Adelson Elias Vasconcellos
Nesta edição, pudemos constatar que, no campo da tributação, por exemplo, o governo Lula mais que dobrou seu custo nas contas de energia elétrica para os consumidores brasileiros. Pergunto: energia elétrica é serviço de primeira necessidade? Sem se sentir no tempo das cavernas, alguém consegue viver, dignamente, sem ela? Então, por quais razões dobrar o custo de impostos incidentes sobre este serviço imprescindível e que acaba afetando, de forma direta, a qualidade de vida dos mais pobres?
Se formos questionar o governo federal, este empurrará a lambança para o colo dos governos estaduais. Se formos analisar sem aflição as “culpas”, todos tem igual participação no pecado. Não há inocentes, mas as vítimas são cerca de 190 milhões de brasileiros que, no caso, não têm como defender-se da irresponsabilidade e da gula estatal.
Mas este seria um pecadinho inocente dentro da grande “herança bendita” que Lula apregoa e canta marra. Olhe-se pelo lado da educação. Além do rolo e do descrédito aplicado sobre o ENEM, obra exclusiva do ministro Haddad – que, como prêmio pela incompetência, foi convidado a permanecer no posto – veja-se o resultado de oito anos de muito dinheiro gasto para um resultado constrangedor. O exame do PISA que informamos em postagens abaixo, não deixa margem de dúvidas, do imenso desafio que o país terá pela frente, se o seu desejo é alinhar-se às nações mais desenvolvidas do planeta. Eis uma coisa que Lula parece não ter aprendido: não existe nação desenvolvida com povo analfabeto. A educação, sempre, é o primeiro degrau para ser alcançado dentre os quesitos a serem cumpridos para um país tornar-se próspero. Sem isso, de nada vale PIB, baixa inflação, grandes reservas internacionais, explosão de consumo, emissoras de tevê estatal, caças modernos, frota nuclear, aviões presidenciais de última geração, etc.
Como sempre afirmei, não faltam ao país os recursos necessários para rapidamente alcançar excelência na qualidade de ensino que é oferecida aos jovens. Falta é um planejamento decente, jamais ideológico, e a conscientização de toda a sociedade da prioridade máxima a ser dada à educação. Escola não é apenas o lugar em que nossos filhos recebem merenda grátis...É bem mais, mas muito mais do que isto.
Ainda nesta edição, com igual importância aos dois pontos verdadeiros acima – a tributação sobre energia elétrica e o atraso educacional do país - há uma terceira notícia preocupante, quando se olha para a imensa publicidade jogada pelo governo para a criação de uma falsa fantasia. Está lá: mais de 40% dos beneficiários do Bolsa-Família continuam miseráveis, dado este que, nos últimos anos, o ministério vinha se recusando a divulgar esse tipo de informação. Convido o leitor a fazer uma pesquisa no blog, sobre a dezena de artigos escritos sobre o tema bolsa família. Jamais fomos contra o programa como ideia de minorar a pobreza extrema em que vivem milhões de brasileiros. Somos opositores ferrenhos, isto sim, da forma como o programa vem sendo conduzido pelo governo federal, a tal ponto de já havermos afirmado – e as provas, pouco a pouco, vão aparecendo – de que, se nada for feito e corrigido na condução do programa, ele tende a sedimentar a perenização da pobreza. Sou contrário à ideia nutrida por Lula quanto a se comemorar a expansão no número de beneficiários. Fosse o programa, de fato, devotado a tirar os miseráveis da condição em que se encontram, e esta expansão deveria servir como alerta de que alguma coisa vai mal. Tivesse o programa Bolsa Família objetivos diferentes, daquilo que sempre o acusamos e, certamente, a tendência seria o número de beneficiários cair, e não aumentar. Aí se poderia dizer que os pobres, em massa, migraram de uma categoria social para outra. Da forma como se tem adotado estas “avaliações”, o que vemos é apenas uma falsa expectativa de melhoria de vida. O truque foi reduzir as faixas de renda de todas as classes sociais, a da classe média, especialmente, para que ela pudesse incorporar milhões de novos integrantes. Ou seja, aplicou-se apenas um truque estatístico. E para que a falsa percepção fosse ainda mais visível, abriu-se as portas do consumo via crédito farto e barato, principalmente o empréstimo consignado, que atingiu em cheio pensionistas e aposentados do INSS.
Portanto, se dona Dilma pretende acabar como a miséria existente no país, o primeiro passo será trabalhar com números e dados reais, e não os manipulados para serem vendidos na propagando oficial do governo. Segundo, será preciso reconstruir as pontes que obriguem os beneficiários do Bolsa Família a buscarem, por si mesmos, melhores condições de renda, e aí o leque de opções para que, socialmente, isto possa ser feito e alcançado, é imenso, mas ou foram esquecidos ou abandonados. O terceiro passo, fundamental, será o governo fazer a parte que lhe cabe nos campos da educação, saúde e saneamento básico. Com tais ferramentas será possível realmente, em futuro próximo, comemorarmos a assunção de milhões de brasileiros à melhores condições de desenvolvimento humano.
O quarto tópico que encerra este artigo, está no fato já anunciado pelo governo quanto ao corte de cerca R$ 75 bilhões em despesas e investimentos. Até aqui, o governo não admitira a necessidade de que a tesoura atingisse o capítulo de investimentos – os empacados PAC da vida. Ontem, o atual e futuro ministro da Fazenda, Guido Mantega, já admitiu esta redução. De fato, se o que o próximo governo quer perseguir é uma gradual redução dos juros internos e da relação dívida pública/PIB, com a manutenção da estabilidade econômica, precisará reduzir seus gastos e investimentos. Não há outro caminho ou outra mágica. Não há um estoque infindável de manobras e truques contábeis capaz de escamotear a perda do equilíbrio fiscal derivado do excesso de gastos correntes imprimido por Lula, principalmente, nos dois últimos anos. E isto acabará se refletindo, também, no ritmo de crescimento, que precisará ser menor, se as premissas abrigadas pela estabilidade estiverem realmente presentes nos planos de dona Dilma.
Portanto, goste ou não, admita como verdade ou simplesmente a negue, a herança de Lula nem é tão bendita assim, como tanto ele quanto sua sucessora têm defendido. E já nem sequer vou me ater a aspectos relacionados a política externa, ou nas reformas necessárias para impulsionar com sustentabilidade um novo patamar de desenvolvimento econômico e social. Quero me ater, exclusivamente, às questões mais prioritárias e que saltam aos olhos de qualquer analista ou mero observador dos fatos: naquilo que era essencial avançar, o governo Lula permanece estacionado no que encontrou. E, em alguns aspectos, como a saúde, por exemplo, pode-se assegurar um imenso retrocesso comparando-se o Brasil, neste campo, entre o que era em 2003 com o de 2010.
Não poderia encerrar o artigo sem tocar num aspecto que, apesar de todas as negativas oficiais, podemos dizer que se tratava de uma desgraça previamente anunciada. O governo Lula deixará como “herança” um projeto real de regulação de conteúdo para a imprensa. Não se trata de regulação dos meios, mas de censura aos fins. Se Dilma quiser valer todo o discurso que apresentou na campanha, e mesmo logo após sua eleição, dará ao calhamaço que lhe será passado, o destino mais adequado para projetos deste tipo: a lata do lixo. Sempre que alguém vier com o papo furadíssimo de “regulação de conteúdo”, o leitor pode traduzir a baboseira por “censura à imprensa”. O resto é o resto.








