Claudio Mafra, Instituto Millenium
Um erro diplomático: a escolha de Lula como paraninfo da turma de 2010 do Rio Branco
A turma de formandos do Instituto Rio Branco escolheu Lula como seu paraninfo. Ocioso dizer que a razão maior foi o puxa-saquismo, mesmo que a maioria goste dele. Mas, o que chama a atenção é que começaram mal a carreira, cometeram um erro, não foram nada “diplomatas”. Ao escolherem Lula passaram recibo de que apoiam a política externa do ex-presidente. Quer dizer: apoiam Chavez, Fidel, Ahamadinejad e outros delinquentes. Acontece que Dilma andou sinalizando uma provável mudança de rumo. Os supostamente refinados rapazes já entraram com o pé esquerdo, cometeram uma gafe. Na hipótese de Dilma ficar solidária com os direitos humanos, vai acontecer que durante a infame briga de foice, que é o momento das promoções no Itamaraty, muita gente lutando por seus candidatos irá correndo lembrar para a presidenta a escolha que fizeram, e que pareceria um desafio se os despreparados rapazes fossem sérios: solidariedade àquele que formulou uma política externa diferente da atual. Mesmo se o relacionamento entre Dilma e Lula estiver excelente, ainda assim eles podem ser preteridos porque os dois fatos são inteiramente independentes. Os novos diplomatas deveriam ter escolhido a iraniana que ia ser apedrejada, já que a presidenta mostrou simpatia por ela. Seria um gesto maravilhosamente itamaratyano.
Antigamente, em priscas eras, achava-se que o vestibular para cursar o Rio Branco era o mais difícil do país. Quem lê o programa para os exames fica de boca aberta. Pensa imediatamente que só podem entrar os gênios. Mas é para inglês ver. Você pode jogar fora quase tudo que é supostamente exigido. O restante está maceteado nos cursinhos. De maneira alguma é formada uma elite no corpo diplomático brasileiro. Alem do mais, os que saíram do Rio Branco durante o governo Lula foram severamente doutrinados pelos dois manés, Celso Amorim e Samuca Guimarães. Submeteram-se à situações humilhantes relatadas pela Veja alguns anos atrás.
Lula não compareceu à cerimônia de entrega dos diplomas, deixando os meninos aduladores chupando o dedo. Mandou o famoso grosseirão Marco Aurélio Garcia ler uma paginazinha onde, na maior arrogância, afirma que Dilma dá continuidade à sua política externa. Afirmação duvidosa. Ora, acontece que Dilma, além de corajosa, tem como um componente básico de sua personalidade o autoritarismo. No fundo do seu coração deve se considerar uma executiva superior ao antigo chefe, além de no plano psíquico jamais esquecer que foi uma guerrilheira e correu risco de vida, enquanto o outro fazia discursos (ser preso não é vantagem nenhuma). Isso, como todo mundo sabe, não a impede de ter uma sagrada admiração por aquele que a fez presidente, acabou com a oposição, e instituiu uma ditadura petista no país. Mas Dilma é mineira, vem daquela turma que até pouco tempo se considerava a elite intelectual do país, e não vai admitir passar para a história como uma fantoche. Isso seria insuportável, ela não aceita. De fato é impossível para quem teve um passado de rebeldia que chegou à violência. Em algum momento de seu mandato pode haver um ponto importante de desacordo com Lula. O mais provável é que o espertíssimo sujeito finja que não percebeu, ou dê declarações conciliatórias e demagógicas. Embora Lula sempre vá ser muito mais forte do que ela, Dilma pode, assim mesmo, construir seu próprio bunker e formar um grupo que lhe seja fiel e que trabalhe sem comprometimento com os desejos do pavão camuflado. Talvez chegue até ao enfrentamento em 2014. Quem pode garantir que não? A lealdade é um conceito elástico quando se está no poder. Para um observador que acha um ato de penitência escrever qualquer coisa séria a respeito da política interna brasileira, observar pequenas rupturas no relacionamento entre os dois, logo no início do governo, talvez seja uma saída, e um divertimento.
As promoções na carreira diplomática acontecem em julho e dezembro, e os pedidos dos candidatos vão desde acionar o simpático pipoqueiro que é amigo do ministro, até as mais altas autoridades do país, passando pelas médias, inferiores, os vizinhos, primos e o escambau. O desgaste de caráter é irreparável. Roberto Campos conta em seu livro de memórias que se desentendeu com o presidente Juscelino a respeito da política econômica e achou melhor se afastar do governo: “Talvez com um certo remorso pela frieza com que me havia tratado no incidente de Roboré, Juscelino promoveu-me a ministro de primeira-classe, poupando-me a humilhante pedincharia, tradicional nas promoções na carreira diplomática“. E ao pé da página: ” Castello Branco costumava dizer-me que as promoções no Itamaraty e as brigas militares sobre a aviação embarcada rivalizavam-se em provocar-lhe dores de cabeça”.