segunda-feira, maio 11, 2020

Pandemia de covid-19 no Brasil pode acabar só em novembro, diz estudo

Tamires Vitorio
Exame.com

Há apenas uma semana, a previsão da Universidade de Tecnologia e Design de Singapura era de que o surto no Brasil poderia acabar em junho

(Buda Mendes/Getty Images)
Coronavírus: segundo estudo, Brasil está vivendo, neste momento, o pico do vírus 

Há apenas uma semana, a previsão da Universidade de Tecnologia e Design de Singapura era de que o surto do novo coronavírus no Brasil poderia acabar em junho. Com o avanço rápido da doença no país, que bateu o recorde de 751 mortes em 24 horas nesta sexta-feira, o prazo para o final da pandemia agora ficou para o dia 11 de novembro. De acordo com a pesquisa, o Brasil está vivendo, neste momento, o pico do vírus, que deve começar a diminuir a partir de julho.

Já a previsão para o fim “teorético” da covid-19 em escala global também aumentou. Agora, ficou para o dia cinco de janeiro de 2021 — até dia 28 de abril, a previsão era de controle total até 1 de dezembro; em 6 de maio, era para o dia 31 de dezembro, no Reveillon. O pico da doença no mundo, segundo o estudo, aconteceu em abril deste ano, mês no qual os Estados Unidos, atual epicentro da doença, atingiu a marca de 1 milhão de infectados.

O número de casos confirmados da doença no mundo deve chegar a 4 milhões neste fim de semana. Até o momento, segundo o monitoramento em tempo real da universidade americana Johns Hopkins, 3.959.249 foram infectadas.

A previsão para o fim da doença na Itália, um dos países mais afetados pelo vírus segundo a Johns Hopkins, é para o dia 23 de outubro. A Espanha, segundo país mais afetado, que registrou  novas 179 mortes diárias neste sábado e vai começar a flexibilizar quarentena, pode ver o fim do surto no dia 15 de agosto. Já o Reino Unido, quarto país com o maior número de infectados, deve chegar ao fim do surto no dia 30 de setembro.


Brasil registra 396 mortes por covid-19, menor número em sete dias

Gilson Garrett Jr., Exame.com
Com informações  Estadão Conteúdo

Segundo balanço divulgado pelo Ministério da Saúde, o país tem um total de 11.519 óbitos

 (Buda Mendes/Getty Images)
Covid-19: o Rio de Janeiro atingiu a marca de 1,7 mil mortes por coronavírus.

O Brasil tem 11.519 mortes 168.331 casos confirmados de coronavírus, segundo balanço do Ministério da Saúde, divulgado nesta segunda-feira, 11. Foram contabilizados mais 396 óbitos e 5.632 pessoas infectadas em 24 horas, menor número em sete dias.

Na última semana, o país registrou recordes de vítimas na atualização diária dos números da pandemia. Na sexta-feira, 8, teve um pico quando foram adicionadas ao relatório mais 751 pessoas que perderam a vida em decorrência da covid-19.

Epicentro da crise de saúde no Brasil, São Paulo registra 46.131 casos confirmados de coronavírus e 3.743 óbitos. A taxa de ocupação de leitos de UTI está em 89,6% na Grande São Paulo e 68,2% no interior.

Para  aumentar o isolamento social e diminuir a circulação de pessoas na cidade de São Paulo, o rodízio de veículos, suspenso desde o início da pandemia de coronavírus, foi retomado na capital nesta segunda-feira, 11.

A medida atingiu 50% da frota e passou a valer para todo o município, e não apenas para o centro expandido, o dia todo, incluindo fins de semana.

Mais 56 mortes por covid-19 e 877 novos casos foram confirmados no Rio de Janeiro no período de 24 horas. Agora são 1.770 os mortos pela doença no estado, onde há 17.939 casos confirmados. Outras 849 mortes estão sob investigação.


Diretriz de isolamento

Em entrevista coletiva nesta segunda, o ministro Nelson Teich apresentou um estudo preliminar inédito feito pelo Ministério da Saúde sobre quando e em que nível é necessário o isolamento social. No documento, que ainda não está finalizado, há uma escala de cinco níveis de distanciamento, que vai do seletivo ao completo.

“Não é uma política de isolamento nem de flexibilização. É uma análise de cada local e a partir daí a gente define as ações ideais. As decisões cabem aos estados e municípios. O ministério disponibiliza uma linha de raciocínio adequada”, disse.

O ministro disse que na próxima quarta-feira, 13, vai apresentar mais detalhadamente as diretrizes.

O Brasil se aproxima dos EUA em velocidade de mortes por coronavírus

Ernesto Yoshida
Rxame.com

A marca de 10.000 óbitos por covid-19 no país deve ser batida 74 dias após a confirmação do primeiro caso. Os americanos levaram 73 dias

 (Bloomberg / Colaborador/Getty Images)
Coronavírus: Brasil deve bater hoje duas marcas nada lisonjeiras na luta contra a pandemia

O Brasil deve bater hoje duas marcas nada lisonjeiras na luta contra a pandemia do novo coronavírus: mais de 150.000 casos confirmados de covid-19 e mais de 10.000 mortes causadas pela doença. Em um momento de embate entre os que defendem medidas mais duras para conter a propagação do vírus e os que clamam pelo relaxamento da quarentena, a dúvida é se o país está ou não se aproximando do pico da doença.

Como ninguém ainda sabe ao certo o que vai acontecer nos próximos dias, é possível buscar pistas olhando um pouco para trás. E o que o passado nos mostra é que, até agora, a velocidade de aumento de óbitos no Brasil por covid-19 está muito próxima da dos Estados Unidos, o país que lidera atualmente o número de óbitos causados pela doença (até ontem, cerca de 77.000 mortes).

Cruzando os dados da universidade americana Johns Hopkins e do site Worldometer, duas das principais fontes sobre a situação da pandemia no mundo, é possível observar que, desde a confirmação do primeiro caso de covid-19 no Brasil, em 26 de fevereiro, o país levou 74 dias para atingir a marca de 10.000 mortes pela doença. Os Estados Unidos, cujo primeiro caso foi confirmado mais de um mês antes, em 22 de janeiro, demoraram só um dia a menos (73 dias) para alcançar a mesma marca.

Entre os seis países que já superaram a marca de 10.000 mortes por covid-19 até agora, quem atingiu esse número em menos tempo foi a Itália (58 dias), seguida de Espanha (62 dias), Reino Unido (71 dias) e França (75 dias).

Outra maneira de analisar os dados é comparar o número de mortes registradas em diferentes países no mesmo intervalo de 74 dias que o Brasil precisou para alcançar a marca de 10.000 óbitos por covid-19. Aqui, novamente, o Brasil não fica muito distante da realidade americana. Nesse período de quase dois meses e meio desde a confirmação do primeiro caso, os Estados Unidos registraram 11.793 mortes.

Na Itália, a propagação foi muito mais veloz: 20.465 mortes em 74 dias. Nesse mesmo intervalo, a Espanha teve 18.255 mortes. No Reino Unido, foram 13.029 mortes. Na outra ponta, a Alemanha registrou 2.607 mortes em 74 dias, atestando a eficácia de sua estratégia de testagem da população em massa para identificar, isolar e tratar os doentes.

O resumo da ópera é que, em número absoluto de mortes na pandemia, o Brasil está hoje numa situação muito parecida com a dos Estados Unidos pouco mais de um mês atrás. Ontem, entre todos os países, o Brasil ficou atrás apenas dos Estados Unidos em número diário de novos óbitos.

Como se sabe, o passado nem sempre determina o que vai acontecer no futuro, mas serve de alerta para que, daqui a um mês, o Brasil não alcance o topo desse indesejável ranking.

CABEÇA A CABEÇA
Quanto tempo os países levaram para chegar a 10.000 mortes por covid-19 desde a confirmação
do primeiro caso
Itália
58 dias
Espanha
62 dias
Reino Unido
71 dias
Estados Unidos
73 dias
BRASIL
74 dias
França
75 dias


Quantas pessoas morreram no país em 74 dias desde a confirmação do primeiro caso
Itália
20.465 pessoas
Espanha
18.255 pessoas
Reino Unido
13.029 pessoas
Estados Unidos
11.793 pessoas
BRASIL
10.000 pessoas *a confirmar
França
8.911 pessoas
Bélgica
5.163 pessoas
China
3.199 pessoas
Alemanha
2.607 pessoas

O fenômeno “hipóxia feliz” está atrasando o diagnóstico de covid-19

Maria Eduarda Cury
Exame,com

Médicos relatam que número de pacientes com baixos níveis de oxigênio e sem sintomas aparentes cresce

(dowell/Getty Images)
Hipóxia feliz: condição faz com que indivíduos
 infectados não apresentem sintomas da doença 

Durante o tratamento de pacientes diagnosticados com o novo coronavírus, cientistas identificaram um fenômeno em indivíduos com níveis de oxigênio muito baixos. Enquanto hospitalizados, os infectados pareciam estar confortáveis em sua condição, e também não apresentaram problemas para falar normalmente. A condição recebeu o nome de “hipóxia feliz” ou “hipóxia silenciosa”.

Publicado no British Journal of Anaesthesia, o artigo explica que, embora a condição possa ser subjetiva, ela está sendo identificada com um possível padrão clínico comum – diversos profissionais da saúde estão relatando a experiência com seus pacientes.

Na grande maioria dos casos, os médicos acreditavam que o nível de oxigênio dos pacientes estava normal – afinal, apresentavam sinais de pessoas saudáveis, o que acabou causando confusão e atraso nos diagnósticos.

Quando testados, porém, os pacientes registraram um nível de oxigênio geralmente igual ou inferior a 50%, o que é entendido como um cenário extremamente baixo.

Em alguns pacientes, os testes indicaram um nível de 80% a 70% e, nesses casos, o esperado seria um sofrimento notável – o que não acontecia, visto que os infectados andavam e falavam como indivíduos que não estavam com o vírus. 

Jonathan Bannard-Smith, médico da Enfermaria Real de M anchester, no Reino Unido, disse ao jornal britânico The Guardian que a condição é mais profunda do que aparenta. “É intrigante ver tantas pessoas entrando, quão hipóxicas elas são. Estamos vendo saturações de oxigênio muito baixas e elas não sabem disso. Normalmente, não vemos esse fenômeno na gripe ou na pneumonia adquirida na comunidade. É muito mais profundo e um exemplo de fisiologia muito anormal acontecendo diante de nossos olhos.”, disse o consultor e anestesista. 

Embora o mecanismo que cause isso ainda não tenha sido identificado, cientistas acreditam que a doença possa estar bloqueando a capacidade do organismo de detectar níveis crescentes de dióxido de carbono. Isso significa que o corpo do indivíduo não entende que seus níveis de oxigênio estão baixos e, portanto, não age como tal.

Esse fenômeno, ainda pouco investigado, representa um perigo para os pacientes. Em caso de não tratamento ou não identificação do problema, o paciente pode vir a entrar em um estado de choque, o que piora seu caso de saúde. Mais pesquisas sobre o tratamento da “hipóxia feliz” são necessários, para que indivíduos com o vírus mas sem aparentes sintomas também recebam os cuidados necessários. 

Coronavírus se espalhou no fim de 2019 e sofre mutações, diz estudo

 Lucas Agrela
Exame.com

O vírus pode ter circulado por algum tempo antes de ter sido detectado, afirmam cientistas

(Shannon Stapleton/Reuters)
Um técnico monta kits de teste de coronavírus nas instalações de fabricação 
da Evolve, onde fabricarão ventiladores, em Fremont, Califórnia, EUA,  

Um novo estudo feito pelo Instituto de Genética do University College de Londres, no Reino Unido, mostra que o novo coronavírus se espalhou rapidamente pelo mundo no final de 2019. Além disso, o vírus sofreu quase 200 mutações para se adaptar melhor ao organismo humano.

A pesquisa foi feita com base em uma análise genética de 7.500 pessoas que tinham a doença covid-19, causada pelo novo coronavírus.

A hipótese sobre a evolução do vírus é de que ele se adapta à medida que se propaga entre diferentes indivíduos.

“O vírus está mudando, mas isso, por si só, não significa que ele está ficando mais perigoso”, afirma o pesquisador genético Francois Balloux, da University College de Londres, para a CNN.

O estudo não pode identificar o local exato do primeiro caso de contágio humano pelo novo coronavírus.

Diferentes estudo indicam que o vírus fez um salto de espécies. Ele era um vírus que infectava morcegos. Outro animal pode ter sido infectado por ele antes de ocorrer o salto para os humanos, mas ainda não precisão científica conclusiva em relação essa história.

Os cientistas estimam que o vírus esteja circulando mesmo antes de ter sido detectado.

Novo tratamento para coronavírus melhora sobrevivência de pacientes

 Tamires Vitorio
Exame.com

Pesquisa ressalta que anticoagulantes podem funcionar como um tratamento para a doença, e não como prevenção

(fotograzia/Getty Images)
Coronavírus: efeito dos anticoagulantes foi mais 
observado em pacientes usando respiradores 

O tratamento com o uso de anticoagulantes pode melhorar o tempo de sobrevivência de pacientes graves infectados pelo novo coronavírus, de acordo com um novo estudo observacional feito por especialistas do Hospital Mount Sinai, de Nova York (EUA). A pesquisa indica, no entanto, que os remédios do tipo podem funcionar como um tratamento para a doença, e não como prevenção.

Os pesquisadores notaram que pacientes tratados com antiagulantes tiveram melhoras expressivas em seus casos.

“A pesquisa mostra que anticoagulantes orais, subcutâneos ou intravenosos tiveram um grande papel no cuidado aos pacientes com covid-19 e podem prevenir eventos mortais associados ao coronavírus, como ataques cardíacos, derramentes e embolia pulmonar”, explicou um dos autores do estudo, Valentin Guster. “O uso dos remédios deve ser considerado quando os pacientes chegam ao departamento da emergência e têm testes positivos para o vírus para melhorar os resultados. Contudo, cada caso deve ser avaliado individualmente”, disse.

O estudo foi conduzido com 2.773 pacientes internados por coronavírus. Destes, 28% (786) tiveram um tratamento com doses completas de anticoagulantes, uma dose maior do que é geralmente administrada em casos de coágulos sanguíneos. Foi observado, então, que o uso dos medicamentos melhorou as chances de sobrevivência dos doentes dentro e fora da UTI.

Das pessoas que não sobreviveram, os que estavam sob a medicação morreram após ficar em média 21 dias no hospital, enquanto pessoas que não tomaram o remédio morreram em 14 dias. O efeito dos anticoagulantes foi mais observado em pacientes usando respiradores e 62,7% dos entubados que não foram tratados com o remédio morreram, comparado com 29,1% dos que tiveram esse tratamento.

“Estamos esperançosos que essa pesquisa possa ser confirmada em investigações futuras”, disse o presidente do hospital, David Reich.

Como o estudo não traz resultados conclusivos, ainda são necessárias mais pesquisas sobre o tema para encontrar novos tratamentos para a covid-19. Atualmente, existem mais de 100 projetos de vacina e cerca de 200 medicamentos em fase de testes para tratar pacientes infectados pelo novo coronavírus.

No Brasil, testes com os medicamentos já foram feitos no Hospital Sírio Libanês. Em alguns casos, uma melhora foi vista.

Devido à ausência de comprovações clínicas e recomendações da Organização Mundial da Saúde sobre tratamentos e formas de prevenção eficazes, a quarentena é a única solução recomendada por especialistas para minimizar o número de casos de contágio de covid-19 no Brasil e no mundo.


Hidroxicloroquina não tem benefícios no tratamento da covid-19, diz estudo

 Lucas Agrela, Tamires Vitorio
Exame.com

O estudo publicado no New England Journal of Medicine nega a eficácia da hidroxicloroquina contra o novo coronavírus; Remdesivir a Avigan seguem como opções

(GERARD JULIEN/AFP)
Coronavírus: ainda não tem droga com tratamento clínico aprovado para todos 

O maior estudo já feito e validado pela comunidade científica sobre o uso da hidroxicloroquina no combate à covid-19 mostra que o medicamento não é efetivo no tratamento da doença. A pesquisa foi feita por pesquisadores da Universidade Colúmbia, nos Estados Unidos. Os especialistas não fizeram testes em laboratório, eles foram conduzidos com pacientes que tinham sintomas graves causados pela infecção pelo novo coronavírus. Ou seja, os dados foram coletados por meio de um método observacional.

Até agora, nenhuma pesquisa cienfítica que demonstrou a eficácia da hidroxicloroquina apresentou resultados que tenham agradado à comunidade científica. Por causa disso, a Organização Mundial da Saúde não indica o medicamento como um dos possíveis tratamentos benéficos para a covid-19.

No novo estudo, publicado no respeitado periódico científico New England Journal of Medicine, os pesquisadores analisaram 1.376 infectados pelo vírus. Destes, 58,9% (811) foram tratados com a hidroxicloroquina, sendo que 45,8% receberam o tratamento nas 24 horas desde a chegada ao departamento de emergência do hospital até o começo do estudo, e 85,9% receberam o remédio 48 horas após passar pela emergência.

Do total, 346 desenvolveram insuficiência respiratória, 180 foram entubados e 166 morreram sem entubação. Segundo a análise, os pacientes que tomaram a hidroxicloroquina tiveram mais chances de ter insuficiências respiratórias do que aqueles que não a tomaram.

Segundo a pesquisa, o uso da cloroquina e da hidroxicloroquina, combinando ou não com a azitromicina, é baseado apenas em relatos de médicos e não foram comprovados, até o momento, cientificamente. O principal estudo que ganhou relevância internacional, mesmo sem validação científica, foi conduzido na França, mas tinha uma amostragem pequena de pacientes e não houve grupo de controle, ou seja, uma parcela dos pacientes avaliados que não recebeu os medicamentos.

Ainda assim, a hidroxicloroquina e sua variante cloroquina ganham o noticiário porque os presidentes do Brasil e dos Estados Unidos afirmaram publicamente que os medicamentos tinha chances de curar pacientes com a covid-19 — o que fez com que a hidroxicloroquina sumisse das farmácias no Brasil, deixando pessoas com doenças como lúpus, artrite reumatóide e malária sem o remédio.

No novo estudo, os pesquisadores indicam que não foi encontrado nenhum benefício ou malefício do remédio no tratamento da covid-19, e que as descobertas “não devem ser usadas para beneficiar ou prejudicar o tratamento”, mas que “não apoiam o uso da hidroxicloroquina fora de clínicas.”

“Não achamos que, nesse ponto, com a totalidade das evidências, seja razoável dar essa droga rotineiramente aos pacientes. Não vemos o racional em fazer isso”, disse o doutor Neil Schluger, chefe da divisão de doenças pulmonares, alergias e cuidados críticos da universidade, em entrevista à revista americana Time. “Os médicos veem pacientes que estão morrendo em taxas inacreditáveis e querem fazer algo para ajudar. Mas eu acho que a história da medicina nos mostra que alguns palpites estão certos e muitos, muitos outros estão errados”, afirmou Schluger.

No mês passado, um estudo conduzido por pesquisadores de Manaus indicou que altas doses de cloroquina estariam ligadas a mais mortes de pacientes com covid-19.

No mundo, existem cerca de 200 medicamentos sendo estudados para conter a pandemia do novo coronavírus. Alguns deles são o Remdesivir, o Avigan e o APN01. Por enquanto, nenhum remédio tem aprovação clínica conclusiva, ou seja, em termos simples, o vírus segue infectando humanos sem termos encontrado um tratamento eficaz para combatê-lo. Como informa a reportagem da EXAME. a taxa de aprovação de novos remédios é de 16%, o que reduz a chance de um medicamento eficaz contra a covid-19 ser encontrada logo.


Fila para UTI e falta de testes: os relatos do colapso na saúde que leva o Rio a planejar lockdown

Luiza Franco e Felipe Souza
Da BBC News Brasil em São Paulo


 Direito de imagemREUTERS
Com a situação de seus hospitais chegando ao limite, o governador do Rio de Janeiro, 
Wilson Witzel (PSC), decidiu avançar na direção de um possível lockdown no Estado.

Em ofício enviado ao Ministério Público, o governo estadual reconhece que o sistema de saúde do Estado caminha para o colapso e que o número de casos ainda não atingiu seu pico. Admite também que os esforços para criar novos leitos não foram suficientes.

O texto, assinado por Witzel, diz que foi determinado ao chefe do Gabinete de Acompanhamento e Fiscalização a elaboração de uma "proposta de conteúdo com subsídios para que seja decretado o lockdown", como tem sido chamado o confinamento compulsório da população.

Na capital, praticamente todos os leitos destinados para a covid-19 estão ocupados, dizem as autoridades. Enquanto isso, o número de casos segue crescendo diariamente.

Profissionais de enfermagem ouvidos pela BBC News Brasil dão detalhes de como está essa situação na linha de frente. Eles relatam falta de equipamentos de proteção, baixas nas equipes, lotação e até mesmo pacientes suspeitos de covid-19 misturados com outros.

Há relatos também de leitos vazios em algumas instituições, enquanto outras procuram mandar pacientes até mesmo para outras cidades, por falta de camas. Todos esses profissionais citam o sofrimento psicológico de lidar com a pandemia. "A gente cuida dos outros, mas quem cuida da gente?" resumiu uma enfermeira.

Em todos os hospitais públicos da cidade do Rio - municipais, estaduais e federais - havia, até a quarta-feira (06/05), 1.045 pessoas na fila, aguardando transferência para leitos dedicados a covid-19, sendo 292 delas para leitos de UTI.

Enquanto isso, nas redes estadual e municipal há 2.536 profissionais de saúde da rede estadual afastados do trabalho por suspeita ou confirmação de contágio pelo novo coronavírus - 2,9% da força de trabalho do município e 7,7% do total de profissionais do Estado.

Falta de equipamentos, testes e de profissionais

O enfermeiro de obstetria Glauber José de Oliveira Amâncio, de 33 anos, atende em três hospitais públicos do Rio de Janeiro, dois na capital fluminense e outro em Paraty.

Conselheiro do Conselho regional de Enfermagem (Coren), ele ainda visita diversas outras unidades em todo o Estado. O diagnóstico é o mesmo em todos: escassez de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs).

"A falta de equipamentos de proteção individual acontece em toda a rede, tanto na pública quanto privada. Falta touca, óculos, protetor facial e a máscara n95, essencial para cuidar de pacientes com covid-19. Alguns hospitais estão obrigando profissionais a atender pessoas com covid-19 com máscaras simples", afirmou.

Amâncio explica que a máscara comum filtra apenas gotículas. Já a máscara n95 filtram também as partículas menores de aerossóis, onde o vírus pode estar.

Ele disse que todos os outros equipamentos pode ser improvisados, mas a máscara é a principal proteção para quem está na linha de frente e um dos equipamentos mais difíceis de encontrar.

 Direito de imagem PMRJ Image caption
Uso de máscaras em lugares públicos já é obrigatório no Rio desde o final de abril

A enfermeira Karen Strong Ferreira Teixeira, de 51 anos, trabalha no hospital Miguel Couto, na zona sul carioca, e também vem sofrendo com a falta de equipamentos de proteção para si e para os técnicos de enfermagem subordinados a ela.

"Existe uma falta enorme de equipamentos, a gerencia está restringindo a retirada desses equipamentos e fornecendo capotes fora do padrão esperado. (Reclamei e) minha gerente disse que eu estava sendo inconveniente. Eu, incoveniente? Eu estou na linha de frente e sou responsável pelos técnicos. Como eu posso dar um capote desses?", questiona ela.


Sobrecarga e falta de testes

Com milhares de profissionais de saúde doentes, muitas unidades também sofrem com a falta de equipes completas. A enfermeira Priscila Vilela chegou a fazer uma queixa formal à polícia por isso depois de viver uma situação que ela considerou limite.

De plantão no "covidário" do Hospital Municipal Lourenço Jorge, na Barra da Tijuca, ela estava sozinha, sem equipe médica, quando uma paciente teve uma parada cardiorrespiratória.

Vilela conseguiu chamar residentes da ala de cirurgia geral, mas a paciente não resistiu. "Tinha que ter médicos comigo dentro do covidário para situações de emergência como essa", diz ela. O caso foi encaminhado ao Ministério Público do Estado.

O enfermeiro Glauber Amâncio também denuncia a falta de profissionais. "Os gestores centrais não devem dar essas respostas e ainda não repõem no serviço de saúde os profissionais afastados por covid. Os que ficam têm sobrecarga de trabalho e uma exposição aumentada por trabalhar em dobro", afirmou.

A falta de testes para esses profissionais também tem criado um clima de insegurança generalizado no trabalho. A técnica de enfermagem Mônica Ferreira, que trabalho no Hospital Universitário Pedro Ernesto, na Tijuca, contraiu o coronavírus e recebeu licença.

Faltando alguns dias para retomar o trabalho, ela diz que já se sente melhor, mas tem receio de voltar a atender pacientes. "Eu queria ter alguém para me ajudar, avaliar se estou pronta para voltar, fazer um exame, um teste. Mas não tenho, então estou com medo. Será que posso ficar doente de novo? Já vivi situações muito difíceis no Pedro Ernesto, mas esta é a mais grave porque ameaça a nossa vida. Amo o que faço, mas a situação está muito complicada", diz ela.

Izabella Nanubia, que trabalha no Hospital Estadual Alberto Torres, na região metropolitana do Rio, diz que teve sintomas leves da covid-19 e foi testada. Passadas duas semanas, o resultado ainda não saiu, mas ela já retomou o trabalho após uma consulta clínica. Ela diz que não tem mais qualquer sintoma, mas critica a demora no resultado do teste.

"Depois da crise do H1N1, pensei que a enfermagem fosse ser valorizada, mas não foi isso que aconteceu. Agora a população novamente olha para nós. Isso é bom, mas espero que não seja só a sociedade, mas também o governo", diz o técnica de enfermagem.


Leitos em falta, leitos vazios e descontrole

Enquanto algumas unidades de saúde estão no limite de lotação, outras têm leitos sobrando.

Segundo a enfermeira Karen Texeira, é o caso do Hospital Municipal Miguel Couto, um dos principais da zona sul da cidade.

"Lá está vazio. A parte de emergência para covid tinha 2 leitos vazios com respirador. A clínica médica estava vazia, com várias enfermarias disponíveis. A quem interessa a construção de tantos hospitais de campanha?", questiona ela.

A Prefeitura nega e diz que, como o hospital tem perfil de emergência, é preciso ter leitos disponíveis para esses casos. "É importante deixar claro que os leitos estão sendo abertos gradualmente. A unidade já conta com 30 leitos de enfermaria na clínica médica exclusivos para pacientes com covid e abrirá mais 15", afirmou, em nota, a administração municipal da capital. Karen Teixeira mantém o relato de que há leitos vagos.

O enfermeiro Glauber Amâncio também se frustra com essa situação. Ele disse ter identificado diversas UTIs fechadas durante suas visitas a hospitais do Rio. Contou que o Conselho Regional de Enfermagem do Estado entrou com uma ação civil pública para questionar o governo e prefeituras sobre o motivo dessas unidades estarem fechadas.

"Queremos saber porque elas não podem ser reabertas. Precisa de equipamentos, profissionais? Se for só isso, é melhor resolver do que construir hospitais de campanha", diz ele.

Enquanto isso, pacientes da capital chegaram a ser transferidos para unidades de saúde em outros municípios, como Volta Redonda.

 Direito de imagem GOVERJ Image caption
Hospital de campanha que está sendo construído ao lado do estádio do Maracanã;
 segundo o governo, ficará pronto nos próximos dias e terá 400 leitos, 80 deles de UTI

Sobre esse tema, a Prefeitura diz, de modo geral, que há rotatividade de vagas por causa de altas e óbitos, além de transferências para leitos de UTI que dão retaguarda às enfermarias de Covid e são usados quando o estado do paciente se agrava.

"A Secretaria Municipal de Saúde esclarece que leitos que aparecem como 'livres' na plataforma da regulação estão em unidades especializadas, como maternidades, psiquiátricas e pediátricas, e que não podem ser usados para covid-19, já que a rede continua de portas abertas para pacientes com outras necessidades", afirmou, em nota. O Estado não respondeu até a publicação deste texto.

Outra situação que gera preocupação nos profissionais de saúde é o fato de que em algumas situações pacientes com suspeita de covid-19 são misturados a outros, o que facilita o contágio. Segundo Izabella Nanubia, é o caso, ocasionalmente, no Hospital Estadual Alberto Torres, por falta de espaço.

Além disso, acontece de pacientes irem ao hospital por motivos não ligados à covid e, uma vez lá, testarem positivo para o vírus. "Mas a essa altura a gente já teve contato como se aquele paciente fosse de outra coisa", diz Mônica Ferreira, do Pedro Ernesto.

Izabella Nanubia diz que já passou por situações assim também. "Depois que a gente abraçou, descobre que o paciente tinha covid", lamenta ela.


Coronavírus: os sete erros que põem Brasil na rota do 'lockdown', segundo especialistas

Juliana Gragnani - @julianagragnani
Da BBC News Brasil em Londres


 Direito de imagem AFP Image caption 
A postura do presidente não contribuiu para 
o isolamento social da população brasileira

Regiões brasileiras chegaram a um cenário tão crítico de calamidade dos sistemas de saúde por causa do coronavírus que a única saída agora seria uma maior restrição da circulação de pessoas e até "lockdowns", de acordo com especialistas.

"Lockdown" é o termo em inglês para confinamento ou isolamento compulsório, e pode ter diferentes graus de rigor, da restrição maior de transporte público e privado ao bloqueio total de entradas de cidades ou Estados. É diferente da adesão voluntária da população ao isolamento social porque pode restringir a circulação de pessoas através de bloqueios e punições — de multas a detenção —, como ocorreu na Itália e na Espanha, por exemplo.

O objetivo do isolamento das pessoas, voluntário ou compulsório, é reduzir as contaminações pelo coronavírus e ganhar tempo para que os sistemas de saúde possam atender os pacientes mais graves. Se muita gente estiver infectada de uma vez pode não haver leitos para todos — como já acontece em alguns Estados do Brasil que atingiram ocupação máxima de leitos de UTI.

"Temos aumento de casos, aumento de mortes e redução de isolamento. Não vejo outra solução a não ser tomar uma medida muito mais forte, muito mais extrema", diz Paulo Lotufo, epidemiologista da USP.

O Brasil começou bem com o isolamento social com alguma antecedência, mas cometeu alguns erros ao longo do caminho que colocou o país na rota do "lockdown". A BBC News Brasil falou com cinco especialistas da área de saúde para entender que erros foram esses e por que o confinamento pode ser a melhor solução para algumas regiões.

1) Adesão irregular ao isolamento social

O primeiro motivo citado por especialistas para uma eventual necessidade de restrição severa de circulação de pessoas ou o confinamento compulsório é que simplesmente muitas pessoas não fizeram o isolamento social proposto até agora ou abandonaram a quarentena no meio do caminho.

"Se formos pensar no país como um todo, o isolamento foi muito irregular. Em alguns lugares, praticamente não existiu", avalia Raquel Stucchi, infectologista da Unicamp e consultora da Sociedade Brasileira de Infectologia.

Na visão da epidemiologista Raquel Martins Lana, "o isolamento começou a ser afrouxado no momento mais crucial". Como o vírus demorou um tempo para chegar ao Brasil, regiões do país até começaram a se preparar com antecedência. "A gente estava indo relativamente bem, com tempo para construir hospitais de campanha, aumentando o número de leitos e ganhando certa vantagem para deixar a transmissão mais devagar", diz ela.

"A epidemia ficou um pouco mais lenta no Brasil e houve um pequeno retardo no colapso do sistema em alguns lugares. Mas quando a gente ia ver isso, o isolamento foi abandonado em muitos lugares, e rapidamente houve um aumento de casos graves."

Lana é integrante do Mave, grupo de trabalho de pesquisadores de computação científica da Fiocruz e matemática aplicada da Fundação Getúlio Vargas que vem analisando a situação da disseminação do vírus no Brasil.

"Se tivéssemos continuado com o isolamento como no início, provavelmente não precisaríamos agora de uma medida radical como o isolamento obrigatório. A gente tinha adesão alta. Não era uniforme, não era igual em todos os Estados, mas estava funcionando", afirma.

 Direito de imagem WILSON DIAS/AGÊNCIA BRASIL Image caption
O governador de São Paulo, João Doria (PSDB), anunciou f
lexibilização da quarentena três semanas antes da data prevista


2) Anunciar futura flexibilização da quarentena

Para o epidemiologista da USP Paulo Lotufo, gestores que anunciaram a flexibilização da quarentena no futuro cometeram um grande erro. O Estado de São Paulo, por exemplo, comandado por João Doria, acertou em adotar o isolamento social com certa antecedência enquanto simultaneamente aumentava a capacidade do sistema de saúde.

Mas em 20 de abril, Doria anunciou que a quarentena seria flexibilizada, caso alguns critérios fossem cumpridos. A data prevista para essa flexibilização era a de 11 de maio, três semanas depois do anúncio do governador.

Para Lotufo, teria sido um erro aventar essa possibilidade. "A leitura que passou para a população foi que 'opa, tudo bem, está liberado'", diz ele. "O que estamos percebendo é que quando você sinaliza com uma data, as pessoas já assumem a postura na hora."

Não foi só no governo do Estado. Algumas cidades paulistas também quiseram flexibilizar a quarentena ainda antes da data estipulada por Doria, e isso foi comunicado para a população.

Stucchi, da Unicamp, diz que anúncios assim passam a impressão de que está "tudo bem". "Essas notícias acabam confundindo muito. A leitura das pessoas é: 'Se ele já está falando que vai flexibilizar no futuro, é porque está tudo bem agora, eu posso abrir minha lojinha aqui, reunir meus amigos'."

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Não houve restrição de circulação durante feriados, e muitos viajaram


3) Falta de restrição de circulação durante feriados

Outro erro, de acordo com Lotufo, foi não ter havido restrições durante a Semana Santa em São Paulo. No período do feriado, de 5 a 11 de abril, muita gente viajou para o interior do Estado e para o litoral. "Deveria ter havido um bloqueio, ninguém poderia entrar nem sair da cidade. Teve ida e vinda muito grande entre os municípios", diz ele.

Stucchi menciona que houve três feriados consecutivos no último mês: a Páscoa, Tiradentes (21 de abril) e o 1º de maio. "Deveria ter havido maior bloqueio e restrição em estradas para dificultar a locomoção de pessoas", opina.

4) Comportamento do presidente minimiza riscos e confunde população

Desde o começo na pandemia no Brasil, Bolsonaro tem abertamente desrespeitado as regras de distanciamento social, incentivando, participando e inclusive causando aglomerações na capital federal.

No dia 15 de março, quando o Ministério da Saúde recomendava que aglomerações fossem evitadas e a Organização Mundial de Saúde (OMS) já recomendava o afastamento social, Bolsonaro celebrou em sua conta do Twitter atos que estavam acontecendo pelo país — depois de negar que ele mesmo os tivesse convocado.

Chamou a covid-19 de "gripezinha", minimizando a doença em rede nacional no dia 24 de março.

No dia 29 de março, um dia após seu ex-ministro Mandetta defender o isolamento social e recomendar que as pessoas não saíssem às ruas, Bolsonaro deu um passeio por várias partes de Brasília. Entrou em uma farmácia e em uma padaria, causando aglomeração e tirando fotos com apoiadores — entre eles, pessoas com mais de 60 anos, parte do grupo de risco para o coronavírus. 

Depois disso, em outras duas ocasiões, nos dias 9 e 10 de abril, voltou a sair em passeios por Brasília, causando mais aglomerações e abraçando e dando apertos de mãos em apoiadores.

Bolsonaro também chegou a participar de uma manifestação. No dia 19 de abril, endossou e esteve de corpo presente em um protesto com bandeiras contra a democracia em Brasília. O presidente até discursou na manifestação.

A última de suas aparições claramente violando as recomendações da OMS e de seu próprio Ministério da Saúde foi neste domingo, 3 de maio, quando foi à rampa do Palácio do Planalto falar com apoiadores. Sem máscara, não respeitou o distanciamento social e pegou crianças no colo para tirar fotos.

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Bolsonaro e apoiadores durante ato no último domingo (3), em Brasília

Além disso tudo, desde o começo da pandemia, o presidente do Brasil vem fazendo uma série de declarações minimizando a doença causada pelo coronavírus e rechaçando medidas para conter sua disseminação pelo Brasil. "E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê?", disse ele quando o país ultrapassou a marca de 5 mil mortos na semana passada.

"É um desserviço imenso, e influencia muito a população", avalia Stucchi. "De um lado, vemos na televisão notícias sobre a pandemia, sobre o coronavírus. De outro, vemos o presidente dando beijinhos, abraços, andando sem máscara e atraindo multidões", diz ela, citando como contraponto a primeira-ministra da Nova Zelândia, Jacinda Arden, e seus pronunciamentos sobre o coronavírus e a importância do distanciamento social.

Para ela, "a postura do presidente tem dificultado o trabalho de todos que tentam mostrar, a área da saúde e da imprensa, qual é o caminho que deu certo nos outros locais e o que é importante para controlar a transmissão". "Certamente não é um caminho com essa falta de exemplo, essa remada contra a maré que vem sendo feita pelo presidente."


5) Dissonância entre Bolsonaro, governadores e prefeitos confunde e dificulta diretriz única

À postura inadequada de Bolsonaro frente às recomendações da OMS para o enfrentamento do coronavírus, soma-se a dissonância de discursos entre presidente, governadores e prefeitos.

Enquanto Bolsonaro minimizava a pandemia no Brasil e defendia a continuidade de serviços para evitar danos econômicos, governadores foram os primeiros a adotar medidas de isolamento social nos Estados brasileiros para tentar achatar a curva de infecções no país.

A disputa vem se arrastando desde o início da crise. Na semana passada, Bolsonaro disse que a "fatura" de mortes deveria "ser enviada aos governadores".

Para Ana Maria Malik, professora da Fundação Getúlio Vargas e coordenadora do centro de gestão em Saúde da instituição, isso é um problema porque mostra que "não há clara governança nacional, na qual as pessoas consigam acreditar" e saber "qual é a diretriz para o país e para cada região".

"Os discursos não estão afinados, o que causa insegurança na população", diz ela. "A população acaba achando que pode tomar suas decisões de fazer ou não o isolamento, já que os mandantes não estão de acordo uns com os outros."

Para Stucchi, a falta de união de diretrizes também afeta municípios e Estados, "o que acaba trazendo muita confusão para a população". À revelia do governo de São Paulo, por exemplo, Campinas e Ribeirão Preto já anunciaram planos de reabertura do comércio.

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Clima entre Mandetta e o presidente Jair Bolsonaro
 foi tenso por um mês antes de demissão

6) Troca do ministro da Saúde dificultou adesão da população

No meio da pandemia, no dia 16 de abril, Bolsonaro demitiu seu ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta. O Brasil não havia chegado ainda ao pico da epidemia, e vinha numa crescente de contaminações.

Antes da demissão de Mandetta, houve semanas de embates entre Bolsonaro e seu ministro, principalmente porque o presidente discordava de manifestações deste a favor das medidas de isolamento social.

"A troca de gestão no ministério no meio da crise aconteceu quando a gente estava conseguindo maior adesão da população. Perdemos muito tempo com isso", diz Lana, da Fiocruz. "Isso desestruturou toda a população, que ficou sem saber o que fazer. Desmobilizou a gestão de saúde e consequentemente a população."

O oncologista Nelson Teich assumiu o ministério da Saúde no lugar de Mandetta, e só deu uma coletiva de imprensa quase uma semana depois de assumir a pasta. Seu antecessor dava entrevistas coletivas diárias para responder a perguntas de jornalistas e informar a população sobre o coronavírus e as medidas de contenção tomadas no país.

7) Notícias falsas e promessas de curas milagrosas que desviam atenção da necessidade de isolamento

Promessas de tratamentos que "curariam" a covid-19, doença causada pelo coronavírus, também podem ter causado a impressão de que a quarentena não era necessária.

A hidroxicloroquina, por exemplo, foi propagandeada por Bolsonaro como solução do Brasil para a doença. O presidente recomendou o uso do medicamento — que ainda não tem comprovação científica de sua eficácia contra a covid-19 — em suas redes sociais e até em um pronunciamento em rede nacional de rádio e TV.

"O Brasil e os Estados Unidos fizeram o uso inadequado de promessas de tratamentos curativos e milagrosos. Isso faz com que possivelmente muita gente comece a se automedicar e demorar mais para ir ao hospital", diz Stucchi. "O uso político da cloroquina foi um desserviço e pode ter tido reflexo negativo para o isolamento. As pessoas pensam que tem uma cura, um remédio baratinho que qualquer um pode comprar, e que vai ficar tudo bem."

Ela também destaca o papel que possivelmente notícias falsas podem ter exercido na quarentena.

De fato, houve circulação relevante de notícias falsas minimizando a gravidade da covid-19 no Brasil. Uma pesquisa feita em parceria pelos projetos Eleições Sem Fake, do Departamento de Ciência da Computação, da UFMG, e Monitor do Debate Político no Meio Digital, da USP, analisou 2.108 áudios que circularam entre os dias 24 e 28 de março, em 522 grupos públicos de WhatsApp, com a participação de mais de 18 mil usuários ativos.

O estudo concluiu que entre os 20 áudios com maior circulação, cinco negavam a gravidade da doença causada pelo coronavírus. Quatro desses cinco áudios estavam entre os dez mais compartilhados por usuários, e continham supostos depoimentos de profissionais de saúde testemunhando UTIs vazias ou funerárias sem corpos, entre outros.

Lockdown à brasileira

A epidemia vem evoluindo de diferentes formas em diferentes regiões do Brasil. Por isso, eventuais confinamentos compulsórios devem ser considerados localmente, e não nacionalmente, dizem os especialistas.

"Cada lugar tem uma história, um número maior ou menor de casos. As epidemias são locais", explica Aluisio Barros, professor titular do programa de pós-graduação de epidemiologia da Universidade Federal de Pelotas, no Rio Grande do Sul.

Em algumas regiões do Brasil, o lockdown já é cogitado ou já foi aplicado. Em São Luís, capital do Maranhão, foi a Justiça que determinou o bloqueio total da capital do Estado e mais três municípios da região metropolitana por ao menos dez dias. A capital atingiu ocupação máxima dos leitos de UTI.

Em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, o governador do Pará, Helder Barbalho (MDB), disse estar considerando um "lockdown" em algumas cidades do Estado.

No Rio de Janeiro, apesar do secretário estadual de Saúde, Edmar Santos, defender regras mais rígidas para o isolamento social e citar o lockdown como uma alternativa, o governador Wilson Witzel disse, na noite de segunda (4) no programa Roda Viva, da TV Cultura, que um eventual lockdown do Estado teria que partir do Poder Judiciário, como ocorreu no Maranhão. Também disse que cogita punições para quem descumprir o isolamento social no Estado.

A gestão Bruno Covas (PSDB) começou a bloquear avenidas importantes da capital paulista na segunda (4) para reduzir a circulação de pessoas.

Para Stucchi, um eventual lockdown em regiões do país deveria ser feito "à brasileira", e não necessariamente copiando o isolamento compulsório feito em outros países. Ela diz que não faria sentido aplicar multas para os brasileiros, por exemplo, já que seria "mais uma conta que o brasileiro vai ficar devendo" por conta da situação econômica da maioria da população.

Ela defende, sim, restrição do deslocamento das pessoas de forma ostensiva, bloqueando a mobilidade urbana. "Se não o descontrole e a perda de vidas vai ser maior ainda."

Para Lana, em regiões mais críticas, o lockdown é o recomendável agora porque leva tempo para mobilizar todo mundo de novo para seguir as regras de isolamento social voluntário. "Até conseguir fazer todo o trabalho de mobilização, já se perdeu muito tempo. Não temos mais tempo hábil em alguns Estados onde a crise está bem séria."

"Qualquer descuido pode levar ao descontrole", diz Barros. "Tem gente achando que epidemia é igual torneira, que a gente vai controlando. Eu acho que epidemia é mais como fogo no mato, quando chega num determinado ponto, ninguém segura mais."

Quase metade dos internados por coronavírus no País tem entre 20 e 59 anos

Roberta Jansen, 
O Estado de S.Paulo

Especialistas afirmam que dado reflete a realidade da pirâmide demográfica do Brasil e também tem relação com baixa taxa de isolamento e desigualdade social

  Foto: Tiago Queiroz/Estadão
Médicos tratam paciente com coronavírus 

A epidemia de covid-19 no Brasil vem adotando um perfil bem distinto daquele verificado na Europa. Pelo menos 45% das pessoas internadas no País por causa do novo coronavírus têm entre 20 e 59 anos. Ou seja, não se trata de uma enfermidade predominantemente de idosos, como em outros lugares do mundo.

O levantamento foi feito pelo Portal Covid-19 Brasil, que reúne cientistas das mais diversas instituições nacionais, e tem como base o boletim divulgado dia 3 pelo Ministério da Saúde. De acordo com especialistas, isso ocorre em razão da pirâmide demográfica brasileira, da pouca adesão da população às medidas de isolamento social e da desigualdade social no País.

"No Brasil, essa não é uma doença de gente idosa, de velhinho; é uma doença de gente mais nova", constatou a pneumologista Margareth Dalcolmo, pesquisadora da Fiocruz e uma das integrantes do portal. "Para se ter uma ideia, 43% das pessoas internadas por covid no Rio têm menos de 50 anos."

O portal usa dados oficiais do Ministério da Saúde, informações do Registro Civil e também os números dos casos de síndrome respiratória aguda (que muitas vezes ocultam casos de covid). Assim, o portal estima o que seria o número real de infectados, incluindo as pessoas assintomáticas e as que apresentam sintomas leves da doença. Os cientistas tomam por base os números de óbitos que, embora também sejam subnotificados, são considerados mais precisos.

"O número de mortes é maior entre os mais velhos, mas existe um significativo percentual de jovens sendo internado", sustenta o especialista em modelagem computacional Domingos Alves, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, da Universidade de São Paulo (USP), que também participa do portal.

Em relação à faixa etária, as mortes no Brasil seguem a tendência mundial: 85% são de pessoas acima de 60 anos, a grande maioria delas apresentando pelo menos uma comorbidade. Mesmo assim, na Itália e na Espanha, por exemplo, essa concentração é ainda mais alta, alcançando 95%. Por outro lado, no Brasil, pouco mais de 10% dos mortos têm entre 20 e 50 anos. Esse percentual é inferior a 1% tanto na Itália quanto na Espanha.

"Os mais jovens têm mais defesas imunológicas e, por isso, morrem menos", afirma Dalcolmo. "Mas isso não quer dizer que não adoeçam com gravidade e, muito menos, que sejam imunes à doença." A demografia explica parcialmente o fenômeno do rejuvenescimento da epidemia. Na Itália, por exemplo, 28,4% da população têm mais de 60 anos; número similar ao da Espanha, 25%. No Brasil, esse percentual é de 10%. 

O número de pessoas obesas (fator de risco muito grave) é maior no Brasil do que nos países da Europa. De acordo com especialistas, a baixa adesão às medidas de distanciamento social também conta, bem como a questão social. "Os jovens em maior risco são os das classes mais baixas, que precisam sair para trabalhar e que moram em ambientes propícios à disseminação da doença, como as comunidades", explicou Dalcolmo. "A doença também espelha a nossa desigualdade social", constata.

Coronavírus: primeira capital do Brasil em lockdown tem ruas lotadas e trânsito intenso

Rafael Barifouse
Da BBC News Brasil em São Paulo


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Fiscalização da Prefeitura encontrou ruas e feiras cheias durante o lockdown

Feiras lotadas. Aglomerações nas ruas. Trânsito intenso. As cenas vistas nos últimos dias em algumas partes de São Luís não são o que se esperaria da primeira capital do país a entrar em lockdown.

Para evitar o colapso do sistema de saúde local, onde a ocupação das unidades de tratamento intensivo da rede estadual atingiu 100% no fim de abril, a Justiça determinou que a cidade e outros três municípios da sua região metropolitana adotassem na última terça-feira (5/5), por dez dias, medidas mais rígidas para reduzir a propagação do coronavírus.

Entre elas, a proibição de circulação de veículos particulares, a não ser para comprar alimentos ou atendimento médico, a entrada e saída de veículos da ilha e o fechamento de qualquer comércio não essencial.

No entanto, os dados de monitoramento do isolamento social em São Luís mostram que, apesar de mais gente ter ficado em casa, ainda assim isso não é suficiente para controlar a epidemia na cidade, onde foram registrados 3.745 dos 5.909 casos confirmados no Maranhão até a última quinta-feira, segundo a Secretaria estadual da Saúde.

A adesão ao isolamento foi de 55,4% no primeiro dia de lockdown e caiu desde então, para 54,1% no segundo dia e para 53% no terceiro, de acordo com a empresa In Loco, que criou um índice baseado nos dados de geolocalização de 60 milhões de celulares do país.

Isso é mais do que a média de 47,1% que a cidade registrou em dias úteis da semana imediatamente anterior. São Luís também atingiu pela primeira vez em dias de semana um nível de isolamento que a cidade só conseguia obter em domingos e feriados.

Mas os dois primeiros dias de lockdown não bateram os recordes de adesão registrados pela capital maranhense desde que o governo estadual decretou as primeiras medidas de isolamento, em 21 de março. Desde então, houve sete dias com índices melhores, entre 55,8% e 57,6%.

E o patamar atual não é o bastante para controlar a epidemia, diz o epidemiologista Antonio Augusto Moura da Silva, professor do departamento de Saúde Pública da Universidade Federal do Maranhão (UFMA).

"Qualquer ganho é um ganho, mas não é o que a gente queria. Não é o ideal", diz Silva.

O epidemiologista explica que o índice teria de ser de cerca de 70% para fazer com que o número de novos casos pare de crescer e comece a cair.

Isso porque a taxa de contágio, que aponta quantas pessoas alguém que está contaminado pode infectar, era de 3 no início da pandemia no Maranhão, de acordo com um estudo do Imperial College de Londres.

Para que o número de novos casos passe a cair, é preciso que essa taxa seja menor do que 1. No caso maranhense, isso significa que a taxa teria de ser reduzida em mais de dois terços, e, para conseguir isso, a redução do contato social deve ocorrer na mesma proporção. Em outras palavras, o isolamento deve ser de 70% ou mais, afirma Silva.

O virologista Anderson Brito, do departamento de epidemiologia da Escola de Saúde Pública da Universidade de Yale, nos Estados Unidos, aponta que um estudo realizado pela Universidade de Sydney, na Austrália, vai ao encontro dos números citados por Silva.

Essa pesquisa calculou o impacto do isolamento sobre a epidemia local e indicou que, para a prevalência da covid-19 começar a cair no país, seria preciso uma adesão de 80%.

"Guardadas as devidas diferenças entre o Brasil e a Austrália, é esse o patamar que nos apontam as evidências científicas. Então, São Luís precisaria de uma adesão maior para de fato eliminar as cadeias de transmissão", afirma Brito.

A BBC News Brasil procurou as secretarias municipal e estadual de Saúde para comentar os resultados do lockdown, mas não recebeu resposta até a publicação desta reportagem.


Isolamento desigual

Fernando Spilki, presidente da Sociedade Brasileira de Virologia (SBV), diz que os índices de São Luís com o lockdown são uma "vitória", porque terão algum efeito.

Mas ele avalia que eles são insuficientes, porque a literatura científica aponta que isso até agora que é preciso ter ao menos 70% de isolamento.

"Essa diferença de 15% entre o que a cidade conseguiu e o ideal pode parecer pequena, mas tem muito impacto porque lidamos com um patógeno muito contagioso."

O virologista explica ainda que, além da média geral do isolamento, também é preciso analisar como isso ocorreu em diferentes partes de uma cidade.

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Região central de São Luís ficou mais vazia do que a periferia

Em São Luís, as regiões centrais ficaram mais vazias e as periferias, lotadas. Se a adesão é muito desigual entre diferentes regiões da cidade, isso pode comprometer o esforço de se fazer um lockdown.

"O lockdown se mostrou uma estratégia bastante adequada e talvez seja a única completamente efetiva para evitar a disseminação do vírus hoje, mas, se apenas uma parte da população se isola, o vírus continua a circular e a criar focos de contágio", diz Spilki.

As pessoas destas regiões onde o coronavírus segue sendo transmitido irão para outras áreas e levarão a doença com elas, fazendo com que haja novas ondas de contágio depois de algum tempo.

Anderson Brito diz que um dos piores cenários possíveis é fazer um lockdown, mas não haver uma adesão em massa da população.

"Isso cria a sensação de que algo está sendo feito, mas não está dando resultado. Mas só vai dar resultado se as pessoas aderirem", diz o virologista.

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Regiões da capital maranhense tiveram trânsito intenso

Além disso, explica ele, ainda é cedo para saber se o lockdown vai surtir o resultado esperado, porque uma pessoa infectada pelo novo coronavírus leva até 14 dias para ter sintomas e quem é internado fica no hospital por 18 dias em média.

Então, só será possível ver os resultados dos novos níveis de isolamento sobre os índices de casos, mortes e ocupação de leitos daqui a três ou quatro semanas semanas ao menos.

"Por isso, é necessário não só contar com a adesão da população, mas também com a confiança da população de que isso está dando certo", afirma Brito.

Vulnerabilidade social

O epidemiologista Antonio Augusto Moura da Silva diz quem um dos maiores obstáculos para a cidade ter índices de isolamento maiores é a vulnerabilidade social da população do Maranhão.

O Estado tem a maior proporção da população vivendo em situação de pobreza, segundo dados Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE): 54,1% dos 6,8 milhões de maranhenses vivem com menos de R$ 406 por mês.

Além disso, o Maranhão tem o maior percentual do país de trabalhadores informais — são 64,9% dos trabalhadores ocupados, segundo dados de 2018.

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Vulnerabilidade social é um obstáculo para isolamento no Maranhão


"A gente já desconfiava que a gente não ia conseguir manter todo mundo em casa. Não porque as pessoas não querem aderir. Mas porque é difícil para elas fazer isso porque precisam sair de casa todo dia para ganhar dinheiro. Para fazer o lockdown, teria que ampliar o programa do governo de auxílio emergencial para atingir o maior número de pessoas possível. Sem uma coisa ou outra, elas vão passar fome", diz Silva.

Esse é caso da empregada doméstica Maria Barros, de 51 anos. Ela está há quase um mês sem trabalhar e já gastou todo seu último salário anterior para quitar o aluguel e as contas e abastecer a despensa.

Seu filho também não está conseguindo trabalho como pedreiro e ele não sabe se vai conseguir ganhar algum dinheiro para passar o mês que vem.

Socorro está na mesma situação. Ela estava em regime de experiência na casa onde trabalha e não tem ainda carteira assinada. Por isso, não tem qualquer garantia de que receberá o próximo salário.

"Eu quero ficar em casa, mas, se a minha patroa não me pagar, eu vou ter que sair. Precisa entrar pelo menos R$ 100 para comprar comida."