quinta-feira, setembro 16, 2010

A corporação do cinismo no limite do ridículo

Adelson Elias Vasconcellos

A proximidade entre Dilma r Erenice nao era apenas profissional:
revelava uma amizafe bastante antiga

É impressionante como o PT e toda a sua gente, quando ficam no olho do furacão dos crimes por eles praticados , porque descobertos e denunciados, além de espalharem versões estúpidas e atacarem as vítimas, como forma de defenderem-se, depois, com a maior cara de pau, vem a público afirmarem, numa teatralidade cretina, que nada tinham ou tiveram a ver com as lambanças.

Dilma, tentando escapar rápido pela porta dos fundos, tentando fugir do assunto, disse que nada tinha a dizer porque não provaram nada contra ela. E precisa? Ora, Dona Dilma, pare de nos taxar de idiotas: TODOS EVENTOS ACONTECERAM DEBAIXO DO SEU NARIZ. EM TODOS OS EPISÓDIOS RELATADOS A MINISTRA ERA VOCE MESMA! Tá bom assim, ou quer que desenhe?

Não é pelo simples fato de haver se desligado da Casa Civil para realizar campanha eleitoral, que os crimes cometidos sob seu império, se apagam e deixam de existir, e a eximem, não da culpa direta, mas, no mínimo, da responsabilidade.

Como disse em post no início da tarde, Dilma deve explicações à opinião pública, mesmo que não aceite e fuja de tal compromisso. Quanto a provas, que mais provas quer dona Dilma, batom na cueca, ou atestado lavrado no mesmo cartório falso que falsificou uma procuração em nome de Veronica Serra para violar seu sigilo fiscal? Ora, convenhamos, basta a simples releitura de tudo que já foi revelado. Todas as negociações, todos documentos e pagamentos, todo o agendamento da execução do tráfico de influência, tudo, enfim, tinham datas específicas: datas em que Dilma era MINISTRA, e não Erenice, que era Secretária Executiva.

Ninguém está acusando Dilma de haver traficado coisa nenhuma. O que se está fazendo, é cobrar-lhe explicações do seu conhecimento prévio sobre os casos, já que tudo ocorreu na mesa ao lado da sua, e por gente de sua máxima confiança, ao ponto da própria Dilma haver insistido para que Erenice a substituísse na Casa Civil.

Portanto, goste a Dilma ou não, gostem os dirigentes do PT ou não, o fato é bastante simples. Simples assim: Dilma era responsável, em última e suprema análise, pela servidora que estava sob seu comando direto, e que, por diversas vezes, respondeu por Dilma, na chefia da Casa Civil, em sua ausência.

E, neste ponto, apesar de carregar nos mesmos tons de cinismo explícitos, Lula até que foi menos repulsivo nas respostas sobre o mensalão, com "eu não sabia de nada”. Pelo menos seu cinismo não soou tão ridículo como a atitude de Dilma

Claro que de alguém, com pretensões a ocupar a cadeira presidencial, se deve exigir um mínimo de competência e capacidade de comando e escolha de seus auxiliares e assessores diretos. No caso, Dilma naufragou rotundamente.

E cá prá nós: qualquer pessoa, dotada de um mínimo de bom senso, mesmo que Dilma negue beijando a cruz, que tivesse conhecimento de alguma coisa, sabendo de como se dava sua relação tanto de amizade quanto profissional, vai chorar de tanto rir, diante do “eu não tenho que explicar nada”.

Não só tem, dona Dilma, como DEVE EXPLICAÇÕES. Alguns até podem admitir seu cinismo, por ser um hábito comum aos petistas quando flagrados com a mão na “massa”. Mas não resvale para a fossa comum dos ridículos. Se pretende governar o país assuma, de vez, sua responsabilidade neste caso. O país precisa de governantes sérios, e não de criaturas ridículas, e/ou patéticas, que se escondem diante de tropeços ocorridos nas asas de seu comando. Este é um princípio elementar para qualquer administrador, muito mais indispensável, ainda, quando investido de altos cargos na administração pública. Está mais do que na hora de Dona Dilma rever suas postura e, principalmente, seus valores.

Nem todos no Brasil são os idiotas que a senhora imagina que sejam!!! Ao menos respeite a nossa inteligência, tá certo?

TOQUEDEPRIMA...

*****Lula não vai a ONU para fazer campanha.

A embaixada brasileira em Washington informou nesta quarta (15) que o presidente Lula não participará da Assembleia Geral da ONU, em Nova York, na próxima semana, para não se ausentar da campanha eleitoral no Brasil. A informação foi confirmada pela assessoria de imprensa do Palácio do Planalto, que ressaltou que o presidente ainda poderia “mudar de ideia” e participar da conferência. Lula esteve em todas as assembleias gerais da ONU ocorridas até hoje em seus dois mandatos. Esta seria sua última participação no evento, o mais importante do calendário das Nações Unidas, antes de deixar o poder, em janeiro. Em seu lugar, o chanceler Celso Amorim chefiará a delegação brasileira, e ficará em Nova York entre 20 e 29 de setembro.

Ou seja, o interesse do país fica relegado a um segundo plano. Para Lula, o importante é governar apenas as eleições nas quais ele não é candidato, e sim seu partido. Não custava nada, portanto, que o presidente continuasse a governar o Brasil que, em sua agenda, deixou de ser prioridade ou compromisso maior.

***** Compadre de Lula indicou diretor dos Correios

O Ministério Público e a Polícia Federal devem investigar o papel do advogado Ricardo Teixeira, compadre de Lula, no escândalo de tráfico de influência na Casa Civil do Planalto, revelado pela revista Veja. Atribui-se a Teixeira – cujo nome foi ligado a vários escândalos no setor aéreo – a indicação do coronel-aviador Arthur Rodrigues da Silva para a diretoria de Operações dos Correios e personagem do caso.

A diretoria de Operações “pertence” ao senador Leomar Quintanilha (PMDB-TO), a quem coube apenas referendar a escolha de Teixeira.

Arthur Rodrigues deixou a MTA com a filha e chegou aos Correios dias antes do contrato de R$ 59,8 milhões com empresa aérea de cargas.

A repercussão do escândalo cancelou a ida de Stevan Knezevic, amigo do filho de Erenice Guerra, para a área de Operações dos Correios.

Na estatal, a pergunta que não cala: o que o suposto laranja de Israel Guerra faria na diretoria dos Correios que contrata empresas aéreas. Bem, acho que nem precisa perguntar, a resposta é a que todos sabemos: o Estado virou um grande latifúndio do PT e dos amigos de Lula. Claro que a conta é bancada pelos otários pagadores de impostos do país.

***** Presidente do BB compra imóvel com dinheiro vivo
Monica Bergamo, Folha De São Paulo

Segundo escritura, apartamento foi adquirido por Bendine por R$ 150 mil
Outro imóvel no mesmo prédio está à venda por R$ 310 mil; executivo afirma que o valor é compatível com renda

O presidente do Banco do Brasil, Aldemir Bendine, comprou um apartamento no interior de São Paulo neste ano em dinheiro vivo.

O imóvel foi declarado na escritura por R$ 150 mil. Com 160 m2 de área, ele tem duas vagas para automóveis de passeio. Foi adquirido em abril deste ano da Construtora Eugenio Garcia.

A Folha visitou o prédio. Um apartamento vizinho ao de Aldemir Bendine, no mesmo andar que o dele, está à venda por R$ 310 mil.

A escritura do imóvel foi registrada em abril. Nela consta que a construtora fechou a compra e que o valor do imóvel foi "recebido em moeda corrente nacional".

Bendine diz que fez o pagamento em notas de reais.

A lei permite que um imóvel seja quitado por meio de cheque, transferência bancária ou dinheiro vivo. A operação não é ilegal.

COMENTANDO A NOTÍCIA: Devemos observar dois detalhes: primeiro, o preço, claro. Bem abaixo do valor de mercado. Isto, de se declarar um valor menor do que o real, além de corriqueiro, é estratégia que se utilizam os “quase-honestos”, para pagarem menos imposto de transmissão. É corriqueiro, apesar de ilegal e imoral. O segundo dado curioso é que o presidente do BB parece não confiar muito na própria instituição que dirige. Se nada há para ser escondido, e ele sendo executivo de uma instituição pública, por que a falta de transparência? Por que esta mania de servidores públicos acharem que podem tudo, quando deveriam proceder exatamente ao contrário? A operação pode até ter sido ilegal, apesar das evidências indicarem o contrário. Mas que é esquisito, lá isso é...Sei não, acho que tem chumbo grosso escondido atrás desta roseira!!!

***** FGTS: Caixa “esqueceu” R$12 bilhões contas inativas

Corre em segredo de Justiça no Rio Grande do Sul um processo envolvendo a CEF por suposto “esquecimento” de cerca R$12 bilhões de contas inativas do FGTS. O funcionário, que informou à direção, para tentar devolvê-los aos trabalhadores, foi rebaixado à “geladeira”. Só até a letra C, de ex-funcionários da Varig, achou R$800 mil. A CEF diz que os números são públicos e não comenta processos desse tipo. É isso aí: eles passam a mão no dinheiro que não lhes pertence, e com a maior arrogância, acham que não nos deve satisfação.

***** Para o PT, a verdade só vale quando for a favor

O PT de Santa Catarina não conseguiu impedir na Justiça que o Ibope divulgasse pesquisa mostrando liderança da oposição na corrida ao governo. Dias antes, o Sinduscom preferiu manter secreta a dele.

***** AL: Collor lidera pesquisa para governo. Parece que o povo não aprende...

Os três principais candidatos ao governo de Alagoas estão empatados tecnicamente, segundo pesquisa Ibope divulgada ontem (14). Fernando Collor de Mello (PTB) oscilou um ponto percentual em relação à pesquisa anterior e lidera com 29% das intenções de voto. Ronaldo Lessa (PDT), que liderava a disputa com 29% no levantamento divulgado em 24 de agosto, aparece agora com 28%. O governador Teotonio Vilela Filho (PSDB) oscilou três pontos: tinha 24% das intenções de voto e agora tem 27%. A margem de erro é de três pontos percentuais. A pesquisa foi encomendada pela TV Gazeta de Alagoas.

Pe3rguntinha simples: tem o povo que reelege um Collor da vida, direito para, depois reclamar quando o cara apronta lambança? O passado dele não desmente, mas a turma teima em reconduzi-lo para a vida pública. Mal feito conscientemente, aí não adianta mais reclamar, né?

***** TSE concede direito de resposta a Serra

O Tribunal Superior Eleitoral concedeu ao candidato à Presidência, José Serra (PSDB), dois minutos de direito de resposta no programa do PCO. Nos programas contestados, exibidos no dia 24 de agosto, o PCO afirmou que, em 1997, o PSDB transformou a Petrobras em sociedade anônima e que mais de 260 mil trabalhadores são terceirizados e trabalham em regime de escravidão. Segundo a coligação tucana, o PCO “buscou incutir no eleitor a idéia de que a representante patrocina trabalho escravo e dilapidação do patrimônio público”. De acordo com a ministra Nancy Andrighi, a afirmação é caluniosa e atinge diretamente o PSDB

***** Manobra tentou tirar Ayres Britto do caso Roriz

Uma manobra ousada tentou impedir o ministro Carlos Ayres Britto, do Supremo Tribunal Federal, de julgar a impugnação de Joaquim Roriz (PSC), candidato ao governo do DF. Procurados pela defesa de Roriz, o escritório de advocacia do genro de Ayres Britto, Adriano Borges, e de sua filha, Adrielle Britto, se recusaram a atuar no caso. Ainda assim, a defesa de Roriz incluiu o nome deles, sem autorização, em uma petição. Na prática, isso obrigaria o ministro a se declarar impedido.

Assim que souberam que seus nomes foram usados sem autorização, Adriano Borges e Adrielle Brito requereram a imediata exclusão.

Adriano Borges conta que recebeu a defesa de Roriz apenas para ser gentil com o colega, mas o convite de atuar no caso foi prontamente repelido.

O genro do ministro Ayres Britto achou mesmo “muito estranho” que a defesa de Roriz tenha incluído os nomes deles na petição.

A manobra de impedir o ministro de julgar decorre do fato de ele já haver sinalizado ser favorável à vigência imediata da Lei Ficha Limpa

***** Francenildo será indenizado: R$ 500 mil

O caseiro Francenildo dos Santos Costa conseguiu na Justiça o direito à indenização por danos morais no valor de R$ 500 mil em razão da quebra ilegal de seu sigilo bancário em 2006. Ele ingressou com ação contra Caixa e a Editora Globo pedindo indenização por danos morais. Em relação à Caixa, o autor argumentou que a empresa pública quebrou ilegalmente seu sigilo bancário. No caso da editora, que publica a revista Época, o caseiro argumentou que ela teria violado seus direitos individuais ao expor seus dados bancários e divulgar questões de cunho particular e familiar, veiculando comentários tendenciosos com o objetivo de denegrir sua imagem e expor sua vida privada. No entendimento do juiz federal Itagiba Catta Preta Neto, da 4ª Vara da Seção Judiciária do DF, considerou ilegal o encaminhamento da documentação bancária de Francenildo ao Ministério da Fazenda.

Talvez o governo tenha achado a indenização pequena, porque eles ainda vão recorrer. Ou seja, vai levar muito tempo para o Francenildo recebeu a indenização a quem tem direito. Este é o típico caso em que o governo deveria era ficar quieto e pagar de imediato. A protelação é só em prejuízo de quem o próprio governo prejudicou. Interessante o senso de justiça desta gente...

***** A patrulha petista a postos...

Está instalado em apartamento do Hotel Imperial, em Brasília, o bando que se dedica a alvejar e a insultar, via internet, qualquer jornalista que noticie malfeitorias oficiais. Só não se sabe quem está bancando a despesa, muito embora a gente até desconfie.

Enquanto isso ...

Conhecido por sua integridade, o repórter Diego Escosteguy, da revista Veja, e familiares, têm sido vítimas de ataques covardes e até ameaças desde que revelou ao País as ações do filho lobista de Erenice Guerra.

***** Alhos & Bugalhos

Essa polêmica da violação do sigilo fiscal poderia ser resolvido com um acordo: José Serra tornaria pública a declaração do imposto de renda da filha e o presidente Lula faria o mesmo em relação ao filho.

***** Governo quer conter queda do dólar produzida pela capitalização

Depois de dez dias seguidos de baixa, o dólar comercial fechou hoje com alta de 1,11%, cotado a R$ 1,727 na venda, deixando para trás, pelo menos por enquanto, a barreira psicológica de R$ 1,70. Mais cedo, o ministro Guido Mantega disse que o governo vai agir para segurar a moeda americana. As indicações que ele mesmo tem dado são de que se pensa em mais compra de dólares e também em incentivos para que as empresas captem no Brasil, em vez de pegarem empréstimos no exterior.

Tudo isso é para neutralizar a entrada de dólares por conta da capitalização da Petrobras, que deve trazer para o país de US$ 20 bilhões a US$ 30 bilhões. Mas foi o próprio governo que decidiu fazer a oferta de ações nesse momento. Ou seja, estão tentando atacar os efeitos de um problema criado por eles mesmos.

***** Advogado de Veronica Serra fará investigação paralela sobre violações

A filha e o genro do candidato à Presidência, José Serra (PSDB), Veronica Serra e Alexandre Bourgeois, prestaram depoimento nesta quarta (15) na Superintendência da Polícia Federal em São Paulo, no inquérito que apura o vazamento de seus dados sigilosos pela Receita. Segundo o advogado de Veronica, Sérgio Rosenthal, o delegado Hugo Uruguai sinalizou que vai indiciar o técnico em contabilidade Antônio Carlos Atella Ferreira, pelo uso de procurações falsas. Rosenthal afirmou que a defesa também vai fazer uma investigação paralela sobre o caso, mas não deu detalhes de como isso será feito. Ele disse que o delegado informou que a Justiça Federal já autorizou a quebra do sigilo telefônico de Atella. Veronica e Bourgeois, segundo a defesa, afirmaram não conhecer Atella, o office-boy Ademir Estevam Cabral, que supostamente teria pedido ao contador os dados dos dois, entre outros envolvidos no caso.

Erenice sai da Casa Civil, mas Dilma deve explicações!!!

Comentando a Notícia

Erenice Guerra já não é mais a ministra Chefe da Casa Civil. A partir dos últimos eventos, previsível. O fato novo foi bem informado e baseado em documentos e testemunhos, pela Folha de São Paulo e O Estado de São Paulo (veja post abaixo). Quero chamar atenção para as datas, tanto as da reportagem da Revista Veja, quanto para o que veio a público hoje. Todos os eventos até aqui informados e conhecidos, são de episódios ocorridos enquanto Dilma Roussef era a ministra da Casa Civil. Todos, sem exceção. Ora, se dentro de seu gabinete se praticava lobby, da qual participava seu braço direito, é crível que se acredite em um “eu não sabia de nada”? Como se pode imaginar que algo tão grave e que envolve reuniões, agendamento, envio de minutas de contratos, negociações com outros ministérios, telefonemas, e-mails, fax, possa se passar ao lado de Dilma, e que ela não tivesse conhecimento do que ali era praticado?

Ora, como se pode conceber tanta competência gerencial para coordenar as atividades dos ministérios sob sua supervisão, que envolve bilhões de reais voando de um lado a outro do país, e permitir que sua amiga e assessora principal de tantos anos, intermedeie com filhos e demais parentes, tráfico de influência de dentro de seu gabinete? Reparem no que segue:

Dinheiro para a 'mulher de ferro' - Num dos trechos da entrevista à Folha, o empresário de Campinas, Rubnei Quícoli, revelou também que durante as negocições para o empréstimo no BNDES, o ex-diretor de Operações dos Correios Marco Antônio Oliveira lhe falou que "precisava de R$ 5 milhões para poder pagar a dívida lá que a mulher de ferro tinha. Que tinha que ser uma coisa por fora para apagar um incêndio."  Questionado, Rubnei respondeu que "a mulher de ferro" é a Dilma e a Erenice, as duas. Não sei quanto é a dívida de uma e de outra. Eu sei que a Erenice precisava de dinheiro para cobrir essa dívida."

Não se trata mais, como com muito propriedade afirmou Sérgio Guerra, presidente do PSDB, de caso eleitoral, de ganhar ou perder votos. Agora o assunto virou caso de polícia. Porém, a acusação não pode perder de vista que se tentava praticar não apenas um lobby qualquer, e sim, de verdadeira extorsão com o propósito específico de se obter, além de vantagens financeiras pessoais, a de também arrecadar dinheiro para a campanha de Dilma. E isto quem diz não é ninguém ligado ao PSDB, ou a qualquer rpartido da coligação oposicionista. Isto torna o caso ainda mais grave.

Por tudo isso, creio que Dilma deve explicações ao país. E não explicações sem nexo, ou esquivas para fugir do assunto, não. Repito: nas datas, quem era ministra, era Dilma. E agora,  não tem nada a ver com “factoides”, dona Dilma: a responsabilidade era sua, sim. Portanto, menos enrolação. O Brasil, por tudo que é, não pode, em hipótese alguma, ser presidido por quem não tem a menor noção do que se passa na mesa ao lado da sua. Isto no mínimo é incompetência. Agora, tem outra: se sabia, e ainda assim deixou o barco correr, bem aí o nome do caso muda: para a ser cumplicidade com o crime, ao menos, por omissão.

Portanto, estando as eleições tão próximas, e sob peso e suspeita de que um dos candidatos praticou algo tão pouco republicano, as investigações para a apuração da verdade e seus envolvidos (ou culpados), não pode ser empurrada com a barriga, com deboche ou com irresponsabilidade. Eis uma boa hora para a Polívia Federal cumprir a setença decretada por Lula em palanque: se for bandido e a gente pegar, vai preso. Doa a quem doer.

Um dia, a Casa Civil cai

Por Eliane Cantanhêde, para Folha De S. Paulo. Comento em seguida.

Erenice Guerra era da liderança do PT na Câmara, uma fábrica de dossiês contra Collor, Itamar, FHC, Ibsen Pinheiro (que despontava como presidenciável) - enfim, contra tudo e todos.

Dali, os dossiês vazavam para as redações e para as então temidas CPIs, de boa lembrança. Os autores eram os "puros"; os que caíam na rede eram os "impuros". Com o tempo, autores, vítimas e réus foram se misturando perigosamente.

Não há mais "puros", a população conclui que todos são "impuros".

Da fábrica de dossiês, Erenice pulou para a Secretaria de Segurança Pública do DF no governo Cristovam Buarque (então PT), enquanto usava laranjas para abrir justamente uma empresa privada de investigação, segurança e vigilância. Ou seja: de dossiês.

E não é que ela foi galgando degraus até chegar ao Palácio do Planalto, aboletar-se como secretária-executiva na principal pasta do governo e dali fabricar o dossiê, ops!, o "banco de dados" contra Ruth e Fernando Henrique Cardoso?

***** COMENTANDO A NOTÍCIA:
Reparem na naturalidade com que a colunista da Folha vai empilhando informações sobre a atuação de Erenice Guerra na fabricação de dossiês para o PT, de como tais dossiês chegavam ao conhecimento público e, principalmente, contra quem eles eram montados.

Para dizer o que diz, Eliane deve ter, ou bons informantes, muito bons, aliás, ou este é um conhecimento que se tornou de domínio público entre os jornalistas que trafegam por Brasília, mas que só agora nos é revelado.

Num caso ou noutro, não pode haver na imprensa quem estranhe, portanto, as acusações que são feitas pela montagem de dossiês, pelo PT, tanto em 2006, no episódio conhecido como Aloprados, tampouco agora, quando se noticiou a existência de um bunker instalado no comitê de campanha de Dilma, para atingir José Serra.

Sendo assim, por que a grande imprensa insiste em fazer vistas grossas chegando ao cúmulo de referir-se a tais episódios sempre com a cretinice de “suposto dossiê”? Que saco!!! Ou se sabe e se noticia como DOSSIÊ, ou se não sabe, que não se fique criando ilações sobre fantasias. O direito de informar impõem seriedade e respeito para com o leitor, obrigando que a imprensa trabalhe com o fato real, e não com suposições que mais prejudicam e confundem do que esclarecem.

Portanto, seja a colunista da Folha ou qualquer outro jornalista que teve acesso ou conhecimento da tal fábrica de dossiês, montado pelo PT dentro do Congresso, com o propósito de atingir de forma caluniosa adversários políticos, tem por DEVER DE OFICIO vir a público e informar. O que não pode é, mantido seu silêncio, continuar colaborando, de forma direta, para a degradação dos costumes políticos do país.

E interessante: por que este fato, sobre atuação e participação de Erenice Guerra na montagem de dossiês pelo PT e sua distribuição pelos diferentes órgãos de imprensa, dentro do Congresso, só vem ao conhecimento público, quando praticamente ela está de saída do ministério de Lula? Por que, quando ali foi colocada em lugar de Dilma, não se noticiou esta parte "pouco recomendável" de seu curriculum? Caramba!!!!

Caso Erenice - Filho acusado de cobrar comissão

Rubens Valente, Fernando Odilla e Andreza Matais, Folha De S. Paulo

Firma de lobby de filhos da ministra foi procurada para viabilizar projeto de energia solar. Negociação custaria 5% do empéstimo e R$240mil em 6 vezes, dizem empresários

Uma empresa de Campinas confirma que um lobby opera dentro da Casa Civil da Presidência da República e acusa filho da ministra Erenice Guerra de cobrar dinheiro para obter liberação de empréstimo no BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social).

Interessada em instalar uma central de energia solar no Nordeste, a EDRB do Brasil Ltda. diz que o projeto estava parado desde 2002 na burocracia federal até que, no ano passado, seus donos foram orientados por um servidor da Casa Civil a procurar a Capital Consultoria.

Trata-se da firma aberta em nome de um dos filhos de Erenice, Saulo, e que foi usada por outro, Israel, para ajudar uma empresa do setor aéreo a fechar contrato com os Correios - primeiro negócio a lançar suspeitas de tráfico de influências no ministério.

Graças à mediação da Capital, representantes da EDRB disseram em entrevistas gravadas à Folha ter sido recebidos em audiência oficial por Erenice na Casa Civil, em novembro, quando ela exercia o cargo de secretária-executiva e a titular do ministério era a hoje candidata à Presidência Dilma Rousseff (PT).

Nos dois meses seguintes, por meio de reuniões em Brasília, com a participação de Israel Guerra, telefonemas e e-mails, a EDRB afirma ter sido informada das condições impostas pela Capital para que um financiamento de R$ 9 bilhões do BNDES, em três parcelas, enfim saísse.

Os termos, segundo a empresa de Campinas, incluíam seis pagamentos mensais à Capital de R$ 40 mil e uma comissão de 5% sobre o valor do empréstimo. Segundo o relato, haveria também um repasse de R$ 5milhões para supostamente ajudar a campanha da eleição de Dilma.

"Não aceitamos pagar nada. Temos investidores, empresas que querem construir, gerar alguma coisa, e não criar vagabundos dessa forma", disse à Folha Rubnei Quícoli, consultor da EDRB que fez os contatos com a Casa Civil e com a Capital.

"Nos foi apresentada uma minuta de contrato. A gente contrataria uma empresa para fazer o acompanhamento jurídico do negócio todo. A empresa do filho da dona Erenice. Olhei os valores e disse: 'Bom, para fazer acompanhamento jurídico desse troço, a gente não concorda pagar isso'. E aí o negócio terminou", confirmou Aldo Wagner, sócio da EDRB.

Quícoli, 49, encaminhou à Folha documentos e cópias de e-mails que, segundo ele, corroboram as afirmações.

Uma das mensagens, de 15 de dezembro e endereçada aos donos da EDRB (Aldo e Marcelo Escarlassara), traz a minuta encaminhada pela Capital, que indica como seu procurador o empresário Adriano da Silva Costa.

O contrato pede pagamento de R$ 240mil em seis prestações mensais e uma "comissão de sucesso" de 5% sobre o empréstimo, o equivalente a R$ 450 milhões.

O acordo tem estrutura e redação similares ao que a Capital havia encaminhado para intermediar a renovação de contrato da empresa aérea MTA com os Correios.

A Folha obteve também a troca de e-mails entre a Casa Civil e o consultor da EDRB, com vistas a marcar a audiência oficial com Erenice. O encontro ocorreu às 17h de 10 de novembro no CCBB (Centro Cultural do Banco do Brasil), em Brasília, que na época era a sede da Presidência.

A Casa Civil confirmou a reunião ontem, mas informou que Erenice não participou. Quícoli e Aldo Wagner sustentam, no entanto, que ela participou.

Dizem que ela não intercedeu em favor do filho nem pediu dinheiro. Segundo eles, ela ouviu sobre o projeto e se propôs a fazer a ponte entre a EDRB e a Chesf (Companhia Hidroelétrica do São Francisco), estatal geradora de energia.

"Nesse dia, ela [Erenice] propôs o quê? Viabilizar o projeto dentro da Chesf. [...] Estivemos na Chesf, em São Paulo", disse.

Segundo o consultor, o encontro com Erenice foi agendado por Vinícius Castro, que era assessor da Casa Civil até segunda-feira. Foi exonerado depois que a "Veja" revelou que seria sócio oculto de Israel na Capital

***** COMENTANDO A NOTÍCIA:
A pergunta que me faço é: o que mais precisa o senhor Lula para demitir dona Erenice? Que desejasse evitar-lhe o constrangimento logo após a reportagem da Revista Veja, concedendo-lhe o direito de defender-se, até é compreensível. Tentava com isso evitar que o assunto respingasse na campanha, até aqui vitoriosa de Dilma. Porém, já a partir da nota que expediu de forma destemperada, atacando, injustificadamente, o ex-governador Serra, em termos agressivos e estúpidos, creio, encerrou seu ciclo. Ainda assim, foi apenas advertida de que “cometera um erro”.

Diante de novos fatos sobre tráfico de influência, afora ainda aquilo que não se sabe porque não divulgado, entendo que sua saída será iminente. Não há mais clima para sua permanência como ministra da Casa Civil.

Lula deve entender que, antes de militante político, ele é presidente do Brasil, e é neste sentido que deve atuar para preservar não a candidatura de Dilma, mas algo muito maior para o qual ele foi eleito: as instituições do país.

Mas que fique claro: não é a demissão, pura e simples, de Erenice Guerra, que terá o dom de apagar o mal feito. Há muitas questões em aberto e que precisam ser esclarecidas. E, entendo, que a maior delas é: qual o envolvimento de Dilma Rousseff, em todo este episódio? Antes que um apressadinho responda, esclareço que, as acusações de tráfico de influência relatam casos ocorridos ao tempo que dona Dilma ainda era a ministra Chefe da Casa Civil. Sendo Erenice seu braço direito, a questão é pertinente e relevante. Não guarda nenhuma relação ao calendário eleitoral.

A demissão não terá, deste modo, o dom de apagar nem os crimes cometidos, tampouco a necessidade de esclarecimentos das dúvidas soltas no ar.

Gigantesca dívida com os transportes

Raul Velloso, O Estado de S. Paulo

O Brasil pode crescer, como está crescendo no momento, a taxas acima de 4,5% ou 5% ao ano. Só que isso não é sustentável. Claramente, a demanda agregada da economia corre por cima do produto interno, o que leva a um aumento do déficit externo (para suplementar a oferta interna) e a pressões inflacionárias (pois nem tudo se pode importar do exterior). Num ambiente externo superfavorável, como o atual, é possível financiar déficits externos elevados, mas uma hora isso se reverte. Antes, contudo, as expectativas inflacionárias terão superado a meta de inflação e o Banco Central, forçado a agir uma vez mais, subindo a taxa de juros Selic. Resultado: mais à frente a economia entra numa nova fase descendente do ciclo econômico, rumo ao limite de 4,5% ou 5% ao ano, frustrando os agentes econômicos.

A explicação para isso é que o Brasil: 1) faz muitos gastos correntes – especialmente no setor público -, que criam demanda, mas, como se sabe, não acrescentam capacidade de produção ou de prestação de serviços ao País; e 2) aumenta pouco sua produtividade. Todas as vezes que o investimento privado responde com maior força aos estímulos econômicos, falta poupança, ou, dito de outra forma, dá-se o congestionamento de gastos – e, na sequência, as pressões inflacionárias.

Não tem jeito: o País precisa investir mais e o setor público, gastar menos em pessoal e programas ineficientes, para abrir espaço aos investimentos. Mais ainda: ambos os setores – público e privado – devem investir mais em infraestrutura, especialmente de transportes, em que o dilema se manifesta com maior força. Não só porque há um grande atraso a tirar, como porque é ali que o conflito entre consumo e investimento se manifesta com maior força. Não podendo importar serviços de infraestrutura (a não ser em casos extremos, como o da usina hidrelétrica na fronteira com outros países), só se aumenta a oferta interna investindo mais domesticamente.

Sobre o atraso na área de transportes, os dados do portal SigaBrasil mostram que os investimentos do Ministério dos Transportes aumentaram de forma expressiva nos últimos anos, pois é costume comparar esses gastos com os de 2002 ou 2003, quando ocorreram os menores dispêndios nos últimos 40 ou 50 anos. Quando a comparação é feita com dados oficiais relativos aos anos 70, e em porcentagem do PIB, vê-se que a União gastou no ano passado não mais do que 17% dos investimentos daquela época áurea. Por mais que tivesse diminuído o crescimento da demanda por serviços de transportes, e em que pese o surgimento das concessões rodoviárias, não há como justificar tal redução de investimentos.

O curioso é que a introdução da Cide-Combustíveis, que é basicamente um tributo só utilizável pela área de transportes, fez pouca diferença nesse processo. Sem falar que a arrecadação vem caindo drasticamente desde sua entrada em vigor, demonstrando o descaso do governo para com essa fonte. Com efeito, a receita bruta da Cide caiu de R$ 8,4 bilhões, em 2003, no seu segundo ano de vigência, para R$ 3,8 bilhões, no ano passado, a preços de 2009.

Mesmo assim, desde sua introdução (2002) e até 2009, a Cide rendeu R$ 50,2 bilhões aos cofres da União, a preços desse ano, deduzindo-se as transferências desse tributo para Estados e municípios. Em contraste, e para cálculo nas mesmas bases, foram gastos apenas R$ 37,6 bilhões em investimentos federais, faltando, portanto, a bagatela de R$ 12,6 bilhões.

Proponho outro cálculo para a dívida da União com o setor de transportes. O investimento mínimo em transportes deveria ser igual à soma de duas parcelas: 1) a média de 1990-2001, algo ao redor de 0,2% do PIB, que corresponde ao “fundo do poço” na evolução do gasto desde os anos 70, e antes da Cide; 2) o próprio valor líquido da arrecadação da Cide, em que pese o descaso das autoridades com a sustentação de seus ingressos (pois deve ser o único item da carga tributária que mostra forte queda em termos reais desde sua criação…). Calculando a diferença entre o investimento observado e a citada soma, chega-se a uma diferença acumulada de não menos do que R$ 96,8 bilhões entre 2002 e 2009, atualizando os valores pela taxa de juros Selic.

A saída é rever cuidadosamente a pauta de gastos, especialmente na União, identificando as áreas em que os gastos são elevados e a eficiência é baixa. O gasto de pessoal é o candidato natural a liderar o processo de ajuste, pois, no setor público, ineficiência tem que ver fundamentalmente com uso inadequado desse fator de produção. Num dos aspectos a serem abordados, os altos salários, é só procurar os estudos da FGV-SP sobre quão mais altos os salários de servidores se tornaram em relação aos do setor privado, em carreiras equivalentes.

No mais, sugiro acessar a página http://www.brasileficiente.org.br/Resources/Downloads/Proj%20Contr%20Gasto%20(final,%2026mai2010).pdf e examinar o estudo sobre os gastos públicos excessivos e ineficientes que coordenei recentemente.

Sem refinarias, não haverá autossuficiência

Humberto Viana Guimarães (*), O Globo

Com a abertura do mercado para as diversas empresas nacionais e estrangeiras a partir da chamada Lei do Petróleo sancionada por FHC, que foi benéfica, inclusive para a Petrobras, como admitem os seus dirigentes e especialistas do setor, a exploração e produção tomaram um grande impulso. Segundo a ANP, saímos de uma produção média diária de 1,23 milhão de barris em 2000 para 2,04 milhões em 2010, um aumento de 66,05%, fato esse que nos insere num seleto grupo de países produtores.

" Se não atentarmos para o refino, corremos o risco de ficar na esdrúxula situação do Irã, segundo maior produtor da Opep (3,8 milhões b/d) e que continua gastando bilhões de dólares na importação de derivados por falta de refinarias "

No entanto, é necessário esclarecer que a autossuficiência observada até agora foi somente no petróleo bruto e não nos derivados, que continuam com um enorme rombo. E há um agravante nisso tudo, pois, como as nossas instalações foram construídas para refinar petróleo leve e a nossa produção é majoritariamente do tipo pesado, temos que exportar grande parte do que produzimos - mais barato - e importar o mais caro (uma representativa diferença de US$ 11,00 por barril).

No que se refere aos derivados, a conta é amarga. Em 2010, exportamos uma média diária de 204 mil barris (retração de 0,23% em relação a 2009), o que resultou numa receita de US$ 4,034 bilhões (+56,63%). Do outro lado, importamos 446 mil b/d (+92,18%) com um custo de US$ 7,085 bilhões (+183,08% no mesmo período de 2009, quando desembolsamos US$ 2,503 bilhão. Para se ter uma real dimensão do rombo da conta de importações de derivados, em todo o ano de 2009 foram gastos US$ 5,571 bilhões. Como podem ver, nos primeiros sete meses de 2010 já ultrapassamos em 27% tudo o que foi gasto no ano passado, gerando um déficit de US$ 3,051 bilhões. Do jeito que vai, o rombo chegará a US$ 6 bilhões, valor esse mais que suficiente para construir uma refinaria.

Por que, sendo o Brasil autossuficiente na produção de petróleo é altamente deficitário no que se refere aos derivados? A resposta é muito simples: faltam-nos refinarias. Apesar das expansões e modernizações levadas a cabo pela Petrobras ao longo dos últimos anos, as refinarias não conseguem processar todo o volume necessário de derivados para o seu consumo interno. Em 2000, refinamos uma média diária de 1,61 milhão de barris, e em, 2010, esse número é de 1,775. Ou seja, no período de dez anos, o refino aumentou somente 9,97%, diante de 66% na produção.

Não obstante a construção do Comperj (165 mil b/d, RJ) e da refinaria do Nordeste (200 mil b/d, PE), elas não serão suficientes para atender à crescente produção e consumo, e o nosso déficit de derivados tende aumentar cada vez mais. Óleo diesel, nafta, gasolina A, querosene de aviação e o GLP representam 78% dos volumes importados e 85% dos custos.

Esperemos, pois, que as tão propaladas refinarias Premium I (600 mil b/d, MA) e Premium II (300 mil b/d, CE) saiam das promessas e discursos eleitoreiros e sejam efetivamente construídas, pois assim, abasteceríamos o mercado local e exportaríamos os excedentes que têm alto valor agregado. Se não atentarmos para o refino, corremos o risco de ficar na esdrúxula situação do Irã, segundo maior produtor dentro da Opep (3,8 milhões b/d) e que continua gastando bilhões de dólares na importação de derivados por falta de refinarias.

E temos que andar rápido, pois, se forem confirmadas os potenciais e a viabilidade dos campos do pré-sal, a nossa produção diária poderá alcançar quatro milhões de barris por dia nos próximos quinze anos. É importante ressaltar que o rombo do déficit de derivados só não está maior devido à participação do etanol, em função da mistura de 25% do anidro à gasolina, mas, também, ao crescente aumento da frota dos veículos flex (hidratado). Durante o ano de 2010, foram vendidos uma média diária de 362 mil barris de etanol que ao preço do barril do derivado importado alcança US$ 5,8 bilhões.

(*) Humberto Viana Guimarães é engenheiro civil e consultor

Inversão de valores

De Merval Pereira, O Globo

O mais grave que está acontecendo no país não é nem mesmo o inacreditável vale-tudo em que se transformou a campanha presidencial, mas a banalização das atitudes mais perniciosas do governo nesses últimos anos, especialmente após o episódio do mensalão em 2005, e de maneira mais acentuada no segundo mandato do presidente Lula.

São praticamente oito anos solapando as instituições do país, provocando ao final um anestesiamento na sociedade brasileira, que tudo justifica porque parte de um governo popular, aprovado por mais de 80% da população.

Como se a popularidade desse a qualquer governo o direito de ignorar leis, ou mesmo que as consequências benéficas desta ou daquela política social justificassem abusos de poder, ou os atenuassem.

O governo Lula está conseguindo transformar críticas em atitudes mesquinhas e antipatrióticas, e, assim como mistura o público com o privado, confunde o líder partidário com o poder do cargo de presidente da República, sem que a sociedade se indigne.

E quem critica esse abuso de poder político nunca antes visto neste país corre o risco de ser considerado um sujeito "do contra", que não reconhece os avanços havidos.

Cada vez fica mais restrito o campo para as divergências, ao mesmo tempo em que se alargam os caminhos para o autoritarismo e a truculência do Estado.

O presidente Lula começou essa escalada autoritária depois que conseguiu escapar da crise do mensalão.

Entre o momento em que ele próprio disse que havia sido traído dentro do governo, até quando os petistas foram à tribuna do Congresso chorar literalmente de vergonha pelo que estava sendo exposto, houve no país uma indignação que poderia fazer a política andar para a frente, com reformas estruturantes e punição dos responsáveis pelo maior prejuízo institucional que o país já sofreu na História democrática recente.

Mas o presidente Lula, impossibilitado de enfrentar a crise que estava arraigada no seu partido e no seu governo, assumiu em entrevista dada em Paris a versão de que o mensalão não passava de caixa dois, prática normal na política brasileira.

A partir daí, a prometida apuração rigorosa passou a ser uma proteção desabrida de todos os envolvidos, e a promessa implícita de que ninguém sofreria prejuízos se todos se unissem num pacto de silêncio.

O presidente sistematicamente passou a mão sobre a cabeça dos aliados, fossem eles quem fossem, tivessem cometido qualquer tipo de crime.

Essa se tornou a regra do governo, como nas máfias, e acelerou-se no segundo governo Lula a montagem da máquina governamental a serviço dos "companheiros".

A defesa intransigente de qualquer malfeito de aliados é a contrapartida do apoio cego, acrítico.

Lula não teme nenhum limite legal, desmoraliza o Judiciário como fez agora nesta campanha com o TSE, e se jacta de que pode ir para as ruas quando quiser para combater seus adversários.

Foi à televisão na condição de presidente da República para exercer o papel de cabo eleitoral de sua candidata, colocando o principal adversário como um antipatriota que não pensa no bem do país.

Repetiu na segunda à noite em Santa Catarina, quando, misturando mais uma vez o cargo que ocupa com seus interesses partidários, alegou que "em nome da minha honra e da honra do meu país" não perderá as eleições.

E acrescentou que estava fazendo hoje o que fez em 2005: "Vou às ruas para derrotá-los".

Na verdade, essa ameaça de levar os movimentos sociais para as ruas para reagir ao possível pedido de impeachment nunca se concretizou, e Lula chegou mesmo a autorizar uma negociação para não se candidatar à reeleição em troca de poder terminar seu mandato.

Com a recuperação de seu prestígio graças aos bons ventos da economia mundial, Lula voltou a ser aquele líder dado a "bravatas", como ele mesmo confessou que fazia quando esteve na oposição.Inebriado com seu próprio sucesso, Lula foi adiante e, ao lado da sua candidata Dilma Rousseff, afirmou que o "DEM precisa ser extirpado" da política brasileira.

Seu rancor data ainda de 2005, quando, segundo acusou, a família Bornhausen tentou derrubá-lo do poder.

A gravidade desse episódio, além do fato de um presidente da República defender em público o extermínio de um adversário político, é que, anos antes, o então senador Jorge Bornhausen havia provocado em Lula e nos petistas um aparente sentimento de estupor quando disse que na eleição de 2006 o país precisava "se ver livre dessa raça por 30 anos".

Foi chamado de tudo: "fascista", "direitista", "adepto das ditaduras militares", "explorador e assassino de trabalhadores".

Lula e Mussolini

Marcos Guterman, Estadão.com

Há um crescente debate no Brasil sobre o suposto caráter autoritário do presidente Lula. O último episódio foi protagonizado pelo ex-presidente FHC, que, em entrevista, chegou a sugerir uma comparação de seu sucessor com Mussolini. Disse o tucano: “Faltou quem freasse Mussolini. Claro que o Lula não tem nada a ver com o Mussolini, mas o estilo ‘eu sou tudo e quero o poder total’ não pode. Ele tem de parar”.

Embora movido pela situação dramática de seu candidato na campanha presidencial, FHC está essencialmente correto. Num resumo rápido dessa tragédia, Lula pulverizou a lei e a liturgia de seu cargo para viabilizar Dilma Rousseff como sua sucessora; ao longo de seu governo, deu seguidas demonstrações de desprezo pelos mecanismos de controle e fiscalização, como o Tribunal de Contas da União; e expressou desrespeito pela própria existência da oposição, ao ponto de defender que um desses partidos fosse “extirpado” da política nacional, como se os eleitores desse partido não fossem brasileiros como os que dão apoio ao lulismo.

Inebriado por sua popularidade, Lula realmente está convencido de que pode tudo. Em torno dessa imagem, construiu-se um consenso segundo o qual a corrupção, o tráfico de influência, o desrespeito aos direitos individuais (como o sigilo fiscal) e outras inúmeras violações cometidas pelo governo Lula, ou com sua bênção, são aceitáveis ante o formidável projeto de incorporar brasileiros miseráveis à “classe média” – ainda que seja pela via do endividamento no crediário, e não pela verdadeira distribuição de renda. Como resultado, tem-se a apatia política, que absorve gente de todas as extrações sociais e intelectuais, dando respaldo quase bovino ao líder carismático – que, em troca, oferece a segurança de que tudo fará sentido, agora ou no futuro.

Ao longo da história, vários regimes autoritários foram construídos assim.

Caso dos aloprados: 4 anos sem punição

O Estado de S.Paulo

Não há nenhum denunciado pela confecção de dossiê contra tucanos e nem mesmo foi descoberta a origem do R$ 1,75 milhão apreendido

Quatro anos depois quase nada avançou a investigação sobre os aloprados do PT que foram flagrados tentando comprar um dossiê contra tucanos - José Serra, então candidato pelo PSDB ao governo de São Paulo, era o alvo principal do grupo. Não há nenhum denunciado perante a Justiça, nem mesmo foi descoberta a origem da montanha de dinheiro apreendida em hotel de São Paulo, R$ 1,75 milhão em dinheiro vivo, na madrugada de 15 de setembro de 2006.

Alguns aloprados continuam nas fileiras do partido, uns exercem funções em setores da administração federal e outros se dedicam a atividades empresariais.

Todos estão livres, até aqui, de acusações formais perante a Justiça. A Polícia Federal indiciou parte do grupo, mas vários deles escaparam ao enquadramento. A PF argumentou "ausência de indícios suficientes".

O Ministério Público Federal ainda não decidiu se leva os envolvidos à Justiça. O procurador da República Mário Lúcio Avelar, que atuou inicialmente, saiu do caso. O novo está em férias.

O banco dos réus é só para os Vedoin, pai e filho, Darci e Luiz Antônio, empresários acusados de integrarem a Máfia dos Sanguessugas, organização infiltrada em setores do governo para fraudes em licitações de compra de ambulâncias superfaturadas.

O dossiê era uma peça que se resumia a um punhado de recortes de jornais e uma fita de vídeo com imagens do ex-ministro da Saúde (governo Fernando Henrique) em compromissos públicos para entrega de ambulâncias. Os aloprados achavam que o documento provocaria abalos na candidatura Serra, que venceu o pleito.

Mentores da farsa, para a PF, os Vedoin respondem a ações judiciais, não pelo dossiê. São ações de improbidade, quase 200. As penais são cerca de 15. A procuradoria imputa a eles quadrilha e fraudes em licitação. Ficaram presos algumas semanas.

Mala.
A ação dos aloprados foi interceptada pela PF naquela madrugada de 2006 quando foram detidos Gedimar Passos e Valdebran Padilha no Hotel Ibis Congonhas, em São Paulo. Com eles os federais recolheram dólares e reais, ao todo R$ 1,75 milhão. Suspeitava-se que o montante era de caixa 2. O próprio presidente Lula, que buscava a reeleição, chamou o grupo de "aloprados".

Segundo a PF, Gedimar - agente aposentado da corporação - estaria interessado na compra do dossiê. Padilha, empresário da construção civil em Cuiabá, supostamente veio a São Paulo receber o dinheiro.

O circuito fechado de segurança mostrou Hamilton Lacerda, do PT, transitando pelos corredores e saguão do hotel. Lacerda aparece no elevador carregando uma grande mala. Na época coordenador de comunicação da campanha do senador Aloizio Mercadante (PT) ao Palácio dos Bandeirantes, Lacerda teria sido o portador do dinheiro.

Indiciado pela PF por lavagem de dinheiro ele negou o crime. Alegou que levava notebook, roupas, santinhos de campanha. Sob pressão saiu do PT, mas retornou em 2009, acolhido pelo diretório de São Caetano do Sul.

A PF identificou doleiros no Rio. Sobre os reais não chegou alugar nenhum - era dinheiro miúdo, isso dificultou o rastreamento. O delegado que conduziu a primeira etapa do inquérito, Diógenes Curado, não tem mais nada com o caso. Ele foi nomeado secretário de Segurança Pública de Mato Grosso.

A PF suspeitava de outros petistas - Jorge Lorenzetti, Osvaldo Bargas, Expedito Veloso e Freud Godoy -, mas contra eles não apresentou provas.

"Não sabemos nem mesmo se vai haver denúncia da procuradoria contra meus clientes", disse o criminalista Válber Melo, que defende os Vedoin. Ele informou que os Vedoin fizeram delação premiada. "Poderão ser beneficiados com redução de pena ou até com o perdão judicial."

Para lembrar

Montanha de dinheiro na reta final do 1º turno

Chegava à reta final a campanha para o primeiro turno das eleições presidenciais de 2006 quando a Polícia Federal divulgou a foto da montanha de dinheiro apreendida com os aloprados do PT. A imagem eram dólares e reais empilhados. Para chegar aos aloprados, a PF monitorou os telefones dos empresários Darci e Luiz Vedoin, estabelecidos em Cuiabá. A investigação era desdobramento da Operação Sanguessuga, da própria PF, e os alvos eram os Vedoin. Eles teriam infiltrado integrantes da organização no Ministério da Saúde e no Congresso para agilizar emendas parlamentares destinadas à liberação de verbas para prefeituras comprarem ambulâncias dos Vedoin. A PF descobriu, então, que Valdebran Padilha ia embarcar para São Paulo levando o dossiê contra tucanos.

***** COMENTANDO A NOTÍCIA:
Isto serve para demonstrar que a Polícia Federal, ou pelo menos parte dela,  está a serviço não do Estado, se tornou um braço de atuação do partido no poder, e tem sido usado neste sentido muito mais para propaganda deste partido, do que propriamente para servir ao Estado e, em última análise, ao país. 

E este não é um fato isolado. Sempre que os crimes fossem ou não de corrupção, e bateram às portas do Planalto, envolvendo gente da cozinha presidencial, acabaram, miseravelmente. arquivados e sem solução. Como sempre se disse, a impunidade do poder, atiça a criminalidade e aumenta a violência no país.  

Dona Benta olhando o trem-bala

Carlos U. Pozzobon, Instituto Millenium

ATENÇÃO: O excelente artigo do Carlos Pozzobon, conforme vocês observarão, foi escrito já há alguns meses. Estava disponível no site do Instituto Millenium, mas eu não tivera tempo de ler, o que só foi possível agora. Ele serve para demonstrar que, o desastre dos serviços públicos federais, não são coisas do presente. É um ranço que atravessa décadas e não se resolve. Mas reparem quando o autor faz uma análise fria do badalado projeto Trem Bala e vejam se é possível o país conviver com tamanho desperdício de dinheiro público, para não resolver problema algum, quando ele é escasso e vital para inúmeras outras áreas que afligem um número muitíssimo maior de brasileiros. Por isso, sempre que qualquer governo aparecer com planos mirabolantes de construções faraônicas, a pergunta que devemos fazer é: a quem interessa e a quem beneficia? Com as respostas é que descobriremos uma das muitas razões para o eterno desastre dos serviços públicos federais que, como bem lembrou o Pozzobon em seu texto, já eram atacados duramente por Monteiro Lobato, em 1951. Apesar do tempo, é possível constatar que, se escrito hoje, não perderia nem um pouco de sua atualidade. Boa leitura.

*****

Em um dos textos do livro ‘Prefácios e Entrevistas’, Monteiro Lobato foi entrevistado pelo jornal ‘O Radical’, em que prefaciou o artigo com o hilariante título de ‘Insultos ao Brasil’, em resposta à crítica de um jornalista do ‘Diário da Noite’, que condenou Lobato por ter falado mal dos trens da Central do Brasil e do tabu do separatismo. Reproduzo apenas a argumentação contra o ‘insulto’ de Lobato, em plena Era Vargas, ter criticado a Central do Brasil:

Em alarmadíssimo artigo no “Diário da Noite” de 13 do corrente alguém denunciou a “Geografia de Dona Benta”, publicada no ano passado, como livro deletério, separatista, “sintoma alarmante da desagregação subterrânea do Brasil”. E para documentação do alarma citou os trechos de maior gravidade, isto é, os mais insultantes para o Brasil. Nessa obra incrível, diz o articulista, encontramos diálogos como este:

— “Estou também vendo dois trens em marcha, um que vem do Rio e outro que vem de S. Paulo…”

— “Então feche os olhos antes que se choquem. Essa estrada diverte-se todos os dias em brincar de desastre de trens. É federal…”

Interpelado sobre esta acusação pelo repórter, Monteiro Lobato respondeu:

— Trata-se de um trecho em que Dona Benta mostra aos meninos as coisas de S. Paulo vistas ao longe, panoramicamente. Os dois trens apontados são da Central. O articulista do “Diário da Noite” acha tremendamente insultante para o Brasil que a velhinha conte aos netos o que essa estrada de ferro realmente é.

Mas haverá neste país quem ignore que a Central ocupa o primeiro lugar entre todas as estradas do mundo em matéria de desastres? Que chegou à maravilha de num mês de não sei que ano conseguir o recorde de 32 desastres em 30 dias? Que a rubrica “Desastre da Central” se tornou permanente nos jornais? Que o povo traduz a E. F. C. B. como Estrada de Ferro Caveira do Burro?

E por que é assim? Resposta: porque é federal, como muito bem explicou Dona Benta. Unicamente por isso. Existe em todos os serviços públicos federais um mal secreto que governo nenhum tem conseguido corrigir. Não há brasileiro que por experiência própria desconheça tal calamidade crônica, velhíssima, irredutível agravada pela República Nova. O emperro burocrático, a falta de racionalização, a lentidão desesperadora do papelório, o descaso absoluto pelo público… Meu Deus! Haverá quem não tenha consciência da calamidade administrativa federal?

As estradas de ferro particulares, como a S. Paulo Railway ou a Companhia Paulista, porque não são federais, mostram-se modelares. A São Paulo Railway só teve um desastre em toda a sua existência — e isso ainda no tempo da Monarquia. Atravessou os 40 anos da República Velha e os seis da República Nova sem um só acidente. O último desastre da Paulista foi há tanto tempo que dele o povo já não guarda memória. Por quê? Porque não são federais. Federalizadas, cairiam no regime da Central, do desastre diário. Logo, a Central é o que é por ser federal.

Essa estrada tem hoje como diretor um dos homens de maior capacidade técnica e boa vontade do Brasil, o coronel Mendonça Lima. Mas pode Mendonça Lima corrigir os males crônicos da Central? Não. Por maiores que sejam os seus esforços, nada conseguirá fazer — porque a estrada é federal. Fosse particular, como a São Paulo Railway ou a Paulista, e ele a poria com tanta ordem, eficiência e segurança como a S. Paulo Railway ou a Paulista.

Dona Benta, pois, disse aos seus netos a verdade pura, e uma verdade do conhecimento do mundo inteiro. Mendonça Lima e todos os ex-diretores da Central devem, por experiência própria, estar acordes neste ponto: a impossibilidade de corrigir os defeitos da Central decorre unicamente de ser ela federal. O vício da “federalice” é irredutível, por maior que seja a competência e boa vontade dos diretores de serviços.

Não há nenhum insulto ao Brasil no fato de uma vovó contar aos netos o que é e todos os adultos sabem. Insulto ao Brasil é a Central e todos os outros serviços públicos federais serem o que são. Não será mentindo às crianças que consertaremos as nossas coisas tortas. Sim, consertando as coisas tortas. Insulto ao Brasil é o governo conservar a nossa maior estrada como perpétua detentora do recorde da desastralidade (LOBATO, Monteiro. Prefácios e Entrevistas: Ed. Brasiliense, 1951, p. 249-251).

Numa análise mais detalhada do panorama ferroviário brasileiro vemos promessas, planos grandiosos, projetos magníficos, mas ferrovias que é bom, só no acanhado andar do jabuti.

Quando visitamos o site da Valec (empresa pública ligada à ANTT), ficamos sabendo por uma de suas releases a vinda ao Brasil de uma autoridade chinesa para o lançamento das obras de um trecho de construção da ferrovia norte-sul em Tocantins. Disse Lu Chunfang que apenas em 2009 estavam previstos 5.600 km de linhas ferroviárias novas na China. Note bem: em apenas um ano! Em 2010, a China seria a segunda potência ferroviária do mundo com mais de 100 mil km de ferrovias. (http://www.valec.gov.br/clipping2009/20090912-1.htm). E o que aconteceu no Brasil?

Bem, “em maio de 2007, o presidente Lula inaugurou o trecho Aguiarnópolis-Araguaína, no Tocantins, com 146 km de extensão. Em dezembro de 2008, Lula inaugurou mais 94 km da Norte-Sul, relativos ao trecho entre Araguaína e Colinas do Tocantins. Os 132 da Ferrovia, entre Colinas e Guaraí também já estão prontos. Para o trecho de 150 km entre Guaraí e o pátio de Palmas/Porto Nacional, a previsão de conclusão das obras é maio de 2010”… (http://www.valec.gov.br/situacao.htm).

E agora, esse governo, em ritmo de jabuti manco anunciou um espetacular plano de investimentos de 57,7 bilhões de reais em ferrovias entre 2010 e 2013. (http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20100722/not_imp584443,0.php). Alguém acredita nesse conto da carochinha?

Mas a maior perplexidade é a do trem-bala ligando Campinas-SP-Rio. O governo falou em investir 33 bilhões de reais em uma linha que será explorada por meia-concessão. O que significa isso? O governo entra com o dinheiro, o consórcio constrói e se retira, e o concessionário (uma associação forçada entre governo e capitais privados) explora e a mantém pelo prazo do contrato.

A hipótese do trem-bala se autofinanciar está afastada, por cálculo simples. O investimento de 30 bilhões exigiria uma rentabilidade mínima de 1% ao mês: 0,5% para pagar juros (6% ao ano) e 0,5% para amortizar o capital emprestado e as despesas operacionais. Isto somaria 300 milhões/mês. Cobrando a tarifa de 200 reais por passageiro significa transportar 1,5 milhão de pessoas /mês. Obviamente não existem essas pessoas e, portanto, o governo teria que entrar com dinheiro sem retorno.

Assim, a exploração deverá ser feita por empresa especialmente criada para a ocasião, que poderá ser um consórcio de empreiteiras. Pelo que se deduz do plano, dos 33 bilhões, o governo entraria com uns 20 bi sem retorno, e os vencedores da licitação com o resto, sabendo-se de antemão que o BNDES vai estar disponível e que os bancos europeus financiam a compra de equipamentos, se – bem entendido – os equipamentos forem europeus, não faltando os chineses na corrida para vender seu know-how na contrapartida de emprestar seu dinheiro.

Então tudo se passa como no velho esquema. As construtoras se reunem, calculam o valor da infraestrutura e pimba, multiplicam por três. Ganham 2 terços e repassam a “conta” para a operadora estatal que também vai dar calote, já que a despesa é irrecuperável e temos a história estatal brasileira como prova dos “direitos adquiridos” em calotes. Eles pegam o dinheiro do governo e, com o lucro astronômico, pagam os financiamentos internacionais da maquinaria ferroviária e ainda sobra um bocado. E como o governo quer vencedor da licitação o que apresentar a menor tarifa, no teto de R$ 0,49 por km (o que dá aproximadamente 200 reais Sampa-Rio), é possível que o negócio fique a preço de passagem de ônibus-leito no mesmo trajeto.

Mas tem mais: como o governo vai impor um limite de desembolso no projeto se este sequer existe? Quantas pontes serão construídas, quantos viadutos, quantos túneis, quantos ramais, quantos pátios de manobras, que tipo de sinalização e vigilância eletrônica será implantado, como será o isolamento da linha para permitir segurança em alta velocidade? Como garantir a segurança para alta velocidade em um país onde a propriedade pública é depredada sem cerimônia? Bem, para que se possa riscar todos os itens que compõem um projeto, ele tem que ser fabulosamente lucrativo, não é mesmo? Com a mão na grana todo o resto se arruma, segundo o pensamento político tão zelosamente consagrado nas esferas governamentais.

Será que dá para acreditar? Não será uma mise-en-scène só para produzir resultados eleitorais? Como se pode acreditar em um governo que quase nada fez pelas ferrovias em 8 anos de mandato e que agora, alucinadamente, no apagar das luzes, puxa da gaveta ferrovias que vão de Ilhéus a Rondônia, do Rio de Janeiro ao Acre, de Belém a São Paulo? (http://www.valec.gov.br)

Será que o trem-bala é uma prioridade nacional? Considerando que os fretes rodoviários do Centro-Oeste estão custando 40% do valor da soja comercializada, será que Brasília, plantada em pleno cerrado, não se dá conta do que deve ser feito debaixo do seu nariz?

Por último, aparece um componente inserido no contexto que seria estranho se não fosse cômico. A viabilização da concessão será feita por uma nova empresa estatal que já veio até com o nome: ETAV (Empresa de Transportes de Alta Velocidade). A ETAV será uma Petrobras do trem-bala. O governo detém 33% do capital votante já entrando com 3,4 bi no ato da fundação. Como se vê, uma oportunidade para aparecer outro Daniel Dantas com uns trocados e sair com uns milhões.

Mas qual a razão de uma empresa mista, se a exploração poderia ser feita por uma empresa privada, se já existe a Valec para a regulamentação? Ora, mas então o contribuinte não enxerga? Será que não desconfiou ainda? Se um consórcio constroi, fornecedores implantam, a Valec regulamenta, o leitor não percebeu que falta alguma coisa que só uma estatal sabe fazer?

Quem é que vai definir o cardápio do carro-restaurante, quem é que vai escolher o uniforme dos funcionários, quem é que vai selecionar o tipo de cortinas, o revestimento dos assentos, a decoração das estações e tantas coisas mais? Ora, convenhamos, só mesmo uma empresa estatal para resolver essas complexidades.

E a massa de cabos eleitorais esfrega as mãos de faceira com os novos empregos públicos em plena vertigem eleitoral. Vem aí mais uma Estrada de Ferro Caveira de Burro, agora com promessa de alta velocidade. E Dona Benta ressuscitará das trevas para dizer aos netinhos o supremo insulto: “fechem os olhos, esta estrada diverte-se todos os dias em brincar de desastres de trem.” Agora em “alta-velocidade”, podemos acrescentar.

No final do artigo ‘Insultos ao Brasil’, depois de tantas argumentações sobre a doença brasileira, Lobato arremata:

“Temos deveres para com o futuro. Já que não soubemos ou não pudemos consertar as coisas tortas herdadas, tenhamos ao menos a hombridade de não iludir nossos filhos. ‘Falhamos – deve ser a nossa linguagem. Não pudemos corrigir os erros vindos de trás. Não pudemos conseguir um bom governo. Não pudemos endireitar a Central – nem o Departamento Nacional de Produção Mineral [Nota: por ter enterrado o projeto de extração de petróleo privado nos anos 30, como enterramos agora o pré-sal]. Mas vocês, que vão constituir o Brasil de amanhã, sabem disso, enfronhem-se desde já das mazelas vigentes; e quando virarem adultos tratem de fazer o que a nós não foi possível. Tratem de consertar o Brasil, pois do contrário sofrerão ainda mais do que nós. Males que se agravam progressivamente tornam-se cada vez mais dolorosos.

O doente que admite estar doente e vai ao médico, pode sarar. Mas o doente que nega, que esconde, que enfeita a sua doença, esse não escapa. Tenhamos a nobre coragem de admitir nossas doenças – e estaremos a meio caminho da cura” (p. 257).

Sossega, Lobato: a praga da estatização está de volta e não tem cura. É a maior doença do país e vai levar ao desperdício a carona que pegamos no trem-bala do fabuloso crescimento asiático. O Estado ficará de um tamanho tal que vai engolir todos os recursos da Nação. Depois disso, vêm a volta da inflação e dos déficits públicos gigantes. Não se sabe em quanto tempo nem em quantos governos. Tudo depende do cronograma final entre aquilo que o governo mente que vai fazer e aquilo que realmente faz de errado. Mas certamente será o legado da Era Lula. O modelo político garante a supremacia daquele partido que comete os mesmos erros do passado e depois fala que “somos o país do futuro”.

Segundo o OESP (25/7/2010), o investimento previsto para o trem-bala daria para construir 300 km de metrô. Bem, metrô se paga, descongestiona o trânsito de veículos, agiliza e beneficia a produtividade do cidadão. É o que deveria ter São Paulo nos dias atuais e não os meros 62,3 km existentes. Mas isso é outra história.

Conforme essa mesma reportagem, os arautos do trem-bala prometem uma viagem de São Paulo ao Rio de Janeiro em 1h35min. Então tá: quer dizer que um funcionário (destes que recebem generosamente transportes subsidiados, bem-entendido) que estiver trabalhando nas imediações da Estação da Luz, em SP, poderá residir no Rio de Janeiro e chegar em casa antes daquele seu colega que mora no Morumbi, em Interlagos ou Alphaville? Aí já não dá para esquecer o mesmo Lobato que dizia que o Brasil deveria importar inteligência. Pelo jeito, de burros não temos só a caveira.

Solução final

Dora Kramer - O Estado de S.Paulo

A alternância está fora dos planos de poder do cidadão Luiz Inácio da Silva, atual e em breve ex-presidente da República Federativa do Brasil.

Há muito isso é uma suspeita, mas a partir desta campanha eleitoral tornou-se mera constatação. Inebriado pelo sucesso, Lula deixa à mostra sua grande fera: a obsessão pela unanimidade que se traduz em vocação para o totalitarismo.

Quem diz isso é o próprio Lula. Quando prega a destruição de um partido de oposição, como fez em relação ao DEM em cima de um palanque em Santa Catarina, e quando manda sua tropa investir forças na eleição de um Senado "mais amigo" para a possível sucessora, Dilma Rousseff.

Lula pretende que o eleitorado "extirpe" o DEM da política brasileira porque o partido fez oposição cerrada a ele. Note-se que não fala em derrota eleitoral nem política, mas em extinção, destruição, aniquilamento.

Quer dizer, assim como imprensa boa é imprensa inerte, na visão dele oposição boa é oposição morta.

Quanto ao Senado, note-se que o presidente não deseja para o País um Parlamento de melhor qualidade, mas um Poder Legislativo mais dócil ao Poder Executivo. A falta de preocupação com a qualificação de cada um ficou patente quando da prisão do candidato ao Senado pelo Amapá, Waldez de Góes, no dia seguinte ao presidente ter aparecido no horário eleitoral pedindo votos para ele.

Para que Lula necessita de um Senado "amigo", qual o projeto inovador, de fundamental importância que seu grupo político está pensando em apresentar ao Congresso que é repudiado pela oposição, que esteja acima de qualquer possibilidade de negociação política e, portanto, que precise de um batalhão de obedientes?

Especula-se que sem entraves na Casa revisora teria caminho livre para aprovar plebiscitos e alterações na Constituição que de outro modo não passariam, mas de concreto ninguém sabe de coisa alguma e de objetivo nada que seja benéfico para o conjunto da sociedade está fora do alcance da articulação política entre a base do governo e a oposição.

Sobram duas hipóteses: ou está sendo engendrado algo inegociável e que teria o repúdio da opinião pública, ou Lula quer construir uma maioria política acachapante para o deleite de exercitar a hegemonia de maneira absoluta, sem nunca mais precisar disputar coisa alguma de verdade, podendo entrar nas contendas com a parada ganha por antecipação.

De certo modo isso já mais ou menos acontece porque, se o detentor do poder não respeita a regra do jogo, tem dupla vantagem: os instrumentos e a falta de escrúpulos. E é exatamente assim que Lula se conduz na Presidência, usando a máquina e passando por cima da lei.

Nesse patamar de autoencantamento o risco é a pessoa perder de vez o senso de que o mundo não obedece a ordens dos homens e comece a atuar na lógica da insensatez, construindo um processo de dilapidação do próprio patrimônio.

Lula está no ápice e ficará no ápice e meio se conseguir eleger no primeiro turno uma pessoa sobre a qual pouquíssimo se sabe e sobre quem há mais referências negativas que positivas.

Significará que nem o céu é o limite.

Ocorre, porém, conforme a História nos conta, que ninguém pode tudo acima de tudo o tempo todo e o excesso dá expediente na antessala dos erros fatais.

Por um fio. Basta uma vírgula a mais no caso da ministra da Casa Civil que abria o governo aos negócios da família, para Erenice Guerra ser demitida ou pedir demissão do cargo.

Mineiro. Correligionários de Aécio Neves mostram pesquisas para argumentar que não teria efeito prático a exibição de José Serra na propaganda do ex-governador.

Da mesma forma, as pesquisas provavam que Aécio ajudaria muito mais sendo candidato ao Senado do que integrando a chapa presidencial.

Pesquisas do Instituto Vox Populi, que trabalha para os dois palácios: do Planalto e da Liberdade.

O triângulo amoroso do pré-sal

Carlos U. Pozzobon, Instituto Millenium

Em mais uma sobreposição de redundâncias, a Pré-sal Petróleo S.A. (PP-AS, ex-Petro-sal) vai desempenhar funções que eram da ANP e da Petrobras. Da ANP no gerenciamento de contratos do pré-sal e também de análise de pesquisas de prospecção que serão contratadas pela ANP. Significa que a PP-SA terá um perfil também de engenharia. E jogando a Petrobras para escanteio deverá se beneficiar das “rendas da gestão dos contratos celebrados com agentes comercializadores de petróleo e gás natural da União”.

Se o pré-sal foi pensado como uma nova estratégia de desenvolvimento nacional, na pressuposição de recursos que permitem o país ser uma potência exportadora em poucos anos, então a PP-SA ficará no meio termo entre a ANP e a Petrobras e seu papel será mais atrapalhar do que auxiliar o processo. Mas se o pré-sal for contido para ser apenas um instrumento de “caixa” da Petrobras, a PP-SA será não mais do que um órgão decorativo no processo e sua função será a de referendar as boas relações da ANP-Petrobras. Isto é, ela vai apenas entrar com o papel de “triângulo amoroso”.

Como o cerne da questão está entre o sistema de concessão e partilha e da participação obrigatória de no mínimo 30% da Petrobras no pré-sal que infelizmente foi postergada pelo Congresso para 2011 para não ferir a “suscetibilidade federativa” na divisão dos royalties, nesse momento de campanha política significa colocar o carro na frente dos bois.

Segundo consta no velho almanaque Brasil sabemos que trata-se de um arranjo para colocar uma perspectiva na aliança política do governo antes das eleições e sinalizar que temos mais uma estatal para acomodar correligionários. E com a recente criação da EBS (Empresa Brasileira de Seguros), Telebras e da ETAV (Empresa de Transportes Ferroviários de Alta Velocidade), o governo sinaliza para os políticos aliados que 2011 será um ano de muitas vagas no trenzinho da alegria de novas contratações.

Tudo indica que a PP-SA vai funcionar como uma “layer” a mais na opacidade geral da atual administração pública. Pois como entender uma redundância de controles, aprovações, certificações, laudos, pareceres, etc., sem ao mesmo tempo não perceber que o loteamento político das empresas poderá em um futuro próximo criar uma paralisia e lentidão no processo? Comparando com a atuação do governo na área de transportes nos últimos anos, só podemos esperar pelo pior. Para funcionar bem, o sistema deveria ter funções bem definidas e responsabilidades claras e demarcadas. E isso significa reduzir ao máximo os órgãos de decisão.

O equilíbrio é instável e o triângulo amoroso pode terminar em baixaria.

Os Lobistas

Rodrigo Constantino, Fonte: Revista “Voto”

“Poucas coisas são mais perigosas do que deixar algumas pessoas tomarem decisões pelas quais outras pessoas pagam os custos.” (Thomas Sowell)

O economista Milton Friedman destacou quatro formas básicas de se gastar dinheiro. A primeira é quando gastamos o próprio dinheiro com coisas particulares. Nesse caso, há preocupação total tanto com o custo como com o conteúdo do gasto. São as compras do dia a dia no livre mercado. A segunda forma é quando gastamos dinheiro próprio com terceiros, como quando compramos um presente. Nesse caso, há uma preocupação muito maior com o custo do que com o conteúdo. A terceira opção é quando gastam dinheiro dos outros com terceiros, que comporta boa parte dos gastos governamentais. Não há preocupação nem com os custos nem com o conteúdo, pois a conta é paga pela “viúva”.

Uma última forma é quando se gasta dinheiro dos outros em benefício próprio. Temos aí a certeza de uma grande festa, com foco total no conteúdo, e preocupação nula com os custos. São todos os desperdícios megalomaníacos que vemos em eventos públicos, ou então aqueles gastos bilionários do governo que beneficiam alguns poucos “amigos do rei”. É justamente para viabilizar esta quarta forma de gastar, ou melhor, de torrar dinheiro, que os lobistas entram em cena.

A expressão “lobista” parece ter sido cunhada pelo general Ulysses S. Grant, durante o governo de Abraham Lincoln. A expansão do governo central durante sua gestão criou oportunidades de lucro para as pessoas ligadas ao Partido Republicano. Entre 1860 e 1874, os impostos das 13 maiores cidades do Norte subiram cinco vezes mais que a população. Os funcionários importantes do governo passaram a ser assediados por grupos de interesse, de olho na quantia crescente de gastos públicos. O nepotismo também teria aumentado, e o próprio general Grant empregou diversos parentes no governo. O general teria criado então o termo “lobista” para se referir aos homens que passavam dias nos lobbies de hotéis em Washington aguardando uma oportunidade para subornar senadores e deputados.

As empresas terão total interesse em desviar recursos produtivos para a função do lobista, pois a troca de “favores” políticos rende mais do que qualquer investimento para aumentar a competitividade e a produtividade. Conseguir uma tarifa nova protecionista pode significar o status de monopolista para uma empresa, livre das forças da concorrência. Fechar um mega contrato de fornecimento para algum órgão do governo ou alguma estatal pode representar um salto enorme no faturamento. Isso pode valer mais do que qualquer inovação na sua técnica de produção, especialmente num ambiente em que o governo concentra poder demais.

Todos querem uma fatia do bolo. A competição acirrada deixa de ser pelo melhor atendimento ao cliente final, e passa a ser pelas verbas do governo. O critério não é mais econômico, e sim político. O dinheiro é da “viúva”, portanto, não há muita preocupação com os custos. Os lobistas disputam a preferência dos políticos em busca de medidas protecionistas para suas indústrias, sacrificando os consumidores. A ineficiência nos gastos é inevitável, pela própria natureza dos gastos públicos. Ninguém cuida de um carro alugado como cuida do próprio carro. E a corrupção é outro fator inevitável. O suborno fica tentador demais, pois uma canetada de um político sela o destino de todo um setor, definindo as empresas vencedoras. Os clientes, claro, ficam sem segundo plano.

Para reverter essa situação perigosa, o melhor caminho é atacar o mal pela raiz, ou seja, retirar do governo esse poder astronômico. Enquanto o governo desfrutar dessa montanha de recursos e desse poder infindável, os lobistas vão pulular as capitais políticas. A simbiose entre governo e empresários sai sempre cara demais para o povo. E não adianta sonhar com o “messias salvador”, o santo que irá chegar ao poder e consertar isso tudo de cima para baixo, impondo honestidade nos gastos públicos. Não funciona assim. Não podemos esquecer que são seres humanos, demasiado humanos, no poder. E como já alertava Lord Acton, o poder corrompe, e o poder absoluto corrompe absolutamente.

Os lobistas estão sempre à espreita, prontos para corromper na primeira oportunidade que surgir. E o que não falta são corruptos em Brasília! Ainda mais quando quase a metade da produção nacional passa pelas mãos do governo. É preciso reduzir drasticamente a quantidade de recursos que transita pela via política; é preciso privatizar as estatais urgentemente, para evitar novos escândalos como o dos Correios; é preciso compreender que o sistema atual vai sempre atrair os piores tipos para o poder, aqueles dispostos a vender caro sua poderosa canetada oficial que decide o destino de bilhões de reais. É tentação demais até para pessoas honestas; imagina para políticos de origem sindicalista, acostumados desde sempre a viver como parasitas de recursos alheios!

O fruto do cruzamento da soberba com a ignorância persegue o sonho impossível

Augusto Nunes, Revista Veja

“Precisamos extirpar o DEM da política brasileira”, berrou na segunda-feira, em Santa Catarina, o presidente que disputa o terceiro mandato disfarçado de Dilma Rousseff. Enganou-se quem viu na frase a condenação à morte de tudo o que se move à direita do PT. Se fizesse alguma objeção a siglas ou políticos conservadores, não faria tantos agrados ao PP, nem seria o melhor amigo de um José Sarney. Equivocou-se também quem enxergou no palavrório o revide à profecia feita em agosto de 2005 pelo catarinense Jorge Bornhausen, hoje presidente de honra do DEM, induzido pelos estragos decorrentes do escândalo do mensalão a acreditar que se veria “livre dessa raça por, pelo menos, 30 anos”. A calorosa reconciliação com Fernando Collor e outros desafetos juramentados avisou que Lula, se o abraço convier a seus interesses políticos, perdoa qualquer ofensa imperdoável.

Nada a ver, portanto, com colisões ideológicas ou rancores.invencíveis. A frase é só uma veemente declaração de amor ao poder e a si próprio. Extasiado com a popularidade que lhe atribuem institutos de pesquisa companheiros, Lula exige o apoio de 100% dos brasileiros (ou 103%, se a margem de erro aderir). Depois do DEM, viriam o PSDB e o PPS. Depois de Bornhausen, viriam José Serra e Fernando Henrique Cardoso. O caçador de unanimidades não faz questão da eliminação física. Bastam a rendição incondicional, a conversão sem ressalvas, meia dúzia de adjetivos bajulatórios e o reconhecimento de que nunca antes neste país houve um governante tão extraordinário.

Foi assim com Sarney. Foi assim com Collor. Assim será com qualquer adversário desprovido do sentimento da vergonha, que Lula trancou em alguma gaveta do passado. Topa alianças com qualquer currículo ou prontuário. Seu sonho é virar presidente perpétuo, dispensado de aparecer no local do emprego para desfrutar dos prazeres e privilégios do cargo sobre um palanque ou a caminho do aeroporto. Pouco lhe importa saber se o regime é de esquerda, de direita ou em crise de identidade. Ele seria igualmente feliz se substituísse no comando do Paraguai o ditador Alfredo Stroessner ou o reprodutor Fernando Lugo.

Para materializar o sonho, imagina Lula, só falta extirpar o tumor formado por irritantes 4%. Alguém precisa lembrar-lhe que, caso estivesse a quatro passos da unanimidade, teria apenas de comunicar aos eleitores os nomes dos escolhidos para governar São Paulo, Minas, Goiás, Santa Catarina, o Paraná, o Pará e outras paragens insubordinadas. Lula parece eufórico com os 50% que, segundo institutos amestrados, dobraram-se à ordem de instalar Dilma Rousseff na Presidência. Não custa registrar que, vistos por outro ângulo, os índices atestam que metade do eleitorado brasileiro não aceita votar na melhor amiga de Erenice Guerra.

Lula quer um rebanho único. Os stalinistas farofeiros querem um partido único. A miragem do chefe confirma que o país é governado pelo fruto do cruzamento da soberba com a ignorância. A miragem dos camaradas alojados no PT, entre os quais Dilma Rousseff, confirma que ainda nem desconfiam de que destacamentos revolucionários comandados por zédirceus só conseguem matar de rir. Podem todos acabar acordando diante de um país partido ao meio. A democracia sobreviverá. Mas talvez tenha de adiar por mais alguns anos a chegada à idade adulta.