terça-feira, dezembro 07, 2010

Rédeas curtas

Celso Ming, Estadão.com


Palavras são palavras, a gente sabe disso. Mas, talvez, desta vez, elas sejam o começo de mais do que isso.

Na entrevista publicada domingo pelo Washington Post, a presidente eleita, Dilma Rousseff, disse coisas com certa densidade, que, ao menos no nível das intenções, ajudam a acreditar em que o Brasil tem conserto.

(FOTO: Andre Dusek/AE)
Dilma. Segue o tripé


Dilma não deixou de surpreender quando fez uma profissão de fé sobre a importância do controle de preços e do equilíbrio das contas públicas.

Disse, por exemplo, que “a estabilidade é a maior conquista do País. Não é uma conquista de uma só administração; é uma conquista do Estado brasileiro; uma conquista do povo brasileiro”. Essa é uma boa novidade na medida em que foi proferida por quem um dia sustentou que o Plano Real contrariava os interesses do povo brasileiro e por quem tanto discursou contra a “herança maldita”.

De todo o modo, Dilma passou o recibo de ter entendido que o povo reconhece – e recompensa com seu voto – o dirigente político que sabe preservar o valor do salário contra a alta de preços.

Dilma disse mais. Admitiu que persiste um déficit público, de 2,2% do PIB. Sustentou que “não há como reduzir os juros enquanto não se tiver reduzido seu déficit fiscal”. E voltou a prometer a derrubada das despesas públicas como precondição para o crescimento sustentado.

É uma conversa diferente da que se ouve de autoridades neste final de administração, que sustentam o oposto: afirmam que as finanças públicas estão equilibradas e que o superávit primário de 2010, de 3,1% do PIB, está assegurado.

O presidente Lula cometeu um erro grave que a administração Henrique Meirelles no Banco Central não teve a coragem de denunciar. Lula trabalhou as finanças públicas com notória duplicidade. Permitiu que seu governo expandisse exageradamente as despesas e deixou ao Banco Central a tarefa inglória de retomar o equilíbrio por meio de sua política de juros.

Em nenhum momento Meirelles chegou a denunciar que só lhe sobrou a opção de trabalhar com arrocho monetário porque a política fiscal não ajudou. Preferiu tomar a baixa qualidade da situação fiscal dos últimos dois anos como “dado da realidade”, com que alimentava os modelos de computador do Banco Central, sem questioná-la publicamente e, talvez, não o fizesse nem mesmo dentro do governo.

No mais, não deixa de ser tranquilizador entender que a nova presidente assume o comando administrativo do País compromissada com a manutenção do atual tripé macroeconômico, sintetizado no equilíbrio fiscal, câmbio flutuante e sistema de metas de inflação. A promessa, que até agora não havia sido explicitada como foi nessa entrevista, vai ainda mais longe: convergência dos juros para níveis globais, racionalização do sistema tributário e aumento da poupança.

Algumas pessoas vão dizer que o desafio maior não será cumprir essas promessas; será conter os políticos, especialmente os da base governista, que repetem incansavelmente o mantra de São Francisco, aquele segundo o qual “é dando que se recebe”.

É verdade. A administração Dilma Rousseff será testada em sua capacidade de conter a voracidade dos políticos. Mas a recíproca também é verdadeira. Sem consistente disciplina fiscal e sem condições de garantir a estabilidade dos preços, Dilma não terá condições de conter a ala fisiológica de sua sustentação política.
CONFIRA

Aí está a evolução das exportações de veículos nos últimos seis anos.

Recuperação. O crescimento deste ano (até novembro) é de fazer inveja: 58,1%. Isso significa que o recorde imediatamente anterior à crise (2007) pode ser ultrapassado em 2011.

Uma mãozinha, vai… Embora tenham mostrado um desempenho excepcional em 2010, ano ainda de crise, a indústria de veículos se queixa de que as exportações não passam de 17,5% da produção e pede mais incentivos.