Adelson Elias Vasconcellos
Dilma completando cem dias de governo e o país, emburrecido e alienado, aplaude vivamente a nova rainha do nada. Claro, nestes tempos de ditadura do pensamento, do despotismo do “tudo certo”, em que ser oposição, seja na política, na economia ou em outra área qualquer onde houver “ativistas”, é sinal de estupidez, quando na verdade contrapor pode até ser sinal de inteligência, de independência da razão, chega a ser constrangedor abrir jornais, revistas e sites de portais de notícias na internet para ler que o nada triunfou.
Afinal, onde foi parar o senso crítico da imprensa nacional? Por que se tornou virtuoso o não fazer nada?
Não sou contrário a que se elogiem governantes que, no exercício de seus mandatos, realizem bom trabalho em favor de seu país, mesmo que um ou outro seja de esquerda. Mas daí a elogiar um governante justamente por ele não ter realizado absurdamente nada em cem dias de governo? Santos Deus!!!! Ou é pura demagogia e hipocrisia ou pura malandragem e esperteza dos marqueteiros da política.
Mais abaixo, há um artigo do Marco Antonio Villa que vai de encontro a tudo o que temos afirmado aqui: nada justifica este oba-oba sobre uma governante que ainda não fez absolutamente nada em seus primeiros cem dias de poder. Onde está um projeto pronto e acabado? Qual a orientação a ser dada na economia neste início de 2011 conturbado, com inflação em alta, desequilíbrio fiscal, conta corrente internacional com impressionante déficit, cortes de 50 bilhões de orçamento sem a devida realização, plano de recuperação da infraestrutura ou mesmo com supervalorização da moeda nacional e todas as implicações ruins para a economia do país?
Rigorosamente este governo ainda não começou, retirando desta pauta apenas a acomodação, sem critério técnico ou mérito, de aliados políticos em cargos dos escalões do poder.
Há algumas semanas lembramos que, em sendo este o nono ano de governo petista, e sendo Dilma a representação do continuísmo de Lula, e ter sido apresentada durante a campanha como a grande gerente dos “méritos” alcançados pelo governo do ex-presidente, não havia razão alguma para que não tivesse debaixo do braço um projeto acabado de governo, atacando os pontos frágeis destes últimos oito anos que, diga-se de passagem, são muitos.
Não há como comemorar, por exemplo, o que para muitos representou a grande mudança. Se, de fato, a política externa mudou, é hora de se ouvir críticas aos regimes cubano e venezuelano, por exemplo. E, pelo que se sabe, isto está longe de acontecer. Já afirmei antes: é fácil endereçar alguma crítica ao regime iraniano, ou algum de seus aspectos. Quero ver e ouvir a presidente com a mesma postura crítica em relação aos irmãos Castro, em Cuba, e Hugo Chavez, na Venezuela.
Em sua visita à China, Dilma reafirmou a sua determinação em reduzir os juros básicos a níveis compatíveis com os praticados no restante do mundo, como já se comprometera no discurso de posse. Na entrevista que concedeu ao jornal Valor Econômico, também assumiu o compromisso quanto a não permitir a volta da inflação. Pois bem: alcançar tais metas só será possível, conforme já demonstramos, se de um lado, o governo frear o ritmo de crescimento, coisa que dona Dilma se nega em admitir. E, de outro, seu governo precisará ir muito além de um simples anúncio de corte de 50 bilhões do orçamento de 2011.
Além disso, onde estão as reformas estruturais de que o país tanto sente falta para a sustentabilidade de seu crescimento? Nestes cem dias, como se sabe há muito, aproveitando a lua de mel com o Congresso e com a sociedade, elas deveriam ter sido colocadas na ordem do dia porque, mais além, se sabe ser muito difícil conseguir sua aprovação.
Além disto, lembrando outros compromissos de campanha, dona Dilma prometeu reduzir a carga tributária. E o que se viu nestes cem dias? A carga aumentou ainda mais. Seja pelo lado do imposto renda na fonte, seja no IOF sobre compras e empréstimos feitos no exterior. De lambuja, um aumentozinho de leve sobre bebidas, além da ameaça crescente de se ressuscitar a famigerada CPMF. E a inflação? Comendo solta, sem que se perceba algum movimento de parte do senhor Guido Mantega no sentido de frear a fome por reajustes. Dizer que se surpreendeu com o recente aumento dos alimentos é sinal, para se dizer o mínimo, que o Ministro não anda lendo jornais ultimamente.
No campo dos serviços públicos, a mesma desgraça que herdou de Lula permanece intocável. E, a se considerar pela montagem da equipe, não se vá esperar que o país avance minimamente nesta direção.
Anos a fio de muitas promessas festivas em relação ao etanol e o que temos é desabastecimento e, não bastasse isto, ainda o governo autorizou a adição de água, além da importação de etanol dos americanos, aquele mesmo que Lula desceu os cachorros mundo afora.
Nas últimas semanas, o país foi assaltado por greves e tumultos nos canteiros das grandes obras do PAC, aquelas que estão sendo tocadas para aparecerem na campanha e propaganda políticas. Juntou-se a mentira do Minha Casa, Minha Vida, cuja realização, quando comparada às promessas e metas, chega a ser ridícula. Pois bem: sendo o governo federal o responsável pelas obras, deveria ao menos cuidar para que as empreiteiras cumprissem com as legislações tanto ambientais quanto trabalhistas. E o que vemos é que o interesse exclusivamente eleitoreiro suplantou o cuidado para com as leis, ficando a fiscalização relegada a um plano secundário.
Seguindo noutra direção, cada dia que passa mais preocupante se torna a execução das obras visando a Copa das Confederações, Copa do Mundo e Olimpíadas. Já se sabe, através da própria Infraero, que o país não conseguirá concluir as obras nos aeroportos. Dos doze estádios, dois sequer tem projeto definitivo, sendo um deles o de São Paulo. O Maracanã, é fato, custará pelo menos quatro vezes o orçamento original e olhe que sua reforma para o Pan-2007 já foi um absurdo, além de nem ter completado quatro anos de sua execução.
Compreende-se que parte da imprensa se sinta como que aliviada por não precisar aturar, diariamente, o boquirroto do ex-presidente Lula. Mesmo que quisesse copiá-lo, Dilma tem outro temperamento e jamais chegaria perto da mistificação chamada Lula dos palanques. Contudo, não se pode fechar os olhos e sentir este alívio, ao mesmo tempo em que se misturam em um mesmo balaio realizações que sequer deixaram de ser promessas.
Na economia a coisa segue a rotina dos dois últimos anos de Lula: sem controle, sem metas, sem projetos, sem rumo. Enquanto o BC faz o que pode para segurar a inflação, Mantega fica enfeitando a serpente instalada dentro do Ministério da Fazenda, sem ter a menor noção de que medidas tomar para resolver questões graves cuja deterioração angustiam parte do mercado e dos analistas, e que começam a afligir boa parte da população que assiste a disparada dos preços nas gôndolas dos supermercados, sem saber o que está acontecendo.
E, em meio a isso, se publica uma pesquisa em que Dilma aparece bem cotada junto à população, como se o governo pelo qual responde desde janeiro, não fosse o responsável pela alta da inflação e má qualaidade dos serviços a que o Estado está obrigado a prestar!!!
É de se esperar que, esta parte da grande imprensa, que se deixa encantar pelas virtudes ocultas de uma governante que ainda não disse a que veio, saia logo deste torpor e passe a avaliar o governo Dilma pelos resultados que seu trabalho obtém, e não pelo discurso que não fez.
Um governo vale, sobretudo, pelos resultados. Dilma, rigorosamente nestes cem dias, não logrou alcançar nenhum. Portanto, não se poderá admitir este endeusamento da soberana apenas pelos defeitos que ela, em comparação à Lula, não os têm.
Além disto, Dilma precisaria começar seu governo exatamente do mesmo ponto em que Lula começou em 2003, quando conteve o impulso à gastança desenfreada. Dilma não pode é dar continuidade ao lado ruim do governo anterior, que foram seus dois últimos anos. Quanto mais insistir em não tornar seu governo parte da solução para os problemas econômicos deste início de mandato, mais tende a se comprometer mais adiante. Não será com a mentirosa propaganda que resolverá trazer as contas públicas ao indispensável equilíbrio à estabilidade. Não será com discurso mistificador que conseguirá evitar o descontrole nos preços.
Resumindo: no balanço destes cem dias de Dilma Presidente, o que temos é nada vezes nada. Já passa da hora dela dar rumo ao seu governo e começar a enfrentar os problemas que o país tem para resolver. E eles são muitos, mas sem projeto e uma equipe ao menos competente e qualificada, não conseguirá equacioná-los e lhes dar solução. O desejo é que estes cem dias sem nada, não se transformem em quatro anos inúteis.