domingo, outubro 24, 2021

Coitado de quem vier depois

 COMENTANDO A NOTÍCIA

O resultado de todo este enredo é que, a partir de janeiro de 2023, coitado de quem suceder Bolsonaro. Vai encontrar um país à beira do abismo, em todos os sentidos.  Vai gastar metade de seu mandato para por ordem na casa. E não poderá, em hipótese alguma, firmar qualquer tipo de acordo ou aliança com a turma do Centrão. A depender do apetite destes canastrões, o Brasil vai à falência.

 

Houve um momento que afirmamos aqui que, pelo andar da carruagem, Bolsonaro acabaria passando a presidência para seu sucessor, um Brasil muito pior daquele que lhe foi entregue por Michel Temer. Os fatos, cada vez mais, estão confirmando este prognóstico.  Seja na economia pelo desarranjo das contas públicas, pelo alto endividamento, pela falta de projetos, pela ausência de reformas  (não os arremedos que correm no Congresso), pelo desequilíbrio fiscal fruto da aliança criminosa entre Bolsonaro e os principais líderes do Centrão, pela falta, cada vez mais frequente, de recursos na Educação e na Saúde, dentre tantas outras omissões ou medidas populistas que acabam empurrando o país para um abismo profundo. 

Quando Dilma Rousseff, a Medíocre, ainda presidia o país, também era previsível a herança maldita que deixaria ao seu sucessor e que imporia ao Brasil, custosos 10 ou mais anos para recuperação do tempo perdido.    Por sorte, assumiu Michel Temer que, de forma serena e equilibrada, colocou ordem nas contas públicas, pelo  desarranjo causado pela tal “contabilidade criativa” do senhor Guido Mantega. 

Assim, competia ao governo Bolsonaro dar seguimento ao roteiro delineado pelo governo Temer e sua equipe econômica, para o Brasil recuperar parte dos anos perdidos na mediocridade do período Dilma.

Durante a campanha de 2018, até que Paulo Guedes, escolhido para comandar o superministério da Economia, em suas falas, acenava com boas ideias, bons planos quanto a reformas, programa de privatização e desestatização, que serviram para nos dar alguma esperança de dias melhores. 

O tempo passou, e os discursos pré-eleitorais de Guedes ficaram no palanque e nada, ou muito pouca coisa importante saiu do papel.  Conseguiu aprovar a reforma da Previdência porque esta já estava pronta, herança de Temer. E, mesmo assim, Bolsonaro conseguiu desidratá-la ao manter privilégios imorais para algumas poucas categorias, como os militares, por exemplo.

As prometidas reformas tributária e administrativa foram sendo retardadas, além de boa parte do que se projetou foi sabotada por Bolsonaro. Neste cenário de embromação e reviravoltas quanto ao que deveria ter sido atendido, Guedes foi perdendo seus auxiliares e assessores. Com os quatro que saíram nesta semana foram 12 que abandonaram o barco por não verem seriedade e compromisso com a responsabilidade e com a estabilidade econômica por parte do presidente.  Bolsonaro tem uma só preocupação: reeleger-se.  E, se para tanto for preciso jogar a responsabilidade fiscal e todas as âncoras que a suportam na lata do lixo, ele não pensará duas vezes.

O caso do Auxílio Brasil é um exemplo acabado do quanto a cegueira fruto da obsessiva luta pela reeleição, é capaz de provocar prejuízos ao país. Não que o programa social criado para substituir o Bolsa Família não fosse necessário. Já comentamos, em outro texto, que alguma providência precisava ser tomada dado o angustiante quadro de miséria que vive boa parte da população. Contudo, não era preciso furar o teto de gastos, passando para o mercado uma montanha de incertezas. Este governo já podou cortes na área da ciência e tecnologia, nas áreas da educação e saúde. Só não mexeu no tal orçamento secreto em que se destina um volumoso, dispendioso, imoral e injustificável volume de recursos públicos para emendas parlamentares.  Se o presidente da Câmara estava tão preocupado em atender a população mais vulnerável da sociedade, que cortasse na própria carne e, por certo, a vida seguiria seu curso normal. Como Bolsonaro é dependente total do Centrão, faltou-lhe coragem para se impor e cortar onde há gordura suficiente para ser podada, sem ameaçar o teto de gastos, além de cortes em áreas essenciais e estratégicas ao desenvolvimento como aceitou fazer, num jogo político cretino que aumenta ainda mais o nosso atraso.

Também era possível ter se empenhado o quanto pudesse na aprovação de uma reforma administrativa séria, onde sepultasse a montanha de privilégios de que goza a elite estatal.  Poderia, ainda, cortar as despesas de pura ostentação do Executivo, que não cansa de patrocinar, com dinheiro público, férias de ministros e assessores em caravanas turísticas mundo afora. 

A Pec do Calote é uma das maiores aberrações que este governo poderia cometer, aliás, totalmente ilegal, já que se trata de dívida líquida e certa, por determinação judicial para a qual não cabem recursos. 

Temos hoje a terceira maior inflação mundial, que já é mais do que o dobro da que vem em quarto lugar. Diante das incertezas e da condução irresponsável da política econômica, o real é uma das moedas que mais se depreciou ante ao dólar. Assim, se a inflação tem caráter mundial, e tem, a brasileira é, de longe, a que mais sofre impactos fruto de razões internas. Se o cenário fosse um pouco melhor, o dólar não estaria valendo os R$ 5,60 atuais e, em consequência, o reajuste dos combustíveis não seria tão penoso e o preço dos alimentos não teriam sido reajustados em índices de dois dígitos.  

Estando há um ano da eleição presidencial, e diante deste cenário conflagrado que vivemos, - econômico, político e social -  não haverá tempo suficiente para recuperarmos a economia em níveis de pré-pandemia. A inflação pode até recuar, mas ainda se manterá alta, forçando os juros a também a se manterem elevados. A dívida pública tende a continuar cobrando um alto preço, o desemprego vai se manter em níveis proibitivos para um país com tanta desigualdade e miséria. E o tal Auxilio Brasil, como vimos, tem prazo de validade até o final do mandato de Bolsonaro, que é dezembro de 2022. Após esta data teremos o caos reinstalado na pátria amada.   

O resultado de todo este enredo é que, a partir de janeiro de 2023, coitado de quem suceder Bolsonaro. Vai encontrar um país à beira do abismo, em todos os sentidos.  Vai gastar metade de seu mandato para por ordem na casa. E não poderá, em hipótese alguma, firmar qualquer tipo de acordo ou aliança com a turma do Centrão. A depender do apetite destes canastrões, o Brasil vai à falência. 

E que os eleitores brasileiros não repitam os erros do passado recente: o erro com Dilma, elegendo e reelegendo uma gestora medíocre, trazendo de volta ao poder, o arquiteto e executor do maior esquema de corrupção de nossa história. . Ou, reelegendo um maluco ignorante, que reinstalou a pobreza, a miséria, a inflação, os juros altos, desprezando a ciência, a saúde, o meio ambiente e, principalmente, a educação. Merecemos e precisamos de coisa muito melhor do que governantes ignorantes e medíocres. 


A crise nacional é ‘made in Brazil’

 Editorial

O Estado de S.Paulo

No desarranjo dos preços e nos entraves ao crescimento econômico, o Brasil não precisa da ajuda da crise externa, pois é autossuficiente na criação de problemas

Sem governo e sem roteiro, a economia brasileira pouco deve crescer no próximo ano, com ou sem desaceleração global. Inflação elevada, problemas de suprimento e desarranjos na cadeia produtiva afetam a China, os Estados Unidos e outros parceiros comerciais do Brasil. O quadro poderá piorar se os juros forem elevados para conter os preços no mundo rico. Isso dará ao presidente Jair Bolsonaro e ao ministro da Economia, Paulo Guedes, uma desculpa a mais para o péssimo desempenho nacional. Mas só os desinformados ou os cidadãos de extraordinária boa vontade levarão a sério essa conversa. Alguns problemas podem ser mundiais, mas o País já se destaca pela inflação fora dos padrões, pelo desemprego muito maior que o de outros emergentes e pela atividade emperrada.

A indústria brasileira e também a agricultura têm sido prejudicadas, de fato, pela escassez de matérias-primas e bens intermediários. Fertilizantes estão mais caros e alguns segmentos industriais, como o automobilístico, têm reduzido a produção por falta de componentes importados. Mas, apesar dos problemas externos, o superávit comercial continua robusto. A economia chinesa perdeu impulso e cresceu no terceiro trimestre à taxa anualizada de 4,9%, depois de ter avançado 18,3% no primeiro e 7,9% no segundo. Mas o agronegócio faturou em setembro US$ 10,10 bilhões com as vendas externas, um valor recorde, graças aos preços 27,6% mais altos que os de um ano antes, porque o volume foi 5,1% menor.

No mês passado, a China se manteve como principal importadora de produtos do agronegócio brasileiro. Suas compras, de US$ 3,27 bilhões, corresponderam a cerca de um terço das exportações do setor e o valor foi 42,8% maior que o de um ano antes. Houve aumento de receita nas vendas para os 20 principais países compradores, em setembro, e o resultado mensal do setor foi um superávit de US$ 8,85 bilhões.

Por enquanto, o comércio exterior brasileiro continua proporcionando boa receita e garantindo perspectivas satisfatórias para o balanço de pagamentos. Apesar de prenúncios de alguma acomodação da economia internacional, os mercados de fora seguem atraindo capitais brasileiros.

Esse movimento é atribuível a mais de um fator. A perspectiva de ganhos e a diversificação, frequentemente recomendadas pelos profissionais do mercado financeiro, são os mais evidentes, em condições normais. Mas, no caso brasileiro, o envio de recursos ao exterior tem sido motivado também pelas incertezas internas, associadas às tensões políticas e à insegurança quanto ao futuro das contas públicas. Na base dessas incertezas e temores são facilmente identificáveis o comportamento do presidente da República e as perspectivas de um ano eleitoral cheio de riscos.

A desaceleração prevista para a atividade mundial poderá trazer algumas dificuldades, mas as perspectivas da economia brasileira são determinadas basicamente por fatores internos. No mercado, as projeções de crescimento do Produto Interno Bruto continuam em queda, segundo as informações sintetizadas no boletim Focus. As últimas estimativas apontam expansão de 5,01% neste ano, 1,5% no próximo e 2,1% em 2023. Em contrapartida, continuaram subindo as taxas de inflação esperadas para o biênio – 8,69% em 2021 e 4,18% em 2022.

Inflação elevada continuará erodindo a renda familiar já escassa, num quadro de desemprego ainda elevado. Não há como prever uma firme recuperação do consumo, até porque o Banco Central continuará usando a alta dos juros básicos para tentar conter o aumento de preços. Segundo o boletim, esses juros, agora fixados em 6,25%, chegarão a 8,25% até dezembro e estarão em 8,75% no fim de 2022.

Mantida a insegurança, o dólar seguirá supervalorizado no País e continuará alimentando a inflação. A diferença entre o quadro inflacionário brasileiro e aquele observado no resto do mundo é em boa parte explicável, portanto, por um câmbio influenciado pela insegurança gerada em Brasília. No desarranjo dos preços, assim como nos entraves ao crescimento, o Brasil é autossuficiente. 


Bolsonaro e Guedes falam de PIB, inflação e renda básica. Mas não foi bem como contaram...

 O Globo

Preços sobem no mundo, como disse o presidente, mas aqui os índices são o dobro da média de países ricos e emergentes. Na gasolina, há defasagem no preço

  Foto: Clauber Cleber Caetano/PR 

O presidente Jair Bolsonaro e o ministro da Economia 

Paulo Guedes, durante declaração à imprensa. 

RIO - O presidente Jair Bolsonaro e o ministro da Economia, Paulo Guedes, fizeram uma série de afirmações sobre o desempenho da economia, dos preços e das contas públicas, na tarde desta sexta-feira, que contam somente parte da história. Não é bem assim que a inflação vem de fora, que as dívidas judiciais da União eram imprevisíveis, que sempre houve um olhar para os mais pobres e que o nosso crescimento econômico é o mais robusto. Leia abaixo o que não foi contado pelas autoridades. 

Inflação sobe no mundo  

  Foto: Pixabay

Preços de alimentos em alta 

A inflação está subindo no mundo, mas o Brasil se destaca. Pelas previsões da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), a inflação aqui deve fechar o ano em 7,2% (a previsão do Banco Central é de 8,4%), a terceira maior entre 20 países ricos e grandes emergentes, o dobro da média desse grupo.  

Precatórios como meteoro 

  Foto: Daniel Marenco / Agência O Globo

Governo aprova em comissão mudança na regra de precatórios 

O gasto de R$ 89 bilhões com dívidas da União determinadas pela Justiça foi classificado pelo ministro Paulo Guedes como um meteoro, imprevisível. Não é bem assim, os processos judiciais são acompanhados pela Advocacia Geral da União. Além disso, esse gasto vem tendo aumentos fortes desde 2014, dizem especialistas, e deveria ser monitorado de perto. 

Repasse no combustível   

  Foto: Luiza Moraes/Agência O Globo

A alta do dólar bate direto na inflação ao tornar mais caros produtos

importados ou com preços negociados no exterior, como alimentos e combustíveis 

O presidente Bolsonaro disse que um aumento dos combustíveis é iminente, e que não há congelamento de gasolina e diesel no Brasil. Mas os preços aqui estão menores que no mercado externo. A gasolina está 15% mais barata do que no exterior, e o diesel, 18%, segundo a Abicom, associação que reúne as importadoras de combustível

Prioridade da renda básica 

  Foto: Fabiano Rocha/Agência O Globo

Pessoas buscam alimentos nas caçambas de lixo na Ceasa/RJ 

O ministro Paulo Guedes afirmou que o governo “sempre quis” uma renda mínima. O presidente Bolsonaro, quando deputado, era um crítico do Bolsa Família, e já chamou o programa de “farelo” e “esmola”. Este ano, o STF determinou que o governo fixe um valor de renda básica a partir de 2022. 

Crescimento robusto 

  Foto: Arquivo 

Mesmo com avanço da vacinação, consumo das famílias 

fica estável no segundo trimestre 

Guedes afirmou que o Brasil é um dos países que mais cresce no mundo. O PIB este ano está se recuperando do tombo de 2020. E, em 2022, segundo projeções do FMI, deve ficar em só 1,5%, a menor taxa entre as 16 principais economias avançadas e emergentes do mundo. Mas com o risco fiscal aumentado, as projeções já estão caminhando para menos de 1% em 2022.


Vacinados, apesar de Bolsonaro

 Notas & Informações, 

O Estado de S.Paulo

O País chegou até aqui graças à mobilização da sociedade contra os atos e as palavras de um presidente que quer tudo, menos o bem-estar de seus governados

Após mais de um ano e meio de sofrimento e privações de toda sorte, grande parte dos brasileiros voltou a experimentar uma relativa sensação de normalidade. A pandemia de covid-19 arrefeceu no País na exata proporção em que avançou a vacinação contra o coronavírus. Na quarta-feira passada, o Brasil atingiu a marca de 100 milhões de pessoas totalmente imunizadas, ou seja, que completaram o esquema vacinal com duas doses ou com dose única, caso da vacina da Janssen. Isso significa que quase a metade da população (47,11%) está, enfim, protegida contra as formas graves de uma doença que já causou a morte de mais de 600 mil brasileiros.

A reabertura do comércio não essencial e das escolas, a volta das atividades culturais e a retomada do turismo, por exemplo, só foram possíveis porque a esmagadora maioria da sociedade ignorou olimpicamente os desvarios do presidente Jair Bolsonaro, que até hoje insiste em vituperar contra a vacinação. No mesmo dia em que o País que deveria governar atingiu a auspiciosa marca de imunizados, Bolsonaro declarou que decidiu não tomar mais a vacina. Na equivocada – e perigosa – visão do presidente, o fato de estar com “a imunização lá em cima”, segundo suas palavras, dispensaria a necessidade de receber a vacina, o que é desmentido pelos médicos.

Para o bem do País, o negacionismo de Bolsonaro ressoa apenas em uma pequena parcela da população. Até o momento, cerca de 150 milhões de brasileiros já receberam ao menos uma dose da vacina contra a covid-19, o que representa 70,29% da população. Isso atesta o sucesso do Programa Nacional de Imunizações (PNI), referência internacional em políticas públicas de saúde. Por sua vez, o sucesso do PNI se deve não apenas à capacidade de seus profissionais, mas, sobretudo, pela adesão histórica dos brasileiros às vacinas. O discurso antivacina nunca prosperou no Brasil. “Mais uma vez, o País mostra a força de sua cultura vacinal, mesmo em uma campanha que não contou com esforços publicitários (do governo federal)”, disse ao Estado a epidemiologista Denise Garrett, vice-presidente do Sabin Vaccine Institute, em Washington.

Se, por um lado, o número de vacinados traz alívio e esperança para os próximos tempos, por outro, é de indignar saber que a história da pandemia no Brasil teria sido outra não fosse a desídia de Bolsonaro. Sem a campanha sistemática do presidente contra as vacinas, que incluiu um criminoso atraso na compra dos imunizantes, o Brasil, graças à sua invejável tecnologia de vacinação em massa, seguramente teria voltado bem mais cedo à normalidade e provavelmente teria enterrado menos mortos. Os devaneios de Bolsonaro custaram caro demais ao Brasil.

A “cultura vacinal” da população, como disse a epidemiologista Denise Garrett, aliada à capacidade do Sistema Único de Saúde (SUS) para imunizar os brasileiros, teria levado o País bem antes à desejada imunidade coletiva, caso o governo Bolsonaro não tivesse investido tanto tempo, energia e recursos para propagandear mandingas em vez de trabalhar para trazer as vacinas para o Brasil e estimular o comportamento responsável dos cidadãos.

O vácuo federal só não tragou o País porque houve quem se insurgisse contra a infâmia e o negacionismo. Recorde-se que o governo do Estado de São Paulo viabilizou a Coronavac quando não havia nenhuma vacina disponível, inoculando esperança num país enlutado. Recorde-se também a iniciativa de Nelson Teich, que, em sua brevíssima passagem pelo Ministério da Saúde, firmou acordo para realização de testes clínicos da vacina da AstraZeneca no Brasil. Também foi decisiva a resistência institucional do Supremo Tribunal Federal e do Congresso, sobretudo do Senado, aos arroubos irresponsáveis de Bolsonaro contra a vacina, as medidas sanitárias e o bom senso.

Por fim, o País chegou até aqui graças à mobilização da sociedade contra os atos e as palavras de um presidente que quer tudo, menos o bem-estar de seus governados.


O prontuário de maldades

 Carlos José Marques

Revista ISTOÉ

 (Crédito: Bruna Prado)


Vergado em lágrimas, destroçado por uma dor dilacerante que não cessa, apelando por compaixão frente ao sofrimento que lhe rasgou a alma, o taxista Marcio Antônio Nascimento expunha a razão do desespero, pela primeira vez em público diante das câmeras, na segunda-feira 18, ante a CPI da Covid que concluía os trabalhos: “o último momento que eu tive com meu filho, que eu fui reconhecer, ele estava dentro do saco. Eu não pude dar um abraço, não pude dar o último beijo. Cheguei a levar uma roupa para vesti-lo. Não consegui. A minha dor não é mimimi”. Não havia como não se condoer com a cena. A própria tradutora de libras, presente ao momento, travou, teve de parar o trabalho para se recompor diante do que assistia.

Ninguém, em pleno controle das faculdades mentais, normal e civilizado, ficaria impassível ao ouvir tão angustiante depoimento. O filho de Márcio, Hugo Dutra Nascimento, de 25 anos, entrou para o rol das mais de 600 mil vítimas da pandemia no Brasil. E o pai, Márcio, visivelmente atordoado, alquebrado pela saudade sem fim, reclamava do deboche presidencial com os óbitos e exigia um pedido de desculpas do mandatário Bolsonaro. Algo simples, absolutamente justificável, mas que não encontraria eco ou resposta nos salões envidraçados do Planalto, logo ali perto, a poucos metros de onde relatava seu calvário. Foram seguidos e inúmeros os apelos no mesmo sentido, proferidos nos testemunhos de parentes órfãos convidados à sessão. Em vão. 

O inquilino do Palácio, que em dado momento fora capaz de imitar moribundos em agonia com falta de ar, nunca manifestou qualquer gesto de empatia ou amparo por aqueles que não resistiram à doença. Ao contrário.

 Edilson Rodrigues


Em tom de irritação com as cobranças, o “mito” Bolsonaro, em determinada ocasião, chegou mesmo a tripudiar de viva voz, aos berros no microfone, criticando sem dó os tomados por essa tragédia em escala. “Vocês não ficaram em casa? Não se acovardaram? Chega de frescura, de mimimi. Vão ficar chorando até quando?”. Em que grau de maldade pode ser classificada uma declaração como essa diante do imenso martírio e aflição que destruíram famílias, lares, amigos, conhecidos, objetivos de vida? A dimensão da patologia implícita no comportamento do mandatário é típica dos loucos inconsequentes internados em manicômios. Jamais de um chefe de Nação.

 Jair Bolsonaro, todos sabem e acompanharam, fez ainda mais e pior. Patrocinou mortes em escala, não apenas com o seu negacionismo, mas com ações efetivas de incitação ao tumulto, de promoção de drogas ineficazes (fatais em muitos casos), de pregação contra o uso de máscaras, de inconsequência e descaso na compra atrasada de vacinas, de pouco caso e demora deliberada no fornecimento de oxigênio em resposta à tragédia de Manaus, que também redundou em óbitos (milhares deles) e com toda sorte de irresponsabilidades, natas de quem jamais esteve preocupado com o assunto. Kits de exames de covid apodreceram até o vencimento nos galpões do governo, sem distribuição, apesar da necessidade vital de seu uso nas unidades de emergência. Equipamentos e medicamentos também deixaram de ser fornecidos em escala suficiente na rede do SUS, e mesmo a verba de bilhões de reais, aprovada e reservada no orçamento pelo Congresso para o combate à doença, sequer foi destinada para esse fim. Tamanha coletânea de imprudências evidencia o pendor do presidente para o morticínio.

 Devido a uma filigrana jurídica, os responsáveis pela Comissão de Inquérito do Congresso, que apura as práticas irregulares durante a pandemia e pediu o indiciamento do mandatário e de mais 60 envolvidos, resolveram de última hora retirar do relatório as acusações de genocídio e homicídio que lhe eram originalmente atribuídas. O acordão político nesse sentido tomava por base o fato de os tribunais raramente aceitarem condenações por genocídio, dada a difícil tipificação dele. O termo surgiu pela primeira vez no Tribunal de Nuremberg, que julgou nazistas pelas atrocidades do Holocausto durante a 2ª Grande Guerra e, na ocasião, mesmo frente aos evidentes fatos, os acusados foram punidos apenas por crimes contra a humanidade. Na convenção das Nações Unidas de 1948 – também subscrita pelo Brasil –, o genocídio é caracterizado como “uma série de atos cometidos com a intenção de destruir, no todo ou em parte, grupo nacional, étnico, racial ou religioso”.

 O conjunto da obra de destruição do “mito” Messias, ao menos aos olhos da imensa maioria da população brasileira, parece apontar nessa direção. A parvoíce e absoluta petulância do presidente não podem lhe reservar o direito de sair impune após as conclusões da Comissão. Pelo código penal, as denúncias imputadas a Bolsonaro somariam, caso referendadas no campo jurídico, ao menos 40 anos de prisão. Seu filho e senador, Flávio Bolsonaro, diante do resultado e da leitura do relatório final, debochou insolentemente e disse que o pai daria gargalhadas quando comunicado das conclusões. Dito e feito. O capitão, movido pela empáfia e prepotência que lhes são peculiares, reagiu jocosamente. Perguntado a respeito, disparou: “você acha que vou me preocupar com CPI? Tá de brincadeira”. São cenas repugnantes de um governo errático. A orfandade em massa de famílias brasileiras merece mais respeito e a devida responsabilização legal pelas imprudências cometidas. 

O presidente que afrontou à Constituição, prevaricou descaradamente e vilipendiou as tarefas que eram natas do seu cargo terá de responder pelos erros. No fundo sabe dos riscos que lhe pesam sobre a cabeça daqui por diante. Mesmo em Cortes internacionais ele já foi arrolado em processos como homicida. Um predador abjeto, que vê cada cidadão como mero eleitor para lhe garantir mandato, pode não ter qualquer complacência para com os semelhantes, mas, cedo ou tarde, pagará o preço por tanto desaforo. Márcio, o taxista inconformado, que em seu pungente depoimento representou a angústia de milhões, lembrou a razão dessa luta: “a gente está falando de vidas, de pessoas que morreram, sabe? Quem fala que é circo é porque não se importa com as pessoas que morreram. Então, eles são os verdadeiros palhaços, não somos nós. Desculpem. A dor continua por tudo que veio depois. Por cada deboche, cada sorriso, cada ironia”. Como Márcio, tantos outros brasileiros dão rosto a essa tenebrosa catástrofe. Não são meros números, estatísticas. Não deveriam ouvir simplesmente o “E daí? Morreu? É da vida”. Agride, machuca, dilacera, barbariza. Apenas monstros agem assim.


Como resgatar a imagem do Brasil pós-Bolsonaro

 Oliver Stuenkel

El Pais

A reputação internacional do Brasil chegou ao fundo do poço, mas o próximo governo tem meios para iniciar o processo de recuperação

EDUARDO MUNOZ / POOL (EFE)


Bolsonaro na Assembleia Geral da ONU

Presumindo-se que Jair Bolsonaro perca as eleições de 2022 – como as pesquisas parecem sugerir até agora – e que a democracia brasileira esteja sólida o suficiente para garantir a transição de poder, o próximo presidente terá nas mãos um dos maiores desafios na história da política externa brasileira: reconstruir a reputação e a estratégia internacional de um país cuja imagem global passou por um colapso inédito ao longo dos últimos anos. Até pouco tempo atrás, um país com assento à mesa dos poderosos quando se discutiam os grandes desafios globais, o Brasil hoje é visto como uma fonte de instabilidade, marcada pela negação da ciência no combate à covid-19 e questões ambientais.

Antes de analisar as opções de um possível sucessor de Bolsonaro, é preciso reconhecer que o ex-capitão não é apenas causa do declínio do Brasil no palco internacional. Sua ascensão também é reflexo de um país cuja economia praticamente não cresce há uma década e no qual a instabilidade política, pelo menos desde 2013, inviabiliza qualquer estratégia internacional consistente. Bolsonaro é o principal arquiteto do colapso da imagem do país no exterior, e sua atuação internacional entrará para a história como o período mais vergonhoso da política externa brasileira. No entanto, não podemos deixar de lembrar que ele assumiu um país cujo poder diplomático já se encontrava em franco declínio, simbolizado, por exemplo, pela viagem do então presidente Temer ao encontro do G20 em Hamburgo em 2017, onde não teve nenhum encontro bilateral com outros líderes antes de retornar a Brasília depressa para lidar com desafios internos, perdendo o último almoço com as demais autoridades da cúpula.

Tudo indica que o próximo presidente herdará um país em frangalhos, que, no melhor cenário, segundo cálculo recente de pesquisadores da FGV, só retomará a tendência pré-pandemia em 2025. Seja quem for o sucessor de Bolsonaro, precisará dedicar energia considerável para apagar incêndios internos, com bem menos tempo disponível para desafios externos. Será importante, portanto, escolher um(a) chanceler com brilho próprio e muito traquejo político. Afinal, além de reerguer a imagem do país, caberá à(o) próxima(o) diplomata-chefe reconstruir o próprio Itamaraty, que perdeu espaço na condução da política externa brasileira: devido à postura negacionista do governo federal frente às mudanças climáticas e a pandemia – os dois maiores desafios da humanidade hoje –, governadores assumiram um protagonismo internacional inédito. O Itamaraty dificilmente conseguirá reconquistar todo esse espaço perdido, e será fundamental que a/o próxima chanceler tenha um diálogo fluido com os governadores para que os atores ao nível estadual e federal estejam bem alinhados na hora de articular a estratégia internacional. Da mesma forma, seria ideal se a/o vice pudesse assumir uma responsabilidade externa relevante – não para conter o estrago feito pelo presidente, como foi o caso com Hamilton Mourão –, mas reforçar a diplomacia presidencial.

Além disso, seria ingênuo acreditar que uma mera “volta ao normal” na política externa bastará para desfazer o imenso estrago feito pelo atual presidente brasileiro na imagem do país. A melhor solução será transformar as maiores fraquezas da política externa bolsonarista nos pilares da atuação internacional do próximo governo, enfatizando três grandes eixos: 1) meio ambiente, com ênfase no combate ao desmatamento, 2) saúde global e 3) democracia e multilateralismo. Nas três áreas, o Brasil não tem apenas o potencial de estar sentado à mesa dos grandes, mas também de se destacar por trazer novas ideias e iniciativas, e como país que pauta a agenda global.

Do ponto de vista geográfico, o próximo governo brasileiro deve buscar, primeiramente, recuperar sua imagem junto a dois grupos de países onde ela mais se abalou: na América do Sul – os países da região enxergam o Brasil como fonte de problemas e ator que em nada contribui para os desafios da região – e no G7 (as principais potências europeias, os EUA, o Canadá e o Japão) – nesses países, o governo brasileiro virou sinônimo de negacionismo e está fortemente associado à extrema direita, o que leva ao risco cada vez mais elevado de movimentos de boicote contra produtos brasileiros.

A maior urgência será reerguer a relação bilateral com a Argentina, que é e sempre será a mais importante para o Brasil: apesar da relevância econômica declinante, ela é fundamental para consolidar a paz e a estabilidade na América do Sul, tão arduamente alcançadas há 35 anos com a Declaração do Iguaçu entre os presidentes Alfonsín e Sarney. Uma forma de demonstrar a intenção de virar a página seria levar os ministros do novo governo brasileiro a Buenos Aires, já no primeiro mês de mandato, para uma reunião dos dois gabinetes, e reconstruir uma relação suficientemente consolidada e insuscetível a eventuais diferenças ideológicas entre seus governos.

A imagem do Brasil na região está tão desgastada que seria presunçoso reivindicar um papel de liderança. Em vez disso, o novo governo deve sinalizar a disposição de voltar a cooperar e fornecer bens públicos regionais, sejam financeiros – por exemplo, ajudando a superar a baixa integração física regional –, sejam políticos, coordenando melhor estratégias conjuntas para lidar com desafios comuns, como o crime transnacional, o desmatamento e a crise migratória venezuelana. Da mesma forma, o Brasil deve ter um papel-chave para assegurar que a América Latina reagirá de forma mais eficaz em uma próxima pandemia, facilitando a cooperação entre ministérios da Saúde e centros de pesquisa.

Na Europa, na América do Norte e no Japão, o próximo governo brasileiro terá oportunidade ímpar para negociar apoio financeiro no combate ao desmatamento, não apenas destravando os pagamentos da Alemanha e da Noruega – suspensos em 2019 quando o Brasil alterou a estrutura de governança do Fundo Amazônia –, mas também negociando contribuições dos outros países do G7. A crescente preocupação global com o meio ambiente – responsável, inclusive, por impulsionar profundas mudanças no modelo econômico chinês – não deve ser interpretada como uma ameaça à soberania brasileira, mas como uma oportunidade geopolítica, que, se for for negociada de maneira adequada, poderá fortalecer o poder de barganha do Brasil.

Por fim, mesmo que a transição de poder em janeiro de 2023 ocorra de maneira ordenada, interlocutores internacionais se perguntarão qual é a chance de um populista com ambições autoritárias reeleger-se no futuro, problema semelhante ao dos EUA, em relação à sucessão do presidente Joe Biden. Afinal, de que valem suas promessas aos parceiros da OTAN se há uma chance real de Trump retornar à Casa Branca em 2025? Da mesma forma, nem a melhor diplomacia brasileira na área ambiental terá impacto significativo se houver um risco elevado de um outro negacionista vencer as eleições em 2026. Por isso, é fundamental o Brasil assumir papel-chave na cooperação internacional em defesa da democracia, tanto promovendo o fortalecimento de mecanismos regionais – similares à cláusula democrática do Mercosul – quanto atuando firmemente no combate às fake news.

A reconstrução da imagem internacional do Brasil será um processo árduo, sobretudo porque, mesmo com uma eventual derrota de Bolsonaro nas urnas, o bolsonarismo deverá continuar a ter papel expressivo na política brasileira. Ainda assim, uma diplomacia bem desenhada pode, ao longo de um mandato presidencial, reverter ao menos parte do colapso reputacional sofrido desde 2019.

Depois das pedaladas, a obscenidade fiscal

 Editorial

O Estado de S.Paulo

Atitude dos demissionários do Ministério da Economia, em reação à violação do teto de gastos, foi uma rara homenagem, no Executivo de hoje, aos padrões de decência

O novo ataque do presidente Jair Bolsonaro ao teto de gastos atingiu mais uma vez e desmontou a equipe econômica, deixando o ministro Paulo Guedes sem quatro de seus principais auxiliares. Nada ou quase nada sobra do “dream team” anunciado pelo ministro no início de seu mandato. Obediente às ordens presidenciais, ele continuou, nos últimos dias, ajudando seu chefe a garantir recursos para a gastança eleitoreira. Ao persistir nesse caminho, abandonou a missão básica do Ministério da Economia – cuidar das finanças públicas e garantir respeito ao dinheiro dos contribuintes.

Ao pedir demissão, o secretário especial de Tesouro e Orçamento, Bruno Funchal, acompanhado por três dos mais importantes servidores da pasta, confirmou haver chegado a um limite. Recusou-se, juntamente com seus companheiros, a assistir a mais uma violação, até no sentido mais escabroso, dos princípios da administração pública. Ele já havia mostrado desconforto diante da orientação transmitida pelo Palácio do Planalto e afinal aceita, mesmo com alguma cara feia, pelo ministro da Economia. A atitude dos quatro demissionários foi uma rara homenagem, no Executivo de hoje, aos padrões de decência.

A nova debandada fez soar mais alto o sinal de perigo das contas federais, ameaçadas pela irresponsabilidade do presidente. Em busca da reeleição, ele se mostra disposto a qualquer demanda para triunfar nas urnas e, até lá, manter o apoio do Centrão, um dos mais custosos grupos fisiológicos, talvez o mais custoso, da história parlamentar brasileira. Os desmandos incluem a desmoralização do teto de gastos, um dispositivo constitucional criado em 2016 para disciplinar a gestão orçamentária, que havia sido esculhambada pelas pedaladas fiscais e pela contabilidade criativa do governo de Dilma Rousseff.

Não importa como se ultrapasse o teto, quando se trata de acomodar um excesso injustificável de despesas. Tem prevalecido a criação de exceções, algumas defensáveis, mas a jogada, agora, é indefensável. A nova solução, apresentada pelo ministro Guedes, é mudar o calendário da inflação tomada como referência para a despesa. Será considerada a variação de preços entre janeiro e dezembro do período base.

No padrão anterior, eram levados em conta, na elaboração do Orçamento, os 12 meses terminados em junho. Com a inflação acelerada, o novo critério assegura uma expansão bem maior do limite orçamentário. A mudança envolverá uma revisão das contas desde 2016. Haverá mais espaço para o Auxílio Brasil, versão bolsonariana do Bolsa Família, para um novo presente aos caminhoneiros amigos e para a farra das emendas parlamentares. Estima-se uma folga de R$ 83,6 bilhões para as generosidades eleitoreiras e para a distribuição de mimos. Com o novo cálculo, R$ 40 bilhões foram acrescentados a esse espaço.

Não se explicou de onde sairá o dinheiro. Em termos acessíveis a todos, a resposta é fácil: sairá do bolso do cidadão. Muitos talvez nem percebam o assalto, mas sofrerão os efeitos. Quanto à mudança do calendário base, é apenas mais um truque para a violação da regra. Não se distingue, em seus aspectos financeiros, políticos e morais, de outras manobras para furar o já esburacado teto de gastos.

Os truques imaginados no Executivo e executados com apoio parlamentar converteram em ficção o limite constitucional do aumento de gastos. A reação do mercado, com ações despencando e o dólar subindo, está longe de ser fricote ou malandragem. Expressa uma percepção cada vez mais pessimista da evolução das contas federais e, especialmente, da dívida pública.

A desconfiança do mercado tende a elevar os juros cobrados pela dívida pública, a tornar mais apertado o Orçamento, com prejuízos para o crescimento econômico, e a sobrevalorizar o dólar, com efeitos inflacionários. A inflação pode até favorecer a arrecadação de tributos, como tem ocorrido, mas com sacrifício crescente para as famílias, principalmente as pobres, as mais atingidas quando se violentam as contas públicas.


Bolsonaro sacrifica o Orçamento para salvar sua popularidade

 Alexander Busch

Deutsche Welle

Governo passa por cima das regras orçamentárias a fim de abrir comportas para gastos sociais e presentes eleitoreiros antes de 2022. Os mercados financeiros reagem com severas turbulentas. E talvez seja tudo em vão.  

Benefícios sociais para eleitorado esquecer

descalabros da pandemia: será que vai funcionar?

O fato de o banqueiro e economista seguidor da Escola de Chicago Paulo Guedes estar no governo de Jair Bolsonaro era para a economia algo assim como a garantia de que o presidente adotaria um curso de reforma liberal. Porém as esperanças de que, apesar de ter como chefe o capitão da reserva, Guedes conseguiria impor esse curso há muito se desfizeram.

Desde o começo desta semana, ficou evidente que Guedes tampouco impedirá  altas orçamentárias acima do limite permitido por lei. Com manobras grosseiras, agora o governo quer alterar o teto de gastos, que estava claramente fixado pelo orçamento público de 2020, corrigido pela inflação.

Por um lado, Bolsonaro propõe considerar a inflação mais alta de janeiro a dezembro de 2021 (em vez da dos 12 meses até junho último), a fim de poder gastar mais. Por outro, quer possibilitar por emenda o parcelamento de precatórios, aumentando ainda mais o campo para gastos. O teto só foi introduzido em 2017 e proporcionou ao Brasil os juros mais baixos de sua história econômica. Agora isso acabou.

Pânico nos mercados financeiros

Em protesto, nesta quinta-feira (21/10), quatro secretários do Ministério da Economia – três economistas e uma economista – anunciaram inesperadamente sua renúnica. Supõe-se que estão deixando o governo agora para no futuro não serem penalizados por terem ignorado as regras orçamentárias.

Os mercados reagiram com choque aos pedidos de exoneração: desde o início da semana – quando se acumularam os boatos de que o governo desrespeitaria o teto de gastos –, o índice da bolsa de valores de São Paulo caiu 10%; o dólar subiu quase 5%; os juros nos mercados de futuro saltaram para mais de 12%.

Em resumo: os investidores reagiram com pânico, temendo a reação em cadeia que agora, após a quebra das regras orçamentárias, se materializa. Assim, o Banco Central provavelmente terá que elevar em breve a taxa Selic para mais de 10% (dos atuais 6,25%), como única forma de manter a inflação abaixo do limite de 5%, até o fim de 2022.

O encarecimento geral já passa de 10%, no momento; os preços da cesta básica chegaram a aumentar 16% nos últimos 12 meses. Além disso, a desvalorização do real aumenta a pressão inflacionária.

Como o Banco Central terá que manter por mais tempo ainda os juros altos, os bancos de investimentos reduziram a menos de 1% os prognósticos de crescimento para 2022 (depois de 5% no ano corrente). O desempenho econômico segue cerca de três pontos porcentuais abaixo do nível de 2014, o último ano de crescimento.

Aumento de popularidade improvável para Bolsonaro

O motivo para a alteração da fórmula do teto de gastos são os esforços de Bolsonaro contra sua queda de popularidade. No relatório final da CPI no Senado, o presidente acaba de ser incriminado por cometer nove delitos no decorrer da pandemia de covid-19.

Para desviar as atenções da situação deplorável, ele pretende aumentar o auxílio às classes de renda mais baixa já um ano antes das eleições, visando impulsionar sua pouca popularidade entre os pobres. No ano da pandemia 2020, ele conseguiu incrementar sua popularidade, justamente junto às classes de renda mais baixa, com generosos benefícios sociais.

Mas será que vai conseguir repetir a proeza? O desemprego está estagnado num nível alto, de cerca de 14%, a ocupação só cresce no setor informal, onde, porém, se paga menos. A massa salarial dos brasileiros caiu em 2021 6%, em relação ao ano interior. E, tradicionalmente, o consumo é o motor do crescimento.

Acima de tudo, entretanto, a inflação alta deverá prejudicar de forma duradoura a popularidade de Bolsonaro: os pobres são, de longe, os mais afetados pela desvalorização. Os R$ 400 do novo Auxílio Brasil não vão adiantar muito.


Arquiteto da tragédia

 Marcos Strecker e Ricardo Chapola

Revista ISTOÉ

A entrega do relatório final da CPI da Covid faz o País ajustar contas com sua história. Bolsonaro e 40 seguidores, incluindo ministros e auxiliares próximos, serão indiciados por delitos analisados e compilados por juristas. Para a efetiva punição, é necessário superar a blindagem institucional que ele conseguiu construir

 (Crédito: Corbis via Getty images)

IDEOLOGIA

 Como Hitler, Bolsonaro defendeu a eugenia 

e mostrou perversidade e desprezo pela vida 

Na lenta gênese do nazismo, não faltaram alertas sobre a tragédia que se desenvolvia. Mas sua dimensão só ficou evidente após o julgamento dos crimes no Tribunal de Nuremberg e a descoberta dos campos de concentração, que traduziram o horror em imagens. Com a conclusão dos trabalhos da CPI da Covid, o Brasil está enfrentando seu momento Nuremberg. É hora de compreender a extensão da catástrofe perpetrada pelo presidente e por seus asseclas. E é o que a comissão está fazendo. Renan Calheiros deve entregar o relatório final nesta terça-feira, 19, e ele será votado no dia seguinte.

O senador confirmou à ISTOÉ: o documento vai apontar que Bolsonaro adotou práticas do regime nazista. Calheiros o chama de “mercador da morte”. Segundo ele, dois casos aterradores, em especial, remetem a experiências macabras do Terceiro Reich com seres humanos: o caso Prevent Senior e uma pesquisa com proxalutamida que teria levado 200 voluntários à morte no Amazonas.

 (Crédito:Edilson Rodrigues)

OFENSIVA

 Relator Renan Calheiros: presidente criou “gabinete da morte” 

e achou que ia revolucionar a medicina 

A Prevent é acusada de obrigar médicos a prescrever remédios sem eficácia do kit-Covid, de ter conduzido um pseudoexperimento e de mudar certidões de óbitos (omitindo os causados pela doença). No caso da proxalutamida, droga defendida por Bolsonaro e estudada para tumores de mama e próstata, os responsáveis haviam recebido autorização para uma pesquisa com 294 voluntários em Brasília. Mas ela foi aplicada no Amazonas em 645 pessoas. Além disso, o Conep (entidade responsável por regular a participação de voluntários em pesquisas) denunciou em setembro à Procuradoria-Geral da República que foram alteradas informações sobre o critério de inclusão de voluntários e pacientes falecidos. Apesar de os pesquisadores terem conhecimento dos sucessivos óbitos e eventos adversos graves, continuaram com o recrutamento e os estudos.

 


A  Unesco considerou essa prática uma das infrações éticas mais graves da história da América Latina e pediu o monitoramento da comunidade científica nacional e internacional. “É inaceitável que esses tipos de eventos estejam acontecendo em 2021. Nenhuma emergência sanitária ou contexto político ou econômico justifica fatos como esses”, disse a organização em nota. Essas práticas não aconteceram à revelia das autoridades. O próprio presidente negligenciou as vacinas, propagandeou fármacos milagrosos, promoveu notícias falsas e sugeriu a invasão de hospitais. Tinha conhecimento da suspeita de corrupção na venda de imunizantes e nada fez. Por causa disso, Bolsonaro deve ser indiciado por 11 crimes. As denúncias incluem charlatanismo (três meses a um ano de prisão), publicidade enganosa (três meses a um ano de prisão), infração de medida sanitária (um mês a um ano de prisão) e corrupção passiva (dois a treze anos de prisão). Também entraram no rol de acusações: o genocídio e o crime de responsabilidade, passível de impeachment.

Homicídio doloso

 (Crédito:Michael Dantas)

MANAUS 

Em janeiro passado, pacientes morreram asfixiados 

pela falta de oxigênio: caso cruel e aterrador

Os delitos foram compilados pelo grupo de juristas coordenado pelo ex-ministro da Justiça Miguel Reale Jr. No material que a CPI recebeu dos especialistas, eles não mencionaram o crime de homicídio. Em vez disso, imputaram ao chefe do Executivo o crime de epidemia, com resultado de morte. Isso, no entanto, não convenceu Renan Calheiros. Orientado por outros juristas, o relator está mais inclinado a denunciar Bolsonaro por homicídio doloso, baseado nos fortes indícios de omissão do governo no processo de compra de vacinas.

As investigações comprovaram um quadro de descalabro na administração da Saúde, com gabinetes paralelos, atravessadores inescrupulosos oferecendo vacinas que não existiam em contratos bilionários e personagens desqualificados dando orientações para lidar com a pandemia. Militares foram escalados por sua suposta expertise em logística, mas o despreparo para lidar com a emergência, além do voluntarismo para aderir a teses contra a saúde da população, ficaram patentes nos depoimentos.

Apesar de seu papel central, o mandatário não é o único responsável. A CPI deve indiciar mais de 40 pessoas por terem colaborado para tornar o Brasil o segundo País com o maior número de óbitos no planeta. Pelos menos seis ministros, titulares ou já demitidos, serão denunciados: Eduardo Pazuello (Saúde), Marcelo Queiroga (Saúde), Onyx Lorenzoni (Trabalho e Previdência), Ernesto Araújo (Relações Exteriores), Wagner Rosário (CGU) e Osmar Terra (Cidadania). Auxiliares próximos do presidente como Fábio Wajngarten (antigo chefe da Secom), Ricardo Barros (líder na Câmara) e empresários do círculo bolsonarista, como Luciano Hang e Carlos Wizard, também. E dois filhos também podem ser incluídos. Carlos Bolsonaro, pelo papel de articulador da rede de fake news e por ter difundido o kit-Covid, e Eduardo Bolsonaro por ser o elo dessa rede com supostos financiadores, como o empresário Otávio Fakhoury (outro provável indiciado) e o próprio Hang.

Há farta documentação para embasar todas essas acusações, e a CPI, uma das mais importantes desde a redemocratização, deve cumprir não apenas o papel de expor os erros na pandemia. Vai recalibrar a régua moral do País no momento em que as instituições estão sob ataque e há um desmanche em todas as áreas do Estado – o recente corte quase total das verbas para pesquisas científicas é apenas um sinal disso, justamente num segmento que poderia preparar a Nação para enfrentar emergências semelhantes.

Estratégia contra blindagem

Tamanho corpo de evidências não significa que os culpados serão de fato punidos. A comissão discutiu extensamente maneiras de evitar que o Procurador-Geral da República, Augusto Aras, engavetasse o relatório do colegiado. Aliado diligente na blindagem do mandatário, ele pode simplesmente se omitir diante do relatório. Formalmente, tem um mês para remeter a denúncia ao STF. Uma das propostas em discussão é fazer com que a defesa das próprias vítimas provoque diretamente a Corte por meio de uma ação penal privada, subsidiária da pública, inserida no âmbito do artigo 5º da Constituição. É o que defende o senador Alessandro Vieira, um dos nomes mais experientes do colegiado. Entidades de direito privado poderiam entrar com ações diretamente no STF. Essa alternativa já é debatida com membros da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), que podem assumir a causa em nome de associações de vítimas da Covid. Mas trata-se de um expediente que pode ser questionado por juristas.

Os últimos dias foram consumidos pela CPI com os detalhes do relatório final. Vieira teme que questões levantadas pela comissão, como os atos médicos e a autonomia do paciente, possam enfraquecer o embasamento técnico da peça. Além da PGR, receberão o relatório o Tribunal de Contas da União (TCU) e o Ministério Público do Distrito Federal, além dos Ministérios Públicos Federais e Estaduais (para investigar pessoas sem foro privilegiado). A estratégia da cúpula da CPI é mobilizar esses órgãos “pela base”, fazendo com que seus membros pressionem Aras. O presidente da Câmara, Arthur Lira, receberá o documento porque nele estará listado o crime de responsabilidade cometido pelo mandatário (aqui, a blindagem é certa, pois Lira é outro aliado fiel do presidente). Para dar mais visibilidade às acusações, a CPI pretende ainda recorrer ao Tribunal Internacional Penal, em Haia, onde Bolsonaro já responde a três acusações. De qualquer forma, o acúmulo de provas já abasteceu processos em órgãos como TCU, PF e Anvisa. 


Independentemente dessa nova fase que se inicia após a aprovação do relatório final, a CPI já ajudou de forma decisiva no julgamento histórico da gestão Bolsonaro. A crise na Saúde, agora agravada pela deterioração econômica, derreteu a popularidade de Bolsonaro. Ele tem dificuldades até em circular em público quando não está cercado de policiais e dos seguidores fanáticos. Foi barrado quando tentava assistir a uma partida do Santos na Vila Belmiro porque não tinha comprovante de vacinação. Aprendeu o que qualquer cidadão deveria saber: é preciso respeitar as leis. Na visita ao Santuário de Nossa Senhora Aparecida (SP), no dia 12, enfrentou vaias de populares, que o chamaram de “lixo” e “genocida”. E levou um sermão do arcebispo, Dom Orlando Brandes, que defendeu momentos antes as vacinas e citou os 600 mil mortos de Covid. O religioso defendeu ainda em sua homilia uma pátria “sem corrupção e sem ódio”, e disse que “para ser pátria amada não pode ser pátria armada”. “Uma pátria é uma república sem mentira e fake news”, afirmou. Crítica mais direta, impossível.

O descrédito faz o presidente voltar a ser ridicularizado no exterior. A BBC Two produz em parceria com a PBS, rede pública americana, a série “The Bolsonaros”, que deve estrear em março de 2022 nos EUA e na Europa. O título remete às tradicionais famílias mafiosas retratadas nas telas. A TV France 5 também deve lançar no próximo ano um documentário sobre o brasileiro. A tragédia brasileira passa a ser encarada como drama ou comédia.

 (Crédito:Divulgação) 

“Pátria amada não pode ser pátria armada. 

Uma pátria é uma república sem mentira e fake news” 

Dom Orlando Brandes, arcebispo de Aparecida (SP)

Código de Nuremberg

No âmbito da CPI, não é despropositado que Renan Calheiros compare os episódios da Prevent e da proxalutamida com as experiências desumanas de um dos próceres nazistas, o médico Joseph Mengele. Não se trata de excesso retórico. Quando os países aliados julgaram os principais seguidores de Hitler, foi desenvolvido o chamado Código de Nuremberg. Isso ocorreu após a Corte instalada nessa cidade alemã ter se debruçado sobre as experiências macabras com prisioneiros do regime, frequentemente com resultados fatais. Emergiram do debate os princípios que as pesquisas com seres humanos deveriam seguir. Antes de mais nada, elas deveriam proteger os voluntários, a quem foi dado o direito de opinar e tomar decisões. E haveria a responsabilização dos profissionais. Junto com outros códigos elaborados no pós-Guerra, essas normas constituem o pilar da ética moderna no assunto. Foi contra esse arcabouço civilizatório que Bolsonaro investiu, mobilizando autoridades, entidades médicas e profissionais.

O presidente agiu pelo marketing ideológico e pelo desespero de diminuir os danos políticos causados pela pandemia, além de tentar mobilizar as bases radicais que ainda o apoiam, movidas a fake news e polarização. Mas demonstrou princípios da ideologia nazista, como a perversidade e o desprezo à vida. Ele estimulou que vítimas da Covid fossem tratadas como cobaias e defendeu a eugenia, ao apontar que idosos (“velhos vão morrer de qualquer jeito”) e fracos (“sem histórico de atleta”) pudessem sucumbir. No início deste ano, pessoas morreram asfixiadas por falta de oxigênio enquanto uma comitiva oficial divulgava o kit-Covid. O mundo assistiu espantado a essa realidade. É duro admitir que tamanha infâmia tenha sido praticada em plena democracia e aos olhos de todos, mas ela aconteceu. Houve uma normalização dessas práticas. 

(Crédito:Carla Carniel)

VAIAS 

Bolsonaro foi ao Santuário de Nossa Senhora Aparecida (SP), 

no dia 12, e ouviu críticas de populares: “lixo” e “genocida” 

Como o próprio Renan Calheiros aponta, a trajetória de Bolsonaro é autoexplicativa. Ele defendeu matar 30 mil brasileiros quando era deputado federal, idolatra “ditadores carniceiros” e tem vínculos com “a face mais assustadora da morte, as milícias”. Para o relator da CPI, o presidente é um facínora. Apenas expressa em palavras duras uma realidade cristalina. O presidente, por outro lado, permanece em negação, voltado para a própria bolha que ainda o idolatra. Mesmo diante da iminência da entrega do relatório, voltou a desacreditar a ciência. “Eu decidi não tomar a vacina. Estou vendo novos estudos, a minha imunização está lá em cima, para que vou tomar vacina? Seria a mesma coisa você jogar R$ 10 na loteria para ganhar R$ 2”, declarou. Ao propagar tamanha sandice usando a autoridade de presidente, demonstrou ignorância e irresponsabilidade e voltou a cometer um crime. Desestimulou novamente a vacinação, enquanto o SUS luta para acelerá-la nos estados em que a campanha está mais atrasada. Felizmente esse novo ataque acontece enquanto a sociedade reafirma sua confiança na Saúde. Mesmo com a sabotagem oficial, mais de 70% da população já tomou a primeira dose, e 100 milhões estão totalmente imunizados. A cerimônia de encerramento da CPI nos próximos dias deverá devolver o País à realidade. A sociedade ainda está enlutada, mas ajustando contras com sua própria história.


A invenção do “Bolsonaro paz e amor” é uma zombaria grotesca à inteligência

 Juan Arias

El Pais

As forças mais conservadoras das instituições, por mais estranho que possa parecer, preferem o Bolsonaro fascista e incapaz de governar a uma solução democrática e moderna

  ALAN SANTOS/PR 

O presidente Jair Bolsonaro tira foto com apoiadores em Miracatau (SP), 

no dia 13 de outubro, durante entrega de títulos de propriedades rurais.

Só um cínico pode acreditar que a confissão feita dias atrás pelo presidente Bolsonaro, de que “chora sozinho no banheiro” para que sua mulher não o veja, pode enganar os ingênuos, como se de repente o machista e homofóbico tivesse se transformado no personagem “paz e amor” da direita fascista.

Às vésperas de a CPI da Covid acusar o capitão reformado de uma dezena de crimes graves, o bolsonarismo tenta retirar de Lula a capa de político “paz e amor” para cobrir com ela o psicopata Bolsonaro, cuja essência é a violência, o ódio, a morte e a mentira. É algo que parece grotesco e se revela uma tentativa de amansar a fera para que não perca as eleições.

É algo que interessa não apenas ao mundo do dinheiro, que ainda continua acreditando ingenuamente na vocação liberal conservadora do capitão, que acaba de anunciar que pensa em privatizar a Petrobras. Trata-se, na verdade, de um disfarce para atrair o capitalismo raiz. O Bolsonaro real, com seu histórico de 30 anos de obscuro deputado do baixo clero, é o que só aparecia em cena para exalar suas grosserias de cunho sexista ou de instintos de morte e violência ou suas obsessões de defesa e fascinação pela tortura e as ditaduras.

Bolsonaro é tudo menos o cordeirinho paz e amor, já que evoca, mais propriamente, a dura passagem evangélica do lobo disfarçado com pele de ovelha. Acredito, por isso, na ingenuidade das formações políticas que estão usando Bolsonaro e seu poder para tirar dele o maior proveito possível e evitar a volta de Lula. A nova tática de rebatizá-lo com a nova versão do político paz e amor para que não perca as eleições e, ao mesmo tempo, desarmá-lo de seus instintos golpistas.

O que esses políticos querem é um Bolsonaro domesticado, de quem possam usar e abusar em seus projetos de permanência no poder. Só assim se explica que o Congresso tenha se negado a analisar os 120 pedidos de impeachment que dormem sonhos tranquilos.

As forças mais conservadoras das instituições, por mais estranho que possa parecer, preferem, contra 70% dos brasileiros, o Bolsonaro fascista e incapaz de governar a uma solução democrática e moderna, capaz de colocar o Brasil no lugar que lhe pertence no mundo e que o bolsonarismo desbaratou.

O sonho de que Bolsonaro tenha de repente se convertido aos valores da democracia – porque há mais de um mês que não ameaça com um golpe de Estado, poque já não ameaça fechar o Supremo e prender os magistrados, ou ainda fechar os meios de comunicação, significando que ele tenha tido uma revelação divina que o fez cair do cavalo, como Paulo a caminho de Damasco – é de uma ingenuidade que beira imbecilidade.

Hoje, nem os mais pobres, e menos ainda a nova massa de famintos, são capazes de acreditar no Bolsonaro convertido à paz e à concórdia, e que tenha dominado de repente seus instintos violentos e destruidores. Assim revelou profeticamente uma mulher simples do campo que, dia 12 passado, festa de Nossa Senhora da Aparecida, ao ver o presidente entrar no Santuário da Virgem para participar da cerimônia litúrgica, lançou um grito espontâneo: “Não, você aqui, não.”

Aquele santuário era um lugar de paz e amor, onde a diminuta estátua de Maria, negra, na qual milhões de pobres e marginalizados depositam suas esperanças, revela, como bem disse o arcebispo, que “o Brasil amado não é o Brasil armado.”

Talvez a mulher que considerava um sacrilégio ver entrar naquele lugar de paz e de encontro o político que encarna os piores instintos de morte fosse uma das 600.000 famílias que tiveram que sofrer a perda de um familiar na pandemia, da qual zombou o presidente, e cuja dor pelas vítimas nunca arrancaria dele uma lágrima de compaixão e dor. Por que chorará agora escondido no banheiro? Até agora ele se apressou em dizer, para não decepcionar seus seguidores mais aguerridos, que não tentou deixar de ser um machão. Apenas também sabe chorar, ainda que sejam lágrimas de crocodilo.

Quem então se interessa em espalhar a ideia de que o amigo e admirador de torturadores e golpistas esteja se transformando no novo pacificador do país?

Tudo por medo de que seja eleito alguém que acredita de verdade nos valores da democracia?

De qualquer modo, ter começado a lançar a ideia da repentina conversão de Bolsonaro, que teria trocado suas ameaças golpistas pelas lágrimas de arrependimento, mesmo que sejam no segredo do banheiro, parece mais um teatro do absurdo ou uma fantasia carnavalesca. A realidade, nua e crua, é que a cruel psicologia de morte e de ausência de compaixão e empatia diante da dor alheia o capitão frustrado levará consigo ao túmulo.


O Brasil é melhor do que o seu governo

  Míriam Leitão

O Globo

  Dennis Barbosa / Globo Natureza 

Floresta Amazônica | 

O empresário Guilherme Leal cita dois números que dão uma noção do que o Brasil deixa de ganhar na economia da floresta. “O mercado de produtos florestais atinge a casa de US$ 180 bilhões por ano e o Brasil tem apenas 0,5% dele”. O país se prepara para a reunião de Glasgow. A sociedade se organiza em alianças entre empresários, ambientalistas e especialistas de áreas diversas para ter uma presença forte na COP 26. Governadores amazônicos estavam reunidos ontem em Belém no Fórum Mundial de Bioeconomia. O governo federal errou muito em 2019 e agora dá alguns sinais de que mudará sua desastrosa posição. Um agente dessa mudança de posição é o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto.

Todos os empresários com quem falei nos últimos dias afirmam que o Brasil tem que estar preparado para os debates. Esta reunião do clima é estratégica porque vai definir o Manual de Regras do artigo sexto do Acordo de Paris, que estrutura o mercado de carbono. Algumas pessoas no governo têm a noção da importância da reunião. No Banco Central eu ouvi o seguinte:

–O Brasil precisa chegar à COP com três coisas: plano de desmatamento com percentual factível de redução até zerar, o ‘race to zero’, e como pretende colocar as empresas nisso; um documento crível de mercado voluntário e metas de mercado obrigatório em dois ou três anos. Se chegar com isso, sairá com relativo sucesso.

O empresário Guilherme Leal disse, em entrevista que me concedeu na Globonews, que em 2019 a delegação brasileira criou obstáculos à regulamentação do mercado de carbono e que é do maior interesse do Brasil que haja um mercado regulado.

–A gente espera e torce por uma nova atitude do governo. E tem indicações de que o governo será mais positivo nessa COP 26. O mercado de carbono é importante, mas a floresta é muito mais do que carbono. A floresta é de uma riqueza fantástica. E o Brasil pode ter muito mais vantagens na economia dos produtos florestais — disse Leal.

O empresário define com adjetivos fortes o que é o garimpo: “invasivo, destrutivo, poluidor e que contamina nossas águas”. Defende que continue a demarcação de terras indígenas. Ele disse que estudos dos últimos 36 anos mostram que as populações tradicionais têm sido “guardiãs da floresta”.

O governo do Pará está recebendo até quarta-feira o Fórum Mundial de Biodiversidade que, pela primeira vez, se reúne fora da Finlândia. Uma das mobilizações interessantes é a dos governadores da Amazônia que, apesar das diferenças políticas têm se unido e tentado canais de diálogo com outros países e organizações na questão da mudança climática e proteção da biodiversidade.

Outra mobilização que acontece é a de ambientalistas, empresários, pesquisadores de áreas diferentes em iniciativas como a Concertação pela Amazônia, organizada pelo empresário Guilherme Leal. O que a gente ouve de todos eles é que o Brasil só tem a ganhar se reduzir o desmatamento da Amazônia, voltar a ter protagonismo nas negociações climáticas e desenvolver a bioeconomia, a Amazônia 4.0, nos moldes defendidos pelo cientista Carlos Nobre.

Todos os governos dos estados amazônicos foram para Belém ontem para o encontro que tem cientistas, economistas, banqueiros, empresários do agronegócio e representantes de diversos países. Perguntei ao governador Helder Barbalho como havia sido a negociação para que o evento acontecesse pela primeira vez fora da Finlândia.

– Isso é um trabalho de 25 meses, mas quem deu o primeiro passo foi o Marcello Brito da Associação Brasileira do Agronegócio. Ele vai todo ano e propôs que fosse feito no Brasil. No evento, o governo do Pará criou uma unidade de conservação, lançou um edital para concessões de florestas para crédito de carbono e uma linha de crédito para projetos de conservação.

A alternativa à proteção da floresta é a derrota, explica Guilherme Leal.

–Nós sabemos que a economia do desmatamento é efêmera. Ela passa e depois cria vazios. Deixa o nada atrás de si e vai abrir novas fronteiras. Precisamos acabar com essa lógica — disse.

No Brasil há uma fratura. A sociedade cria coalizões e avança na direção certa. O governo Bolsonaro com uma visão estúpida atrapalha o país. Dentro do governo alguns poucos tentam evitar um novo fiasco. Enquanto isso a floresta é derrubada, um pouco por dia.


Quando cidadãos viram estorvo

 Editorial, 

O Estado de S.Paulo

O governo não se interessa em reduzir a fila dos cidadãos que esperam a aposentadoria

Desdém – o mesmo que desprezo arrogante, como define o dicionário –, insensibilidade social e incapacidade de entender problemas que lhe dizem respeito parecem descrições adequadas da atitude do governo do presidente Jair Bolsonaro com relação aos pedidos de aposentadoria feitos por milhões de brasileiros. São cidadãos que, pelo trabalho ao longo de suas vidas, adquiriram legitimamente esse direito. Desde o início da atual gestão, porém, cresce o número de pedidos cuja análise e liberação vêm sendo retardadas pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). As vidas dessas pessoas, e de suas respectivas famílias, parecem ter-se tornado um estorvo para o governo. E não há esperança de que essa situação começará a melhorar a partir do ano que vem.

Como mostrou reportagem do Estado (15/10), na montagem do Orçamento de 2022, o governo não reservou recursos para os pagamentos devidos aos cidadãos que estão na fila para a obtenção de suas aposentadorias. A alegação técnica de que há limite para os gastos serve apenas para esconder a incompetência do governo de decidir prioridades. Quando pressionado por restrições orçamentárias, corta do lado que menos o preocupa, como as despesas consideradas sociais. Elas foram essenciais para a preservação de condições mínimas de sobrevivência de parte da população e para a manutenção de um nível mínimo da atividade econômica na pandemia. E as aposentadorias são direito de muitos cidadãos.

Simulações feitas pelo Estadão/Broadcast mostram que a despesa adicional com o início do pagamento dos benefícios a metade das pessoas que estão na lista do INSS chegaria a R$ 11 bilhões no próximo ano. Ainda assim, quase 1 milhão de cidadãos continuariam na fila.

Mas nem isso será feito. Desde 2019, o primeiro ano do mandato de Bolsonaro, seu governo vem retardando a concessão de benefícios, transferindo as despesas para exercícios seguintes. Estima-se que, no fim daquele ano, havia 1,3 milhão de pedidos na fila da análise do INSS. O número subiu para 1,76 milhão no fim do ano passado e 1,829 milhão no fim de agosto.

A pandemia, é certo, fez crescer o número de pedidos de aposentadoria e de auxílio-doença. Mas o contínuo aumento de pedidos em atraso deixa claro que a criação, no ano passado, de uma força-tarefa, inclusive com a contratação temporária de militares da reserva, para reforçar o atendimento nas agências e liberar funcionários do INSS para a análise dos pedidos atrasados não foi suficiente para reduzir o problema. Dos 6,5 mil temporários previstos, o INSS conseguiu contratar apenas 3 mil. E seu treinamento levou mais tempo do que o esperado, o que reduziu seu tempo de trabalho efetivamente útil para a tarefa que os aguardava.

Talvez não seja exagerado pensar que não há, de parte de membros do governo, interesse em resolver o problema, pois isso criaria outro, a necessidade de pagar os novos aposentados. Os prejudicados que se arranjem, devem pensar burocratas com essa mentalidade – e infelizmente eles não são poucos neste governo. 


Fura-teto: para gastar e escapar da cadeia

  Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

Não, não é verdade que será necessário furar o teto de gastos públicos em 2022 para financiar o programa Auxílio Brasil — com o pagamento de R$ 400 por mês para 14 ou até 17 milhões de famílias muito pobres.

Considere apenas um número. Por baixo, o governo federal terá algo como R$ 1,5 trilhão para gastos no ano que vem. Dinheiro para gastar onde quiser. Nessa montanha de recursos, não seria possível encontrar uns míseros R$ 50 bilhões para os mais pobres?

Sim, os números parecem meio chutados. Ocorre que este Orçamento federal é mesmo feito aos chutes e pedaladas. Na primeira versão, calculava-se inflação menor de 4% para 2022, crescimento robusto e juros baixos.

Mas, em consequência mesmo dos improvisos e das inconsistências geradas pelo governo Bolsonaro, o quadro mudou rapidamente ao longo de 2021. Há fatores externos, claro, como os efeitos da pandemia, mas o real se desvaloriza mais que as demais moedas de países emergentes; a inflação aqui sobe mais; os juros que os investidores cobram do Tesouro brasileiro, em títulos de dez anos, já passam de 12% anuais, também acima do padrão emergente; e, finalmente, o risco Brasil (o prêmio exigido pelos investidores para “comprar” Brasil) também é mais alto que o dos nossos pares.

Claramente, o problema está aqui e tem nome: o populismo escrachado do presidente Bolsonaro, cujo único objetivo é tentar se reeleger em 2022, não para fazer reformas ou privatizações ou qualquer outra mentira, mas simplesmente para não ser preso.

Populismo exige improvisação e mentiras. Por exemplo: o Auxílio Brasil não é um verdadeiro programa social, com foco e objetivos bem definidos, como era o Bolsa Família. Este tinha uma constatação e um fundamento, definidos lá atrás por técnicos do Banco Mundial.

A constatação: as famílias pobres permaneciam pobres porque as crianças tinham que ajudar os pais no trabalho e não podiam frequentar a escola. O fundamento: dar uma renda mínima às famílias, desde que mantivessem as crianças na escola e ainda cumprissem visitas regulares aos postos de saúde, especialmente para vacinação. Iniciado no Brasil nos anos 90, é um sucesso mundial.

O Auxílio Brasil é eleitoreiro. São R$ 400 por família só para superar o Bolsa Família de Lula; vale só para 2022, o ano eleitoral; não há contrapartidas definidas, o que significa que haverá grande corrupção, com o dinheiro distribuído a quem não precisa, como aconteceu com o auxílio emergencial.

Mesmo assim, como demonstrou o Instituto Fiscal Independente (IFI), seria possível pagar esses R$ 400 sem furar o teto, sem quebrar a regra fiscal básica criada em 2016.

E por que é preciso um teto de gastos, que engessa o gasto social? — dizem os chamados progressistas.

Porque o governo federal havia se transformado numa máquina de gastar cada vez mais dinheiro. Em 1997, o gasto público total equivalia a 14% do Produto Interno Bruto. Em 2016, já passava dos 20%.

E não se tem notícia de que os brasileiros vivessem num magnífico Estado de bem-estar social. O gasto público é desigual, os salários do funcionalismo vão do mínimo a um teto de quase 40 mínimos, frequentemente superado com gambiarras postas em lei.

A ideia do teto é simples: gasta-se num ano o mesmo aplicado no ano anterior, mais a inflação.

Não engessa nada. Não engessa as emendas parlamentares, o dinheiro que os parlamentares federais têm direito a gastar com suas clientelas. Hoje, a maior parte desse dinheiro é controlada pelo presidente da Câmara, Arthur Lira, o chefe do Centrão.

Tudo considerado, eis o fato: resolveram pedalar as contas e furar o teto para salvar (e aumentar) as emendas e os fundos partidário e eleitoral. O resto é populismo para livrar Bolsonaro e seus filhos da cadeia.

A conta vai para a população e já está sendo paga na forma de mais inflação (com dólar nas alturas), mais juros, menos investimento e consumo, menos crescimento e mais desemprego.


Crise? A crise vem é agora

 Carlos Brickmann

 


O presidente Bolsonaro reafirmou sua confiança em Paulo Guedes e prometeu não fazer aventuras na economia. O presidente da Câmara, Arthur Lira, disse que o Congresso está comprometido com a solidez fiscal.

*Mas Bolsonaro mandou Paulo Guedes se virar para que a Bolsa Família seja de R$ 400. Só não disse quais despesas devem ser cortadas para providenciar os recursos. Por exemplo, não faz muito tempo o presidente gastou, para inaugurar uma ponte, dez vezes o custo da ponte.

*Arthur Lira preside a Câmara, onde uma comissão já aprovou o calote no pagamento de precatórios – dívidas que o Tesouro foi condenado a honrar imediatamente, mas pretende dividir em suaves prestações anuais.

*Bolsonaro disse que não quer correr nenhum risco na economia. Mas seu Governo pressiona o Congresso para furar o teto de gastos, a “regra de ouro” que, no Governo Temer, quase zerou a inflação.

*Arthur Lira apoiou a iniciativa do Congresso de destinar R$ 5,7 bilhões para que os candidatos gastem na campanha eleitoral. É quase o triplo dos já escandalosos gastos na campanha de 2020. Essa verba sozinha bastaria para pagar o Bolsa Família de R$ 400 a mais de 14 milhões de famílias.

*Bolsonaro reiterou sua confiança total em Paulo Guedes e garantiu que ele fez um brilhante trabalho. Aqui Bolsonaro tem toda a razão. Em Guedes ele pode confiar: seus sapatos estarão sempre bem engraxados, brilhando.

A última palavra

Mas façamos justiça: em toda essa lambança, Paulo Guedes fez questão de ter as palavras definitivas. São “Sim, senhor” e “Pois não, Excelência”.

Os fatos

Talkey, como diria o presidente no inglês que deve ter aprendido com seu filho 03, Eduardo Bolsonaro. Mas ele e Arthur Lira disseram essas coisas no dia em que a equipe do Ministério da Economia foi embora e em que Paulo Guedes não sabia direito nem o nome de um dos escolhidos para cargos importantes em sua equipe; em que uma comissão da Câmara deu parecer favorável a calotear a dívida dos precatórios; em que as empresas negociadas em Bolsa completaram a perda, em valor de mercado, de R$ 284 bilhões.

O nome das coisas

Por favor, não critiquem este colunista por chamar o Auxílio Brasil, ou Bolsa Brasil, de Bolsa Família. Muda o nome, é a mesma coisa. Mas talvez não seja: o objetivo é menos livrar essas famílias da fome e mais dar um gás à campanha de Bolsonaro à reeleição. Do jeito que a inflação está subindo, logo, logo este auxílio será consumido pela alta de preços.

Vem mais

Bolsonaro prometeu também conseguir uma ajuda de R$ 400 mensais para os caminhoneiros, que ameaçam entrar em greve no próximo dia 1º contra as contínuas altas do combustível. Talvez funcione; mas líderes de caminhoneiros já chamaram essa ajuda de “mel na chupeta” e se declaram dispostos a paralisar o país. Não se sabe onde o presidente buscará dinheiro para essa ajuda. Também não se sabe o que pode acontecer: donos de frotas de caminhões já pararam uma vez, e já prometeram parar outras, sem cumprir a promessa. Mas, seja greve (dos profissionais) ou locaute (dos patrões), é como jogar gasolina no fogo. Seria somar a inflação ao desabastecimento.

Boa notícia – a paz funciona

Israel e os Emirados Árabes Unidos, que celebraram a paz nos Acordos de Abrahão, planejam uma missão espacial conjunta, o lançamento de uma nave à Lua. O acordo foi assinado no dia 19 e pode ser ampliado para outras missões. O primeiro projeto é o lançamento da Beresheet (palavra hebraica que inicia o Gênesis: “no princípio”), segunda nave espacial da SpaceIL. A primeira chegou à Lua, mas se espatifou no pouso. A segunda, com previsão de lançamento em 2024, seria uma nave-mãe, que lançaria um satélite lunar e colocaria duas sondas na superfície da Lua. Tanto satélite quanto sondas serão desenvolvidas em conjunto por estudantes dos Emirados e de Israel. Há aí uma iniciativa pioneira: ninguém ainda lançou duas sondas à Lua. Uma deve pousar no lado oculto da Lua, algo que até hoje só a China conseguiu.

O trabalho dos Emirados

Os Emirados Árabes Unidos já têm boa tecnologia espacial: em fevereiro, seu satélite Hope alcançou a órbita de Marte – algo atingido por apenas cinco países. E planejam pousar uma nave num asteroide entre Marte e Júpiter.

Mudança no futebol

O Tribunal Superior do Trabalho decidiu que os direitos de imagem do jogador Lincoln Cassio de Souza Soares, do Coritiba, eram salário, e que seu objetivo era apenas fraudar a legislação trabalhista. Ele recebia R$ 50 mil de salário e R$ 133 mil de direito de imagem – livres de INSS e sem reflexo em 13º e férias. Para que sejam reconhecidos como legítimos, os direitos de imagem devem comprovar que a imagem do atleta seja de fato explorada.


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