domingo, outubro 31, 2010

Lembrando Millôr Fernandes...


Frases VIII


• Tome nota, amigo: as aparências não enganam.

• As mulheres são mais irritáveis porque os homens são mais irritantes.

• Pois é, eu já estava preocupado com essa situação terrível de miseráveis do Nordeste, quando fui ainda mais abalado por uma menina ter caído num poço no interior da Cracóvia. Cheguei a uma conclusão: é insuportável assistir ao Jornal Nacional.

• O século XX nos deu o cinema, o telefone, o automóvel, o avião, a penicilina, a asa-delta, o computador, tanta coisa maravilhosa. Mas a maior invenção de todos os tempos é do século XXI, o Google. A cultura prêt-a-porter.

• Quem sai aos seus não endireita mais.

• Celebridade é um idiota qualquer que apareceu no Faustão.

• Sem essa, ô meu! Eu não cheguei até aqui na escala animal pra ser incorruptível.

• O imposto de renda aperta cada vez mais o contribuinte. E aconselha: "Relaxa e goza".

• Melhor do que dar ao companheiro um peixe é lhe dar um caniço e ensiná-lo a usar o cartão corporativo.

• E eu que nunca fui convidado a jantar pelo cético e pela circunspecta, praquelas festas infindáveis que eles dão no porão do forte abandonado, no oitavo dia da semana?

• Você pode evitar descendentes. Mas não há nenhuma pílula para evitar certos antepassados.

• Os pássaros voam porque não têm ideologia.

• De madrugada certas avenidas muito compridas desembocam no Além.

• A alma enruga antes da pele.

• Pergunta pro Presidente Lula: "Em que exato momento histórico nossa ignorância passou a ser virtude cívica?"

• Eu sei, no Brasil do século XXI: "A concordância gramatical é a primeira mostra da degradação moral do Congresso". Eu sei também: "A maior parte de nossos homens públicos pensa que a regência acabou com a proclamação da República".

• Todo governante se compõe de 3% de Lincoln e 97% de Bush.

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O Leão e a Cegonha


Já que outra vez voltou à pauta - volta sempre - o tema lobby, meto eu lá também a minha colherinha.

Que o sociólogo-mor me perdoe: lobby, segundo a The United Nations Educational Scientific and Cultural Organization, que os íntimos chamam de Unesco, é o ''contato pessoal com legisladores buscando a promulgação de leis ou a derrota ou modificação delas. Usa a técnica de proporcionar diversões - festas e similares - aos membros do Legislativo e sua família, cultivando intimidade e amizade para atingir seus objetivos''.

Já a Encyclopedia of the Social Sciences, da Macmillan (1933), nota que ''lobby é quase sempre associado ao esforço de pessoas e organizações inescrupulosas para conseguir legislação interessada. O lobby tem sido chamado de third house'' (n.M.: poder equivalente à Câmara e ao Senado). ''Suborno e outras práticas não éticas são geralmente associadas ao lobby''.

Mas como também tenho visto comentaristas e legisladores divagarem sobre a história do lobby, aqui vai:

Em janeiro de l680, o M.P. Sillius Titus fez, na Câmara dos Comuns de Londres, um discurso que ficou famoso (tanto que, abaixo, repito trecho, 300 anos depois). O parlamentar se colocou contra o rei Charles II que, mediante algumas compliances (jeitinho), pretendia que o parlamento aceitasse seu irmão James como sucessor ao trono, apesar de católico romano. Disse Sillius Titus:

''Esperemos que não sejamos tão tolos quanto as rãs, a quem Júpiter propôs uma cegonha como rainha. Elas aceitaram, politicamente, certas de que seria fácil resolver pequenos problemas posteriores como, por exemplo, a cegonha, com seu bico comprido e poderoso, querer devorá-las. Coisa tão estúpida quanto nós, agora, sabedores de que há um leão aí no lobby, votarmos a favor da entrada do leão, convencidos de que, uma vez o leão aqui dentro, será mais fácil acorrentá-lo.

A verdade é bem outra: aconselha simplesmente a fechar a porta e deixar o leão lá fora.''

É o que eu, subdesenvolvido, modestamente aconselho: deixemos a corrupção lá fora.