domingo, junho 22, 2014

Inflação é superior à do Brasil em apenas 3 dos 26 países que adotam regime de metas

Arícia Martins 
Valor

Mesmo com a continuidade do baixo ritmo de crescimento da economia brasileira, a inflação no país segue elevada para padrões internacionais. De 26 países que adotam o regime de metas, em apenas três o índice de preços ao consumidor supera a alta de 6,4% registrada pelo indicador do Brasil nos 12 meses encerrados em maio. Nenhum deles está na América Latina, onde os alvos centrais perseguidos são bem mais ambiciosos.


Enquanto o Banco Central brasileiro deve mirar o percentual de 4,5% para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) até 2016 - mesmo objetivo central desde 2005 - Chile, Colômbia e México têm 3% como meta inflacionária. No Peru, o alvo é ainda menor: 2%. As bandas de flutuação permitidas nesses países são de um ponto percentual a mais ou a menos, também mais restritivas do que os dois pontos estipulados pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) no Brasil.

Para economistas ouvidos pelo Valor, fatores que já são velhos conhecidos, como a pressão dos serviços e da inércia, ainda são importantes para explicar a resistência mais forte dos preços no país, mas a deterioração das expectativas tem ganhado destaque na conjuntura atual.

Embora o índice de preços ao consumidor tenha subido para 2,9% nos 12 meses até maio na Colômbia, puxado pelos alimentos, e já tenha ultrapassado o teto da meta estabelecida no Peru e no Chile - onde a inflação ficou em 3,6% e 4,7% na mesma comparação, respectivamente - o chefe de pesquisa para a América Latina do Goldman Sachs, Alberto Ramos, avalia que a situação inflacionária nos outros países do continente não é comparável à do Brasil. "O centro da meta no Brasil significa estar fora da banda em qualquer outro país", diz Ramos.

Segundo o economista, o choque de commodities internacionais ocorrido no início do ano afetou a trajetória dos índices ao consumidor em todos os outros quatro países, assim como o IPCA brasileiro, que também sofreu os efeitos da estiagem interna, mas essa não seria a explicação para o descompasso da evolução de preços no Brasil em relação a seus pares latino-americanos.

Como México, Peru, Colômbia e Chile têm conseguido entregar uma taxa de inflação próxima do centro nos últimos anos, Ramos afirma que a política monetária de seus bancos centrais possui maior credibilidade, o que repercute de forma positiva nas expectativas do mercado. Ele ainda acrescenta que em nenhuma dessas economias existe uma política de controle de preços administrados, ao contrário do Brasil, onde as estimativas para o IPCA foram afetadas pela perspectiva de correção maior desses itens em 2015 e também nos próximos anos.

Os bancos centrais desses quatro países adotaram uma política monetária mais frouxa neste ano devido ao aumento da preocupação com a atividade, afirma Rodolfo Oliveira, da Tendências Consultoria Integrada, mas a postura mais expansionista não representa uma ruptura na condução da política econômica, que deve se manter sólida em todos os integrantes da Aliança do Pacífico.

O coordenador do centro de macroeconomia aplicada da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (EESP-FGV), Emerson Marçal, afirma que o crescimento robusto da renda dos brasileiros nos últimos anos abriu espaço para repasses elevados no setor de serviços, cuja inflação atingiu 8,7% no ano encerrado em maio.

Marçal também destaca a aceleração dos preços dos alimentos, que têm rodado acima de 7% nos últimos meses, na medida anualizada. No entanto, assim como Ramos, o coordenador da FGV acredita que a postura recente do governo está por trás da permanência do IPCA num patamar sempre mais próximo de 6%.

Além de trabalhar com uma meta mais generosa e com uma banda de flutuação larga, diz o pesquisador, o Banco Central parece ter optado por uma convergência mais lenta do IPCA ao centro. No campo da política monetária, o ciclo de relaxamento que levou a taxa básica de juros a 7,25% ao ano em outubro de 2012 talvez tenha sido "um pouco agressivo demais", o que diminuiu a eficácia do posterior ciclo de aperto, diz Marçal.

Desde abril, a taxa Selic voltou a subir e hoje está em 11% ao ano. O professor da FGV também observa que a política fiscal não tem contribuído para o controle da inflação, o que estimulou a piora das expectativas do mercado.

Luiz Roberto Cunha, professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), concorda com a posição de Marçal sobre as políticas monetária e fiscal, mas, em sua opinião, a indexação ainda tem impacto relevante sobre a dinâmica inflacionária brasileira, mais do que em outros países.

Embora o Índice Geral de Preços-Mercado (IGP-M) não funcione mais como indexador de boa parte das tarifas públicas, Cunha lembra que o salário mínimo ainda é um farol importante para reajustes salariais, seja formal ou informalmente. A regra atual, que corrige o piso nacional pela expansão do Produto Interno Bruto (PIB) de dois anos atrás e pela inflação do ano anterior, é válida até 2015.

Para Cunha, outra característica da economia brasileira que acaba contribuindo para um nível de inflação maior é o mercado de trabalho apertado, que pressiona os custos da mão de obra. Já o economista João Pedro Bumachar, do Itaú Unibanco, destaca que não é só no Brasil que o desemprego está baixo e, portanto, acelerando custos influenciados pela renda. "Uma inflação de serviços acima da inflação cheia é algo comum aos mercados emergentes", afirma Bumachar.

O atual quadro de atividade fraca e inflação em nível desconfortável também é algo generalizado na América Latina, comenta Bumachar, já que a perda de fôlego das economias não está gerando aumento da desocupação nos países do continente.