Adelson Elias Vasconcellos
Seja como for, se o governo da senhora Rousseff nada mais tem a oferecer em prol do desenvolvimento do país, em níveis razoáveis ao menos, além de um café requentado sem açúcar, não pode reclamar da avaliação negativa que a sociedade lhe concede.
O governo Dilma reuniu nesta semana, em Brasília, naqueles cerimoniais inúteis e dispendiosos, alguns pesos pesados do empresariado, para anunciar um “pacote” de medidas que teriam, por objetivo, reaquecer a atividade industrial que, acrescente-se, segue completamente estagnada ao longo do mandato de Dilma.
Ora, era para se esperar que, depois de três anos e meio no poder, mantendo contatos diretos ou através de seus ministros com tantos empresários e, furtivamente, até com alguns economistas do setor privado, o governo Dilma fosse um pouco mais criativo e ousado na apresentação de medidas que buscassem dar um impulso vigoroso à indústria brasileira.
O governo sabe que se encontra em franca decadência de conceitos. Não é apenas a classe média alta, ou até dentre os mais ricos, a tal “elite” ou, ainda, a “elite branca de São Paulo”, como se tenta espalhar. Não há uma única pesquisa que não demonstre os péssimos conceitos do governo comandado pela senhora Rousseff, em seus diferentes campos de atuação. Desde a saúde até o combate à fome, o peso maior varia de ruim ou péssimo até regular. E atenção: isto já vem assim desde antes até das manifestações de junho de 2013.
Qualquer instituto que for às ruas medir apenas a avaliação do governo, sem conotação eleitoral, vai encontrar este cenário de avaliação em todos os estratos da sociedade, seja pela renda ou nível de escolaridade. Portanto, os empresários, sensíveis aos humores do mercado, também guardam certa distância com o governo Dilma, seja pela insegurança das medidas que toma, seja pelo preconceito deslavado em relação à própria atividade privada, seja pelo intervencionismo exacerbado, seja pela falta de ações e tomada de decisões que apontem um rumo certo, definido e claro. Mudam-se as regras conforme o bom ou mau humor da senhora Rousseff. O interesse do país fica sempre em segundo ou terceiro plano.
Aí, diante de todo este cenário, e em pleno ano eleitoral, o que a senhora Rousseff tem para a oferecer, até para melhorar a imagem que se tem de seu governo? Nada, a não ser um café requentado, sem açúcar, e muito limitado, já que os programas apresentados são os mesmos de antes e que tinham esgotado seu prazo de validade. Programas que, apesar da muita publicidade, não conseguiram em sua primeira versão, tirar a indústria do buraco em que se encontra. Assim, o que levaria os empresários agora acreditarem que, desta vez, vai dar certo?
É impressionante como o governo da senhora Rousseff se esforça no sentido de parecer que não tem projeto algum para o país. Trava-se nos gabinetes de Brasília uma luta titânica para se criar um vazio imenso em relação a um projeto de desenvolvimento pelo menos de curto prazo. Nada. Ali só se pensa no dia seguinte, na eleição seguinte, na pesquisa seguinte. Não se pensa no Brasil para os próximos cinco, oito, dez anos. A senhora Rousseff jogou um mandato inteiro apostando no superficialismo, na improvisação, no curto prazo, de efeito imediato e sem garantias de resultados positivos. Agora, na boca de urna, quando se esperava que o governo pudesse ser mais arrojado, mais criativo, monta um enorme circo em Brasília para oferecer mais do mesmo, e ainda assim, um mesmo que não melhorou coisa alguma?
Os petistas, em geral, tentam jogar nas costas dos outros a péssima avaliação que se tem sobre a atuação da senhora Rousseff. Deveriam era, ao menos, fazer a leitura do que o próprio povo, em todas as suas camadas sociais, econômicas e culturais, está dizendo sobre o governo. É ele que sente os efeitos positivos ou negativos da atuação do governante. É ele, e não a imprensa dita “golpista” que vai no supermercado toda a semana e vê os preços aumentarem. É ele que sofre duas a três horas diárias para se deslocar para o trabalho e em condições indignas graças a falta de planejamento decente para o transporte coletivo.. É ele que percebe que o seu filho está sem poder frequentar a escola por conta das greves intermináveis dos professores. É ele que vê a criminalidade aumentar, que se sente desconfortável com a insegurança sua e de seus amigos, colegas e familiares. É ele que percebe que a oferta de empregos com salários maiores reduzem-se toda a semana, apesar de haver milhares de ofertas, mas com salários minguados. É ele que percebe o volume de impostos que paga aumentar e compara com a qualidade dos serviços públicos deteriorando-se. É ele que precisa suportar os engarrafamentos, até em cidades médias, pela falta de planejamento urbano e investimentos em mobilidade.
Ninguém precisa fazer a cabeça de ninguém para perceber que a qualidade de vida das pessoas está pior. E então este mesmo povo olha para Brasília e vê que, instalado no poder, há uma continuidade de políticas comandadas por um mesmo partido há quase doze anos. Não é preciso muita reflexão para que este povo conclua que é preciso mudar as pessoas, o partido, as políticas, os programas, e colocar no comando do país gente capaz de dar ao Brasil um rumo voltado ao desenvolvimento.
Esta estigmatização de “elite branca de São Paulo” é pura estupidez, ladainha retórica de gente que não é capaz de refletir e assumir a responsabilidade por seus próprios erros. Vir com este terrorismo repulsivo, de que a esperança vai vencer o ódio, é uma agressão idiota ao povo que sofre, na pele, as consequências ruins de um governo medíocre. O povo pode até não ter discernimento entre os candidatos, qual o que tem melhor proposta, mesmo porque a campanha sequer começou. Apenas Dilma fala, apenas Dilma inaugura obras inacabadas, apenas Dilma aparece na tevê em cadeia nacional, apenas Dilma isto e aquilo. Os demais estão legalmente impedidos de ter a mesma presença diária. Apenas Dilma nomeia e libera recursos públicos. E, mesmo tendo uma ampla base de apoio, não foi capaz sequer de apresentar uma reforma digna do nome que favorecesse o desenvolvimento do país.
O povo sabe, sem que ninguém lhe enfie na cabeça, que o país cresce pouco. Quem tem filhos, além da preocupação com a qualidade do ensino, também considera as perspectivas de futuro de seus filhos. E, num cenário como o descrito acima, ele tem razão de sobra para desejar mudanças de governo, não apenas no modo, mas nos nomes e na ideologia que o orienta. Os que estão no poder, doze anos de comando, não conseguiram lançar o Brasil numa jornada virtuosa de desenvolvimento, que moral podem ter para prometerem que o farão nos próximos quatro anos?
Assim, melhor do que transferir culpados e caçar bruxas para a queda de avaliação do governo atual, seria melhor o PT avaliar-se a si mesmo, e reconhecer seus erros. É uma contradição espantosa esta gente pretender acusar elites e direita, quando este mesmo governo só soube favorecer o grande capital da mesma elite e aliar-se ao que há de pior na direita, andando abraçada com a velha e apodrecida oligarquia dos Sarneys, Malufs & Cia. Mas contraditório também é usar a imprensa para subir, e depois pretender silenciá-la com regulações de conteúdo, impedindo-a de publicar e informar a podridão reinante no poder.
Gilberto Carvalho, reunindo a escória ajoelhada de blogueiros chapa branca, falou que o governo deixou que o povo acreditasse de que o PT é corrupto. Isto é afrontar a inteligência das pessoas. A ideia da corrupção instalada no poder que o PT comanda não é fruto de mentiras, dossiês ou coisas do tipo, como se houvesse nos subterrâneos da sociedade um movimento mau caráter incitando ódio das pessoas contra o PT.
A ideia da corrupção veio e é fruto da ação de uma Polícia Federal que, semana sim, semana também, tem desmontado esquemas de corrupção no seio do poder. E esta ideia só não é maior porque o governo se vale de sua maioria parlamentar para abafar qualquer investigação, como vemos ocorrer em relação à Petrobrás. Este é um governo que não resiste a cinco minutos de devassa. Cai de podre. E não foi o povo quem julgou, condenou e mandou prender a cúpula do PT por corrupção.
Quanto de tempo e de recursos públicos estão sendo desviados da educação, saúde, segurança, infraestrutura para alimentar patrimônios pessoais de gente do poder? Não são os mais de 30 bilhões gastos na Copa que resolveriam TODOS os nossos problemas e necessidades, mas seguramente reduziriam estas dificuldades em boa medida.
Se o país continuar estagnado economicamente, como pensa o PT em continuar aumentando a distribuição de “ações sociais”, sem comprometer os investimentos e até a qualidade dos serviços públicos? Teríamos aí várias opções: se a economia não cresce, a arrecadação também não. Como as despesas continuam crescendo e até mais do que deveriam, ou se aumenta ainda mais a carga de impostos, ou se eleva em níveis perigosos o grau de endividamento do país. Como elevar impostos neste cenário atual é praticamente inviável, pelo menos ao nível de compensar a queda de receita fruto da estagnação, a opção seria reduzir ainda mais os investimentos públicos, aumentando ainda mais a insatisfação popular.
Seja como for, se o governo da senhora Rousseff nada mais tem a oferecer em prol do desenvolvimento do país, em níveis razoáveis ao menos, além de um café requentado sem açúcar, não pode reclamar da avaliação negativa que a sociedade lhe concede.
Enquanto agir com medidas populistas, cujos resultados a gente conhece pelo que acontece na Venezuela e na Argentina, não conseguirá fazer o país avançar. Enquanto continuar agindo para favorecer, por exemplo, a Argentina, na recente renovação do acordo automotivo, ou na tentativa de transferir a indústria farmacêutica daqui para Cuba, ou no perdão de dívidas de ditaduras africanas sem nenhuma razão decente, o PT não pode reclamar da avaliação negativa que recebe dos brasileiros. Seria interessante que eles se convencessem de uma verdade que a cada dia se consagra: a de que governam o país o povo errados. Poderiam partir para a Argentina, Venezuela, Cuba e para alguma ditadura distante na África. Creio que encontrariam o habitat natural e adequado para imporem seu receituário. O brasileiro não aceita nem admite retrocesso, como tampouco se recusa em continuar pertencendo ao quarto mundo que o governo da senhora Rousseff está nos colocando. Se o governo tem alguma razão para se queixar, ela não está nem no povo nem na mídia, e sim nele mesmo.
Neste sábado, a senhora Rousseff ao ser oficializada como a candidata petista nas eleições presidenciais em outubro, prometeu um novo ciclo de desenvolvimento, caso reeleita. Bem, fica difícil acreditar em mais uma promessa da senhora presidente. Foram quase vinte pacotinhos ao longo de seu mandato. Em cada início de ano, renovava-se a promessa de inflação controlada na meta e crescimento de 4,5% a 5,0 % do PIB. Não conseguiu cumprir nenhuma coisa nem outra. A economia vive uma convulsão impressionante, com declínio de todos os indicadores que, antes positivos, passaram para negativos. O que ela poderá fazer, de janeiro de 2015 em diante, que não pode realizar desde 2011 até agora? Assim, o pedido de novo voto de confiança não tem base alguma para ser concedido. Não dá mesmo, senhora Rousseff: prazo de validade vencido.

