Adelson Elias Vasconcellos
Muito bem, o país fez sua escolha. Fez a escolha certa? Sabe ou conhece bem a sua opção? Na minha avaliação acho que não, mas rezo para estar errado, pelo bem do país que, afinal, somos todos nós.
Creio até que 50 e tantos milhões de eleitores somente se darão conta de seu voto, dentro de uns seis a dez meses. De tal forma Lula esteve envolvido na campanha de Dilma que sou capaz de apostar que para muitos, no nordeste, principalmente, votaram muito mais por Lula do que por Dilma Rousseff. E, tal qual o mapa do primeiro turno, pesou na escolha a grandiosa maioria de beneficiados do bolsa família. Pode até ser coincidência, mas é um fato constatável sem nenhuma dúvida.
Saudável na leitura deste pleito é saber que o PSDB, o principal partido de oposição, se perdeu representatividade no Congresso, no plano nacional, contudo, e lutando contra uma poderosa máquina pública e de propaganda, fortaleceu-se e marcou seu espaço. Não foi o massacre sonhado por Lula. Serra capturou mais de dez milhões de votos além daqueles que Alckmin obtivera em 2006, e os tucanos elegeram maior contingente de governadores. E isto terá um peso relevante nas relações do governo com a oposição. Depois de três eleições cometendo erros primários, quero crer que a oposição tenha aprendido a lição de que, fundamentalmente, precisará voltar a fazer política e, para tanto, deixar de ser presa fácil e achar que somente às vésperas da campanha se iniciar, é que conseguirá se impor junto ao eleitorado. Deve hoje cumprimentar Dilma pela vitória, dizer que fará seu trabalho de colaborar para o crescimento do país mas, amanhã, sem perder tempo e nem gastar saliva com discurso inútil, deverá começar a ser aquilo que quase metade do eleitorado lhe delegou fazer: oposição ao governo federal.
Dilma talvez tenha conseguido, por tudo o que se sucedeu na campanha e antes dela, conquistar o objetivo mais fácil. Doravante, mesmo contando com a consultoria de seu padrinho, é que de fato nasce seu desafio. Primeiro, como compor com o leque de partidos que compõem sua base de apoio, a equipe a quem confiará e delegará as tarefas da governança. Isto requer, acima de tudo, capacidade de negociação política, atributo que sabidamente Dilma não tem.
Segundo, compor a agenda de ações e metas para serem cumpridas nos próximos quatro anos. Muito embora durante a campanha tenha tratado com certo desprezo questões urgentes, dado o cenário atual, ela precisará escolher e adotar um modelo de governo: de um lado, um pouco menos expansivo para garantir a estabilidade econômica, ou, de outro, comprometer esta estabilidade correndo risco, mas imprimir a mesma velocidade que Lula tocou seus dois últimos anos de governo.
Se Dilma conseguir neste primeiro ano vencer a barreira das negociações necessárias para o loteamento do poder com a ampla aliança que a apoia, e imprimir um ar mais conservador no campo econômico, tem tudo para seguir em frente sem maiores tropeços, desde que as condições externas não mudem o cenário da economia.
Mas se deseja avançar para dar sustentabilidade ao crescimento econômico e social, sua plataforma deverá atender pontos de difícil digestão: previdência, reforma política, reforma trabalhista, reforma tributária, aprimoramento da qualidade de ensino, recuperação da qualidade dos serviços de saúde e segurança, além da indispensável elevação dos investimentos públicos nas áreas de infraestrutura e saneamento. Compatibilizar os diferentes interesses de cada partido em cada um destes pontos, tendo uma base de apoio político tão amplo e diversificado, não será uma tarefa fácil. E tendo contra si estados mais importantes sob o comando da oposição, o que a obrigará a se aproximar deles, mesmo que a contragosto.
É certo que a eleição dá um novo vigor para a oposição. Ficou claro que ajustando seu discurso e contando com uma estratégia mais adequada, é possível quebrar o encanto que se instalou em torno do partido no poder.
Reafirmo não acreditar que Dilma tenha na negociação política um atributo notável. Ou precisará puxar Lula para dentro do governo como este negociador, ou precisará encontrar, e logo, uma liderança capaz de congregar estes diferentes interesses em torno de seu projeto e ideias.
Fundamental ainda que sua equipe técnica esqueça política partidária para se concentrar na resolução dos gargalos visíveis a espera de soluções urgentes. Ao partir de um índice de aprovação deixado por Lula tão elevado, precisará adotar medidas com grande precisão, para em seu governo não se instalar desconfianças.
Portanto, seja nesta passagem de bastão de Lula para Dilma, como na composição da equipe dentro do figurino moldado pela agenda de governo que pretende imprimir, o momento é de expectativa.
Dilma deve ter em mente duas questões importantes; seu governo não poderá contar com o modelo divisionista de sociedade imprimido por Lula. E, por fim, há uma sensível degradação das contas públicas que precisarão ser atacadas com urgência. Na campanha, Dilma jamais admitiu este diagnóstico. Espero que esta atitude seja apenas um comportamento de campanha e que, eleita e empossada, ela assuma que esta degradação é real e precisa ser resolvida. Se não o fizer logo, e por certo, acabará comprometendo todo o seu governo.
E para encerrar: para o bem do país Dilma terá que optar entre governar de acordo com os desafios e necessidades do país, ou governar visando atender um apelo de um projeto de poder com a qual o PT pretende conquistar maior presença. Ou, em outras palavras: escolher um projeto republicano de governar, ou um projeto de conservação do poder. No primeiro modelo, se beneficia o país e ela, em especial, do ponto de vista político, já o segundo, bem o segundo é o caminho mais próximo para o desastre. Vamos torcer para Dilma ter a sabedoria de fazer a melhor escolha.
Uma última palavra: há graves crimes de abuso de poder político e econômico que o TSE deverá julgar contra o governo Lula. Em um país civilizado onde o Judiciário não é um apêndice para atender os caprichos do Executivo, e provavelmente Dilma e Lula estariam sob a ameaça do cumprimento da lei contra si. No Brasil, todavia, com este TSE comandado pelo ministro Lewandovski e um Ministério Público Eleitoral leniente, talvez eles possam comemorar com maior segurança sua vitória. Como sempre disse, urna não é tribunal, a vitória não absolve ninguém dos crimes cometidos durante uma campanha eleitoral. Mas acredito que Lula esteja seguro de que ninguém vai lhe cobrar as transgressões, muitas delas gravíssimas, que andou praticando. Afinal, amigos são para essas horas, não é mesmo Leviandovski?









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