segunda-feira, outubro 18, 2010

A decisão infeliz do juiz Henrique Neves

Adelson Elias Vasconcellos

Inicialmente, é de lamentar o texto tendencioso da Folha de São Paulo, nas duas notícias sobre o caso. Depois, quando este governo decretar a censura à liberdade de imprensa, não queiram reclamar: eles próprios estão dando curso para os inimigos da democracia e da liberdade de imprensa, sob a tutela de parte do Judiciário.

Agora, reparem que o vídeo feito pelo PT, leva o sugestivo e cordial título de “Blitz na gráfica do capeta”. A ação lembra, sim, gostem ou não, as mesmas atitudes truculentas da SA nazista.

Quanto a gráfica, o que lá se imprimia? Um manifesto. Do que se tratava o manifesto? De uma orientação aos fiéis CATÓLICOS para que não votassem em candidatos favoráveis à descriminalização do aborto, que, gostem ou não, é um dos postulados da Igreja ... Católica. Vejam post mais abaixo, o manifesto está publicado na íntegra.

O manifesto pediu para votar ou não votar em alguém em especial, dando nome a este ou aquele candidato? Não, ele é totalmente impessoal. Ora, se tratava de um pedido de impressão devidamente registrado, com origem legal, não era apócrifo pois está assinado, e conforme se depreende de seu texto, tratava-se apenas, e tão somente, de uma orientação religiosa. Onde, então, está ou se configura o crime eleitoral?

Pois bem, a pedido do PT, o juiz eleitoral Henrique Neves determinou que a Polícia Federal apreendesse o material impresso. E deixo o espaço do blog inteiramente livre para quem quiser provar por mais A + B, onde, em que momento, o teor do manifesto se constitui em crime eleitoral, além de deixar claro qual artigo da legislação eleitoral foi violado.

Edir Macedo, autointitulado bispo da Igreja Universal Do Reino de Deus, tem correndo solto na internet, um vídeo em que ele próprio se declara favorável à candidatura Dilma, e em um outro, onde se manifesta favorável ao aborto. Ou seja, no vídeo em que faz “propaganda” para a Dilma, o bispo dá nome e sobrenome de um dos candidatos. É propaganda eleitoral explícita. Em outro vídeo (clique aqui), devotos da mesma Igreja, aparecem à porta de um dos seus templos, distribuindo panfletos e pedindo votos para o senador Marcelo Crivella. Temos aí, campanha eleitoral aberta ou não senhor juiz Henrique Neves? E a propósito: o material foi impresso na gráfica da Universal, de que Crivella também é bispo.

Pergunto: e isto pode, senhor juiz Henrique Neves? Mesmo sabendo que Edir Macedo é dono de um canal de rádio e televisão, que são concessões públicas? Dona Dilma, sem base alguma, sem prova alguma, sem um único e miserável documento probatório vai à televisão, em seu programa de campanha e mente que o PSDB quer privatizar o pré-sal, cujo marco regulatório tem um de seus capítulos ainda em discussão no Congresso Nacional, e isto pode, senhor juiz Henrique Neves? Mentir em horário eleitoral tá liberado, orientação religiosa não?

Avancemos um pouco. A Constituição brasileira é a lei maior do país. Todas as demais leis, decretos e regulamentos a ela se subordinam, inclusive a eleitoral. Sendo assim, sabemos que os Incisos IV e VI do Artigo 5º da Constituição, estabelecem:

IV - é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato;

VI - é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias;

Inadmissível, e isto está ficando cada vez mais visível, é a tentativa de que se querer que a Igreja Católica mude suas convicções só para agradar quem a contraria. Já no caso de muitas seitas evangélicas,o sujeito subir no palco para esconjurar o demônio que só ele vê, isto ninguém recrimina. O islamismo obriga as mulheres a serem escravas, vestirem burca, dentre outras coisas, e também se leva a conta de ser a crença deles e a qual todos devem respeitar. Então, por que somente a Igreja Católica é que deve ceder em seus postulados? Não concordo com muita coisa do que o catolicismo prega, e sem deixar de ser cristão, adoto como religião outra crença. Mas, neste caso, me parece ficar evidenciado um flagrante clima de intolerância religiosa para com os católicos. Se eles condenam o aborto – e neste ponto mantenho a mesma opinião de ser contrário à liberalização indiscriminada – quem tem autoridade para contrariá-los e impedir que exerçam sua crença livremente? Quem? Um partido político que resolveu persegui-los por não acatarem sua falta de princípios e valores cristãos? Por muito mais forte razão, o senador Marcelo Crivella deveria ser punido, assim como sua igreja e o bispo Edir Macedo. Ou será que discordar do que prega o partido do governo, senhor juiz Henrique Neve, agora tornou-se crime? Ou será que manifestar-se em favor de um princípio de consciência individual, merece ser acolhido pela Justiça Eleitoral como crime hediondo? Sua decisão, se me permite, representa estabelecer um retrocesso medieval, de completa intolerância religiosa. E o que é pior: afronta um dos mais sagrados direitos do cidadão que é o da livre manifestação do pensamento, ferindo frontalmente um dispositivo constitucional.

E que fique claro de uma vez por todas: nem Serra, tampouco seu partido, tem algo a ver com a discussão em torno do aborto. Este tema nasceu dentro da sociedade, de parte de uma de suas entidades representativas que é a Igreja Católica, e que, desde o final de 2009, pelo menos, já vem de olho assustado para com o governo Lula que tentou, ao apagar das luzes do ano, em plena comemoração do Natal – que ironia! – incluir no Programa Nacional de Direitos Humanos - o famigerado PNDH-3 -, a legalização indiscriminada do aborto. Pressionado nesta e em outras questões, fez um recuo, mas sem perder a pose. No programa do PT, página 82, a proposta é clara e não deixa margem para dúvidas. Por isso, esta parcela da sociedade, que é católica essencialmente, mas também conta com a simpatia e apoio de outras seitas evangélicas, se mobilizou e buscou nas suas lideranças, a orientação aos fiéis para que evitassem votar em quem fosse favorável ao aborto, afora as duas exceções que a lei já prevê.

Mais: quem deu declarações em duas oportunidades recentes sobre a necessidade de descriminalizar o aborto foi dona Dilma. Isto não é central de boatos coisíssima nenhuma como se tenta vender para a sociedade. Está registrado e gravado. Sentindo-se acuada, tentou voltar atrás do que dissera, mas já era tarde: aplicou em si mesma o rótulo de mentirosa.

Não se trata de “politizar” o tema do aborto, o tema é político e quem o levantou para a discussão entre os dois candidatos, foi a sociedade. Então, respeite-se a vontade do eleitor que quer ver e saber a posição clara dos candidatos sobre este assunto. Não estamos escolhendo um mero síndico para o prédio em que moramos. Estamos escolhendo o presidente desta república, autoridade política máxima e que terá quatro anos de mandato para exercer seu poder previsto em lei. E ponto final. Inadmissível é tentar enrolar e tentar ludibriar a opinião pública com a fanfarra de que, o ela que disse não foi o que ela disse!

Os comentaristas políticos podem não gostar – ainda bem que nem todos pensam da mesma maneira. Gostariam de ver discussão em torno de outros temas, aqueles assuntos que dizem respeito a eles próprios, mas quem decide é o eleitorado, é dele, portanto, a agenda, e não dos comentaristas que devem, como em qualquer regime democrático, aceitarem a vontade soberana do povo, mesmo que não concordem com ela.

É impressionante a que ponto o Brasil está sendo levado por uma corja de mentecaptos que não se conforma em ver que a opinião de parte da sociedade não lhes faz a corte. É trágico para um país que se deseja livre, soberano e democrático assistir que parte do Poder Judiciário, tão bem remunerado em gordos e nababescos privilégios e instalados em palacetes de alto luxo em contraste e às custas da miséria social do restante do país, dar guarida e ouvidos para grupelhos de bandoleiros e anarquistas que se sentem “amuados” por quem não se submete a seus desmandos e ideologias retrógradas.

Ontem, aqui, adverti para a falta de critério do TSE em seus posicionamentos. A parcialidade com que decide ser negligente e indulgente para com o partido no Poder, em detrimento e desfavor de, pelo menos, metade da sociedade que se lhes opõem. Ou será que agora, por decisão judicial exclusiva de alguns feitores, ninguém mais poderá discordar do poder instalado neste país? Parece-me, e desculpem-me se estiver enganado, que este regime totalitário chegou ao fim em 1985, e foi consagrado pela Constituição de 1988, a qual todos se submetem, inclusive o Poder Judiciário em todos os seus níveis, estando ali expresso, o regime de liberdade de manifestação e de crença religiosa e política.

Creio que a decisão do juiz Henrique Neves não apenas enxovalha as instituições do Brasil: sobretudo, além da agressão a direitos e garantias individuais previstos na constituição do país, a decisão abre uma perigosa avenida por onde se escoarão a perseguição e intolerâncias religiosas, criam uma cisão no seio da sociedade, desagregando o país como um todo, dada a insegurança jurídica que se estabelece, como ainda, impõem um retrocesso institucional de perigosas consequências. É isso o que o juiz Henrique Neves tem por senso de justiça? Francamente!!! 

Deste modo, antes de pensar em agradar “partidos políticos” dos amigos no poder, que o senhor juiz reveja sua decisão infeliz em nome da legalidade e da boa e pacífica convivência democrática da sociedade brasileira. Precisamos sair da escuridão do atraso e do autoritarismo para as luzes da democracia, ou será, senhor juiz Henrique Neves, que isto é pedir muito?


O PT já tem sua “SA”

Adelson Elias Vasconcellos

Na Alemanha nazista, Sturmabteilung abreviado para SA (em alemão "Se(c)ção Tempestade","Destacamento Tempestade" ou "Se(c)ção de Assalto") usualmente traduzida como "Tropas de Assalto", foi a milícia paramilitar durante o período em que o Nacional Socialismo exercia o poder. Seu líder era Ernst Röhm, capitão do exército e notório por seu senso de organização e sua capacidade de comando. Os membros das Sturmabteilungen também eram conhecidos como "camisas pardas", pela cor de seu uniforme (a cor parda provinha de fardamentos destinados a tropas alemãs que serviram na Tanzânia durante a Primeira Guerra Mundial, e que nunca chegaram a ser entregues; após a guerra, foram adquiridas a preços módicos pelos nazistas, para vestir suas milícias).

A Sturmabteilung constituíram, em certo momento, uma das instituições mais ativas da vida pública da Alemanha, e um dos esteios do poder político de Adolf Hitler. Deve-se ressaltar que elas não funcionavam como um exército ou uma tropa organizada, sendo sua atividade muito mais a de baderneiros do que a de um exército. O próprio Hitler via a SA como uma tropa de pressão política, mas não como núcleo do "futuro exército do Reich" como desejava seu líder, Röhm. No momento em que deixaram de ser interessantes, constituindo algo não só fora de seu controle, mas abertamente contra determinadas ideias de Hitler, foram eliminadas. Também as intrigas nascidas da conduta homossexual de Röhm acabaram por derrubá-lo, no episódio conhecido como Noite das Facas Longas. A partir daí, as SS, sempre contrapostas às Sturmabteilungen, ocuparam o espaço de polícia política outrora destinado às SA.

Em 1930, para centralizar a lealdade da SA, Adolf Hitler assumiu pessoalmente o comando de toda a organização e manteve a Oberste SA-Führer a partir do período de existência do grupo até 1945. O dia-a-dia das SA foi realizada pelo Chefe de Gabinete SA, conhecida como a Stabschef. Depois de 1931, foi o Stabschef que era geralmente aceita como o comandante da SA, agindo em nome de Hitler.



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Nesta semana, em reuniões do comitê de campanha e nos discursos em São Paulo, Minas, Piauí e Pará, Lula convocou a militância petista para, nesta reta final fazer a diferença. Espero que, a exemplo de como agiam as SA nazistas, a militância petista não tenha enveredado para o caminho da truculência e baderna. Duas foram as situações em um mesmo dia para que a gente fique desconfiado: uma no Ceará, onde a militância foi para a porta da igreja em que Serra assistia a uma missa para provocar e gerar tumulto. A outra, conforme vimos acima, foi a ação de truculência e constrangimento com uma gráfica em Cambuci, São Paulo, contratada pela Diocese de Guarulhos para imprimir um manifesto de orientação aos católicos.

Segue a narrativa da ação publicada no blog do jornalista Reinaldo Azevedo com o vídeo a que ele se refere. Retorno no próximo post:

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Abaixo há um vídeo feito pelo próprio PT, como indica a estrela calcada no canto superior direito. Jornalistas e petistas — em muitos casos, são as mesmas pessoas — deram ontem uma “blitz” (!?) na gráfica Pana, em Cambuci, na região central de São Paulo, e trataram como crime o que crime não é, num caso evidente de constrangimento ilegal. Vamos começar do começo.

A Comissão de Defesa da Vida, um grupo formado por bispos e padres, redigiu um documento intitulado “Apelo a Todos os Brasileiros”. O texto recomenda que os católicos não votem em candidatos comprometidos com a defesa da descriminação do aborto. Por amor aos fatos, lembra qual tem sido a atuação do PT e do governo nesse assunto. Pela ordem: a) ao pregar que católicos não votem em políticos pró-aborto, a mensagem nada mais faz do que se adequar à orientação oficial da Igreja; b) ao lembrar a militância do PT e do governo, faz apenas um pouco de história. O documento recebeu o apoio do Regional Sul I da CNBB, o que deixou o governo zangado. E começou, então, o trabalho de satanização dos religiosos, especialmente de d. Luiz Gonzaga Bergonzini, bispo da Diocese de Guarulhos (ver post desta manhã).

Atenção: Edir Macedo, dono da Igreja Universal do Reino de Deus e concessionário de um serviço público, já que é dono da Rede Record de rádio e TV, declarou apoio aberto a Dilma Rousseff. Ninguém quis saber se ele ou sua empresa mantém relações especiais com o governo. A declaração de voto foi considerada muito natural. Já setores da Igreja Católica não podem nem mesmo se manifestar contra o aborto — porque isso, pode prejudicar Dilma… Edir Macedo pode apoiar a petista, mas um grupo de bispos não pode “desapoiá-la” — dado que os religiosos nem mesmo pedem voto em Serra.

Voltemos ao vídeo

A Diocese de Guarulhos encomendou a impressão do “Apelo a Todos os Brasileiros” à gráfica Pana. O PT armou uma verdadeira blitz ilegal à porta da empresa para tentar saber quem encomendou o panfleto. Ao assistir o vídeo, vocês constatarão o enorme esforço de petistas e jornalistas para tratar como ILEGAL o que é absolutamente LEGAL. Paulo Ogawa, contador da empresa, exibe o pedido, tudo devidamente documentado. Não bastou. Prestem atenção ao comportamento daquele barbudo aos 4min51s: ele quer entrar na empresa. Ainda que fosse um policial, teria de ter mandado judicial para isso. Como sua entrada é vedada, acusa a vítima de estar colaborando com um crime — quando criminosos, ali, são todos os que praticam constrangimento ilegal. Ao berros, ele diz: “Já chamou a Polícia? Nós vamos todo mundo pra delegacia; o senhor vai junto”. No grupo, há alguém que se identifica como deputado. É um senhor ali que exagerou na tinta do cabelo. Não sei quem é.

É pouco? Ainda é, acreditem.

Uma moça, cujo rosto não aparece, disfarçada de jornalista — já que carrega um bloco e faz anotações — pergunta se o gráfico imprimiria panfletos apócrifos do PCC. Esta senhora compara um pedido feito por bispos católicos, que têm nome e sobrenome, com uma facção do crime organizado.

Esse clima de criminalização do que não é crime foi parar nos grandes portais. Afinal, os “jornalistas” se deixaram contaminar pela justiça feita com as próprias mãos… do PT!

Estamos na Alemanha do início dos anos 30. A Sturmabteilung, a tropa de assalto conhecida por “SA”, está nas ruas. Vejam o vídeo e fiquem enojados.



PF apreende panfletos anti-Dilma encomendados por diocese de Guarulhos

Folha de São Paulo

A Polícia Federal apreendeu neste domingo cerca de 1 milhão de panfletos assinados por um braço da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) recomendando voto contra a presidenciável Dilma Rousseff (PT) por conta da questão do aborto.

A apreensão em uma gráfica no bairro do Cambuci, região sudeste da capital paulista, foi determinada pelo ministro do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) Henrique Neves a pedido do PT. O processo corre em segredo de justiça.

Os panfletos foram encomendados pela Mitra Diocesana de Guarulhos. Kelmon Luís Souza, católico ortodoxo, disse ontem que encomendou, desde setembro, 20 milhões de panfletos em gráficas de São Paulo a pedido da diocese.

Parte dos panfletos, que reproduz um "apelo a brasileiros e brasileiras" para que os eleitores não votem em quem é a favor da descriminalização do aborto, é assinado pela Regional Sul I da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), responsável pelo Estado de SP.

Os papéis foram distribuídos no dia 12 de outubro, em missas em Aparecida (SP) e Contagem (MG). Em julho, o bispo de Guarulhos, d. Luiz Gonzaga Bergonzini, foi pivô de uma polêmica mobilização contra a petista.

A gráfica com 1 milhão de panfletos foi descoberta ontem pelo PT de São Paulo. De acordo com o contador da gráfica Paulo Ogawa, foram encomendados 2,1 milhões de panfletos nos dois turnos das eleições.

A PF informou que foi feito um relatório sobre a apreensão, que será enviado ao ministro.

Regional Sul I
Em nota, os bispos do Regional Sul I afirmaram que não patrocinam a impressão de panfletos contra e a favor de candidatos.

Os bispos afirmam que não indicam ou vetam candidaturas.

Segundo a nota, assinada pelo presidente da regional, d. Nelson Westrupp, a entidade "recomenda, enfim, a análise serena e objetiva das propostas de partidos e candidatos, para que as eleições consolidem o processo democrático, o pleno respeito aos direitos humanos, a justiça social, a solidariedade e a paz entre todos os brasileiros."

Gráfica recebe encomenda de bispo para imprimir 2,1 mi de panfletos anti-Dilma

Breno Costa, Folha de São Paulo

Uma gráfica no bairro do Cambuci, região sudeste da capital paulista, estava imprimindo, na manhã deste sábado, panfletos com um texto de um braço da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) contra o PT e a presidenciável Dilma Rousseff.

Segundo o contador da gráfica, Paulo Ogawa, a encomenda foi feita pela Diocese de Guarulhos (SP). Em julho, o bispo da cidade, d. Luiz Gonzaga Bergonzini, foi pivô de uma polêmica mobilização contra a petista.

Os papéis são idênticos aos distribuídos em Aparecida (SP) e Contagem (MG) no feriado do último dia 12, durante missas em homenagem ao Dia de Nossa Senhora Aparecida. Eles fazem um "apelo" para que os eleitores não votem em quem é a favor da descriminalização do aborto.

Ogawa, que é pai do dono da Pana Editora e Gráfica, afirma que um assessor do bispo, chamado Kelmon, encomendou a impressão de 2,1 milhões de panfletos --1 milhão no primeiro turno e 1,1 milhão no segundo.

De acordo com o contador, o assessor queria imprimir 20 milhões de panfletos. No entanto, a gráfica não aceitou a encomenda por falta de capacidade.

A gráfica foi descoberta pelo diretório estadual do PT. O deputado estadual Adriano Diogo (PT) afirmou já ter entrado em contato com a direção nacional da campanha de Dilma. Segundo o presidente do PT paulista, Edinho Silva, os advogados da campanha irão à Justiça Eleitoral para impedir a continuidade da impressão.

A reportagem ainda não conseguiu entrar em contato com representante da Diocese de Guarulhos.

PANFLETO
O panfleto é assinado pelos bispos da Regional Sul I da CNBB, responsável pelo Estado de SP. No entanto, isso não significa, necessariamente, que os panfletos tenham sido impressos a pedido da igreja.

A regional é presidida pelo bispo de Santo André (SP), dom Nelson Westrupp. O conteúdo do panfleto também está publicado no site da regional da CNBB.

A posição dos candidatos a presidente em relação ao aborto virou um dos temas principais da campanha, pautando debates entre Dilma e José Serra (PSDB) e os programas de TV dos candidatos.

O panfleto, datado de 26 de agosto, diz que Lula e Dilma assinaram o 3º Plano Nacional de Direitos Humanos, "no qual se reafirmou a descriminalização do aborto".

A defesa da legalização é chamada de "política antinatalista de controle populacional, desumana, antissocial e contrária ao verdadeiro progresso do país".

O texto afirma ainda que, no mesmo congresso em que deu "apoio incondicional" ao plano, o PT aclamou Dilma como candidata.

Ao fim, o panfleto recomenda que os brasileiros "deem seu voto somente a candidatos ou candidatas e partidos contrários à descriminalização do aborto".

A CNBB divulgou uma nota oficial, em 16 de setembro, quando os primeiros panfletos foram distribuídos, afirmando que somente sua Assembleia Geral pode falar em nome da entidade.

No último dia 8, a nota foi reiterada, em que "desautoriza qualquer decisão contrária à da Assembleia Geral, que não vetou candidatos ou partidos".

O manifesto apreendido pela PF depois da pressão do PT

Republico íntegra do manifesto em defesa da vida que foi apreendido ontem pela PF, depois de uma blitz do PT. Seguirão alguns posts de informação sobre o ocorrido. Comentarei na sequência.

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MANIFESTO EM DEFESA DA VIDA

A Presidência e a Comissão Representativa dos Bispos do Regional Sul 1 da CNBB, em sua Reunião ordinária, tendo já dado orientações e critérios claros para “VOTAR BEM”, acolhem e recomendam a ampla difusão do “APELO A TODOS OS BRASILEIROS E BRASILEIRAS” elaborado pela Comissão em Defesa da Vida do Regional Sul 1 que pode ser encontrado no seguinte endereço eletrônico http://www.cnbbsul1.org.br/

São Paulo, 26 de Agosto de 2010.

Dom Nelson Westrupp, scj
Presidente do CONSER-SUL 1

Dom Benedito Beni dos Santos
Vice-presidente do CONSER-SUL 1

Dom Airton José dos Santos
Secretário Geral do CONSER SUL 1

APELO A TODOS OS BRASILEIROS E BRASILEIRAS

Nós, participantes do 2º Encontro das Comissões Diocesanas em Defesa da Vida (CDDVs), organizado pela Comissão em Defesa da Vida do Regional Sul 1 da CNBB e realizado em S. André no dia 03 de julho de 2010,

- considerando que, em abril de 2005, no IIº Relatório do Brasil sobre o Tratado de Direitos Civis e Políticos, apresentado ao Comitê de Direitos Humanos da ONU (nº 45) o atual governo comprometeu-se a legalizar o aborto,

- considerando que, em agosto de 2005, o atual governo entregou ao Comitê da ONU para a Eliminação de todas as Formas de Descriminalização contra a Mulher (CEDAW) documento no qual reconhece o aborto como Direito Humano da Mulher,

- considerando que, em setembro de 2005, através da Secretaria Especial de Política das Mulheres, o atual governo apresentou ao Congresso um substitutivo do PL 1135/91, como resultado do trabalho da Comissão Tripartite, no qual é proposta a descriminalização do aborto até o nono mês de gravidez e por qualquer motivo, pois com a eliminação de todos os artigos do Código Penal, que o criminalizam, o aborto, em todos os casos, deixaria de ser crime,

- considerando que, em setembro de 2006, no plano de governo do 2º mandato do atual Presidente, ele reafirma, embora com linguagem velada, o compromisso de legalizar o aborto,

- considerando que, em setembro de 2007, no seu IIIº Congreso, o PT assumiu a descriminalização do aborto e o atendimento de todos os casos no serviço público como programa de partido, sendo o primeiro partido no Brasil a assumir este programa,

- considerando que, em setembro de 2009, o PT puniu os dois deputados Luiz Bassuma e Henrique Afonso por serem contrários à legalização do aborto,

- considerando como, com todas estas decisões a favor do aborto, o PT e o atual governo tornaram-se ativos colaboradores do Imperialismo Demográfico que está sendo imposto em nível mundial por Fundações Internacionais, as quais, sob o falacioso pretexto da defesa dos direitos reprodutivos e sexuais da mulher, e usando o falso rótulo de “aborto - problema de saúde pública”, estão implantando o controle demográfico mundial como moderna estratégia do capitalismo internacional,

- considerando que, em fevereiro de 2010, o IVº Congresso Nacional do PT manifestou apoio incondicional ao 3º Plano Nacional de Direitos Humanos (PNDH3), decreto nª 7.037/09 de 21 de dezembro de 2009, assinado pelo atual Presidente e pela ministra da Casa Civil, no qual se reafirmou a descriminalização do aborto, dando assim continuidade e levando às últimas consequências esta política antinatalista de controle populacional, desumana, antisocial e contrária ao verdadeiro progresso do nosso País,

- considerando que este mesmo Congresso aclamou a própria ministra da Casa Civil como candidata oficial do Partido dos Trabalhadores para a Presidência da República,

- considerando enfim que, em junho de 2010, para impedir a investigação das origens do financiamento por parte de organizações internacionais para a legalização e a promoção do aborto no Brasil, o PT e as lideranças partidárias da base aliada boicotaram a criação da CPI do aborto que investigaria o assunto,

RECOMENDAMOS encarecidamente a todos os cidadãos e cidadãs brasileiros e brasileiras, em consonância com o art. 5º da Constituição Federal, que defende a inviolabilidade da vida humana e, conforme o Pacto de S. José da Costa Rica, desde a concepção, independentemente de sua convicções ideológicas ou religiosas, que, nas próximas eleições, deem seu voto somente a candidatos ou candidatas e partidos contrários à descriminalizacão do aborto.

Convidamos, outrossim, a todos para lerem o documento “Votar Bem” aprovado pela 73ª Assembléia dos Bispos do Regional Sul 1 da CNBB, reunidos em Aparecida no dia 29 de junho de 2010 e verificarem as provas do que acima foi exposto no texto “A Contextualização da Defesa da Vida no Brasil” (http://www.cnbbsul1.org.br/arquivos/defesavidabrasil.pdf), elaborado pelas Comissões em Defesa da Vida das Dioceses de Guarulhos e Taubaté, ligadas à Comissão em Defesa da Vida do Regional Sul 1 da CNBB, ambos disponíveis no site desse mesmo Regional.

COMISSÃO EM DEFESA DA VIDA DO REGIONAL SUL 1 DA CNBB

Afinal, a eleição é para presidente do Brasil ou governo de São Paulo?

Comentando a Notícia

E, aí, meu amigo o que você achou do debate? Gostou ou não? Fora uma que outra promessa, os grandes temas mais uma vez ficaram de fora.

E quais são estes temas? O câmbio, por exemplo. Como é que cada um, se eleito, vai tratar desta questão, cujos prejuízos à economia brasileira são visíveis? E sobre a agropecuária, como cada um vai compatibilizar a excelente capacidade nacional na produção de alimentos com a proteção ao meio ambiente? E na saúde pública, quando o brasileiro conseguirá ter atendimento de urgência decente sem precisar recorrer a um mandado judicial?

E quanto a infraestrutura: como se resolverá o sufoco atual? Reforma da previdência? Reforma tributária? Reforma política?

Nada disso se ouve falar, a não ser um rol de boa intenções.

Ora, quem está no poder há oito anos, já deveria ter um projeto para o Brasil com vistas aos próximos 5 a 10 anos à frente. E não se pode apenas apostar tudo no pré-sal por ser uma riqueza sobre a qual precisaremos ainda desenvolver tecnologia para a sua extração eem condições de viabilidade econômica.

Assim, quem poderia apresentar algo concreto por estar convivendo com a realidade da arrecadação e projetos em andamento seria a dona Dilma, não é mesmo? E o que a candidata do Lula nos diz ou apresenta? Vem bater na mesma tecla surrada das privatizações. Convenhamos, já encheu o saco este tema. Se o governo Lula era e é tão contra, por que não reverteu? Por que não reestatizou tudo? Além de manter tudo como estava, deu prosseguimento ao Programa Nacional de Desestatização, e ainda avançou nas concessões do sistema elétrico e rodovias – aliás, neste quesito, péssimo negócio para o país as mudanças introduzidas pelo governo Lula.

Portanto, não revertendo o que foi feito está sinalizando que seu discurso é eleitoreiro e demagógico, porque, sabe no fundo, que ao brasileiro o que interessa é a qualidade do serviço que recebe e se o que paga por este serviço está dentro do razoável. Na propaganda na tevê, Dilma tem a cara de pau de falar da Telebrás! Convenhamos, isto não se trata de ideologia política, e sim de má fé explícita.

Agora o que não dá para entender nas posições da dona Dilma, principalmente no debate de ontem na RedeTV, são seus questionamentos quanto a administração tucana no estado de São Paulo. Se a administração fosse tão desastrada assim, pode a dona Dilma me explicar por que o povo paulista mantém os tucanos no governo estadual já para vinte anos de mandato? Apenas isto já põe por terra tudo o que a candidata tentou desqualificar em seu adversário.

E é bom que se diga que São Paulo não é um estado povoado por indígenas desinformados, e seu povo, por sua formação intelectual, cultural e grau de informação qualificada, tem discernimento suficiente para avaliar o que lhe serve ou não. Se é bom e mantém, é porque as administrações tucanas tem dado o retorno que os paulistas esperam. Além disto, e conforme mostramos aqui ontem, dentre as quinze melhores cidades país para se viver no país, 14 estão localizadas em São Paulo. Quer falar de educação e segurança? Então vamos aos números – OFICIAIS. Nas provas do IDEB, os resultados são os seguintes: No ensino médio - 3º lugar; - Nas séries iniciais do ensino fundamental: 2º lugar.- Nas séries finais do ensino fundamental : 1º lugar. Segurança? Enquanto a média nacional é de 26 homicídios por 100 mil habitantes, em São Paulo é de 10.

O partido de Lula administra cinco estados: Acre, Piauí, Pará, Bahia e Sergipe. Só um, o Acre, atingiu a meta na área da educação. Na segurança, estão anos de luz de distância dos índices alcançados por São Paulo. Estou defendendo São Paulo? Não, estou defendendo a verdade, apenas isto.

Durante o debate, a Agência Brasil, estatal, teve o desplante de liberar a seguinte notícia: "Privatizações não foram suficientes para pagar juros e dívidas". Isto é que se pode chamar de picaretagem! Mas quem fez a dívida, foi FHC, por acaso? Ou a moratória decretada pelo Sarney foi sobre dívida futura? Além disto, o saneamento financeiro tanto dos estados quanto da União foi feito com o quê, com brisa? Como não havia dinheiro, o recurso foi colocar o rombo na dívida pública, escalonar seu pagamento no devido tempo, para que tanto os Estados quanto a União fossem amortizando estes débitos. Ou seja, no devido tempo, o retorno das medidas então adotadas se consumariam.

Dilma afirmou ainda que o Brasil foi o primeiro a entrar e o último a sair da crise financeira de 2007. Muito bem: graças a que mesmo? De um lado, foi o PROER quem regulou e fortaleceu o sistema bancário brasileiro, dando solidez ao sistema. De outro, o país já tinha a lei de responsabilidade fiscal que impedia que os governantes gastassem sem freio algum. E, claro, já tínhamos adquirido um colchão de segurança chamado reservas internacionais graças, de um lado, ao desenvolvimento excepcional da economia internacional que passou a consumir produtos nos quais o Brasil é excelente produtor, o agronegócio principalmente, demonizado às últimas pelos petistas e MST. De outro, graças ao saneamento e modernização do Estado feito a partir da chegada de FHC à presidência da República.

A menos que me engane, acho que dona Dilma errou a receita de seu bolo. Ela não disputa o governo paulista, até porque o tucano Geraldo Alckmin ganhou o pleito, em primeiro turno, contra Mercadante e todo o terrorismo praticado pelo PT e o governo federal comandado por Lula.

Deveria, por exemplo , ter explicado ao país não apenas o caso Erenice que, ontem, ela admitiu que a “companheira” e amiga errou, quando há cerca de um mês atrás afirmou que as acusações não passavam de factoide. Como deveria ter explicado melhor os casos do Cardeal que aplicou um calote de cerca de 500 milhões de reais, da tupamara que aplicou um golpe de 5 milhões de reais e do deputado que foi extorquido em 100 mil reais por assessor lotado na Casa Civil. Todos estes casos é sempre bom que se diga, ao tempo em que a companheira Dilma era a ministra chefe. Será que com tal currículo, a senhora Dilma Rousseff está qualificada a presidir o país? Quantos casos que ainda não vieram a publico ainda existirão que aconteceram na gestão de Dona Dilma à frente da Casa Civil, que provocaram rombo de milhões de reais aos cofres públicos, e dos quais ela se defende com um “eu não sabia de nada”?

Não apenas está na hora desta senhora, primeiro, respeitar a história e a memória nacionais, e parar com a lenga-lenga do “nós” contra “eles”. As comparações que se tentam fazer partem do pressuposto de que o país, antes de 1995, era um paraíso, e não era. Já disse que tal comparação só é possível aceitar partindo-se da comparação entre o país que FHC recebeu para governar, e o que ele entregou a Lula. Enquanto a média de crescimento da economia mundial de 1995 a 2001 não superou a 3,0% anuais, no período de 2002 a 2007 ela esteve acima de 8,0%.

Infelizmente, pelo formato adotado nestes debates na televisão, não há nem oportunidade tampouco tempo suficiente para se abordar estas questões e ainda discutir projetos de governo. Mas, mesmo assim, a tentativa de desqualificar o adversário fazendo “balanço” de seu governo à frente do executivo estadual, é pura falta de assunto, uma vez que o melhor juiz neste caso, que vem a ser o eleitor paulista, já deu seu veredicto. Manteve o PSDB que somará 20 anos de realizações e conquistas. Acho que Dilma perdeu uma boa oportunidade de ficar quieta.

A repetição de um velho ardil

O Estado de São Paulo

Só dogmatismo e/ou a má-fé justificam o argumento de que a privatização de empresa estatal ou de economia mista é um mal em si mesma e, portanto, condenável de qualquer ponto de vista. Dogmáticos são os radicais de esquerda incapazes de esquecer ou de aprender. De má-fé agem os oportunistas diretamente interessados no projeto de perpetuação do poder lulo-petista. Uns e outros se associam na campanha eleitoral de Dilma Rousseff para demonizar José Serra como o responsável, pretérito e futuro, por esse monstruoso atentado contra os interesses do povo brasileiro: a privatização. É natural que o lulo-petismo lance mão desse argumento cínico e maniqueísta na tentativa de evitar que a candidatura Dilma repita neste segundo turno o desempenho para eles decepcionante que teve no primeiro. Deu certo quatro anos atrás, quando o então candidato oposicionista, Geraldo Alckmin, enroscou-se todo no mesmo ardil e conseguiu a proeza de ter no segundo turno cerca de 2,5 milhões de votos a menos do que no primeiro.

É de esperar que os tucanos tenham aprendido a lição. Afinal, argumentos não lhes faltam. O governo Fernando Henrique foi um dos responsáveis pela definição dos fundamentos da política econômico-social que, aprimorada e aprofundada por seu sucessor, resultou no Brasil inegavelmente melhor em que hoje vivemos. E o processo de desestatização, intensificado nas administrações Itamar Franco e Fernando Henrique, abrangendo os setores siderúrgico, de mineração, da indústria aeronáutica e, de modo muito especial, os serviços bancários e as telecomunicações, foi peça essencial para consolidar a base dos avanços nos últimos 15 anos.

A dicotomia estatização/desestatização frequentou a agenda política quando a polarização comunismo/capitalismo dominava o mundo, durante a maior parte do século 20. Com a falência do modelo comunista e a consequente desmoralização do mito da infalibilidade do Estado, a questão, do ponto de vista do interesse público, passou a ser, objetivamente, quais empresas devem permanecer sob o controle, direto ou indireto, do poder público e quais ficam melhor sob a administração privada. Assim, é óbvio que em muitos casos a desestatização ou privatização de empresas e serviços pode perfeitamente atender ao interesse público. Foi o que ocorreu no Brasil com a privatização das empresas de telecomunicações, que, para citar apenas seus efeitos mais visíveis, permitiu o acesso de toda a população economicamente ativa ao telefone celular e à banda larga. E há, por outro lado, casos como o de empresas estrategicamente essenciais à segurança ou ao desenvolvimento nacional, em que o interesse público poderá estar melhor preservado com a administração estatal.

Certamente esta não é uma questão de fácil entendimento pelo cidadão comum. Mas tentar reduzir a opção estatização/privatização à dicotomia maniqueísta do bem contra o mal é, para dizer o mínimo, desonesto. Uma campanha eleitoral deve esclarecer as pessoas sobre os problemas e soluções em relação aos quais elas devem se manifestar com seu voto, e não confundi-las e valer-se da falta de informação em proveito próprio.

Foi o que Dilma Rousseff tentou fazer no debate da Rede Bandeirantes, obedecendo à nova estratégia de sua campanha: partir para o ataque, a qualquer custo. E valeu-se para tanto daquele que o governo petista apresenta como um de seus maiores trunfos em termos da prosperidade futura do País: a exploração do pré-sal, "uma riqueza do povo brasileiro para garantir que a gente combata a pobreza e crie educação de qualidade". Segundo a candidata, "assessores" de Serra defendem a privatização do pré-sal. Ela se referiu explicitamente ao tucano David Zylbersztajn, que foi presidente da Agência Nacional do Petróleo no governo FHC, mas nunca assessorou José Serra. Ele classificou a acusação como "delírio" e explicou que o que defendeu foi o regime de concessão, estabelecido inicialmente pelo governo, contra o regime de partilha que o governo quer agora que prevaleça.

E justificou sua atitude: "(...) acho que, qualquer que seja o governo, ter uma estatal comprando e vendendo petróleo é uma janela para a corrupção." Bem lembrado.

Dilma e o aborto

Carlos Alberto Di Franco (*) - O Estado de São Paulo

Setembro, reta final das eleições. A ameaça de segundo turno fez a campanha da candidata oficial reforçar a mobilização nos Estados e acionar o presidente Lula como vacina "contra uma onda de boatos que circulou entre católicos e evangélicos". Os supostos "boatos", que fizeram Lula gravar uma inserção de emergência em defesa de sua candidata, não eram boatos. Eram fatos evidentes: a postura pró-aborto de Dilma Rousseff. Mas nós, jornalistas, num primeiro momento, ficamos reféns do jornalismo declaratório e reproduzimos, acriticamente, o que interessava ao marketing da campanha de Dilma.

Mas vamos aos fatos. Dilma, em sabatina no jornal Folha de S.Paulo e em entrevista à revista Marie Claire em 2007, defendeu a legalização do aborto. Reproduzo suas palavras: "Acho que tem de haver descriminalização do aborto. No Brasil é um absurdo que não haja." Logo, não se trata de boato, invenção ou terrorismo fundamentalista. Dilma mudou seu discurso quando passou a vislumbrar os riscos eleitorais de sua opção. Ela deixou de falar da legalização e, ambiguamente, diz que se trata de problema de "saúde pública". Esconde sua verdadeira posição e não diz uma única palavra sobre a principal vítima do aborto: a criança morta no ventre materno. O PT, após o recado das urnas e num exercício incrível de hipocrisia, estuda tirar o aborto de seu programa. O eleitor não é tonto.

O jornalismo de qualidade não se pode restringir às declarações dos políticos, mas à verdade dos fatos. O que interessa não é o que a Dilma diz, mas o que ela fez e, presumivelmente, fará como presidente da República. Vamos ver o que o atual governo, seu partido e sua candidata têm feito em matéria de aborto.

Em abril de 2005, no 2.º Relatório do Brasil sobre o Tratado de Direitos Civis e Políticos, apresentado ao Comitê de Direitos Humanos da ONU, o atual governo comprometeu-se a legalizar o aborto.

Em agosto de 2005, o atual governo entregou ao Comitê da ONU para a Eliminação de Todas as Formas de Descriminalização contra a Mulher (Cedaw) documento no qual reconhece o aborto como Direito Humano da Mulher.

Em setembro de 2005, por intermédio da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres, o atual governo apresentou ao Congresso um substitutivo do PL 1.135/91, como resultado do trabalho da Comissão Tripartite, no qual é proposta a descriminalização do aborto até o nono mês de gravidez e por qualquer motivo, pois, com a eliminação de todos os artigos do Código Penal que o criminalizam, o aborto, em todos os casos, deixaria de ser crime.

Em setembro de 2006, no plano de governo do segundo mandato do atual presidente, ele reafirma, embora com linguagem velada, o compromisso de legalizar o aborto.

Em setembro de 2007, no seu 3.º congresso, o PT assumiu a descriminalização do aborto e o atendimento de todos os casos no serviço público como programa partidário, sendo o primeiro partido no Brasil a assumir esse programa.

Em setembro de 2009, o PT puniu os deputados Luiz Bassuma e Henrique Afonso por serem contrários à legalização do aborto. Foram expulsos do partido.

Em fevereiro de 2010, o 4.º Congresso Nacional do PT manifestou apoio incondicional ao 3.º Plano Nacional de Direitos Humanos (PNDH-3), Decreto n.º 7.037, de 21/12/2009, assinado pelo atual presidente e pela então ministra da Casa Civil Dilma Rousseff, no qual se reafirmou a descriminalização do aborto, além de atacar a liberdade de imprensa. Esse mesmo congresso aclamou a ministra da Casa Civil como candidata oficial do Partido dos Trabalhadores à Presidência da República.

Em junho de 2010, para impedir a investigação das origens do financiamento por organizações internacionais para a legalização e a promoção do aborto no Brasil, o PT e as lideranças partidárias da base aliada boicotaram a criação da CPI do Aborto, que investigaria o assunto.

São fatos comprováveis. Somente fatos. Você, amigo leitor, ainda acha que estamos diante de boatos?

A legalização do aborto, independentemente da dissimulação de Dilma Rousseff, é prioridade do PT. Os eleitores, no primeiro turno, disseram não à tentativa de camuflar a opção abortista do PT. O brasileiro está cansado de falsidade e jogo duplo. A opinião pública reagiu aos que pretendem impor, contra a vontade expressa da sociedade e em nome da "democracia", a eliminação do primeiro direito humano fundamental: o direito à vida.

A legalização do aborto, estou certo, é o primeiro elo da imensa cadeia da cultura da morte. Após a implantação do aborto descendente (a eliminação do feto), virão inúmeras manifestações do aborto ascendente (supressão da vida do doente) - a eutanásia já está sendo incorporada ao sistema legal de alguns países -, do idoso e, quem sabe, de todos os que constituem as classes passivas e indesejadas da sociedade. Acrescentem-se ao drama do aborto, claro e indiscutível, os imensos danos psicológicos e afetivos que provoca nas mulheres.

Surpreendeu-me, numa viagem à Europa, constatar que algumas vozes em defesa da vida nascem nos redutos feministas. O rasgão afetivo apresenta uma pesada fatura e muita gente começa a questionar seus próprios caminhos.

Não obstante a força do mar-keting emocional que apoia as campanhas pró-aborto, é preocupante o veneno antidemocrático que está no fundo dos slogans abortistas. Não se compreende de que modo obteremos uma sociedade mais justa e digna para seres humanos (os adultos) com a morte de outros (as crianças não nascidas).

O brasileiro é contra o aborto. Não se trata apenas de uma opinião, mas de um fato medido em inúmeras pesquisa de opinião. Por isso Dilma foi para o segundo turno. A legalização do aborto seria, hoje e agora, uma ação nitidamente antidemocrática. E isso, queiram ou não os petistas, está na agenda da próxima eleição.

(*) Doutor em Comunicação, Professor de Ética e Diretor do Master em Jornalismo

Irmão de Cardeal, homem de confiança de Dilma, tentou agilizar negócio no RS

Leila Suwwan, O Globo


SÃO PAULO - A consultoria oferecida pelo empresário Edgar Cardeal tentou tirar do papel um projeto de R$ 1 bilhão em parques de energia eólica no Rio Grande do Sul graças a uma "parceria" com a Eletrosul, cujo Conselho de Administração é presidido por seu irmão, Valter Cardeal, atual diretor de Engenharia da Eletrobras e homem de confiança da presidenciável Dilma Rousseff (PT) no setor elétrico.

O empreendimento só poderia ser apresentado às autoridades do setor elétrico e participar dos leilões públicos de energia após a realização de estudos técnicos, que durariam dois anos. Mas a prefeitura petista do pequeno município de Pinheiro Machado (RS) - onde alguns dos parques seriam instalados - chegou a anunciar e comemorar, em abril deste ano, a "parceria" entre a empresa ECBrasil e a Eletrosul, que cederia os dados captados por uma torre instalada na região.

Edgar foi um dos mentores do empreendimento
O site da prefeitura afirma que foi o próprio Edgar Cardeal, que se apresenta no município como "sócio" da ECBrasil, que informou às autoridades locais da parceria:

"A ECBrasil deu um importante passo para a realização do parque eólico na cidade. 'Em parceria com a Eletrosul, a empresa tem a possibilidade do uso dos dados anemômetros (de velocidade do vento) da torre instalada há cerca de dois anos' afirma o vice-prefeito José Antônio Rosa".

E segue: "Rosa conta que o sócio da ECBrasil, Edgar Cardeal, informou que esta parceira possibilita que a empresa participe do próximo leilão de energias ainda este ano, e não mais em 2012, como previam os membros da organização."

Edgar Cardeal, conforme revelou reportagem da "Folha de S.Paulo", foi contratado como "consultor" da ECBrasil. Ricardo Pigatto, presidente da empresa, confirmou que Edgar foi uma espécie de mentor do empreendimento: "Ele trouxe a oportunidade e me propiciou contato com alguns proprietários de terras".

Edgar, dono da DGE Desenvolvimento e Gestão de Empreendimentos, teria remuneração mensal pelos estudos de viabilidade do projeto e ganharia uma "taxa de sucesso" de 0,2% a 10% do total se os parques fossem vendidos a terceiro ou conseguissem vender energia leilões públicos de energia reserva, que são de responsabilidade da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).

Os dois irmãos sustentam que não há conflito de interesses entre o cargo de Valter Cardeal na Eletrobras e a atuação no setor privado de Edgar Cardeal. Valter Cardeal é um dos braços direitos de Dilma Rousseff no setor elétrico. A assessoria de imprensa da Eletrobras não informou sobre a suposta parceria com a Eletrosul. No site da Eletrosul, não há menções sobre o empreendimento em Pinheiro Machado.

Energia eólica ganhará R$ 10 bilhões do PAC2
O negócio de energia eólica está em franca expansão, alavancado pela previsão de investimentos de quase R$ 10 bilhões do PAC2, idealizado pela candidata Dilma Rousseff.

A Eletrosul já tem participação societária em três empreendimentos de geração de energia eólica no estado com uma empresa alemã do ramo de aerogeradores - o grupo venceu um leilão para exploração desse tipo de energia alternativa em dezembro do ano passado e as usinas serão implantadas até 2012.

O prefeito de Pinheiro Machado é Luiz Fernando Leivas (PT) e seu vice, José Antonio Rosa se apresenta como "facilitador" do negócio na cidade, que tem cerca de 16 mil habitantes. Segundo os informativos da prefeitura, se a ECBrasil tiver sucesso no leilão, as obras poderiam começar em 2011.

***** COMENTANDO A NOTÍCIA:
Inquirida a respeita da atuação do Cardeal, Dilma se saiu culpando o banco alemão e afirmando tratar-se de fofoca de período eleitoral. Será apenas fofoca? Creio que não.

Bem no início desta edição, reproduzimos uma reportagem da Revista Veja sobre a atuação pouco republicana de dois ocupantes da Casa Civilo, José Dirceu e Dilma Rousseff. Em apenas um mes, mais ou menos, a gente tem que acrescentar às lambanças cometidas ao tempo em que Dilma era a ministra chefe do órgão, os casos de Erenice Guerra, braço direito que se transformou em substituta indicada pela própria Dilma, e nos ultimos dias mais tres rumorosos casos, todos, vejam bem, TODOS ocorridos ao tempo em que Dilma ERA a ministra chefe da Casa Civil - assim como o caso Erenice - vieram a tona, a saber:

1- Companheira de cela e ex-assessora de Dilma Rousseff foi investigada pelo TCU e pelo Ministério de Minas e Energia por contrato sem licitação que deixou rombo milionário (clique aqui);

2.- Deputado revela que assessor de Dilma Rousseff exigiu 100 000 reais de propina para agilizar processo que dependia de autorização do presidente Lula (clique aqui);

3.- O banco alemão KfW envolve Valter Cardeal, homem de confiança de Dilma Rousseff, na história de uma fraude de € 157 milhões, que foi denunciado em 2007 pelo Ministério Público por desvio de recursos da Eletrobrás (clique aqui).
Quando o caso Erenice veio a público, Dilma esquivou-se alegando tratar-se de um factóide. Ontem, no debate da RedeTV, precisou admitir que "Erenice errou". O caso da ex-secretária Lina Vieira, da Receita Federal, soube-se mais tarde que, não apenas a reunião com Dilma estava agendada, como ainda as fitas que gravaram a chegada da ex-secretária estão escondidas dentro do Palácio do Planalto.
Os casos acima, com a riqueza de detalhes com que foram divulgados, não podem ficar na esfera da "fofoca eleitoral". Precisam e devem ser investigados, já que os crimes estão bem evidenciados. E tudo isto acontece sob as vistas de dona Dilma que agora, vai querer atribui-los a central de fofocas e mentiras? Ora, tenha a santa paciência. Se tudo isto já é um escândalo imenso com a Dilma estando investida apenas de um cargo de ministra, imagine-se o que não poderá acontecer no país com esta senhora investida na presidência da república? E ainda vai querer encenar um "eu não sabia de nada" até quando? Somos idiotas, por acaso?  É bom o eleitorado ficar esperto!!!
Por aí fica claro o desespero desta turma em não querer largar o osso: não se trata apenas de apego ao poder, é o medo de serem descobertos por seus crimes contra o país.

Itamar quer oposição 'autêntica' contra o PT

Malu Delgado - O Estado de São Paulo

Ex-presidente e senador eleito fala sobre o governo Lula e analisa disputa

O ex-presidente Itamar Franco parece mais sereno com a idade. "Eu me eduquei a não ter mágoas", diz o recém-eleito senador pelo PPS de Minas Gerais a reboque da popularidade do ex-governador Aécio Neves (PSDB).


Wilton Junior/AE
Desafio. Para Serra vencer a disputa em Minas,
ele precisa "tocar o coração dos mineiros"

As rusgas - ou "algumas tristezas", como ele diz - com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e o PSDB foram deixadas para trás, talvez com base no ensinamento do velho senador Teotônio Vilela, que lhe recomendou a "não deixar a mágoa passar da garganta para baixo porque faz mal ao coração". Hoje, aos 80 anos, Itamar Franco é um dos principais cabos eleitorais do presidenciável José Serra (PSDB) em Minas.

"Minas pode indicar a virada necessária para o Serra ganhar as eleições. Agora, ele precisa tocar os corações mineiros. Aí vem o problema político", afirma o ex-presidente. Apesar de mais suave, Itamar continua direto e franco. O problema político, analisa, é a necessidade de Serra se assumir como oposição e de adaptar o discurso para diferentes estratos sociais. Ao lado de Aécio, Itamar acha que a oposição precisa ser mais autêntica e se contrapor ao governo Lula, mostrando as transformações sociais obtidas graças ao Plano Real, implantado na transição entre o seu governo e o de FHC.

"Quando a dona Dilma (Rousseff, presidenciável do PT) diz que todos melhoraram de vida, por que eles não rebatem dizendo o seguinte: o pãozinho custava de manhã um preço, de tarde outro, de noite outro. E, além do pãozinho, o salário do trabalhador à noite estava totalmente corroído. A inflação era de 4% ao dia. Hoje é de 5% ao ano."

Enquanto rabisca um papel e diagnostica o resultado das eleições em Minas, Itamar Franco manda recados aos tucanos, a Serra e a Fernando Henrique. "Sei que eles vão jogar tudo no lixo, mas eu falo assim mesmo. Eles não gostam que eu fale." Logo em seguida, deixa claro que as advertências ao presidenciável são feitas com extrema cautela e consideração: "Eu estou fazendo uma crítica positiva. Serra terá meu voto, meu apoio cívico".

"Leio que o ex-presidente Fernando vai querer uma conversa cara a cara quando o petista puser o pijama. Ora, o que assistimos a todos os dias na televisão? Ataques ao presidente Fernando. E por que ele vai esperar o homem por pijama? Por que não já vem agora, com um minuto ou 45 segundos no programa do Serra, e diz assim: olha presidente Lula, eu estou aqui, e me chame para o debate na hora que quiser. Faça isso antes de terminar o horário eleitoral. Porque não adianta ele querer esconder a face. Toda hora eles (o PT) mostram a face dele. O que vai adiantar ele dizer que quer debater com o Lula depois que ele sair do governo? Nada", irrita-se Itamar.

O senador eleito repudia estratégias baixas de campanha, atribuídas por ele a parte do PT. Reconhece, porém, que também os tucanos cometem seus excessos, como o vídeo que comparou petistas a cães rottweilers. E os reprova. "Empobrece muito a política brasileira e é por isso que começa a haver essa descrença. Agora também o PSDB faz isso porque a agressão parte primeiro deles. Eles ficam toda hora atacando o ex-presidente. Cada um usa a arma que quer usar. Eu condeno. Acho que a campanha deve se dar em alto nível."

O debate religioso e de valores terá seu espaço em Minas Gerais, com seu lado conservador, reconhece Itamar Franco. Porém, mais uma vez, o ex-presidente faz advertências a seus aliados e adversários: "Tem horas que você tem que buscar os valores sim. Temos que mostrar aos moços e às moças que o Brasil não surgiu com o presidente Lula. Mas, de repente, todo mundo volta a ser religioso. Uma hora fala de aborto, outra hora fala dos gays. São temas muito sensíveis. Por que não falou logo de uma vez: eu defendo a legislação atual em relação ao aborto. O Serra, pelo que sei, defende a legislação atual", afirma. Minas, segundo ele, "é fundamentalmente religiosa". "Acho errado é usar a religião para ganhar votos."

O discurso duro de Itamar reserva momentos de bom humor, coisa rara de se ver em suas atuações políticas no passado. "O governo do pão de queijo foi tão bom que eu poderia ter cobrado royalties", brinca, relembrando a maneira pejorativa a que muitos se referiam a seu mandato.

Segundo ele, Serra não tinha campanha em Minas. "Por mais que falássemos do nome de Serra, tinha cidade em que não havia nenhuma propaganda dele. Ele descuidou de Minas. Mas para eles não perderem muito tempo, é só chamar Aécio. É colocar Aécio na campanha'', prega. Serra, segundo ele, deve ter a humildade de deixar Aécio ''ensiná-lo'' a fazer campanha em Minas.

Sem lógica

Míriam Leitão, O Globo

No primeiro balanço do PAC, o trem-bala não constava, no décimo, ele estava no primeiro lugar absorvendo metade dos investimentos previstos para o setor. Não foram feitos os estudos detalhados necessários para que as construtoras possam calcular suas ofertas, mas a licitação está prevista para o fim do ano. Já foi avaliado em R$ 18 bilhões, agora em R$ 34 bi e pode ir a R$ 70 bi.

Os especialistas em logística não sabem como foi que, de repente, o TAV, Trem de Alta Velocidade, virou a prioridade absoluta do país, e acham que pode custar o dobro do calculado. Enquanto isso, o investimento no Ferroanel de São Paulo caiu de R$ 528 milhões, na previsão do primeiro balanço do PAC, para R$ 20 milhões, no décimo balanço.

O professor Paulo Fernando Fleury, do Instituto Ilos de Logística e Supply Chain, fez um estudo sobre as estruturas viárias do país, uma pesquisa junto às grandes empresas consumidoras de serviços logísticos, e uma análise do PAC. Viu o retrato de um país perdido entre prioridades invertidas, decisões confusas das autoridades e muitos gargalos.

— Uma pesquisa do Banco Mundial mostrou que 91% dos empresários brasileiros acham que a logística é uma vantagem competitiva estratégica para as empresas. Num ranking de desempenho logístico em 150 países, o Brasil ficou em 41 em desempenho logístico, mas isso porque a privatização das comunicações melhorou o item infraestrutura. No item “procedimentos alfandegários”, o Brasil está em 82. Existem dez órgãos para carimbar e dar autorização na Alfândega. Em 2008, houve 121 dias em que pelo menos uma das repartições que operam dentro dos portos estava em greve — disse Fleury.

A logística mistura uma série de fatores que vão desde o transporte, armazenamento, gestão de estoques, organização de fluxos de insumos e de entrega do produto final de uma empresa. O conceito era quase desconhecido há alguns anos, hoje está no coração das empresas. Fleury conta que numa pesquisa de 1995 em nenhuma das grandes empresas brasileiras havia um responsável por logística. Em 2003, uma pesquisa sobre o nível hierárquico do principal executivo de logística nas grandes empresas brasileiras não havia uma única empresa em que ele fosse presidente ou vice-presidente, mas em 42% delas o responsável era diretor e em 49% era gerente sênior. Agora, em 23% delas o principal executivo de logística está no nível de presidente ou vice-presidente da empresa e em 37% está na diretoria. O setor privado tem investido cada vez mais em logística, o setor público não consegue remover os gargalos, nem tornar eficiente a malha viária do país.

A demanda por serviços logísticos vem crescendo de forma explosiva. As exportações cresceram 18% ao ano desde 2001, a movimentação nos portos cresce a 7% ao ano. Nas ferrovias, desde a privatização em 1997 houve um aumento de 102% de carga transportada. Em 1997, havia 35 operadores logística, hoje existem 165 empresas que fazem esse trabalho e o faturamento delas saiu de R$ 1 bilhão para R$ 39 bilhões. O custo logístico no Brasil é de 11,6% do PIB, nos Estados Unidos é de 8,7%. No Brasil é 30% maior.

A comparação com qualquer outro país continental mostra uma enorme disparidade da escolha das formas de transportes, os chamados modais. No Brasil, 62,7% da carga vão por via rodoviária, nos Estados Unidos, 27,7%. Aqui, só 21,7% são por via ferroviária, lá, 41,5%. No Brasil, 3,8% vão por dutos e lá, 19%. No aquaviário estão equivalentes, 11,7% e 11,5%. No aéreo, 0,1% aqui e 0,3% lá. Mas por aviões vai a carga mais valiosa.

— Se aplicássemos no Brasil a proporção da matriz dos Estados Unidos, mantendo os custos brasileiros, a economia seria de R$ 58 bilhões, 2% do PIB. E reduziríamos 35% das emissões dos gases de efeito estufa no transporte. Há uma correlação direta entre desempenho logístico e competitividade na exportação de produtos de alto valor agregado — diz Fleury.

Olhada pelas autoridades de forma partida, a logística é o nervo exposto da falta de competitividade brasileira. Um exemplo: os portos. Eles têm dificuldades, mas a pesquisa mostrou que para os empresários o principal problema dos portos é a ineficiência do acesso rodoviário até eles. Quando se pergunta às empresas quais são os principais problemas de infraestrutura do país, só 27% registraram o item “poucos portos”, mas 95% apontaram “estradas mal conservadas” e 86% apontaram “malha ferroviária insuficiente”.

O PAC não melhorou esse quadro, na opinião do especialista. Primeiro, pela falta de visão integrada de logística; segundo, pela falta de sentido de algumas prioridades como a do trem-bala.

— Nem foi citado no primeiro balanço do PAC e no décimo balanço aparece como a maior prioridade nos investimentos logísticos do país. Nem foi estudado e já vai ser licitado. Não faz sentido. Além disso, a comparação entre o PAC-1 e PAC-2 mostra sobreposição de ações. Em um e outro, só nos portos há 17 ações repetidas, que estão no PAC-1 e aparecem como coisa nova no PAC-2. Em rodovias e ferrovias há uma série de trechos repetidos nos dois PACs — explica.

Isso sem falar no fato de que entre os balanços, as ações são subdivididas para parecerem concluídas, e as obras são fracionadas para permitirem inaugurações sucessivas. Com truques como esses e falta de visão sistêmica, a ineficiência logística continua e vai drenando os esforços das empresas para serem mais competitivas.

Estados e municípios deixam de usar R$ 1,2 bi para projetos de transporte

Renato Machado e Rodrigo Burgarelli - O Estado de São Paulo

Filas quilométricas de carros, em um "anda e para" infinito. São Paulo? Sim. Mas o cenário também é visto em outras cidades de grande e médio porte do País. Para reverter o quadro, especialistas defendem investimentos em transporte público - mas falta dinheiro, alegam os governantes. No entanto, Estados e municípios deixaram parados nos últimos quatro anos R$ 1,2 bilhão em recursos para projetos de mobilidade.

Esse é o total de verbas reservadas pelo Ministério das Cidades para ser usado em obras de transporte coletivo e não-motorizado que acabou não saindo dos cofres federais desde 2007. Os recursos fazem parte do Programa Nacional de Mobilidade Urbana, cujo objetivo é financiar projetos apresentados e executados por Estados e municípios que os inscreveram no ministério.

No total, R$ 1,77 bilhão foi projetado pelo governo federal para ser gasto, mas apenas R$ 529 milhões foram pagos. Isso significa que apenas 29% de toda a verba reservada para obras como terminais de ônibus, corredores exclusivos de transporte público, ciclovias e ciclofaixas foi efetivamente gasta. Com o valor que ficou parado nos cofres públicos, poderiam ser construídos 70 quilômetros de corredores de ônibus - Belo Horizonte, por exemplo, planeja construir cerca de 53 km até a Copa do Mundo de 2014.

Especialistas ouvidos pelo Estado atribuem a baixa execução à falta de capacidade técnica dos municípios que pleiteiam a verba. "O processo de inscrever um projeto é muito rápido e a exigência técnica é muito baixa. Mas depois fica difícil cumprir todas as regras necessárias para receber o dinheiro", diz o superintende da Associação Nacional de Transporte Público (ANTP), Marcos Bicalho.

O Ministério das Cidades alega também que parte dos recursos se refere a emendas parlamentares, mais suscetíveis aos cortes de gastos do governo e que necessitam de projetos executivos bem feitos para serem liberados. Os recursos que não são usados contam como superávit nas contas federais.

Setor de carga aérea está à beira do colapso

Geralda Doca e Fábio Fabrini, O Globo

BRASÍLIA - Pivô do escândalo de tráfico de influência na Casa Civil e sem voar para os Correios desde 27 de setembro, a Master Top Airlines (MTA) não é a única empresa de carga aérea em dificuldade no país. Responsável por carregar encomendas dos brasileiros e parte do dinheiro enviado pelo Banco Central aos estados, o setor está em situação complicada. Aviões velhos, falhas de segurança, obstáculos financeiros e falta de documentação são problemas comuns às companhias, não raro envolvidas em fraudes. Correios e BC são os principais clientes do segmento por necessitarem de serviços constantes e serem fonte de receita garantida.

Segundo a Anac, cinco das nove companhias domésticas foram proibidas de voar. Entre as quatro com autorização está a MTA, que deveria fazer as linhas de Salvador e Recife para os Correios, mas não decola mais. A inoperância obriga a estatal a contratar emergencialmente espaços nos porões de companhias de passageiros, pagando caro por isso. Só nos últimos três meses, foram gastos R$ 3,3 milhões para substituir as empresas. O serviço é prejudicado, com atraso nas entregas.

- Isso tem um impacto muito forte no esquema operacional - admite o chefe do Departamento de Encaminhamento e Administração de Frota dos Correios, Carlos de Sousa Montenegro.

Na quinta-feira, a Anac proibiu de levantar voo outra contratada dos Correios, a Air Brasil, que faz a linha São Luís-Teresina-Belo Horizonte-São Paulo-Rio. Além de ter problemas em equipamentos, a empresa voava sem autorização e cumpria mais horas de voo do que podia.

Também estão proibidas de levantar voo as cargueiras TAF e Beta (que tinham contratos com os Correios até o fim de 2009) e a Skymaster. Segundo a estatal, em dezembro um avião da TAF bateu num elevador de carga em Guarulhos. Semanas depois, outro avião da empresa bateu numa árvore e fez um pouso forçado em Parintins (AM). Devido aos incidentes, a Anac suspendeu o Certificado de Homologação de Empresa de Transporte Aéreo (Cheta), que precisará passar por nova certificação.

A Beta parou de decolar para os Correios depois que o Ministério Público Federal (MPF) constatou conluio com a Skymaster para fraudar uma licitação. As duas fizeram um acordo de que quem vencesse subcontrataria a outra, dividindo o dinheiro. A Anac cassou sua concessão em agosto.

Das companhias com autorização para voar, além das Master Top, sobram a Rio Linhas Aéreas e a Total (também contratadas dos Correios), a Absa e a Variglog. Esta, ex-subsidiária da Varig e vendida a um grupo chinês, também enfrenta problemas financeiros.

Até quando a saúde pública vai continuar matando?

Mesmo após ordem judicial de internação, aposentada morre sem atendimento adequado
Folha de São Paulo

Vítima de AVC (acidente vascular cerebral) e insuficiência renal crônica, a aposentada Magda Lúcia dos Santos, 61, morreu neste domingo depois de esperar cinco dias por atendimento adequado. Sua família obteve decisão judicial para interná-la em UTI, mas não conseguiu que sua transferência fosse realizada.

Magda Lúcia chegou à emergência do posto de saúde da Vila São João, em São João de Meriti (baixada fluminense) na segunda-feira (11), por volta das 9h. Ficou no setor de trauma porque não há ala de neurologia no posto. O genro da aposentada, Paulo Henrique Valério da Silva, 27, disse ter estranhado o comportamento dos médicos diante do quadro da aposentada.

"Quando ela chegou ao posto foi constatado o AVC. Minha sogra estava um pouco desorientada, e os médicos diziam que seu estado não era gravíssimo, que ela ia ficar boa. Com o passar dos dias, percebemos que ela começou a dormir demais. Na quinta-feira, quando saiu para fazer diálise em outro posto, o médico ficou assustado ao perceber que a paciente estava em coma e mandou voltar imediatamente."

A filha única de Magda, Patrícia Santos de Almeida, procurou a Defensoria Pública na sexta-feira (15) para tentar arrumar uma vaga para a mãe em outro hospital. O juiz Luis André Bruzzi Ribeiro determinou a remoção imediata da paciente para um hospital de rede pública ou particular, que seria custeado pelo Estado e município, mas ela não foi removida. No sábado, o marido da aposentada foi à 64ª DP (São João de Meriti) tentar ajuda para que alguma autoridade fizesse o posto cumprir a ordem judicial.

Segundo o genro dela, somente no fim do dia apareceu um procurador do prefeito de São João de Meriti, Sandro Matos Pereira, para ajudar a conseguir uma vaga, mas a aposentada morreu às 4h30 de deste domingo, em razão de AVC, insuficiência renal crônica e hipertensão arterial sistêmica.

"A gente agora quer justiça. Só estamos fazendo isso por outras pessoas. Soubemos que, antes do caso da nossa sogra, pelo menos quatro pacientes morreram nesse mesmo posto por falta de atendimento. A vida do ser humano não vale mais nada", disse Paulo Henrique Valério da Silva.

A subsecretaria de Imprensa da Prefeitura de São João de Meriti informou que o atendimento médico necessário foi prestado à paciente pelas equipes médicas do posto e que a unidade solicitou, na quarta-feira (13), um leito em UTI neurológica para Central de Regulação de Vagas do Rio de Janeiro.

Segundo a subsecretária Márcia Rosário, mesmo sem ter sido notificado oficialmente, o prefeito Sandro Matos determinou que a administradora do posto entrasse em contato com a rede particular para providenciar a transferência. De acordo com a prefeitura, foram consultados 40 hospitais e clínicas particulares e 15 unidades da rede pública, sem que houvesse vaga.

***** COMENTANDO A NOTÍCIA:
Quantas e quantas vezes precisaremos ser repetitivos neste mesmo enfoque: ao invés do governo Lulo torrar milhões de reais em doações para países governados por ditadores e caudilhos, apesar para praticar uma proselitismo vagabundo de quinta categoria, não investe esta dinheirama em benefício do próprio povo que o elegeu?

Até quando o povo brasileiro precisará morrer sem ter atendimento adequado no campo da saúde pública, nem mediante ordem judicial? Agora, senhores, tem uma coisa e isto já comentei aqui bem recentemente em outro fato idêntico: se a Justiça não quiser desmoralizar-se por completo, esta ordem deve ser expedida ao responsável pela saúde pública, no caso, ou ao Secretário Estadual ou Ministro da Saúde, e com a determinação de que, em caso de não cumprimento imediato, que seja dada voz de prisão. E aí, acreditem, "eles" vão dar um jeito rapidinho...

A democracia e o segundo turno

Celso Lafer – Agência Estado

O resultado das eleições de 3 de outubro tem como nota a contenção da dimensão plebiscitária que o presidente Lula imprimiu à campanha, valendo-se de seu cargo e sua popularidade. Ao se empenhar, sem maiores freios, em mover e desequilibrar o eleitorado em favor da candidatura Dilma Rousseff, buscou beatificadora consagração da sua pessoa e do seu governo.

A postura do presidente na campanha eleitoral do primeiro turno tem muito que ver com o que, na Grécia clássica, se denominava hybris: a violação da norma da medida, estipuladora de limites. Existe hybris que, para os gregos, acaba sendo sancionada toda vez que é ultrapassada, como dizia Platão, "a medida do justo".

Lula violou a norma da medida ao reiteradamente afirmar que a História do Brasil teve início com a sua eleição em 2002 e se desdobrou com sucesso nos oito anos da sua Presidência - sucesso a que só a eleição da sua candidata poderia dar continuidade.

A História não começa do zero a cada oito anos e o governo Lula faltou com a "medida do justo", pois teve como lastro o acervo de realizações do ciclo político-histórico iniciado com a redemocratização - acervo ao qual Lula não deu seu respaldo nos momentos oportunos. Pôde contar com os méritos da transição que a eleição de Tancredo Neves emblematizou e com a Constituição de 1988, a cuja elaboração Ulysses Guimarães presidiu. A Constituição ampliou a tutela dos direitos humanos, fez da Nova República um regime político que trouxe expansão sem precedentes da cidadania eleitoral e propiciou conquistas e costumes socioculturais que criaram o contexto que permitiu a eleição de Lula em 2002. A Constituição afirmou a importância de um meio ambiente ecologicamente equilibrado, um valor cuja ideia a realizar caracterizou, com ressonância eleitoral, a campanha da candidata Marina Silva.

O governo Lula teve o alicerce dado pela consolidação da democracia depois do regime militar que José Sarney, na Presidência, com competência política empreendeu e a mudança da agenda brasileira para enfrentar o mundo pós-guerra fria que o presidente Fernando Collor, não obstante os percalços do seu governo, promoveu. Dispôs do exemplo de integridade do presidente Itamar Franco na condução política do pós-impeachment, que possibilitou o início do Plano Real com a escolha e o apoio dado a FHC como seu ministro da Fazenda.

O presidente Fernando Henrique Cardoso elegeu-se com os generalizados benefícios para a população brasileira trazidos pelo Plano Real, que consolidou nos seus dois mandatos. A estabilidade da moeda propulsionou inédita redistribuição de renda, significativa redução da pobreza e inseriu a segurança da previsibilidade na vida dos brasileiros.

O Proer deu solidez ao sistema financeiro brasileiro e dessa solidez se valeu o presidente Lula para enfrentar a grande crise econômica mundial. A Lei de Responsabilidade Fiscal imprimiu racionalidade às políticas públicas do País. As redes de proteção social do seu período, de que são exemplos a Bolsa-Escola e a Bolsa-Alimentação, constituem a base da Bolsa-Família, que tanta popularidade vem trazendo ao governo Lula. O empenho nas práticas democráticas, a atenção aos direitos humanos e à sustentabilidade ambiental, o republicano processo de transição da sua Presidência para o governo Lula integram o patrimônio do legado de Fernando Henrique.

Criterioso levantamento comparativo de cem indicadores dos últimos 16 anos da sociedade brasileira nos mais variados campos - da desigualdade, do trabalho, da saúde e moradia à ciência e tecnologia, publicado pela revista Época de 4/10 - revela que a marca mais forte deste período não é a do ineditismo da ruptura, mas sim a da continuidade da melhoria. Esta provém daquilo que o governo FHC construiu e a partir da qual o governo Lula trabalhou.

Faço o registro porque a denegação do legado de FHC é uma falsidade destituída da norma da medida, agravada pelo sistemático empenho do presidente Lula e de seus companheiros na desconstrução da imagem política do seu antecessor. Este recorrente empenho lulista, intensificado no componente plebiscitário da campanha do primeiro turno, é expressão de uma hybris que se traduz, para evocar Aristóteles, na retórica da ofensa política animada pelo prazer personalista de se sentir superior.

O povo dá vida à democracia constitucional pelo voto e pelos costumes políticos. Para o enraizamento destes costumes não contribui a má-fé do plebiscitarismo que acompanha a candidatura Dilma. Também não contribui para a vigência da democracia o maléfico propósito do presidente Lula de exterminar adversários, o que é incompatível com o pluralismo da sociedade brasileira, que a representativa eleição de governadores da oposição ao seu governo confirmou.

Numa democracia, a concessão de poder pelo eleitorado é sempre temporária. Pode ser periodicamente renovada ou revogada. Nesse processo as candidaturas ou são impositivas ou propositivas. A candidatura Dilma é uma candidatura imposta ao eleitorado pelo presidente Lula. No primeiro turno contrastou com a de Marina e a de José Serra, que foram candidaturas propostas ao juízo eleitoral. A candidatura Marina foi propositiva da importância da sustentabilidade, teve o mérito de romper a dimensão plebiscitária que o presidente Lula quis impor ao primeiro turno e carregou, no seu bojo, a expansiva lição ética da inteireza do seu caráter. A candidatura Serra foi propositiva de um empenho na ampliação e no aprofundamento das condições de possibilidade do País, lastreada na ampla e bem-sucedida experiência política e administrativa de um dos mais qualificados homens públicos do Brasil.

O segundo turno, que se avizinha, será um embate entre uma candidatura imposta - a de Dilma - e uma candidatura proposta - a de Serra, que, no meu entender, é a que melhor serve ao País e à sustentável renovação da vida democrática.

(*) Professor Titular da Faculdade de Direito da USP, Membro da Academia Brasileira de Ciências e da Academia Brasileira de Letras

Manaus vira a capital nacional do apagão

Renée Pereira - O Estado de São Paulo

Interrupções no fornecimento de energia elétrica têm se tornado rotina para os moradores da capital do Amazonas nos últimos meses

Nos últimos meses, Manaus deixou de ser apenas o principal centro financeiro e econômico da Região Norte para ser a capital do apagão. Lá, as interrupções de energia elétrica, que antes ocorriam esporadicamente, viraram rotina na vida de moradores, empresários e multinacionais da Grande Manaus. Tudo isso porque os investimentos na rede de distribuição não acompanharam a demanda.

Diante do caos energético da capital amazonense, onde se localiza um importante polo industrial de eletroeletrônicos e veículos sobre duas rodas, Brasília resolveu agir. Por determinação do presidente Lula, uma comitiva liderada pelo ministro de Minas e Energia, Márcio Zimmermann, desembarcou na cidade no início do mês para anunciar um plano emergencial, que já começou a ser implementado.

"Até o fim do ano, vamos deixar Manaus com um bom atendimento de energia", garante José Antônio Muniz, presidente da Eletrobrás, que controla a distribuidora Amazonas Energia.

Encarregado de resolver o problema, ele praticamente se mudou para Manaus, de onde vai despachar três vezes por semana. "Vou ficar aqui até resolver a situação", afirma.

O plano inclui a troca de 425 transformadores em alguns bairros da cidade, o que deve aumentar a capacidade da rede de distribuição e dar mais confiabilidade ao abastecimento, afirma Muniz. Outros 575 equipamentos deverão ser substituídos nos próximos meses.

A pergunta que a população local faz ao executivo é: por que essa medida não foi tomada antes que houvesse a propagação dos desligamentos? Uma das respostas está ligada aos prejuízos milionários que as estatais amargaram nos últimos anos e reduziram a capacidade de investimento. Mas a explicação também está associada à falta de planejamento.

Demanda maior.
Muniz reconhece que o crescimento da demanda, de 14% no ano, não era esperado pela empresa de distribuição, já que a média nacional estava em torno de 9%. De fato, a população local avançou para áreas mais afastadas do centro, novos empreendimentos comerciais foram abertos (como um novo shopping center e grandes redes de supermercados) e a produção industrial da Zona Franca aumentou de forma significativa com a demanda nacional por eletroeletrônicos.

Enquanto isso, a rede de distribuição continuou no mesmo nível - em algumas áreas houve forte degradação. Empresários e representantes do setor produtivo relatam que a deficiência da rede chegou ao ponto de a distribuidora ter de determinar o desligamento de algumas áreas para evitar um efeito dominó na cidade durante picos de consumo. O presidente da Eletrobrás negou que a operação tenha sido adotada e desmentiu a declaração dada por um técnico da empresa.

Para a população local, o descompasso entre investimento e demanda é o principal atestado do descaso do poder público com a região, que sofre com a péssima qualidade da energia. Hoje, Manaus e boa parte da Região Norte são abastecidas com geração térmica, especialmente de usinas movidas a óleo combustível e diesel. Como a produção é cara - e poluente -, todos os brasileiros pagam uma quantia a mais na sua conta de luz para ajudar os consumidores do Norte. Neste ano, os desembolsos devem somar R$ 4,7 bilhões.

Isso não significa, no entanto, que a conta de luz da população dos Estados do Norte é barata. Pelo contrário. Está no mesmo nível das Regiões Sul e Sudeste. "Além de cara, é de péssima qualidade. Semana passada, o Rio ficou cinco minutos sem energia e causou uma grande polêmica. Aqui, ficamos cinco minutos sem energia todos os dias e ninguém faz nada", afirma o empresário Raul Andrade, dono de uma rede de restaurantes.

Prejuízo.
Ele perdeu a conta dos equipamentos queimados por causa do liga e desliga da rede de distribuição. O prejuízo inclui perdas de chapas e fritadeiras elétricas, aparelhos de ar-condicionado e compressores de câmaras frigoríficas, além de alimentos perecíveis. Isso sem contar o desconforto em relação aos clientes, já que as máquinas de cartão de crédito também não funcionam. "Ficamos de braços cruzados esperando a energia voltar", diz.

O comerciante Alan Bandeira também já perdeu a paciência com o número de apagões. "Semana passada, fiquei uma hora sem luz. Até meu "nobreak" (equipamento usado para proteger eletroeletrônicos contra quedas de energia) não suportou a variação de energia e queimou."

Na opinião dele, além dos investimentos para melhorar a rede local, a solução para a cidade é construir a linha de transmissão de Tucuruí. O projeto, atrasado por questões ambientais, vai inserir a cidade no sistema interligado nacional.

Andrade e Bandeira estão liderando, ao lado do presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas de Manaus, Ezra Benzion, um abaixo-assinado para reivindicar melhorias no sistema. A intenção é levar o documento até Brasília e ter uma resposta mais rápida. "No Brasil, temos o custo Brasil. Aqui, temos o custo Manaus", reclama Andrade.

O presidente do Sindicato das Indústrias de Aparelhos Elétricos, Eletrônicos e Similares de Manaus, Wilson Périco, destaca que o problema já era para ter explodido se a crise mundial não tivesse arrefecido a atividade econômica. Ele conta que, em 2008, o setor elétrico local já havia apresentado sinais de estrangulamento.

O tempo, contudo, não foi aproveitado para sanar as deficiências, critica o executivo. "Não houve por parte do setor público o devido cuidado para preparar a rede de energia para atender o polo industrial de Manaus e o crescimento da região."

Périco afirma que, para evitar ainda mais prejuízos, boa parte da indústria se equipou com geradores elétricos e "nobreaks".

Apesar disso, as perdas têm sido grandes. "Cada vez que a rede cai, um processo de produção é interrompido e, na maioria dos casos, perdido. Mesmo que seja por minutos."