Alexa Salomão, Portal Exame
Segundo dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), divulgados na semana passada pelo Ministério do Trabalho, houve de janeiro a setembro deste ano um recorde – mais um – no total de contratações com carteira assinada no Brasil. O saldo positivo foi de 2,2 milhões no período. Conversei hoje com o economista Mansueto de Almeida, pesquisador do Ipea, e ele chamou a atenção para outro recorde do período: o do pagamento de seguro-desemprego. Foram liberados até 30 de setembro quase 15,9 bilhões de reais para ajudar desempregados. A expectativa é que ambos – contratação com carteira assinada e pagamento de seguro-desemprego – ampliem seus recordes até o final do ano.
Não se tem informação de que algo parecido ocorra em outros países. Comum é ver justamente o inverso: mais trabalho leva a um número menor de desocupados e, consequentemente, a uma redução no pagamento do auxílio-desemprego. Mansueto lembrou que esse descompasso, em parte, explica porque um item da contabilidade do governo, a conta de Outros Benefícios de Natureza Social, não para de aumentar, apesar de o país viver um período de crescimento econômico e apresentar uma das menores taxas de desemprego da história.
Indo além das contas públicas, o mais interessante é buscar entender a natureza social do estranho fenômeno. No Brasil, a maioria dos trabalhadores com carteira assinada ganha pouco mais de 2 salários mínimos e não tem plano de carreira. Nos momentos de aperto econômico, quando falta trabalho, o instinto de sobrevivência manda se agarrar a qualquer coisa. Mas quando há oferta de vagas em abundância – como ocorre neste momento –, prevalece o senso comum de ganhar o máximo no menor tempo possível.
O esquema é o seguinte: o empregado pede para ser demitido ou cria uma situação para ser demitido, leva os benefícios previstos em lei, como o fundo de garantia, entra com pedido de seguro-desemprego e passa a fazer bicos. Quando o prazo para o pagamento do seguro expira, volta a procurar emprego. Com essa manobra, muita gente junta dinheiro para comprar um eletroeletrônico, reformar a casa, dar entrada num carrinho usado.
Uma das razões desse comportamento é o baixo nível de escolaridade. Um número incontável de pesquisas estabelece uma relação entre nível educacional e renda individual. Se o brasileiro contasse com mais anos de estudo – e estudo de qualidade – a realidade das pessoas e das contas públicas poderia de ser diferente. O trabalhador médio seria mais qualificado, mais valorizado, mais bem pago e também teria ambição de construir uma carreira, sem precisar depender da esperteza para garantir algo mais que o pão de cada dia.
***** COMENTANDO A NOTÍCIA:
Talvez se o leitor clicar aqui entenderá um dos motivos para esta discrepância. O artigo em questão foi publicado no blog dia 24 de outubro.Segue um trecho:
(...)
"No ano passado, 2009, foram efetuadas nada menos que 17 milhões e 371 mil demissões no país, que causaram saques na conta global do FGTS no valor de 30,9 bilhões de reais. Três milhões e 611 mil trabalhadores e servidores públicos regidos pela CLT completaram o tempo de serviços e se aposentaram, sacando assim seus saldos. Essas duas rubricas conduzem a um montante de 37,5 bilhões aproximadamente”.
“O total de demissões sem justa causa é um indicador social muito importante, pois ele vem assinalar, sobretudo o elevado grau de mobilidade social da mão de obra brasileira, formada por praticamente 100 milhões de pessoas, quase a metade da população. Por isso, quando o governo, através do ministro do Trabalho, Carlos Lupi, anuncia as admissões, temos que compará-las às demissões. Estas, pelo relatório da CEF, nós sabemos que foram 17, 3 milhões. Quantas são as admissões? São anunciadas em bloco, mensalmente, como se fossem totalmente adicionais ao mercado de trabalho e não – como ocorre – parcialmente substitutivas. Ou seja: as deslocações de um emprego para outro são maiores que a criação de posto novos. Vale a pena ser feita uma pesquisa séria nesse sentido. Deixo a ideia para o IBGE.”
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CONCLUSÃO:
E então, o que vocês acharam? Genial, não é mesmo? Bem, dona Dilma proclamou as delícias dos 15 milhões de empregos gerados, só esqueceu este pequeno detalhe acima que, conforme os dados estatísticos um pouco estendidos, tanto em relação ao seguro desemprego quanto aos saques do FGTS não deixam a menor dúvida da, vamos dizer assim ... manipulação eleitoreira, coisa aliás, em que o PT é mestre em produzir.
