quinta-feira, junho 24, 2021

O mundo enfrenta uma peste; o Brasil, duas

 Philipp Lichterbeck

Deutsche Welle 

É impossível não responsabilizar o governo pela tragédia da covid-19. A gestão desastrosa não é só culpada por inúmeras mortes, mas também por a pandemia ainda estar longe de acabar, escreve Philipp Lichterbeck.


 Meio milhão de brasileiros morreram de covid-19. É como se a população de Florianópolis tivesse sido dizimada. Isso faz do Brasil um dos dez países com a maior taxa de mortalidade do mundo, ou seja, o número de mortes em proporção ao tamanho da população. E a mortandade ainda não terminou. Atualmente, uma média de 2 mil pessoas são vítimas do vírus todos os dias. A sociedade brasileira se habituou um pouco à morte e à violência: entre 40 mil e 50 mil pessoas são assassinadas aqui todos os anos, e entre 30 mil e 40 mil morrem no trânsito.

Mas meio milhão de mortes de covid-19 em apenas pouco mais de um ano deveria levar à reflexão. Especialmente porque o verdadeiro número de mortos é provavelmente maior do que isso. O Instituto de Métricas e Avaliação da Saúde (IHME), sediado em Seattle, acredita que existe uma significativa subnotificação de mortes por covid-19 no Brasil. Os cientistas estimam que mais de 600 mil brasileiros podem ter morrido do vírus.

Culpar apenas o governo Jair Bolsonaro por isso seria simplista. Muitos brasileiros aproveitaram todas as oportunidades para desafiar as regras pandêmicas mais simples: o uso de máscara, o distanciamento social, evitar aglomerações, especialmente em locais fechados. Festas eram recorrentes, assim como praias, bares e restaurantes lotados.

Ao mesmo tempo, é impossível não responsabilizar o governo pelo desastre no Brasil. Com uma gestão pandêmica desastrosa, ele não é apenas culpado por inúmeras mortes de covid-19, mas também pelo fato de que a pandemia simplesmente não vai acabar.

É importante lembrar, neste momento, o absurdo e desumano espetáculo que Bolsonaro deu ao longo do curso da pandemia. Ele negou, xingou, semeou dúvidas, sabotou. Ele chamou a covid-19 de "gripezinha"; instou as pessoas a resistir às ações dos governadores; até hoje ele promove a hidroxicloroquina, comprovadamente ineficaz contra a doença; repetidamente gerou aglomerações sem usar máscara; recusou a entrega antecipada de vacinas; depois espalhou dúvidas sobre a eficácia das vacinas; agora ele afirma que o número de mortes foi inflado. Após 15 meses da pandemia, é difícil pensar em alguém que teria levado o Brasil a um patamar pior.

É claro que se pode discutir se a esquerda ou a direita tem melhores propostas de soluções para os desafios do Brasil. O que é inquestionável é que o governo deve ser liderado por alguém que leve o povo a sério e tente evitar danos a ele. Mas a única coisa que Bolsonaro leva a sério é ele mesmo. A única coisa que ele protege são os interesses de seu clã familiar. A pandemia, por outro lado, ele não só não conseguiu conter – ele ativamente agiu para acelerá-la. É por isso que é correto que uma CPI esteja atualmente lançando luz sobre o que aconteceu dentro do governo. Já está claro que a gestão da pandemia por Bolsonaro tem características criminosas. Rejeitou a perícia científica e promoveu a ineficaz hidroxicloroquina, que pode causar graves efeitos colaterais.

Quem conhece o presidente sabe que ele não encontrará frases apropriadas sobre as 500 mil mortes por covid-19. Ele não vai achar uma única palavra sincera de simpatia, arrependimento ou compaixão. Se falar, seu discurso provavelmente servirá para propagar mentiras e meias verdades. Como a que ele levou a pandemia a sério desde o início; ou que foi o seu governo que levou vacinas aos brasileiros. Também é possível que Bolsonaro afirme que sempre queria manter a economia brasileira funcionando. Mas, para isso, ele tinha que ter combatido a pandemia, em vez de estendê-la sem parar.

Dizem que é nas crises que se revela a verdadeira grandeza de uma pessoa ou de um governo.

Mais de sete em cada dez brasileiros conhecem agora alguém que morreu de covid-19. Era impossível evitar que pessoas morressem do vírus. As condições econômicas e sociais, especialmente dos pobres, eram propensas à propagação do vírus, e a estrutura deficitária dos hospitais públicos fez aumentar a letalidade, ou seja, o número de mortos em relação aos infectados.

Mas o fato de meio milhão de pessoas já terem sido enterradas e de o Brasil não só enfrentar uma possível terceira onda, mas também correr o risco de produzir novas variantes do vírus, deve-se a um governo que não serve a ninguém, senão a si mesmo.

500 mil mortos

 Editorial

O Estado de S.Paulo

Bolsonaro não se sentiu obrigado a dirigir nenhuma palavra de conforto e pesar quando a terrível marca de 500 mil mortos foi atingida. É como se as vítimas não fossem dignas de luto

Há algo de profundamente perturbador quando parte da sociedade, estimulada pela desumanidade do governo de Jair Bolsonaro, considera natural a morte de meio milhão de conterrâneos na pandemia de covid-19. O choque é ainda maior quando se constata que muitos desses brasileiros mortos poderiam ter sobrevivido, não fosse a inépcia criminosa do governo, resultado direto do comportamento irresponsável do presidente.

Bolsonaro não se sentiu obrigado a dirigir nenhuma palavra de conforto e pesar quando a terrível marca de 500 mil mortos foi atingida. É como se essas vítimas não fossem dignas de luto.

O ministro das Comunicações, Fábio Faria, foi didático ao explicar por que não se deveria lamentar a morte de 500 mil brasileiros. No Twitter, escreveu: “Em breve vocês verão políticos, artistas e jornalistas ‘lamentando’ o número de 500 mil mortos. Nunca os verão comemorar os 86 milhões de doses aplicadas ou os 18 milhões de curados, porque o tom é sempre o do ‘quanto pior, melhor’. Infelizmente, eles torcem pelo vírus”.

Na lógica bolsonarista, portanto, comover-se ou revoltar-se com a morte de meio milhão de brasileiros equivale a “torcer pelo vírus” contra o Brasil. O importante, segundo o sequaz do presidente, é “comemorar” vacinas que Bolsonaro sabotou (e continua a sabotar, duvidando de sua eficácia) e os milhões de curados de uma doença cuja letalidade média é de 1% no mundo, mas que no Brasil superou 4% em março, segundo a Fundação Oswaldo Cruz. Ou seja, o Brasil do ministro Fábio Faria poderia ter mais vacinas e menos óbitos, mas escolheu deliberadamente ter menos imunizantes e incitar seus cidadãos a se exporem a uma doença fatal.

Ao menosprezar os que morreram, o governo os trata como fracos que faleceriam de qualquer maneira, seja pela idade, seja por terem “comorbidades”. Em março passado, quando mais uma vez estimulou os brasileiros a ignorarem medidas de isolamento social, Bolsonaro disse que “temos que enfrentar os problemas, respeitar obviamente os mais idosos, aqueles que têm doenças, comorbidades”. A respeito dos mortos, declarou na mesma ocasião: “Chega de frescura, de mimimi! Vão ficar chorando até quando?”.

Depreende-se que, para Bolsonaro e sua grei, a covid deve servir para realizar uma espécie de “seleção natural”: os que sobrevivem à pandemia se provam fortes o bastante para integrar a comunidade nacional idealizada pelo bolsonarismo; já os que morrerem não passaram no teste.

A isso se dá o nome de darwinismo social, ideologia que parece nortear Bolsonaro desde sua posse, influenciando ministros como Fábio Faria e Paulo Guedes – aquele para quem há brasileiros que passam fome porque a classe média desperdiça comida, e não em razão do desemprego que o governo nada faz para mitigar.

Ou seja, os delitos do governo Bolsonaro na pandemia não são somente de ordem jurídica ou administrativa, mas sobretudo moral. É como se o presidente não reconhecesse os milhares de mortos como cidadãos do país que ele julga governar.

Nessa nação delirante, ganha cidadania plena somente quem devota fé absoluta em Bolsonaro – a ponto de tomar remédios sem eficácia só porque foram propagandeados pelo presidente e de deixar de tomar vacinas eficazes só porque foram desacreditadas por Bolsonaro.

Para os “fortes” do país de Bolsonaro, o uso de máscara e as restrições de movimento, essenciais para conter a disseminação do coronavírus, são atentados às “liberdades” de que se julgam titulares e que estão acima do direito à saúde e à vida dos demais brasileiros. São, ademais, sinais de covardia, incompatíveis com a imagem viril que pretendem imprimir ao país que inventaram.

As manifestações de opositores do presidente no sábado passado em cerca de 200 cidades do País mostram, contudo, que cada vez menos cidadãos estão dispostos a viver no país do bolsonarismo ou a participar do experimento social-darwinista liderado pelo presidente da República. Exige-se nas ruas que o presidente pelo menos se envergonhe da marca de meio milhão de mortos, como faria qualquer chefe de Estado decente. Para sentir vergonha, no entanto, é preciso tê-la.


Brasil ultrapassa 500 mil mortes por Covid-19

 Rafael Garcia

O Globo

Cientista à frente do grupo Ação Covid-19, José Paulo Guedes Pinto alerta que ainda há espaço para o vírus crescer no país: 'Vamos parar em 1 milhão, 2 milhões de óbitos?'

 500 mil mortos Foto: O Globo



SÃO PAULO — O Brasil chegou neste sábado a 500.022 mortes por Covid-19. A perda de meio milhão de vidas, registrada pelo consórcio de imprensa do qual O GLOBO faz parte, impõe a pergunta: quantas mortes ainda teremos? Não há estudos, mas nos últimos meses, sob o clamor da CPI da Covid-19, pesquisadores têm se permitido opinar sobre o que as políticas públicas trouxeram e suas consequências.

No mesmo dia em que o país registra o marco de 500 mil mortes, milhares de manifestantes foram às ruas contra o governo Bolsonaro. Os atos pedem o impeachment do atual presidente da República e o avanço da vacinação em meio a críticas à gestão da pandemia no Brasil.

No momento, cerca de 11,5% dos brasileiros receberam duas doses da vacina. Levando em conta o baixo isolamento social atual, o índice vacinação mínimo para frear a pandemia é acima de 40%, diz o grupo Ação Covid-19, que envolve diversos especialistas em modelagem matemática. Se o isolamento cair a zero, o grupo afirma que seria preciso 70% da população imunizada (ou sobrevivente de infecção prévia) para conter o coronavírus.

José Paulo Guedes Pinto, cientista da Universidade Federal do ABC à frente do Ação Covid-19, lembra que os casos registrados não chegam a 10% da população — ou seja, ainda há espaço para o vírus crescer:

— Se a gente deixar todo o resto se infectar, quantos vão morrer? Não vão ser 5 milhões, porque jovens e crianças morrem menos que os mais velhos, que estão mais vacinados. Mas vamos parar em 1 milhão, 2 milhões? Não sei.

Pedro Hallal, epidemiologista da Universidade Federal de Pelotas, concorda que a questão é complexa:

— Quantas pessoas ainda podem morrer na pandemia no Brasil depende de muitos “se”. Mas podemos dizer, por exemplo, que se a vacinação continuar como foi no último mês, e se as medidas não farmacológicas não forem ampliadas, podemos nos preparar para manter uma média diária acima de 1.500 óbitos por dois ou três meses.

Isso implicaria mais 150 mil mortes de hoje até o fim de setembro, e a pandemia provavelmente ainda não estaria controlada pela vacina. Em junho, o ritmo de vacinação se acelerou para uma média de quase 1 milhão de doses aplicadas por dia. Nessa velocidade, o Brasil só atingiria em dezembro uma parcela de 70% da população imunizada: o limiar estimado da chamada “imunidade de rebanho”, para segurar a expansão da epidemia.

Mortes evitáveis

A epidemiologista Carla Domingues, que coordenou o Programa Nacional de Imunização (PNI) por oito anos, afirma que, mesmo com atraso, a vacina pode diminuir a carga de mortes que estaria por vir:

— Os 70% são o limiar para diminuir drasticamente a incidência da transmissão do vírus, mas é possível que a gente consiga observar antes disso um impacto na diminuição da carga de óbitos da doença.

Hallal é um dos cientistas que têm usado o número de mortos como medida do fracasso do combate à pandemia. Em janeiro, o pesquisador publicou comentário na revista científica Lancet afirmando que o Brasil poderia ter evitado três quartos dos óbitos caso tivesse tido um desempenho apenas razoável na contenção do vírus.

Atualizando o cálculo, o pesquisador vê uma situação pior: como o Brasil possui 2,7% da população mundial, explica Hallal, seria natural que registrássemos uma proporção similar nas mortes pela doença. O país, porém, registrou até hoje 12,8% dos óbitos globais por Covid-19. Isso significa que um desempenho mediano em evitar mortes teria sido capaz de salvar 408 mil vidas.

— Essa conta não é um artigo científico sobre mortes evitáveis, mas uma explicação simples para a população dimensionar o tamanho da tragédia que é a Covid-19 no Brasil — ressalta Hallal.

Ainda mais vítimas

Há um ano, quando o Brasil tinha menos de 30 mil mortes por Covid-19, Paulo Lotufo, professor de epidemiologia na USP, afirmou que o país poderia ter sofrido um terço delas. Hoje, o cientista não se manifesta sobre qual seria a parcela das mortes evitáveis entre as 500 mil registradas, mas alerta para o problema real da subnotificação de óbitos por Covid-19— provavelmente, há mais mortos do que registram as estatísticas oficiais.

— Não dá para cravar nada a partir da mortalidade excedente no país [comparação entre óbitos totais antes e depois da pandemia] — explica. — Mas tenho uma estimativa para o município de São Paulo, por exemplo, de que aqui temos na verdade 20% a mais de mortes pela Covid-19 do que o registrado.

Se aplicado o cálculo em todo o país, chegaríamos hoje à perda de inacreditáveis 600 mil brasileiros pela pandemia.



No país do 'deixa morrer'

 Eliane Cantanhêde*, 

O Estado de S.Paulo

Para Bolsonaro, pobres devem viajar de jegue, mas votam. Para Guedes, são só estorvo

A nova postura da CPI da Covid, mais estratégica, concreta e dura, coincide com a marca de 500 mil mortos e o recorde de mais de 98 mil infectados em 24 horas na sexta-feira passada, o que projeta tempos ainda mais difíceis nesta e nas próximas semanas. 

A CPI come pelas bordas, mirando no Ministério da Saúde e no gabinete das trevas, mas o alvo está no centro desse mingau: o presidente Jair Bolsonaro.

Se convocar o ex-governador deposto Wilson Witzel e dois médicos pró-cloroquina foi um erro, dando palanque para a defesa do indefensável nos dois casos, a CPI acertou ao endurecer o jogo e dar consequência às provas já colhidas em depoimentos e documentos. A cúpula da comissão decretou condução coercitiva e apreensão do passaporte do empresário Carlos Wizard, retirou-se do depoimento pró-cloroquina e transformou 14 testemunhas em investigados.

A lista dos alvos dá boas pistas sobre a estratégia. Ali estão o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, os ex-ministros Eduardo Pazuello (Saúde) e Ernesto Araújo (Relações Exteriores), o ex-secretário Fábio Wajngarten e o ex-assessor Arthur Weintraub. Afora Queiroga, que tenta se equilibrar entre o seu discurso e o do presidente, os demais são pivôs de dois dos grandes erros do governo: descaso pela vacina e obsessão pela cloroquina.

Sem cargos no governo, nem antes nem agora, também viraram investigados os médicos Nise Yamaguchi e Paolo Zanoto e o empresário Carlos Wizard, que foge da CPI feito diabo da cruz, sabe-se lá por quê. Eles são a chave para desvendar de vez o tal gabinete das trevas do Planalto, suspeito de asfixiar o Ministério da Saúde para viabilizar a política anticientífica e absurda do presidente.

A quarta frente das investigações, aliás, diz respeito à asfixia, neste caso real, das vítimas de covid em Manaus. Além da incúria, do despreparo, do empurra-empurra, a CPI trabalha com a possibilidade de o governo ter, deliberadamente, usado os cidadãos da capital do Amazonas para experimentos com cloroquina que contrariam a OMS e as principais agências de saúde do mundo civilizado.

Começa a emergir também a velha linha de polícias e CPIs: seguir o dinheiro. Afinal, a propaganda da cloroquina e a obsessão do governo pelo “Kit Covid” foram só por ideologia, crença, achismo, ou teve interesse financeiro nisso? A mesma pergunta vale para as vacinas. Por que desdenhar de umas e depois aderir rapidinho a outras?

No seu mundo paralelo, Bolsonaro segue em campanha como se nada estivesse acontecendo, desrespeitando a vida, a ciência, a lei, até a lógica. Desmerecer vacina e enaltecer imunidade de rebanho, a esta altura, é a política do “deixa morrer”. E atacar as máscaras? Agredir adversários por “voz fina” e “calça apertadinha”? Sobre o meio milhão de mortos, nada.

Até aqui, havia atos golpistas e motociatas, mas as manifestações pela vida, vacina e “Fora, Bolsonaro” abrem um novo capítulo e mexem com o real interesse do presidente: a reeleição. Por isso, ele trata a economia como trata a ciência e pisoteia o ministro Paulo Guedes. Quanto mais a CPI avança, mais o populismo borbulha: aumento do funcionalismo em meio ao desemprego desesperador e benesses para atrair o eleitor do ex-presidente Lula. Algumas são defensáveis, a questão é a intenção e como fechar a conta.

Se Bolsonaro insiste no “deixa morrer” na pandemia, ele e Guedes têm sensibilidade diferente para os pobres. Para o presidente, eles devem “viajar de jegue”, mas têm voto. Para o ministro, são só estorvo. Empregada de avião para Miami? Filho de porteiro em universidade? E que tal raspar as sobras de comida do prato e dar para famílias miseráveis? A Terra não é plana, mas o Brasil parece terra arrasada.

*COMENTARISTA DA RÁDIO ELDORADO, DA RÁDIO JORNAL (PE) E DO TELEJORNAL GLOBONEWS EM PAUTA


Reformas para o projeto autoritário

 Míriam Leitão

O Globo

 bolsonaro_tropas | Infoglobo


Hoje, o presidente pode nomear seis mil pessoas que não fazem parte do setor público para os cargos em comissão. Com a reforma administrativa, poderá nomear 90 mil. Pessoas estranhas ao serviço público poderão exercer funções estratégicas. O governo poderá pagar o salário de funcionários de empresa privada. Tudo isso para economizar recursos? Não. No próprio texto da exposição de motivos está dito que não haverá impacto fiscal, orçamentário ou financeiro. A reforma administrativa é mais uma das propostas do governo Bolsonaro que serve a seu projeto de poder que, todos sabemos, é autoritário.

O mercado financeiro espera “as reformas” como um fetiche, afirmando que com elas o país retomará o crescimento e vai estabilizar a dívida pública. Balela. A MP da venda da Eletrobras virou um monstrengo, que custará caro ao consumidor por vários anos, mas tanto para o ministro da Economia, Paulo Guedes, quanto para o mercado financeiro, isso não importa. O ministro quer reduzir um pouco o fiasco que é o seu programa de privatização, e o mercado quer ganhar dinheiro com a operação.

Rudinei Marques, presidente do Fórum Nacional Permanente de Carreiras Típicas de Estado, explica a mágica da multiplicação dos cargos que poderão ser ocupados por decisão única do governante de ocasião:

— A PEC permite um aparelhamento sem precedentes do Estado. Através do que eles chamam de “vínculos de liderança”. Hoje a Constituição diz que na administração pública há funções de confiança específica de servidores de carreira e cargos em comissão que podem ser ocupados por pessoas sem vínculos com a administração pública dentro de limites fixados pela lei. Hoje, a União tem 90 mil desses cargos, 70 mil são funções de confiança exercidas exclusivamente por servidores de carreira e os outros 20 mil são cargos em comissão. Desses, seis mil são livre provimento, e 14 mil devem ser ocupados por servidores. Os vínculos de liderança eliminam qualquer restrição a que todos esses cargos sejam de livre indicação política. Então estamos falando de um exército de 90 mil cabos eleitorais.

Esses números são só da União, mas a mesma regra valerá para o Legislativo, o Ministério Público, o Judiciário. E pode, em cascata, ir para estados e municípios. A reforma é em todos os poderes.

Quando o Coaf foi punido, lembra Rudinei, por ter feito o seu trabalho de revelar as “rachadinhas”, foi preciso a atuação dos funcionários para evitar que os cargos na instituição fossem preenchidos por pessoas que não eram servidores de carreira.

Pedro Pontual, que representa a Associação Nacional dos Especialistas em Políticas Públicas e Gestão Governamental, diz que a PEC permite que sejam transferidos recursos públicos para empresas privadas com fins lucrativos:

— Ela cria um instrumento de cooperação que autoriza pagar os recursos humanos das empresas privadas e também o uso de espaços físicos, fora da figura do aluguel. A PEC não coloca nenhum tipo de restrição a pagar salário a quem já estava na empresa. Isso pode servir para mascarar o gasto de pessoal.

Rodrigo Spada, presidente da Federação Brasileira de Associações Fiscais de Tributos Estaduais, alerta que a reforma não propõe algo realmente novo que poderia produzir um salto de eficiência no Estado:

— Essa PEC nada entrega de governo digital, capacitação, qualificação do servidor público, criação de escolas de governo, desburocratização.

Luciana Dytz, presidente da Associação Nacional das Defensoras e Defensores Públicos Federais, diz que há mudanças necessárias, mas não estão sendo propostas:

— A gente vem sofrendo com falta de estrutura, mas isso é questão fora da reforma administrativa.

Há vários outros pontos controversos, explicam servidores, ou pontos que parecem avanços e embutem armadilhas. A exposição de motivos, que acompanha a PEC, diz que o “Estado custa muito e entrega pouco”.

— O governo se esmerou em mostrar o custo — do qual divergimos — mas não houve qualquer esforço para mostrar que entrega pouco. Temos noção de que o serviço público pode ser melhorado, mas dizer que “entrega pouco” é suficiente apenas na mesa de bar — diz Pontual.

Este governo atacou órgãos, desmontou a máquina, nomeou inimigos da missão de cada setor. Imagine o que faria sem as amarras da Constituição.

Com Alvaro Gribel (de São Paulo)



O conto da Eletrobrás

 J. R. Guzzo, 

O Estado de S.Paulo

A Eletrobrás faz de conta que é uma empresa ‘do Estado’ e a serviço da população

  Foto: Pilar Olivares/Reuters 

Deputados e senadores desfiguraram de forma 

assustadora o projeto de privatização da Eletrobrás. 

Em nenhum lugar da vida pública do Brasil uma das mais notáveis Leis Gerais da Sabedoria Popular, aquela segundo a qual não existe limite para o pior, se aplica tão bem quanto no Senado Federal e na Câmara dos Deputados. Olhem que não é fácil, num país onde existe, por exemplo, um Supremo Tribunal Federal como este, em que um ministro foi reprovado duas vezes no concurso para juiz de direito e outro foi nomeado porque tomava tubaína com o presidente da República – isso para não falar de prodígios que só as instituições deste país conseguem produzir, como o fato de que o principal candidato da oposição à Presidência da República em 2022 é um homem que foi condenado legalmente como ladrão na Justiça brasileira, por corrupção e lavagem de dinheiro, em três instâncias e por nove juízes diferentes.

Mas o Congresso brasileiro é uma história de “superação”, como se diz nos cursos de autoajuda – opera em corrente contínua, sem mudar nunca a direção do fluxo, e em sistema de progressão geométrica. A determinação de prejudicar o interesse público em favor do interesse pessoal dos senadores e deputados é sempre a mesma. Os prejuízos que impõe para a sociedade vão sempre dobrando; hoje tomam dois, amanhã tomam quatro, depois de amanhã tomam oito e por aí segue a vida. Em todas essas ocasiões, é claro, o PT, seus partidos vassalos e a esquerda se juntam, de corpo e alma, com os políticos que apoiam o governo, para aprovar o que querem e rejeitar o que não querem. Eis aí: estão no mesmo bonde, de mãos dadas, Lula e o “genocida”, que nessas horas deixa de ser genocida e passa a ser um grande parça do “campo progressista”.

O último surto é essa contrafação armada na privatização da Eletrobrás – um conto do vigário gigante, em que os políticos arrancaram dos bolsos do público tudo o que quiseram arrancar, e deixaram a população brasileira com um belo relógio suíço fabricado no Paraguai. Essa aberração inventada 59 anos atrás, no delírio de estatização que encantava então o Terceiro Mundo, é uma das responsáveis “master” pelo atraso do Brasil. Não é que ajude o atraso: é o próprio atraso, como todo o Estado brasileiro, pois se dedica 24 horas por dia a servir interesses privados e a desviar para seus bolsos recursos que pertencem ao público. Seus agentes dizem, é claro, que se trata de uma empresa “estratégica”, executora de “políticas energéticas” e dedicada a promover dia e noite o desenvolvimento do Brasil, sobretudo nas áreas “mais pobres”. Conversa fiada, do começo ao fim.

A Eletrobrás, como tantas outras estatais, é um parasita que há seis décadas privatiza para o interesse pessoal, o proveito político e o lucro financeiro dos amigos dos governos, e dos amigos dos amigos, a produção e a distribuição da energia elétrica no Brasil. Faz de conta, como as demais, que é uma empresa “do Estado” e a serviço da população. Na vida real, é propriedade mais do que privada de alguns milhares de espertos que têm algum tipo de influência nos governos federal, estaduais e municipais; dos seus diretores e altos funcionários, com o seu caminhão de benefícios extravagantes; dos políticos que as utilizam como um dos mais notórios cabides de emprego do Brasil; dos fornecedores. É por aí.

Tentava-se mais uma vez agora, como já se tentou no passado, privatizar a Eletrobrás – a única maneira de eliminar suas taras e atender aos interesses da população brasileira, pois ali dentro nenhuma reforma é possível. Mas os deputados e senadores desfiguraram de tal forma o projeto, na defesa dos seus privilégios, que a desgraça toda ficou maior do que já era. Realmente, não há limite para o pior.

*JORNALISTA


A nossa dor além da conta

 Míriam Leitão

O Globo

 Moto_caveira | Reuters


Meio milhão de mortos. É o que temos registrado. Um número imenso, inconcebível, mas que era previsível diante dos erros do governo. Caminhamos para a morte, dolorosamente, sem saber quem entre nós será atingido na próxima semana, no próximo dia, na próxima hora. Nós, os sobreviventes, carregamos dores e sequelas de uma impiedosa mortandade. Sim, Bolsonaro é culpado, e essa não é uma frase política, é a simples constatação diante de abundantes fatos produzidos diariamente por ele mesmo, o mais irresponsável dos governantes que o Brasil já teve. Na última quinta-feira, na live em que mente sistematicamente, Bolsonaro disse que quem pegou o vírus está mais imunizado do que quem tomou a vacina. Essa é mais uma mentira mortal. As mentiras do presidente matam.

Não foi Bolsonaro que inventou a pandemia, mas é ele que tem se esforçado diariamente pela disseminação do vírus. Bolsonaro pôs todos os seus mesquinhos interesses à frente da vida. Sabotou os esforços dos que tentam proteger os brasileiros, atacou governadores, alimentou a cizânia, espalhou mentiras, estimulou aglomerações, ignorou fornecedores de vacinas, exibiu desprezo pelos que sofrem e correu atrás de tudo o que não funciona, da cloroquina ao spray nasal.

Governantes podem errar. Isso sempre aconteceu na história dos países. Mas Bolsonaro conseguiu errar o tempo todo. Diariamente ele toma decisões ou faz declarações que colocam o país mais vulnerável ao vírus. Descrever a lista desses erros aqui seria exaustivo e ocioso. O país vê o presidente manipulando números de óbitos, estimulando a atitude errada, brigando de forma vil com todos os que sinceramente se empenham em proteger a vida.

O país chega exaurido ao espantoso número de quinhentos mil mortos. Tem que dividir seus esforços em duas frentes de luta, contra o inimigo invisível e implacável, e contra o governante que nos empurra em direção ao abismo. A Comissão Parlamentar de Inquérito põe diante de nós, a cada sessão, novos fatos, novas omissões, novas provas da incúria, da incompetência e do desprezo pela vida. Ficou claro, irretorquível, que o projeto de Bolsonaro sempre foi disseminar o vírus o mais rapidamente possível. Ele segue ainda hoje no delírio de que a contaminação geral da República é a melhor estratégia. O custo em vidas humanas não o interessa. Ele não quer proteger o país, quer que o assunto não atrapalhe a sua demagógica campanha eleitoral para 2022. Só nisso pensa o presidente.

Ele demitiu ministros que tentaram acertar, colocou outros na coleira, impôs que a máquina pública trabalhasse por remédios que são ineficazes e desprezou inúmeras chances de ter a vacina na primeira hora. Isso custou milhares de vidas. O único imunizante pelo qual o governo se empenhou era vendido por um intermediário sobre o qual pairam suspeitas. Houve também, como a CPI mostra, desperdício de recursos públicos e desvios.

Bolsonaro passeia de moto sobre a dor do país nessa sua campanha eleitoral fora de época e de lugar, e que está sendo paga com o nosso dinheiro. São recursos públicos que custeiam seus deslocamentos e dos seus ministros para os comícios em que, desmascarado, ele mente e nos expõe ainda mais ao risco. Sai do nosso bolso o dinheiro que paga disseminadores de mentiras que ele instalou no Planalto sob o comando do vereador, seu filho. É nosso o imposto que financia a montagem dos palanques, que paga a comitiva de assessores e áulicos, os policiais da segurança, e os falsificadores de informação que o seguem em cada deslocamento.

A democracia brasileira está sem instrumentos para lidar com pessoa tão maléfica no governo. Está acossada pelo presidente e seus blefes, como o de que haverá uma “convulsão social” se o voto não for impresso. Como é possível tolerar que o presidente ameace o país com uma convulsão social e no meio de uma pandemia que matou 500 mil brasileiros?

Não há mais palavras para descrever os fatos desses devastadores meses em que o país atravessa uma tragédia inédita em nossa história sob o comando do pior dos presidentes. O tempo talvez console os enlutados, cure os feridos, e nos permita entender a devastação que temos vivido. O tempo presente, contudo, ainda é de luta pela vida.

Com Alvaro Gribel (de São Paulo)


Em busca da civilização perdida

 Elio Gaspari

O Globo

Se não bastasse a pandemia, vive-se a ameaça de uma crise no fornecimento de energia

Se não bastasse a pandemia, vive-se a ameaça de uma crise no fornecimento de energia. E se isso fosse pouco, o projeto de privatização da Eletrobras foi minado pelos jabutis que os maganos enfiaram na legislação.

Tamanha confusão produzida por uma base política voraz e pela falta de rumo do governo poderá ser melhor entendida por quem se dispuser a atravessar as 368 páginas de “Curto-circuito: Quando o Brasil quase ficou às escuras”, dos jornalistas Roberto Rockmann e Lucio Mattos.

Eles contam duas histórias. O tema central é o “apagão” de 2001, quando o governo de Fernando Henrique Cardoso enfrentou a falta de água nos reservatórios. O pano de fundo é a mistura de interesses, inépcias e empulhações que provocaram a crise e desembocaram na girafa em que se transformou o sonho tucano de privatização das estatais elétricas.

Prometiam um modelo no qual a geração seria privatizada, haveria disputa pelo fornecimento e as pessoas poderiam escolher de quem comprariam energia. Não aconteceu nem uma coisa nem outra, as tarifas subiram e a crise hídrica voltou.

Aqui e ali, ecoam algumas situações parecidas com as de hoje. O governo levou meses para perceber a gravidade da crise e não queria falar em racionamento. “Curto Circuito” mostra a diferença que faz um presidente disposto a botar sua popularidade na frigideira e, sobretudo, entregar o problema a um servidor capaz. Ele foi o economista Pedro Parente, a quem FHC entregou a encrenca e os poderes para enfrentá-la.

FHC e Ruth Cardoso tinham um filho e duas filhas, nenhum deles dava palpite no governo. Para sua sorte, David Zylbersztajn, seu genro ao amanhecer da crise, dirigia a Agência Nacional de Petróleo, entendia do assunto e ajudou a acender a luz vermelha.

O papel de Parente pode ser medido a partir de um episódio, quando ele foi encarregado de chefiar a nova Câmara de Gestão da Crise de Energia. Os marqueteiros não queriam falar em crise. Ele se impôs: “Tem que usar a palavra crise. (...) Não adianta esconder.”

Para quem vive no mundo da cloroquina, com o ministério da Saúde tendo banido o uso das expressões “quarentena” e “auto-isolamento” um Pedro Parente é tudo o que falta. Ele trabalhou como um mouro, suas reuniões eram abastecidas com esfihas do Habib’s. Houve um dia em que esqueceu de vestir o cinto. 

A crise de 2001 não tinha a letalidade da pandemia, mas sua complexidade era enorme. Havia burocratas brigando, o Centrão bicando e empresários querendo faturar. Só não havia um presidente negando a crise ou acreditando em remédios milagrosos. (Em março de 2020 Jair Bolsonaro disse que nos Estados Unidos visitaria uma empresa de militares que pesquisa a transmissão de energia elétrica sem fios. Felizmente não foi.)

Em 2001 os jogos noturnos de futebol foram cancelados e Gilmar Mendes, o advogado-geral da União, costurou arestas nos tribunais.

O apagão custou caro à popularidade de FHC, mas suas medidas evitaram catástrofes. Tudo isso num clima de civilização que parece perdido.

500 mil mortos

Batendo a triste marca dos 500 mil mortos, a administração de Jair Bolsonaro, confronta-se com a tragédia da “gripezinha”cujo “finalzinho” esteve próximo, pois a nova onda era uma “conversinha”. Muita gente votou nele porque concordava com suas propostas de campanha. Outros, votariam em qualquer um para impedir a volta do PT.

Passados dois anos, eleitores e sobretudo pessoas que formam seu governo acreditando em sabe-se lá o quê, estão diante de uma personalidade conturbada. Algum defeito, todas as cabeças têm, mas Bolsonaro é um sexagenário com fantasias infantis. 

São soluções simples e definitivas para problemas que os adultos consideram complexos.

Aos 66 anos, acredita na cloroquina e no spray israelense. Por volta dos trinta, acreditava na mágica do garimpo, desafiando as normas do Exército onde servia. De lá para cá apresentou-se como um profeta das virtudes milagrosas do nióbio e do grafeno para a economia. Noves fora a curiosidade pela transmissão de eletricidade sem fios, como presidente, disse que o Brasil e Argentina poderiam adotar uma moeda única.

Promessas de políticos são uma coisa, onipotências infantis, bem outra.

Milagre

A Samarco, empresa responsável pelo desastre de Mariana, onde morreram 19 pessoas em 2015, pediu recuperação judicial.

O então diretor jurídico da Vale, acionista da empresa, notabilizou-se por dizer que “a Samarco não é um botequim, não é uma empresinha qualquer”.

Pode ter sido assim, mas três dias antes do pedido de recuperação judicial da Samarco, sua dívida passou de R$ 27 bilhões para R$ 50 bilhões.

O espeto engordou porque a Vale e a empresa anglo-australiana BHP transformaram em dívida da Samarco o dinheiro que gastaram no pagamento das indenizações devidas pelo desastre de Mariana.

Num botequim qualquer, isso poderia acabar em tiros. 

Madame Natasha

Madame Natasha é uma miliciana do idioma e percebeu que surgiu uma novidade. É o “lixão clandestino”, denominação dada aos terrenos onde as milícias jogam detritos que o Estado não coleta.

Já se falou em “loteamentos clandestinos” e em “transportes clandestinos”. O que a senhora não entende é como essas clandestinidades não são percebidas. Elas são apenas ilegais.

Frito

Bolsonaro pode repetir a cada dia que Ricardo Salles é um excelente ministro, mas pelo andar da carruagem do inquérito do favorecimento das madeireiras, ele está frito.

Ramos e Alcolumbre

Se o general da reserva Luiz Eduardo Ramos deixar a chefia da Casa Civil, seu substituto poderá ser o senador Davi Alcolumbre. Pelo menos essa é a esperança de muitos parlamentares da base do governo.

Quando Alcolumbre surgiu como candidato a presidente do Senado, muita gente dizia que ele não tinha tamanho para derrotar Renan Calheiros.

Escolha para Doria

João Doria é candidato a presidente e tomou mais uma pancada no PSDB. Ele tem dois caminhos.

No primeiro, passa a tratar seriamente as restrições que sofre no tucanato. Há um ano ele menosprezava referências a esse obstáculo.

No segundo, continua na pose negacionista. Com ela, caso seja eleito, arrisca ficar parecido com o antecessor. 

Lula e Perón

Começou a temporada de caça ao Terceiro Nome, capaz de quebrar a polarização Lula x Bolsonaro.

A ver, mas o andar de cima brasileiro está na mesma armadilha em que caíram aqueles argentinos que pensam ser ingleses.

Tendo defenestrado Juan Perón em 1955 com a ajuda dos militares, passaram dezoito anos procurando uma alternativa. Em 1973 Perón voltou à Casa Rosada.

Se o Terceiro Nome não aparecer, no ano que vem poderá ser fechado um círculo:

Lula e o comissariado petista contribuíram a gerar Jair Bolsonaro que, por sua vez, ajudou a gerar Lula.


Quantas mortes poderiam ter sido evitadas no Brasil?

 Autoria Bruno Lupion

Deutsche Welle

Pesquisadores não têm dúvida: dezenas ou até centenas de milhares das 500 mil vidas perdidas até agora poderiam ter sido poupadas com mais vacinas, medidas de combate ao vírus e sem o negacionismo de Bolsonaro.

    

 Cemitério coletivo em Manaus

No dia em que o Brasil superou a marca de 500 mil mortos por covid-19, uma pergunta é repetida na mente de muitos brasileiros: quantas dessas mortes eram evitáveis? Meu familiar teria sobrevivido se o governo tivesse adotado outra postura no começo da pandemia?

Estimar esse número é possível a partir de diferentes metodologias, e pesquisadores brasileiros desenvolveram modelos simples e complexos para chegar a esse dado. Quatro dessas projeções são explicadas abaixo.

396 mil mortes evitáveis até hoje

Uma abordagem simples, mas fundamentada, foi apresentada pelo epidemiologista Pedro Hallal, autor do primeiro estudo brasileiro a avaliar a magnitude da pandemia do coronavírus no país e ex-reitor da Universidade Federal de Pelotas (UFPel).

O cálculo dele leva em consideração que 2,7% da população mundial vive no Brasil, e projeta quantas mortes por covid-19 teriam ocorrido no país se ele tivesse tido um desempenho na média mundial. A diferença entre esse número e o número real de mortes ocorridas é atribuída por ele ao "mau desempenho" do Brasil no enfrentamento da pandemia.

O raciocínio foi exposto em uma carta publicada na revista científica The Lancet em 22 de janeiro e intitulada SOS Brasil: ciência sob ataque, e citado pela microbiologista Natalia Pasternak à CPI da Pandemia na última sexta-feira (11/06).

Usando a metodologia de Hallal, neste sábado (19/06), o mundo registrava 3,8 milhões de mortes pela covid-19 – 2,7% dessas mortes seriam 104 mil. A diferença entre esse número e o número real de mortes no Brasil até o momento é de 396 mil mortes, atribuíveis ao "mau desempenho" do país. 

À DW Brasil, Hallal afirma que optou por esse critério pela sua simplicidade e fácil compreensão pela população. E diz que, se incluísse outras variáveis, o número de mortes evitáveis seria ainda maior.

"Se a gente for botar mais complexidade nesse cálculo, por exemplo ajustar para a estrutura etária da população, que é o principal indicador, a situação do Brasil piora mais ainda. Mas como todo pesquisador gosta de ser conservador, preferi apresentar dessa maneira", diz.

Ele afirma que o mau desempenho do país no combate à pandemia é resultado de um conjunto de erros: "Negar ofertas de vacina, promover aglomerações, promover o não uso da máscara e promover tratamento deficiente e passar uma falsa sensação de segurança da população". 

Bolsonaro em manifestação com motociclistas: presidente

 promoveu aglomerações ao longo de toda a pandemia


Recusa de vacinas: mais 145 mil mortes em 2021

Eduardo Massad, professor emérito da faculdade de medicina da USP e professor de matemática aplicada da FGV, afirma que o cálculo de Hallal está "perfeitamente correto" e que, apesar da simplicidade, leva em conta "tudo o que o Brasil fez de errado" no combate à pandemia.

Ele reuniu um grupo de pesquisadores para coordenar uma pesquisa com uma pergunta mais focada: quantas mortes teriam sido poupadas apenas em 2021 se o Brasil tivesse iniciado uma campanha de vacinação em 21 de janeiro, aplicando 2 milhões de doses por dia – estimativa que Massad considera plausível se o governo tivesse aceitado as ofertas de doses da Pfizer e da Coronavac feitas ao longo de 2020.

A Pfizer ofereceu 70 milhões de doses, e o Instituto Butantã, 60 milhões, em agosto do ano passado – ambas as ofertas foram recusadas. Esses números serão incluídos no relatório da CPI da Pandemia. O governo fechou acordo com Butantã apenas em janeiro e, com a Pfizer, em março.

O modelo usa técnicas de cálculo mais complexas e considera 24 variáveis, como a taxa de infecção de pessoas expostas, a mortalidade natural dos brasileiros, a taxa de recuperação de quem pegou covid-19, a taxa de hospitalização e o ritmo de vacinação. A pesquisa identificou o comportamento dessas variáveis desde o início da pandemia até o final de 2020, e a partir dessa dinâmica projetou a evolução para 2021.

Segundo essa metodologia, o Brasil teria 145 mil mortes a menos ao longo deste ano se tivesse vacinado sua população a uma taxa de 2 milhões de doses por dia desde janeiro. Esse número ignora mortes que poderiam ter sido evitadas por outras políticas públicas, como maior incentivo ao uso de máscaras e ao distanciamento social. "Essas 145 mil mortes neste ano são atribuíveis apenas ao fato de o governo ter rejeitado as ofertas de vacina", diz Massad.

O número de mortes por covid-19 projetado para este ano, de 395 mil óbitos, é 58% maior do que a estimativa se o país tivesse esse ritmo de vacinação mais robusto, de 251 mil mortes.

O estudo também projeta que, até o final de 2021, o Brasil chegará ao total de 590 mil mortos pela covid-19, mantido o atual ritmo de vacinação. A pesquisa será submetida a uma revista especializada, e foi obtida por exclusividade pela DW Brasil.

"O comportamento do governo frente à pandemia desde o começo tem sido um descalabro total em todos os aspectos. Estamos pagando o preço por termos um governo que não encarou a pandemia com a seriedade que deveria", afirma Massad.

Vacinação ampla: 56 mil mortes a menos no trimestre

Outro grupo de pesquisadores, vinculados ao projeto SP Covid-19 Info Tracker, também calculou qual seria a diferença no número de mortos pela doença se o Brasil tivesse uma campanha de vacinação mais robusta.

O estudo inseriu as curvas de vacinação, novos óbitos, novos casos e recuperados dos meses de janeiro, fevereiro e março, além de outros dados, em um sistema para que o computador "aprendesse", a partir do uso da inteligência artificial e de um modelo matemático, o comportamento dessas variáveis e projetasse a evolução para os três meses seguintes, explica Wallace Casaca, cientista de dados e matemático vinculado à Unesp e à USP e um dos autores da pesquisa, já submetida a uma revista científica e em fase de avaliação.

Segundo o modelo, o Brasil terá 192 mil mortes no segundo trimestre deste ano. Se o ritmo de vacinação, apenas nesse período, fosse de 2,2 milhões de doses por dia, 56 mil vidas teriam sido poupadas. O número de óbitos estimado nesse intervalo é 41% superior do que se a imunização estivesse mais acelerada – a diferença seria ainda maior se a projeção considerasse um programa de vacinação mais robusto desde o início do ano.

A pesquisa também projetou o que aconteceria no período de três meses de 13 de junho a 12 de setembro, usando as mesmas variáveis registradas de 1º de janeiro a 12 de junho. Nesse intervalo, o modelo estima que o país terá 108 mil mortes por covid-19, volume menor do que a da simulação anterior pelo fato de a vacinação já estar mais avançada.

Se o ritmo de vacinação fosse o dobro do atual, com 1,6 milhão de doses aplicadas por dia, 16 mil mortes seriam evitadas nesse período. À média de 2 milhões de doses por dia, 23 mil vidas seriam poupadas. No melhor cenário, com 2,5 milhões de doses diárias aplicadas, 29 mil mortes evitadas. "O modelo mostra o impacto da vacinação. Quanto mais pessoas vacinadas, menor o número de suscetíveis à doença", afirma Casaca.

Alinhamento a Bolsonaro: 78% mais mortes no começo da pandemia

Além de vacinação, diversos epidemiologistas já apontaram que o discurso do presidente de um país durante a pandemia também conta bastante para a dinâmica da doença em seu território, pelo poder comunicacional vinculado ao cargo. Há evidências, por exemplo, de que os bolsonaristas violaram mais a quarentena no início da pandemia.

Em meados do ano passado, um grupo de pesquisadores vinculados a diferentes instituições calculou que o alinhamento de parte dos brasileiros ao discurso contrário ao isolamento social propagado por Bolsonaro provocou, desde o primeiro caso registrado no país, em 26 de fevereiro, até 29 de junho de 2020, 25,5 mil mortes adicionais, ou 78% a mais do que o esperado caso não houvesse resistência às recomendações científicas. Nesse período, foram registradas um total de 58,3 mil mortes por covid-19.

A pesquisa foi divulgada como pre-print, ainda sem revisão por pares, na última terça-feira (15/06). Para chegar ao dado, os pesquisadores isolaram a influência do alinhamento a Bolsonaro de outros fatores que também determinam a decisão de cada indivíduo sobre o isolamento social, como necessidade econômica.

Isso foi feito a partir das respostas a três pesquisas de opinião feitas pelo Instituto Datafolha, em 17 e 27 de abril e em 26 de maio do ano passado. Os levantamentos pediram às pessoas que indicassem o grau de isolamento que praticavam, em uma escala com quatro níveis, e como avaliavam o trabalho de Bolsonaro em relação à covid-19.

A adesão média ao isolamento dos que consideravam a performance de Bolsonaro sobre a pandemia boa ou ótima ficou 2 pontos percentuais abaixo da adesão média do conjunto da população. "Isso significa que o isolamento teria sido dois pontos percentuais superior se essas pessoas não estivessem presentes", diz Patrícia Ferrini, ex-consultora da Organização Mundial de Saúde (OMS) e uma das autoras do estudo.

Em seguida, os pesquisadores usaram um modelo matemático que projeta o desenvolvimento de uma pandemia a partir de diversas variáveis para reproduzir a evolução do número de mortes pela doença no Brasil naquele período, que concluiu que o grau de isolamento médio no país nesse intervalo foi de 53% – sendo 100% o isolamento total.

Ao final, os pesquisadores rodaram o mesmo modelo, mas utilizando uma taxa de isolamento de 55% — percentual esperado se nenhum brasileiro considerasse a atuação do presidente na pandemia boa ou ótima, dois pontos percentuais maior do que a taxa real de 53%. No novo cenário, o número final de mortes seria 32,8 mil. Essas 25,5 mil mortes a menos do que o registrado na realidade seria o número de vítimas associado ao negacionismo de parte da população em relação à covid-19 nesse período.

"A taxa de isolamento social influencia a taxa de contato entre indivíduos suscetíveis e infectados e, como consequência, o número de novos casos por unidade de tempo. Variações bem pequenas no isolamento podem levar a diferenças importantes no número de mortes, devido ao crescimento exponencial da curva de contágio", diz Ferrini.


Escalada violenta de Bolsonaro não é mais do mesmo: é sinal de alerta para o Brasil

 Vera Magalhães

O Globo

 Pablo Jacob 

A máscara de Bolsonaro cai 

Qual é o ponto de não-retorno de uma crise da democracia? Será possível enxergá-lo em concomitância aos fatos do dia a dia pelas nações e gerações que enfrentam esses momentos históricos? Os brasileiros de 1964 sabiam ao certo que na virada de março para abril veriam suprimida a democracia? Os americanos que conviveram com os tuítes de Donald Trump por quatro anos e acompanharam voto a voto a apuração da Georgia e da Pensilvância podiam ter certeza de que assistiriam à invasão do Capitólio logo em seguida?

Essas perguntas e variações delas me acompanham diariamente na cobertura do governo Jair Bolsonaro. Porque assistimos o presidente da República escalar dia a dia na afronta às instituições e ao estado democrático de direito de forma a que tendemos a achar que se trata de mais do mesmo. E não se trata.

Apenas nessas últimas semanas o presidente fez o Exército se dobrar humilhado perante sua pressão, chamou o presidente da Justiça Eleitoral para uma rinha e ameaçou publicamente com "convulsão social" caso não haja voto impresso e instou o ministro da Saúde a abolir a obrigatoriedade do uso de máscaras numa canetada.

Tais arroubos podem parecer retórica inflamada, mas produzem consequências práticas, imediatas e algumas delas insanáveis. A politização do Exército é uma realidade concreta, tangível, com potencial de se transformar num fator de insegurança para as eleições do ano que vem. Ou se encara a coisa dessa forma ou podemos ser surpreendidos como os nossos pais em 64.

Nesta segunda-feira, depois de manifestações vigorosas e de ultrapassarmos a ultrajante marca de 500 mil brasileiros mortos por covid-19, Bolsonaro não só não foi capaz de expressar um singelo pesar pelo luto nacional como quase agrediu fisicamente uma repórter em visita ao interior de São Paulo quando questionado pelo fato de ter chegado ao evento sem máscara.

A violência sempre foi uma marca das ações e declarações de Bolsonaro, mas ela se traveste de gravidade muito maior pelo fato de ele estar na Presidência. Portanto, não cabem aqui comentários ligeiros e aleivosias do tipo "para surpresa de zero pessoas".

É sempre chocante, e precisa continuar sendo, quando um presidente da República investe com perdigotos e ofensas contra um jornalista (e as mulheres são sempre os alvos preferenciais de Bolsonaro quando resolve bancar o machão) no exercício de seu trabalho. Não é tolerável, e não pode continuar a ser tolerado.

Antes, nessas ocasiões, havia as notas de repúdio. Agora, Arthur Lira é um espectador conivente dos arbítrios de Bolsonaro, pois se beneficia de sua política orçamentária e fisiológica, em troca de manter as gavetas das dezenas de pedidos de impeachment hermeticamente fechada. E Rodrigo Pacheco é tão mineiro que não consegue descer do muro nem diante dos mais rasgados absurdos. Até quando?

Na falta de reação à altura das instituições, cabe aos atores políticos perceberem a gravidade do momento e terem inteligência para se preparar para uma já contratada tentativa de ruptura institucional em 2022.

Não se trata de alarmismo: Bolsonaro tem avisado que vai tentar todos os dias. Nesta segunda-feira, mesmo, já disse que Lula só vence o pleito se houver fraude. Não precisa intrpretação: ele está dizendo que só aceitará o resultado da eleição se vencer. Ainda que as instituições cedam e condescendam com a excrescência do tal "voto auditável", essa cloroquina eleitoral.

Vamos assistir silentes a esse anúncio público e antecipado de tentativa de golpe? E a classe política seguirá tão dividida e sem estratégia a ponto de que Bolsonaro dê todas as cartas da dinâmica e da narrativa do pleito do ano que vem? Mesmo com sua obra trágica da pandemia diante de todos nós na forma de mortes, desemprego, inflação e tecido social completamente esgarçado?

É preciso que a sociedade e as instituições tenham o destemor da repórter da TV Vanguarda, de Guaratinguetá, cujo nome pretendo descobrir para parabenizá-la pessoalmente: diante de um protótipo de ditador descontrolado e aos berros, ela manteve o microfone aberto, a serenidade e a mão firme, para registrar a cena para o país. É a síntese do papel da imprensa, mas ela é apenas uma perna da mesa que mantém a democracia estabilizada. As demais precisam estar igualmente firmes.


Qual o caminho para combater a vulnerabilidade social no Brasil

 Carla Aranha, Carolina Riveira

Exame.com

A pandemia aumentou o número de pessoas em situação de pobreza e agravou a condição de milhões de brasileiros que precisam de ajuda. A crise social é pauta obrigatória para 2022 — e para o longo prazo      

 (Alexandre Schneider/Getty Images)

Indiferença com o futuro do País

 Editorial

 O Estado de S.Paulo

De forma escancarada, Jair Bolsonaro tem mostrado que, em suas decisões, o médio e o longo prazos não têm nenhum peso. O que importa é ser reeleito

Sem nenhum pudor, o governo Bolsonaro é cada vez mais uma administração orientada exclusivamente ao circunstancial, ao imediato. Não se vê mais sequer a pretensão de manifestar alguma preocupação com o futuro. De forma escancarada, Jair Bolsonaro tem mostrado que, em suas decisões, o médio e o longo prazos não têm nenhum peso.

Em primeiro lugar, chama a atenção que, em todas as negociações com o Poder Legislativo, o Executivo federal não apresenta nenhuma preocupação com uma agenda estrutural para o País.

É de fato estranho. Um governo que foi eleito prometendo revolucionar o cenário econômico e o ambiente de negócios e promover uma nova forma de fazer política faz agora inúmeras concessões ao Centrão sem pedir nada em troca. Não almeja nenhuma reforma. Contenta-se com que o Centrão lhe conceda sobrevivência política.

Além de não trabalhar pelas reformas, o governo Bolsonaro ainda dificulta as que poderiam ser aprovadas. O caso da reforma tributária é acintoso. O Congresso tinha a possibilidade, como há muito tempo não se via, de aprovar um novo marco tributário, a partir das propostas da Câmara (formuladas pelo economista Bernard Appy) e do Senado (de autoria do ex-deputado Luiz Carlos Hauly).

No entanto, o governo de Jair Bolsonaro não apoiou nenhum dos dois projetos, tampouco trabalhou por eventual melhoria dos textos. Seu interesse tem se resumido a criar um novo imposto a partir da união do PIS/Cofins e a falar de uma nova CPMF. Haja estreiteza de horizontes.

A indiferença com o futuro do País é também constatada pelo desmonte que o governo federal vem realizando em áreas que incidem diretamente sobre as novas gerações, em especial, educação, ciência e meio ambiente.

Esse assunto é especialmente triste, pois não se trata apenas de não avançar – o que, por si só, já é grave, tendo em vista as difíceis condições atuais. O governo de Jair Bolsonaro tem promovido o retrocesso por vários meios: desorganização de políticas públicas, perseguição a funcionários públicos e professores, aparelhamento ideológico de órgãos públicos, corte de verbas em áreas essenciais para o País e um contínuo desmonte dos órgãos e mecanismos de controle, especialmente na área ambiental.

Em abril, por exemplo, uma instrução normativa conjunta do Ministério do Meio Ambiente, Ibama e ICMBio passou a exigir autorização de um superior do agente de fiscalização para a aplicação de multa. Sem constar do sistema de consolidação das multas, a nova instância de avaliação dos processos levou à paralisação das emissões de multas do Ibama e do ICMBio.

Já preocupante, o quadro piora cada vez mais. No mês seguinte, foi deflagrada operação que investiga o próprio ministro do Meio Ambiente por suspeita de colaborar com o desmatamento ilegal. Como se não bastasse, logo após a divulgação da investigação, o presidente Jair Bolsonaro reiterou sua concordância com a gestão da pasta ambiental. Num governo assim, não há espaço para preocupação com o futuro comum da população.

É de notar também que, mais recentemente, o descompromisso com o futuro adquiriu um novo patamar de descaramento. Em diversos meios, membros do governo e parlamentares governistas têm afirmado que o presidente Jair Bolsonaro não deve se preocupar com o “mau momento” do País (em especial, pandemia, desemprego e inflação) e a piora de seus índices de aprovação, pois até 2022 a economia vai melhorar e, de acordo com esses apoiadores do governo, isso será suficiente para a reeleição de Jair Bolsonaro.

Ainda que seja bastante frágil – é um conjunto de meros prognósticos –, o argumento expõe a face brutal do governo Bolsonaro. Não há nenhuma aspiração em prover condições para um futuro melhor para o País. Não há nenhuma pretensão de realizar um governo responsável. A exclusiva preocupação são as eleições de 2022.

É o descaramento total. Com todas as letras, o governo diz que o único que importa é Jair Bolsonaro ser reeleito. O restante é mero detalhe, que não merece nenhuma atenção, nenhum cuidado.


3 em cada 10 famílias brasileiras vivem sem nenhuma renda do trabalho, diz Ipea

 Revista ISTOÉ

Com informações Estadão Conteúdo

 


No primeiro trimestre de 2021, três em cada dez lares brasileiros viviam sem nenhuma renda obtida através do trabalho, segundo um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) com base nos microdados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), apurada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Devido à crise provocada pela pandemia de covid-19, a proporção de domicílios sem nenhuma renda de trabalho saltou de 25,09% no primeiro trimestre de 2020 para 31,56% no segundo trimestre, com ligeira redução a 31,24% no terceiro trimestre.

No quarto trimestre do ano passado, essa fatia de lares sem rendimento do mercado de trabalho permanecia elevada, aos 29,01%. Com a segunda onda da pandemia, o total de famílias sem renda do trabalho subiu a 29,34% no primeiro trimestre de 2021.

O resultado reforça “como tem sido lenta a recuperação do nível de ocupação entre as famílias de renda mais baixa aos patamares anteriores à pandemia”, apontou Sandro Sacchet de Carvalho, técnico de Pesquisa e Planejamento da Diretoria de Estudos e Políticas Macroeconômicas (Dimac) do Ipea, na Carta de Conjuntura divulgada nesta quarta-feira, 16.

A proporção de famílias brasileiras na faixa de renda mais baixa, que recebem menos que R$ 1.650,50 mensais, aumentou de 25,84% no primeiro trimestre de 2020 para 25,96% no primeiro trimestre de 2021.

Na faixa de renda mais elevada, com ganho acima de R$ 16.509,66 mensais, a fatia de domicílios enquadrados caiu de 2,69% para 2,42% no período.


Chavismo caboclo

 Editorial

O Estado de S.Paulo

A escalada da crise protagonizada por Jair Bolsonaro com os militares sugere que o País corre o sério risco de assemelhar-se à Venezuela chavista

 A escalada da crise protagonizada pelo presidente Jair Bolsonaro com os militares sugere que o País corre o sério risco de sofrer forte degradação democrática, a ponto de assemelhar-se à Venezuela chavista.

“Os militares daqui estão enfrentando o que os da Venezuela enfrentaram no início do período chavista”, comparou Raul Jungmann, que foi ministro da Defesa no governo de Michel Temer. Em entrevista ao Estado, Jungmann disse que “Bolsonaro persegue o modelo de Chávez”, isto é, quer transformar as Forças Armadas em braço do bolsonarismo. “Os militares, aqui como lá, guardadas as devidas proporções, evitam o confronto direto com o comandante para não ferir a Constituição, mas o dilema é que assim correm o risco de ver a Constituição destruída junto com a hierarquia e a disciplina”, alertou Jungmann.

Na mesma linha foi o ex-presidente da Câmara Rodrigo Maia. Também ao Estado, Maia descreveu como Bolsonaro está seguindo rigorosamente o manual chavista: tenta envenenar o processo eleitoral, ao questionar as urnas eletrônicas; hostiliza a imprensa livre; intervém na estatal de petróleo, submetendo-a a seus interesses políticos; busca transformar as Polícias Militares estaduais em milícias bolsonaristas; neutraliza o Congresso por meio de distribuição desavergonhada de verbas, abaixo dos radares republicanos; e ataca sistematicamente o Supremo Tribunal Federal, além de inocular os órgãos de fiscalização e controle com a toxina bolsonarista. Como disse a historiadora Lilia Schwarcz à revista The Economist, basta ler o Diário Oficial para perceber que Bolsonaro dá “um golpe por dia”.

Já advertimos várias vezes, neste espaço, sobre a marcha bolsonarista rumo a uma versão cabocla do chavismo (ver especialmente os editoriais O bê-á-bá do chavismo, de 31/1/21, e A hora da verdadeira oposição, de 4/2/21). Os sinais dessa degeneração são tão evidentes que não podem ser mais ignorados, especialmente agora, quando Bolsonaro dá um passo concreto na tentativa de transformar as Forças Armadas em sua guarda pretoriana.

A crise está contratada. Ao levantar dúvidas sobre o processo eleitoral, ao mesmo tempo que amalgama os militares a seu governo, Bolsonaro semeia confusão e tenta intimidar quem porventura não aceite viver sob seu tacão.

Há um ano, à TV Cultura, o ministro do Supremo Tribunal Federal e presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Luís Roberto Barroso, descreveu com precisão o cerne do problema: “As Forças Armadas não podem se identificar com o governo porque numa democracia existe alternância de poder. Se as Forças Armadas são governo e o governo é derrotado nas urnas, as Forças Armadas são derrotadas e acabou. Evidentemente isso não pode acontecer”. Na mesma ocasião, o ministro Barroso também já alertava para o que chamou de “chavização”, isto é, a multiplicação de militares em cargos no governo: “Isso é o que aconteceu na Venezuela”.

Não é prudente ignorar tantos alertas e tantos sinais. Quando Bolsonaro se refere ao Exército como “meu Exército”, não é mera figura de linguagem. Ao dobrar o número de militares no governo em relação à administração de Temer, Bolsonaro deixou claro que pretendia enredar as Forças Armadas em seus devaneios golpistas. Considerando-se que cresceu em cerca de 30% a presença de militares da ativa no governo, essa relação fica ainda mais forte – e o caso da submissão humilhante de um general, Eduardo Pazuello, aos interesses de Bolsonaro, sob a vista grossa do Comando do Exército, foi o ponto alto, até agora, dessa genuflexão militar ao presidente.

Timidamente, o Congresso começa a reagir à militarização do governo promovida pelo bolsonarismo, ao articular uma Proposta de Emenda Constitucional que proíbe a atuação de militares da ativa em cargos de natureza civil no Executivo. É uma medida necessária, pois aos militares da ativa é vedada a atividade política – que é essencialmente o que se faz num governo. Mas talvez seja tardia: a esta altura, a identificação forçada por Bolsonaro entre ele e os militares já não depende mais de quem usa o crachá do governo. 



Caracas fica a 3.600 km

 Elio Gaspari

O Globo

 | ANDRE BORGES / AFP 



Eduardo Pazuello em ato pró-Bolsonaro no Rio de Janeiro: estatuto militar proíbe oficiais da ativa de participar de manifestações políticas 

A Venezuela continua longe, mas ficou mais perto. Os desastres históricos acontecem aos poucos. Alguns grão-duques russos achavam que podiam viver com os bolcheviques. Afinal, aquela maluquice não haveria de durar. A plutocracia venezuelana levou algum tempo para perceber que o coronel Hugo Chávez e sua turma seriam capazes de tudo para ficar no poder.

As instituições democráticas brasileiras vêm sendo obrigadas a conviver com um novo leão a cada dia. O general Eduardo Pazuello disse que não participou de manifestação política porque Jair Bolsonaro não tem filiação partidária, e o comandante do Exército acreditou. Em seguida, o procurador-geral da República pediu o arquivamento do inquérito que investigava ações dos cidadãos protegidos por foro privilegiado que incitaram atos contra o regime. Demorou cinco meses, pediu novas diligências para outros envolvidos, sem ter pedido providência alguma enquanto ficou com o caso. Ao fazer isso, o doutor Augusto Aras bateu de frente com o ministro Alexandre de Moraes, um ex-secretário de Segurança cuja casa já foi esculachada pela milícia. Má ideia. O ministro respondeu pedindo ao procurador que explique melhor sua posição. Como se coisas desse tipo fossem pouco, o ex-prefeito do Rio Marcelo Crivella foi indicado para a Embaixada do Brasil na África do Sul.

Caracas continua longe, a 3.600 quilômetros de Brasília. A sociedade brasileira tem uma complexidade e um dinamismo que faltavam à Venezuela. O andar de cima de Pindorama produz, enquanto o venezuelano vivia nas tetas das rendas do petróleo. Ademais, o caminho para Caracas exigirá uma sucessão de crises até a eleição do ano que vem. Bolsonaro tem sido pródigo na criação de encrencas e na distribuição de provocações, uma por semana. Mesmo assim, precisa de um objetivo. Afora a obsessão pela permanência, nada oferece. As reformas liberais de Paulo Guedes estão no estaleiro, sabendo-se que a instabilidade política debilita seu projeto.

Com a conta da pandemia aproximando-se das 500 mil mortes, o Brasil firma-se como um pária bagunçado e incapaz. Se algum caminho venezuelano existe, ele não pode começar pelo desfecho, a ruína de Nicolás Maduro.

Bolsonaro pode achar que Ricardo Salles é um excelente ministro. Falta combinar com um mercado internacional cada dia mais desconfortável com a presença de agrotrogloditas e piromaníacos na Amazônia. É improvável que o doutor resista até novembro, quando ocorrerá a reunião do meio ambiente de Glasgow, e ele parece sinalizar que pretende cair atirando. Isso ficou claro quando Salles jogou o ministro Luiz Eduardo Ramos e o Planalto na frigideira de suas conversas com madeireiros. A sorte faltou-lhe quando seu inquérito tramita no gabinete de Alexandre de Moraes.

Com suas crises e sem agenda, Bolsonaro colocou o Brasil numa crise desnecessária. Afinal, nem todo mundo pode seguir o caminho do virologista Paolo Zanotto. Em abril do ano passado, ele defendia a cloroquina e a formação de um gabinete paralelo para orientar o governo durante a pandemia. O doutor acaba de pedir uma licença de dois anos para pesquisar no Canadá, “sem prejuízo de vencimento”.


É tempo de revisitar a redemocratização, espetacular obra de engenharia política do Brasil

 Eliane Cantanhêde, 

O Estado de S.Paulo

Sair da ditadura exigiu coragem e apoio de trabalhadores, empresários, estudantes, professores, médicos, advogados, jornalistas, Igreja Católica, os melhores cérebros militares e a classe média brasileira

  Foto: DIDA SAMPAIO/AE (1/2/2000)

O então vice-presidente Marco Maciel e Jorge Bornhausen, 

à época senador, ambos do PFL no ano de 2000  

Depois de apoiar a ditadura militar durante anos na Arena e no PDS, os então senadores Marco Maciel (PE), Guilherme Palmeira (AL) e Jorge Bornhausen (SC) tiveram um papel relevante ao liderar a dissidência parlamentar e aderir ativamente às “Diretas-Já” e à articulação para a eleição do oposicionista Tancredo Neves, do MDB, em 1984. 

Ex-governador de Pernambuco e vice-presidente nos oito anos de Fernando Henrique Cardoso, Marco Maciel morreu no sábado de covid, agravada por uma longa doença. Ex-governador de Alagoas, Guilherme Palmeira morreu em maio do ano passado. Ex-governador de Santa Catarina, Bornhausen continua curioso e ativo, aos 83 anos, na iniciativa privada. 

Alinhados ao general e ex-presidente Ernesto Geisel, mentor e garantidor da “abertura lenta, gradual e segura”, e ao ex-governador de Minas Aureliano Chaves, vice do general João Figueiredo no último governo militar, os três, Maciel, Palmeira e Bornhausen, chacoalharam o PDS, abriram canais com setores militares insatisfeitos com o governo Figueiredo e integraram a heterogênea frente de resistência e de pressão pela redemocratização e as “Diretas-Já”. 

Com o fim da “emenda Dante de Oliveira” na Câmara, por 22 votos, o passo seguinte foi manter e ampliar a frente contra a eleição do ex-governador de São Paulo Paulo Maluf. Era certo e sabido que ele venceria a convenção do PDS, contra os candidatos do governo e da ala geiselista, mas a dissidência do partido foi decisiva para derrotá-lo no colégio eleitoral, ou seja, no Congresso. 

A derrota foi acachapante, o eleito foi o moderado Tancredo e assim o Brasil encerrou 21 anos de torturas, mortes e desaparecimentos, “sem um tiro, sem uma gota de sangue”. O fim do regime não foi em guerra, foi em festa. Maciel, Palmeira e Bornhausen, assim como Aureliano e senadores e governadores como Agripino Maia (RN) e Hugo Napoleão (PI), tiveram lugar assegurado. 

O maranhense José Sarney aderiu num estágio mais avançado e com estardalhaço, ao chegar à convenção nacional do PDS com um revólver na cinta. Governador da Bahia, Antonio Carlos Magalhães, o ACM, só pulou no barco em segurança, com ventos mais amenos. Mas Sarney foi o vice na chapa e virou presidente porque Tancredo adoeceu antes da posse. E ACM se arvorou “dono” do grupo. 

Como os dissidentes liderados por Maciel, Palmeira e Bornhausen já tinham o carimbo de “Frente Liberal”, o partido criado por eles em 1985, primeiro ano da redemocratização, virou o Partido da Frente Liberal (PFL), que se afirmou a ponto de ter Marco Maciel na vice de Fernando Henrique. Um vice que todo presidente pediu a Deus: estudioso, discreto, trazia soluções, não problemas. 

  Foto: BETO BARATA/AE (5/9/2006)

Ex-senador, Guilherme Palmeira foi presidente do TCU 

após participar da redemocratização 

A morte de Marco Maciel traz luzes sobre essa história, tão recente, mas tão esquecida, que contém bons ensinamentos a quem hoje tem liderança e enorme responsabilidade. O primeiro deles é tão velho e surrado quanto útil: a união faz a força, já o preconceito e os interesses puramente pessoais dividem e implodem as melhores estratégias. 

Sair da ditadura exigiu coragem e apoio de trabalhadores, empresários, estudantes, professores, médicos, advogados, jornalistas, Igreja Católica, os melhores cérebros militares e a classe média brasileira. A esquerda assumiu a linha de frente, mas a redemocratização foi uma obra de engenharia de esquerda, centro e direita responsável. 

Como toda obra, exige manutenção constante, principalmente em meio a tensões e riscos às instituições, com o populismo audacioso aglomerando incautos e combatendo não só isolamento, máscaras e vacinas na pandemia, mas a própria democracia. Não custa lembrar: democracia é cheia de defeitos, mas ainda não se inventou nada melhor.

*COMENTARISTA DA RÁDIO ELDORADO, DA RÁDIO JORNAL (PE) E DO TELEJORNAL GLOBONEWS EM PAUTA



Os crimes estão aí

 Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

Chamou a atenção o forte aplauso da plateia quando o presidente Bolsonaro disse que o “tal de Queiroga” estava preparando um parecer para dispensar o uso da máscara para vacinados e pessoas que já tiveram a Covid-19.

O aplauso denunciou o que o presidente e sua turma pensam da máscara: um símbolo de fraqueza, frouxidão e oposição a seu governo. Por pouco, Bolsonaro não atirou no chão a máscara que não usava.

Radicalizou de novo. Ciência deixada de lado — o que não é novidade —, a situação se encaminha para um conflito social e nas ruas: bolsonaristas não usam máscara; quem usar, pois, é inimigo.

Exagero?

Seguramente não. O presidente ostensivamente aglomera sem máscara. E reclama quando encontra algum seguidor com a máscara.

Comete crime duas vezes. Primeiro, porque ele mesmo pode infectar os que estão por perto. Já se sabe que as pessoas podem pegar a doença mais de uma vez. O fato de Bolsonaro já ter adoecido não o torna imune. E, segundo, porque incita as pessoas a saírem por aí infectando outras. Também se sabe que vacinados podem pegar formas leves da Covid-19, tornando-se, nesse momento, fonte de transmissão do vírus.

Também nesta semana ficamos sabendo de outra grave irregularidade cometida pelo presidente. Documentos obtidos pela CPI mostram que Bolsonaro telefonou ao premiê da Índia, Narendra Modi, para solicitar a liberação de cargas de insumos de cloroquina para duas empresas, EMS e Apsen.

Não sei se é crime, os juristas dirão, mas o presidente não pode usar de seu cargo para atender a interesses particulares de empresas. Tem mais: o presidente de uma das empresas, Renato Spallicci, da Apsen, é seguidor de Bolsonaro desde antes de 2018.

Tudo errado. Inclusive a primeira declaração da Apsen, feita na quinta-feira, quando a história foi divulgada na CPI. Em nota, a empresa jurou que não tinha nada a ver com o presidente, que atuava no mercado e coisa e tal.

Já contei aqui aquele ensinamento da psicanálise. Quando alguém, sem ser questionado, nega veementemente ter feito algo, pode cravar: é falso.

Mais ainda: o presidente está em campanha direto. Aliás, parece que não gosta muito de trabalhar, não parece? Viaja toda hora. Está inaugurando até bica d’água, como se diz na velha política.

Verdade que às vezes dá azar: sem ter nada a fazer ali, resolveu entrar num avião da Azul que estava estacionado no aeroporto de Vitória. Pretendia apenas cumprimentar os passageiros. Tomou vaia.

A questão é: quem vai colocar o guizo no gato?

Como o presidente aparelhou órgãos policiais e de investigação — estão sendo processados os investigadores —, sobra a CPI. E esta vai bem.

Na semana que se encerra, a comissão passou dos depoimentos midiáticos — mas com alguns bem reveladores — para a fase de análise dos documentos sigilosos, já devidamente vazados.

Também determinou a quebra do sigilo telefônico e telemático de diversas autoridades, membros e ex-membros do governo Bolsonaro. Por essa via, se verá como foram tomadas as decisões de atrasar a compra das vacinas, de inventar o tratamento precoce, de tentar a imunidade de rebanho. Terá sido um programa organizado?

É muito provável que, nessas quebras de sigilo, apareçam diálogos com o presidente. E se ele, em público, fala o que fala, imaginem em privado. Lembram-se daquela reunião ministerial que era para ficar em segredo?

Tudo considerado, parece que já temos crimes bem definidos. O que falta à CPI, seu próximo trabalho, é ouvir os juristas para saber como tipificar os delitos. Isso vai para o relatório final, daí para as autoridades que podem agir, legalmente, bem entendido, contra o presidente.

O clima político vai esquentar. A recuperação desigual da economia pode amortecer alguma coisa, mas não tudo isso que vai aparecendo.

A ver.


Vamos falar de gente.

 Coluna Carlos Brickmann

 


O ídiche, língua derivada do alemão falada pelos judeus da Europa Central e Oriental, tem uma palavra difícil de traduzir: mensch. Literalmente, significa gente. Mas o significado é algo como “gente boa”, “gente como todos deveriam ser”.

Pois, lamentavelmente, com a morte de Marco Maciel, o Brasil perdeu um mensch. Marco Maciel foi um trabalhador compulsivo, das sete da manhã às três da madrugada, todos os dias. Estudava cada problema a enfrentar, em companhia de assessores da mesma estirpe. Era leal. Pertenceu à Arena, o partido que apoiava o regime militar, e ao PFL, que ainda hoje anda por aí, com o nome de DEM. Ninguém é perfeito. Mas jamais participou de forma alguma das barbaridades da ditadura. Deputado estadual, deputado federal, senador, governador, ministro, vice-presidente da República, jamais sofreu qualquer acusação: um homem limpo. E, sem dúvida, leal.

Conheci Maciel por meio de um de seus principais assessores, um mensch como ele, uma pessoa notável: o paulista Cláudio Lembo. Foi quem me disse para jamais aceitar convite de Maciel para almoçar: ele, apelidado de Mapa do Chile (basta ver sua foto de corpo inteiro para entender), costumava propor, para poupar tempo, trocar o almoço por um sorvete – um picolé. Mal comia: café preto por volta das seis da manhã, orações (católico praticante), o picolé de almoço, uma sopinha por volta de duas da manhã, acordar às seis. O resto do dia, trabalhar. Marco Maciel foi-se no domingo. Todos perdemos.

 Longa duração

As vacinas da Janssen chegariam no finzinho do prazo de validade. Atrasaram. Mas a Anvisa e a FDA americana prorrogaram a validade e elas chegarão em condições legais de uso. Sem problemas: foram testadas quando completaram 30 dias, estavam em ordem, e este prazo (provisório) foi o adotado. Repetiu-se o teste aos quatro meses e meio, e a vacina continuava boa. Este é o atual prazo.

Mas a pergunta é outra: por que tanta demora na encomenda, exigindo nova data de validade? Talvez porque, como no caso da vacina da Pfizer, o Governo estivesse tão ocupado em importar matérias-primas da cloroquina que não lhe restasse tempo para cuidar de vacinas?

 Brincando com os números

As primeiras informações difundidas por fontes bolsonarianas falavam em pouco mais de 1 milhão e 300 mil motocicletas no comício pré-eleitoral realizado em São Paulo. Depois caíram para 700 mil. Criaram também 700 toneladas de gêneros não-perecíveis doados por motoqueiros – e cadê essas toneladas todas, que não houve fotos? Grupos que fotografam até aniversário de boneca deixariam de fotografar algo que ocuparia umas quinze carretas?

Mas isso não tem importância: o fato é que é campanha eleitoral antecipada, com dinheiro federal e o uso de equipamentos e funcionários do Estado e da Prefeitura. Que é que o TSE vai achar?

 Que é que houve?

Paulo Marinho, suplente do senador Flávio Bolsonaro, teve importante contribuição para a vitória do atual presidente. Foi em sua casa, no Rio, que se instalou o QG de comunicação da campanha, liderado por Carluxo, filho 02. Ao verificar que, depois de eleito, Bolsonaro o ignorou, Paulo Marinho foi para o PSDB e fez denúncias contra o presidente e o filho senador. Mas alguma coisa mudou: Marinho, presidente do PSDB no Rio, foi embora do partido, sem se despedir, e mandou um auxiliar buscar suas coisas na sede. Terá sido ciúme do crescimento no partido do prefeito Eduardo Paes?

 O rastro do dinheiro 1

Num livro de 1854, Les Mohicans de Paris, Alexandre Dumas (pai) dizia que em todos os problemas havia uma mulher envolvida. A frase virou um clichê da literatura policial: Cherchez la Femme, procurem a mulher. Mas o grande informante dos repórteres do caso Watergate, Garganta Profunda, modificou a frase: “Sigam o dinheiro”. Os repórteres Carl Bernstein e Bob Woodward seguiram o rastro do dinheiro e acabaram levando o presidente Richard Nixon à renúncia (se não renunciasse, sofreria impeachment).

Agora a CPI da Covid está seguindo um caminho parecido: buscando as relações do presidente Bolsonaro com empresas produtoras de cloroquina. Já se sabe, com base em documentos oficiais do Itamaraty, que o presidente telefonou para o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, pedindo-lhe que ajudasse a acelerar o fornecimento de matéria-prima para a produção de cloroquina, e citando o nome de duas empresas privadas brasileiras: a Apsen e a EMS.

 O rastro do dinheiro 2

Isso mostraria a ferrenha crença do presidente nas virtudes da cloroquina, pela qual chegou a atuar como garoto-propaganda, tentando até oferecê-la para uma das emas do Palácio. Mas há mais: a documentação do Itamaraty mostra que qualquer mensagem que se referisse a cloroquina foi sempre respondida no mesmo dia, às vezes em 15 minutos; já a oferta de vacinas da Pfizer ficou na gaveta, e só mereceu resposta (negativa) dois meses depois.

SITE CHUMBOGORDO (www.chumbogordo.com.br)

carlos@brickmann.com.br

Twitter:@CarlosBrickmann

www.brickmann.com.br