Adelson Elias Vasconcellos
No dia 18 de agosto, portanto, bem antes de se definir o primeiro turno, escrevi um artigo sob o título “Oposição que não faz oposição, não ganha eleição” (clique aqui). Ali, faltando cerca de 45 dias para o primeiro turno, quando Dilma já se colocava um pouco à frente de Serra, e Marina sequer começara a alçar voo, tentava fazer a leitura das razões que levavam aquela virada no quadro das preferências. Afirmei que, muito mais que a campanha eleitoral antecipada pelo governo Lula, ele em particular, bem mais do que u uso ilegal da máquina pública e estatais em favor da candidata, a virada se dava muito mais por conta do papel exercido pela oposição, não durante a campanha que, na televisão sequer se iniciara. Sua posição ambígua em relação à ação de Lula em descaracterizar o precioso legado que recebera de FHC, afora a apropriação indébita de programas e projetos do governo anterior, custara ao PSDB chegar à eleição praticamente sem discurso e sem projeto alternativo.
Leiam este trecho. Retorno depois:
(...)
Ora, oposição que não faz oposição, que se omite de fiscalizar e criticar as ações do governo Lula, poderia desejar melhor sorte? E, mesmo neste preâmbulo da campanha, a oposição continua e insiste numa estratégia vazia.
Não apenas na gestão dos serviços do Estado dá para bater duro no governo Lula. No plano institucional, o que não faltaram foram inúmeros escândalos de corrupção e sempre envolvendo gente graúda do PT, muitas das quais bastante próximas e íntimas de Lula. E você não percebe ninguém da oposição martelando em cima disto. Serra tenta não criticar Lula por temer que sua popularidade acabe produzindo efeito adverso.
Mas, venham cá: é possível fechar os olhos para o mensalão, os aloprados, as cartilhas, os gastos secretos cada dia mais crescentes da presidência, a fábrica de dossiês, o aparelhamento vergonhoso do estado, as alianças espúrias com o que existe de pior no cenário político do país, a política externa em alianças com os mais detestáveis e sanguinários ditadores do planeta, a clonagem vergonhosa de programas do governo anterior com a mudança apenas de apelido, afora as reformas que não se fizeram, o crescimento menor do que os países do mesmo porte, a deterioração das contas públicas, os pacs empacados, a agressão à fiscalização do TCU, a Gamecorp, afora os cadáveres insepultos dos quais Celso Daniel é o mais representativo, afora o crescente gigantismo do Estado sufocando com seu peso opressivo a sociedade que o sustenta com uma carga extorsiva de impostos, o crescente endividamento interno, dentre tantas outras safadezas cometidas nos porões e submundo do poder, onde a quebra ilegal de sigilo fiscal e telefônico dos adversários tem sido constantes? Sem falar na infraestrurtura estrangulada do país, as repetidas tentativas de cerceamento da liberdade de expressão, a insegurança pública e jurídica, também, quase fugindo ao controle, o cada dia mais deficiente sistema público de saúde, isto tudo não é munição suficiente para colocar a candidata do governo no corner, inundando a opinião pública de informações preciosas da inconveniência de se ter Dilma na presidência? Contudo, nada disso é apresentado no discurso da oposição. (...)
E constatava, também::
(...)" É evidente que a fabulosa e milionária fábrica de propaganda do governo federal acaba vendendo à sociedade uma visão distorcida de seus atos. Como todo o auto-retrato tende a ser colorido, e como a oposição tem se omitido de servir como canal de fiscalização e informação, fica fácil Lula mentir sem ser contestado. Tanto ele quanto sua candidata-criatura, Dilma Rousseff."(...)
E concluía:
(...)
"Em terreno tão fértil, Lula vem deitando e rolando e, caso a oposição continue insistindo neste “devagar quase parando”, vai permitir a Lula empurrar, de forma imperial, goela abaixo do país, uma verdadeira impostura chamada Dilma Rousseff. E reclamar depois, já será tarde.
Passa da hora, portanto, a mudança de atitude, de discurso e de ação em favor do país por parte da oposição. Porque, se não o fizer, terá que engolir muito mais sapos gordos nos próximos quatro anos. Repito o título: oposição que não faz oposição, não ganha eleição."(...)
Retorno:
Ora, como se pode compreender que o PSDB, depois do truque que Lula aplicou em Alckimin, em 2006, sobre as privatizações, não tenha utilizado este tempo todo para difundir na sociedade as vantagens do programa de desestatização que, aliás, é bom lembrar, foi iniciado no governo Collor. Como pode ser tão primário em entrar numa campanha, contra praticamente o mesmo adversário e não haver preparado o antídoto? Não, como já perdera o tempo que teve para isto, novamente, o PT se utilizou da mesma vigarice para se impor. O caso da Petrobrás, então, é um escândalo. O governo FHC não apenas não privatizou coisíssima nenhuma, como, ainda, através do modelo de concessões, permitiu que a estatal, simplesmente, dobrasse seu volume de produção, ao passo que, com Lula, a estatal avançou apenas e tão somente 30%. Alguém ouviu Serra ou algum oposicionista lembrar da expropriação feita por Evo Morales, presidente da Bolívia, em refinarias da Petrobrás, sem que resultasse em uma única reação do governo Lula para preservar um patrimônio que,. afinal de contas, era brasileiro?
Vejam lá no alto, no trecho do artigo de agosto. Olhem quantas razões tinham as oposições para fazerem uma campanha mais eficiente! E os empréstimos dados ao mesmo Evo Morales para a construção da rodovia da coca, que, depois de processada, acaba vindo desgraçar milhares de famílias brasileiras, alguém falou? Muito de leve, quase que pedindo desculpas. Alguém se lembrou de informar a sociedade a dúzia de fracassos no campo da política externa, em que nos aliamos ao que existe de pior no planeta? E que, a rigor, a única e espetacular vitória lá fora, a briga comercial do algodão contra os Estados Unidos, foi iniciada todinha no governo de ... FHC?Alguém lembrou de, nos horários de propaganda política institucional do PSDB e do DEM, apresentar o texto da Medida Provisória, assinada por Lula, transformando quatro dos doze programas da rede de proteção social implementados por FHC no Bolsa Família? Ou de exibir a sua declaração sobre os programas sociais antes de se tornar presidente? E o que ele, Lula, dizia sobre o Plano Real, antes dele se tornar presidente?
Tentar, agora, há um mês, desmontar o discurso que Lula ensaiou e proclamou durante oito anos, convenhamos, seria querer que a sociedade fizesse, ela, o papel que competia à oposição ter feito e não fez.
Muito embora tanto pelo perfil quanto pelos valores que se embutem nos projetos que cada lado representa, Serra seja muito melhor para o país, não pode na prorrogação, esperar que a sorte lhe caia dos céus.
O governo Lula, um dia, com ele já afastado do poder, ainda terá que ter sua história reescrita pelos fatos e pelos resultados devidamente medidos pela cadeia do tempo, e sem o lustro da propaganda oficiosa. FHC pagou um alto preço político por receber um país destroçado, desacreditado aqui dentro e lá fora, sem crédito, sem projetos, totalmente falido, e ter aceitado a missão de, não apenas arrumar a casa, mas modernizá-lo e lançar as sementes da estabilidade social, política e institucional que nos recolocou de volta ao progresso e desenvolvimento. Lula foi grande beneficiário. Isto, cedo ou tarde, a história há de fazer a justiça que hoje a nação torce o nariz e não reconhece. Mas muito desta falta de reconhecimento, se deve aos erros cometidos pelo próprio PSDB que não soube reconhecer, valorizar e capitalizar politicamente o seu enorme legado em benefício do país.
Agora, Lula e Dilma vendem ilusões aos borbotões porque sabem que sua mentira tem crédito, porque toda a falsidade que construíram desde 2003, não foi confrontada e contestada.
Dilma no debate na Globo, sentiu-se acuada por ser compelida a responder pelos maus serviços públicos fruto do desgoverno Lula, e que ela prometia melhoras para o futuro, sem explicar a degradação dos mesmos serviços no presente. Lula ter 80% de aprovação chega a ser piada, diante de serviços que sequer tem 30% aprovação junto a população, e isto depois de praticamente oito anos de Lula no poder. Metade do país continua sem esgoto, mais de 45% dos jovens estão fora do ensino médio, os índices de avaliação do ensino brasileiro em provas internacionais não conseguiu subir um mísero degrau, nosso índice de corrupção continua no mesmo patamar, nosso índice de competitividade regrediu, a dívida externa não foi paga e a interna triplicou de tamanho, mais de 24% dos jovens entre 18 e 20 anos nem estudam nem trabalham, e o progresso social mais se deve ao assistencialismo do que por obra e graça do crescimento econômico que é a base verdadeira e sustentável do outro.
E o Lula e sua pupila vem para a campanha cantar marra e querer comparações? Vendem ilusões, fantasias, mistificações e tudo porque por conta da inépcia das oposições, não na campanha de 45 ou 60 dias, mas durante praticamente 8 anos, deixando de ocupar seu espaço e permitindo que Lula flanasse sem contestação.
E, se do resultado deste pleito, saírem derrotados, que tratem de se dar conta de uma coisa: é bem provável que Serra, a se considerar válidas as pesquisas, atinja cerca de 40% dos votos. Ora, isto representa cerca de 54 milhões de votos. Brincando, brincando, representa dizer que este contingente, que representa cerca de um quarto da população não aceita nem Lula, nem Petê, tampouco Dilma. Este é o espaço na sociedade que as oposições já conquistaram. Com um pouco só de esforço e competência, e com um projeto alternativo e moderno de país debaixo do braço, falta-lhe muito pouco para atingir a maioria.
É visível é a desagregação do projeto petista de governar. Por mais malabarismos, truques e artifícios que tentem esconder a verdade, este discurso de grandeza não tem como se sustentar sequer no médio prazo. Goste ou não, terá que pagar um pesado ônus político para implementar as reformas indispensáveis para a sustentação da estabilidade. A fragilização institucional que o país vem experimentando ao longo dos últimos anos, criará, sem dúvida além de gargalos de difícil e custosa solução, enorme resistência de parte da sociedade que não admite ver seus direitos e garantias ultrajados, mesmo que patrocinados pelo Lula.
A oportunidade para se reconstruir e se oferecer como solução definitiva para um futuro venturoso do país começa agora. Há enorme trabalho para ser feito e refeito. E, o que é mais importante: sem condescender minimamente com um provável governo Dilma. Nem ela merece, tampouco seu partido e associados. A maneira desta gente fazer política, é criminosa, e com bandidos gente séria não faz alianças. É tolerância zero. Pela base parlamentar conquistada, eles precisam construir parcerias com a oposição. Por quê? Porque só a admitirão quando for para empurrar para a oposição o preço política das tais reformas. E isto se chama vigarice. Querem vender sonhos e ilusões para a sociedade? Beleza, mas que arquem com as consequências que resultarem do despertar desta sociedade para a realidade do que eles realmente são.
Portanto, oposição política deve ser feita no dia a dia, com o confronto de ideias e desmistificação das falsidades patrocinadas pelo poder. Se fizerem isto, acreditem, o Brasil vai agradecer muito. O prazo de validade dos vendedores de ilusões está se esgotando.
