terça-feira, fevereiro 22, 2022

Putin reconhece independência de repúblicas separatistas no Leste da Ucrânia

 André Duchiade e Filipe Barini

O Globo

Em discurso transmitido pela TV, presidente russo diz que país vizinho foi criado pela Rússia soviética e anuncia decisão, que pode abrir espaço para uma invasão

 Foto: SPUTNIK / via REUTERS

O presidente da Rússia, Vladimir Putin,

 em reunião do Conselho de Segurança hoje 

O presidente da Rússia, Vladimir Putin, anunciou nesta segunda-feira que vai reconhecer a independência das repúblicas separatistas de Luhansk e Donetsk, na Ucrânia, onde separatistas pró-Moscou controlam boa parte do território desde 2014 e travam uma guerra que deixou cerca de 15 mil mortos.

A decisão, anunciada em um longo discurso marcado por referências históricas e ataques ao governo ucraniano e ao Ocidente, veio depois de uma reunião não programada e televisionada do seu Conselho de Segurança Nacional, na qual os outros 12 membros do órgão pediram para o presidente reconhecer a independência das regiões.

— Creio ser necessário tomar uma decisão que deveria ter sido tomada há muito tempo: reconhecer, imediatamente, a independência e a soberania da República Popular de Donetsk e da Republica Popular de Luhansk — afirmou Putin, durante o pronunciamento.

O decreto de reconhecimento e de estabelecimento de cooperação com as duas regiões, firmado por Putin após o discurso, atende a um pedido das lideranças separatistas —respaldado pela Duma, a Câmara Baixa do Parlamento russo—, que apontam violação de acordos internacionais afirmando que a população da área é alvo de ataques das forças ucranianas. Kiev, porém, nega as acusações.

No pronunciamento de cerca de uma hora, Putin apontou que a Ucrânia é uma “parte integral” da História russa, afirmando que a “Ucrânia moderna” foi criada pela União Soviética, um processo que, em sua opinião, foi “um erro” e que prejudicou a Rússia.

— Como resultado da política bolchevique, a Ucrânia Soviética surgiu, e hoje há uma boa razão para que seja chamada de "Ucrânia de Vladimir Ilyich Lênin". Ele é seu autor e arquiteto — afirmou Putin.

Para ele, as autoridades ucranianas foram “contaminadas pelo vírus do nacionalismo e da corrupção” e passaram a ser comandadas por forças estrangeiras, em especial durante o chamado Euromaidan, a revolução popular que colocou fim, em 2014, ao governo de Viktor Yanukovich, aliado do Kremlin. O movimento também serviu de estopim para o conflito no Leste Ucraniano e está relacionado à anexação da Crimeia, naquele mesmo ano. 

Regiões de Donetsk e Luhansk e áreas sob controle de separatistas

 

Ao abordar a situação em Donbass, Putin acusou as autoridades de Kiev de tentarem banir o idioma russo através de leis que privilegiam o uso do ucraniano e de reprimir a Igreja Ortodoxa russa. Ele atacou o que chamou de “fluxo de armamentos” enviados à Ucrânia, criticou a presença de militares estrangeiros, em especial da Otan, no país e acusou o governo de buscar obter armas nucleares.

Putin se referiu a um susposto desejo de Kiev de violar o chamado Memorando de Budapeste, de 1994, pelo qual a Ucrânia, a Bielorrússia e o Cazaquistão concordaram em entregar os arsenais nucleares soviéticos ao controle russo em troca de garantias de segurança por parte de Moscou. Indo além, afirmou que a Ucrânia poderia ser usada como plataforma para um ataque futuro da Otan contra a Rússia.

— Se a Ucrânia se juntasse à Otan, ela serviria como uma ameaça direta à segurança da Rússia — afirmou.

  Foto: SERGEI SUPINSKY / AFP 

Forças de Defesa Territoriais da Ucrânia participam de exercício militar fora de Kiev 

  

Foto: STR / AFP: ARIS MESSINIS / AFP

Militares ucranianos realizam exercícios em região desconhecida da Ucrânia 

  Foto: SERGEI SUPINSKY / AFP Forças de Defesa Territoriais da Ucrânia participam de um exercício militar fora de Kiev 


  Foto: SERGEI SUPINSKY / AFP 

Forças de Defesa Territoriais da Ucrânia participam de um exercício militar fora de Kiev 

 

 Foto: ALEXANDER ERMOCHENKO / REUTERS

Destroços de um carro que, segundo as autoridades locais, foi explodido em Donetsk 

Segundo o Kremlin, a decisão foi informada aos líderes da Alemanha, Olaf Scholz, e da França, Emmanuel Macron, que ficaram "consternados" ao final das conversas com o presidente russo. Logo depois do anúncio, as TVs russas mostraram comemoração em áreas como Donetsk e Luhansk.

No começo da reunião do Conselho de Segurança, Putin disse que “o destino da Ucrânia se decide hoje”. Em seguida, afirmou ser necessário considerar os apelos dos representantes de Donetsk e Luhansk, acrescentando que um reconhecimento da independência não significaria a anexação das regiões à Rússia.

Tensão nas fronteiras

Mais cedo, forças de segurança da Rússia afirmaram que militares e guardas de fronteira impediram “um grupo de reconhecimento e diversionismo" de violar a fronteira do país a partir do território ucraniano e que cinco pessoas foram mortas para impedir a incursão, informaram agências de notícias russas. "Nos combates, cinco pessoas de um grupo de sabotadores violaram a fronteira russa e foram mortas", disse um comunicado.

A Ucrânia negou o informe, classificando-o como “fake news”, e disse que nenhuma força ucraniana esteve presente na região russa de Rostov, onde o incidente teria ocorrido.

Horas antes da reunião do Conselho de Segurança russo, os líderes das duas regiões separatistas foram à televisão pedir a Putin para reconhecê-las como independentes.

Todas as ações do lado russo se encaixam em um padrão previsto várias vezes por governos ocidentais, que acusam a Rússia de se preparar para fabricar um pretexto para invadir a Ucrânia culpando Kiev pelos ataques e contando com pedidos de ajuda de representantes separatistas.

O reconhecimento da independência das regiões constitui o fim dos Acordos de Minsk, negociados em 2015 com mediação da Alemanha e da França. Os acordos previam um cessar-fogo nas duas regiões, que receberiam autonomia administrativa. O acordo era considerado o quadro de referências para quaisquer futuras negociações sobre a crise no Leste ucraniano.

Em Washington, o presidente Joe Biden convocou uma reunião com seus principais conselheiros de segurança. O secretário de Estado Antony Blinken, o secretário de Defesa Lloyd Austin e o general Mark Milley, presidente do Estado-Maior Conjunto dos EUA, foram vistos entrando na Casa Branca no feriado do Dia do Presidente.

Reunião consensual

O vice-presidente do Conselho de Segurança, o ex-presidente e ex-primeiro-ministro Dmitry Medvedev, foi o primeiro a pedir explicitamente o reconhecimento das regiões durante a reunião do conselho nesta segunda-feira. Medvedev afirmou que as pessoas nas duas regiões “não são apenas falantes de russo, e sim cidadãos russos”.

Nos últimos anos, a Rússia reconheceu a cidadania de grande parte da população das regiões, oferecendo-lhes passaportes russos.

—  Estes são o nosso povo. Quando cidadãos americanos estão em apuros, os americanos conduzem operações especiais — afirmou Medvedev. — Se as coisas continuarem assim, o único jeito será reconhecer a independência.

O ministro da Defesa, Sergei Shoigu, foi na mesma linha:

— Quero ser claro: devemos reconhecer a independência das duas regiões separatistas do Leste da Ucrânia.

Em certo momento, Putin perguntou se alguém tinha alguma opinião divergente do reconhecimento da independência das regiões separatistas do Leste ucraniano, ao que se seguiu um profundo silêncio.

A certa altura, ele zombou de seu chefe de inteligência estrangeira, que parecia falar sem convicção suficiente:

— Você está sugerindo que abramos um processo de negociação?  — Putin disse com desdém. — Fale direito.

Depois de gaguejar, a autoridade afirmou que apoiava a independência.

Houve algumas sugestões, como “dar dois dias a Biden”. Essa opção foi descartada pelo próprio Putin e por seu ministro das Relações Exteriores, Sergei Lavrov.

— Sobre a ideia de dar ao Ocidente alguns dias para pensar sobre isso, é uma questão de gosto, mas é claro que não vai mudar nada — afirmou Lavrov.