quarta-feira, abril 13, 2011

Dilma: Cem dias sem nada

Adelson Elias Vasconcellos

Dilma completando cem dias de governo e o país, emburrecido e alienado, aplaude vivamente a nova rainha do nada. Claro, nestes tempos de ditadura do pensamento, do despotismo do “tudo certo”, em que ser oposição, seja na política, na economia ou em outra área qualquer onde houver “ativistas”, é sinal de estupidez, quando na verdade contrapor pode até ser sinal de inteligência, de independência da razão, chega a ser constrangedor abrir jornais, revistas e sites de portais de notícias na internet para ler que o nada triunfou.

Afinal, onde foi parar o senso crítico da imprensa nacional? Por que se tornou virtuoso o não fazer nada?

Não sou contrário a que se elogiem governantes que, no exercício de seus mandatos, realizem bom trabalho em favor de seu país, mesmo que um ou outro seja de esquerda. Mas daí a elogiar um governante justamente por ele não ter realizado absurdamente nada em cem dias de governo? Santos Deus!!!! Ou é pura demagogia e hipocrisia ou pura malandragem e esperteza dos marqueteiros da política.

Mais abaixo, há um artigo do Marco Antonio Villa que vai de encontro a tudo o que temos afirmado aqui: nada justifica este oba-oba sobre uma governante que ainda não fez absolutamente nada em seus primeiros cem dias de poder. Onde está um projeto pronto e acabado? Qual a orientação a ser dada na economia neste início de 2011 conturbado, com inflação em alta, desequilíbrio fiscal, conta corrente internacional com impressionante déficit, cortes de 50 bilhões de orçamento sem a devida realização, plano de recuperação da infraestrutura ou mesmo com supervalorização da moeda nacional e todas as implicações ruins para a economia do país?

Rigorosamente este governo ainda não começou, retirando desta pauta apenas a acomodação, sem critério técnico ou mérito, de aliados políticos em cargos dos escalões do poder.

Há algumas semanas lembramos que, em sendo este o nono ano de governo petista, e sendo Dilma a representação do continuísmo de Lula, e ter sido apresentada durante a campanha como a grande gerente dos “méritos” alcançados pelo governo do ex-presidente, não havia razão alguma para que não tivesse debaixo do braço um projeto acabado de governo, atacando os pontos frágeis destes últimos oito anos que, diga-se de passagem, são muitos.

Não há como comemorar, por exemplo, o que para muitos representou a grande mudança. Se, de fato, a política externa mudou, é hora de se ouvir críticas aos regimes cubano e venezuelano, por exemplo. E, pelo que se sabe, isto está longe de acontecer. Já afirmei antes: é fácil endereçar alguma crítica ao regime iraniano, ou algum de seus aspectos. Quero ver e ouvir a presidente com a mesma postura crítica em relação aos irmãos Castro, em Cuba, e Hugo Chavez, na Venezuela.

Em sua visita à China, Dilma reafirmou a sua determinação em reduzir os juros básicos a níveis compatíveis com os praticados no restante do mundo, como já se comprometera no discurso de posse. Na entrevista que concedeu ao jornal Valor Econômico, também assumiu o compromisso quanto a não permitir a volta da inflação. Pois bem: alcançar tais metas só será possível, conforme já demonstramos, se de um lado, o governo frear o ritmo de crescimento, coisa que dona Dilma se nega em admitir. E, de outro, seu governo precisará ir muito além de um simples anúncio de corte de 50 bilhões do orçamento de 2011.

Além disso, onde estão as reformas estruturais de que o país tanto sente falta para a sustentabilidade de seu crescimento? Nestes cem dias, como se sabe há muito, aproveitando a lua de mel com o Congresso e com a sociedade, elas deveriam ter sido colocadas na ordem do dia porque, mais além, se sabe ser muito difícil conseguir sua aprovação.

Além disto, lembrando outros compromissos de campanha, dona Dilma prometeu reduzir a carga tributária. E o que se viu nestes cem dias? A carga aumentou ainda mais. Seja pelo lado do imposto renda na fonte, seja no IOF sobre compras e empréstimos feitos no exterior. De lambuja, um aumentozinho de leve sobre bebidas, além da ameaça crescente de se ressuscitar a famigerada CPMF. E a inflação? Comendo solta, sem que se perceba algum movimento de parte do senhor Guido Mantega  no sentido de frear a fome por reajustes. Dizer que se surpreendeu com o recente aumento dos alimentos é sinal, para se dizer o mínimo, que o Ministro não anda lendo jornais ultimamente.

No campo dos serviços públicos, a mesma desgraça que herdou de Lula permanece intocável. E, a se considerar pela montagem da equipe, não se vá esperar que o país avance minimamente nesta direção.

Anos a fio de muitas promessas festivas em relação ao etanol e o que temos é desabastecimento e, não bastasse isto, ainda o governo autorizou a adição de água, além da importação de etanol dos americanos, aquele mesmo que Lula desceu os cachorros mundo afora.

Nas últimas semanas, o país foi assaltado por greves e tumultos nos canteiros das grandes obras do PAC, aquelas que estão sendo tocadas para aparecerem na campanha e propaganda políticas. Juntou-se a mentira do Minha Casa, Minha Vida, cuja realização, quando comparada às promessas e metas, chega a ser ridícula. Pois bem: sendo o governo federal o responsável pelas obras, deveria ao menos cuidar para que as empreiteiras cumprissem com as legislações tanto ambientais quanto trabalhistas. E o que vemos é que o interesse exclusivamente eleitoreiro suplantou o cuidado para com as leis, ficando a fiscalização relegada a um plano secundário.

Seguindo noutra direção, cada dia que passa mais preocupante se torna a execução das obras visando a Copa das Confederações, Copa do Mundo e Olimpíadas. Já se sabe, através da própria Infraero, que o país não conseguirá concluir as obras nos aeroportos. Dos doze estádios, dois sequer tem projeto definitivo, sendo um deles o de São Paulo. O Maracanã, é fato, custará pelo menos quatro vezes o orçamento original e olhe que sua reforma para o Pan-2007 já foi um absurdo, além de nem ter completado quatro anos de sua execução.

Compreende-se que parte da imprensa se sinta como que aliviada por não precisar aturar, diariamente, o boquirroto do ex-presidente Lula. Mesmo que quisesse copiá-lo, Dilma tem outro temperamento e jamais chegaria perto da mistificação chamada Lula dos palanques. Contudo, não se pode fechar os olhos e sentir este alívio, ao mesmo tempo em que se misturam em um mesmo balaio realizações que sequer deixaram de ser promessas.

Na economia a coisa segue a rotina dos dois últimos anos de Lula: sem controle, sem metas, sem projetos, sem rumo. Enquanto o BC faz o que pode para segurar a inflação, Mantega fica enfeitando a serpente instalada dentro do Ministério da Fazenda, sem ter a menor noção de que medidas tomar para resolver questões graves cuja deterioração angustiam parte do mercado e dos analistas, e que começam a afligir boa parte da população que assiste a disparada dos preços nas gôndolas dos supermercados, sem saber o que está acontecendo.

E, em meio a isso, se publica uma pesquisa em que Dilma aparece bem cotada junto à população, como se o governo pelo qual responde desde janeiro, não fosse o responsável pela alta da inflação e má qualaidade dos serviços a que o Estado está obrigado a prestar!!!

É de se esperar que, esta parte da grande imprensa, que se deixa encantar pelas virtudes ocultas de uma governante que ainda não disse a que veio, saia logo deste torpor e passe a avaliar o governo Dilma pelos resultados que seu trabalho obtém, e não pelo discurso que não fez.

Um governo vale, sobretudo, pelos resultados. Dilma, rigorosamente nestes cem dias, não logrou alcançar nenhum. Portanto, não se poderá admitir este endeusamento da soberana apenas pelos defeitos que ela, em comparação à Lula, não os têm.

Além disto, Dilma precisaria começar seu governo exatamente do mesmo ponto em que Lula começou em 2003, quando conteve o impulso à gastança desenfreada. Dilma não pode é dar continuidade ao lado ruim do governo anterior, que foram seus dois últimos anos. Quanto mais insistir em não tornar seu governo parte da solução para os problemas econômicos deste início de mandato, mais tende a se comprometer mais adiante. Não será com a mentirosa propaganda que resolverá trazer as contas públicas ao indispensável equilíbrio à estabilidade. Não será com discurso mistificador que conseguirá evitar o descontrole nos preços.

Resumindo: no balanço destes cem dias de Dilma Presidente, o que temos é nada vezes nada. Já passa da hora dela dar rumo ao seu governo e começar a enfrentar os problemas que o país tem para resolver. E eles são muitos, mas sem projeto e uma equipe ao menos competente e qualificada, não conseguirá equacioná-los e lhes dar solução. O desejo é que estes cem dias sem nada, não se transformem em quatro anos inúteis.

Não há desarmamento capaz de deter a loucura

Adelson Elias Vasconcellos

A pior tragédia que um governante pode impor a um país é tentar aplicar soluções fáceis para problemas difíceis. O que aconteceu na escola no Realengo, Rio de Janeiro, é impossível de prever, é impossível até de evitar. É duro até a gente reconhecer uma verdade: há pessoas más, há pessoas que sentem prazer em matar, roubar, trair, envenenar, em machucar e ferir, e há entre estes alguns que o fazem por serem doentes mentais. Para aqueles que tem compulsão ao crime, o caminho não é desarmarar as pessoas de bem, é manter o bandido fora do convívio social, isto é, preso. Já para os doentes, mantê-los em clínicas especializados, ainda é o melhor caminho.  

São milhares de pessoas que possuem o mesmo histórico e perfil do Wellington e, nem por isso, saem por aí assassinando pessoas. Desarmar as pessoas boas resolverá a questão? Não, não resolverá. Pessoas com aquele perfil doentio, querendo, podem causar morticínios até com canivete.

Segundo dados do Ministério da Justiça, existiriam circulando no país cerca de 16 milhões de fogo. Deste total, projeta-se que 50% sejam ilegais – como se chega a tal número é mistério. Ora, dentro deste montante, existem milhares de armas que sequer são fabricadas no Brasil. São produto de contrabando via fronteiras secas e portos e aeroportos. E quase que sua totalidade é adquirida pela bandidagem. Campanha de desarmamento vai evitar que tais armas entrem e circulem no país?

O absurdo é haver “autoridades” no país imaginando que sim. A exemplo de José Sarney, por exemplo, ao qual se associam algumas ong’s. Seria a solução fácil para um problema difícil.

A questão banal é o comércio destas armas que se faz de forma livre e aberta. E a questão principal é o ingresso maciço de armas de grosso calibre via Paraguai e Bolívia. São nestes dois locais, principalmente, que deveriam concentrar-se os esforços de combate pela Polícia Federal. Até porque não se trata apenas de armas e munições, mas também de drogas. O diabo que isto dá trabalho e sua responsabilidade é da competência do governo federal.

Já combater o porte legal de armas pela população parece empurrar para a sociedade uma responsabilidade que é do Estado.

Atualmente, são mais de 50 mil homicídios por ano no país. Certo que sua maioria ocorre com armas de fogo, mas não porque existam armas de fogo. Ontem, a Folha noticiou que um homem, em plena Avenida Paulista, centro de São Paulo, foi brutalmente esfaqueado, assim como inúmeros outros crimes acontecem com o uso de facas e facões. Neste caso, vai se proibir a produção e comércio de facas e facões? Ora, seria tolo se imaginar que sim.

No Brasil, o porte legal de armas para ser obtido pelo cidadão comum, percorre uma via crucis das mais penosas, mais até que nos Estados Unidos. No entanto, nossa média de homicídios por 100 mil habitantes é o triplo. Apesar da campanha do desarmamento feita em 2005, portanto há apenas seis anos, os crimes aumentaram barbaramente, a exceção de São Paulo cujo índice se equivale ao recomendado em países de primeiro mundo, e Rio de Janeiro, que caiu um pouco, mas mantém-se em 30 homicídios por 100 mil habitantes, o triplo do recomendado.

Quando políticos tentam impor estatísticas para justificarem campanhas de desarmamento, se utilizam de uma vigarice descomunal. Afirmam que a média de homicídios caiu no país após a campanha de 2006. Mentira. Se a média caiu no país foi por conta da média paulista que, de fato, despencou nos últimos anos. Mas esta queda tem se verificado não a partir de 2006, mas já há bem mais tempo. Além disto, a despeito de boa parte da imprensa, a segurança pública de São Paulo, aquela que cabe ao governo estadual, serve de exemplo e modelo de sucesso para o Brasil. Ocorre que ela se verifica sob um governo tucano, portanto, a má vontade desta ala jornalística pró-petismo, não apenas é parcial em seu julgamento, mas o faz sempre partindo do conceito de que qualquer governo que não seja petista é ruim.

Portanto, por mais segurança que se coloque nas portas das escolas, por mais que se desarmem as pessoas de bem, casos como o de Wellington são imprevisíveis e quase até inevitáveis. Por quê? Por conta de sua loucura. Ah, e por quê ele não está internado? Porque no país se adotou a prática de que lugar de louco é lugar nenhum, ou seja, não pode criar clínica destinada a doentes mentais. Os loucos devem ficar livres para o exercício de sua loucura. E dá no que deu. Mas não pensem que este seja caso isolado como se tenta vender ao país. Com crianças e talvez pela quantidade de vítimas, sim. Mas pesquisem a vontade e vocês se defrontarão com inúmeros casos semelhantes. Um exemplo é o maluco que abriu fogo numa sala de cinema num shopping em São Paulo há poucos anos atrás.

O que não pode esconder é que a segurança pública no país foi simplesmente abandonada. Aquela estupidez que as esquerdas sempre defenderam de que o crime é derivado da má condição socioeconômica já vimos aqui mesmo, não passar de pura balela. Por que, então, no Nordeste, onde Lula jogou todas as suas fichas em programas sociais e houve a inclusão de milhões de pessoas, o crime cresceu assustadoramente nos últimos anos?

Quantos morrem por ano em acidentes nas estradas? Nem por isso alguém imagina uma lei para proibir a venda de carros. E é bom sempre lembrar que o Brasil também é fabricante de armas. Mesmo que sejam de menor porte, elas matam por igual. Alguém aí sugeriria que se fechasse as fábricas, por que o governo é incompetente para garantir a indispensável segurança aos cidadãos do país?

Uma coisa é certa: bandido bom é bandido preso e isto vale para qualquer sociedade que queira dar à sua população uma vida de saudável segurança. Pode até parecer simples, mas ainda é o melhor caminho. Enquanto o Brasil for tolerante com seus criminosos e delinquentes, é certo que os índices de violência se acentuarão em escala impressionante. Enquanto a segurança pública for vista com o desprezo e descaso com que nossas autoridades e governantes a tem tratado, não há solução fácil que dê jeito. E isto requer uma enorme mobilização de todos. Vai desde treinamento de policiais militares e civis, fortalecimentos em meios e salários para os agentes, modernização de presídios e aumento de sua capacidade, modernização de nosso regime de leis para tornar mais célere a punição aos criminosos, dentre outras ações urgentes e necessárias.

Durante seus oito anos de governo, Lula lançou – pasmem! – cinco grandes planos de segurança. A cada caso de grande comoção nacional, lá vinha um programa que resolveria todos os nossos males.

Contudo, por se tratar de programas para impressionar à torcida, permaneceram no papel e a violência no país só fez aumentar. Está na hora de se lançar um programa sério e com metas específicas e que, mais do que seu lançamento em solenidades festivas e caras com toques eleitoreiros, é preciso sair do papel para a prática do dia-a-dia. Ou é isto, ou assistiremos dentro em pouco novas tragédias que comoverão o país. E uma sugestão: a segurança pública cumprirá sua função no dia em que os governantes se conscientizarem que seus resultados são produto de TRABALHO. E trabalho cotidiano e sem tolerância com a transgressão às leis. E isto vale para todas as camadas socioeconômicas da população, a começar, principalmente, pela tolerância que se tem com os crimes cometidos no seio dos próprios governos. E não serão campanhas de desarmamento, ou a criação de Leis do Fica Limpa que resolverão nossos males. Não há milagres, há trabalho a ser feito. Basta ter boa vontade em fazer o que deve ser feito, sem concessões de espécie alguma. Ser bandido é uma escolha pessoal: puni-lo conforme a lei prevê é obrigação do Estado.

O casamento da ignorância com a mistificação

Reinaldo Azevedo

Por que, de súbito, tantos bacanas e “progressistas” se entregam à tese exótica de que a tragédia na escola do Rio, protagonizada por um desequilibrado — obcecado, vê-se, quando menos, pela estética do terror —, pede o desarmamento da sociedade, entendendo-se por isso, como resta óbvio, não o desarmamento dos bandidos, mas o do homem comum?

Não conseguem explicar a sua tese por meio da lógica; não conseguem estabelecer um liame histórico entre uma coisa e outra; não conseguem apresentar números, pesquisas, dados que abonem sua teoria; não se dão ao trabalho de justificar nem mesmo moralmente essa opção. Basta-lhes, como a gente nota, o dito bom sentimento, que não dispensa nem mesmo o suposto caráter didático, tragicamente pedagógico (para eles), do massacre. Certo senhor da tal entidade Viva Rio — que opina sobre Copa do Mundo, Olimpíada, violência e unha encravada — acredita que se pode fazer uma limonada do sangue dos infantes.

É uma gente infame, incapaz de argumentar com um mínimo de coerência, animada por vigaristas intelectuais que se negam a reconhecer o óbvio: violência se combate com polícia na rua — segundo a lei; não segundo o arbítrio —, enfrentando bandidos, prendendo-os, impondo a rotina da ordem em que escolheu viver a esmagadora maioria das pessoas, razão pela qual AS PESSOAS QUE ESCOLHERAM SER BANDIDAS têm de ser retiradas do convívio social. Mas é nesse ponto que bicho pega.

As esquerdas — as de hoje —, lá no fundo de sua alma perturbada, acreditam que o bandido é só um revolucionário que não deu certo, entendem?, um proto-rebelde. Vocês conhecem a atração que os marginais exercem em certa intelligentsia descolada. Houve um que achegou até a ser adotado por um banqueiro. Era o Rousseau do Comando Vermelho; o intelectual orgânico da pistola e do tráfico de drogas. Apostava-se nele para produzir um outro saber, alternativo, que não estivesse mascarado pelos interesses dessa sociedade burguesa e mesquinha…

Não é que essa gente considere a sério que os bandidos farão revolução um dia — porque isso, de fato, ninguém quer. Sabem que não acontecerá. É que esses caras precisam ter a certeza de que vivem na boa consciência; de que se distinguem dessa classe média abestada que paga impostos, que produz o pão que garante o circo. Em 2005, identifiquei direitinho o que queria a turma que disse “sim” no referendo sobre a proibição da venda legal de armas: criar a “aristocracia da bala”, já que só a alguns selecionados seria dada a licença para portar armas — empresas privadas de segurança de artistas e políticos, por exemplo. Ou como disse o leitor “Jokha”, num comentário: “Daqui a pouco ,o governo do PT vai aprovar uma lei que só permitirá porte de arma a quem possuir passaporte diplomático.” Na mosca! Especialmente a quem possui passaporte dipomático e… ilegal!

Esse amor “desarmamentista” da esquerda é coisa recente, bem como essa paixão pela bandidagem. Lênin mandava passar fogo na turma, não porque fosse um moralista — ele mandava matar, antes de tudo, gente boa —, mas porque bandido era contra-revolucionário, entenderam? Os esquerdistas modernos é que descobriram o potencial transformador do crime e passaram a flertar com ele, até que se tornasse uma verdadeira “cultura”.

Quanto às armas, dizer o quê? Era mais importante para os esquerdistas do que o Capítulo XXIV de “O Capital”. Como ler Marx era difícil e chato — consta que Dilma dava aula de marxismo quando moça… Jesus! —, preferiam a metranca. Hoje em dia, as esquerdas se fizeram pacifistas, entendendo-se por isso, obviamente, tirar as armas da mão de quem não é nem revolucionário nem bandido. É… De certo modo, não mudaram. Continuam sem ler o Capítulo XXIV…

É o casamento da ignorância com a mistificação.

O testemunho e a indignação de uma leitora
Uma leitora que se assina “Brasileira” escreve o que segue:

Meu cunhado matou minha irmã usando álcool e um palito de fósforos, e há treze anos esperamos por justiça. Morreremos todos, e ela não chegará. Haverá um referendo proibindo a venda de álcool, gasolina, fósforos ou qualquer produto inflamável?

Será este o caminho? Não seria melhor ter leis mais rigorosas, em que assassinos fossem mesmo para a cadeia, sem indulto, sem regalias, sem redução da pena, com prisão perpétua para assassinatos e crimes hediondo?.

Por que Sarney, os “viva isto, viva aquilo”, os “sou da paz” não combatem a impunidade, exigindo dos parlamentares a reforma do Código Penal? A sociedade que eles dizem defender agradeceria.

Governo cinzento

Marco Antonio Villa, O Globo

Analisar a política brasileira não é tarefa fácil. Nada parece ser o que realmente é. O cenário sempre é confuso. Verdade e mentira se misturam facilmente. O diz que diz supera a discussão programática. Há um gosto especial pela fofoca, pela pequena política. As polêmicas tem a profundidade de um pires.

A presidente Dilma completou cem dias de mandato. É vista como um verdadeiro fenômeno. Elogiada por todos, até pela oposição. Todos louvam sua habilidade política e a capacidade gerencial. Alguns lamentam ter votado na oposição, tão eficiente é a sua gestão.

Contudo, ninguém consegue identificar algo relevante realizado pela presidente nestes cem dias. O que ela realizou de tão brilhante? Quais os projetos apresentados? E os resultados daqueles desenvolvidos desde 2003? Ninguém sabe, ninguém viu. Só os áulicos — e haja áulico como no Brasil — é que saúdam o nada, o vazio. Pior, o governo revelou incapacidade e inoperância administrativas raramente vistas no Brasil.

Vamos aos fatos. Nos últimos três anos cresceu a demanda por etanol em mais de 70%. Já a oferta cresceu cerca de 20%. O resultado só poderia ser este a que estamos assistindo: desabastecimento somado com uma disparada nos preços. Frente à grave situação, o governo resolveu importar etanol e aumentar a adição de água. Convenhamos, é inacreditável. A presidente tem quatro ministérios que poderiam ter observado esse problema no seu nascedouro: Minas e Energia, Agricultura, Planejamento, além da Secretaria de Assuntos Estratégicos. Claro que esses ministros não se destacam pela competência, vivacidade, brilho e conhecimento das áreas pelas quais são responsáveis. Mas não é um problema nosso. Qualquer pessoa sensata não convidaria Edison Lobão sequer para tomar um café; mas a presidente o convidou para gerir um dos ministérios mais importantes do seu governo. As grandes obras civis do PAC são um fracasso. Os episódios de Jirau foram a gota- d’agua. Das poucas obras que estão sendo realizadas, todas estão com os cronogramas atrasados, o que aumenta ainda mais os custos, além de deixar de apresentar resultados no prazo estipulado. A infraestrutura do país está em frangalhos. Nada funciona a contento. Todos os principais portos têm graves problemas. As estradas de rodagem federais estão abandonadas. Basta uma chuva para que desabem dezenas de pontes, criando sérios obstáculos à circulação de pessoas e mercadorias.

A economia está sem direção. A meta da inflação de 2010 foi superada, e a de 2011 — ainda em março — foi considerada pelo BC como inviável. Portanto, teremos dois anos (alguns estimam também que em 2012 o fato vai se repetir) com as metas estouradas. A presidente assiste passivamente à disparada dos preços e à retomada paulatina da indexação. Vê dentro do próprio Palácio uma guerra surda contra o titular da Fazenda. Nada faz. No fundo, até gostaria de rapidamente se livrar de um ministro que não foi escolhido por ela. No Brasil presidencialista, o Ministério é formado por imposições (não indicações) de oligarcas e, como no caso atual, por solicitações pessoais do ex-presidente Lula.

Os programas sociais patinam. “Minha Casa, Minha Vida” não conseguiu atingir sequer 20% da meta. Mesmo assim, demonstrando enorme eficácia propagandista, foi lançada a segunda etapa, isto quando faltam entregar 80% das casas da fase anterior.

E a Educação e Ciência e Tecnologia? Como é possível desejar ser um país emergente com os péssimos indicadores nestas duas áreas? Faltam verbas e, inegável reconhecer, faltam gestores. Os dois ministros são ruins. O que foi planejado nestes cem dias? Quais os passos dados para alcançar as metas? O Brasil comemora ser sede de uma Copa do Mundo. Claro que é bom, mas quando comemoraremos um Prêmio Nobel de Física?

Falando em Copa do Mundo, é notável a incompetência dos gestores, especialmente do ministro Orlando Silva. Tudo caminha para o improviso e para a realização de obras com licitações duvidosas, justificadas pela necessidade do evento cumprir o cronograma. Quaisquer crítica ou denúncia serão consideradas impatrióticas, claro. Silva, ainda nos vemos, mas onde está o titular do Turismo? Em São Luís? Como é mesmo o nome dele?

A ineficácia governamental é evidente. A máquina está inchada. Virou (e já faz algum tempo) instrumento de apresamento partidário. A quantidade de ministérios é tão grande que a presidente não deve se lembrar de todos. Mas, não satisfeita com a estrutura herdada de Lula, resolveu deixar a sua marca: criou mais um ministério, o das Pequenas Empresas. Mesmo assim não ficou plenamente satisfeita: vai criar mais um, o da Aviação Civil. Somos, entre as democracias ocidentais, o país que tem o maior número de ministérios.

Deveríamos ter um planejamento estratégico. Mas como tê-lo tendo à frente da secretaria Moreira Franco? Como falar em planejamento, se o ministério que leva este nome só faz o orçamento (e mal, como vimos, com os cortes de 50 bilhões)? Como pensar e bem planejar o futuro?

O país vai caminhando como um avião com piloto automático. Não deverá ocorrer alguma bobagem, mas também não haverá nenhuma ousadia. Faremos a lição como um aluno bem comportado, como aqueles que não pensam, mas reproduzem docilmente às solicitações da professora. Estamos perdendo um tempo precioso. O Brasil pode aproveitar muito bem suas potencialidades, ser ousado. Deixar de lado elogios baratos é um bom começo. Reconhecer que o governo é cinzento revela somente realismo.

A ignorância nacional é não saber ler

Comentando a Notícia
Um dos males que acomete um país bananeiro, é a eterna mania de seus intelectuais e políticos se expressarem sobre coisas que não foram ditas e escritas. Assim, quando expressam opiniões, em geral, elas são muito mais fruto de sua própria opinião, daquilo que entendem que deveria ter sido dito ou escrito.

No Brasil, isto se tornou uma chaga. Como temos a predileção em aplicar rótulos às pessoas, e fazemos destes rótulos nossa via ou canal de entendimento, mesmo o que não foi dito ou escrito acaba se tornando a versão “oficial”.

É o caso do excelente texto escrito pelo ex-presidente Fernando Henrique. Que a turma da esquerda se comporte como delinquente moral e intelectual, até entendo. Eles não perdoam, por exemplo, que tenha sido FHC o presidente da estabilidade econômica, institucional e até social do país. Lula passou oito anos negando a obra que recebeu pronta e acabada. FHC sempre foi sua obsessão.

Contudo, o mesmo não se poderia esperar dos tucanos. Aliás, a anarquia institucional que vive o país é fruto direto desta incompetência dos tucanos - não só eles, mas eles, principalmente -, em terem a exata noção do papel que ocupam na sociedade e o que deles se espera.

Sabemos que é a atuação firme de uma oposição forte que legitima a democracias. Nas ditaduras o espaço do “sim, senhor” é permanente. O que ali não existe, de jeito nenhum, é a turma do “não”. Se existir, ou vai preso ou é executado, sumariamente.

Pois bem, FHC escreveu um excelente texto onde descreve, de forma apropriada, sem meias palavras, mas com elegância, qual deveria ser o papel de uma oposição digna do nome e até da representatividade que carrega. O que se viu foi o seguinte: os governistas logo se indispuseram a falar mal do texto. Até aí, tudo dentro da normalidade. Mas os tucanos, Aécio Neves – o príncipe e Minas -- , principalmente, se desatou numa ladainha de dar dó. Contudo, entre o que disse o mineiro e o texto de FHC, fica-se com a impressão de que Aécio critica um texto, enquanto o ex-presidente escreveu outro.

Já critiquei o senador mineiro e vou continuar a fazê-lo enquanto ele se comportar com esta altivez de boteco. Nada é mais ridícula do que esta postura de aristocrata falido, que tenta manter a aparência de bom e rico fidalgo, mas se escondendo dos credores que lhe batem à porta...

Oposição é oposição. Ponto. Não há como se criar alguma coisa meio-termo, meia boca, do tipo “oposição responsável” ou “oposição construtiva”. É claro que o PT enquanto foi oposição, simplesmente se negou, em TODOS os importantes momentos da vida nacional, a se fazer presente. Negou tudo, desde um apoio puramente burocrático, institucional, até a participar com ideias alternativas. Porém, no poder, passou a agir em sentido oposto, cobrando o adesismo dos que estavam na oposição. E o pior é que gente como Aécio parecem acreditar nesta cantilena.

Para Aécio pensar na hora dormir: por que será que o PT, com sua oposição xiita, vai para doze ou mais anos no poder, enquanto os tucanos sequer acharam o discurso? Ah, uma sugestão: Aécio, antes de criticar apressadamente o artigo, leia-o na íntegra, e não apenas um resuminho mambembe, feito por assessores semianalfabetos. Quem quer ser “presidente” não pode se guiar apenas por aparências e nada mais.

A seguir, o excelente artigo do ex-presidente Fernando Henrique. Apesar de longo, vale a leitura.

*****

Há muitos anos, na década de 1970, escrevi um artigo com o título acima no jornal Opinião, que pertencia à chamada imprensa “nanica”, mas era influente. Referia-me ao papel do MDB e das oposições não institucionais. Na época, me parecia ser necessário reforçar a frente única antiautoritária e eu conclamava as esquerdas não armadas, sobretudo as universitárias, a se unirem com um objetivo claro: apoiar a luta do MDB no Congresso e mobilizar a sociedade pela democracia.

Só dez anos depois a sociedade passou a atuar mais diretamente em favor dos objetivos pregados pela oposição, aos quais se somaram também palavras de ordem econômicas, como o fim do “arrocho” salarial.

No entretempo, vivia-se no embalo do crescimento econômico e da aceitação popular dos generais presidentes, sendo que o mais criticado pelas oposições, em função do aumento de práticas repressivas, o general Médici, foi o mais popular: 75% de aprovação.

Não obstante, não desanimávamos. Graças à persistência de algumas vozes, como a de Ulisses Guimarães, às inquietações sociais manifestadas pelas greves do final da década e ao aproveitamento pelos opositores de toda brecha que os atropelos do exercício do governo, ou as dificuldades da economia proporcionaram (como as crises do petróleo, o aumento da dívida externa e a inflação), as oposições não calavam. Em 1974, o MDB até alcançou expressiva vitória eleitoral em pleno regime autoritário.

Por que escrevo isso novamente, 35 anos depois?

Para recordar que cabe às oposições, como é óbvio e quase ridículo de escrever, se oporem ao governo. Mas para tal precisam afirmar posições, pois, se não falam em nome de alguma causa, alguma política e alguns valores, as vozes se perdem no burburinho das maledicências diárias sem chegar aos ouvidos do povo. Todas as vozes se confundem e não faltará quem diga - pois dizem mesmo sem ser certo - que todos, governo e oposição, são farinhas do mesmo saco, no fundo “políticos”. E o que se pode esperar dos políticos, pensa o povo, senão a busca de vantagens pessoais, quando não clientelismo e corrupção?

Diante do autoritarismo era mais fácil fincar estacas em um terreno político e alvejar o outro lado. Na situação presente, as dificuldades são maiores. Isso graças à convergência entre dois processos não totalmente independentes: o “triunfo do capitalismo” entre nós (sob sua forma global, diga-se) e a adesão progressiva - no começo envergonhada e por fim mais deslavada - do petismo lulista à nova ordem e a suas ideologias.

Se a estes processos somarmos o efeito dissolvente que o carisma de Lula produziu nas instituições, as oposições têm de se situar politicamente em um quadro complexo.

Complexidade crescente a partir dos primeiros passos do governo Dilma que, com estilo até agora contrastante com o do antecessor, pode envolver parte das classes médias. Estas, a despeito dos êxitos econômicos e da publicidade desbragada do governo anterior, mantiveram certa reserva diante de Lula. Esta reserva pode diminuir com relação ao governo atual se ele, seja por que razão for, comportar-se de maneira distinta do governo anterior.

É cedo para avaliar a consistência de mudanças no estilo de governar da presidente Dilma. Estamos no início do mandato e os sinais de novos rumos dados até agora são insuficientes para avaliar o percurso futuro.

É preciso refazer caminhos
Antes de especificar estes argumentos, esclareço que a maior complexidade para as oposições se firmarem no quadro atual - comparando com o que ocorreu no regime autoritário, e mesmo com o petismo durante meu governo, pois o PT mantinha uma retórica semianticapitalista - não diminui a importância de fincar a oposição no terreno político e dos valores, para que não se perca no oportunismo nem perca eficácia e sentido, aumentando o desânimo que leva à inação.

É preciso, portanto, refazer caminhos, a começar pelo reconhecimento da derrota: uma oposição que perde três disputas presidenciais não pode se acomodar com a falta de autocrítica e insistir em escusas que jogam a responsabilidade pelos fracassos no terreno “do outro”. Não estou, portanto, utilizando o que disse acima para justificar certa perplexidade das oposições, mas para situar melhor o campo no qual se devem mover.

Se as forças governistas foram capazes de mudar camaleonicamente a ponto de reivindicarem o terem construído a estabilidade financeira e a abertura da economia, formando os “campeões nacionais” - as empresas que se globalizam - isso se deu porque as oposições minimizaram a capacidade de contorcionismo do PT, que começou com a Carta aos Brasileiros de junho de 1994 e se desnudou quando Lula foi simultaneamente ao Fórum Social de Porto Alegre e a Davos.

Era o sinal de “adeus às armas”: socialismo só para enganar trouxas, nacional–desenvolvimentismo só como “etapa”. Uma tendência, contudo, não mudou, a do hegemonismo, ainda assim, aceitando aliados de cabresto.

Segmentos numerosos das oposições de hoje, mesmo no PSDB, aceitaram a modernização representada pelo governo FHC com dor de consciência, pois sentiam bater no coração as mensagens atrasadas do esquerdismo petista ou de sua leniência com o empreguismo estatal.

Não reivindicaram com força, por isso mesmo, os feitos da modernização econômica e do fortalecimento das instituições, fato muito bem exemplificado pela displicência em defender os êxitos da privatização ou as políticas saneadoras, ou de recusar com vigor a mentira repetida de que houve compra de votos pelo governo para a aprovação da emenda da reeleição, ou de denunciar atrasos institucionais, como a perda de autonomia e importância das agências reguladoras.

Da mesma maneira, só para dar mais alguns exemplos, o Proer e o Proes, graças aos quais o sistema financeiro se tornou mais sólido, foram solenemente ignorados, quando não estigmatizados. Os efeitos positivos da quebra dos monopólios, o do petróleo mais que qualquer outro, levando a Petrobras a competir e a atuar como empresa global e não como repartição pública, não foram reivindicados como êxitos do PSDB.

O estupendo sucesso da Vale, da Embraer ou das teles e da Rede Ferroviária sucumbiu no murmúrio maledicente de “privatarias” que não existiram. A política de valorização do salário mínimo, que se iniciou no governo Itamar Franco e se firmou no do PSDB, virou glória do petismo.

As políticas compensatórias iniciadas no governo do PSDB - as bolsas - que o próprio Lula acusava de serem esmolas e quase naufragaram no natimorto Fome Zero - voltaram a brilhar na boca de Lula, pai dos pobres, diante do silêncio da oposição e deslumbramento do país e… do mundo!

Não escrevo isso como lamúria, nem com a vã pretensão de imaginar que é hora de reivindicar feitos do governo peessedebista. Inês é morta, o passado… passou. Nem seria justo dizer que não houve nas oposições quem mencionasse com coragem muito do que fizemos e criticasse o lulismo.

As vozes dos setores mais vigorosos da oposição se estiolaram, entretanto, nos muros do Congresso e este perdeu força política e capacidade de ressonância. Os partidos se transformaram em clubes congressuais, abandonando as ruas; muitos parlamentares trocaram o exercício do poder no Congresso por um prato de lentilhas: a cada nova negociação para assegurar a “governabilidade”, mais vantagens recebem os congressistas e menos força político-transformadora tem o Congresso.

Na medida em que a maioria dos partidos e dos parlamentares foi entrando no jogo de fazer emendas ao orçamento (para beneficiar suas regiões, interesses - legítimos ou não - de entidades e, por fim, sua reeleição), o Congresso foi perdendo relevância e poder.

Consequentemente, as vozes parlamentares, em especial as de oposição, que são as que mais precisam da instituição parlamentar para que seu brado seja escutado, perderam ressonância na sociedade.

Com a aceitação sem protesto do “modo lulista de governar” por meio de medidas provisórias, para que serve o Congresso senão para chancelar decisões do Executivo e receber benesses? Principalmente, quando muitos congressistas estão dispostos a fazer o papel de maioria obediente a troco da liberação pelo Executivo das verbas de suas emendas, sem esquecer que alguns oposicionistas embarcam na mesma canoa.

Ironicamente, uma importante modificação institucional, a descentralização da ação executiva federal, estabelecida na Constituição de 1988 e consubstanciada desde os governos Itamar Franco e FHC, diluiu sua efetividade técnico–administrativa em uma pletora de recursos orçamentários “carimbados”, isto é, de orientação político-clientelista definida, acarretando sujeição ao Poder Central, ou, melhor, a quem o simboliza pessoalmente e ao partido hegemônico.

Neste sentido, diminuiu o papel político dos governadores, bastião do oposicionismo em estados importantes, pois a relação entre prefeituras e governo federal saltou os governos estaduais e passou a se dar mais diretamente com a presidência da República, por meio de uma secretaria especial colada ao gabinete presidencial.

Como, por outra parte, existe - ou existiu até a pouco - certa folga fiscal e a sociedade passa por período de intensa mobilidade social movida pelo dinamismo da economia internacional e pelas políticas de expansão do mercado interno que geram emprego, o desfazimento institucional produzido pelo lulismo e a difusão de práticas clientelísticas e corruptoras foram sendo absorvidos, diante da indiferença da sociedade.

Na época do mensalão, houve um início de desvendamento do novo Sistema (com S maiúsculo, como se escrevia para descrever o modelo político criado pelos governos militares).

Então, ainda havia indignação diante das denúncias que a mídia fazia e os partidos ecoavam no Parlamento. Pouco a pouco, embora a mídia continue a fazer denúncias, a própria opinião pública, isto é, os setores da opinião nacional que recebem informações, como que se anestesiou. Os cidadãos cansaram de ouvir tanto horror perante os céus sem que nada mude. Diante deste quadro, o que podem fazer as oposições?

Definir o público a ser alcançado
Em primeiro lugar, não manter ilusões: é pouco o que os partidos podem fazer para que a voz de seus parlamentares alcance a sociedade.

É preciso que as oposições se deem conta de que existe um público distinto do que se prende ao jogo político tradicional e ao que é mais atingido pelos mecanismos governamentais de difusão televisiva e midiática em geral.

As oposições se baseiam em partidos não propriamente mobilizadores de massas. A definição de qual é o outro público a ser alcançado pelas oposições e como fazer para chegar até ele e ampliar a audiência crítica é fundamental.

Enquanto o PSDB e seus aliados persistirem em disputar com o PT influência sobre os “movimentos sociais” ou o “povão”, isto é, sobre as massas carentes e pouco informadas, falarão sozinhos. Isto porque o governo “aparelhou”, cooptou com benesses e recursos as principais centrais sindicais e os movimentos organizados da sociedade civil e dispõe de mecanismos de concessão de benesses às massas carentes mais eficazes do que a palavra dos oposicionistas, além da influência que exerce na mídia com as verbas publicitárias.

Sendo assim, dirão os céticos, as oposições estão perdidas, pois não atingem a maioria. Só que a realidade não é bem essa. Existe toda uma gama de classes médias, de novas classes possuidoras (empresários de novo tipo e mais jovens), de profissionais das atividades contemporâneas ligadas à ti (tecnologia da informação) e ao entretenimento, aos novos serviços espalhados pelo Brasil afora, às quais se soma o que vem sendo chamado sem muita precisão de “classe c” ou de nova classe média.

Digo imprecisamente porque a definição de classe social não se limita às categorias de renda (a elas se somam educação, redes sociais de conexão, prestígio social, etc.), mas não para negar a extensão e a importância do fenômeno. Pois bem, a imensa maioria destes grupos - sem excluir as camadas de trabalhadores urbanos já integrados ao mercado capitalista - está ausente do jogo político-partidário, mas não desconectada das redes de internet, Facebook, YouTube, Twitter, etc.

É a estes que as oposições devem dirigir suas mensagens prioritariamente, sobretudo no período entre as eleições, quando os partidos falam para si mesmo, no Congresso e nos governos. Se houver ousadia, os partidos de oposição podem organizar-se pelos meios eletrônicos, dando vida não a diretórios burocráticos, mas a debates verdadeiros sobre os temas de interesse dessas camadas.

Mas não é só isso: as oposições precisam voltar às salas universitárias, às inúmeras redes de palestras e que se propagam pelo país afora e não devem, obviamente, desacreditar do papel da mídia tradicional: com toda a modernização tecnológica, sem a sanção derivada da confiabilidade, que só a tradição da grande mídia assegura, tampouco as mensagens, mesmo que difundidas, se transformam em marcas reconhecidas.

Além da persistência e ampliação destas práticas, é preciso buscar novas formas de atuação para que a oposição esteja presente, ou pelo menos para que entenda e repercuta o que ocorre na sociedade. Há inúmeras organizações de bairro, um sem-número de grupos musicais e culturais nas periferias das grandes cidades, etc., organizações voluntárias de solidariedade e de protesto, redes de consumidores, ativistas do meio ambiente, e por aí vai, que atuam por conta própria.

Dado o anacronismo das instituições político-partidárias, seria talvez pedir muito aos partidos que mergulhem na vida cotidiana e tenham ligações orgânicas com grupos que expressam as dificuldades e anseios do homem comum. Mas que pelo menos ouçam suas vozes e atuem em consonância com elas.

Não deve existir uma separação radical entre o mundo da política e a vida cotidiana, nem muito menos entre valores e interesses práticos.

No mundo interconectado de hoje, vê-se, por exemplo, o que ocorre com as revoluções no meio islâmico, movimentos protestatórios irrompem sem uma ligação formal com a política tradicional. Talvez as discussões sobre os meandros do poder não interessem ao povo no dia-a-dia tanto quanto os efeitos devastadores das enchentes ou o sufoco de um trânsito que não anda nas grandes cidades. Mas, de repente, se dá um “curto-circuito” e o que parecia não ser “política” se politiza. Não foi o que ocorreu nas eleições de 1974 ou na campanha das “diretas já”?

Nestes momentos, o pragmatismo de quem luta para sobreviver no dia-a-dia lidando com questões “concretas” se empolga com crenças e valores. O discurso, noutros termos, não pode ser apenas o institucional, tem de ser o do cotidiano, mas não desligado de valores. Obviamente em nosso caso, o de uma democracia, não estou pensando em movimentos contra a ordem política global, mas em aspirações que a própria sociedade gera e que os partidos precisam estar preparados para que, se não os tiverem suscitado por sua desconexão, possam senti-los e encaminhá-los na direção política desejada.

Seria erro fatal imaginar, por exemplo, que o discurso “moralista” é coisa de elite à moda da antiga UDN. A corrupção continua a ter o repúdio não só das classes médias como de boa parte da população. Na última campanha eleitoral, o momento de maior crescimento da candidatura Serra e de aproximação aos resultados obtidos pela candidata governista foi quando veio à tona o “episódio Erenice”.

Mas é preciso ter coragem de dar o nome aos bois e vincular a “falha moral” a seus resultados práticos, negativos para a população. Mais ainda: é preciso persistir, repetir a crítica, ao estilo do “beba Coca Cola” dos publicitários. Não se trata de dar-nos por satisfeitos, à moda de demonstrar um teorema e escrever “cqd”, como queríamos demonstrar.

Seres humanos não atuam por motivos meramente racionais. Sem a teatralização que leve à emoção, a crítica - moralista ou outra qualquer- cai no vazio. Sem Roberto Jefferson não teria havido mensalão como fato político.

Qual é a mensagem?
Por certo, os oposicionistas para serem ouvidos precisam ter o que dizer. Não basta criar um público, uma audiência e um estilo, o conteúdo da mensagem é fundamental. Qual é a mensagem? O maior equívoco das oposições, especialmente do PSDB, foi o de haver posto à margem as mensagens de modernização, de aggiornamento do País, e de clara defesa de uma sociedade democrática comprometida com causas universais, como os direitos humanos e a luta contra a opressão, mesmo quando esta vem mascarada de progressismo, apoiada em políticas de distribuição de rendas e de identificação das massas com o Chefe.

Nas modernas sociedades democráticas, por outro lado, o Estado tanto mantém funções na regulação da economia como em sua indução, podendo chegar a exercer papel como investidor direto. Mas o que caracteriza o Estado em uma sociedade de massas madura é sua ação democratizadora.

Os governos devem tornar claros, transparentes, e o quanto possível imunes à corrupção, os mecanismos econômicos que cria para apoiar o desenvolvimento da economia. Um Estado moderno será julgado por sua eficiência para ampliar o acesso à educação, à saúde e à previdência social, bem como pela qualidade da segurança que oferece às pessoas.Cabe às oposições serem a vanguarda nas lutas por estes objetivos.

Defender o papel crescente do Estado nas sociedades democráticas, inclusive em áreas produtivas, não é contraditório com a defesa da economia de mercado. Pelo contrário, é preciso que a oposição diga alto e bom som que os mecanismos de mercado, a competição, as regras jurídicas e a transparência das decisões são fundamentais para o Brasil se modernizar, crescer economicamente e se desenvolver como sociedade democrática.

Uma sociedade democrática amadurecida estará sempre comprometida com a defesa dos direitos humanos, com a ecologia e com o combate à miséria e às doenças, no país e em toda a parte. E compreende que a ação isolada do Estado, sem a participação da sociedade, inclusive dos setores produtivos privados, é insuficiente para gerar o bem-estar da população e oferecer bases sólidas para um desenvolvimento econômico sustentado.

Ao invés de se aferrarem a esses valores e políticas que lhes eram próprios como ideologia e como prática, as oposições abriram espaço para que o lulopetismo ocupasse a cena da modernização econômica e social. Só que eles têm os pés de barro: a cada instante proclamam que as privatizações “do PSDB” foram contra a economia do País, embora comecem a fazer descaradamente concessões de serviços públicos nas estradas e nos aeroportos, como se não estivessem fazendo na prática o mea-culpa.

Cabe às oposições não apenas desmascarar o cinismo, mas, sobretudo, cobrar o atraso do País: onde está a infraestrutura que ficou bloqueada em seus avanços pelo temor de apelar à participação da iniciativa privada nos portos, nos aeroportos, na geração de energia e assim por diante?

Quão caro já estamos pagando pela ineficiência de agências reguladoras entregues a sindicalistas “antiprivatizantes” ou a partidos clientelistas, como se tornou o PC d B, que além de vender benesses no ministério dos Esportes, embota a capacidade controladora da ANP, que deveria evitar que o monopólio voltasse por vias transversas e prejudicasse o futuro do País.

Oposição precisa vender o peixe
Dirão novamente os céticos que nada disso interessa diretamente ao povo. Ora, depende de como a oposição venda o peixe. Se tomarmos como alvo, por exemplo, o atraso nas obras necessárias para a realização da Copa e especializarmos três ou quatro parlamentares ou técnicos para martelar no dia-a-dia, nos discursos e na internet, o quanto não se avança nestas áreas por causa do burocratismo, do clientelismo, da corrupção ou simplesmente da viseira ideológica que impede a competição construtiva entre os setores privados e destes com os monopólios, e se mostrarmos à população como ela está sendo diretamente prejudicada pelo estilo petista de política, criticamos este estilo de governar, suscitamos o interesse popular e ao mesmo tempo oferecemos alternativas.

Na vida política tudo depende da capacidade de politizar o apelo e de dirigi-lo a quem possa ouvi-lo. Se gritarmos por todos os meios disponíveis que a dívida interna de R$ 1,69 trilhão (mostrando com exemplos ao que isto corresponde) é assustadora, que estamos pagando R$ 50 bilhões por ano para manter reservas elevadas em dólares, que pagamos a dívida (pequena) ao FMI sobre a qual incidiam juros moderados, trocando-a por dívidas em reais com juros enormes, se mostrarmos o quanto custa a cada contribuinte cada vez que o Tesouro transfere ao BNDES dinheiro que o governo não tem e por isso toma emprestado ao mercado pagando juros de 12% ao ano, para serem emprestados pelo BNDES a juros de 6% aos grandes empresários nacionais e estrangeiros, temos discurso para certas camadas da população.

Este discurso deve desvendar, ao mesmo tempo, o porquê do governo assim proceder: está criando um bloco de poder capitalista-burocrático que sufoca as empresas médias e pequenas e concentra renda.

Este tipo de política mostra descaso pelos interesses dos assalariados, dos pequenos produtores e profissionais liberais de tipo antigo e novo, setores que, em conjunto, custeiam as benesses concedidas ao grande capital com impostos que lhe são extraídos pelo governo.

O lulopetismo não está fortalecendo o capitalismo em uma sociedade democrática, mas sim o capitalismo monopolista e burocrático que fortalece privilégios e corporativismos.

Com argumentos muito mais fracos o petismo acusou o governo do PSDB quando, em fase de indispensável ajuste econômico, aumentou a dívida interna (ou, melhor, reconheceu os “esqueletos” compostos por dívidas passadas) e usou recursos da privatização - todos contabilizados - para reduzir seu crescimento. A dívida pública consolidada do governo lulista foi muito maior do que a herdada por este do governo passado e, no entanto, a opinião pública não tomou conhecimento do fato.

As oposições não foram capazes de politizar a questão. E o que está acontecendo agora quando o governo discute substituir o fator previdenciário, recurso de que o governo do PSDB lançou mão para mitigar os efeitos da derrota sofrida para estabelecer uma idade mínima de aposentadoria? Propondo a troca do fator previdenciário pela definição de… uma idade mínima de aposentadoria.

Petistas camaleões
Se os governistas são camaleões (ou, melhor, os petistas, pois boa parte dos governistas nem isso são: votavam com o governo no passado e continuam a votar hoje, como votarão amanhã, em vez de saudá-los porque se aproximam da racionalidade ou de votarmos contra esta mesma racionalidade, negando nossas crenças de ontem, devemos manter a coerência e denunciar as falsidades ideológicas e o estilo de política de mistificação dos fatos, tantas vezes sustentado pelo petismo.

São inumeráveis os exemplos sobre como manter princípios e atuar como uma oposição coerente. Mesmo na questão dos impostos, quando o PSDB e o DEM junto com o PPS ajudaram a derrubar a CPMF, mostraram que, coerentes, dispensaram aquele imposto porque ele já não era mais necessário, como ficou demonstrado pelo contínuo aumento da receita depois de sua supressão.

É preciso continuar a fazer oposição à continuidade do aumento de impostos para custear a máquina público-partidária e o capitalismo burocrático dos novos dinossauros. É possível mostrar o quanto pesa no bolso do povo cada despesa feita para custear a máquina público-partidária e manter o capitalismo burocrático dos novos dinossauros. E para ser coerente, a oposição deve lutar desde já pela redução drástica do número de cargos em comissão, nomeados discricionariamente, bem como pelo estabelecimento de um número máximo de ministérios e secretarias especiais, para conter a fúria de apadrinhamento e de conchavos partidários à custa do povo.

Em suma: não há oposição sem “lado”. Mais do que ser de um partido, é preciso “tomar partido”.

É isso que a sociedade civil faz nas mais distintas matérias. O que o PSDB pensa sobre liberdade e pluralidade religiosa? Como manter a independência do Estado laico e, ao mesmo tempo, prestigiar e respeitar as religiões que formam redes de coesão social, essenciais para a vida em sociedade? O que pensa o partido sobre o combate às drogas? É preciso ser claro e sincero: todas as drogas causam danos, embora de alcance diferente. Adianta botar na cadeia os drogados?

Sinceridade comove a população
Há casos nos quais a regulação vale mais que a proibição: veja-se o tabaco e o álcool, ambos extremadamente daninhos. São não apenas regulados em sua venda e uso (por exemplo, é proibido fumar em locais fechados ou beber depois de uma festa e guiar automóveis) como estigmatizados por campanhas publicitárias, pela ação de governos e das famílias.

Não seria o caso de fazer a mesma coisa com a maconha, embora não com as demais drogas muito mais danosas, e concentrar o fogo policial no combate aos traficantes das drogas pesadas e de armas? Se disso ainda não estivermos convencidos, pelo menos não fujamos à discussão, que já corre solta na sociedade. Sejamos sinceros: é a sinceridade que comove a população e não a hipocrisia que pretende não ver o óbvio.

Se a regra é ser sincero, por que temer ir fundo e avaliar o que nós próprios fizemos no passado, acreditando estar certos, e que continua sendo feito, mas que requer uma revisão?

Tome-se o exemplo da reforma agrária e dos programas de incentivo à economia familiar.

Fomos nós do PSDB que recriamos o Ministério da Reforma Agrária e, pela primeira vez, criamos um mecanismo de financiamento da agricultura familiar, o Pronaf. Nenhum governo fez mais em matéria de acesso à terra do que o do PSDB quando a pasta da Reforma era dirigida por um membro do PPS.

Não terá chegado a hora de avaliar os resultados? O Pronaf não estará se transformando em mecanismo de perpétua renovação de dívidas, como os grandes agricultores faziam no passado com suas dívidas no Banco do Brasil? Qual é o balanço dos resultados da reforma agrária? E as acusações de “aparelhamento” da burocracia pelo PT e pelo MST são de fato verdadeiras?

Sem que a oposição afirme precipitadamente que tudo isso vai mal - o que pode não ser correto - não pode temer buscar a verdade dos fatos, avaliar, julgar e criticar para corrigir.

Existe matéria em abundância para manter os princípios e para ir fundo nas críticas sem temer a acusação injusta de que se está defendendo “a elite”. Mas política não é tese universitária. É preciso estabelecer uma agenda. Geralmente esta é dada pelo governo. Ainda assim, usemo-la para concentrar esforços e dar foco, repetição e persistência à ação oposicionista.

Tomemos um exemplo, o da reforma política, tema que o governo afirma estar disposto a discutir. Pois bem, o PSDB tem posição firmada na matéria: é favorável ao voto distrital (misto ou puro, ainda é questão indefinida). Se é assim, por que não recusar de plano a proposta da “lista fechada”, que reforça a burocracia partidária, não diminui o personalismo (ou alguém duvida que se pedirão votos para a lista “do Lula”?) e separa mais ainda o eleitor dos representantes?

Compromisso com o voto digital
Não é preciso afincar uma posição de intransigência: mantenhamos o compromisso com o voto distrital, façamos a pregação.

Se não dispusermos de forças para que nossa tese ganhe, aceitemos apenas os melhoramentos óbvios no sistema atual: cláusula de desempenho (ou de barreira), proibição de coligações nas eleições proporcionais e regras de fidelidade partidária, ainda que para algumas destas medidas seja necessário mudança constitucional.

Deixemos para outra oportunidade a discussão sobre financiamento público das campanhas, pois sem a distritalização o custo para o contribuinte será enorme e não se impedirá o financiamento em “caixa preta” nem o abuso do poder econômico. Mas denunciemos o quanto de antidemocrático existe no voto em listas fechadas.

Em suma: não será esta uma boa agenda para a oposição firmar identidade, contrapor-se à tendência petista de tudo burocratizar e, ao mesmo tempo, não se encerrar em um puro negativismo aceitando modificações sensatas?

Por fim, retomando o que disse acima sobre o “triunfo do capitalismo”. O governo do PT e o próprio partido embarcaram, sem dizer, na adoração do bezerro de ouro. Mas, marcados pelos cacoetes do passado, não perceberam que o novo na fase contemporânea do capitalismo não é apenas a acumulação e o crescimento da economia.

Os grandes temas que se estão desenhando são outros e têm a ver com o interesse coletivo: como expandir a economia sem destroçar o meio ambiente, como assegurar direitos aos destituídos deles, não só pela obreza, mas pelas injustiças (desigualdades de gênero, de raça, de acesso à cultura)? Persistem preocupações antigas: como preservar a Paz em um mundo no qual há quem disponha da bomba nuclear?

A luta pela desnuclearização tem a ver com o sentido de um capitalismo cuja forma “selvagem” a sociedade democrática não aceita mais.

Esta nova postura é óbvia no caso da ecologia, pois o natural egoísmo dos Estados, na formulação clássica, se choca com a tese primeira, a da perpetuação da vida humana. O terror atômico e o aquecimento global põem por terra visões fincadas no terreno do nacional-estatismo arcaico.

Há um nacionalismo de novo tipo, democrático, aberto aos desafios do mundo e integrado nele, mas alerta aos interesses nacionais e populares. Convém redefinir, portanto, a noção do interesse nacional, mantendo-o persistente e alerta no que é próprio aos interesses do País, mas compatibilizando-o com os interesses da humanidade.

Estas formulações podem parecer abstratas, embora se traduzam no dia-a-dia: no Brasil, ninguém discute sobre qual o melhor modo de nossa presença no mundo: será pelo velho caminho armamentista, nuclearizando-nos, ou nossas imensas vantagens comparativas em outras áreas, entre elas as do chamado soft power, podem primar?

Por exemplo, nossa “plasticidade cultural mestiça”, a aceitação das diferenças raciais - sem que se neguem e combatam as desigualdades e preconceitos ainda existentes - não são um ganho em um mundo multipolar e multicultural? E a disponibilidade de uma matriz energética limpa, sem exageros de muitas usinas atômicas (sempre perigosas), bem como os avanços na tecnologia do etanol, não nos dão vantagens?

Por que não discutir, a partir daí, o ritmo em que exploraremos o pré-sal e as obscuras razões para a “estatização do risco e divisão do lucro” entre a Petrobras e as multinacionais por meio do sistema de partilha? São questões que não exploramos devidamente, ou cujas decisões estão longe de ser claramente compatíveis com o interesse nacional de longo prazo.

Falta de estratégia
Na verdade, falta-nos estratégia. Estratégia não é plano de ação: é o peso relativo que se dá às questões desafiadoras do futuro somado à definição de como as abordaremos. Que faremos neste novo mundo para competir com a China, com os Estados Unidos ou com quem mais seja? Como jogar com nossos recursos naturais (petróleo à frente) como fator de sucesso e poder sem sermos amanhã surpreendidos pelo predomínio de outras fontes de energia? E, acima de tudo, como transformar em políticas o anseio por uma “revolução educacional” que dê lugar à criatividade, à invenção e aos avanços das tecnologias do futuro?

A China, ao que parece, aprendeu as lições da última crise e está apostando na inovação, preparando-se para substituir as fontes tradicionais de energia, sobretudo o petróleo, de que não dispõe em quantidade suficiente para seu consumo crescente. E os próprios Estados Unidos, embora atônitos com os erros acumulados desde a gestão Bush, parecem capazes de continuar inovando, se conseguirem sair depressa da crise financeira que os engolfou.

De tudo isso o PT e seus governos falam, mas em ziguezague. As amarras a uma visão oposta, vinda de seu passado recente, os inibem para avançar mais. Não é hora das oposições serem mais afirmativas? E se por acaso, como insinuei no início deste artigo, houver divisões no próprio campo do petismo por causa da visão canhestra de muitos setores que apoiam o governo e de suas necessidades práticas o levarem a direções menos dogmáticas?

Neste caso, embora seja cedo para especular, terá a oposição inteireza e capacidade política para aproveitar as circunstâncias e acelerar a desagregação do antigo e apostar no novo, no fortalecimento de uma sociedade mais madura e democrática?

Engana-se quem pensar que basta manter a economia crescendo e oferecer ao povo a imagem de uma sociedade com mobilidade social.

Esta, ao ocorrer, aumenta as demandas tanto em termos práticos, de salários e condições de vida, como culturais. Em um mundo interconectado pelos modernos meios de comunicação o cidadão comum deseja saber mais, participar mais e avaliar por si se de fato as diferenças econômicas e sociais estão diminuindo.

Sem, entretanto, uma oposição que se oponha ao triunfalismo lulista, que coroa a alienação capitalista, desmistificando tudo o que seja mera justificativa publicitária do poder e chamando a atenção para os valores fundamentais da vida em uma sociedade democrática, só ocorrerão mudanças nas piores condições: quando a fagulha de alguma insatisfação produzir um curto-circuito. Mesmo este adiantará pouco se não houver à disposição uma alternativa viável de poder, um caminho preparado por lideranças nas quais a população confie.

No mundo contemporâneo este caminho não se constrói apenas por partidos políticos, nem se limita ao jogo institucional. Ele brota também da sociedade, de seus blogs, twitters, redes sociais, da mídia, das organizações da sociedade civil, enfim, é um processo coletivo. Não existe apenas uma oposição, a da arena institucional; existem vários focos de oposição, nas várias dimensões da sociedade.

Reitero: se as oposições institucionais não forem capazes de se ligar mais diretamente aos movimentos da vida, que pelo menos os ouçam e não tenham a pretensão de imaginar que pelo jogo congressual isolado alcançarão resultados significativos.

Os vários focos de insatisfação social, por sua vez, também podem se perder em demandas específicas a serem atendidas fragmentariamente pelo governo se não encontrarem canais institucionais que expressem sua vontade maior de transformação.

As oposições políticas, por fim, se nada ou pouco tiverem a ver com as múltiplas demandas do cotidiano, como acumularão forças para ganhar a sociedade?

Punhos de renda

Dora Kramer - O Estado de São Paulo

O senador Aécio Neves mostrou prestígio ao levar políticos em profusão para ouvi-lo no plenário do Senado, mas não conseguiu produzir o impacto nem o despertar da oposição que a tropa governista parecia esperar, muito menos deu razões ao governo para perder um segundo de seu sereno sono.

Tépido na forma e repetitivo no conteúdo, passando ao largo de questões essenciais para o exercício da oposição como a independência do Legislativo em relação ao Executivo, o discurso acabou proporcionando aos senadores aliados ao Palácio do Planalto uma oportunidade excelente de mostrar vigor e afinação.

Muito diferente das legislaturas anteriores quando, principalmente no primeiro mandato do ex-presidente Lula, a oposição fazia do Senado sua cidadela, ocupando a tribuna tardes a fio em ataques sem que aparecesse um senador para defender o governo.

Ontem à tarde o batalhão estava afiadíssimo: Aécio mal tinha subido à tribuna e a senadora Gleisi Hoffmann, do PT, pediu um aparte, concedido ao final assim como aos demais.

Concluída a fala em que Aécio pontuou sua disposição de se opor sem se confrontar com os adversários, os governistas apresentaram suas armas de defesa dos governos Lula e Dilma Rousseff sem o menor constrangimento de fazer isso em clima de franca confrontação.

Em meio a elogios à "elegância" e ao "equilíbrio" do discurso e sem disfarçar o alívio pela tepidez do opositor, a tropa governista atacou as privatizações, ironizou a tibieza do PSDB em defender o governo FH, acusou várias vezes Aécio de ter sido injusto com a gestão de Lula e, pela voz do senador Jorge Viana, ainda afirmou que o orador simbolizava a oposição que todo governo gostaria de ter.

Da parte dos oposicionistas, exaltações algo exageradas ao "brilhantismo" do pronunciamento "de estadista" e uma evidente avidez por alguém que os represente. E assim, independentemente de Aécio Neves reunir ou não os atributos necessários por avaliação exigente, o senador se apresentou e dessa forma foi recebido por governistas e oposicionistas.

Poucos, entre eles Pedro Taques, Marinor Brito e Demóstenes Torres, consideraram que a confrontação não é necessariamente um mal. Antes pode ser essencial à condução dos trabalhos de questionamentos doutrinários, programáticos, bastante mais inquietantes que a redução de alíquotas de impostos, transferência de gestão de estradas, revisão da Lei das Micro e Pequenas Empresas etc.

Temas importantes, mas nas circunstâncias em que a oposição precisa de mobilização política, liderança vigorosa, energia para recuperar o tempo perdido, encontrar o rumo para poder seguir adiante, o desempenho de Aécio deixou no ar um aroma de anticlímax.

Não por defeito, mas por ausência de um atributo pessoal que poderia ser chamado de borogodó de tribuna. Aécio não tem. Mário Covas tinha.

As saudações superlativas soaram artificiais, traduziram a avidez por um porto seguro onde os oposicionistas possam se agarrar, além de revelarem a amplitude amazônica do deserto de homens e ideias reinante na política nacional.

Grand finale.
Os oito anos de submissão do Itamaraty ao personalismo de Lula não renderam ao Brasil apenas derrotas políticas e comerciais no plano externo.

Internamente o resultado da gestão Celso Amorim produziu a trapalhada final, a dois dias do fim do mandato de Lula, da concessão de passaportes diplomáticos aos herdeiros da Silva agora obrigados a devolvê-los por ordem do Ministério Público.

Tivesse o agora ex-chanceler contido seu afã de adular o chefe, teria sido um vexame a menos.

Tacanha.
O mais esquisito é que tem gente que ainda considera que foi Roger Agnelli quem errou por não ter dado satisfação de seus atos como presidente da Vale ao então presidente Lula.

É típico da mentalidade jeca que assola o entorno do poder considerar "erro político" tudo o que desagrada ao Planalto.

'Economist': PSDB precisa 'mudar o disco' se quiser ser relevante

Eduardo Tavares, de Exame.com

Reportagem da revista britânica diz que, sem um líder definido e atravessando uma crise de identidade, o PSDB corre o risco de rachar se não repensar seus rumos

Agência Brasil
Da esquerda para a direita, Serra, Aécio e Alckmin:
enquanto nenhum tucano fala mais alto, indefinição
compromete estabilidade do PSDB, segundo a Economist

 
São Paulo - O início de uma das reportagens da edição revista britânica The Economist que chega às bancas nesta quinta-feira (7) lembra um documentário sobre a vida animal. "Os tucanos, segundo os brasileiros dizem, simplesmente não conseguem ficar juntos: aqueles bicos grandes ficam no caminho." Longe de ser uma piada infame, o parágrafo remete a duas crises que ameaçam o PSDB, atual partido protagonista da oposição no Brasil.

Uma delas é a crise de relacionamento entre seus membros mais influentes, a qual compromete a estabilidade do partido. A outra é uma crise de identidade. Longe de mostrar uma postura definida, segundo a revista, o partido tucano precisa mudar seu discurso atual e rever seus focos caso queira continuar sendo relevante na política nacional. Sem isso, corre o risco de se perder pelo caminho rumo às eleições presidenciais de 2014.

Os motivos da primeira crise, de acordo com a Economist, têm nome e sobrenome. José Serra, Geraldo Alckmin e Aécio Neves. Todos continuam sendo vistos como potenciais candidatos à presidência daqui a quatro anos - mesmo José Serra, considerado por muitos como fora do páreo depois da derrota para Dilma Rousseff no ano passado.

Enquanto o PSDB não define seu nome forte para a disputa de 2014, muitos temem que o partido rache se não se apressar a escolher entre um dos três. "Alckmin está tentando empurrar Serra para a candidatura à prefeitura de São Paulo em 2012. O atual prefeito, Gilberto Kassab, um amigo, está criando um novo partido que, segundo alguns pensam, poderia acomodar José Serra caso o PSDB não se curve à sua vontade. Se for deixado de lado novamente, Aécio Neves também poderia sair. Com ele, iriam as melhores chances do partido conquistar a presidência", diz o texto.

A Economist diz que quem é a favor de Serra ou Alckmin busca alento na trajetória do ex-presidente Lula, que só se tornou presidente na quarta tentativa. O problema, de acordo com a revista, é que, enquanto Lula corria para o alvo, o PT se esforçava em construir uma sólida organização como partido opositor. Já o crescimento do PSDB nos anos longe do poder tem sido bem menos consistente.

"Tão prejudicial quanto a indefinição sobre o líder do PSDB é a falta de um programa distinto no partido", explica a matéria. De fato, atualmente, as diferenças ideológicas entre PSDB e PT não são mais tão bem delineadas. O texto da revista lembra que Lula optou pela estabilidade e continuidade das políticas econômicas iniciadas no período do governo de Fernando Henrique Cardoso. "Nem a questão das privatizações, abraçada por Fernando Henrique e rejeitada por Lula, é mais uma diferença significante. Dilma Roussef disse que vai abrir os aeroportos aos investimentos privados."

Além da falta de definição, a Economist cita algumas reclamações da ala mais jovem do PSDB, de que o partido não investiu em rostos novos que poderiam ganhar destaque no país. A estratégia poderia render bons frutos ao partido. Basta lembrar que, nas eleições presidenciais de 2010, muitos eleitores jovens votaram na novata (em corridas presidenciais) Marina Silva, do Partido Verde.

Nem o apoio da classe média, antes a pedra fundamental de tudo que o PSDB construiu, já não é mais garantido, segundo a revista britânica. "As pesquisas mostram que Dilma Rousseff, sucessora de Lula, é mais popular do que ele era depois dos três meses iniciais do seu primeiro mandato. E diferente dele, Dilma é igualmente bem vista por ricos e pobres". Estas são apenas algumas das muitas razões para o PSDB repensar seus rumos. "Razões pelas quais os tucanos precisam encontrar uma nova música para assobiar".

Produção pode; consumo, não

Carlos Alberto Sardenberg - O Estado de São Paulo

Se a política do ministro Mantega funcionar direitinho, vai acontecer assim: a fábrica de automóvel terá crédito abundante e barato (subsidiado pelo governo), mas o consumidor não terá crédito para comprar o carro.

É uma caricatura, claro, mas que apenas exagera a falta de lógica da política econômica em vigor, de estimular o crédito para investimento e restringir e encarecer os empréstimos para consumo. Segundo essa linha de pensamento, o consumo aquecido é ruim porque gera inflação. Mas o investimento, mesmo superaquecido, é bom, porque cria a capacidade de produzir os bens que atenderão ao consumo lá na frente. Logo, não é inflacionário.

Ora, depois de inúmeras negativas, o governo finalmente se convenceu de que o consumo está aquecido - ou seja, um desequilíbrio entre a demanda de pessoas querendo e podendo comprar e a oferta insuficiente de produtos. Se há dez pessoas querendo comprar geladeiras e apenas sete no mercado, o preço vai subir.

Por isso o ministro Mantega vem aplicando desde novembro de 2010 uma série de medidas para reduzir e encarecer o crédito ao consumidor. A última, na semana passada, dobrou, para 3% ao ano, o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) cobrado nos empréstimos a pessoas físicas.

Vai aqui uma observação paralela. Há menos de um mês a presidente Dilma Rousseff declarava em entrevista a Claudia Safatle, do jornal Valor, que não concordava que havia inflação de demanda no Brasil. Ora, restrições ao crédito pessoal são justamente para conter a demanda de coisas como automóveis, eletrônicos, etc.

Mas, tomando pela palavra de Mantega, o governo continua contra a tese de que a expansão dos investimentos também aquece a demanda. Mais exatamente: aquece, mas, como aumenta a capacidade de produção, a situação se equilibra.

Equilibra-se mesmo? E quando?

Considerem o investimento para aumentar a produção de uma fábrica de automóveis. Para instalar novas máquinas, será preciso construir ou ampliar prédios. Assim, toda uma cadeia se move, da produção de máquinas até a construção civil, absorvendo aço, alumínio, cobre, cimento, plásticos, madeira, combustível, etc., mobilizando outros fabricantes, fornecedores e prestadores de serviços. E empregando gente em diversos setores, com salários bons, pois a oferta de mão de obra no Brasil já se esgotou.

Pode-se dizer, sem erro, que o mercado de trabalho está superaquecido, com empresas precisando pagar mais para contratar ou segurar funcionários.

Ora, parece claro que há aí um forte impulso da "demanda agregada", não importando se o aço do momento vai para o torno ou para o automóvel. Esse aquecimento ocorre bem antes de a fábrica começar a produzir os carros adicionais.

E, como o governo insiste em manter os canais de financiamento subsidiado a grandes setores escolhidos pelo BNDES, a aceleração da atividade é generalizada. Assim sobem os preços - do caminhão e do frete, do aço e da carga no porto, da borracha e dos pneus, dos móveis e dos escritórios.

Finalmente, os trabalhadores que têm conseguido ganhos reais vão às compras, não é mesmo?

Só aqui o governo pretende agir. Os consumidores topam com um crediário mais curto e mais caro. Não é muito mais caro, porém, porque o governo não quer matar o negócio, de modo que muita gente aceita pagar um pouco mais na prestação. Os que podem, é claro, que são os de maior renda.

O executivo que vai comprar a moto para passear no fim de semana encara o crediário mais caro. O motoboy que precisa trocar a moto não pode. A locadora que vai comprar 50 carros pode, o trabalhador que acaba de ingressar na classe C não pode.

Mas esses que não podem continuam empregados e, pois, vão gastar em alguma outra coisa. Ou seja, vão aquecer o consumo de outros bens e serviços (viagens, por exemplo, que podem pagar no cartão, em seis vezes sem juros, sem o IOF).

Resumindo: medidas como essa do IOF, chamadas hoje "macroprudenciais", penalizam alguns setores e pessoas - as de menor renda -, distorcem a atividade e não reduzem o consumo de maneira significativa. O nome pode ser novo, mas a prática está longe de caracterizar uma nova política.

Nas décadas de 70, 80 e início da de 90 se fazia isso direto - e a inflação subiu o tempo todo, até ser abatida pelo Plano Real, em 1993.

Na verdade, o governo Dilma está buscando objetivos incompatíveis. Como disse ao Valor, a presidente tem "certeza de que o Brasil vai crescer entre 4,5% e 5% neste ano", sendo intolerante com a inflação. Mas o seu Banco Central (BC) já prevê que a economia cresça 4%, com inflação a 5,6%, acima da meta (4,5%). Para alcançar a meta neste ano, o País teria de crescer menos ainda, é o que nos diz o BC, argumentando assim por que tem sido mais tolerante com a inflação.

Fora do governo, as previsões de crescimento já estão abaixo de 4% e as de inflação passam de 6%.

O governo também não quer aumentar mais os juros e quer impedir mais valorização do real.

O que está acontecendo? O dólar roda abaixo de R$ 1,60, os juros subiram, a inflação aumentou e o crescimento caiu.

Saiu um pouco errado, não é mesmo?

Alternativa? A ortodoxia, pessoal. Primeiro, é preciso admitir que a economia brasileira cresceu e cresce mais do que pode. Isso posto, a receita: alta mais incisiva da taxa básica de juros, que atinge todo mundo por igual, e uma forte contenção do gasto público, outro poderoso fator de aquecimento da economia. Isso derrubaria a atividade por algum tempo, mas logo criaria as condições de retomada com juros mais baixos.

Livre iniciativa

Merval Pereira – O Globo

Vejam o que uma boa crise financeira internacional pode fazer. Na terra do comunismo, o livre mercado tem mais apoio do que no berço do capitalismo. A visita da presidente Dilma Rousseff à China se realiza em um momento em que o apoio ao capitalismo nos dois países atinge um patamar mais elevado do que nos Estados Unidos, por incrível que possa parecer.

A GlobeScan, consultoria internacional de pesquisas de opinião, perguntou a 12 mil pessoas de 25 países, no ano passado, se concordavam que o livre mercado é o melhor sistema econômico para o futuro.

Nada menos que 67% dos brasileiros e dos chineses responderam que concordam muito ou em parte, sendo que no Brasil 43% "concordam fortemente".

Nos Estados Unidos, 59% têm opinião favorável ao capitalismo, mas esse índice já foi de 80% em 2002.

A pesquisa revela que um número maior de economias emergentes hoje supera ou empata com os Estados Unidos no apoio ao livre mercado.

Quando a GlobeScan começou a fazer essas pesquisas, em 2002, quatro em cada cinco americanos eram favoráveis ao livre mercado, o que significava o maior índice de apoio entre todos os países pesquisados, o que era coerente com o que os Estados Unidos representam para o capitalismo.

Segundo a consultoria, o apoio começou a cair a partir daí, até chegar a uma queda brusca de 15 pontos em um ano em 2009.

A ponto de o presidente da GlobeScan, Doug Miller, comentar que os Estados Unidos seriam o último lugar em que poderíamos esperar uma queda tão acentuada na confiança na livre-iniciativa. "Isso não é uma boa notícia para os negócios", lamentou-se.

Entre os 20 países pesquisados, a média de apoio ao livre mercado ficou em 54% em 2009 e 2010.

O que demonstra claramente que a questão está ligada à performance econômica e não a ideologia é que os americanos que ganham menos de US$ 20 mil são os que mais perderam a fé no livre mercado nos últimos tempos, com sua taxa de apoio caindo de 76% para 44% entre 2009 e 2010.

O pragmatismo que está marcando essa visita da presidente brasileira, com diversos negócios sendo anunciados, de aviões da Embraer a carne suína, é uma pista para a explicação do resultado dessa pesquisa, que nada tem a ver com ideologia, mas com crescimento econômico.

Mas pode também sinalizar que os chineses, à medida que avançam economicamente, já não se contentam com as restrições que o "capitalismo de Estado" impõe aos cidadãos, que os dirigentes comunistas tentam manter sob controle.

Mais de 500 milhões de chineses saíram da linha de pobreza nos últimos 20 anos, mas outros tantos milhões continuam na miséria.

Não foi à toa que os dirigentes chineses, diante da onda de revolta nos países árabes, reforçaram a segurança pública e controlaram mais ainda a internet, para evitar a contaminação que vem através dos modernos meios tecnológicos de interação social.

Mas até quando será possível conciliar o controle totalitário do Estados chinês com a ânsia de mais liberdade que o crescimento econômico provoca, e o contato cada vez maior com o exterior, através do simples turismo ou dos convênios universitários, e também da tecnologia que leva para dentro de casa hábitos e costumes ocidentais?

Também para o governo brasileiro, o resultado da pesquisa tem recados fortes. A oposição entre privatização e estatismo, por exemplo, não parece ser muito favorável aos  estatistas, embora a oposição tema esse confronto e somente agora pareça disposta a assumir suas convicções privatistas, mais sintonizadas com o sentimento popular, como mostra a pesquisa da Globescan.
O governo Dilma, por sinal, parece ter essa informação, pois está disposto a autorizar o financiamento e a administração de aeroportos pela iniciativa privada, sem o que parece impossível resolver os gargalos até a realização da Copa de 2014.

Também o controle da inflação parece vital para a manutenção desse sentimento de satisfação pessoal que garante a popularidade da presidente Dilma.

Se o descontrole do Estado nos gastos públicos e sua intromissão nos negócios privados, tentando direcioná-los de acordo com seus projetos estatais, começarem a dar sinais de que estão prejudicando o crescimento econômico, esse sentimento de satisfação pode ser afetado, gerando consequências políticas negativas.

O sentimento favorável à livre-iniciativa parece ser uma aspiração nacional ligada à vontade de progredir.

A intervenção estatal, apesar de ter ajudado a superar a crise financeira de 2008, provoca efeitos colaterais que a médio prazo prejudicam a economia e emperram o crescimento econômico.