Comentando a Notícia
A reportagem a seguir da Veja online, toca num ponto, já em seu título, que tem sido muito comentando aqui no blog. E, no fundo, acaba revelando a falta de uma política industrial merecedora de tal título que venha criar um ambiente propício e favorável aos negócios no país.
Nem Lula, muito menos Dilma, chegaram ao poder trazendo debaixo do braço uma política deste tipo. Fosse assim, e a indústria brasileira não estaria vivendo o tormento da desindustrialização e desnacionalização deste 2006. O desequilíbrio cambial, provocado pelo excesso de juros e custos financeiros acabou acelerando este processo, com prejuízos tamanhos que, em apenas três anos, a indústria nacional já fechou mais de 1 milhão de postos de trabalho. Não só isso: nem o comércio tampouco serviços são capazes de por si, criarem inovação, desenvolverem novas tecnologias e darem um salto de qualidade na renda dos trabalhadores. É a indústria que carrega tais virtudes. E, no entanto, insistiu Lula durante 8 anos, e Dilma agora, já com metade do mandato cumprido, em criar incentivos visando apenas o consumo. Isto tem limites, já que tais atividades econômicas não elevam a renda dos trabalhadores. Aliás, são as que mantém as médias salariais em patamares mais baixos, o que impede que o próprio consumo tenha crescimento sustentável.
Assim, é importante que o assunto – política industrial – não apenas seja discutido, mas se torne uma prioridade a ser cobrada dos governantes. Sem isso, o Brasil continuará na rabeira do crescimento, sendo suplantado até por nações com potenciais bem mais inferiores do que os nossos. Não podemos mais perder oportunidades e ver a história passar frentes aos nossos olhos sem aproveitarmos para sermos protagonistas também, e não meros assistentes ou beneficiários em segundo grau.
Segue o texto. Voltaremos em seguida para comentar.
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Um em cada quatro empresas das indústrias da construção, extrativa e de transformação não conseguem ampliar ainda mais seu endividamento
(Germano Luders/EXAME)
Entre as indústrias que buscam crédito,
quase a metade reclama da falta de linhas adequadas
A Confederação Nacional da Indústria (CNI) divulgou nesta sexta-feira um estudo ("Sondagem Especial") que revela que 37% das empresas das indústrias da construção, extrativa e de transformação – ou uma em cada quatro – não possuem mais espaço para endividamento. Do total de companhias consultadas na pesquisa, 69% disseram ter dívidas, das quais 16% estariam acima do limite razoável, 37% dentro e 47% abaixo.
Em meio às endividadas, 53% disseram não ter mais como ampliar seu endividamento. Entre as indústrias que buscam crédito, quase a metade (47%) reclama da falta de linhas adequadas às suas necessidades. Apenas 18% das empresas afirmaram não possuir qualquer tipo de endividamento, enquanto 13% não respondeu ao questionário.
A informações que subsidiaram a elaboração desta nova "Sondagem Especial" da CNI foram coletadas entre 2 e 13 de julho deste ano, com consultas a 2 383 empresas (849 pequenas, 937 médias e 597 grandes). O trabalho foi realizado em parceria com a Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC).
Cenário –
A pesquisa apurou também o cenário sobre a obtenção de crédito no segundo trimestre de 2012. O principal entrave apontado pelos industriais foi a falta de linhas adequadas à necessidade da empresa (47%). Em segundo lugar ficou a exigência de garantias reais (44%). A terceira posição entre os problemas na contratação de empréstimos foi a exigência de documentos e renovação de cadastros (39%).
Considerando somente o segundo trimestre, 30% das empresas não realizaram empréstimos. Mas entre as que tiveram o crédito aprovado, 30% afirmam que esse valor foi menor do que a empresa precisava. Já 57% das companhias indicaram que os valores foram iguais aos que necessitavam. Para 13%, os valores concedidos foram maiores.
Capital próprio x bancário –
A pesquisa aponta que o capital próprio ainda é a maior fonte de financiamento das indústrias (69%). Em segundo lugar vêm os empréstimos bancários (56%) e, na sequência, o crédito de fornecedores e de clientes (35%). A captação externa de recursos é utilizada por somente 4% das companhias industriais. Fatia de 3% recorre ao mercado não bancário.
Em relação aos juros, os empresários industriais avaliaram se as taxas de juros estariam em julho menores, iguais ou maiores às de três meses antes. Não opinaram 30% das empresas sobre as taxas de longo prazo e 27% sobre as de curto prazo. Entre as que opinaram, a percepção aponta retração nas taxas de juros: 45% perceberam queda nas taxas dos financiamentos de longo prazo e 43% apontaram redução nas taxas dos empréstimos de curto prazo.
Em relação aos prazos dos empréstimos e financiamentos aprovados neste ano, em comparação aos de 2011, há um equilíbrio entre os que consideram os prazos mais longos e os que consideram mais curtos. Para 72% os prazos de 2012 são iguais aos do ano passado. Para 14% os prazos estão maiores, e para outros 14% os prazos estão menores.
Conjuntura –
O desempenho da indústria tem sido apontado como o principal obstáculo ao crescimento mais vigoroso da economia. A produção industrial caiu 1% em setembro sobre agosto, registrando o pior resultado em oito meses. O Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br) mostrou nesta semana que a economia acelerou no terceiro trimestre, mas o dado de setembro indicou que não há força nessa recuperação.
O ministro da Fazenda Guido Mantega afirmou recentemente que a economia cresceu cerca de 1% no terceiro trimestre ainda sem recuperação dos investimentos. Segundo ele, o ritmo atual da atividade indica recuperação.
(com Estadão Conteúdo e Reuters)
******COMENTANDO A NOTÍCIA:
Já há algum tempo que criticamos os governos petistas, os dois mandatos de Lula e esta primeira metade de Dilma, pela falta de uma política industrial. Ela simplesmente não existe. Política industrial digna do nome não pode se circunscrever a linhas de crédito via BNDES e algumas desonerações tapa-buraco, porque sempre provisórias, e nada além disto.
Uma das muitas pragas que asfixiam a indústria nacional, e não só a indústria, mas os empreendimentos em geral, é a maldita da burocracia. Exemplo clássico é o tempo para a abertura de uma empresa. Outra: o tempo que se leva para a obtenção de registro de uma patente no INPI.
Outra praga, talvez a mais dolorosa, seja a maldição da carga tributária e o cipoal de normas, decretos, regulamentos, portarias e leis que existem e se modificam ao sabor do burocrata de plantão.Para piorar, muitos destes impostos são pagos antecipadamente. E é aqui que os governos petistas deveriam ter investido esforço e tempo para dar ao país uma carga tributária decente e simples.
Já provamos que todo o capital de giro das empresas, ou seja, o montante de recursos necessários para manter sua atividade diária, é transferido para o poder público. Com isso, o empresário para sobreviver é atirado às feras do mercado financeiro e vai ficar neste redemoinho enquanto sua capacidade de endividamento não se esgotar. Neste capítulo, grande parte das empresas que naufragam e quebram, encontram suas causas.
Assim, para que as empresas possam investir em aumentos de produtividade com capacitação de pessoal, investimentos em máquinas mais modernas, em novas tecnologias de produção e inovação, os recursos são escassos. Claro que linhas de financiamento deveriam ser alocadas para este item, porém, acabam sendo direcionadas para o giro empresarial, o que compromete sua rentabilidade e até sua sobrevivência.
Em todos os casos acima, já se vê, apenas o governo federal poderia dar direção firme à indústria. Contudo, como sabemos, isto não acontece. Nem o governo abre mão da pesada carga tributária que impõe, nem alivia os caminhos do inferno chamado burocracia. Ora, um governo, como o de Dilma por exemplo, tendo uma ampla e sólida base parlamentar a lhe dar sustentação, poderia dedicar boa parte de seu esforço para remover estes obstáculos. Poderia se tivesse uma política industrial definida e bem planejada. Porém, estando com metade de seu primeiro mandato cumprido, continua insistindo em “abrir linhas de crédito especiais”, além de algumas desonerações inúteis do tipo tapa buraco como afirmamos acima, achando que isto é política industrial e terá o dom de remover obstáculos – TODOS CRIADOS PELO PODER PÚBLICO – e abrir caminhos para a indústria ganhar consistência, recuperar velhos mercados e conquistar novos, por ver recuperada sua capacidade de competir em igualdade de condições.
E poderíamos, para fechar o comentário, acrescentar outro elemento indispensável para qualquer política industrial digna de assim ser chamada e reconhecida, que é a infraestrutura. Ora, é sabida a incapacidade do Estado para suprir os montantes de investimentos necessários para reequipar e modernizar nossa infraestrutura em portos, aeroportos, rodovias, ferrovias, produção, geração e transmissão de energia elétrica. Já nem vamos tratar aqui desta incapacidade ser absolutamente injustificável, dado o volume de recursos que anualmente a sociedade despeja nos cofres do Tesouro Nacional. Mas não se encontra nenhuma razão minimamente aceitável para esta má vontade do governo federal em relação aos investidores privados. Meses vão se arrastando na interminável discussão de marcos regulatórios destinados a meia dúzia de concessões na área de infraestrutura. A teimosia da soberana em querer garantir o intervencionismo estatal até naquilo que é absolutamente irrelevante, é impressionante e tem o dom de afastar os investidores.
Se o capital é privado, e há uma pilha enorme de resoluções a balizar as ações das concessionárias, a troco do quê insiste o governo em querer entrar no negócio com sócio ou acionista? Caramba, a estrada, por exemplo, é um bem público. Seja ela administrada por um ente privado ou mesmo público, a estrada continuará sendo um bem público. Qualquer concessão exige investimentos em ampliação, modernização e manutenção. Como manter a qualidade do serviço se o Estado insiste em querer para si parte dos ganhos? Para isso é que existem leilões, em que os candidatos oferecem um pagamento pelo direito de exploração do serviço ao longo de um determinado período de tempo. E acabou. Por que, insiste o governo Dilma em querer continuar sócio, em continuar mordendo, em repartir lucros sobre o trabalho alheio? É ganância demais, autoritarismo bucéfalo que somente impede o serviço de ser melhorado e mantido com um alto nível de qualidade.
Claro que, por conta de todas estas questões, há um viés ideológico imbecil que provoca apenas retrocessos. Ou o governo Dilma se livra desta maldição, deste vírus letal, ou continuará medíocre como tem sido até aqui. E para encerrar: governantes são passageiros, vão e vêm, o que permanece são as instituições e os benefícios que estes governantes são capazes de garantir em favor de todos, e não apenas de meia dúzia de submissos agarrados ao poder.
Que Dilma Rousseff governe o Brasil para os brasileiros, e não apenas para garantir as tetas do Tesouro para elite estatal e política, podre e degradada.




