terça-feira, fevereiro 22, 2022

Brasil sonhava com vaga em ‘clube de países ricos’ e acordou como parte do lixão dos EUA na América Latina

 Vitor Paiva 

Hypeness

 Flickr/CC lixão no Brasil

Os países da América Latina que estão importando lixo dos EUA

 não resolvem sua própria produção de lixo – como o Brasil

Desde que, em 2018, a China anunciou que não mais receberia os resíduos plásticos produzidos pelos EUA, diversos países da América Latina passaram a funcionar como uma espécie de lixão do país mais rico do mundo – e, entre eles, o Brasil. Segundo dados levantados pela organização ambientalista Last Beach Cleanup, até outubro de 2021 os EUA enviaram mais de 89 mil toneladas de lixo plástico para a região latino-americana, com alguns países aumentando em quase o dobro a quantidade recebida em comparação ao ano anterior: o aumento também se deve a políticas mais rígidas e aumento na taxação para importação de lixo impostas pela Turquia e alguns países asiáticos, que costumavam receber os detritos estadunidenses.

Conforme revelou reportagem da BBC News, apesar das quantidades enviadas para o Brasil terem diminuído com relação ao ano anterior, os números seguem expressivos: em 2020 foram 1,7 mil toneladas de lixo dos EUA enviados para cá, e nos primeiros dez meses de 2021 a importação dos dejetos estavam em cerca de 481 toneladas. O país que mais recebe atualmente o lixo estadunidense na região, e que apresentou o maior aumento, porém, é o México, que somente em 2021 importou cerca de 60 mil toneladas de lixo do vizinho rico – equivalente a aproximadamente 57 contêiners por dia. Além do Brasil, o restante foi recebido por Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica, Equador, El Salvador, Honduras, Guatemala, Panamá, Paraguai, Peru, República Dominicana e Venezuela.

 © foto : PxHere 

O lixo é “exportado” para os países em contêiners

 em navios, por acordos entre empresas

De acordo com a organização, as importações são realizadas por empresas privadas, em acordo comercial direto com outras empresas dos EUA, para países que não possuem estrutura para sequer lidar com o próprio lixo – muitas vezes em quantidades maiores do que esses países produzem. Além disso, as empresas aproveitam brechas nas leis, falta de fiscalização e principalmente ausência de regulações e políticas ambientais de tais países para trazerem maiores quantidades do que as recomendadas ou permitidas por lei. Todo esse poluente processo tem, como sempre, o lucro como pano de fundo, já que, para os EUA, é mais barato produzir do que reciclar plástico, e principalmente é mais barato enviar esse lixo para outros países do que processar os rejeitos nos raros e custosos centros de processamento locais.

 © foto : Wikimedia Commons 

Lixão no Brasil: o lucro das empresas se impõe sobre 

a saúde ambiental dos países mais pobres

Se a regulamentação restritiva de outros países reduziu a importação de lixo, a ausência de marcos regulatórios, de políticas públicas ambientais, de governos fortes e de fiscalizações firmes torna a América Latina um cenário perfeito para os EUA despejarem suas milhares de toneladas de lixo plástico, enquanto lucram ou economizam poluindo países mais pobres com o desperdício que produzem. Tal quadro é ainda mais ilustrativo sobre como os países mais ricos tratam a região se posto em comparação com os esforços que o atual governo brasileiro fez nos últimos anos para fazer parte da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o chamado “clube dos países ricos” que Trump prometeu ingresso a Bolsonaro – e não cumpriu – em troca de muitas concessões brasileiras, e nenhum grande gesto dos EUA.

Concessões aos EUA em troca de nada

Em 2019, o então presidente dos EUA, Donald Trump, afirmou que via no Brasil o próximo candidato a ingressar na OCDE, fórum formado por 38 países criado, segundo consta, para estimular a economia de mercado e o chamado progresso econômico através do comercio internacional. Em busca da confirmação do convite, Bolsonaro estabeleceu diversos compromissos comerciais com os EUA, reduziu taxas de importação para o país, ofereceu concessão de exploração da base espacial de Alcântara, no Maranhão, isenção de exigência de visto sem reciprocidade, entre outras medidas: em troca, recebeu um apoio simbólico, para um ingresso que nunca veio. O que vieram foram as toneladas de lixo plástico, que poderiam ter a importação barradas através de fiscalização, legislação ou ao menos posicionamentos públicos contrários a tornar o  América Latina e o Brasil em um imenso lixão do país mais rico do mundo. 

© : Getty Images Bolsonaro e Trump

Bolsonaro e Trump, em encontro nos EUA 

que “selou” o acordo desigual entre os países


Questão de estilo

 Dora Kramer 

Revista VEJA

Rejeição a Bolsonaro é obra de uma vida que não pode ser mudada em passes de mágica

  Alan Santos/Presidência da República/Divulgação

O presidente Jair Bolsonaro 

Os arquitetos da campanha do presidente Jair Bolsonaro parecem convencidos de que as traquinagens com o Tesouro não serão suficientes para reconstruir as relações dele com o eleitorado a fim de garantir um desempenho capaz ao menos de torná-lo competitivo na tentativa de reeleição. Pelo que andam dizendo, o candidato só terá salvação se o presidente mudar seu estilo.

Para suavizar a crítica ao comportamento de Bolsonaro, a ordem é atribuir a desventura eleitoral ao fato de ele não ter se vacinado e, por isso, agora se empenham em convencê-lo a se imunizar. O bruto, claro, resiste, embora provavelmente não por muito tempo. A julgar por essa versão edulcorada sobre a razão das desventuras presidenciais, uma vez vacinado, Bolsonaro estaria pronto a enfrentar Luiz Inácio da Silva e quem mais vier pela frente em condições de igualdade ou até mesmo bastante favoráveis em outubro.

De duas, uma: ou esse pessoal está delirando num exercício forte de autoengano ou a ideia é a de exercitar a arte da enganação para cima dos brasileiros. Não os que se deixam engambelar com entusiasmo, mas aqueles que integram o contingente de decepcionados que só faz crescer nos últimos três anos. Processo agravado pelas atitudes da chefia na crise sanitária, mas iniciado bem antes disso.

Sim, porque a rejeição é ao modo Bolsonaro de ser. O registro disso aparece nas pesquisas de opinião como resultado de um desmonte ao qual se dedicou com afinco ao longo do mandato. E da vida. Ganhou imensa gravidade quando ele se colocou no campo oposto à imensa maioria da população no combate à Covid-19, mas não se circunscreve às vacinas.

Desnecessário rememorar ponto a ponto o conjunto de uma obra fresca na memória geral e ainda em execução. O estilo faz a pessoa. Aí se localiza a impossibilidade de se alterar a imagem de Bolsonaro com a aplicação de passes de mágica a poucos meses da eleição. Se mesmo diante da improbabilidade vier a conquistar um segundo mandato, não terá sido por causa de uma transformação, mas porque o eleitorado resolveu renovar a aposta no estilo do homem. Que, de resto, não dispõe de ferramentas nem de vontade genuína de se reinventar.

Ninguém muda aos 66 anos de idade. Antes disso tampouco. Fernando Collor aos 43 tentou abandonar a autossuficiência que o fez acreditar que poderia aprontar à vontade e ainda assim governar contra tudo e contra (quase) todos, principalmente menosprezando os políticos. Pediu socorro ao PFL — uma espécie de Centrão da época —, mas era tarde. Sua marca de arrogância e improbidade estava impressa em cada um dos 441 votos favoráveis ao impeachment aprovado pela Câmara dos Deputados em 29 de setembro de 1992.

“Rejeição a Bolsonaro é obra de uma vida que não pode 

ser mudada em passes de mágica”

Dilma Rousseff, aos 68 anos de idade, também tentou amenizar os efeitos de sua completa inapetência para ouvir. Seja os roncos das ruas (em 2013) ou os reclamos do Congresso durante seu primeiro e parte do segundo mandatos. Buscou abrigo nas asas do PMDB — líder do figurino Centrão em voga na ocasião —, mas já havia deixado passar a oportunidade de se redimir. O carimbo da soberba e da rudeza no trato estava assinalado nos 367 votos que aprovaram o impeachment no dia 17 de abril de 2016.

Hoje em dia os aliados de Bolsonaro não são os únicos a acreditar na possibilidade de se operar transmutações de estilo. Os companheiros de João Doria na empreitada presidencial também se mostram dispostos à tarefa da conversão. De que maneira farão isso com um político cuja autoconfiança extremada gera uma antipatia forte a ponto de superar suas boas realizações, realmente é um mistério. Inclusive porque o governador de São Paulo não se ajuda. Por exemplo, ao chamar de “jantar de derrotados” um encontro de correligionários donos de estradas muito mais longas e ligações mais estreitas que as dele na política.

O maior obstáculo ao êxito de mudanças tardias reside nos erros cometidos na companhia da empáfia e cujos efeitos nefastos não puderam ser devidamente compreendidos porque a personalidade de seus autores impediu que fossem corrigidos. Quando acordam se veem numa situação praticamente irreversível. Em geral, Inês é morta, pois o prazo de que dispõem para consertar o mal autoimpingido é muito menor que o tempo gasto na exibição de seus defeitos por eles presumidos como vistosas qualidades.

Os textos dos colunistas não refletem, necessariamente, a opinião de VEJA

Publicado em VEJA de 23 de fevereiro de 2022, edição nº 2777



E aí? A Petrobras terá de devolver os R$ 6,7 bilhões que recuperou nas ações da Lava Jato?

 Carlos Alberto Sardenberg, O Globo

Tribuna da Internet

 Charge do Néo Correia (bocadura.com)

Em 9 de julho de 2019, quando tomava corpo o desmonte da Lava-Jato e de todo o sistema de combate à corrupção, o professor de Direito Constitucional Joaquim Falcão deu uma aula sobre esse tema aqui no Globo. Começou contando uma história que ouvira de um ministro aposentado do Supremo Tribunal Federal.

“O Supremo julgava um traficante de drogas. Preso com 30 ou mais quilos de cocaína. Não lembro bem. Uma enormidade. Na apreensão, ou durante o processo, uma autoridade teria cometido ato duvidoso diante da lei. A defesa argumentou ofensa ao princípio de devido processo legal. Donde, “in dubio, pro reo”. O debate no Supremo caminhava rotineiramente para a soltura e absolvição do traficante preso. Quando, surpresa, um ministro perguntou a seus colegas: E a cocaína? O que fazemos com os mais de 30 quilos apreendidos?” contou Falcão.

DINHEIRO DA CORRUPÇÃO – Claro que já perceberam aonde queremos chegar. À pergunta que os tribunais terão de responder em breve: o que faremos com o dinheiro da corrupção capturado em processos que vêm sendo anulados?

Esse dinheiro é tão concreto quanto os quilos de cocaína. Em dezembro passado, a Petrobras informou que chegara ao final de 2021 com R$ 6,17 bilhões recuperados em acordos de leniência, repatriações e delações. Dinheiro da corrupção apanhada pelos dois principais ramos da Lava-Jato, a de Curitiba e a do Rio.

Há outros processos de recuperação em andamento. A Petrobras informou que atua como coautora em 31 ações de improbidade administrativa e 85 ações penais vinculadas às diversas fases da Lava-Jato. Periga perder todas.

DOENÇA DO PROCESSUALISMO – A Lava-Jato de Curitiba já foi desmantelada. Os garantistas, réus e advogados do grupo Prerrogativas — aquele que promoveu o jantar para Lula e Alckmin —, se preparam agora para desmontar os processos do juiz Marcelo Bretas, da Lava-Jato do Rio. A tática é a mesma: não provar a inocência dos clientes, mas anular os processos com base no que o professor Falcão chama de doença do processualismo.

Diz ele: “Longe viver sem o devido processo legal e o pleno direito de defesa. Ao contrário. Mas seu inchaço não nos leva à saúde da democracia. Quem transforma o saudável direito processual em patológico processualismo?”

LIMPAR O NOME – Um amigo advogado conta uma história que deve ser inventada, mas é boa assim mesmo. Diz que um empresário apanhado na Lava-Jato foi a um conhecido escritório de advocacia e disse que queria limpar seu nome, mesmo perdendo todo seu dinheiro. O advogado teria respondido: “Veio no escritório errado; aqui a gente salva o dinheiro, mesmo deixando o nome na lama”.

O PT não quer apenas Lula livre. Quer limpar o nome do candidato e do partido. Acaba de lançar uma história em quadrinhos para, explica o redator, facilitar o entendimento “de quem não aguenta mais ler textão”.

Ou seja, deixem os processos de lado e fiquem com a seguinte narrativa, muito simples: não houve corrupção, Lula é inocente, culpado é o Moro.

PROVA DE INOCÊNCIA? – O quadrinho admite que não houve sentença declarando Lula inocente, mas argumenta que a extinção dos processos é prova de inocência.

Não é, mesmo porque as provas da corrupção — e o dinheiro — não desaparecem simplesmente porque algum juiz considerou o processo irregular.

Trata-se, sem tirar nem pôr, do mesmo caso da cocaína. Os tribunais que estão liberando geral vão fazer o que com os bilhões capturados? A Petrobras terá de devolver os R$ 6,17 bilhões?

MORO SOB ATAQUE – Seria a consequência lógica. Se não houve um grande esquema de corrupção montado nos governos do PT e associados, se os processos foram extintos, então o dinheiro teria de ser devolvido a seus “donos”. E já tem ex-réus cogitando disso.

Para o PT, entretanto, isso não é o essencial. A questão está nas eleições. Sendo Moro candidato, é claro que colocará o tema no debate — e ele sabe muita coisa, tem muito documento e provas à disposição.

Por isso o PT ataca tanto o ex-juiz. E por isso publica seus quadrinhos. Para ludibriar os eleitores.



Não veremos país nenhum

 Carlos Brickmann 

Capa Jornal da Tarde, de 8 de fevereiro de 1988

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Jornal da Tarde, 8 de fevereiro de 1988. Manchete: “Petrópolis – os mortos já são 200”. Com pequenas mudanças no número de mortos, poderia ser a manchete de hoje, 34 anos depois.

 O Globo, 18 de fevereiro de 2022. “Gonçalo Jr. conta a história da família de Nadir Eler de Lima, que perdeu a filha na terça-feira da mesma forma que já havia perdido a mãe, soterrada pela lama, em 1970”. A reportagem mostra como a tragédia de 1970 atinge de novo a mesma família 52 anos depois.

Flávio Figueiredo, engenheiro, especialista em análises de riscos com 35 anos de experiência, 18 de fevereiro de 2022. “É impressionante ver gestores e técnicos irresponsáveis fecharem os olhos para a contínua implantação e verticalização de ocupações irregulares em áreas de risco. Trata-se de verdadeiro comportamento de genocidas em relação à população mais carente (...) Há cerca de 40 anos um livro que me impressionou muito foi o premiado Não Verás País Nenhum, de Ignacio de Loyola Brandão. Não consegui tirar seu título de minha cabeça após acompanhar as imagens terríveis da tragédia de Petrópolis”. (https://shortest.link/31li)

A tragédia se repete, dá para prever que outras mortes, muitas, se seguirão às de agora e às de antes. Chuvas fortes e enchentes são fenômenos naturais. O que não é natural, e é criminoso, é permitir e incentivar que crianças, adolescentes, adultos e idosos se instalem na rota da destruição e da morte.

Por debaixo dos panos

Se até relógio quebrado mostra a hora certa duas vezes por dia, Bolsonaro pode ter finalizado acordos importantes em sua viagem à Rússia. Como é de seu hábito, deu mais destaque a notícias falsas (como a de que ele impediu a Terceira Guerra Mundial, ou a tradução alucinada de um discurso de Putin, feito há quatro anos em homenagem ao Dia Internacional da Mulher, em que se pretendeu forjar declarações favoráveis a Bolsonaro).

Os fatos reais:

* Brasil e Rússia querem aproximar-se no setor nuclear, especialmente na questão do reator do submarino brasileiro. O reator desenvolvido em Aramar é bom, mas grande e pesado. Os russos têm tecnologia em reatores para submarinos e poderiam ajudar a desenvolver o submarino em menos tempo. O Atlântico Sul é dominado por americanos e ingleses. Ambos são contra a entrada de submarinos nucleares na região, tanto russos como brasileiros.

* Há maior aceitação, hoje, da eletricidade gerada por centrais nucleares. A China anuncia que vai instalar 150 pequenos reatores, os SMR (Small Modular Reactor). Os EUA e a França também preparam lançamentos. A União Europeia aceitou a energia nuclear como limpa e com isso o crédito é muito mais fácil. A Rússia tem a tecnologia que o Brasil quer. Os EUA pretendem produzir hidrogênio nos pequenos reatores (e não têm a menor intenção, ao menos por enquanto, de colaborar com o Brasil). Reator pequeno é bom para submarino que pretendem manter inacabado.

*  E, dependendo desses pequenos reatores, o submarino brasileiro terá outro problema resolvido: o suprimento de eletricidade para ficar submerso por longos períodos. Cada vez que tem de ir à superfície o submarino pode ser localizado. Ficando submerso, é difícil achá-lo.

O agronegócio

O Brasil tem condições de vender muito mais alimentos à Rússia, tanto que dois executivos de frigoríficos acompanharam a comitiva. E precisará de mais fertilizantes. Os russos fornecem hoje 22% dos fertilizantes importados pelo Brasil, são o segundo produtor mundial de fertilizantes nitrogenados, o segundo de potássicos e o quarto de fosfatados. Dá boa parceria, sim.

O trabalho de Carluxo

O senador Flávio Bolsonaro ficou no Brasil, embora tenha mandato federal. O deputado Eduardo Bolsonaro, também detentor de mandato federal, não viajou. Quem viajou foi Carluxo, detentor de mandato municipal (é vereador no Rio). A missão de Carluxo parece ter algo a ver com a campanha de Bolsonaro, em que é chefe da informática. Ter um QG na Rússia, longe do alcance dos tribunais brasileiros, é uma maravilha.

Tudo é, porém, preliminar: estará a Rússia interessada em ajudar Bolsonaro? E a aliança russo-chinesa, como fica? Os chineses o aceitarão numa boa?

Questão de caráter

A alemã Daniela Maier reclamou por ter recebido a medalha de bronze nos Jogos Olímpicos de Inverno. Motivo: a seu ver, a medalha de bronze era de Fanny Smith, que tinha sido desclassificada, e não achou justo recebê-la. Em Zhangjiakou, Daniela Maier foi a quarta, perdendo para a sueca Sandra Naslund, a canadense Marielle Thompson e a americana Fanny Smith.

Os juízes concluíram que Fanny Smith tinha esbarrado involuntariamente em Daniela Maier e a desclassificaram. Daniela argumentou que isso não era justo, mas a decisão foi mantida.

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O TSE fala demais

 Elio Gaspari

O Globo

Fachin fará uma gestão estelar no tribunal se impuser a ele e a alguns colegas um sistema de cotas para as próprias falas

O ministro Edson Fachin assumirá a presidência do Tribunal Superior Eleitoral depois de uma entrevista bombástica. Ele fica na cadeira até agosto. Fará uma gestão estelar se impuser a Edson Fachin e a alguns colegas um sistema de cotas para as próprias falas. Cada um e todos só deverão ir aos holofotes de forma que apareçam mais por seus votos e despachos do que por seus discursos. Em bom português, trabalhar mais e falar menos. Seria muito pedir que sigam a discrição da ministra Rosa Weber, do STF, mas algum limite precisa ser colocado. A ministra diz a quem quiser ouvir que não vai a eventos e não dá entrevistas. Não é arroz de festa.

O Tribunal meteu-se a trazer militares para a discussão das urnas eletrônicas e colocou o general da reserva Fernando de Azevedo e Silva na sua diretoria. Foi a carga da cavalaria ligeira dos ingleses na Batalha de Balaclava, um lindo desastre para um filme, uma celebração para a literatura. O general foi embora, e a mistura do Exército com a eficácia das urnas foi transformada por Jair Bolsonaro em mais um de seus espetáculos semanais. A vivandagem, com o Tribunal indo aos granadeiros, resultou apenas num constrangimento.

Nos últimos anos, o Judiciário brasileiro deu-se bem em dois episódios marcantes. Joaquim Barbosa presidiu o STF no caso do mensalão falando nos autos e nas sessões. Anos depois, o próprio TSE atravessou o processo de cassação da chapa Dilma Rousseff-Michel Temer sem espetáculos além do próprio julgamento.

As campanhas eleitorais têm de tudo, e o que todo candidato quer é um antagonista que lhe garanta quinze minutos (ou quinze horas) de fama. Os ministros não precisam entrar nessa várzea, até porque o que dizem fora dos tribunais tem pouca serventia. Delinquentes não temem a oratória de magistrados, mas apenas suas decisões. Um tribunal falando a torto e direito torna-se um laboratório que vende remédios onde há só a marca e a bula.

Nos Estados Unidos, há um ex-presidente insistindo que lhe roubaram a eleição. Da Corte Suprema saíram decisões e alguns parágrafos de falas do juiz John Roberts.

Lord Ismay e a Otan

Hastings Lionel Ismay foi um tremendo sujeito. Nasceu na Índia e morreu na Inglaterra em 1965, aos 78 anos, com o título de Barão Ismay. Em 1940, Winston Churchill nomeou-o seu assistente militar, e Ismay acompanhou-o dos dias em que a tropa inglesa estava encurralada em Dunquerque até sua entrada na Alemanha vencida, em 1945. Churchill nunca escondeu quanto lhe devia. 

Ismay viu de tudo e em 1947 tornou-se o primeiro secretário-geral da Organização do Tratado do Atlântico Norte, a Otan. Foi dele a mais curta e precisa definição dos objetivos daquela aliança militar:

“Manter os americanos dentro, os russos fora e a Alemanha embaixo.”

Passaram-se 73 anos, a Alemanha sacudiu a poeira e deu a volta por cima, a União Soviética se acabou, e os Estados Unidos deixaram de ser na Europa a potência que eram nos anos seguintes à Segunda Guerra.

Como Lord Ismay já se foi, não se pode saber qual serventia ele atribuiria à Otan de hoje.

Se é para conter uma secular expansão russa, colocando bases militares dentro de um território que foi seu, falta combinar com o resto do mundo.

Maggi virou o jogo

Em 2005, Blairo Maggi governava Mato Grosso, era um dos maiores produtores de soja do mundo e ganhou da ONG Greenpeace o prêmio Motosserra de Ouro.

Passaram-se os anos, e a Forest 500, instituição que mapeia o compromisso empresarial com a defesa do meio ambiente pelo mundo afora, colocou a AMAGGI, da qual ele é o principal acionista, no topo da lista das companhias que respeitam as florestas tropicais e combatem o desmatamento.

Maggi reorientou a estratégia de suas empresas e virou o jogo. Desde o primeiro momento, ele foi um crítico da inútil irracionalidade da atual política ambiental brasileira. 

Continua sendo um campeão do agronegócio, sem ter o seu nome associado a malfeitorias. Ninguém é obrigado a ser agrotroglodita.

Eremildo, o idiota

Eremildo é um idiota e ouviu o governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, pontificando diante de mais de uma centena de mortos em Petrópolis. O doutor disse o seguinte:

“O que a gente tem que entender é que há uma dívida histórica desde outras tragédias que tiveram(...) Foi a maior chuva desde 1932. Unir uma tragédia histórica com um déficit que realmente existe causou esse estrago todo. Que sirva de lição para que dessa vez a gente aja diferente”.

Afora o português encharcado, o cretino acha que Castro não entendeu nada e, com uma postura professoral, quer que os outros entendam sabe-se lá o quê. O governador tem até as chuvas do próximo verão para explicar o que vem a ser “o déficit que realmente existe”.

A gestão de Castro gastou apenas 42% das verbas orçamentárias para a prevenção de enchentes. O dinheiro simplesmente foi para outro lugar.

Não são os outros (que pagam os impostos) que precisam de lição, ele é que poderia ter feito o dever de casa.

Recorrer à retórica da bobagem diante de uma tragédia traz falta de sorte. Em 2010, o então governador Sérgio Cabral culpou as vítimas da enchente dizendo que “com a natureza não se brinca”. Não se devia brincar com a natureza nem com otras cositas más e deu no que deu. 

PT alerta

O PT ligou seu sistema de alerta diante da conjunção de um incompreensível clima de já ganhou com um inexplicável salto alto.

Memória da igreja

Com a morte de Candido Mendes de Almeida, foi-se uma parte preciosa da história política da igreja católica brasileira. Irmão de um bispo, neto de conde, bisneto de senador e trineto do Marquês de Paraná, conhecia o Brasil com os pés no andar de cima e a cabeça no de baixo.

Ele foi uma das principais peças na virada da hierarquia católica na reunião do episcopado de 1970, documentando casos de tortura de presos.

Tinha uma memória prodigiosa e gosto pelos detalhes. Por exemplo: Paraná, o grande ministro do Império e arquiteto da Conciliação, morreu em 1856 numa das epidemias do Rio. Velado na velha catedral, a família aproveitou a madrugada para descansar em casa. Quando voltaram, o marquês estava sem o fardão de senador e as condecorações nele espetadas.

Candido ouvia e costurava tanto que caiu no grampo do Serviço Nacional de Informações e do Centro de Informações da Aeronáutica em pelo menos quatro ocasiões. Sempre batalhando por presos.

Tomara que tenha deixado registros.


Foi só coincidência, Bolsonaro

  Matheus Leitão 

Veja online

Ou… o novo vexame internacional do presidente brasileiro

  Alan Santos/PR/Divulgação 

Bolsonaro e Putin 

Como já era de se esperar, o presidente Jair Bolsonaro começou a dar vexames durante sua viagem à Rússia. Além de decidir manter a viagem em meio ao clima de tensão entre a Rússia e a Ucrânia, Bolsonaro deu a entender que o Brasil tem um lado nessa história, um erro diplomático grave que pode nos colocar em situação delicada.

“Estou muito feliz e honrado por este convite. Somos solidários à Rússia. Queremos muito colaborar em várias áreas, defesa, petróleo e gás, agricultura, e as reuniões estão acontecendo”.

A fala de Bolsonaro sobre sermos “solidários à Rússia” pode ser interpretada como um recado de que o Brasil está ao lado dos russos e, portanto, a favor de uma possível invasão à Ucrânia.

Tradicionalmente, o Brasil é conhecido por adotar sempre uma postura de pacificação e de diálogo quando há atritos entre outros países. Com a declaração de hoje, Bolsonaro pode estar mudando a rota que temos adotado há anos, uma decisão equivocada e inconsequente.

O caminho natural para o Brasil em casos como esse é promover a paz.

Enquanto bolsonaristas tentam colar no presidente a imagem de que ele foi o responsável pelo recuo da Rússia, o próprio Bolsonaro mostra que não sabe o que está dizendo e pode criar um mal estar internacional.

Pior: em determinado momento o próprio Bolsonaro deu a entender que poderia ter sido ele o responsável pela diminuição da tensão entre Rússia e Ucrânia.

“Mantivemos a nossa agenda. Por coincidência, ou não, parte das tropas deixou a fronteira”, disse o presidente, que reforçou que a sua missão na região é de “paz”. Foi só coincidência, Bolsonaro.


Na Rússia e Hungria, prevaleceram os interesses políticos de Jair Bolsonaro, não do Brasil

  Eliane Cantanhêde, 

O Estado de S.Paulo

Não faz sentido Bolsonaro dizer que é 'solidário' a Putin, que chamou de 'amigo' e 'pessoa que busca a paz', quando o russo se une à China e confronta o Ocidente, em particular os EUA, ao ameaçar invadir a Ucrânia

 Foto: Oficial Kremlin/PR

Presidente Jair Bolsonaro apresentou 'solidariedade' 

ao presidente da Rússia, Vladimir Putin. 

O presidente Jair Bolsonaro apresentou “solidariedade” ao presidente da Rússia, Vladimir Putin, e chamou de “irmão” o primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán. São manifestações sem conexão com a diplomacia e os interesses do Brasil e só satisfazem a vontade dele de brincar de líder da extrema direita internacional.

Não faz sentido Bolsonaro dizer que é “solidário” a Putin, que chamou de “amigo” e “pessoa que busca a paz”, quando o russo se une à China e confronta o Ocidente, em particular os EUA, ao ameaçar invadir a Ucrânia. Soa como se o Brasil se posicionasse a favor de Moscou, contra Washington.

Também é de um voluntarismo quase infantil Bolsonaro se identificar com Orbán e citar um lema integralista, “Deus, pátria e família”, ao qual acrescentou “liberdade”. Que Deus, que pátria, que família e que liberdade?

Até adversários apoiaram a ida à Rússia, lembrando que os dois países têm interesses comuns, assento nos Brics e todos os ex-presidentes, desde Fernando Henrique, foram a Moscou. E o Brasil não poderia ceder à pressão americana para cancelar a viagem.

A mala, porém, volta vazia. Na Rússia, agricultura, fertilizantes e comércio, que seriam centrais, ficaram em segundo plano. Na Hungria, “anunciaram” a venda de dois aviões da Embraer, firmada em 2020. Logo, o foco não é nos resultados, mas nos motivos da ida.

A comitiva enxugou por exigência da Rússia, mas teve os generais Braga Netto (Defesa), Augusto Heleno (GSI), Luiz Eduardo Ramos (Secretaria de Governo) e Laerte Souza Santos (Estado-Maior Conjunto), os comandantes do Exército, Marinha e Aeronáutica e o almirante Flávio Rocha (SAE).

Para quê? Os russos são tradicionais fornecedores de equipamentos militares para a América Latina, mas nossas Forças Armadas já executam um ambicioso plano de renovação de equipamentos, definidos, aliás, na era PT. Não é hora de ir às compras. Sobram acordos de cooperação em defesa. Logo com a Rússia...

Também foi Carlos Bolsonaro, o 02, craque num outro tipo de guerra: da internet. A Rússia é especialista em guerra cibernética e integrou o exército de fake news de Donald Trump contra Hillary Clinton. Trump, Putin, Orbán, Bolsonaro... Mistura azeda que está no forno para produzir a nova extrema direita internacional.

De um embaixador: “O objetivo real da viagem foi a cooperação cibernética da Rússia para a campanha digital do presidente. O resto qualquer ministro resolveria”. Quem foi a Moscou não foi o presidente do Brasil, foi Jair Bolsonaro. Que voltou a manipular as Forças Armadas a seu bel-prazer.

*COMENTARISTA DA RÁDIO ELDORADO, DA RÁDIO JORNAL (PE) E DO TELEJORNAL GLOBONEWS EM PAUTA



Bolsonaro, um pateta do circo de Moscou

 Carlos José Marques 

Revista ISTOÉ

 (Crédito: Alan Santos/PR)

Não poderia dar em outro resultado. A viagem do digníssimo presidente da República, Jair Messias “o mito” Bolsonaro, à Rússia, berço do comunismo que tanto repudiava, foi um espetáculo digno de comédia pastelão. Sim, o capitão resolveu aprontar das suas. De saída empurrou o Brasil à condição, constrangedora, de “solidário” às pretensões do camarada Putin, tirando da cartola, como justificativa, o argumento de que seu país estaria sempre ao lado de quem “promove a paz”. Putin e paz em um mesmo enunciado? Definitivamente, não combinam. Até as emas do Planalto sabem que o líder soviético resolveu aprontar nos últimos tempos uma das maiores ameaças de conflito armado desde a Segunda Grande Guerra, tentando atacar a Ucrânia. Mas Bolsonaro enxergou no anfitrião uma espécie de pacificador. Vai saber lá o por quê! Já havia saído do País com um típico discurso de miss, falando “a favor da paz mundial”.

Desembarcou no caldeirão da disputa, contrariando todos os conselhos nesse sentido, ignorando alertas do parceiro EUA e mesmo da OTAN, com uma pueril desculpa de negociar fertilizantes. Não era a melhor hora para ir buscar esterco nesse terreno minado, mas foi. E aí tratou o protagonista do furdunço como um promotor da paz? Imagine como os americanos e demais nações que realizam negócios com o Brasil, e rechaçam a postura de Putin, ficaram diante do afago indevido do mandatário. Um antigo aliado diplomático do capitão, ao saber do inusitado, chegou a comentar a boca pequena: “Bolsonaro só faz M.”. Observadores atentos também ficaram a se perguntar que tipo de remedinho anda tomando o honorável “mito” para tantas poltronices.

Curiosamente, horas antes de ele descer em solo moscovita, a Rússia resolveu arrefecer os ânimos e aceitou negociar com o Ocidente termos de um eventual entendimento. Foi o suficiente para que a claque bolsonarista atribuísse ao seu líder o crédito pelo feito. Messias nem ainda havia chegado ao destino e já era tido como digno de um gesto histórico, responsável por botar um ponto final no combate iminente. Não ria! Os seguidores acreditaram e tentaram a todo custo vender a ideia. O ex-ministro do Meio Ambiente, simpatizante de madeireiros ilegais e defensor da proposta de “passar uma boiada no Congresso”, Ricardo Salles, publicou em suas redes sociais um post montado, fake news absoluta, usando indevidamente a logomarca da rede de notícias CNN, para dar ares de credibilidade ao “informe”, exaltando Bolsonaro como o homem que “evitou a 3ª Guerra Mundial”. Uma figura da estatura de um ex-ministro se prestando a um papel débil desses? Nada mais causa surpresa nas falanges ignorantes do capitão! A sua máquina de propaganda, no embalo, acabou por produzir, incessantemente durante a visita, uma enxurrada de lorotas na mesma linha. 

Em contrapartida, memes de deboche, tripudiando sobre os delírios de simpatizantes, tomaram as redes. O presidente, em pessoa, resolveu tratar do assunto, com o maior caradurismo possível, durante coletiva após o bate-papo com Putin, e não perdeu a deixa para tirar uma casquinha na onda: “Mantivemos a nossa agenda, por coincidência ou não parte das tropas deixaram a fronteira”. Sim, prezado leitor, ele realmente buscou levar o mundo – e os eleitores brasileiros, em particular – a acreditarem que a sua “figura divina” abençoou o Leste Europeu com o cessar fogo. Escárnio deprimente. Quem sabe um Prêmio Nobel da Paz possa vir a brotar de tão proveitosa jornada? A essa altura do campeonato, não há como não enxergar as patetadas de Bolsonaro e de sua entourage, desta feita com versão no circo de Moscou – não naquele célebre que arma lonas pelo planeta para entreter os espectadores. O beligerante mesmo. O Bozo, que por meio de sua energia cósmica espiritual teria botado ordem no picadeiro, é definitivamente visto com desdém por seus pares. Putin, antes de aceitar tirar uma foto ao seu lado, impôs humilhações que nenhum outro chefe de Estado passou em circunstâncias semelhantes. Bolsonaro foi submetido a cinco testes para comprovar que não estava contaminado pela Covid e ainda teve de ficar em quarentena, isolado. Esnobado no Ocidente, queria se enturmar com Putin para exibir em campanha algum prestígio internacional, que na verdade não tem.

A Otan lhe puxou a orelha com um recado nada desprezível: “cada nação é livre para escolher suas relações bilaterais”. Não tenha dúvida de que o erro da viagem vai pesar negativamente nas pretensões brasileiras de conquistar um assento definitivo na OCDE, o organismo multilateral que arbitra as relações globais. Bolsonaro parece necessitar da supervisão de um adulto a cada escolha que faz. O périplo a Moscou sinalizou o completo isolamento e diminuição do Brasil perante o mundo. Após três anos de uma gestão de relações internacionais desastrosa, o governo é capaz de entregar, apenas, paródias circenses. Nada mais. Um presidente pequeno, não vacinado, que aceita o confinamento e comporta-se pianinho lá fora, com máscara e tudo, quando em seu próprio País promove a algazarra afrontosa aos bons costumes em meio à pandemia, é de uma cretinice sem tamanho. Dá vergonha, repulsa e revolta ser presidido por alguém assim. Para dizer o mínimo.


Análise: Viagem de Bolsonaro buscou reforçar discurso com a direita, mas traz risco à diplomacia

 Raquel Miura

RFI

 © REUTERS - BERNADETT SZABO

A passagem de Jair Bolsonaro pela Hungria nesta quinta-feira (17) deixou claro que objetivos comerciais, culturais ou de direitos humanos, que geralmente perpassam o encontro entre chefes de Estado, passaram longe das razões que levaram o presidente brasileiro ao país de Viktor Orbán. Mesmo na Rússia, onde ainda havia a narrativa de comprar agrotóxicos para as plantações brasileiras, Bolsonaro não escondeu que buscava se ancorar na imagem de governantes aclamados pela direita ultraconservadora.

Para a diplomacia brasileira, o resultado das visitas de Bolsonaro a Moscou e Budapeste é muito ruim, por colocar em xeque a credibilidade do Brasil no longo prazo. A avaliação é do especialista em relações internacionais Luís Renato Vedovato, professor da Unicamp e da PUC de Campinas. Na avaliação do especialista, “essa postura do presidente Bolsonaro se reflete de uma maneira nada positiva nas relações internacionais e na imagem do Brasil, tendo em vista que o cenário internacional passa por tensão, especialmente nessa relação entre Rússia e Ucrânia". De acordo com Vedovato, o Brasil opta por um dos lados. "Ao menos é o que passa a ser divulgado, e isso tem reflexos na nossa imagem no exterior e especialmente na diplomacia brasileira, que historicamente é tida como confiável, equilibrada, com tradição de solução pacífica de controvérsias”, recorda Vedovato.

As relações internacionais de um país, bem como seu prestígio no mundo, são construídos ao longo da história e não é um chefe de Estado que põe tudo a perder. Porém, explica Vedovato, ficará por um bom tempo a dúvida sobre a confiabilidade do Brasil nessa área.

“No primeiro momento se reconhece que essa postura é algo da gestão de Bolsonaro, mas pode haver desconfiança nos governos futuros, pois, no caso atual, o país se distanciou de uma ação de Estado, que sempre se orientou pelo artigo 4° da Constituição, que é fazer as relações internacionais pautadas nos direitos humanos, na solução pacífica, na não intervenção, na autonomia dos povos", argumenta o analista político. "Muitos podem questionar se o Brasil é confiável, se respeita esses princípios no longo prazo, ou quando isso que vemos hoje poderá se repetir”, adverte.

Discurso para os seus

"É uma satisfação muito grande estar na Hungria. Considero nosso pequeno grande irmão. Pequeno se consideramos nossas diferenças pelas extensões territoriais. E grande pelos valores que nós representamos, que pode ser resumido por quatro palavras: Deus, pátria, família e liberdade”, disse o presidente brasileiro ao colega húngaro. A mesma fórmula que utilizou em Moscou com Vladimir Putin.

O primeiro-ministro ultraconservador da Hungria, na mira do poder Executivo europeu pelo não respeito aos princípios democráticos do Estado de direito, havia aberto a cerimônia no mesmo tom conservador. “O mundo quer aprovar como família aquilo que a gente pensa que é família: a mãe que é mãe, que é mulher, e o pai que é homem", disse Orbán. Antes de acrescentar: "Isso tem a ver com a tradição e gostaríamos de manter isso”, afirmou.

A avaliação é unânime entre os analistas de que a escolha de dois países que têm líderes considerados autoritários não foi à toa, mas eleitoralmente pensada com o objetivo de reforçar o discurso radicalmente de direita para uma parcela de brasileiros.

“Bolsonaro sentiu que a direita está se fragmentando, que há outros nomes como o de Sérgio Moro, especialmente depois que o presidente se alinhou ao Centrão. Então, ele tenta agora recompor suas forças nesse campo. E acho que nesse ponto essa viagem foi positiva para ele. É um eleitorado entusiasta de líderes como Putin e Orbán”, afirmou à RFI o analista político Alexandre Bandeira, diretor da Associação Brasileira de Consultores Políticos.

Para Bandeira, Bolsonaro tenta reconstruir "o personagem" das eleições passadas, oferecendo a quem já tem uma disposição em votar nele argumentos para tal.

“Essa viagem é um tijolo nesse trabalho que ele vem fazendo. Não dá para dizer que isso tira voto de um ou põe em outro, mas quando as pessoas querem, elas buscam justificativas, argumentos. Ele está dando a esse eleitor mais extremo esses argumentos. E aposta que, com isso, conseguirá ir para o segundo turno. Essa viagem à Rússia e à Hungria faz parte da aposta dele”, analisa Bandeira.

Piadas e memes

Se a grande maioria dos eleitores não tem tempo para discutir a importância da Hungria nas relações com o Brasil, nem o peso da Rússia no comércio com o Brasil, dois grupos têm se deleitado nas redes sociais com os resultados dessa visita, os que amam e os que odeiam o presidente Jair Bolsonaro. E para eles não faltam narrativas cinematográficas para descrever o périplo do presidente nessa viagem.

A claque militar, incentivada por ele, tenta pregar a mirabolante conclusão de que foi Bolsonaro quem conseguiu fazer com que a Rússia recuasse da invasão na Ucrânia, ou ao menos que a viagem do presidente principiou um capítulo mais diplomático do que bélico, tamanha a aura de "predestinado" que o acompanha.

Já seus rivais não perdoaram e criaram os mais diversos memes nas redes sociais com a imagem do presidente fazendo reverência ao túmulo do soldado desconhecido, em homenagem aos combatentes soviéticos da Segunda Guerra Mundial, tempos em que ali estava a União Soviética comunista de Stálin. Prato cheio e piada pronta com um político que se põe como soldado na ladainha de um risco comunista no Brasil. Tanto que Bolsonaro se viu obrigado a justificar sua presença no ato em Moscou nas redes sociais.

Vida real

No discurso de Orbán nessa quinta-feira, ao receber o presidente brasileiro, o líder húngaro defendeu medidas severas contra a imigração. O foco dele provavelmente tem a ver com o fluxo alto em direção à Europa de refugiados que fogem de guerras e da pobreza, mas no Brasil é difícil não remeter também à situação de milhares de brasileiros deportados dos Estados Unidos em situação humilhante, como tem mostrado a imprensa nos últimos dias.

Por isso, para o eleitor médio, que vai decidir as eleições, não é simples medir o impacto, se é que ele existe, que uma viagem de alguns dias do presidente terá em sua popularidade, mais ainda nas urnas. Os analistas ouvidos pela RFI destacam que são os problemas do dia a dia que mais pesam nessa hora. E a coincidência do cenário doméstico com a agenda internacional, nesse caso, jogou contra Bolsonaro.

“A maioria da população não conseguiu entender os motivos de uma viagem dessas, mas sente que ela teve objetivos eleitorais e está muito cedo para fazer campanha. Há muitos problemas aqui. Passa a ideia de que enquanto ele se preocupa com as urnas, os problemas aqui continuam, a chuva castiga a região serrana do Rio, que é o estado do presidente, e ele está na Hungria, não se sabe fazendo o quê”, disse Luís Renato Vedovato.

“A gente vai enxergar o reflexo desses atos um pouco lá na frente. Se isso vai ter alguma ressonância nos grupos familiares, se vai render discussão entre as pessoas do trabalho, enfim, se isso será tema do debate eleitoral. O presidente já abandonou a ideia de buscar quem está fora desse espectro da direita conservadora. Então, ele joga para evitar a fragmentação desse grupo. Se vai conseguir atrair número suficiente para estar no segundo turno, é preciso esperar”, avalia Alexandre Bandeira.

Raquel Miura, correspondente da RFI em Brasília


Apareceu o lado humorístico de Ricardo Salles

 Thomas Milz

Coluna Realpolitik

Deutsche Welle

Bolsonaro ganhará o Nobel da Paz? Defensores do presidente debocham da "velha mídia" por confundir uma brincadeira do ex-ministro do Meio Ambiente com fake news. Mas muitos bolsonaristas tampouco entenderam nada.

 Foto: Agência Brasil

"Agora sim dá para entender o pouco êxito que Salles

 teve como ministro: sua verdadeira vocação era ser piadista!"

Era uma piada, óbvio. "Parabéns, Presidente!", publicou o ex-ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles em sua conta no Twitter nesta terça-feira (15/02). Bolsonaro ganhará o Prêmio Nobel da Paz de 2022 por ter resolvido o problema entre a Russia e a Ucrânia, eis a boa notícia que Salles trouxe.

Numa outra publicação, ele postou um vídeo do presidente da Russia, Vladimir Putin, dizendo que Bolsonaro o convenceu a não invadir a Ucrânia. "Entrevista exclusiva concedida à CNNMemes…", escreveu Salles, fazendo um ótimo trocadilho com o nome da emissora CNN Brasil.

Para contextualizar: Putin tinha declarado, na terça-feira, que retiraria uma parte das suas tropas da fronteira com a Ucrânia. Enquanto isso, Bolsonaro ainda estava em voo em direção à Russia, onde desembarcaria apenas horas depois. O encontro dos dois presidentes ocorre nesta quarta. Por coincidência, no mesmo dia da possível invasão da Ucrânia por tropas russas - ao menos segundo informações dos serviços de inteligência dos Estados Unidos.

A sacada de Salles foi muito boa, uma amostra da imensa capacidade dele de criar memes. Sempre invejei essa capacidade dos brasileiros de achar uma boa sacada para tudo. Também mostra o grande humorista que é Ricardo Salles. Agora sim dá para entender o pouco êxito que ele teve como ministro: sua verdadeira vocação é ser piadista!

Agora, vamos combinar: detectar ironia e brincadeira e distingui-las de fake news ou da própria "realidade", não é uma tarefa fácil.

Aparentemente, para muitos veículos da imprensa brasileira, a publicação de Salles aparentava não ser uma brincadeira. Levaram tudo ao pé da letra e se esforçaram para explicar que Bolsonaro nem tinha chegado à Russia e, portanto, não tinha como ter feito aquela magia que supostamente trouxe a paz. Assim, olhavam a publicação de Salles como uma "mentira" para confundir todo mundo, e portanto, uma maldade de Salles.

Outros veículos destacaram que Salles "virou piada" com seu vídeo fake e a montagem fake da revista Time anunciando o Prêmio Nobel para seu ex-chefe. A emissora CNN Brasil deixou claro: "A CNN não noticiou que o presidente Bolsonaro evitou guerra."

Entenderam TUDO errado!

Mais tarde, os comentaristas da Rádio Jovem Pan ficaram rindo da brincadeira de Salles e da confusão criada na mídia ignorante. Rodrigo Constantino, o "Tucker Carlson brasileiro", achou a reação dos jornais divertida, mas senti também uma certa melancolia quando ele constatou que a "velha mídia" morreu. Advertiu ainda sobre o "perigo das narrativas da mídia militante" que odeia Bolsonaro. Aviso importante nestes tempos de fakes e memes.

"Vá e impeça a guerra, Jair"

Mas, afinal, era ou não era uma brincadeira atribuir a retirada das tropas russas à presença de Bolsonaro? Ao visitar o Twitter presidencial, a questão fica ainda mais confusa.

Pois pode parecer que o próprio Bolsonaro tentou criar esse nexo entre sua visita e a retirada das tropas russas, postando no seu Twitter uma imagem da CNN Brasil anunciando o "retorno de algumas tropas" acompanhada da mensagem: "Já estamos no espaço aéreo russo. Bom dia a todos."

Eu, pessoalmente, acho que o presidente simplesmente embarcou na brincadeira de Salles. Afinal de contas, o presidente é conhecidamente um brincalhão.

Mas ele esqueceu de avisar isso aos seguidores mais ferrenhos. O feed embaixo da postagem presidencial está repleto de imagens que mostram Bolsonaro ao lado de Jesus Cristo com frases como "Vá e impeça a guerra, Jair". Outro seguidor comemora: "Ele cessa a guerra apenas com a possibilidade da sua presença! Esse é o Messias enviado por Deus."

"Atenção, contém ironia!"

Sugiro colocar, futuramente, um aviso ao lado dos tuítes: "Atenção, contém ironia!" Tal aviso teria evitado o atual mal-entendido como, também, muitos outros no passado. Teria mudado a história brasileira dos últimos anos. Só nos tuítes presidenciais se encontram muitas brincadeiras que foram levadas a sério, danificando a imagem do presidente. À toa! Lembra do tuíte de Bolsonaro sobre o golden shower? E as brincadeiras sobre uma suposta ameaça comunista?

Ou meu tuíte favorito de Bolsonaro de todos os tempos: "ATENÇÃO PAIS: Vejam o conteúdo do kit-gay acaba de chegar nas escolas privadas p/ a criançada." Muita gente não entendeu que era uma brincadeira, levou a sério e votou em Bolsonaro, por engano.

Sugiro o mesmo aviso de "ironia" nos tuítes de Ricardo Salles para não criar novos mal-entendidos. Como esse: no último domingo, dia 13, Salles tuitou: "Filiei-me ao PL." O PL de Valdemar Costa Neto, figura envolvida nos escândalos do mensalão e do petrolão, condenado por lavagem de dinheiro e corrupção passiva? E ex-aliado do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva? Hahaha, você não me engana, Ricardo Salles. Você nunca se filiaria a um partido desses, óbvio. Gostei da sacada!

P.S.: Apague logo esse tuíte, Ricardo, antes de o presidente Bolsonaro voltar da Rússia e descobrir que você se filiou ao PL. Ele não iria gostar!

Thomas Milz Jornalista e fotógrafo

O texto reflete a opinião do autor, não necessariamente a da DW.


General desiste de cargo no TSE contrariado com uso político das Forças Armadas por Bolsonaro

  Eliane Cantanhêde e Felipe Frazão, 

O Estado de S.Paulo

Família pressionou ex-ministro Fernando Azevedo por temer agravamento de problema cardíaco diante de tensão política

Foto: Adriano Machado/Reuters

 O general de Exército da reserva Fernando Azevedo e Silva; 

ex-ministro da Defesa desistiu de assumir a Diretoria-Geral do TSE 

BRASÍLIA – A desistência do ex-ministro da Defesa e general de Exército da reserva Fernando Azevedo e Silva de assumir o cargo de diretor-geral do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) desvela o desconforto corrente na caserna com as novas “funções” relacionadas às eleições de 2022. O general estava incomodado e reclamou, a pessoas próximas, que o presidente Jair Bolsonaro tinha voltado a manipular os militares e a atacar o sistema eleitoral, lançando as Forças Armadas em narrativas para desacreditar as urnas, contra iniciativas do TSE e do Supremo Tribunal Federal. Com trânsito nos três poderes, Fernando Azevedo preferiu, no entanto, justificar a decisão por motivos de saúde e familiares.

Fontes com acesso ao ex-ministro disseram que ele descobriu um problema cardíaco que requer tratamento imediato. Amigos e familiares, contrários ao cargo, o pressionaram a desistir por causa do alto estresse previsto para a função, no caldeirão político que se formou. Essa versão também foi compartilhada pelo ex-ministro com militares da reserva e da ativa, inclusive no Forte Apache, o Comando Geral do Exército.

Auxiliares do general disseram que ele estava animado com o profissionalismo do corpo técnico e vinha estudando a estrutura do tribunal. Ele e outros militares que teriam cargos no TSE passaram uma semana na sede da Corte, em janeiro. Em conversa com o Estadão, Azevedo referendou o processo de votação. “As urnas eletrônicas funcionam há 26 anos, nunca tiveram problema e foram aprovadas pelo Congresso. O Congresso aprova, a Justiça eleitoral cumpre”, afirmou. “Fiquei muito honrado com o convite e a confiança dos ministros (Edson) Fachin, (Luís Roberto) Barroso e Alexandre (de Moraes). O TSE tem excelentes quadros, 90% dos funcionários passaram por concurso, muitos têm mestrado e doutorado, conhecem profundamente administração pública.”

Depois do diagnóstico, no entanto, há cerca de três semanas, ela passou a consultar amigos e familiares e sofreu forte pressão dos filhos para declinar. Azevedo comunicou a decisão nesta terça-feira, dia 15, em reunião de cerca de três horas com os ministros da corte. Por enquanto, o atual diretor-geral, Rui Moreira de Oliveira, fica no cargo.

O general, segundo pessoas próximas, tinha consciência da pressão que sofreria e da responsabilidade do cargo, sentindo-se encarregado de legitimar o poder que vai ser entregue ao próximo presidente eleito. Compartilhava também do “constrangimento” de segmentos da caserna incomodados com manipulação da marca das Forças Armadas pelo presidente.

Passou a incomodar setores das Forças Armadas o protagonismo que receberam numa disputa que tem colocado em lado opostos o TSE e o presidente Jair Bolsonaro. Além do cargo administrativo que o ex-ministro ocuparia, os militares passaram a integrar, de forma inédita, a Comissão de Transparência Eleitoral, criada pela Justiça diante da crescente onda de desinformação e de tentativas de desacreditar as urnas eletrônicas.

As Forças Armadas não se negam a participar institucionalmente, mas nos bastidores não são poucos os oficiais da ativa que veem nessas duas frentes uma armadilha. Isso porque, segundo eles, podem se ver no meio de uma guerra entre a corte e o presidente Jair Bolsonaro, chefe-supremo das Forças Armadas.

Para oficiais, tanto o cargo agora dispensado pelo general de Exército da reserva Fernando Azevedo e Silva quanto o assento ocupado pelo general de Divisão Heber Garcia Portella, chefe do Centro de Defesa Cibernética, na comissão, abrem flancos para manobras políticas com os militares por parte do presidente Jair Bolsonaro e para novos desgastes como os já acumulados pelo engajamento dos generais da reserva e da ativa no alto escalão do governo.

Um exemplo ocorreu na semana passada. Bolsonaro usou uma transmissão nas redes sociais para “vazar” e até distorcer informações sobre questões enviadas pelos militares à Justiça Eleitoral, sobre o funcionamento do sistema eletrônico de votação. Bolsonaro disse que o Exército havia encontrado “dezenas de vulnerabilidades” sobre as urnas eletrônicas e que ficaram sem explicação. Mas, como o Estadão antecipou, os militares enviaram apenas perguntas técnicas. Elas estavam sob sigilo até esta quarta-feira, dia 16.

Em resposta a Bolsonaro, os ministros do Supremo Tribunal Federal, Luís Roberto Barroso, Edson Fachin e Alexandre de Moraes decidiram lançar luz sobre o documento. A corte publicou a íntegra dos questionamentos do Exército e as respectivas respostas.

As desconfianças sobre as urnas, bandeira do presidente e sua base, são compartilhadas por parte do oficialato da reserva e até por generais que compõem o governo. O Estadão revelou no ano passado que o ministro da Defesa, general Braga Netto, havia ameaçado a realização das eleições sem voto impresso aprovado, o que ele negou. A proposta governista foi derrotada no Congresso. O ministro da Secretaria Geral da Presidência, Luiz Eduardo Ramos, escalou o assessor de confiança Eduardo Gomes, coronel que trabalhou na inteligência do Exército, para divulgar desinformações e suspeitas infundadas sobre as urnas, ao lado de Bolsonaro.


Bancada ruralista quer usar orçamento secreto em medidas contra seca, mas verba está blindada

 Iander Porcella e Daniel Weterman 

O Estado de São Paulo

 © Dida Sampaio/Estadão - 23/7/2021


BRASÍLIA - Com o Ministério da Agricultura alegando estar de "mãos atadas", a bancada ruralista pressiona a Casa Civil por recursos do orçamento secreto para socorrer produtores rurais afetados pela seca no País, mas a verba está blindada no Congresso. O impasse com uma das principais bases eleitorais do presidente Jair Bolsonaro, que deve concorrer à reeleição em outubro, pode obrigar o governo a liberar o montante exigido pelo setor por medida provisória (MP), fora do teto de gastos.

Nesta terça-feira, 15, parlamentares gaúchos se reuniram com o secretário-executivo do Ministério da Agricultura, Marcos Montes, e o secretário de Política Agrícola da Pasta, Guilherme Bastos. No entanto, a "chave do cofre" do orçamento secreto está com o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), e com o ministro da Casa Civil, Ciro Nogueira.

No Congresso, essas verbas são tratadas como blindadas e já comprometidas para obras de maior interesse eleitoral dos parlamentares. Conforme o Estadão/Broadcast revelou em dezembro, a mesma pressão foi feita para liberar recursos a cidades atingidas pela chuva na Bahia, mas as emendas ficaram intocadas.

Além disso, o governo limitou a liberação das emendas RP-9 (como as emendas de relator do orçamento secreto são chamadas no Congresso) a R$ 2,7 bilhões até março, valor sob o interesse de aliados que querem direcionar verbas para suas bases antes da eleição, o que reduz a possibilidade de a Casa Civil ceder aos apelos dos ruralistas.

"Quem tem o dinheiro é o Ministério da Economia, mas também não tem o suficiente, porque está no orçamento secreto", diz o deputado Alceu Moreira (MDB-RS), ao Estadão/Broadcast, ao ressaltar que a Agricultura está de mãos atadas. "Não pode ficar com recurso preso para comprar um trator aqui, outro ali, e deixar o pessoal do agro sem ter condição de financiamento. Não tem lógica."

Parlamentares pleiteiam em torno de R$ 5 bilhões para o setor e querem que Ciro Nogueira reúna lideranças partidárias e representantes dos ministérios da Economia, Agricultura, Desenvolvimento Regional e Cidadania para debater de onde tirar os recursos para auxiliar os produtores rurais.

Segundo Moreira, apenas para retomar operações equalizadas do Plano Safra 2021/2022 são necessários quase R$ 3 bilhões. Para a rolagem de dívidas, mais R$ 1 bilhão. O resto dos recursos seria destinado para ajuda emergencial e seguro rural.

Em um decreto editado em janeiro, Bolsonaro determinou que atos relacionados à gestão do Orçamento terão de ter aval prévio da pasta comandada por Ciro Nogueira, em mais um movimento para dar poder ao Centrão às vésperas da campanha eleitoral. O ato representou nova perda de poder do ministro da Economia, Paulo Guedes, dentro do governo.

Plano Safra

Recentemente, a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) também pressionou para que o governo e o Congresso liberem verba para contratação de crédito rural subsidiado com o objetivo de colocar de pé a safra deste ano.

Dos R$ 7,8 bilhões aprovados pelo Congresso no Orçamento de 2022 para despesas de equalização de taxas de juros no Plano Safra, 99% já foram usados, segundo os próprios bancos. Isso ocorreu porque a alta da Selic, a taxa básica de juros, hoje em 10,75%, exigiu maior liberação de recursos do que a esperada para compensar as taxas mais baixas praticadas no contexto do Plano Safra.

Na semana passada, a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, se reuniu com técnicos do Ministério da Economia e parlamentares e expôs as demandas do setor, mas sem garantir que os recursos para a equalização do Plano Safra seriam desembolsados pelo governo imediatamente.

Medida provisória

Diante do impasse, o Palácio do Planalto avalia a edição de uma MP com crédito extraordinário ou o envio de um projeto de lei solicitando os recursos para o financiamento após a alta de juros. Técnicos do Legislativo sugeriram a edição da MP, que teria efeito imediato e já liberaria o montante de R$ 3 bilhões pedido pelo setor.

"Se não socorrer imediatamente, nós acabamos matando o produtor", diz Alceu Moreira. "Precisamos fazer, junto aos governos dos Estados, a construção de poços, encanamento, água, porque falta inclusive para consumo humano. Precisa de recurso para o produtor de leite poder comprar alimento para as vacas. Tem que trabalhar com o pessoal que tem gado de corte", exemplifica o parlamentar.


China pode cortar demanda por soja em 30 milhões de toneladas, diz Xinhua

 Forbes Brasil

Com informações Agência Reuters 

 © Wenderson Araujo_Trilux_CNA


A China pode reduzir sua demanda por soja em 30 milhões de toneladas, continuando a promover rações com menos farelo de soja e proteínas alternativas, afirmou a agência de notícias oficial Xinhua hoje, citando autoridades agrícolas não identificadas.

A China emitiu diretrizes no ano passado recomendando a redução de farelo de soja e milho na alimentação de suínos e aves, buscando reduzir sua dependência de grãos importados.

O país importa quase 100 milhões de toneladas de soja por ano para produzir farelo de soja rico em proteínas para seu enorme setor pecuário.

A fatia do farelo de soja na ração caiu para uma média de 15,3% no ano passado, recuo de 2,4 pontos percentuais em comparação com 2020, disse a Xinhua.

Entre as 33 maiores empresas de rações, o farelo de soja teve uma média de 11,8%, uma queda de 1,6 ponto percentual em relação ao ano anterior.

A China poderia reduzir o uso de farelo de soja em mais 23 milhões de toneladas, reduzindo suas necessidades de soja em quase 30 milhões de toneladas, se continuar a promover a alimentação de criações com baixo teor de proteína, acrescentou o relatório.

Os fabricantes de ração podem aumentar o uso de aminoácidos e grãos alternativos para substituir o farelo de soja, enquanto um maior consumo de forragem pode substituir o farelo de soja na alimentação de bovinos e ovinos, disse.

A China disse que aumentar a produção de soja será uma “grande tarefa política” este ano, depois que a produção da oleaginosa caiu em 2021, quando os agricultores plantaram mais milho.


Falta um voto para o Supremo decidir a revisão das aposentadorias do INSS

 Pedro do Coutto

Tribuna da Internet 

Charge do Erasmo (Arquivo Google)

Falta apenas um voto, o do ministro Alexandre de Moraes, para que o Plenário do Supremo Tribunal Federal decida sobre a revisão dos valores das aposentadorias do INSS, uma vez que verifica-se controvérsias em torno da interpretação constitucional e o cumprimento da legislação ordinária sobre a aplicação dos critérios.

A votação está empatada em cinco a cinco, revela a Folha de S. Paulo na sua edição de sábado e a revisão abrange um amplo período porque as decisões do INSS teriam produzido valores abaixo daqueles que deveriam ter sido estabelecidos. O julgamento interessa a milhares de pessoas entre os 32 milhões de aposentados e pensionistas do instituto que contribuíram a vida toda, mas que não estão recebendo o que lhes é devido.

ACÚMULO DE PROBLEMAS – Essa é a dúvida. A votação deve ser retomada nesta semana que se inicia e concluída até o início de março, período no qual o ministro Alexandre de Moraes terá que apresentar o seu voto no caso decisivo. Os problemas se acumularam no tempo. A começar pela redução do teto das aposentadorias que era até o governo Fernando Henrique Cardoso de dez salários mínimos, mas que foi reduzido para cinco pisos salariais.

Com isso, os segurados contribuem sobre dez salários mínimos e ao se aposentar ficaram contidos no teto de cinco salários mínimos. Mas a questão não é apenas essa. A regra de transição aplicada para o direito dos aposentados dão margem a dúvidas e que ocorrem a partir de 1999, envolvendo a média salarial sobre os 80% das maiores contribuições realizadas a partir de julho de 1994.

As leis se sucederam ao longo do tempo e as dúvidas foram ficando para trás. Agora, em 2021, o Supremo retomou o julgamento da matéria e a votação encontra-se empatada. De outro lado, a Reforma da Previdência levada a efeito pelo governo Bolsonaro em 2019 modificou o critério da média salarial limitando a revisão dos valores.

RESTRIÇÃO – A nova regra restringe a média salarial retroagindo a julho de 1994, o que contraria o princípio de Direito que a lei não retroage para restringir, mas foi o que o governo Bolsonaro praticou. A decisão, portanto, é das mais importantes e praticamente envolve pelo menos 80% dos aposentados e pensionistas.  

A autoria do texto a mim parece ser de Cristiane Gercina, já que suas iniciais estão assinaladas e ela na mesma página assina uma outra matéria sobre tema diferente.

VAZAMENTOS – Reportagem de Natália Garcia e Gustavo Soares, Folha de S. Paulo de domingo, revela que na opinião do presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, dados sigilosos do Pix vão vazar com frequência, uma vez que o sistema de segurança total ainda não se encontra implementado.

Roberto Campos Neto – incrível –  fez as declarações na sexta-feira em evento da esfera Brasil sobre política monetária. “Como entendemos que esse mundo de dados e valores cresceu exponencialmente, os vazamentos vão acontecer com frequência”, disse. A matéria acentua que no dia 3 de fevereiro o Banco Central comunicou o vazamento de duas mil e trezentas chaves do Pix dentro do sistema de pagamento Logbank. Antes disso, registraram-se 100 mil acessos ao setor de pagamentos, vazamento ocorrido em 5 de dezembro de 2021.

O presidente do BC, acrescento, não fez qualquer previsão sobre o fortalecimento da segurança dos clientes.  Portanto, deixou no ar uma mensagem voltada para uma vulnerabilidade que não tem expectativa de ser freada. Conforme ele mesmo frisou, vazamentos vão ocorrer com frequência.

MENTIRAS PRONTAS  – Numa entrevista de página inteira a Mariana Muniz, O Globo de domingo, o ministro Luís Roberto Barroso, presidente do tribunal Superior Eleitoral, afirmou, rebatendo as novas investidas do presidente da República contra a segurança eleitoral do país, que Jair Bolsonaro não precisa de fatos, “ele tem a mentira sempre pronta”.

“Agora, facilitou a vida das milícias digitais e por isso recebendo acusações da própria Polícia Federal”, acrescentou. As investidas do presidente contra a Justiça Eleitoral revelam suas limitações cognitivas e baixa civilidade, caracterizadas no favorecimento às milícias digitais. Bolsonaro facilitou a ação destas também no momento em que divulgou dados secretos das investigações feitas pela PF.

O ministro Barroso vai transmitir a Presidência da Corte ao ministro Edson Fachin no próximo dia 22. Fachin, por sua vez, será sucedido por Alexandre de Moraes que fiscalizará as eleições deste ano. A respeito do Telegram, rede social, cuja sede é em Moscou, Barroso sustenta que ele a exemplo de qualquer outra rede tem que cumprir a legislação brasileira, o que ele não vem fazendo apesar das advertências quanto à divulgação de fake news em sua plataforma. “O Brasil não é a casa da sogra para ter aplicativos que façam entre outras coisas apologia do nazismo”, destacou.


TCU aponta ‘indícios robustos’ de fraude na compra de insumo da cloroquina pelo Exército

 Deu no Correio Braziliense

Tribuna da Internet 

Charge do Nando Motta (Arquivo Google)

O Tribunal de Contas da União (TCU) apontou em documento da área técnica, de 3 de fevereiro, “indícios robustos” de fraude em licitações por parte da empresa que forneceu ao Exército o insumo para a produção de cloroquina, segundo reportagem de Vinicius Sassine, na Folha de S. Paulo.

Documento obtido pelo jornal revela ainda que a suposta fraude teria ocorrido entre 2018 e 2021 – período que abrange a maior parte da pandemia no Brasil, iniciada em março de 2020, quando da notificação oficial do primeiro caso de infeção por coronavírus no país.

NA ERA BOLSONARO – As irregularidades foram verificadas em 26 licitações, das quais 24 ocorreram de 2019 em diante, no governo do presidente Jair Bolsonaro.

A explosão da produção de cloroquina ocorreu a partir de um desejo expresso de Bolsonaro para combater a COVID, apesar de a ciência reiterar que não existe nenhuma evidência da eficácia do medicamento para tratar ou prevenir a infecção por coronavírus.

Conforme reportagem da Folha de S.Paulo, nesta sexta-feira (18/2), os indícios de fraude foram detectados por auditores durante processo aberto no TCU para investigar suspeita de superfaturamento na produção de cloroquina pelo laboratório do Exército, a explosão de quantidades produzidas na pandemia e a responsabilidade direta de Bolsonaro na produção.

SEM ENQUADRAMENTO – Segundo o relatório produzido pelos técnicos, a empresa Sulminas Suplementos e Nutrição, contratada pelo Exército para o fornecimento de sal difosfato, participou de licitações voltadas exclusivamente a empresas de pequeno porte. Indícios reunidos pelos auditores apontam, porém, que o grupo do interior de Minas Gerais não se enquadra nessa condição.

“Verificada a ocorrência de fraude comprovada à licitação, o tribunal declarará a inidoneidade do licitante fraudador para participar, por até cinco anos, de licitação na administração pública federal”, afirmou o relatório.

A área técnica pediu a abertura de um processo à parte para investigar as suspeitas de fraude e para ouvir a Sulminas. A decisão caberá ao ministro relator do processo, Benjamin Zymler, que pode submeter a questão ao plenário do TCU.

EMPRESA NEGA – Em nota, o grupo Sulminas afirmou que as licitações com participação de suas empresas foram de amplo conhecimento e participação pública e que os valores praticados são compatíveis aos de mercado. A empresa disse ainda que os insumos foram entregues em cumprimento estrito a “requisitos de qualidade técnica e analítica necessários, nos termos especificados nos editais”.

“O grupo está à disposição das autoridades para prestar qualquer esclarecimento que se faça necessário.”

Segundo o grupo, a Sulminas Suplementos está enquadrada no regime do Simples Nacional. Já a Sul de Minas Ingredientes não está enquadrada no mesmo regime, conforme a nota.

INDÍCIOS DA FRAUDE – Os auditores do TCU apontaram dois indícios de fraude em licitações, no momento em que a primeira empresa do grupo se apresenta para os pregões como sendo de pequeno porte.

A segunda empresa do grupo, Sul de Minas Ingredientes, recebeu R$ 9,7 milhões do governo federal desde 2014. Do total, R$ 6,2 milhões foram pagos a partir de 2019. Os contratantes foram os mesmos.

Para atender a um desejo de Bolsonaro, o então ministro da Defesa, general Fernando Azevedo e Silva, viabilizou um aumento da produção de cloroquina pelo Laboratório Químico Farmacêutico do Exército.

VERBAS LIBERADAS – Os recursos começaram a ser destravados dentro da Força, com essa finalidade, em março de 2020. Os gastos do Exército com a empreitada foram de R$ 1,1 milhão.

Segundo a auditoria do TCU, 900 quilos de sal difosfato resultaram na produção de 3,2 milhões de comprimidos de cloroquina em 2020.

A última produção de cloroquina 150 mg pelo laboratório do Exército havia sido em 2017: 265 mil comprimidos, a partir de 70 quilos de insumos, segundo o relatório do tribunal.


Empresa foi multada por pagar propinas, não por fraudar urnas eletrônicas

 Do Projeto Comprova

CNN Brasil

Publicações nas redes sociais dizem que Diebold teria recebido punição por fraudar programação de urnas; entenda o caso 

Projeto Comprova

Enganoso: São enganosas publicações nas redes sociais que sugerem que a empresa norte-americana Diebold foi multada por fraudar urnas eletrônicas usadas no processo eleitoral brasileiro.

Ela foi realmente multada em 2013 nos Estados Unidos, mas as penalidades aplicadas originam-se de acordos para resolver acusações de suborno e falsificação de contratos na China, Indonésia e Rússia. Nenhuma delas tem relação com a fabricação das urnas eletrônicas usadas nas eleições do Brasil, mas com outros equipamentos fornecidos pela empresa, como caixas eletrônicos.

Conteúdo verificado: Publicações no Facebook e WhatsApp com link para um texto de 2014 que afirma que a empresa Diebold Nixdorf, que fabricava urnas eletrônicas para o Brasil, foi multada nos Estados Unidos por fraude.

São enganosas as publicações que afirmam que a empresa Diebold Nixdorf foi multada nos Estados Unidos por fraudar a programação de urnas eletrônicas. As postagens tomam por base um texto publicado em 2014 e que voltou a circular entre apoiadores do presidente Jair Bolsonaro no Facebook e em aplicativos de mensagens e tem sido usado para questionar a segurança das urnas. Entre 1999 e 2016 a empresa foi responsável por fabricar os modelos utilizados nas eleições brasileiras.

O Comprova encontrou publicações em sites oficiais do governo americano (Departamento de Justiça e FBI) e um artigo da Reuters que tratam das acusações de fraude envolvendo a empresa. Nenhuma cita irregularidades relacionadas às urnas eletrônicas, mas com outros equipamentos fornecidos pela empresa, como caixas eletrônicos.

As duas multas aplicadas — no valor de US$ 25,2 milhões e US$ 22,97 milhões — originam-se de acordos com a Justiça para resolver acusações de suborno e falsificação de contratos na China, Indonésia e Rússia.

A equipe entrou em contato com a Diebold Nixdorf e o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para questionar sobre as multas, a relação da empresa com o processo eleitoral brasileiro e a possibilidade de fraude nas urnas eletrônicas. A Diebold não respondeu às perguntas, mas declarou que “toda e qualquer informação relacionada às eleições deverá ser tratada junto ao TSE”.

O TSE afirmou que, à época dos fatos, pediu esclarecimentos à empresa e recebeu a informação de que estariam contribuindo com a justiça americana e entrariam em um acordo financeiro. Questionado, informou que não acompanhou o decorrer do processo, pois a empresa estava aderente à legislação brasileira e aos termos firmados no contrato.

O TSE também ressaltou que o caso não representou uma preocupação do ponto de vista técnico, porque a arquitetura da urna e dos sistemas eleitorais é de total responsabilidade da Justiça Eleitoral. Dessa forma, não seria possível a Diebold ou qualquer outra empresa fraudar o processo. O órgão detalhou para o Comprova como é feito o processo de auditoria.

O Comprova também entrou em contato com o autor de uma das publicações de maior alcance, que aponta a multa da empresa por suposta fraude nas urnas eletrônicas. Ele disse ser contra a divulgação de notícias falsas e afirmou ter verificado o conteúdo antes de compartilhar.

Por fim, entramos em contato com a Rádio Planalto, uma emissora de Passo Fundo no Rio Grande do Sul. O link que circula junto das postagens levava a uma notícia publicada no site da rádio em 2014.

A publicação realmente afirmava que a Diebold havia sido multada “por subornar funcionários na Rússia, na Indonésia e na China e fraudar a programação das urnas eletrônicas e de caixas eletrônicos”. Depois do contato, a emissora emitiu uma nota sobre o caso e deletou o conteúdo.

No comunicado, a Rádio Planalto informou que o responsável pela publicação não faz mais parte da equipe e que, ao longo dos anos, o veículo tem feito publicações salientando a segurança das urnas eletrônicas.

O Comprova considera que o conteúdo é enganoso porque usa dados imprecisos e por ser um conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano eleitoral.

Como verificamos?

Em conteúdos compartilhados no Facebook e recebidos pelo WhatsApp do Comprova, os autores alegam que a afirmação de que a Diebold foi multada é verdadeira, pois “está no site do FBI, saiu na Reuters e na Nasdaq”. O primeiro passo, então, foi buscar pelas publicações citadas.

A partir do mecanismo de busca avançada do Google, encontramos as matérias da Reuters e do FBI que tratavam sobre o acordo entre a Diebold e a Justiça Americana. Também foi encontrado um comunicado do Departamento de Justiça dos Estados Unidos sobre o mesmo assunto.

Nenhuma das publicações cita qualquer relação entre as multas e fraude na programação das urnas eletrônicas, como alega o texto que viralizou.

Além disso, entramos em contato com a empresa Diebold, via e-mail, para questioná-la acerca das investigações de fraude. A princípio, se mostrou acessível para esclarecer qualquer dúvida, mas posteriormente preferiu não se manifestar sobre o assunto.

O Comprova também entrou em contato com o TSE, que negou qualquer possibilidade de fraude na fabricação das urnas eletrônicas e explicou como é feito o processo de auditagem. Por fim, procuramos a Rádio Planalto, cujo link para uma publicação de 2014 acompanha parte das publicações investigadas.

Verificação

As multas

Segundo o site do Departamento de Justiça dos Estados Unidos, a Diebold concordou em pagar 25,2 milhões de dólares para resolver acusações de suborno. A empresa era investigada por oferecer vantagens para funcionários de bancos privados e estatais em troca de favorecimento nos negócios.

Além disso, também teria falsificado contratos com um distribuidor na Rússia que, por sua vez, teria pagado propina a clientes da Diebold para obter contratos relacionados a caixas eletrônicos.

Ainda segundo o Departamento, anteriormente, a Diebold havia firmado um acordo semelhante no valor de 22,97 milhões de dólares com a Comissão de Valores Mobiliários dos EUA. As multas, portanto, não têm relação com fraude em urnas eletrônicas.

O Comprova entrou em contato com a Diebold e questionou sobre a investigação, contudo, a empresa não quis se manifestar sobre o assunto e alegou que “toda e qualquer informação relacionada às eleições deverá ser tratada junto ao TSE”.

Por sua vez, o TSE afirmou que questionou a empresa na época dos fatos e foi informado que a Diebold estava colaborando com as investigações do Departamento de Justiça dos Estados Unidos, que fecharia um acordo financeiro.

O Comprova questionou se o Tribunal acompanhou o desenrolar do processo. Em resposta, o órgão informou que a empresa estava aderente à legislação brasileira e aos termos firmados no contrato, por isso não acompanhou o decorrer da ação.

O TSE também esclareceu que toda a engenharia e o projeto de arquitetura da urna, assim como o processo de votação são de total responsabilidade da Justiça Eleitoral. Portanto, não haveria a possibilidade da empresa agir de má fé para causar dano ou fraudar o processo eleitoral. O caso, então, não representava uma preocupação do ponto de vista técnico, segundo o órgão.

Diebold e a relação com as eleições

A empresa Diebold, citada na publicação, é uma multinacional norte-americana especializada na fabricação, venda e instalação de serviços de autoatendimento. Ela foi contratada pela Justiça eleitoral para fabricar nove projetos de urnas eletrônicas, entre os anos de 1999 a 2016.

De acordo com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), os modelos são 2000, 2004, 2006, 2008, 2009, 2010, 2011, 2013 e 2015. Atualmente, presta serviços apenas na manutenção de cerca de 473 mil urnas.

Para prestar serviços ao TSE, as empresas precisam passar por um processo licitatório minucioso de ampla concorrência. Além disso, as vencedoras das licitações não fabricam os projetos das urnas a esmo, mas sim, precisam desenvolvê-las usando o projeto de arquitetura de segurança do TSE, por sua vez coordenado e auditado por uma equipe técnica do órgão.

O Tribunal esclareceu que a Diebold era responsável somente pela confecção da urna, “como ocorre com qualquer outro equipamento eletrônico, em que os componentes são reunidos em uma fábrica e a partir disso é montada a urna para que esteja pronta e apta para o uso do eleitorado brasileiro.”

Toda a engenharia e o projeto de arquitetura é totalmente concebido, coordenado, supervisionado e auditado pela Justiça Eleitoral. Dessa forma, segundo o TSE, a segurança do equipamento é preservada, independentemente de quem a fabrique. “Importante deixar claro que os processos exigidos pelo Tribunal no edital de licitação impedem que a fabricante engane a segurança da urna”, pontuou, em nota.

Além disso, o sistema eletrônico de votação não utiliza rede de internet, mas sim, possui os próprios meios criptografados de comunicação e transmissão de dados. Isso dificulta a atuação de invasores ou roubo de informações.

“Em mais de 20 anos de trajetória, o sistema foi reiteradamente testado e comprovadamente isento de quaisquer formas de manipulação, de fraude na totalização de votos ou de quebra do sigilo do voto”, reforçou o órgão público.

Sendo assim, a Diebold não seria capaz de fraudar o processo eleitoral brasileiro.

Auditoria das urnas

Como explica o TSE, são 30 camadas ao todo que protegem as urnas eletrônicas de qualquer tipo de invasão. Para hackear o sistema, seria necessário ultrapassar todas essas barreiras no momento da votação. Mesmo que fossem violadas, a inteligência do sistema bloqueia o acesso às informações quando identifica um invasor e a urna trava.

O processo de auditagem começa um mês antes das eleições. Os Tribunais Regionais Eleitorais (TREs) de cada estado nomeiam uma Comissão de Auditoria de Funcionamento das Urnas Eletrônicas em uma sessão pública.

A Comissão precisa ser composta por um juiz de direito e seis servidores da Justiça Eleitoral, no mínimo. Depois, o procurador regional indica ainda para compor a equipe um representante do Ministério Público; dos partidos políticos; coligações; Ordem dos Advogados do Brasil (OAB); Congresso Nacional; Supremo Tribunal Federal (STF); Controladoria-Geral da União (CGU); Departamento de Polícia Federal; Sociedade Brasileira de Computação (SBC); Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea). Por fim, representantes de departamentos de Tecnologia da Informação de universidades também podem ser indicados para acompanhar o grupo.

A 20 dias para o pleito, os TREs informam, tanto à população quanto aos partidos, o local onde será feita a auditoria das urnas na véspera das eleições. Aos partidos, também é encaminhado ofício com horário e o local da auditoria no dia da eleição, informando sobre como seus representantes podem participar.

Um dia antes das votações, a Justiça Eleitoral sorteia de três a cinco seções eleitorais em cada estado, durante audiência pública. Então, as urnas sorteadas são substituídas, e depois instaladas nos TREs em salas monitoradas por câmeras.

A Comissão distribui cédulas para simular uma “votação paralela” no domingo, que são preenchidas por representantes dos partidos políticos e coligações, e devem ser completadas com os números dos candidatos, votos nulos, votos de legenda, além de cédulas com votos em branco. A quantidade de cédulas corresponde entre 75% e 82% do número de eleitores registrados em cada seção eleitoral sorteada.

Já no dia da eleição, a votação de auditagem começa no mesmo horário da votação oficial. Todos os votos preenchidos pelos representantes dos partidos no dia anterior são digitados nas urnas e em um sistema paralelo, enquanto as câmeras filmam todo o processo.

Quando a votação acaba, a urna imprime um Boletim de Urna (BU), e o sistema auxiliar também emite um boletim. Ambos os dados são conferidos pela Comissão, assim é possível verificar se a urna apresentou falhas e se computou exatamente todos os votos registrados nas cédulas.

Esse processo é acompanhado pela equipe nomeada em audiência pública, mas também pode ser acessado por qualquer pessoa interessada em checar a veracidade do processo eleitoral. Em alguns estados, inclusive, a auditagem é transmitida pelos canais oficiais dos TREs no YouTube.

As publicações

Inicialmente, o Comprova identificou três postagens que compartilhavam um texto publicado em 2014 no site da Rádio Planalto, intitulado “EUA multa empresa das urnas eletrônicas usadas no Brasil por fraude”. No início de fevereiro, a publicação voltou a circular entre apoiadores do presidente Jair Bolsonaro no Facebook.

A publicação, que citava como fonte o site Folha Centro Sul, afirmava que a Diebold havia sido multada “por subornar funcionários na Rússia, na Indonésia e na China e fraudar a programação das urnas eletrônicas e de caixas eletrônicos”. Depois do contato do Comprova, a emissora emitiu uma nota de esclarecimento. Na nota, o departamento de jornalismo da rádio informa que o conteúdo “foi retirado do ar e que o colaborador, na época, responsável pela publicação em nossas plataformas não integra atualmente a equipe das nossas emissoras”. A nota diz também que ao longo dos últimos anos várias publicações foram feitas nas mídias sociais da emissora salientando a segurança das urnas eletrônicas.

Uma das publicações investigadas é de Ranieri Marchioro, cirurgião dentista e militar da reserva do Exército. Nas eleições de 2020, ele foi candidato à prefeitura de Foz do Iguaçu pelo Partido Renovador Trabalhista Brasileiro (PRTB). Outra postagem foi compartilhada em uma página de apoiadores de Bolsonaro no Facebook. O Comprova também recebeu pedidos de leitores, por meio do WhatsApp, para verificação do conteúdo.

Todas as publicações levam a mesma legenda em tom de cobrança ao presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Luís Roberto Barroso.

O Comprova entrou em contato com Raniere Marchiori, autor de uma publicação realizada em 11 de janeiro deste ano, que aponta a multa da empresa por suposta fraude nas urnas eletrônicas. A postagem, com 410 compartilhamentos e quase mil interações em um todo, afirma que a notícia não é falsa.

“E agora Ministro BARROSO, justifique-se! ‘Em 2014 o Governo Americano multou a empresa DIEBOLD fornecedora das urnas eletrônicas usadas no Brasil por fraude.’ Não adianta falar que é Fake, está no site do FBI, saiu na Reuters e na Nasdaq”.

Questionado sobre sua publicação, Marchiori disse ser contra a divulgação de notícias falsas e afirmou ter verificado o conteúdo antes de compartilhar.

“Sou totalmente contra a divulgação de notícias falsas tanto quanto tentar ocultar as notícias verdadeiras do público”, informou

Por que investigamos?

O Comprova tem o compromisso de investigar conteúdos suspeitos que tenham relação com a pandemia, políticas públicas do governo federal e eleições. A equipe tem como foco as publicações virais, que tiveram grande alcance nas redes sociais e podem causar desinformação.

O post desta reportagem teve quase mil interações no Facebook e trouxe à tona uma informação antiga, de 2014, como se fosse atual. Em ano eleitoral, é comum surgirem ataques à veracidade das urnas eletrônicas, informações falsas que comprometem a integridade do processo eleitoral brasileiro.

O conteúdo investigado pelo Comprova foi alvo também de uma verificação do MonitorR7, publicada em 15 de janeiro, e que apresenta a mesma conclusão.

O Comprova já desmentiu anteriormente que urnas eletrônicas seriam fáceis de serem fraudadas por meio do código-fonte, ou ainda que as eleições de 2020 no Brasil usaram o mesmo software utilizado no pleito presidencial norte-americano, conforme afirma uma jornalista em um vídeo publicado no YouTube.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações; que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Investigado por Correio do Estado e Metrópoles. Verificado por Jornal do Commercio, O Dia, CBN, Estadão, SBT e SBT News