domingo, janeiro 25, 2009

Confundindo liberdade com libertinagem: vem aí a “Bolsa-vaselina”

Adelson Elias Vasconcellos

O deputado Miguel Martini, líder do PHS na Câmara, protocolou uma representação judicial contra a compra milionária de gel lubrificante pelo Ministério da Saúde. Segundo o parlamentar, o sistema de saúde no País, que está caindo aos pedaços, tem necessidades mais importantes que a compra de 15 milhões de sachês de gel lubrificante para “reduzir danos” nas relações anais e vaginais. Na representação judicial, o deputado Miguel Martini ressalta que não há nenhuma estatística ou estudo acadêmico ou cientifico comprovado, que confirme a redução das doenças sexualmente transmissíveis pelo uso de lubrificante íntimo. O custo do gel para o ministério foi de R$ 1,16 milhão.

O deputado, diga-se bem, está coberto de razão. É inadmissível que se torre verba pública apenas para “facilitar” o prazer de uns poucos, sabendo-se o quanto tal verba é necessária para resolver problemas da rede pública de saúde. Nesta semana, ainda, apontamos os problemas no Nordeste onde morrem pessoas por falta de atendimento. Há hospitais e postos de saúde que se sequer podem contar com o material básico em seus ambulatórios.

E quantas carências mais aguardam pela atenção do Poder Público que, como desculpa, diz não dispor de verba suficiente? Em que urgência se justifica a compra do tal gel lubrificante? E isto que vivemos um momento de crise da economia!!!

Melhor fariam nossos governantes se comprassem gel lubrificante de bom senso para si próprios!!! Você, leitor, está achando pouco ? Pois saibam que este mesmo governo também não vê problema nenhum diante do momento atual, comprar e distribuir 600 mil camisinhas para o Fórum Social Mundial. A notícia é da Agência Brasil.

Os participantes do Fórum Social Mundial contarão com um esquema especial de atendimento à saúde organizado pela Secretaria de Estado de Saúde Pública do Pará (Sespa). Uma das ações previstas pelo órgão é a distribuição de 600 mil preservativos masculinos no Acampamento da Juventude, que ficará dentro do campus da Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA) e deve abrigar 20 mil participantes de diferentes países.Leia mais sobre o FSMLeitos especiais para portadores do vírus da Aids também foram reservados em hospitais da cidade. Durante o Fórum, equipes médicas, ambulâncias e hospitais de campanha estarão disponíveis nos campi das duas universidades que sediarão o evento para atender ocorrências menos graves.”

O tal fórum está sendo realizado em Paraupebas (PA), organizado pelo Movimento dos Sem Terra (MST) e pela Via Campesina. Entre os colaboradores do evento estão o Ministério da Justiça e o presidente da Venezuela, Hugo Chávez. Apesar de ter três dias de duração, a programação do fórum prevê apenas três horas de reuniões. No restante do tempo, os ativistas políticos e ambientalistas que participam do evento serão convidados a fazer visitas a assentamentos e a diversas áreas da região, além de assistirem à inauguração de um estádio, que será batizado de "Che Guevara". Para quem lê os objetivos, fica sem entender a razão de farta distribuição de preservativos!!!! Melhor fariam seus organizadores se mudassem o nome do encontro para Fórum Social e Sexual ! E, saiba, toda a dinheirama sai do nosso bolso apenas satisfazer o apetite de uns poucos “turistas”. Santo Deus !!! Nossos governantes confundem liberdade com libertinagem e, da forma mais cretina, ainda querem batizar a confusão imoral como sendo “ações sociais”!!!

Quanto ao tal gel, de tão inadequada e inoportuna a despesa, nossos poetas populares não perdoam o absurdo. Esta vem lá do site do Cláudio Humberto..

Poeta popular vê a ’Bolsa-Vaselina’
A decisão do Ministério da Saúde de adquirir gel lubrificante para "reduzir os danos" nas relações sexuais anais, revoltou muita gente, mas inspirou o poeta popular Miguezim de Princesa, que, com muita graça, compôs o cordel "Bolsa-Vaselina". O talento de Mieguezim de Princesa ultrapassou fronteiras. Seu trabalho será objeto de estudo do Trinity College (EUA), por iniciativa de Eric Galm, pesquisador de música brasileira e profesor de etnomúsicologia, que escreve um livro sobre essa expressão de cultura popular no Brasil.Leia abaixo o cordel "Bolsa-Vaselina":


Sem ter mais o que doar,
O Governo da Nação
Resolveu, virando os olhos,
Gastar mais de R$ 1 milhão,
Doando para os viados
Bolsa-lubrificação.
II
Quem tem o seu pode dar
Da forma como quiser
Seja feio, seja bonito,
Seja homem ou mulher,
E tem de agüentar o tranco
Da forma como vier.
III
O Governo Federal,
Que em tudo quer se meter,
Decretou que o coito anal
Tem mas não pode doer
E o Bolsa-Vaselina
Surgiu para socorrer.
IV
Quinze milhões de sachês:
A farra está animada!
Vai ter festa a noite inteira,
Até mesmo na Esplanada,
Sem ninguém sequer sentir
A hora da estocada.
V
Coitada da prega-mãe,
Vai perder o seu valor,
Pois é ela quem avisa
Na hora que aumenta a dor
E protege as outras pregas
De algum violentador.
VI
O governo quer tirar
Do gay a satisfação,
Como mulher sem prazer
(Fonte de reprodução),
Porque tanta vaselina
Vai tirar a “sensação”.
VII-
É para reduzir danos-
Defende logo um petista.
Porque na hora do coito
Dá um escuro na vista
E a dor é tão profunda
Que eu sinto dó do artista.
VIII -
Mas tu já desse, bichim?-
pergunta Zé de Orlando.
O governista sai bravo,
Dando coice e espumando,
Pega o “rabo de cavalo”
E sai no dedo enrolando.
IX
O Brasil é mesmo assim:
Prostituta tem prazer,
Vagabundo tira férias,
Se trabalha sem comer
E quem dá o ás-de-copas,
Dá mas não pode doer.
X
O governo resolveu
Dar bolsa pra todo mundo
E criar um grande exército
De milhões de vagabundos
Só faltava esta bolsa
De vaselinar os fundos

O manual da guerrilha

Otávio Cabral, Revista VEJA

Como roubar, fraudar cadastros do governo e até fabricar bombas e trincheiras – está tudo na cartilha secreta do MST apreendida pela polícia


LAÇOS DE SANGUE
A invasão de uma fazenda pelo MST (acima) e a marcha de soldados das Farc: guerrilheiros colombianos estão entre os sem-terra

A fazenda Estância do Céu era uma típica propriedade dos pampas gaúchos. Localizada em São Gabriel, a 320 quilômetros de Porto Alegre, seus 5 000 hectares eram ocupados por 10 000 bois e 6 000 carneiros que pastavam entre plantações de arroz e soja. O cenário, de tão bucólico, parecia um cartão-postal. Tudo mudou na fria e ensolarada manhã do dia 14 de abril passado. Por volta das 7 horas, 800 integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, o MST, invadiram a propriedade aos gritos. "Nós ganhamos. Ganhamos dos porcos. A fazenda é nossa." Armados com foices, facões, estilingues, bombas, rojões, lanças, machados, paus e escudos, os sem-terra transformaram a Estância do Céu em um inferno. Alimentos e produtos agrícolas foram saqueados. As telhas da sede da fazenda foram roubadas. Os sem-terra picharam paredes, arrancaram portas e janelas e espalharam fezes pelo chão. Bombas caseiras foram escondidas em trincheiras. Animais de estimação, abatidos a golpes de lança, foram jogados em poços de água potável. Quatro dias depois, quando a polícia finalmente conseguiu retirar os sem-terra da fazenda, só sobravam ruínas.

A barbárie, embora não seja exatamente uma novidade na trajetória do MST, é um retrato muito atual do movimento, que festejou seu aniversário de 25 anos na semana passada. Suas ações recentes, repletas de explosão e fúria, já deixaram evidente que a organização não é mais o agrupamento romântico que invadia fazendas apenas para pressionar governos a repartir a terra. Agora, documentos internos do MST, apreendidos por autoridades gaúchas nos últimos seis anos e obtidos por VEJA, afastam definitivamente a hipótese de a selvageria ser obra apenas daquele tipo de catarse que, às vezes, animaliza as turbas. O modo de agir do MST, muito parecido com o de grupos terroristas, é uma estratégia. A papelada – cadernos, agendas e textos esparsos que somam mais de 400 páginas – é uma mistura de diário e manual da guerrilha. Parece até uma versão rural, porém rudimentar, do texto O Manual do Guerrilheiro Urbano, escrito por Carlos Marighella e bússola para os grupos que combateram o regime militar (1964-1985). Os documentos explicam por que as ações criminosas do movimento seguem sempre um mesmo padrão.

O registro mais revelador sobre a face guerrilheira do MST é formado por quatro cadernos apreendidos pela polícia com os invasores da Estância do Céu em maio passado. As 69 páginas, todas manuscritas, revelam uma rotina militarizada – e bandida. "Muita arma no acampamento", escreveu Adriana Cavalheiro, gaúcha de cerca de 40 anos, uma das líderes da invasão, ligada aos dirigentes do MST Mozart Dietrich e Edson Borba. Em outro trecho, em forma de manual, o texto orienta os militantes sobre como agir diante da chegada da polícia. "Mais pedra, ferros nas trincheiras (...) Zinco como escudo (...) Bombas tem um pessoal que é preparado. Manter a linha, o controle de horas e 800 ml", anotou a militante, descrevendo a fórmula das bombas artesanais, produzidas com garrafas de plástico e líquido inflamável. O manual orienta os militantes a consumir o que é roubado para evitar a prisão em flagrante. Também dá instruções sobre como fraudar o cadastro do governo para receber dinheiro público. Há até dicas sobre políticos que devem ser acionados em caso de emergência. Basta chamar o deputado federal Adão Pretto e o ex-deputado estadual Frei Sérgio. Ganha um barraco de lona preta quem souber o partido da dupla.

Em seus capítulos não contemplados pelo Código Penal, o manual expõe uma organização claramente assentada sobre um tripé leninista, com doutrinação política, centralismo duro e vida clandestina. Além de teorias esquerdistas, repletas de homenagens a Che Guevara e Zumbi dos Palmares, há relatos de espionagem e tribunais de disciplina. Uma militante, que precisou de "licença" de um mês para fazer uma cirurgia, só foi autorizada a realizar o tratamento com a condição de que ele fosse feito num único dia. Brigas, investigações internas e punições também explicitam o rígido e desumano controle exercido sobre suas fileiras. "Assim como nas favelas controladas pelo narcotráfico, o MST atua como polícia e juiz ao impor e fiscalizar seu código de conduta", afirma o filósofo Denis Rosenfield. Exagero? Talvez não. Dos 800 invasores que depredaram a fazenda Estância do Céu, por exemplo, 673 já foram identificados. Nada menos que 168 tinham passagem pela polícia. Havia antecedentes de furto, roubo e até estupro. "O MST é formado por alguns desvalidos, vários aproveitadores e muitos bandidos", diz o promotor Gilberto Thums, do Ministério Público gaúcho. "Eles usam táticas de guerrilha rural para tomar territórios escolhidos pelos líderes."

Embora raramente sejam expostos à luz, manuais de guerrilha são lidos como best-sellers nos acampamentos. Também no Rio Grande do Sul, berço e laboratório do MST, a polícia apreendeu três documentos que registram o lastro teórico de sua configuração de guerra. O mais recente, apreendido em julho passado, orienta os militantes a "se engajar na derrubada de inimigos estratégicos". Os inimigos, claro, não se resumem aos gatinhos das fazendas ocupadas pelo MST. O objetivo é a "derrota da burguesia", o "controle do estado" e a "implantação do socialismo". O documento lista exemplos de como "interromper as comunicações do inimigo" e "incendiar as proximidades para tornar o ambiente irrespirável". Pode não ser obra do acaso. Há dois anos, um membro das Farc foi descoberto pela polícia em meio aos sem-terra gaúchos. A combinação entre teoria e prática deixa poucas dúvidas sobre os propósitos do MST. O movimento, que seduziu a intelectualidade nos anos 80 e caiu nas graças do povão na década seguinte, está marchando para a guerrilha rural. Diz o filósofo Roberto Romano: "O MST está se filiando à tradição leninista de tomada violenta do poder por meio de uma organização centralizada e autoritária".


O CHEFÃO E O PRESIDENTE
O comandante-em-chefe do MST, João Pedro Stedile, e o presidente Lula com um boné do movimento: simpatia recíproca, alianças, muitos cargos no Incra para os sem-terra e trégua nos ataques ao governo

A estratégia da guerrilha é um sucesso recente nos pampas graças a sua eficácia. As invasões e os acampamentos têm funcionado em muitos casos. Em novembro passado, após cinco anos de guerra com o MST, o fazendeiro Alfredo Southall resolveu vender a Estância do Céu ao Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). "Cansei da batalha. Joguei a toalha", desabafa. Suas terras serão transformadas em um assentamento para 600 famílias. O fazendeiro gaúcho Paulo Guerra teve sua fazenda invadida seis vezes desde 2004. Os invasores destruíram uma usina hidrelétrica e 300 quilômetros de cercas. Também queimaram dois caminhões, dois tratores e onze casas, além de abaterem 300 bois. "Minha família se dedica à fazenda há 100 anos. Podemos perder tudo, mas não vamos entregar nosso patrimônio ao MST", diz. Nos últimos dois anos, mais de 600 processos já foram abertos contra militantes do movimento. Uma ação judicial pede que o MST seja colocado na ilegalidade. Enquanto ela não é julgada, porém, os promotores têm conseguido impedir seus integrantes de circular em algumas regiões. "Não se trata de remover acampamentos. A intenção é desmontar bases usadas para cometer reiterados atos criminosos", justifica o promotor Luis Felipe Tesheiner.

O MST passa atualmente por uma curiosa transmutação política. Desde a chegada ao poder de Lula e do PT, aliados históricos do movimento, a sigla abrandou os ataques ao governo federal. A trégua, que beneficia a ambos, permitiu que os sem-terra apadrinhassem vinte dos trinta superintendentes regionais do Incra. É um comportamento muito diferente de quando o MST liderou as manifestações "Fora, FHC" e invadiu a fazenda do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, em 2002. O terrorismo agora é praticado preferencialmente no quintal de governadores de oposição a Lula, como a gaúcha Yeda Crusius e o paulista José Serra. A reputação do MST acompanha sua guinada violenta. Dez anos atrás, a maioria dos brasileiros simpatizava com a sigla. Agora, a selvageria, aliada à extraordinária mobilidade que levou 14 milhões de pessoas a ascender socialmente nos últimos anos, mudou a imagem do movimento. Pesquisa do Ibope realizada no ano passado mostra que metade dos entrevistados é contra os sem-terra. O MST, hoje, é visto como sinônimo de violência. "As pessoas descobriram que é possível melhorar de vida sem que para isso seja necessário fazer uma revolução", diz o presidente do Ibope, Carlos Augusto Montenegro. Às vezes é preciso tempo para enxergar o óbvio.

O custo da farra

Giuliano Guandalini entrevista Raul Velloso, Revista VEJA

Especialista em finanças públicas afirma que o governo promoveu um inchaço estatal na fase de bonança e agora terá menos poder de manobra para reagir à crise

"O peso do governo terá de encolher, e não aumentar, para que o ajuste no setor privado seja menos severo"

Governos ao redor do planeta aumentam os gastos públicos para combater a pior crise financeira em oitenta anos. O Brasil deveria fazer o mesmo? Não, diz um dos maiores especialistas em finanças públicas do país, o economista Raul Velloso, de 63 anos, ex-secretário adjunto de Planejamento e Ph.D. pela Universidade Yale, nos Estados Unidos. Para Velloso, o custo da máquina pública no Brasil já passou da medida há muito tempo. Agora, segundo ele, a crise reduzirá a arrecadação de impostos, e o setor público terá de frear suas despesas na marra: "Durante muito tempo, os cidadãos engoliram pagar novos tributos para financiar os gastos. Isso acabou. Ao contrário da China, por exemplo, o Brasil vai ter de enfrentar ao mesmo tempo o déficit nas contas externas e a ameaça da inflação. Por isso não poderá aumentar os gastos para combater a desaceleração na economia".

O governo brasileiro vai elevar para 103 o total de adidos no exterior, com salário de até 37 000 reais. Também planeja admitir até 50 000 novos servidores. O que o senhor acha dessas contratações?
Elas deveriam ser imediatamente suspensas, assim como deveriam ser renegociados todos os reajustes de servidores aprovados no fim do ano passado. Historicamente, em início de mandato, há restrição de contratações e de aumento salarial do funcionalismo. Com o passar do tempo, os governantes cedem às pressões políticas e aos lobbies dos sindicatos dos servidores. Os presidentes perdem a força, ficam menos austeros. Abrem as comportas. Essa é a regra. Mas agora as comportas se abriram demais. O governo perde a cada dia sua disposição de reduzir os custos da máquina pública.

Mas no mundo inteiro os governos decidiram aumentar os gastos públicos para combater a recessão econômica. Por que no Brasil o remédio deve ser o oposto?
Porque, ao contrário de outros países, o Brasil precisa lidar com o déficit nas contas externas e com a inflação. Se os gastos públicos crescerem ainda mais neste momento de escassez de dólares, haverá um aprofundamento do saldo negativo nas transações do país com o exterior. Isso enfraqueceria o real, e a alta do dólar seria repassada para os preços, pressionando a inflação. Haveria também o risco de um aumento na taxa de juros, desestimulando os investimentos privados e o consumo.

Por que países como a China não enfrentam esse dilema?
Lá a inflação deixou de preocupar, e os chineses não possuem déficit nas contas externas – há ainda sobra de dólares na economia deles. Aqui, o peso do governo terá de encolher, e não aumentar, para que o ajuste no setor privado seja menos severo – e para que não haja uma retração mais aguda dos investimentos. É isso que muitos parecem não ter compreendido. Aqui não sobra dinheiro público para investimentos. A máquina absorve praticamente tudo.

O governo argumenta que há falta de mão-de-obra em alguns departamentos, daí a necessidade das contratações. O senhor concorda?
Reconheço a necessidade de trazer gente nova à administração pública. Mas por que não remanejar os funcionários antigos, muitas vezes ociosos? Por que um engenheiro ou um técnico de informática precisam ser exclusivos de determinada repartição ou setor? Deu-se prioridade aos aumentos generalizados, e não à eficiência. Todos os sindicatos dos servidores se aproveitaram para reivindicar aumento de salário no ano passado, com a recomposição dos planos de carreira de praticamente todo o funcionalismo. Veio uma farra de reajustes que vão custar mais de 20 bilhões de reais aos cofres públicos em 2009. Com a crise, é preciso enxugar a máquina pública, e não aumentá-la.

Se esse ajuste não for feito, quais serão as consequências?
O Banco Central terá de aumentar os juros. Ou deixar a inflação correr solta. O resultado de mais inflação seriam juros ainda mais altos no futuro, e menos crescimento, por causa da queda nos investimentos privados. Portanto, o setor público terá de ajustar seus gastos inexoravelmente, por bem ou por mal. É melhor que o faça por bem. Chegou a hora de mudar a atitude em relação à gestão das contas públicas. A arrecadação, durante os anos de bonança, cresceu sempre mais do que o PIB (produto interno bruto, soma de todas as mercadorias e serviços produzidos por um país em um ano). O ápice desse processo foi em outubro do ano passado. Mas isso já faz parte da pré-história. Agora a arrecadação deixará de crescer.

O que precisa ser feito para controlar o inchaço dos gastos com o funcionalismo?
Além da suspensão dos concursos e da renegociação do aumento de salários já programado para este ano, é emergencial que se aprove o projeto de lei que impõe um teto ao reajuste dos servidores. O mais curioso é que esse projeto foi proposto pelo próprio governo, no início de 2007, no lançamento do PAC (programa de Aceleração do Crescimento). Seu texto prevê um limite para o reajuste do funcionalismo, que seria dado pelo repasse da inflação medida pelo INPC mais 1,5%. Se essa lei já estivesse valendo, teria sido possível economizar 11 bilhões de reais em 2007. Esse projeto se perdeu, virou uma alma penada no Congresso. Ninguém sabe onde ele está. Justamente enquanto se postergava a votação dessa medida, todos os sindicatos dos servidores se aproveitaram para reivindicar o aumento de salários.

Como se dará o contágio da crise externa nas finanças públicas do país?
Chegou ao fim, depois de seis anos, a bonança internacional, que havia incentivado o crescimento econômico brasileiro e o consequente aumento na arrecadação de tributos. O mundo mudou completamente de três meses para cá. O que valeu no Brasil até outubro virou pré-história. Antes, o governo conseguia ampliar seus gastos e ainda assim manter o superávit fiscal primário, porque a arrecadação tributária crescia ainda mais. Essa fartura, decorrente da bolha financeira, acabou. Agora vai surgir um novo mundo, o qual não sabemos ainda direito como será. Ocorrerá a reversão de muitos dos ventos favoráveis que empurravam o país e ajudavam o governo.

Que ventos deixaram de soprar a favor do país?
O crédito externo secou. As empresas passaram a ter dificuldades para refinanciar suas dívidas em moeda estrangeira. Um exemplo foi a Petrobras, que precisou recorrer a credores locais, até mesmo à Caixa, porque não encontrou quem lhe emprestasse lá fora. Estima-se que haja 72 bilhões de dólares em débitos das companhias brasileiras que vencerão em 2009. De onde sairão esses dólares? Haverá uma disputa por recursos. O ingresso de capital dos investimentos estrangeiros também diminuirá. As multinacionais, com dificuldades em sua matriz, vão reduzir os projetos. As compras de empresas nacionais por grupos estrangeiros cessaram. Houve ainda fuga de investidores internacionais no mercado financeiro. O Brasil voltou a enfrentar um problema antigo, que imaginava extinto: a falta de dólares.

Como o governo deveria reagir a esse problema?
Se eu fosse o presidente Lula, eu me mudaria para Washington para tentar atrair dólares do Tesouro americano ou de instituições multilaterais – o Banco Mundial e, quem sabe, até o Fundo Monetário Internacional – a fim de garantir que o ajuste do déficit externo não seja tão drástico. O drama é exatamente este: o sistema financeiro privado dos países ricos não vai poder ser fonte de financiamento exatamente porque é nele que a crise está enraizada. O governo americano, portanto, tornou-se praticamente a única fonte disponível de dólares.

Como, se o coração da crise está exatamente nos Estados Unidos?
Não podemos nos esquecer de que, por serem os emissores do dólar, a moeda de curso internacional, o dinheiro mais aceito no mundo, os Estados Unidos recebem uma enxurrada de recursos de todo o planeta. Verifica-se agora uma versão ainda mais acentuada da chamada flight to safety (fuga para a segurança), comportamento esperado em qualquer turbulência. Posso fazer um paralelo com a crise do petróleo na década de 70. Naquela ocasião, o dinheiro estava com os países árabes. Eles depositavam os dólares adicionais que recebiam nos bancos americanos, e estes faziam a reciclagem para países co-mo o Brasil, importadores de petróleo. Agora, os dólares estão sobrando não nos bancos, mas no governo americano. Só ele poderá fazer essa reciclagem.

Uma vez passada a fase mais crítica, os ventos não podem voltar a inflar as velas do Brasil?
Não na mesma intensidade. Esqueça. O setor bancário mundial está encolhendo. É o que se chama de desalavancagem. Os bancos internacionais emprestavam, em média, doze vezes o total de seus depósitos. A alavancagem era de doze, portanto. Estima-se que vá recuar para oito. A conclusão é que vai diminuir o fluxo de dólares na economia global. As grandes empresas brasileiras, que estão profundamente inseridas no mercado mundial, sentirão esse efeito. Para completar, houve redução no preço das matérias-primas (commodities) exportadas pelo Brasil, o que enxugou ainda mais a oferta interna de dólares. Por isso, não resta dúvida de que esse novo mundo será pior do que o anterior, o que exigirá um ajuste nas contas do governo.

O que pode ser feito a curto prazo, que independa de reformas profundas e difíceis, para travar o avanço na gastança pública?
Os esforços precisam se concentrar nos itens de maior peso no orçamento do governo. As despesas de previdência, assistência social e funcionalismo representam 70% dos gastos do governo. É necessário conter o avanço desses gastos. Essa conta cresceu bastante por causa da política de conceder aumentos ao salário mínimo bem acima da inflação. Isso não pode acontecer. Os pagamentos ligados ao salário mínimo representam quase um quarto de todas as despesas do governo. É justo manter o poder de compra do salário mínimo, mas, na atual circunstância, não faz nenhum sentido conceder reajustes acima da inflação. O impacto nas contas públicas é devastador. Cada real de aumento no salário mínimo significa uma despesa extra superior a 200 milhões de reais ao ano.

O governo não poderia acomodar o aumento dos gastos e a queda na arrecadação valendo-se da criação de mais impostos?

É improvável que consiga. Na última década, o total dos impostos pagos pelos brasileiros subiu de menos de 30% para quase 40% do PIB. É esse o tamanho da bicada do governo. Essa carga chegou ao limite. Não há como criar mais tributos ou alíquotas sem que a sociedade reaja e se oponha. Durante muito tempo, os cidadãos engoliram pagar novos tributos. Isso acabou. A derrota do governo em sua tentativa de prorrogar a CPMF (contribuição provisória sobre movimentação financeira) comprovou a aversão da sociedade. Ninguém aceita mais. Isso não impede, obviamente, que a Receita Federal busque aumentar a arrecadação apertando a fiscalização.

Há uma década, os estados são obrigados a gastar menos do que arrecadam, por causa da Lei de Responsabilidade Fiscal. Que avaliação o senhor faz dessa lei?
A Lei de Responsabilidade Fiscal, junto com a renegociação das dívidas dos estados, mostrou-se fundamental para equilibrar as contas do setor público. Os governos estaduais, até 1998, possuíam déficits em suas finanças. Aquela situação trazia uma incerteza muito grande sobre se a dívida pública sairia do controle e deixaria de ser paga. Essa fragilidade tornava o país vulnerável em meio a crises financeiras, porque, ao menor sinal de perigo, havia fuga de dólares. A questão é que os gastos do governo federal permanecem descontrolados. Ao contrário dos estados, a União pode aumentar suas despesas de custeio à larga, como tem feito, sem que haja nenhum impedimento. Chegou o momento de acabar com essa farra.

Quem levará os 100 bilhões?

Estadão

O governo anunciou a liberação de R$ 100 bilhões do Tesouro para ampliar a capacidade de empréstimos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). É o dobro do dinheiro pedido pelo presidente do banco, Luciano Coutinho. Com esse aporte, a instituição deverá dispor de R$ 166 bilhões para financiar investimentos, em 2009, e assim contribuir para atenuar os efeitos da crise global. Segundo o ministro da Fazenda, Guido Mantega, os créditos serão condicionados ao compromisso de criação de empregos. Ressalvado esse pormenor, a novidade foi bem recebida por dirigentes da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), da Confederação Nacional da Indústria (CNI) e de outras entidades de representação empresarial. Mas há outros pontos discutíveis nessa iniciativa.

A União deverá endividar-se para oferecer esse dinheiro ao BNDES. A Medida Provisória 453, publicada na sexta-feira, autorizou a emissão de títulos para essa finalidade. A dívida líquida não aumentará, disse o ministro da Fazenda, porque o aporte de recursos vai ser contabilizado como empréstimo. É uma explicação insuficiente. Haverá, tudo indica, um subsídio na concessão do dinheiro, e um custo, portanto, para o Tesouro. Por aí, o resultado financeiro não será neutro.

Como contrapartida, o banco poderá entregar ao Tesouro créditos contra a BNDESPar (BNDES Participações), sua subsidiária. Isso não muda muito o cenário. Os financiadores do governo levam em conta não só sua dívida líquida, mas também o valor bruto de seus compromissos, e este vai aumentar. Para completar os R$ 100 bilhões o Tesouro poderá usar o superávit financeiro registrado no fim de 2008. Um bom uso alternativo para esse dinheiro seria a redução da dívida pública, mas essa ideia não parece atrair o ministro da Fazenda. Resta saber se esse endividamento valerá a pena. A resposta não é simples, porque o uso do dinheiro dependerá dos critérios do BNDES e, certamente, da orientação oferecida pelo primeiro escalão do governo.

Parte substancial do dinheiro deverá ir para a Petrobrás, para financiar seus investimentos. Mais uma vez, a maior empresa brasileira recorrerá ao mercado interno para cobrir suas necessidades. Se a prioridade do BNDES for a ajuda aos maiores grupos nacionais, aqueles com maior acesso aos bancos estrangeiros, a maioria das empresas continuará sem recursos até para despesas do dia a dia.

O governo não deveria menosprezar esse dado: o problema da maior parte dos empresários, hoje, não é arranjar dinheiro para investir, mas conseguir capital de giro para atravessar a crise. Para esses, o crédito continua curto e caro.

Mas há motivos até mais fortes para preocupação quanto aos critérios do governo. O BNDES acaba de se envolver na compra do controle da Aracruz Celulose pelo Grupo Votorantim. Comprometeu R$ 2,4 bilhões numa operação de apoio a dois grandes grupos afetados por maus negócios com derivativos cambiais. Pouco antes, o Banco do Brasil havia comprado 49,9% do capital com direito a voto do Banco Votorantim.

Fatos muito recentes, portanto, justificam os temores em relação ao destino dos R$ 100 bilhões postos à disposição do BNDES pelo Tesouro. Afinal, o banco trabalha com dinheiro público e, além disso, a dívida do Tesouro é dívida do contribuinte, rico ou pobre.

Em nota distribuída ontem, o BNDES mostrou o efeito de seus financiamentos na criação e na preservação de empregos entre 2003 e 2008. A tabela não explicita a diferença entre emprego criado e emprego mantido, mas, seja como for, a mensagem da instituição é a seguinte: os financiamentos concedidos têm favorecido a geração e a preservação de postos de trabalho. Entre 2003 e 2006, o número de empregos por milhão de reais correspondeu em média a 23,8. Em 2008, chegou a 27,4, mas entre 2004 e 2007 esteve sempre abaixo do nível de 2003, 24,4.

Se a mensagem for levada a sério, a condição mencionada pelo ministro da Fazenda - emprestar para quem emprega - será supérflua. Mas seria uma condição tola, de toda forma, porque a maior parte dos investimentos tende a criar oportunidades de trabalho pelo menos indiretamente. No mínimo, o ganho de competitividade impede a destruição de postos de trabalho pela ação de concorrentes estrangeiros mais produtivos.

O ministro parece haver esquecido também esse detalhe.

O que ainda não se sabia sobre ele

Laura Diniz, Revista VEJA

O terrorista Cesare Battisti teve, sim, amplo direito de defesa e foi delatado por mais de uma pessoa. Tarso Genro concedeu-lhe refúgio ignorando esses fatos, mas os fatos são teimosos
MATOU E FOI VISTO
A revista italiana Panorama entrevistou Mutti. Ele contou que Battisti matou pessoas. "Eu e ele éramos os únicos operativos do grupo"


Na Carta ao Leitor de sua última edição, VEJA deu crédito a Tarso Genro, ministro da Justiça, que, depois de "estudo cuidadoso" dos processos italianos, disse não ter encontrado neles provas concretas que colocassem Cesare Battisti na cena dos quatro homicídios pelos quais ele havia sido condenado à prisão perpétua em seu país. Battisti, agraciado por Genro com o status de refugiado político no Brasil, foi um dos líderes do grupo extremista Proletários Armados pelo Comunismo (PAC), desbaratado há mais de vinte anos pela Justiça italiana graças à delação premiada de Pietro Mutti, um de seus fundadores. A reportagem de VEJA refez na semana passada o mesmo estudo que Tarso Genro garantiu ter feito. Além de ler os autos de cinco tribunais internacionais, a revista entrevistou magistrados italianos diretamente responsáveis pela investigação dos crimes de Battisti. Os resultados obtidos desmentem em sua essência todos os argumentos do ministro da Justiça brasileiro. Havia a possibilidade de Tarso estar certo, mas agora há a certeza de que ele está errado.

Ao contrário do que sustentou Tarso Genro, Battisti teve amplo direito de defesa e as provas contra ele vieram de testemunhos de diversas pessoas, e não apenas da delação premiada de Mutti. O ministro brasileiro colocou em suspeição as confissões de Mutti por duas razões. Primeiro, por entender que ele se beneficiou delas ao pôr toda a culpa sobre os ombros de Battisti. Segundo, porque Mutti estaria vivendo sob identidade falsa e não poderia ser encontrado para eventualmente inocentar Battisti no caso de o processo ser reaberto. Os fatos desmentem Tarso Genro em ambos os casos. Primeiro, Mutti cumpriu oito anos de cadeia por sua parceria terrorista com Battisti e nada teria a ganhar incriminando injustamente o colega, já que delatou o grupo todo. Segundo, Mutti não mudou de identidade e pode ser facilmente encontrado – como efetivamente o foi na semana passada por repórteres da revista italiana Panorama, que, depois de saberem da decisão e dos argumentos do ministro brasileiro, também foram atrás do ex-terrorista para elucidar o caso.

Ficou claro como cristal que:

• Battisti teve direito a ampla defesa. O histórico da defesa é narrado em minúcias no documento em que a Corte Europeia de Direitos Humanos, em Estrasburgo, justifica a decisão de extraditar o terrorista para a Itália.

• A condenação de Battisti não se deu com base em um único testemunho. "Numerosos terroristas confirmaram as declarações de Mutti, assim como outras testemunhas", afirmou a VEJA o procurador da República de Milão Armando Spataro. A revista Panorama reproduz o depoimento de uma dessas testemunhas. Maria Cecília B, ex-namorada do terrorista, relatou às autoridades italianas: "Na primavera de 1979, Battisti, ao descrever-me a experiência de matar uma pessoa, fez referência ao homicídio de Santoro (o agente penitenciário Antonio Santoro) indicando a si mesmo como um dos autores". Em documento da Justiça italiana obtido por VEJA, testemunhas oculares relatam a presença de Battisti em dois dos homicídios.

• Mutti, o delator premiado, não mudou de identidade nem está desaparecido. Entrevistado por Panorama, relatou como ele e Battisti mataram um agente penitenciário.

A polêmica está longe de terminar. O presidente Lula já disse à Itália que o Brasil não vai recuar da decisão. O governo italiano avisou que vai usar todos os recursos jurídicos para conseguir a extradição. No mês que vem, quando termina o recesso do Judiciário, os ministros do Supremo Tribunal Federal terão de responder a uma pergunta fundamental para o desfecho do caso: pode o Executivo definir se um crime é ou não político, como fez Tarso? A resposta a essa questão é crucial, uma vez que, pela lei brasileira, quem comete crime político tem direito a refúgio e não pode ser extraditado. Assim, se o STF decidir que não cabe ao Executivo, ou seja, a Tarso Genro, decidir sobre a natureza dos crimes de Battisti, a consequência da ação do ministro – a concessão do refúgio – perderá validade. Nesse caso, a decisão de abrigar ou não o terrorista no país ficará a cargo do STF. Estará em melhores mãos.

Mau uso dos bancos estatais

Estadão

No meio da crise, pelo menos uma fábrica funciona com plena utilização da capacidade instalada. É a fábrica de ideias estapafúrdias do governo federal. Seu mais novo produto, em estudo no Ministério da Fazenda, é um plano de negar financiamento em bancos oficiais a empresas que demitam, mas estejam em boa situação financeira. Técnicos do Ministério, segundo se informou em Brasília, já estão fazendo uma radiografia de grandes empresas para avaliar seu estado de saúde. Os dados obtidos servirão também para a análise de propostas setoriais de medidas anticrise. Enquanto se realizava esse trabalho de utilidade discutível, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) assumia o compromisso de ajudar o Grupo Votorantim a comprar o controle da Aracruz Celulose, empresa abalada por uma operação malsucedida com derivativos cambiais.

Não há notícia de que o governo tenha imposto qualquer condição relativa à manutenção de empregos para participar dessa operação. Também não houve imposição de condições "sociais" quando o Banco do Brasil (BB), há algumas semanas, comprou 49,9% das ações com direito a voto do Banco Votorantim - ficando com uma parcela de capital insuficiente para o controle.

São cada vez mais discutíveis os critérios seguidos pelo governo federal no uso das instituições financeiras estatais. Como instrumentos de política, podem servir a programas de crescimento e de modernização da economia, ao suporte financeiro a setores especiais, como o habitacional e o agropecuário, e até a ações de emergência, como o socorro temporário a bancos em dificuldades. A maioria dessas funções tem sido cumprida com razoável eficiência, há muitas décadas, pelos bancos do setor público. Mas a orientação adotada pelo governo federal, de alguns anos para cá, parece cada vez mais uma perigosa distorção desses objetivos. A Caixa Econômica Federal foi autorizada por Medida Provisória (MP) a comprar empresas do setor imobiliário. Essa MP, claramente inadequada, foi o prenúncio de intervenções desastradas em vários mercados. Para membros do governo petista, a crise financeira, facilitada pelo descontrole do mercado financeiro, foi um ganho ideológico. Tornou mais fácil justificar a interferência governamental em todo tipo de atividade, com ou sem motivação legítima e seja qual for o objetivo.

A capitalização do Banco Votorantim foi apresentada pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, como operação necessária para o BB ampliar sua participação no financiamento ao comércio de automóveis. Só uma pessoa muito ingênua e muito desinformada sobre gestão de negócios poderia aceitar essa conversa, mas o ministro nem chegou a corar enquanto recitava sua parte. Nenhum alto funcionário federal mostrou até hoje por que essa operação foi necessária, e dificilmente essa explicação será ouvida enquanto o governo não mudar.

O apoio do BNDES à compra do controle da Aracruz pela Votorantim parece também difícil de justificar, especialmente quando o presidente do banco, Luciano Coutinho, reclama da escassez de recursos. É fácil entender os interesses dos grupos empresariais envolvidos no negócio, mas não a presença da instituição estatal. "É uma das tarefas do BNDES", alegou seu presidente, "apoiar a formação de empresas brasileiras eficientes, com atuação global." É um ponto de vista defensável, mas a Aracruz e o Grupo Votorantim já eram grandes e a explicação, portanto, continua incompleta.

Muitas empresas brasileiras têm dificuldade para obter financiamento, desde o trimestre final do ano passado. A crise internacional tornou o crédito escasso e caro mesmo para companhias com bom histórico. Um governo competente e sério daria prioridade às necessidades dessas empresas, mas a administração federal preferiu agir de outra forma.

Diante da crise, o governo optou inicialmente pelo socorro a setores selecionados, numa decisão altamente discutível. Agora surge a ideia de condicionar o acesso aos bancos estatais a critérios demagógicos de preservação de emprego, como se a crise não pusesse em risco todas as empresas. A decisão de envolver o BNDES num negócio de prioridade discutível para um banco público, a um custo estimado de R$ 2,4 bilhões, é um complemento perfeito para esse tipo de política.

STF poderá reabrir caso Battisti

Ruy Fabiano, Blog do Noblat

O imbróglio em torno da concessão do status de refugiado político ao terrorista italiano Cesare Battisti, condenado por quatro homicídios em seu país, está longe de cessar.

O governo brasileiro não contava com a ampla repercussão, interna e externa, que o caso obteve – e que está causando danos às relações bilaterais com a Itália.

Há uma saída técnica honrosa em exame: que o Supremo Tribunal Federal avoque a si o caso. O artigo 102, inciso II, alínea b, da Constituição, atribui ao STF a definição de crime político. E o presidente daquela Corte, Gilmar Mendes, já declarou que, tão logo o recesso termine, em fevereiro, submeterá o tema ao plenário.

O ministro da Justiça, Tarso Genro, agiu com base na legislação ordinária (lei 9.474, de 1997), que, no entanto, não pode se sobrepor à Constituição. Antes, porém, já o fizera, sem que o STF protestasse. Foi quando da concessão do mesmo status de refugiado político ao ex-padre Olivério Medina, integrante das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farcs), em 2007.

Preso em São Paulo, em 2005, teve sua extradição pedida pelo governo colombiano. O STF julgava esse pedido quando Tarso Genro concedeu a Medina o status de refugiado, considerando que os crimes de que era acusado eram de natureza política.

Naquela oportunidade, o mesmo Gilmar Mendes invocou a Constituição para que a concessão fosse anulada. O STF, talvez porque não quisesse naquele momento o enfrentamento com o governo, fez vista grossa. Mendes foi voto vencido e Medina desfruta hoje do status de refugiado político. Mora em Brasília. Sua mulher, Angela Slongo, brasileira, trabalha na Casa Civil da Presidência da República, requisitada pela titular da pasta, ministra Dilma Roussef.

Diante da hipótese de que haja recuo em relação a Battisti, os aliados de Tarso Genro não perderam tempo: incluíram o tema, em espaço e horário nobres, no Fórum Social Mundial, que volta este ano a se realizar no Brasil, em Belém. Haverá, na sexta-feira, 30, uma mesa redonda, de que participará Tarso Genro, que ocupará toda a programação da parte da manhã do Fórum.

A programação do Fórum já estava fechada quando um certo Movimento Brasileiro dos Direitos Humanos decidiu incluir o tema na agenda. O simples empenho de fazê-lo – e de convidar o ministro para encabeçar os debates – já indica a adesão à causa.

Na Itália (e na Europa), enquanto isso, o caso continua a repercutir – negativamente, com amplas matérias críticas na mídia e protestos no Parlamento, incluindo partidos de esquerda, e na sociedade civil. Não se entende como um país como o Brasil, adepto do Estado democrático de Direito, ousa afrontar a Justiça de um país amigo e igualmente democrático, em defesa de um assassino, que praticou os seus crimes em plena democracia.

O paralelo com o caso do banqueiro Cacciola é liminarmente rechaçado. Cacciola tinha cidadania italiana, o que impedia a extradição. Mas a polícia italiana colaborou com o governo italiano, fornecendo todas as pistas que conduziram à sua prisão em Mônaco pela Interpol, ano passado.

O episódio deixa marcas nas relações entre os dois países. E mereceu uma carta de protesto do próprio presidente da República da Itália, Giorgio Napolitano, a Lula. A manifestação de Gilmar Mendes, de que submeterá ao plenário do STF o caso, surge assim como uma possibilidade de saída técnica – e, portanto, “honrosa” (se é que o termo cabe aqui) – para o governo e para o país.

O efeito colateral é que poderá dar margem à reabertura de casos mais incômodos para o governo, como o do ex-padre Olivério Medina, cuja extradição o governo da Colômbia, dependendo do desfecho do caso Battisti no STF, poderá novamente requerer.

A presença de Tarso Genro e do tema no Fórum Mundial mostra que o governo brasileiro vive intenso conflito em torno do caso.

As mentiras e a crueldade de Cuba

Lilian Zieger, Jornal Zero Hora (RS)

Lendo ZH (hábito diário em minha vida há vários anos), deparei com a reportagem sobre Cuba (28/12/08) e não me contive: comecei a reviver o que vi e ouvi em Cuba. Estive naquele país há cerca de nove anos. Foram 30 dias que mudaram minha concepção de mundo e de vida! Ao ler que existem políticos brasileiros que defendem o regime cubano e, ainda, falam em “certo exemplo de democracia”, me pergunto: estiveram em Cuba? Conhecem o que existe lá? Onde está o discernimento dessas pessoas? Dizem que Cuba tem boa educação: mais de 99% de alfabetizados?

Apenas quero relatar um fato ocorrido comigo. Fiz amizade com uma professora cubana, quando lá estive. Levei-a até uma livraria, pois desejava lhe dar de presente um livro. Na frente da livraria, ela me falou que não podia entrar, pois os cubanos eram proibidos! Por quê? Os livros que podiam e deveriam ler recebiam do governo! – respondeu-me ela. Isso mesmo: o que poderiam ler lhes era ofertado e o restante, proibido! Como resultado, ela não aceitou o livro por medo. Isso é ser alfabetizado? O pior analfabetismo é o das idéias! O que aprendem a ler os cubanos? Apenas o que lhes é permitido! O que escrevem? O que lhes é permitido! Se alguém escrever algo contra o regime, vai preso! Depois querem me dizer que a educação cubana é exemplo. De quê? De absoluta falta de liberdade, de crueldade, de domínio intelectual, de disseminação do medo! Essa alfabetização é a mais perigosa de todas: a que domina as mentes e as tinge de medo (ou o melhor seria dizer: pânico). E tem pessoas que dizem ser isso exemplo para algum país? A ditadura vivida pelo povo cubano é absolutamente cruel.

E a saúde? Estive em Cuba para tratamento médico de meus filhos. Pergunto: se os cubanos têm o tratamento e a cura de algumas doenças, por que não ensinam ao mundo? A cura de doenças deveria ser de direito de todos os cidadãos planetários. Mas não! Eles escondem o tratamento para alguns poucos que tenham os dólares para o tratamento. Isso é exemplo de avanço na saúde? Isso é a mais cruel das atitudes humanas! Ainda há brasileiros que dizem ser a medicina cubana exemplo? Exemplo de uso da medicina para chamar estrangeiros que paguem fortunas por tratamentos que só existem lá, pois, supostamente, somente eles conhecem esses tratamentos.

Que medicina é essa que esconde as descobertas para aplicá-las apenas a quem tem o dinheiro (e que é muitíssimo) que a pague? Bem fazem os médicos brasileiros que condenam tal situação. Eu os aplaudo pela atitude corajosa de criticarem. (O que alguns políticos não conseguem fazer.) Um deputado diz na reportagem que Cuba ainda pode ser exemplo, pois elege representantes de bairro. Nossa! Eleger num país com partido único e que onde alguém que fale contra o regime cubano vai preso é liberdade? Elegem sim, sem antes não deixar de colocar uma mordaça (nos olhos, na boca e na consciência!). Elegem pessoas que são proibidas de falar qualquer coisa que seja contra o governo ditatorial de Fidel! Isso é exemplo de democracia?

O que vi em Cuba é um povo com medo. Medo de falar, de agir e de pensar… Talvez essa seja a maior crueldade de que falo. Tudo é absolutamente controlado pela censura! O medo que penetra nas pessoas que têm consciência – e que não têm nenhum interesse em falar de Cuba o que ela não é – é imenso. Sente-se na alma como se alguém pudesse entrar em nossa mente e ver o que se passa nela. Liberdade? Essa palavra é proibida em Cuba e não deve estar, com certeza, na cartilha de alfabetização do povo cubano. Eu amo o meu país, com todas as suas desigualdades e suas próprias crueldades. Sou leitora assídua e vejo com os olhos da consciência o que corrói nosso povo e suas misérias. Sonho com um país melhor e mais justo, com certeza, mas… que seja distante das idéias da dita “igualdade cubana”.

O povo cubano é escravo (ou está escravo) de uma das piores ditaduras que já vi! Se o povo gostasse dessa situação, não se jogaria ao mar, sujeito aos tubarões e a tempestades, para fugir! Meu respeito aos cubanos que ainda têm forças para resistir. Eu mesma não sei se conseguiria!

25 anos de crimes e impunidade

Carta ao Leitor, Revista VEJA

Terror ruralPor um quarto de século o MST

invade, destrói e zomba da lei no Brasil

Eles se abrigam sob a bandeira de uma organização política com o nome de Movimento dos Sem-Terra (MST). Não têm sede fixa nem estatuto. Seus chefes nacionais nunca são processados ou condenados. Apesar disso, suas ações são criminosas e suas vítimas em potencial, qualquer propriedade, empresa ou centro de pesquisa agropecuária que produza riqueza ou tecnologia. Para angariarem simpatia e milhões de reais de repasses do governo federal, eles se disfarçam de defensores da reforma agrária lutando em nome de agricultores familiares deslocados de suas pequenas propriedades por implacáveis magnatas do agronegócio. São, na verdade, um grupo de espertalhões de esquerda que recruta, manipula e domina pelo poder econômico, e também pela violência, andarilhos, mendigos, desempregados urbanos, ex-presidiários, foragidos da Justiça e até pessoas com emprego nas cidades que aceitam engrossar suas fileiras em troca de pagamento. Essa espantosa organização completou na semana passada um quarto de século zombando da lei.

Uma reportagem desta edição de VEJA, feita com base em cadernos de anotações de líderes do MST apreendidos pela polícia do Rio Grande do Sul, revela que não é por acaso que as invasões em todo o país seguem um mesmo padrão. O MST desenvolveu um método de organização paramilitar com disciplina férrea, julgamentos internos e incentivo ao uso de armas. As cartilhas apreendidas ensinam como escapar de um flagrante, produzir bombas caseiras, esconder antecedentes criminais, disfarçar a falta de experiência na vida do campo e também como fraudar cadastros para receber ajuda oficial em dinheiro. Até hoje, as ações criminosas dessa força do atraso no campo não conseguiram fazer grandes estragos no exuberante desempenho do agronegócio brasileiro – que produziu cerca de 4 de cada 10 dólares de divisas trazidos pelas exportações do país em 2008. Os efeitos da crise externa no campo em 2009 são preocupantes. Se a eles se somar o prometido recrudescimento das invasões, os objetivos deletérios do MST poderão ser atingidos. É do maior interesse de todos os brasileiros que a ousadia e a impunidade do Movimento dos Sem-Terra tenham um fim imediato.

Lula forever

Guilherme Fiúza, Revisya EPOCA

Atenção, Brasil. Luiz Inácio falou, Luiz Inácio avisou: o petismo não vai largar o osso.

Em visita à Venezuela, Meca do populismo golpista, o presidente apoiou a lei da reeleição infinita de Hugo Chávez. E disse que no Brasil, no momento em que o país tiver “instituições consolidadas” e “liberdade política”, isso vai acontecer.

Lula tem razão: o Brasil ainda é uma democracia frouxa. Se fosse uma democracia de verdade, o Congresso Nacional o questionaria imediatamente sobre essa suposta falta de liberdade política para eternizar o governante no poder.

O que Lula quis dizer com isso? Ninguém vai perguntar a ele? Não. Padinho Ciço falou, tá falado. E o Brasil, como se sabe, não tem oposição.

É bom ver Lula à vontade na Venezuela, exaltando a maravilhosa democracia chavista. É ali que sua coceira autoritária dá as caras. É bom lembrar que o ex-operário tem essa coceira.

É bom lembrar que o “ministro Dirceu” continua despachando com o primeiro escalão do governo, como se viu na agenda de Nelson Jobim.

É bom lembrar da megalomania expansionista para o Banco do Brasil.

E da promiscuidade entre a Caixa Econômica e a Petrobras nos negócios de Estado.

E da lavagem cerebral esquerdista no concurso do Ipea.

E da mordaça terceiro-mundista do Itamaraty.

E da cruzada de Tarso Genro contra a imprensa burguesa, que dá azia no chefe.

E do uso da Polícia Federal como polícia política (na democrática Venezuela deve ser comum esse negócio de espionar advogados, novidade por aqui).

A iniciativa privada também pode contribuir com o plano popular revolucionário: na Venezuela, Lula e Chávez foram visitar um “projeto agrário socialista” de 2 bilhões de dólares bancado pela Odebrecht. Só rindo.

Enquanto o Brasil não chega ao nirvana chavista, continua sendo uma democracia vagabunda. Partidos como PSDB e DEM, que também só pensam naquilo, são incapazes de uma crítica responsável ao devaneio lulista. Ficam pelos cantos, se roendo de ciúmes dos 80% de popularidade, torcendo pela crise.

Fica então combinado assim: quando o Brasil tiver instituições consolidadas e liberdade política, será como a Venezuela.

Não reclame de barriga cheia: o paradigma podia ser o Irã.