economia se refere ao combate à inflação que, segundo ele, decorre de um "surto inflacionário mundial".

Segundo Mantega, diante desse contexto mundial complexo, não adianta, para o governo, tomar medidas para atacar questões que ocorrem no mercado internacional. "As medidas que estamos tomando são para que os custos de commodities não contaminem outros setores da economia. Não devemos poupar armas, devemos usar todas as possíveis, sejam armas monetárias, sejam armas fiscais", acrescentou.

Galinha dos ovos de ouro
A ministra do Planejamento, Miriam Belchior, reforçou o discurso de Mantega e disse que o avanço da inflação no Brasil é proporcionalmente menor que em outros países como Rússia, China e Canadá. "A inflação é um fenômeno mundial e não tivemos no Brasil o mesmo impacto que outros tiveram", disse. Ela também citou o aumento nos preços das commodities, como petróleo, e dos alimentos. "A inflação depende de medidas internacionais também, mas no Brasil estamos atentos para impedir o contágio do fator internacional na nossa economia", afirmou.

Miriam disse ainda que o governo está promovendo um ajuste no ritmo de crescimento do crédito no País para evitar pressão inflacionária. "Mas não podemos matar a galinha dos ovos de ouro. O crédito é importante para alavancar investimentos e sustentar o crescimento", disse.

A expressão também foi usada por Mantega. "Não é para derrubar a demanda, é para moderar, sem matar a galinha dos ovos de ouro que é o mercado interno brasileiro", disse o ministro ao comentar sobre a importância de reduzir o aumento do crédito.

Segundo Miriam, a intenção do governo é reduzir de 7,5% em 2010 para 4,5% o crescimento da economia este ano, além de fazer com que o crescimento da demanda interna caia de 10,3% em 2010 para 5,9% este ano. O crescimento médio do PIB no governo Dilma, de acordo com Miriam, será de 5% ao ano.

A ministra também enumerou três desafios para o País: consolidação fiscal, combate à inflação e câmbio valorizado. "Estamos fazendo ajustes para termos crescimento sustentável em patamares próximos de 5%", afirmou a ministra.

'Esforço prolongado'
O presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, também decidiu se manifestar nesta terça-feira, afirmando que colocar a inflação na meta em 2012 vai requerer um esforço redobrado do governo.

Tombini disse que a autoridade monetária possui dois grandes desafios: fazer a inflação convergir para a meta, apesar da alta dos preços das commodities agrícolas e do petróleo, e evitar um fluxo estrangeiro exagerado, que acaba se transformando também em impacto inflacionário.

O presidente do BC citou dados de inflação corrente em vários países do mundo e também concluiu que a "inflação é hoje, certamente, um problema global".

(com Renata Veríssimo, Eduardo Bresciani, Eduardo Rodrigues, Célia Froufe, Leonencio Nossa e Tania Monteiro, da Agência Estado)

O sonho e a verdade do pacato cidadão!

Claudio Schamis, Opinião & Notícia

Era uma vez um pacato cidadão que não quer se identificar com medo de represálias, mas que acreditava em seus políticos.

Chamava-os de seus amigos. Um belo dia de muito sol ele teve uma visão que simplesmente o fez acordar e ver que ele não vivia no mundo encantado de Bob nem no mundo que seus políticos amigos prometeram. A realidade era outra, mais dura, mais real. Esse pacato cidadão então hoje faz análise quatro vezes por semana, e sonha ainda com a casa própria, com uma educação melhor para seus filhos e um atendimento digno nos hospitais da rede pública. E claro quer que a profecia de que o mundo vai acabar em 2012 não se realize, pois ele quer ver e não pagar para ver a promessa do governo de que em 2012 o salário mínimo será de R$ 616,34. E ele já avisou que não abre mão dos R$ 0,34.

E ele vai além e ainda faz planos de um dia viajar e encontrar os aeroportos funcionado como em países do primeiro mundo. E diz ainda acreditar na ministra Miriam Belchior que afirmou que o Brasil não passará vergonha com os aeroportos na Copa de 2014. Até lá podemos sofrer, ser notícia, mas tudo vai melhorar. E por isso reitera que não quer que o mundo acabe em 2012, pois ele quer ver isso também.

Disse este pacato cidadão numa conversa informal num bar – onde viu o senador boa praça Aécio Neves que o decepcionou um pouco quando soube que ele estava com a carteira de habilitação dele vencida e que tinha se recusado a fazer o teste do bafômetro mesmo depois de ter escutado seu discurso de mais de quatro horas no Senado que o havia deixado todo empolgado com suas ideias e força nas palavras –, que não entendeu o que Regis Fichtner, que é secretário-chefe da Casa Civil do Governo do Estado do Rio de Janeiro pretendeu dizer em seu texto dizendo que o metrô é um máximo, e que o governo do estado decidiu solucionar os três principais problemas do metrô. Hummmmm, sei não. Acho que quem bebeu foi ele também. Será que Regis anda de metrô? Ou será que ele só anda no mesmo horário e nas mesmas condições em que o pessoal do Comitê Olímpico Internacional andou no dia em que eles estiveram por aqui para ver se nosso estado tinha condições de sediar uma olimpíada? Pois vamos combinar, quero ver o pessoal do COI e o Regis conseguir entrar num vagão às 8h na estação Central do Brasil. Aliás, queria ver o Regis andar de metrô como um cidadão qualquer para sentir na pele se realmente os problemas foram solucionados. Onde estão os trens novos? Nunca vi demorar tanto. É realmente muito legal levar o metrô até a Barra da Tijuca, legal mesmo, mas será que eles sabem que quanto mais estações forem abertas, mais passageiros teremos? Mas vale lembrar que em SP é outro caos.

E por falar em caos não estou entendendo essa briga agora entre Lula e FHC. Eles já foram amigos, viraram inimigos e agora estão brigando de novo? Briga de egos? Na idade deles? Por que eles não se juntam ou que façam em separado, mas façam alguma coisa pelo país. Coisa feia isso.

Assim como é feio e perigoso ver Lula retomando o comando de alianças do PT e ao lado de Zé Dirceu. Isso não está me cheirando bem. E nem é por causa do rompimento do reservatório em Niterói que lançou seis milhões de litros de esgoto em ruas arrastando carros, invadindo lojas e ferindo pessoas. Se pelo menos tivesse sido em Brasília, o cheiro ia ser já familiar. Não está me cheirando bem porque sabemos quem é Dirceu e do que ele é capaz. E o Lula…

Bem o Lula…O Lula é o cara que entre outras coisas criticou os critérios de fiscalização de obras do PAC feito pelo Tribunal de Contas da União (TCU) e foi quem retirou, por veto presidencial, quatro obras da Petrobrás da lista com indícios de irregularidades graves. Foi de Lula a frase: “O Brasil está travado. Não é fácil governar com a poderosa máquina de fiscalização e a pequena máquina de execução que temos.” Mas o que Lula queria? Que tudo corresse solto? Se deixar solto acontece de termos R$ 17 bi sem controle na área de educação. Os repasses do Fundo de Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb) a estados e municípios não têm órgão federal para acompanhar o uso das verbas federais. E aí…

E aí vem o governo e inclui no projeto da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) um dispositivo que eleva as exigências para a definição de irregularidades. Por que então já que fizeram a reforma ortográfica, não pegam o bonde e mudam por decreto a definição do que é uma irregularidade. Isso seria jogar mais limpo.

E em falar em limpeza e antes que meu detergente acabe, vamos atentar e tentar limpar a nova droga do mercado que está surgindo e dizem ser mais letal que o crack. Trata-se da oxi.

Vamos se ligar e olhar por nossas crianças. E eu me permito mais uma vez!

Salvem as baleias. Continue salvando a educação. Salve nossas crianças. Não jogue lixo no chão. Não fume em ambiente fechado.

Sérgio Seabra, especialista em gestão, conta como a Inglaterra tomou medidas extremas para melhorar seu sistema de saúde pública

Roberto Maltchik , O Globo

BRASÍLIA - Há 11 anos, a saúde pública na Inglaterra estava em frangalhos. Pressionado por casos emblemáticos, como o da mãe do Lord Winston, que morreu na fila de espera, o governo se viu obrigado a promover uma traumática revolução no seu sistema, universal como no Brasil. Engenheiro, auditor e especialista em gestão pública, o brasileiro Sérgio Seabra fez do caso inglês a sua tese de doutorado pela Universidade de Bath (Inglaterra). Seabra conta que "rolaram cabeças e não foram poucas" para que a saúde pública ganhasse um rumo novo na Inglaterra. E admitiu que o sistema federativo e a falta de cultura de cobrança sobre os gestores públicos tornam o desafio bem mais complicado por aqui.

Qual foi o ponto chave da reestruturação do sistema de saúde da Inglaterra?

SÉRGIO SEABRA: Um ponto marcante foi a criação de um mecanismo robusto para o controle do desempenho dos hospitais públicos e uma forte pressão do governo sobre os gestores dos hospitais para que eles buscassem atingir os padrões de desempenho. Entre os padrões de desempenho estabelecidos estavam o tempo de espera na emergência, que deveria ser inferior a quatro horas, e o tempo de espera para operação de no máximo três meses.

Que tipo de controle acompanhou a introdução de metas e indicadores?

SEABRA: Foi criada a Comissão de Auditoria, que auditava o desempenho financeiro dos hospitais, e a Healthcare Commission, que apurava e avaliava, anualmente, o desempenho dos hospitais em relação a metas e indicadores estabelecidos. Um núcleo do governo central monitorava o desempenho dos hospitais em relação a diversos indicadores. Denúncias de manipulação dos dados de desempenho eram investigadas e os responsáveis severamente punidos.

É possível definir indicadores confiáveis sem o controle adequado?

SEABRA: O problema maior não é definir indicadores e metas, mas fazer com que os gestores busquem alcançá-las. Além de definir indicadores confiáveis, é preciso estabelecer um sistema eficiente e confiável de monitoramento, além de mecanismo de incentivos. Sem esses três elementos, um sistema de controle do desempenho tem pouca chance de prosperar.

Quais foram as principais resistências às mudanças?

SEABRA: Nos hospitais, os diretores tiveram que lidar com resistência de grupos de médicos para implementar mudanças na gestão, visando alcançar os padrões de desempenho estabelecidos. A capacidade dos gestores de fazer com que os médicos abraçassem a causa foi um dos aspectos que diferenciaram os hospitais que conseguiram melhorar seu desempenho dos que não conseguiram.

Como a Inglaterra fez para otimizar a gestão de recursos financeiros do sistema?

SEABRA: Os hospitais passaram a receber um orçamento correspondente à quantidade de serviços que prestavam. Era o que foi chamado de pagamento por resultado. Além disso, os hospitais tinham indicadores e metas financeiras a cumprir. Essa disciplina fez com que os hospitais desenvolvessem controles financeiros bastante eficazes, tanto no que tange ao controle dos custos quanto ao planejamento das receitas.

Como foram tratados os gestores que resistiam às mudanças?

SEABRA: Houve uma forte pressão sobre os diretores e presidentes (CEO) dos hospitais públicos para que melhorassem o desempenho. Os que não logravam bons resultados eram frequentemente demitidos. Rolaram cabeças e não foram poucas. Um dos hospitais que analisei teve sete CEOs em sete anos. Os CEOs e diretores sabiam que suas carreiras como gestores de hospitais estavam em risco se não conseguissem melhorar o desempenho.

Quais os primeiros resultados práticos das mudanças?

SEABRA: A lista de espera para internações caiu de aproximadamente 1,3 milhão, em março de 1998, para cerca de 590 mil em dezembro de 2007. Enquanto em março de 1998 mais de 380 mil pacientes esperavam mais de 26 semanas para internação, em março de 2006 só 206 pacientes foram reportados esperando esse tempo. O sistema de controle de desempenho também demonstrou uma notável melhoria alcançada por essa política.

Quais mecanismos adotados na Inglaterra poderiam ser incorporados no Brasil?

SEABRA: A tese de avaliação e controle de desempenho não só pode como deveria ser adotada. O que vai diferenciar é a forma como isso pode ser feito. O complicador da introdução desse sistema no Brasil é o federalismo, o regime jurídico-administrativo, que impõe maior restrição à gestão, e uma cultura ainda pouco arraigada de cobrança dos gestores pelo desempenho das instituições que dirigem. Mas acredito que, a partir de um diagnóstico geral, seria possível estabelecer padrões mínimos de desempenho, desenvolver uma sistemática confiável de monitoramento e avaliação, aproveitando estruturas de controle existentes, bem como mecanismos de incentivo (ou sanções) para a melhoria dos indicadores.