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Em uma campanha marcada pelo vazio de propostas e pelo tom elevado dos confrontos, notadamente na reta final da corrida ao Palácio do Planalto, os candidatos José Serra (PSDB) e Dilma Rousseff (PT) aproveitaram o último e mais esperado debate antes do segundo turno para tentar laçar o eleitorado indeciso, deixando os embates mais acalorados em segundo plano. Nitidamente orientados por suas equipes de campanha, diminuíram o tom dos ataques. Mas não aproveitaram a última – e preciosa – oportunidade. A constatação que fica é que nenhuma ideia nova surgiu durante a corrida eleitoral para combater os graves problemas na qualidade da saúde e da educação e a escalada da violência. Promovido pela TV Globo, o debate foi realizado nesta sexta-feira, no Rio de Janeiro.
A estratégia foi milimetricamente calculada. Os candidatos aproveitaram o formato do programa, em que 12 eleitores indecisos, entre 80 selecionados pelo Ibope, fizeram as vezes de entrevistadores, para tentar cativá-los. Capricharam. Circularam o tempo todo pelo estúdio, sempre gesticulando – até mesmo Dilma, que machucou o pé em plena campanha. O tom de voz de ambos foi bem mais manso e baixo do que o adotado em outros confrontos. O tucano e a petista evitaram trocar olhares. Procuraram fitar os eleitores na hora de responder aos questionamentos. E fizeram questão de elogiar as dúvidas deles. Cada questionamento era classificado como “muito importante” ou “excelente”.
Os movimentos precisos à caça dos indecisos puderam ser notados já no primeiro bloco. E perduraram até o fim do confronto. Até mesmo a comparação entre as eras Lula e FHC ganhou contornos mais suaves. As críticas foram mais comedidas. A temperatura morna predominou, chegando a fazer com que alguns presentes tachassem o debate de uma grande entrevista. As réplicas e tréplicas seriam a oportunidade para apimentar o confronto. Mas, diante do risco de parecerem ofensivos ou demasiadamente agressivos perante os eleitores, ninguém quis arriscar. Serra e Dilma adotaram tom cauteloso até para trocar estocadas.
O primeiro item da pauta foi o funcionalismo público. Saúde, educação, segurança pública, economia e saneamento básico, entre outros, também foram discutidos. Os temas foram pré-selecionados pela TV Globo. Assuntos polêmicos, que esquentaram embates anteriores, não foram mencionados – nada de aborto ou privatização.
As perguntas objetivas, como a de uma eleitora que relatou “quase ter levado um tiro em um assalto”, obrigaram os candidatos a ser mais específicos. Sem acusações ou referências diretas entre os rivais, réplicas e tréplicas funcionaram, na verdade, como uma forma de intercalar argumentos da petista e do tucano.
Coube a Serra um dos ataques mais fortes. Indagado sobre o que fazer para combater a corrupção, atacou. Defendeu o fortalecimento de órgãos de controle, como o Tribunal de Contas da União (TCU), a Controladoria Geral da União (CGU), o Ministério Público. O tucano também disse que a imprensa não tem que ser atacada. Uma clara referência à conduta do presidente Lula, embora o nome dele não tenha sido mencionado. “Quando o chefe do governo passa a mão na cabeça, é terrível para a sociedade. Evidentemente, todo mundo pode pecar. Mas uma boa escolha minimiza pecados que podem ser cometidos”, disse o candidato.
Meio ambiente – A defesa do meio ambiente, principal bandeira da candidata derrotada Marina Silva (PV-AC), que teve quase 20 milhões de votos no primeiro turno, também foi abordada. Dilma aproveitou para dizer que considera a Amazônia um “grande orgulho” e que pretende, se eleita, intensificar o combate ao desmatamento e ampliar as áreas de preservação “para chegar cada vez mais próximo da tolerância zero ao desmatamento, que considero um crime”.
Serra não fez por menos e defendeu as pesquisas sobre biodiversidade. “Temos que fortalecer a pesquisa nessa área. Fazer alianças com empresários para explorar a área, sem destruir a natureza.”
Política social – Dilma aproveitou uma pergunta sobre programas sociais para enaltecer o Bolsa-Família. E provocou Serra: “Quem cuida de jovem em São Paulo é o governo federal”, disparou. “É muito importante perceber que a questão social, para mim e para o meu futuro governo, é uma questão central. O que importa é a vida das pessoas”, prosseguiu.
Serra, por sua vez, destacou que os benefícios sociais não podem ser “vitalícios”. Reiterou que pretende fortalecer o Bolsa-Família, mas criar uma bolsa adicional para que o jovem possa fazer cursos profissionalizantes. “O que adianta se o jovem não tiver emprego? Tem que ter qualificação”, declarou.
“Política social é transferência de renda, mas não é só isso”, afirmou, para em seguida dizer que tem convicção de que “no futuro” vai ser possível resolver o problema da desigualdade no Brasil.
Dilma lamentou, em seus comentários finais, o que chamou de calúnias pela internet, folhetos apócrifos e até telefonemas com ataques. A candidata do PT encerrou suas considerações defendendo que o Brasil seja um país em que “todos os brasileiros tenham acesso aos bens materiais da civilização”. José Serra optou por pedir diretamente o voto do eleitor, encarando a câmera, e defendeu “uma aliança pelo futuro e pelo Brasil”.
(Mirella D’Elia e João Marcelo Erthal)