Humberto Viana Guimarães (*), O Globo
Com a abertura do mercado para as diversas empresas nacionais e estrangeiras a partir da chamada Lei do Petróleo sancionada por FHC, que foi benéfica, inclusive para a Petrobras, como admitem os seus dirigentes e especialistas do setor, a exploração e produção tomaram um grande impulso. Segundo a ANP, saímos de uma produção média diária de 1,23 milhão de barris em 2000 para 2,04 milhões em 2010, um aumento de 66,05%, fato esse que nos insere num seleto grupo de países produtores.
" Se não atentarmos para o refino, corremos o risco de ficar na esdrúxula situação do Irã, segundo maior produtor da Opep (3,8 milhões b/d) e que continua gastando bilhões de dólares na importação de derivados por falta de refinarias "
No entanto, é necessário esclarecer que a autossuficiência observada até agora foi somente no petróleo bruto e não nos derivados, que continuam com um enorme rombo. E há um agravante nisso tudo, pois, como as nossas instalações foram construídas para refinar petróleo leve e a nossa produção é majoritariamente do tipo pesado, temos que exportar grande parte do que produzimos - mais barato - e importar o mais caro (uma representativa diferença de US$ 11,00 por barril).
No que se refere aos derivados, a conta é amarga. Em 2010, exportamos uma média diária de 204 mil barris (retração de 0,23% em relação a 2009), o que resultou numa receita de US$ 4,034 bilhões (+56,63%). Do outro lado, importamos 446 mil b/d (+92,18%) com um custo de US$ 7,085 bilhões (+183,08% no mesmo período de 2009, quando desembolsamos US$ 2,503 bilhão. Para se ter uma real dimensão do rombo da conta de importações de derivados, em todo o ano de 2009 foram gastos US$ 5,571 bilhões. Como podem ver, nos primeiros sete meses de 2010 já ultrapassamos em 27% tudo o que foi gasto no ano passado, gerando um déficit de US$ 3,051 bilhões. Do jeito que vai, o rombo chegará a US$ 6 bilhões, valor esse mais que suficiente para construir uma refinaria.
Por que, sendo o Brasil autossuficiente na produção de petróleo é altamente deficitário no que se refere aos derivados? A resposta é muito simples: faltam-nos refinarias. Apesar das expansões e modernizações levadas a cabo pela Petrobras ao longo dos últimos anos, as refinarias não conseguem processar todo o volume necessário de derivados para o seu consumo interno. Em 2000, refinamos uma média diária de 1,61 milhão de barris, e em, 2010, esse número é de 1,775. Ou seja, no período de dez anos, o refino aumentou somente 9,97%, diante de 66% na produção.
Não obstante a construção do Comperj (165 mil b/d, RJ) e da refinaria do Nordeste (200 mil b/d, PE), elas não serão suficientes para atender à crescente produção e consumo, e o nosso déficit de derivados tende aumentar cada vez mais. Óleo diesel, nafta, gasolina A, querosene de aviação e o GLP representam 78% dos volumes importados e 85% dos custos.
Esperemos, pois, que as tão propaladas refinarias Premium I (600 mil b/d, MA) e Premium II (300 mil b/d, CE) saiam das promessas e discursos eleitoreiros e sejam efetivamente construídas, pois assim, abasteceríamos o mercado local e exportaríamos os excedentes que têm alto valor agregado. Se não atentarmos para o refino, corremos o risco de ficar na esdrúxula situação do Irã, segundo maior produtor dentro da Opep (3,8 milhões b/d) e que continua gastando bilhões de dólares na importação de derivados por falta de refinarias.
E temos que andar rápido, pois, se forem confirmadas os potenciais e a viabilidade dos campos do pré-sal, a nossa produção diária poderá alcançar quatro milhões de barris por dia nos próximos quinze anos. É importante ressaltar que o rombo do déficit de derivados só não está maior devido à participação do etanol, em função da mistura de 25% do anidro à gasolina, mas, também, ao crescente aumento da frota dos veículos flex (hidratado). Durante o ano de 2010, foram vendidos uma média diária de 362 mil barris de etanol que ao preço do barril do derivado importado alcança US$ 5,8 bilhões.
(*) Humberto Viana Guimarães é engenheiro civil e consultor