domingo, junho 22, 2014

O preço argentino

Míriam Leitão e Alvaro Gribel  
O Globo

Quando o presidente Néstor Kirchner disse que não pagaria a dívida, a Argentina simplesmente não tinha como pagar. Quando ele impôs aos credores um desconto de 70% da dívida e fez um discurso agressivo aos credores, ele queria fazer política. Houve quem, no Brasil, elogiasse o caminho deles. Melhor foi o nosso, e os últimos dois dias mostraram isso.

O Brasil também não pôde pagar, nos anos 80, a dívida externa deixada pelo governo militar. O então presidente José Sarney quis fazer disso um ato político, para ter apoio popular. Fracassou. A dívida foi renegociada num penoso processo que começou com o embaixador Jório Dauster. Os credores recusaram a primeira proposta. O economista Pedro Malan fez a negociação que deu certo, depois de três anos de muita luta para negociar com os credores as várias opções de desconto.

No Brasil, houve muito elogio à formula draconiana imposta por Néstor Kirchner aos credores. Hoje se vê o quanto isso foi equivocado. Primeiro, porque a Argentina ficou anos fora do mercado internacional. E agora, quando se prepara para normalizar a relação com os credores, é apanhada por uma decisão da Suprema Corte americana, que mandou pagar aos fundos que não entraram na negociação.

A Suprema Corte dos EUA não tem razão. Esses fundos não são os credores originais. Eles compraram por uma fração do valor de face apenas para especulação e por isso são chamados de fundos abutres. O problema é que o melhor teria sido negociar com os credores um merecido desconto e voltar de forma pacífica ao mercado internacional. Ao criar um clima de tensão, como fez o falecido presidente, ele preparou o que a Argentina acabou colhendo agora.

O país está num córner. Se cumprir a decisão, os outros credores podem acabar suspendendo o desconto que tiveram que aceitar. Aí eles cobrariam o que têm a receber pelo valor de face. A Argentina não tem condições de pagar. Suas magérrimas reservas seriam insuficientes. E, mesmo se apenas tiver que pagar o que os fundos que ficaram fora da negociação cobram, já terá dificuldades cambiais.

Para o Brasil, o principal problema está na balança comercial. Os argentinos são o nosso terceiro principal parceiro — atrás apenas de China e Estados Unidos — e menos dólares no país pode significar restrição nas importações. A corrente de comércio entre os dois já sofreu um baque de 10% desde 2011, quando começou a ficar mais evidente a crise cambial entre os argentinos. Ela caiu de US$ 39,6 bilhões, naquele ano, para US$ 36 bilhões, no ano passado. O risco é que as relações comerciais diminuam ainda mais. O setor industrial brasileiro será o mais afetado porque 90% da nossa exportação para a Argentina são produtos manufaturados, principalmente veículos automotores e autopeças.

O Brasil também teve problemas com os credores que ficaram de fora da negociação. De forma engenhosa, usando o Banco do Brasil, que era também um credor do país, os negociadores conseguiram impedir que esse grupo, que não aceitou a negociação, pudesse paralisá-la. Depois, enfrentou um longo processo com a família Dart, que havia comprado títulos exatamente para tentar o mesmo golpe de exigir o pagamento integral. O Brasil venceu a briga na Justiça com a ajuda de um amigo inesperado. O governo americano entrou como amicus curiae do lado do Brasil. A Corte decidiu a nosso favor, conforme contei em “Saga Brasileira”.

Nesses casos, adianta pouco a bravata. Há uma dívida e deve ser paga; se os juros se acumularam de forma injusta, negocia-se. Foi o que o Brasil fez. A Argentina dos Kirchner preferiu dar à dívida um tratamento populista e acabou encurralada.