terça-feira, março 15, 2011

País de uns poucos e contra a maioria

Adelson Elias Vasconcellos

O slogan que a marquetagem política criou para o o governo Lula não passou justamente disto: marquetagem política. Porque é bom se notar que, nunca antes na história recente do país, um governo se dedicou tanto a destruir a modernidade brasileira quanto o governo petista.

Uma das primeiras ações neste sentido foi na área da saúde, seguida da educação e, por último, a área da segurança. Os três serviços foram simplesmente sucateados e prova esta verdade as avaliações que situam o Brasil na rabeira do ranking de competitividade. No campo educacional, conseguimos quase ficar na lanterna num lote de 65 países, cujos alunos de ensino médio foram submetidos a testes básicos de conhecimento em leitura, matemática e ciências.

Na segurança pública, a exceção de São Paulo e um pouquinho de Rio de Janeiro, no restante do país, a despeito de cinco planos de segurança pública lançados por Lula nos seus oito anos de mandato, a criminalidade aumentou em todos os seus índices, principalmente, nos estados do Nordeste.

Recentemente, e para fechar este preâmbulo, dentre os BRICS, o Brasil foi o único que não conseguiu colocar uma única universidade dentre as melhores do mundo. Vergonhoso, não é mesmo?

Em compensação, e isto vemos nas reportagens do Estadão, a estrutura do Estado nunca foi tão inchada como no período em que Lula presidiu o país. E a se notar: este inchaço se deu na contramão da qualidade dos serviços públicos que, simplesmente, despencaram como nunca antes.

Tanto Lula quanto Dilma alimentam a sanha louca de um super Estado, mesmo que esta expansividade não resulte em benefício nenhum para a sociedade. Por quê? Porque muito embora o slogan da publicidade oficial declare o Brasil como sendo de todos, na verdade, o que se tem é um Brasil para poucos e, estes poucos, entendido, a turma do partido e das centrais sindicais. E é justamente este aparelhamento imoral que joga contra os interesses da população, já que se dá por cumplicidade política não por competência e qualificação adequada aos cargos ocupados e loteados.

O que vemos no plano das aposentadorias, e que já tantas vezes criticamos, é algo injustificável. Da forma como está, não há como acusar a tremenda injustiça que é cometida contra os aposentados da iniciativa privada, considerados, na atual estrutura, como trabalhadores de quinta categoria.

Mas não é apenas nestes quesitos que o governo petista, entrando já em seu nono ano no poder, anda na contramão. São os casos por exemplo da EMBRAPA e da Vale. Esta, após sua privatização, não apenas multiplicou em várias vezes seus investimentos, como ainda se tornou a maior exportadora brasileira. E a se notar: gerando um lucro fabuloso, algo impensável no seu tempo de empresa estatal. Pois bem, o sonho de consumo dos petistas é torná-la estatal novamente. Não se conformam com as bocas ricas que a Vale lhes poderia gerar e privilegiar. Para o diabo o interesse do país, para o diabo os lucros em empregos, divisas, renda e impostos que a empresa saneada pode proporcionar. Querem é privatizar, para a exclusividade do partido, os ganhos que a atividade da mineradora propicia. Assim, vale tudo, se possível até destruir a própria empresa via pressão política. O caso da cobrança prá lá de absurda de 5 bilhões em royalties dá bem a dimensão do que se esconde por detrás desta ação criminosa.

Neste mesmo sentido, vemos o caso da EMBRAPA. Num tempo em a questão ambiental se tornou ponto obrigatório e estratégico para a atenção de governos e empresas, o governo petista iniciou um processo de sucateamento irresponsável, criminoso e totalmente fora de propósito.

Vejam nesta edição, também, de que forma os recursos destinados ao Ministério dos Esportes são repartidos no país. Sempre, e prioritariamente, para os “amigos” do rei, mesmo que desnecessários. Infelizmente, num país onde a política é feita e aceita apenas a partir do pobrismo e da vulgaridade, onde ser oposição se tornou palavra de baixo calão, é doloroso constatar que estamos jogando no lixo conquistas e oportunidades de desenvolvimento. E que tal desperdício se dá apenas para privilegiar uma quadrilha de vigaristas e vagabundos, lotados num partido que se deseja único interlocutor da nossa sociedade multifacetada.

Ainda pagaremos muito caro por esta incúria. Corrigir os rumos vesgos de tal cultura não será trabalho apenas de uma geração. E o que é pior: tendo tudo para evoluir, nossa opção tem sido a de andar para trás, sob o silêncio cúmplice dos agentes e instituições públicas que deveriam impedir tal retrocesso, bem como de uma sociedade incapaz de definir seu próprio destino.

Opções erradas de Dilma Presidente

Adelson Elias Vasconcellos

Numa excelente reportagem no Estado deste domingo, somos informados ou relembrados de algumas maldades cometidas por Lula durante seus oito anos de mandato e que, ao que tudo indica, terão continuidade com Dilma e orrendo o risco ainda de serem aprofundadas.

Muito embora a grande maioria da população não tenha percepção e consciência destas maldades, a verdade é que todos acabam penalizados por elas. É o caso, por exemplo, das tarifas de energia e de telefones, nas quais se embutem os mais altos impostos de que se tem notícia no mundo. Além disto, o governo Lula deixou que as concessionárias de energia cobrassem a mais cerca de 7 a 10 bilhões de reais e, com a maior cara de pau, já anunciou que não pretende ressarcir os consumidores do assalto. Como é mesmo que se chama tamanha cretinice? Vigarice?

Outro exemplo é o sucateamento a que foi submetida a área da Saúde. Os poucos avanços que o país houvera obtido ao tempo em que Serra respondeu pelo ministério, simplesmente, foram desprezados, abandonados e jogados no lixo.

Também é um mau exemplo a maneira abusiva com que Lula, e agora, ampliaram e ainda pretendem ampliar mais, a estrutura do Estado, sem que sequer um miserável benefício tenha resultado deste inchaço em favor da população que é, afinal, quem paga a conta.

A reportagem do Estadão, neste sentido, é excelente aos nos informar que, Lula, tendo recebido um governo com 26 ministérios - e que funcionavam bem -, os ampliou compulsivamente para 37 ministérios, resultando, com isso, num desperdício total. Exemplo característico é o Ministério da Pesca, onde alojaram Ideli Salvatti, a “Maria Louca” do Senado na legislatura passada (não foi reeleita), cujo orçamento começou em 11 milhões e hoje chega a mais de 800 milhões reais por ano, sem que a produção nacional tenha aumentado um único bagrezinho. É o fim da picada!

Agora, se anuncia que Dilma irá acrescentar mais dois ministérios a atual composição, o das Micro e Pequenas Empresa, e o Infraestrutura Aeronáutica. Ou seja, irá se aumentar o gasto federal  numa época em que o recomendável seria reduzi-los. Não há equilíbrio fiscal que suporte o desaforo que se comete, diariamente, com o dinheiro público.

E, justamente por isso, afirmo que é um tremendo erro quando Dilma provoca e incentiva na ampliação de gastos inúteis e sem sentido de um lado e apenas para acomodar seus camaradas de partido, e de outro, empurra a conta da farra para a sociedade que continuará sobrecarregada pelo Estado paquidérmico, e sem nenhuma melhora na já péssima qualidade dos serviços públicos!

Em outra reportagem publicada nesta edição, temos lá a verdadeira face do que foi o governo do “nunca dantez”. Dentro da nossa filosofia de só avaliar os governos pelos resultados que, efetivamente, produzem, pondo no lixo sua propaganda mentirosa e os discursos asquerosos, reparem que, ao longo da história republicana, a média de crescimento do país no governo Lula foi apenas o 19º melhor . E olhem que poucas vezes se viu condições tão propícias para crescer. Se considerarmos a média mundial ao longo da história, o período de Lula chega quase a ser único. E qual foi o resultado? O que se vê: média abaixo da média histórica do país e, no período, abaixo inclusive da média mundial.

Assim, a opção de Dilma seria mais adequada se priorizasse, por exemplo, destravar as amarras que poderiam nos proporcionar crescimentos sustentáveis acima de 5, 6 e de até 7% anuais. E uma destas amarras é, por certo, o peso excessivo e opressivo de um Estado onde a cultura do desperdício chega às raias do absurdo.

Também são urgentes as reformas da Previdência e a Tributária, no sentido de tornar a produção nacional mais competitiva com o restante do mundo. E, neste embalo, priorizar o investimento maciço em infraestrutura é indispensável.

O que se vê, contudo, pelos sinais até aqui demonstrados, é que nem as reformas urgentes serão levadas à cabo (ou ao menos iniciadas), tampouco a redução do tamanho estatal criará as condições necessárias para a redução do chamado custo Brasil.

Em compensação, a opção pelo gigantismo deste Estado brucutu, omisso na sua tarefa constitucional de prover saúde, segurança, educação, saneamento, somente favorecerá a classe política na manutenção de suas velhas e retrógadas oligarquias que sugam a energia do país apenas para seu próprio e exclusivo deleite. E, de lambuja, entrega o lucro da atividade econômica em bandeja dourada aos banqueiros que, a rigor, são os mais privilegiados do governo dos “operários”, e em níveis inigualáveis no mundo e na nossa própria história.

Esta balela de “crescimento com distribuição de renda para os mais necessitados”, já vimos aqui se tratar apenas de mero discurso e propaganda enganosa. No fundo, o que as tais políticas afirmativas e inclusivas vão gerar é uma perenização da pobreza numa quantidade descomunal de brasileiros. A tal pirâmide social ficará estratificada com um perfil em que, mais de 50% da população, terá que se contentar em sobreviver com caraminguás vergonhosos, podendo ter em sua sala tevês de última geração, mas precisando conviver com esgoto a céu aberto ao lado de suas casas. Mais doloroso ainda é ver que, do pouco que podem receber, mais de 40% acaba retornando ao próprio Estado, na forma de tributos direitos e indiretos, e mil taxas e contribuições que, em grande parte e de acordo com a lei, são absolutamente ilegais.

O ranking das universidades

O Estado de São Paulo

As universidades brasileiras continuam fora das primeiras 200 posições nos rankings mundiais. Há várias entidades internacionalmente respeitadas que fazem anualmente rigorosas avaliações comparativas do setor e, nelas, nem mesmo a Universidade de São Paulo (USP) - a maior e mais importante universidade brasileira - aparece em posição de destaque.

No ranking mais recente, elaborado pela organização inglesa Times Higher Education, a USP ocupa apenas a 232.ª posição. A pesquisa foi feita com mais de 13 mil professores de 131 países, que destacaram os pontos fortes de suas respectivas universidades. Em termos de desempenho escolar, de produtividade científica e de reputação acadêmica, a liderança ficou com a Universidade Harvard, que obteve a pontuação máxima em todos os itens da pesquisa, seguida pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e pela Universidade de Cambridge. Das 20 melhores universidades, 13 são americanas, 4 são britânicas, 2 são japonesas e 1 é canadense.

Das universidades da América Latina, a USP continua sendo a mais bem classificada. Contudo, no âmbito dos Brics - o bloco de economias emergentes, integrado pelo Brasil, Rússia, Índia e China - o Brasil é o único membro que não tem nenhuma universidade entre as cem melhores do ranking da Times Higher Education. Já a Rússia aparece em 33.º lugar, com a Universidade Lomonosov; a China, ocupa as 35.ª, 42.ª e 43.ª posições, com as Universidades de Tsinghua, Hong Kong e Pequim; e a Índia está em 91.º lugar, com o Instituto de Ciência.

O ensino superior no Brasil cresceu significativamente nas duas últimas décadas para acolher o crescente número de formandos do ensino médio. No entanto, a maioria tem bibliotecas desatualizadas e laboratórios defasados. O nível médio de preparo e informação do corpo discente também é baixo e a maioria das universidades adota critérios lenientes de avaliação. Elas permitem que alunos reprovados façam provas de reavaliação. E, se forem reprovados outra vez, ficam em "dependência" - com isso, não perdem o ano.

Além disso, os trabalhos de conclusão de curso de graduação - os TCCs, no jargão estudantil - estão se convertendo em compilações de artigos extraídos da internet. Como os professores não cobram nem rigor metodológico nem um mínimo de originalidade, os alunos não se sentem estimulados a fazer pesquisa. Nas cem melhores universidades mundiais, alunos reprovados num exame não têm direito a nova oportunidade - perdem o ano e, em alguns casos, não podem continuar na instituição.

Para os especialistas, se quiser classificar pelo menos uma instituição de ensino superior num ranking com as 200 melhores universidades mundiais, o Brasil terá de adotar uma estratégia com quatro objetivos. O primeiro é aumentar o intercâmbio de alunos e professores, para internacionalizar a universidade brasileira. O segundo é ampliar o número de trabalhos de docentes e cientistas brasileiros publicados nas mais prestigiosas revistas acadêmicas e científicas mundiais. O terceiro objetivo é dar plena autonomia às instituições, permitindo-lhes abrir novos cursos sem depender de autorização governamental e libertá-las da ditadura do chamado "currículo mínimo". O quarto objetivo é estimular a formação de universidades de elites, que formam os docentes para lecionar nas demais instituições e conduzir pesquisas de ponta.

Nos últimos anos, corporações e partidos políticos pressionaram as universidades a democratizar seus órgãos colegiados e o MEC chegou a patrocinar um projeto com esse propósito, entre 2003 e 2005. A questão, porém, não é política, mas pedagógica - e, quanto mais eficiente e produtiva for a universidade, melhor para a sociedade.

Segundo os especialistas, uma política voltada à consecução desses quatro objetivos demora de dois a três anos para dar resultados. Na prática, isso significa que tão cedo as universidades brasileiras não subirão de posição nos rankings mundiais de reputação acadêmica.

O país à espera de um plano para o ensino

Brasil Econômico - Editorial

Bons tempos aqueles em que estudar num colégio público era sinal de status. Com uma rigorosa carga horária de cinco horas diárias, de segunda a sábado, e uma grade de disciplinas em que as aulas de Português, por exemplo, eram separadas em Gramática, Redação, Literatura e Interpretação de Texto, a escola absorvia praticamente todo o dia do aluno.

Para quem estudava de manhã, as tardes eram ocupadas, além dos deveres de casa, com aulas de Educação Física, Trabalhos Manuais e Religião, todas obrigatórias.

Difícil, quase impossível, para um secundarista de uma escola pública de hoje, onde se avolumam os casos de graves agressões físicas a professores, entender a rigorosa disciplina nas salas de aula e o extremo respeito predominante nas relações entre mestres e alunos.

A trajetória de qualidade, que começava no primário, terminava com o colegial. Com número de vagas insuficientes, as faculdades, quase todas também públicas, não conseguiam atender a todos os aprovados nos vestibulares, surgindo, então, o fenômeno dos excedentes.

A tentativa de solução veio a partir da implantação do regime militar no país, em abril de 1964, com a expansão dos grupos privados de ensino, cujo avanço em todas as áreas e faixas, aconteceu proporcionalmente à deterioração do ensino público, especialmente o fundamental.

O status do aluno, que antes representava a capacidade de aprender, transformou-se em status financeiro, ou seja, capacidade, para arcar com a mensalidade escolar.

Como mostramos nas páginas seguintes, a estagnação do ensino não dá sinal algum de que vá ser revertida proximamente. Uma das condições para que isso venha a acontecer é a rigorosa obediência ao Plano Nacional de Educação.

Ocorre que o Plano anterior, que vigorou de 2001 a 2010, considerado ambicioso demais, tinha 295 metas, cuja grande maioria não se concretizou.

O atual, para o período 2011-2020, apesar de mais modesto, com apenas 20 metas, já deveria ter entrado em vigor, mas nem sequer começou a ser analisado pela Câmara dos Deputados.

Universalização da educação infantil: solução ou armadilha?

Gustavo Ioschpe, Revista Veja

"Os ganhos para o país com a eliminação do analfabetismo serão muito maiores do que aqueles oriundos da universalização da pré-escola. Essa é a batalha que temos à nossa frente. Admitir distrações é quase um crime" - Gustavo Ioschpe

Mila Saastamoinen/Getty Images
Lá funciona porque todos os outros problemas educacionais foram resolvidos também

Os últimos anos têm visto o florescimento de uma vasta literatura científica, multidisciplinar, que demonstra o incrível poder que os primeiros anos de vida de uma pessoa têm na determinação de uma série de fatores — da saúde à riqueza — de sua idade adulta. À medida que a pesquisa avança, nota-se que a idade para o surgimento de características importantes vai retrocedendo: sabe-se hoje que eventos da vida intrauterina têm impactos que perduram até a morte.

Esse avanço do conhecimento vem embasando uma mudança de políticas públicas, especialmente nos países desenvolvidos, no sentido de intervir cada vez mais cedo, com especial atenção às crianças de famílias mais vulneráveis. O primeiro esforço em muitos países tem sido começar o processo educacional já na pré-escola, atendendo crianças de 4 e 5 anos. O impacto positivo da pré-escola é amparado por literatura científica extensa. Estudos feitos no Brasil demonstram que alunos que cursaram a pré-escola têm desempenho acadêmico melhor do que aqueles que não a cursaram. Essa diferença persiste por todas as séries, e aparece também em exames padronizados como o Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb). Alunos que têm melhor desempenho tendem a gostar mais da escola e, portanto, são menos propensos a abandoná-la. Alunos que cursaram a pré-escola têm maior probabilidade de completar o ensino superior. O impacto positivo vai além da vida escolar e se estende à idade adulta. Um estudo feito no Brasil mostra que aqueles que passaram pela pré-escola têm salário 16% mais alto do que alunos que não a cursaram. Estudos americanos demonstram que a frequência à pré-escola aparece associada à diminuição das taxas de criminalidade.

Por todos esses benefícios, vários países, entre eles o Brasil, vêm cursando o caminho da universalização da educação infantil, especialmente na idade da pré-escola — antes dela vem a creche, cujos efeitos educacionais aparentam ser nulos. O Brasil avançou bastante nesse terreno. Aproximadamente 78% das crianças brasileiras estavam na pré-escola em 2009. Usando o critério da Unesco, que permite fazer comparações internacionais, tínhamos 65% de taxa de matrícula, número elevado, comparável ao de vários países líderes em educação.

Há, porém, uma diferença fundamental entre o esforço de universalização da educação infantil no Brasil e nos países desenvolvidos, onde esse movimento se deu depois de satisfeitas todas as necessidades basilares de sua educação escolar. No Brasil ele está sendo usado (e vendido à opinião pública) como a bala mágica para todas as deficiências do sistema educacional, em especial as relacionadas à alfabetização.

A experiência internacional demonstra claramente a falácia desse argumento. Nenhum dos países que deram saltos educacionais importantes nas últimas décadas teve a universalização da pré-escola como conquista anterior a êxitos na alfabetização e no ensino de modo geral. Em 1975, por exemplo, a taxa de matrícula na pré-escola na Finlândia era de 32%, na Noruega, de 13%, na Coreia do Sul, de 3%, e na Inglaterra, de 21%. Mesmo em 1980, quando muitos desses países já começavam a dar importantes sinais da melhoria de sua educação, nenhum deles punha nem metade da população na pré-escola. Na Finlândia, até há pouco o país com o melhor sistema educacional do mundo, a taxa de matrícula na pré-escola ainda em 1990 era de 33%. Vem da China o exemplo mais claro de que a pré-escola é útil, mas não chega a ser condição indispensável de sucesso para o funcionamento do sistema educacional como um todo. Em 2008, a taxa de matrícula de crianças chinesas na pré-escola era de 44%. Um ano depois, a China já liderava mundialmente o exame Pisa, que mede o conhecimento dos jovens aos 15 anos, sem tempo hábil, portanto, para que se verificasse algum benefício da pré-escola nesse fenomenal desempenho.

A expansão da pré-escola vem ganhando força no Brasil também porque os políticos gostam de inaugurar escolas e anunciar a criação de vagas. “Mas, se os efeitos da pré-escola são positivos, que mal há nisso?” O argumento é bom, mas pode ser ruinoso se expandir a pré-escola significar deixar de lado as lutas pela melhoria do ensino fundamental. A realidade mostra que existe esse risco. Em qualquer organização da iniciativa privada, por exemplo, há sempre dezenas de projetos com retorno positivo que podem ser perseguidos, mas as organizações exitosas implementam apenas um número muito pequeno dessas oportunidades. As escolhas precisam ser feitas, por uma questão de estratégia e foco. Nem sempre há tempo e/ou recursos humanos suficientes para fazer tudo — e tudo benfeito. É preciso, então, priorizar aquilo que é mais importante e dá maior retorno. As organizações públicas e educacionais têm as mesmas limitações que qualquer organização humana, mas, no Brasil, acham que podem (e devem) fazer tudo ao mesmo tempo, e que conseguirão fazer tudo bem. É um engano.

Precisamos fugir da armadilha da expansão do ensino para o nível infantil por duas razões. A primeira é conceitual: há mais de dez anos, com a universalização do acesso ao ensino fundamental, nosso problema maior deixou de ser a quantidade (matrículas, vagas ou falta de verbas) para se tornar a qualidade da educação, que se traduz em melhoria da aprendizagem. Mas as reformas que produzem qualidade requerem esforços, brigas com as corporações do ensino, interferência nas universidades, fim do loteamento político de cargos. Enfim, uma série de medidas que são tão importantes para o povo brasileiro quanto desagradáveis para nossos políticos e muitos professores e funcionários escolares incompetentes. Por isso, não conseguimos ainda, como país, fazer essa migração e focar na qualidade. Assim, continuamos aparecendo nas últimas posições de vários indicadores globais de educação. Já há relativamente pouco que se possa fazer, quantitativamente, pelo ensino fundamental. Se, como sociedade, conseguirmos fazer com que nossos líderes se atenham a esse nível e não escapem das batalhas que importam, teremos verdadeiros e importantes avanços. Se, porém, perdermos o foco e deixarmos que as atenções se voltem para a tenra infância (hoje os de 5 anos, daqui a pouco os de 3...), perderemos mais dez ou quinze anos até finalmente descobrirmos que, ops!, apesar de todos os progressos na pré-escola, nossos alunos continuam chegando à 4ª série sem saber ler nem escrever.

A segunda razão é objetiva. Temos uma enorme e urgente batalha a travar, quase vergonhosa: precisamos alfabetizar 100% de nossas crianças até a 2ª série. Essa precisa ser uma obsessão, pois sem essas fundações sólidas não há como erguer o edifício do conhecimento. O que a experiência internacional mostra é ser perfeitamente viável — aliás, é o normal — alfabetizar crianças que não passaram pela pré-escola, já na 1ª série. Os ganhos para o país com a eliminação do analfabetismo serão muito maiores do que aqueles oriundos da universalização da pré-escola. Essa é a batalha que temos à nossa frente. Admitir distrações é quase cometer crime de guerra.

P.S. — Faltou citar, no artigo do mês passado, uma área importante na qual os pais podem ajudar o desempenho escolar de seu filho, que é o aleitamento materno. Um estudo com alunos de 10 anos de idade que acaba de ser divulgado na Austrália mostra que aqueles que tiveram aleitamento materno por seis ou mais meses apresentavam desempenho acadêmico superior.
Pré-escola da Suécia

Perde a Embrapa, perde o Brasil

Rodrigo Lara Mesquita (*) - O Estado de São Paulo

No momento em que o País discute no Congresso Nacional a reforma do Código Florestal e enfrenta grandes desafios de planejamento, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) extingue, em Campinas, a sua única área de excelência em gestão territorial estratégica.

A Embrapa Monitoramento por Satélite foi criada há mais de 20 anos com a finalidade de ser um instrumento estratégico do Ministério da Agricultura e do Estado brasileiro em planejamento e monitoramento territorial.

A equipe do centro desenvolveu sistemas inéditos, baseados no uso de satélites, para monitorar queimadas e desmatamentos na Amazônia; controlar a febre aftosa na faixa de fronteira; avaliar o alcance territorial das mudanças introduzidas na legislação ambiental; mapear a irrigação no Nordeste, a urbanização nos municípios brasileiros e a expansão da agroenergia; monitorar o andamento das obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) em todo o País e outros estudos. A maior parte dos resultados inovadores dessas pesquisas e prestações de serviços está disponível no site da Embrapa Monitoramento por Satélite (www.cnpm.embrapa.br).

Tendo em perspectiva a Eco-92 e as questões relacionadas à gestão territorial estratégica da Amazônia, apoiei a instituição, criada em 1989 por determinação do presidente José Sarney, e contribui para seu crescimento por meio do Comitê Assessor Externo (CAE). Rapidamente o centro passou a fornecer informações para diversos órgãos da Presidência da República, para as diversas cadeias produtivas da agricultura, para a mídia, para organizações não governamentais e para a sociedade brasileira em geral.

Os dados à disposição em seu site chegaram a receber mais de 1 milhão de hits diário, com picos em lançamentos de resultados de projetos inovadores como O Brasil Visto do Espaço, O Brasil Visto em Relevo ou ainda Rio Demene - um caminho para a Amazônia. O centro passou a receber e a formar estagiários, bolsistas, mestrandos e doutorandos da Universidade de São Paulo, da Unicamp, da Unesp, da Unip e outras, além de participar de diversos projetos de pesquisa internacionais e bilaterais em sua área de atuação.

Em razão dessa história exemplar, ao prestar serviços e trazer soluções tecnológicas adequadas, competitivas e viáveis na temática da gestão territorial, o centro angariou reconhecimento público por seu trabalho, gerando em 2008 - enquanto a problemática em torno das questões de ordenamento territorial ainda constava do seu norte estratégico - 461 notícias sobre suas atividades, em 253 veículos distintos de imprensa no Brasil e no exterior. Esse processo culminou, em 2009, com a inauguração de suas modernas instalações pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, acompanhado de cinco ministros e autoridades do Judiciário e do Legislativo.

Em 20 anos de existência o centro gerou mais de uma centena de zoneamentos e sistemas de gestão e monitoramento territorial para a agricultura e o agronegócio, desde a escala local até a planetária. Foram mais de 100 mil mapas e publicações, e suas informações científicas beneficiaram milhões de usuários no Brasil e no exterior, além de mais de 2 mil parceiros e clientes diretos. Mapas mundi e do Brasil, gerados a partir de imagens de satélite pela área de Gestão Territorial Estratégica do centro, ainda decoram várias salas da presidente da República, do ministro da Agricultura e de autoridades do governo federal.

Com a mudança na direção do centro, no final de 2009, teve início um processo de paralisação de diversas atividades de prestação de serviços aos Ministérios da Agricultura, do Planejamento, aos órgãos da Presidência da República e às organizações da sociedade, acompanhada de uma pressão sobre pesquisadores que já rendeu um processo por assédio moral contra a atual chefia na Justiça do Trabalho. Em 2010, o centro deixou de utilizar mais de R$ 6 milhões disponíveis para o monitoramento de obras do PAC!

No início deste ano, a atual chefia tentou apagar o passado do centro, ao retirar do acesso público os resultados de cerca de 50 projetos e ações de pesquisa, num total de milhares de páginas. Os dados só retornaram ao site, dois meses depois, após intervenção do ministro Wagner Rossi. Ele atendeu aos reclamos de parceiros e usuários do site, numa movimentação que envolveu até o prefeito de Campinas em manifestação pública sobre o tema (http://www.campinas.sp.gov.br/noticias-integra.php?id=5111).

Essa ação destrutiva culmina agora com o desmonte injustificável da área de Gestão Territorial Estratégica e a destituição de sua liderança, efetivada sem nenhuma consulta prévia ao CAE, aos parceiros e beneficiários de seu trabalho na Casa Civil e no gabinete de Segurança Institucional da Presidência, em outros Ministérios e, principalmente, no da Agricultura.

É inacreditável a ousadia dos projetos pessoais de alguns e dos interesses escusos de outros, ao agir com a res publica como se fosse sua propriedade privada. Oxalá o governo federal e, em particular, o ministro Wagner Rossi e a presidente Dilma Rousseff saibam que o País não pode prescindir de um trabalho tão essencial para a defesa da agricultura brasileira, aqui e no exterior.

Se o ministro Rossi e a diretoria da Embrapa não reverterem esse descalabro do atual gestor do centro, serão no futuro responsabilizados pela sociedade civil pela perda de um precioso cabedal de gestão estratégica territorial. Por não compartilhar tal irresponsabilidade na gestão de um serviço estratégico para o Brasil, apresento publicamente minha demissão do Comitê Assessor Externo da Embrapa Monitoramento por Satélite.

(*) Jornalista, é Diretor Da Radiumsystems - Peabirus

Pastas citam novos serviços para defender locações

O Estado de São Paulo

Segundo a maioria dos ministérios procurados pela reportagem, falta espaço para abrigar na Esplanada as novas estruturas criadas nos últimos anos

Os ministérios argumentam que é necessária a locação de prédios para acomodar suas instalações. Procurados pelo Estado, alegaram que houve crescimento das pastas e, consequentemente, falta de espaço para abrigar na Esplanada as novas estruturas criadas nos últimos anos.

"Houve expansão das secretarias do ministério, além da necessidade de estruturar uma unidade para atender às demandas da Lei de Incentivo ao Esporte, como também para acomodar os novos servidores aprovados em concurso publico realizado em 2008", explicou o Ministério do Esporte.

Segundo o Ministério do Desenvolvimento Agrário, "o aluguel é necessário porque os espaços disponíveis no bloco A da Esplanada dos Ministérios e no Edifício Palácio do Desenvolvimento não são suficientes". A pasta citou uma série de áreas, entre elas a Coordenação Nacional das Delegacias Federais, a Secretaria de Agricultura Familiar, a Assessoria de Comunicação Social e o Núcleo de Estudos Agrário.

Já o Ministério do Turismo deu a seguinte explicação sobre os R$ 100 mil gastos mensalmente com aluguel de três andares de um prédio: "Nos últimos oito anos, houve aumento de serviços e da quantidade de servidores, o que gerou a necessidade de mais espaço. Como não foi possível viabilizar locais junto à administração federal, foi preciso realizar locações".

O Ministério do Desenvolvimento, da Indústria e do Comércio justificou a locação com a necessidade de transferência de servidores do Rio de Janeiro para Brasília. A Secretaria de Portos alegou que, por falta de salas na Esplanada, teve de recorrer a aluguéis num prédio comercial de Brasília. A mesma justificativa foi dada pelo Ministério de Desenvolvimento Social e pela pasta da Integração Nacional.

Segundo o Ministério da Cultura, a escolha do imóvel alugado no Parque das Cidades, por R$ 1,1 milhão mensais, "ocorreu após a divulgação de um edital e baseou-se no melhor preço apresentado". O Ministério das Cidades não respondeu às perguntas do Estado.

Inchaço cria ‘Esplanada oculta’ e gasto de R$ 100 milhões por ano para União

Leandro Colon e Tânia Monteiro, O Estado de São Paulo

Para acomodar estruturas administrativas de novos ministérios e um volume crescente de servidores, governo federal paga aluguéis exorbitantes

Em meio às dificuldades do governo da presidente Dilma Rousseff em passar a faca nas despesas de custeio, Brasília é hoje vitrine de um fenômeno de gastança descontrolada: as dezenas de imóveis alugados fora da Esplanada dos Ministérios para acomodar o inchaço da máquina administrativa. Levantamento do Estado mostra que prédios e salas, só do primeiro escalão do Poder Executivo, pagam pelo menos R$ 9 milhões mensais de aluguel. A chamada "Esplanada oculta" custa, no mínimo, R$ 100 milhões por ano, dinheiro suficiente para construir cerca de 2.700 casas do programa Minha Casa, Minha Vida.

O inchaço ministerial começou no primeiro mandato do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 2003. Ele recebeu 26 ministérios do governo Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), mas entregou 37 à presidente Dilma - que pretende criar mais dois: o da Micro e Pequena Empresa e o da Infraestrutura Aeronáutica.

Na acomodação das novas pastas e ampliação das antigas, o governo "coloniza" prédios fora da Esplanada desenhada por Lúcio Costa e costuma dispensar licitação para escolher os imóveis a alugar. A suntuosidade e o custo do aluguel dos prédios muitas vezes é inversamente proporcional à relevância política e econômica do ministério.

O caso mais evidente desse descompasso é o Ministério da Pesca e Aquicultura. A pasta da ministra Ideli Salvatti (PT) gasta R$ 575 mil por mês, num contrato de R$ 7 milhões por ano. Esse é o aluguel de um prédio espelhado de 14 andares, onde 374 servidores estão lotados. A ministra e 67 assessores nem ficam lá - dão expediente num prédio da Esplanada. Nos oito anos dos dois mandatos de Lula, os recursos da Pesca aumentaram mais de 70 vezes, de R$ 11 milhões para R$ 803 milhões, mas a produção nacional de pescado continuou em 990 mil toneladas.

O Ministério do Meio Ambiente tem sua sede própria na Esplanada, mas alugou um bloco inteiro num prédio para acomodar mais 800 funcionários. Para tanto, paga por mês R$ 530 mil.

O Ministério da Cultura gasta R$ 1,4 milhão com dois imóveis, embora também tenha sede na Esplanada. Caso parecido é o do Esporte, que aluga por R$ 185 mil mensais cinco andares de um prédio na região norte de Brasília, onde há 460 servidores.

O Ministério do Desenvolvimento Agrário tem à sua disposição um espaço no bloco A da Esplanada dos Ministérios e o prédio do Incra, mas alugou cinco pavimentos para ocupar 3,4 mil metros quadrados no Setor Bancário Norte de Brasília. O valor do contrato de locação é de R$ 128 mil por mês para abrigar 144 servidores. O ministério diz que o espaço é necessário porque não consegue "acomodar" os funcionários na Esplanada, cujos prédios têm nove andares.

Por R$ 100 mil por mês, o Ministério do Turismo, que tem dois andares na Esplanada, ocupa ainda três pisos de um prédio comercial. A pasta foi criada em 2003, mas em oito anos praticamente dobrou o número de servidores. Assim como no Turismo, a escolha dos imóveis para alugar é feita segundo o critério de cada ministério. A pasta das Cidades paga R$ 7,7 milhões por ano por um prédio inteiro.

A Secretaria de Portos não tem uma sala sequer na Esplanada. Para "existir", gasta R$ 191 mil por mês com salas em cinco andares de um edifício comercial na região central do DF. A poucos quarteirões dali, o Ministério de Desenvolvimento, Indústria e Comércio alugou um espaço por R$ 62 mil. Entre 2009 e 2010, 400 novos funcionários foram empregados na pasta.

Cerca de 900 funcionários do Ministério do Desenvolvimento Social estão distribuídos por três prédios alugados por R$ 481 mil mensais. A Advocacia-Geral da União (AGU) tem sede própria num prédio fora da Esplanada, mas locou outro imóvel por R$ 1,3 milhão mensais. A pasta de Direitos Humanos ocupa três andares de um prédio novo. O aluguel para acomodar 450 funcionários custa R$ 575 mil.

O número de empregados pela União aumentou em 204 mil ao longo dos oito anos do governo Lula, segundo dados do Ministério do Planejamento. Os gastos anuais com a folha federal saltaram de R$ 75 bilhões, em 2002, para R$ 179,5 bilhões em 2010, um crescimento de 139,3%.

Aposentadoria custosa e desigual

O Estado de São Paulo

Em 2010, a cobertura do déficit do sistema de aposentadoria dos funcionários públicos federais consumiu R$ 51,248 bilhões dos tributos pagos pelos contribuintes. Essa assustadora quantia equivale ao ajuste prometido pelo governo para evitar a deterioração das contas fiscais e reduzir as pressões sobre a demanda interna, que tem alimentado a inflação. Mas, apesar de suas dimensões, o rombo de 2010 não é o aspecto mais preocupante do desequilíbrio do regime de previdência do servidor federal: o pior é que, se nada for feito, o déficit continuará a crescer, impondo ônus ainda maior aos contribuintes, atuais e futuros.

Em 2010, os funcionários federais contribuíram com R$ 22,5 bilhões para o seu sistema previdenciário, mas as despesas com benefícios somaram R$ 73,7 bilhões, como mostrou o Estado na sexta-feira. A diferença, coberta pelo Tesouro Nacional, é 9% maior do que o déficit de 2009. Mantidas as regras atuais, pelas quais o servidor se aposenta com vencimentos integrais, mas não recolhe o suficiente para garantir atuarialmente esse benefício, os gastos do regime público de previdência federal continuarão a crescer bem mais depressa do que suas receitas - e esses encargos serão transferidos automaticamente para o contribuinte.

Já o déficit do Regime Geral de Previdência Social, que atende os inscritos no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), de R$ 42,89 bilhões no ano passado, foi praticamente idêntico ao registrado em 2009, de R$ 42,87 bilhões. Em valores reais, isto é, descontados os efeitos da inflação, o déficit diminuiu 4,5%. A melhora deveu-se ao aumento do emprego formal observado no ano passado, que fez as receitas do INSS crescerem mais depressa do que cresciam nos anos anteriores.

Não são apenas a estabilidade do déficit do INSS e seu valor bastante inferior que diferenciam a situação do Regime Geral de Previdência do regime próprio dos servidores. Há uma notória desigualdade de tratamento entre os funcionários públicos inativos e os trabalhadores da iniciativa privada que se aposentam.

Embora seu déficit seja 19,5% maior do que o do Regime Geral, o regime próprio do funcionalismo federal beneficia um número muito menor do que o de aposentados e pensionistas do INSS. São 949.848 servidores aposentados, um número 96% menor do que o de segurados do Regime Geral, de 24 milhões de pessoas.

No ano passado, o déficit por funcionário aposentado foi de R$ 53.950, enquanto o déficit por aposentado do INSS ficou em R$ 1.787. Isso quer dizer que, para o contribuinte, cada funcionário aposentado custou nada menos do que 2.900% mais do que o aposentado pelo Regime Geral de Previdência Social. Também essa diferença tende a aumentar, caso as regras para a aposentadoria dos servidores não sejam alteradas, para torná-las menos onerosas para o contribuinte e menos injustas em relação aos demais aposentados.

A Emenda Constitucional n.º 41, de 2003, instituiu a previdência complementar do servidor público, em todos os níveis de governo. Na esfera federal, a criação desse regime complementar foi proposta pelo governo em 2007, mas o projeto está parado na Comissão de Trabalho, Administração e Serviço Público da Câmara dos Deputados.

O objetivo central do projeto é limitar a cobertura do regime próprio do funcionalismo, que atualmente equivale à remuneração total do servidor, ao teto que se aplica aos aposentados pelo INSS, hoje de R$ 3.689,66.

Se quiser receber benefícios maiores do que o teto, o servidor terá de contribuir adicionalmente para isso. Mas o fará num regime diferente do atual, chamado de "benefício definido", pelo qual ele sabe de antemão quanto receberá na aposentadoria (o valor de seu vencimento total), independentemente do valor da contribuição que fizer ao sistema. O regime proposto é o de "contribuição definida", no qual o servidor define quanto quer contribuir para sua aposentadoria, dentro dos limites legais, mas o benefício dependerá das aplicações feitas com seu dinheiro pelo fundo que ficará encarregado de administrá-lo.

Quanto mais depressa o Congresso aprovar essas mudanças, menores serão os custos para os contribuintes.

Em petição de miséria

Dora Kramer - O Estado de São Paulo

O partido já foi influente e essencial: dividiu o poder com todos os governos da ditadura até a eleição de Lula e teve papel decisivo para a redemocratização, quando abandonou a candidatura presidencial apoiada pelo regime militar e se aliou à oposição para eleger Tancredo Neves no colégio eleitoral de 1985.

De Arena mudou para PDS, tornando-se Frente Liberal (PFL) ao se juntar com o MDB de Ulysses Guimarães. Virou Democratas em 2007 com o plano de se modernizar e livrar-se do estigma da ditadura, mas deu errado. Hoje o partido se reúne em convenção extraordinária para juntar os cacos e tentar sobreviver à derrocada total.

O DEM que nesta terça-feira elege presidente o senador José Agripino Maia é um partido em petição de miséria: bancada minguante no Congresso, quantidade decrescente de interessados em se candidatar pela legenda, destituído de base social, sem perspectiva eleitoral para 2012, desprovido de seu tradicional combustível (o poder) e com a imagem marcada pela cena de sua última aposta política de fôlego - José Roberto Arruda - recebendo dinheiro ilícito exibida em rede nacional.

Uma trajetória ladeira abaixo para adversário nenhum pôr defeito. Uma situação que não encontra semelhança em nenhuma outra agremiação do atual quadro partidário: o PMDB reinventou-se depois da Nova República e sobreviveu; o PSDB manteve presença nos grandes centros e mal ou bem sobreviveu à perda da Presidência da República.

Mesmo o PT, que em determinado momento pareceu soçobrar sob os escombros de um escândalo mais detalhado e abrangente que o vídeo que detonou Arruda, sobreviveu, reelegeu um presidente e elegeu a sucessora.

O que houve, então, com o DEM? Uma série de coisas. Um partido não tem morte súbita, definha.

No segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso, o ainda PFL rompeu com o governo. Na eleição presidencial seguinte lançou candidatura própria, fulminada pela exibição de fotos do dinheiro de origem (até hoje) não explicada encontrado pela Polícia Federal na empresa Lunus, de propriedade da candidata Roseana Sarney.

O partido, sempre exímio na arte de compor e articular, brigou feio com o ex-parceiro PSDB. Afastou-se de seu eixo habitual.

Antes disso havia sofrido o revés da morte do deputado Luís Eduardo Magalhães, a aposta do PFL para o futuro.

Em 2001, começa a derrocada de Antonio Carlos Magalhães, o grande morubixaba do pefelê. Em 2002, Lula se elege e a partir daí o partido inicia um processo de perda dos grotões para o PT. O PFL sempre atuou com força em Estados mais dependentes dos instrumentos de governo.

Ao passar a ser oposição, perdeu os meios. Com eles, o eleitorado e um público até então relativamente cativo, o grande empresariado, que se associa ao governo do PT.

Sem poder, com as lideranças abaladas e carente de sustentação social, em 2007 o partido tenta se reinventar.

O então presidente, Jorge Bornhausen, escolheu para substituí-lo o deputado Rodrigo Maia: jovem, filho do prefeito do Rio de Janeiro, César Maia, representaria a renovação e ainda poderia reforçar a posição do partido, já de nome novo (Democratas), no Sudeste.

Além disso, Rodrigo nascera no Chile durante o exílio do pai - ninguém poderia jamais associá-lo à ditadura, um fator que segundo o entendimento de Bornhausen pesava de forma crucial contra o partido.

Na concepção dele, Gilberto Kassab em São Paulo poderia representar a consolidação nas duas maiores cidades do País.

Para não nos alongarmos em detalhes, o resumo do fim da ópera: o PMDB tomou conta do Rio, por meio de Sérgio Cabral, Kassab foge da massa falida preocupado com o próprio futuro e Rodrigo Maia revelou-se um dirigente imaturo.

Arrumou mais brigas que alianças, tirando o partido de vez de seu eixo original. Além disso, sua principal aposta no cenário nacional era José Roberto Arruda, o responsável pelo golpe fatal e a perda total do rumo e do prumo.

A entrega do DEM a Agripino Maia, representante da antiga geração, significa que o partido dá um passo atrás para tentar retomar a caminhada e, sobretudo, o senso de direção.

Se Aécio quer fazer oposição séria, precisa começar a seriedade consigo próprio

Ricardo Setti, Veja online

Aécio com Letícia:
político sério não pode fazer propaganda de empresa

O ex-governador, senador (PSDB-MG) e possível presidenciável em 2014 Aécio Neves anuncia uma oposição “rigorosa” e “fiscalizadora” ao governo Dilma, assim que a presidente completar 100 dias no poder — o que ocorrerá a 10 de abril, um domingo.

Enquanto isso, como ninguém é de ferro, o senador se esbaldou no Carnaval no Rio. E circulou na Feijoada do Amaral com a namorada, a modelo e estilista Letícia Weber, envergando a camiseta de uma marca de cerveja.

Altamente inapropriada, aliás, para quem pretende, entre outros objetivos, moralizar as práticas do governo federal: Devassa.

Aliás, inapropriado é um político de peso e visibilidade, que se pretende sério, fazer propaganda de empresa, de qualquer empresa, em pleno Carnaval.

É ótimo termos um político, como Aécio, que gosta da vida, gosta de se divertir, esbanja simpatia e tem uma legião de amigos por toda parte.

Mas para tudo há limite. A camiseta da cerveja foi um absurdo.

Se Aécio quer fazer oposição séria, é preciso adotar algumas medidas de seriedade consigo próprio.

Tolerância com a inflação

Carlos Alberto Sardenberg - O Estado de S.Paulo

O Banco Central (BC), conforme a Ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) divulgada na semana passada, escolheu o cenário mais otimista. Mas há aqui uma questão. Terá o BC sido convencido pelos números ou teria antes decidido ser otimista e, a partir daí, escolhido os números que coubessem?

Uma dúvida razoável. Tem implicações políticas. Ser otimista, no caso, e bem resumido, significa acreditar que a inflação vai cair sem a necessidade de uma alta mais forte da taxa básica de juros e sem um corte de gastos mais expressivo do governo. Segurar juros e ter espaço para gastar - eis algo que interessa a qualquer governo, muito especialmente ao de Dilma Rousseff.

O que leva a uma segunda questão: estaria o BC de Alexandre Tombini, seu presidente, mais alinhado com a política do governo, a ponto de sacrificar sua autonomia operacional?

O precedente recente do BC é negativo. Em junho do ano passado, quando a campanha presidencial esquentava, o BC interrompeu abruptamente um processo de alta de juros que havia sido anunciado e antecipado por seus próprios documentos.

Na ocasião, o então presidente do BC, Henrique Meirelles, alinhou uma série de dados para sustentar a tese de que a economia brasileira já estava em forte desaceleração e que isso logo levaria à queda da inflação - sem a necessidade de mais altas na taxa básica de juros.

Nasceu daí um bom debate. Poucos, pelo menos em público, levantaram a hipótese de que a atitude do BC havia sido eleitoral - não elevar a taxa básica num momento em que o candidato da oposição, José Serra, tinha no ataque aos juros um dos motes de sua campanha. Dado o excelente retrospecto de Meirelles, a maioria dos analistas procurou o debate técnico.

(Abertura: este colunista levantou a hipótese eleitoral em dois artigos, aqui neste espaço, em 26/7/10 e 2/8/10. Podem ser lidos em www.sardenberg.com.br, no item Política Econômica.)

Algumas consultorias e departamentos econômicos de bancos se alinharam inteiramente com o BC. Uma delas escreveu, em 10/8/10: "Qualquer que seja a decisão do Copom em 1/9/10 - derradeiro aumento da Selic ou nada -, avaliamos que a chance de a conjuntura vir a demandar outra rodada de ajuste significativo na política monetária em 2011 claramente não prepondera. Há vários fatores - como os efeitos defasados do aperto monetário; o efeito contracionista, na margem, da política fiscal; e o reajuste real baixo que se prevê para o salário mínimo em 2011 - que sugerem ser reduzido o risco de a atividade econômica vir a se reaquecer a ponto de colocar em risco o controle da inflação".

Naquela reunião citada, o Copom aumentou os juros em meio ponto porcentual, para 10,75% ao ano, e indicou que o ciclo de alta estava encerrado. Até julho, acreditava-se, inclusive no próprio BC, que a taxa precisaria subir a 12% para conter o surto inflacionário.

O que aconteceu? A economia brasileira de fato estava desacelerando, mas um caminhão de outros fatores indicava que o aquecimento do consumo continuava forte - como a farra de gastos do governo e de concessão de crédito via bancos públicos - e que a inflação se espalhava, não sendo "apenas" uma circunstância ocasional dos preços exagerados de alimentos.

Ou seja, a visão do BC e de seus aliados, depois de junho, estava equivocada. Era torcida. Estava certa a visão vigente anteriormente, que alertava para o grave descompasso entre consumo maior e produção menor. A inflação fechou 2010 na casa - elevada - dos 6%, continua rodando nesse ritmo e, só pelo embalo, deve subir ainda mais, podendo ultrapassar o teto da margem de tolerância, que é de 6,5% (a meta central é de 4,5%).

Em dezembro, esse mesmo BC, ante a inflação escancaradamente em alta e disseminada, disse que os juros precisariam subir de novo - o que começou a ser feito na primeira reunião do Copom da era Dilma, em janeiro último.

Depois de duas altas, a taxa básica está em 11,75%. E a situação se repete. No mercado, o consenso indica que essa taxa deveria subir para 12,5%, de modo a trazer a inflação para perto da meta só em 2012. E isso se o governo de fato contiver os seus gastos e reduzir os repasses a bancos oficiais, especialmente o BNDES. Ou seja, um cenário com muitas dúvidas.

Pois o que diz agora o BC? Que, de fato, a inflação vai ficar alta na maior parte deste ano, na casa dos 6%, mas que começa a cair no último trimestre, segue caindo em 2012, chegando na meta (os 4,5%, anualizados) apenas no finalzinho desse próximo ano. Isso sem precisar do aperto maior nos juros e confiando que o corte de gastos já anunciado e o ajuste comedido do salário mínimo são suficientes para barrar a "farra fiscal".

Não é mesmo uma argumentação parecida com a de julho passado? É bem otimista por isso. Acredita que o melhor vai acontecer assim, na manha. Mas hoje é maior a possibilidade de que o governo não cumpra a meta de corte de gastos e que continue estimulando os empréstimos dos bancos públicos. E já está contratado um aumento de 14% para o mínimo em janeiro do ano que vem.

Tudo considerado, o BC está nos dizendo que podemos conviver com dois anos seguidos de inflação a 6% (ou mais) e isso numa economia ainda com muita indexação formal e informal.

Está prevalecendo a tese Mantega: um pouco de inflação não faz mal; vamos crescer, que tudo se ajeita no final. Como em julho do ano passado. E se você é assalariado, anote: qualquer reajuste menor que 6% é perda de dinheiro, inclusive na Tabela do Imposto de Renda.

E a quadrilha comemora

Carlos Brickmann

Anote o número: Lei 12.390, de 3 de março de 2011. A lei, aprovada pelo Congresso e sancionada pela presidente Dilma Rousseff, institui o Dia Nacional do Quadrilheiro Junino, a ser comemorado em todo o Brasil em 27 de junho.

A lei é precisa ao definir o que é um Quadrilheiro Junino: "Considera-se Quadrilheiro Junino o profissional que utiliza meio de expressão artística cantada, dançada ou falada transmitido por tradição popular nas festas juninas". E determina: "Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação. Brasília, 3 de março de 2011, 190º da Independência e 123º da República". Assinam Dilma Rousseff, presidente da República, Carlos Lupi (ministro do Trabalho) e Anna Maria Buarque de Hollanda (irmã de Chico Buarque e ministra da Cultura).

Agora vai: com esta iniciativa pioneira, que exigiu a participação do Congresso e de dois ocupadíssimos ministros de Estado, inicia-se a temporada de realizações da presidente Dilma Rousseff. A Quadrilha, sempre tão criticada, sempre tão atacada, embora tão popular, finalmente encontra um lugar ao sol.

É importante lembrar, entretanto, que no dia 27 de junho, conforme a Lei nº 12.390, será homenageado apenas o Quadrilheiro Junino - aquele que toca sanfona, em volta de fogueiras, enquanto todos se servem de comidas típicas. Os demais quadrilheiros, juntamente com suas quadrilhas, continuam tendo à sua disposição todos os demais dias do ano.

E a conta?
A propósito, como se chegou ao 190º ano da Independência? De 7 de setembro de 1822 até hoje, passaram-se 188 anos e seis meses. Arredondando, pode-se chegar a 189. Já 190 - quem terá feito a conta, o ministro Mantega?

Da Pátria a guarda
José Genoíno, do PT paulista, batido nas eleições, réu no Supremo, virou o jogo graças a um ex-presidente do Supremo; foi nomeado assessor especial do ministro da Defesa, Nelson Jobim. Somando o salário à aposentadoria que recebe como deputado que não se reelegeu, dá tanto dinheiro que supera o teto salarial do Governo e o obriga a devolver uma parte. Fica só com R$ 26.723,13 por mês.

É devagar é devagar devagarinho
Esta coluna acertou em cheio: o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, pediu ao Supremo a abertura de inquérito para investigar a deputada federal Jacqueline Roriz (PMN - Brasília), filha do ex-governador Joaquim Roriz. Em vídeo de 2006, agora divulgado, ela aparentemente recebe dinheiro de Durval Barbosa, que fez parte do esquema brasiliense de propinas, gravou entregas de dinheiro e acabou delatando seus companheiros. A aceitação do pedido do procurador fará com que todos os processos relativos ao caso sejam levados ao Supremo, começando tudo de novo. E o tempo passa.

Em frente, Jacqueline!
Jacqueline Roriz anunciou que vai deixar a Comissão de Reforma Política da Câmara Federal. E como seria bom se ela deixasse todas as comissões!

Tudo resolvido
Tremei, grandes potências! Venezuela, Cuba, Equador, Nicarágua e Bolívia criaram uma Comissão de Mediação para buscar uma solução pacífica na Líbia.

Os mais longos dos dias
O blogueiro Ricardo Setti (http://veja.abril.com.br/blog/ricardo-setti/), além de talentoso, tem ótima memória. Lembra que, em 7 de fevereiro, a Agência Brasil, oficial, informou que a Comissão de Ética Pública da Presidência analisaria na semana seguinte o parecer do relator do caso Erenice Guerra - ela foi a principal auxiliar da ministra Dilma Rousseff, e mandava chover e fazer sol. "A partir da apresentação do relatório, Erenice Guerra terá dez dias para apresentar defesa". Setti faz os cálculos: a semana seguinte iria de 14 a 18 de fevereiro. De 18 de fevereiro em diante, os dez dias terminariam antes do Carnaval. O prazo passou, o Carnaval acabou, e até agora não apareceu nenhuma informação sobre como está o caso, ou qual foi a defesa de Erenice. Como fica?

O nosso dia
O advogado Sérgio Tannuri, especializado em Direito do Consumidor, de larga experiência em brigas com fabricantes e comerciantes menos éticos, não nos deixa esquecer: na terça, dia 15, comemora-se o Dia Internacional do Consumidor (e, no dia 11, o Código de Defesa do Consumidor fez 20 anos no Brasil). É data a festejar: se hoje ainda é difícil enfrentar as empresas que não cumprem suas obrigações ("vamos estar anotando"), antes era muito pior.

Paulinho tem força
O deputado federal Paulo Pereira da Silva (PDT - SP), que se elegeu com o nome de Paulinho da Força, foi condenado por improbidade administrativa e irregularidades na aplicação de R$ 2,85 milhões de verbas do Banco da Terra. A pena é de multa de R$ 1 milhão, mas Paulinho ainda não precisará pagá-la: a decisão é de primeira instância e ele pode recorrer. Coincidência interessante: dois dias depois da condenação, Paulinho foi recebido em palácio pela presidente Dilma Rousseff, que o elogiou e fez questão de tirar fotos com ele.

Importações já inibem nível de emprego na industria

Josias de Souza, Folha.com

Folha

O Iedi (Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial) levou à web análise sobre o comportamento do emprego na indústria brasileira.

Cita dado do IBGE: “O número de ocupados na indústria teve ligeira queda de 0,1% em janeiro com relação a dezembro”.

A queda de janeiro veio depois de uma evolução pífia do nível de emprego no setor industrial nos últimos cinco meses.

De agosto a dezembro de 2010, a evolução da taxa de ocupação na indústria foi a seguinte: 0,1%, 0,0%, 0,1%, 0,1%, –0,1%.

Diz o estudo: “Esse comportamento do emprego reflete o momento nada positivo pelo qual a produção industrial vem passando...”

“...Segundo os dados do próprio IBGE, [a produção] acumula retração de 2,6% no período de abril de 2010 a janeiro de 2011”.

O Iedi atribui o desaquecimento das caldeiras nacionais à profusão de produtos que chegam do estrangeiro:

“Como já está mais do que evidenciado, esse baixo desempenho do setor industrial se deve, em grande medida, ao volume crescente de importações que está deslocando e substituindo a produção doméstica”.

Os números, diz o estudo, “mostram um quadro bastante desfavorável para o emprego industrial nos últimos meses”.

“Os sinais para se traçar uma tendência do emprego neste início de ano não são animadores”.

Criado em 1989, o Iedi congrega 44 empresários de grandes empresas brasileiras. O conselho do instituto reúne alguns dos principais sobrenomes do baronato patronal.

A inundação de dólares continua

O Estado de São Paulo

Sobram dólares no mundo e a enxurrada de moeda americana continua forçando a valorização do real, para desespero dos exportadores e de outros empresários expostos à concorrência estrangeira. O real valorizado encarece os produtos brasileiros, dificulta as vendas ao exterior e estimula as importações. Para atenuar o problema, o Banco Central (BC) e o Ministério da Fazenda tentaram criar barreiras contra a inundação cambial, mas com sucesso limitado. Do começo de janeiro até 4 de março, o ingresso líquido (entradas menos saídas) chegou a US$ 24,36 bilhões, superando o de todo o ano passado, de US$ 24,35 bilhões. Desde janeiro economistas do governo vêm discutindo novas medidas para conter a valorização da moeda brasileira, mas a decisão é difícil, porque toda intervenção no mercado de câmbio tem efeitos colaterais e pode resultar em danos importantes para a economia.

O Ministério da Fazenda já procurou limitar o ingresso de dólares por meio da cobrança do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF). Em breve intervalo, o governo tomou duas medidas com base nesse tributo, num esforço para desencorajar as aplicações especulativas. No começo de janeiro, o BC procurou reforçar essa política, impondo aos bancos um limite para suas posições vendidas. Com essa iniciativa, tentou-se desestimular as apostas na valorização da moeda nacional. Até abril os bancos terão de completar o ajuste de suas carteiras. Até o fim de fevereiro, pelo menos, o efeito dessa medida parece ter sido nulo.

As ações mais eficazes têm sido, aparentemente, as compras de moeda americana pelo BC. O regime de câmbio flutuante continua em vigor, mas a autoridade intensificou suas intervenções no mercado. Embora tenham entrado no País mais dólares do que em todo o ano passado, o câmbio pouco tem oscilado. Passou de R$ 1,664 por dólar no fim de 2010 para R$ 1,659 na última quinta-feira, com variação de apenas 0,3% entre as duas datas. No meio da tarde de ontem a cotação do dólar - R$ 1,667 - superava ligeiramente a do encerramento do ano passado.

Mas a intervenção do BC tem resultado numa enorme e custosa acumulação de reservas. O estoque de moeda estrangeira passou de US$ 288,58 bilhões em 31 de dezembro para US$ 311,05 bilhões em 9 de março, com variação de US$ 22,47 bilhões em pouco mais de dois meses. A aplicação desse dinheiro rende menos que o custo de sua manutenção. Esse dado pode não ser um argumento decisivo contra a acumulação de reservas.

Dólares em caixa podem ser um importante fator de segurança em tempos de crise e isso foi confirmado mais uma vez em 2008. Mas o custo não é desprezível e, além disso, a compra de dólares envolve a emissão de títulos para neutralizar a emissão da moeda necessária às operações. As intervenções produzem, portanto, importantes efeitos perturbadores.

Algo vai mal, de toda forma, quando a autoridade é forçada a intervir no mercado para conter um influxo indesejado de moeda estrangeira. Mas não há solução fácil para esse problema, e, além disso, o ingresso de moeda estrangeira também produz alguns efeitos benignos. A valorização cambial tem ajudado a conter a inflação, facilitando as importações e contribuindo para reduzir o desequilíbrio entre a demanda e a oferta agregadas. Além disso, o País precisa de dólares para cobrir o déficit na conta corrente do balanço de pagamentos. Mas os dólares mais desejáveis são os do investimento direto, não os da especulação ou do endividamento. Parte do ingresso, no entanto, corresponde a empréstimos tomados no exterior por empresas brasileiras.

Se o BC interromper a alta de juros, deixará de alimentar um dos fatores de atração de dólares. O recurso a outros meios para combater a inflação, como a limitação da capacidade de empréstimo dos bancos, poderá substituir em parte a política de juros.

Mas o BC continuará com pouca margem de ação, enquanto o governo continuar gastando mais do que deveria e contribuindo, portanto, para inflar a demanda. Para mudar esse quadro, o Executivo precisará, quase certamente, cortar de suas despesas mais que os R$ 50,1 bilhões anunciados há pouco tempo.

Carnaval do Brasil ou Brasil do Carnaval?

Camilla Muniz, Opinião & Notícia

Relação entre a folia e a formação da identidade brasileira é via de mão dupla, garante especialista.

Nesta miscelânea de cores, músicas, cantos e danças é onde reside
 a importância do Carnaval para os brasileiros

De um lado, alegorias suntuosas, fantasias repletas de brilho e luxo e celebridades instaladas em disputadíssimos camarotes. De outro, subúrbios decorados com confete e serpentinas, sprays de espuma e a simplicidade de pessoas de todas as camadas sociais que tomam ruas e praças nesta época do ano. O que vem primeiro à cabeça quando se fala em Carnaval brasileiro?

Ainda que essas duas facetas da folia possam parecer divergentes à primeira vista, na verdade, elas têm muito mais do que o calendário em comum. Para a professora Helenise Monteiro Guimarães, vice-diretora da Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pesquisadora de cultura popular e Carnaval, a festa carnavalesca é um dos eventos que melhor traduz a riqueza e a multiplicidade das manifestações culturais do Brasil. Ao mesmo tempo em que o feriado mais aguardado e comemorado pela maioria do povo apresenta uma tendência cada vez mais clara de espetacularização — marcada pela competição e disputa no desfile das escolas de samba —, ele também conserva traços de festa popular e profana, com o ressurgimento de blocos, bandas, grupos de bate-bolas, afoxés, bailes carnavalescos de clubes e bailes gays.

“Ao longo do século XX, o Carnaval brasileiro foi divulgado no exterior como cartão postal nacional. A mídia teve papel fundamental nesta exposição, mas foram os indivíduos – brincantes, profissionais, turistas e o público em geral – que consolidaram o diferencial de nossa festa, exportada hoje para diversos países”, ressalta Helenise Guimarães, que também é jurada do desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro no quesito ‘Alegorias e Adereços’.

Caldeirão de cultura e símbolo do povo
Se hoje as agremiações competem entre si na avenida, a disputa em outros carnavais era com outro adversário. Quando as escolas de samba surgiram no Rio de Janeiro, ainda no final da década de 1920, o Carnaval privilegiava os bailes de gala, como o do Theatro Municipal. A demanda por sofisticação e elegância devia-se a um projeto das autoridades — como o prefeito Pereira Passos, famoso pelas grandes transformações urbanas que empreendeu durante seu governo — que visavam tornar a cidade atrativa para personalidades estrangeiras.

“O que marcaria a vitalidade das escolas de samba seria a luta por encontrar lugar em um cenário no qual primavam os bailes de gala”, explica a pesquisadora. “Se antes o Carnaval era uma festa estratificada, a escola de samba veio para integrar camadas sociais diferentes e se tornar, com o desfile, o elemento central do evento mais importante da cidade, tão emblemático que se transformou em um modelo copiado e revisto em outros estados”, completa.

Segundo Helenise Guimarães, foi a partir daí que se criou um modelo de Carnaval brasileiro. Nascido no Rio de Janeiro, o conjunto que gerou o que vemos atualmente se espalhou pelo país, ganhando características regionais. Nesse processo, tanto a identidade brasileira fabricou um Carnaval diferenciado dos demais realizados em outros paises quanto a essência carnavalesca contribuiu para a formação de nossa brasilidade.

“A contribuição do Carnaval para a ‘identidade brasileira’ é a de reafirmar nossa multiplicidade cultural e capacidade de reunir grupos de indivíduos de diferentes níveis socioeconômicos com a mesma força demonstrada, por exemplo, pelo futebol e a paixão de suas torcidas unificadas na grande competição que é a Copa do Mundo”, esclarece Helenise Guimarães.

É justamente nessa miscelânea de cores, músicas, cantos e danças que reside a importância — sociocultural, econômica, política, artística e histórica — do Carnaval para os brasileiros, garante a pesquisadora. “Este é o mistério que cerca a nossa grande festa: a soma da sensualidade de rainhas, o suor de ritmistas e a grandiosidade plástica de alegorias, mas também o mar de multidões que tomam conta das ruas, dos coretos dos bairros ainda existentes e dos bailes que atravessam as madrugadas, para tudo ultrapassar – sempre – a Quarta-feira de Cinzas”, filosofa.

Cisne negro, uma fantasia de Carnaval

Ruth De Aquino, Revista Época

O filme “Cisne negro” incomoda, não é para todos. Tem a ver com delírio, transgressão e liberdade

Se tivéssemos de adivinhar qual fantasia faria mais sucesso nos blocos de rua neste ano, apostaríamos no cisne branco ou no cisne negro? Nenhum dos dois, provavelmente. O filme que deu o Oscar a Natalie Portman remete muito mais ao terror e à dor que à alegria e à leveza do Carnaval. Mas muitas moças – e rapazes – se travestiram de cisne. O preferido não foi o bonzinho. E sim o cisne maquiavélico, lascivo, misterioso. Isso quer dizer alguma coisa. O cisne negro foi escolhido por ser mais sedutor.

Acho que só eu ainda não tinha visto o filme de Darren Aronofsky que dividiu a crítica entre os que amaram, odiaram e não entenderam. Não estava preparada para o impacto que Cisne negro me causou. Dancei balé clássico sete anos. Os dedos dos pés ficavam feridos com a sapatilha de ponta, por mais esparadrapos, plumas e truques a que eu apelasse. A música, os ensaios, a coreografia, tudo era paixão e valia a pena. Mas o Cisne negro não me sequestrou por aí.

O som hipnotizante de Tchaikovsky. A fotografia, os efeitos especiais, os closes e o uso excepcional de dublês. As exigências do coreógrafo. Os labirintos mentais de Nina (Natalie). Tudo me pareceu verossímil por retratar a dualidade de todos nós e a busca da plenitude. Por que se preocupar com o que é ou não fantasia? O filme é genial por ser um turbilhão, belo, forte e sensual. O diretor não separa o simbólico do real. E não tem a menor importância. No fim, eu via os créditos sem enxergar, com a respiração ofegante. Não pelo sangue ou pela pergunta estéril – morreu ou não morreu? Mas pela força transformadora do roteiro, pela sombra fictícia das asas negras no palco.

Conversei com nossa prima ballerina Ana Botafogo, que assistiu ao filme duas vezes: “O diretor usou o universo do balé como apoio por ter disciplina rigorosa, egos e emoção à flor da pele. Só receio que o filme leve pais e crianças a achar que os exageros são reais, as drogas, a bissexualidade. Como em toda profissão desafiadora, no balé há cisnes brancos, há cisnes negros e há os que surtam”. O desempenho de Natalie como bailarina foi elogiado por Ana: “Ela fez eximiamente as tomadas da cintura para cima. No conjunto de braços, colo e pescoço, conseguiu uma harmonia impossível numa bailarina não profissional, mesmo tendo estudado dois anos para o papel. A trucagem com os dublês, para o trabalho de pés e piruetas, é muito caprichada. Cheguei a me confundir na primeira vez em que vi o filme”.

Só depois de assistir a Cisne negro, li sobre ele. Valorizou-se demais a rivalidade entre mãe e filha – comum em quase todo divã. Cada um vê o que lhe toca mais: a competição, a automutilação, a ânsia de perfeição. Há o time dos implicantes com Natalie. Acham que “a expressão dela é sempre a mesma no filme”. Ela estava arrebatadora no papel de uma jovem confusa, sozinha, virgem e imatura que quer ser perfeita a todo custo. E surta.

Cisne negro incomoda. É um thriller psicológico sadomasoquista, um gênero que não é para todos. Não dá para levar a sério quem diz: “Não gostei do filme porque é exagerado”. É como não gostar de uma ópera “por ser dramática”. Ou não gostar de A single man (título patético no Brasil: Direito de amar), de Tom Ford, porque só percebeu no cinema, tarde demais, que o protagonista era homossexual e o roteiro era sobre gays. Veludo azul e Cidade dos sonhos, ambos de David Lynch, são ruins por serem confusos, doentios? Esses filmes são alucinações. Não se exige compromisso com a lógica ou o comedimento. Quem deseja mergulhar num cristalino Lago dos Cisnes deve evitar a turbulência de Cisne negro, porque se sentirá ludibriado.

A frase que mais me marcou foi a do coreógrafo para a bailarina: “Perfeição não é só sobre controle; é também saber abandonar-se” . Técnica irrepreensível sem emoção deixa a desejar em qualquer profissão. É preciso deixar rolar, entregar-se, ser flexível e até imperfeito. Rir de si mesmo e de tudo. O cisne branco, com sua rigidez, parecia incapaz de relaxar e se divertir. O cisne negro era passional, imprevisível, com a centelha da loucura, e por isso tão sedutor. Os foliões escolheram a fantasia certa. Carnaval é uma festa pagã. Tem a ver com delírio, transgressão, máscaras e liberdade.

Sobre a virtude da coerência

Percival Puggina, ZERO HORA

"Não me cobres coerência. Não sou político, sou militante", diz-me um amigo. Quando FHC criou o Bolsa Escola, o Vale-Gás e sei lá mais o que, ele exclamava: "É um estadista! É um estadista!". Mas bastou Lula implantar o Bolsa Família para que passasse a fustigá-lo: "O cara perdeu a noção! Está comprando o voto dos pobres!". Diga-me, leitor: dá para aguentar tanta incoerência? Não é fácil, sei. Mas, como meu amigo diz de si mesmo, ele é apenas um militante. Não é presidente, nem governador, nem deputado. A incoerência de quem tem ou deseja ter responsabilidades de Estado ilude os incautos.

Lula oposicionista, em 2000, discursava assim sobre o Bolsa Escola e outros programas do seu famigerado FHC: "Lamentavelmente, no Brasil, o voto não é ideológico. E uma parte da sociedade, pelo alto grau de empobrecimento, é conduzida a pensar pelo estômago. E não pela cabeça. É por isso que se distribui tanta cesta básica, tanto litro de leite. Isso, na verdade, é uma peça de troca em época de eleição". Já Lula presidente, em 2009, vociferava: "Alguns dizem assim: o Bolsa Família é uma esmola, é assistencialismo, é demagogia. Tem gente tão imbecil, tão ignorante, que ainda fala: o Bolsa família é para deixar as pessoas preguiçosas porque recebem o Bolsa Família e não querem mais trabalhar". Aquele meu amigo, mencionado acima, não chega a tanto. Nem é tão grosseiro em suas incoerências. (N.A. - Assista em youtube.com/watch?v=o_VQyZcpTwQ as duas falas de Lula aqui transcritas).

Quem sair atrás encontrará outros tesouros dessa conduta assumida como estratégia para chegar ao poder. O homem e seu partido eram contra a nova Constituição, o Plano Real, o pagamento da dívida, o superávit fiscal, o agronegócio, os transgênicos, a abertura da economia, a desestatização, o Proer, a Lei de Responsabilidade Fiscal, o livre mercado. Se Itamar Franco e Fernando Henrique se tivessem curvado à cartilha deles a nação estaria cavoucando batata no campo para comer. Tem mais. Como as exigências do PT não eram atendidas, todos os antecessores de Lula foram submetidos a um linchamento moral. Tinham pacto com o demônio. Queriam que o povo sofresse. Devia ser gente que cuspia na cruz e afogava cãezinhos na banheira.

Aqui no Estado, fustigava-se o governo anterior por desatender os mínimos constitucionais para Educação e Saúde e por não adotar o Piso Nacional do Magistério como patamar inicial do Plano de Carreira. Não o fazia por quê? Por pura maldade, ora. Porque tinha prioridades indizíveis e intenções macabras. Agora, a roda do destino coloca-lhes nas mãos a caneta que poderia executar aquilo que exigiam. E o que se escuta? Escuta-se que os mínimos constitucionais e o piso do magistério serão implantados já em, digamos assim, 2014... É uma retórica que funciona deste modo: sob circunstâncias idênticas, eles deixam de fazer, alegando impossibilidades, as mesmas coisas que acusam os outros de não fazer por pirraça e malevolência. FHC criou o Bolsa Escola porque era do mal e Lula criou o Bolsa Família porque era do bem. Não faltam exemplos. Falta espaço. Mas não posso omitir este outro: antes, amaldiçoava-se a governadora por aumentar os vencimentos de duas dezenas de secretários. Agora, propõem criar centenas de cargos e encorpar os salários de outras tantas centenas de postos de confiança. Meu amigo aquele é ou não é um moderado da incoerência?

Dilma, lidando com ''o pós-Lula''

Pedro S. Malan - O Estado de São Paulo

A expressão "pós-Lula", por estranho que pareça, causa desconforto e mesmo irritação a muitos adeptos do lulopetismo. A princípio, não deveria ser assim. Afinal, é um fato inegável que "o cara" não é mais de jure e de facto o presidente da República há exatos dois meses e treze dias. Nesse sentido, a expressão "o pós-Lula" poderia, e deveria, ser entendida apenas como uma forma abreviada, e portanto melhor, de se referir ao "período que se segue ao término dos oito anos da administração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva". Simples assim. Factual e incontroverso, não?

Não, dizem lulopetistas que respeito. E é importante, a meu ver, tentar entender suas razões. Primeiro, porque veem no uso da expressão "pós-Lula" disfarçada ironia e inconfessáveis propósitos políticos, todos expressando veladas expectativas e obscuros desejos de que o ex-presidente pudesse "sair de cena", privando a sociedade brasileira de sua marcante presença, de seus conselhos, opiniões e lições de vida.

Vale lembrar que foi isso o que fez em 2003 o então - como ainda hoje - estrategista-mor do petismo (J. Dirceu), reagindo a um comentário público do então ex-presidente Fernando Henrique Cardoso: "Ele deveria estar calado em casa, de pijama e chinelos cuidando dos netos". Que eu tenha tomado conhecimento, ninguém sugeriu o mesmo a Lula. Que, por sinal, disse mais de uma vez que iria mostrar a todos "como deve se comportar um ex-presidente quando desencarna". Deixo ao eventual leitor imaginar a qual (ou a quais) ex-presidente(s) se referia Lula.

Há uma segunda razão para o desconforto e a irritação com a expressão "pós-Lula", por vezes interpretada como uma tentativa de excluir do rol das possibilidades futuras "o retorno" de Lula à Presidência da República em 2014 ou 2018 - o que exigiria sua constante presença e visibilidade nos meios de comunicação. Essa possibilidade de retorno certamente existe tanto para o principal estrategista do lulismo (o próprio Lula) quanto para o estrategista-mor do petismo. Tanto é assim que um dos mais fiéis escudeiros do ex-presidente, hoje ministro importante do governo Dilma Rousseff, já disse em entrevista que se a presidente Dilma fizer um bom governo será candidata à reeleição. Se não, o lulopetismo deverá ter Lula de volta em 2014 (ou 2018). Como falar em pós-Lula nesse contexto?

Há uma terceira, e talvez mais importante, razão para o desconforto e a irritação com o uso do termo "o pós-Lula": a visão de que este teria o propósito de tentar "desconstruir" o governo Lula, chamando a atenção para alguns de seus legados e heranças mais problemáticos. A administração da presidente Dilma Rousseff estaria obrigada - ainda que pisando em ovos - a lidar com tais legados e heranças nos primeiros meses e anos de seu mandato.

A nova presidente começou bem seu governo em algumas áreas, marcando claramente - falemos com franqueza - suas diferenças com a herança recebida dos anos Lula. Dois exemplos, visíveis a olho nu: primeiro, as anunciadas mudanças, ora em curso, na condução da política externa, com o objetivo de recuperar parte da credibilidade que havia sido perdida pela diplomacia brasileira. Segundo, discursos (lidos) pela nova presidente - em especial o mais recente, no evento comemorativo dos 90 anos da Folha, sobre o papel da liberdade de imprensa - mostraram uma convicção e um respeito à diversidade de opiniões que Lula raramente foi capaz de expressar. Vide seu famoso "a opinião pública somos nós", seus reiterados alentos aos adeptos do "controle social" da mídia e suas acusações a tentativas "golpistas" (sic) da grande imprensa.

A nova presidente deu sinais - e tomou certas decisões - que evidenciaram que percebeu claramente quão difícil será lidar com o pós-Lula na área política. No Executivo federal e suas empresas e agências, todas as facções e correntes do PT, do PMDB e dos principais partidos aliados estão representadas desde o governo passado, vale dizer, ocupando espaços numa máquina pública crescentemente aparelhada. Os 38 ministérios e mais de uma centena de empresas e órgãos do Executivo e respectivas parafernálias não parecem suficientes para as voracidades envolvidas. A presidente teve de se envolver pessoalmente em vários casos de conflito de interesse para tentar manter seu compromisso de posse: "... formar um governo em que capacidade profissional, liderança e a disposição de servir ao País serão os critérios fundamentais".

É, contudo, no campo da economia que se colocam hoje as questões mais prementes a lidar neste pós-Lula de maiores riscos e incertezas - no Brasil e no mundo. Neste contexto, são imperdíveis tanto as perguntas quanto as respostas da longa e reveladora entrevista concedida pelo ministro Guido Mantega a Eleonora de Lucena (Folha de S.Paulo, 27/2). Provocado, o ministro afirma que "o governo Dilma não é parecido nem com Lula 1 nem com Lula 2. É parecido com Lula 3". E elabora longamente sobre o tema. O que me trouxe à memória um excelente artigo da competente Rosângela Bittar, publicado no Valor de maio de 2006, poucas semanas após a saída de Palocci e de sua substituição pelo atual ministro. O título do artigo era revelador de seu conteúdo: A arte de mudar negando mudanças.

É isso, a meu ver, o que a situação exigirá do governo Dilma na área econômica, para lidar com as consequências da vasta expansão de gastos públicos de boa parte do Lula 2. E, principalmente, com as expectativas que esse expansionismo gerou nas amplas "bases de sustentação" do governo quanto às possibilidades futuras de acesso - direto ou indireto - ao erário. O verbo "lidar" tem vários significados possíveis na rica língua portuguesa. No caso, todos se aplicam.