sábado, janeiro 01, 2011

O Novo Governo Velho do Brasil

Adelson Elias Vasconcellos


Neste primeiro de janeiro, o Brasil muda duas coisas: troca o “cara” pela “coroinha" e a folinha. Não se espere grandes outras mudanças no cenário. Até diria que o Brasil, pelo cenário visto no trimestre final de 2010, ficará com cara mais de velho, do que de um país renovado, novo, enxuto. Provavelmente seja esta a grande diferença entre Lula que sai com o Lula que entrava no Planalto em 2003. Lá, o mundo explodia economicamente e o país estava prontinho, com todos os deveres de casa feitos e arrumados. Agora, não apenas a economia mundial encolheu, como também o Brasil terá que conviver com problemas que, se supunham, superados. Um deles, a questão fiscal, me parece ser, talvez, a parte mais delicada neste início de governo Dilma. Aliás, seria até uma tremenda força de expressão qualificar este quadro inicial de “governo Dilma”. A começar pelo ministério, tudo tem cara e cheiro de Lula que, num total desrespeito com quem assume o governo, teve o cuidado de eleger as principais prioridades para os primeiros quatro meses. Ou seja, ficam não apenas os programas, a turma no ministério e os problemas que Lula não soube e não quis resolver para não se comprometer, ficam ainda as contas, os compromotimentos de promessas contra a escassez de recursos . Afinal, para quem a única e exclusiva preocupação era o tal índice de aprovação e popularidade, tomar decisões necessárias para o país, porém com alto custo político, era impensável.

No artigo que escrevi logo após a decisão de se manter no Brasil de tantos criminosos, um de procedência italiana, deixei claro o quanto o governo que sai é repugnante do ponto de vista moral. E talvez seja por aí que Dilma pode se distanciar e se diferenciar da era Lula. Creio que o primeiro passo seria encaminhar o assunto à alçada do STF que, entendo, deva dar a última palavra, e não o senhor presidente da República. Ocorre que há um tratado de extradição firmado há mais de uma década, e aprovado pelo Congresso brasileiro, entre Itália e Brasil, o que, a meu ver, elimina a necessidade de uma arbitragem por parte do presidente. Se o processo foi considerado legal pelo Supremo Tribunal, não cabe mais ao presidente manifestar-se do ponto de vista institucional.

O segundo passo seria reatar imediatamente relação diplomática com Honduras, reconhecendo o governo eleito em 2010 como legítimo democraticamente, uma vez que se obedeceram todos os preceitos determinados pela Constituição daquele país. Aliás, é indesculpável o presidente hondurenho ter sido excluído dentre os convidados para a posse de Dilma.

Mas não é apenas o governo que parece velho. O Legislativo, então, parece desejar ser degolado em praça pública pela sociedade que o elegeu. Quanto mais nos indignamos, mais os senhores parlamentares se esbaldam nos usos e costumes imorais que bem os tem caracterizados ao longo do tempo. E, se possível, se afundam ainda mais em velhas práticas canalhas.

Sinceramente, apesar de confiar no país pelo seu potencial capaz de levá-lo à frente, independente dos gigolôs políticos que habitam de norte a sul, sugando os recursos parcos que temos para seu uso pessoal como pagar farras em motéis a exemplo do ministro do Turismo (Sexual?) escolhido por Dilma, não tenho lá grandes esperança de que, politicamente e institucionalmente, o Brasil vá ter grandes avanços neste 2011 e nos próximos três anos. Até pelo contrário. O Lula promete se empenhar a fundo, fora do governo, pela reforma política, não a de que realmente precisamos, mas a que ele entende para consolidar seu partido no poder por muito mais tempo, e retirar do povo o direito dele escolher seus representantes, o tal cretino voto em lista. Arre!!!

Claro que nesta “reforma” pretendida por Lula não se espere que os políticos parem de torrar dinheiro público em benefício próprio. Vai é aumentar com o tal financiamento público, que aliás já existe, mas que vai sua aumentar sua cota. A saúde? A educação? A segurança? Que se danem, o negócio é locupletarem-se mais ainda. Não é à toa que o salário mínimo, que já é o mínimo dos mínimos, já paga imposto de renda. Ao não reajustarem a tabela do desconto na fonte, com apenas 2,7 salários mínimos, o cidadão, já extorquido pela montanha de impostos, pagará na fonte imposto sobre a renda miserável que recebe.

Você acha pouco? Pois saiba que uma certa taxa nas contas de luz e que já pagávamos, teve sua cobrança renovada por mais 25 anos. Isto sim é que política de futuro. Trata-se da RGR (Reserva Geral de Reversão), encargo cobrado na conta de energia elétrica que deveria ter acabado no final de 2010. Caso o tributo fosse extinto, poderia haver uma queda de 2,7% nas tarifas de luz, segundo cálculo da Abrace (Associação Brasileira de Grandes Consumidores Industriais de Energia e de Consumidores Livres). A extensão da cobrança foi inserida de "contrabando" na medida provisória 517, publicada no "Diário Oficial da União" ontem. A MP trata também do pacote de crédito e do cadastro positivo. E se a desgraça ainda não fosse o suficiente, dias antes a ANEEL, aquela agência que deveria cuidar dos interesses dos consumidores para não serem mais assaltados, declarou que os quase 10 bilhões cobrados a mais dos consumidores nas suas contas de energia , entre 2002 a 2010, não seriam devolvidos. Roubados fomos, e pronto. Fica tudo por isso mesmo. Legal eles, não? Então, como prêmio, tome mais 25 anos de assalto e pungismo!!! Por que, então, a velha CPMF não poderá sonhar em voltar a assombrar nossos bolsos já tão esfolados?

Não, não dá para achar que, sendo ano novo, o Brasil velho ficou para trás. Podem até trocarem o síndico, mas a cultura que impregna os usos e costumes na prática política brasileira, permanecerá a mesma, ou seja, seremos assaltados dia e noite, e, como retribuição, a miserabilidade dos serviços públicos continuarão indignos e ultrajantes. E se você for um aposentado, meu amigo, lamento informá-lo: seu aumento que sempre foi abaixo da inflação corroendo todo o esforço de uma longa vida de trabalho e sacrifícios, encomende a alma a Deus. Lula, para não fugir ao seu estilo covarde, deixou o abacaxi nas mãos de Dilma que, burocrata que sempre foi e alimentada pelas incontáveis planilhas cheias de números fajutos fabricados pelos técnicos de porra nenhuma, demonstrarão que aumento mais decente quebraria a previdência. Claro que fará questão de esquecer que ela própria e seus ministros foram agraciados, em dezembro, com aumentos de até 130% contra uma inflação no período de 20%. E o que dizer dos parlamentares gigolôs que se “puniram” com 62% de reajuste? Deve ser isto que eles entendem por “distribuição de renda”!

Portanto, o Brasil de 2011 continuará sendo, por muito tempo ainda, o Brasil velho de 2010. Mudaram apenas a foto na parede. O resto continuará igual. A menos que Dilma mande seu padrinho político para os quintos dos infernos e resolva governar o país para a qual foi eleita presidente. Mas alguém com juízo no lugar é capar de apostar nesta improbabilidade?

Seja como for, para os amigos e leitores do blog, um Felicíssimo Ano Novo, por mais velho que ele possa parecer.

Ritos de passagem

Roberto DaMatta, O Globo

A expressão, embora técnica, é definitivamente poética. Remete tanto a um momento quanto a um processo, essas dimensões típicas do humano tanto na sua imprevisibilidade que nos faz voar quanto na sua estabelecida tonelagem que nos ata a este mundo. Todos passamos e viver é transitar sofrendo ou exultando por meio das etiquetas e das fórmulas que recebemos das sociedades e famílias onde entramos sem convite ou escolha. Assim, ritualizamos tanto o nascimento quanto a morte; bem como todos os momentos críticos de nossas vidas. Felizmente, por mais que o tempo passe, haverá sempre uma primeira e uma última vez.

O descobridor dessa fundamental platitude não foi nenhum gênio da publicidade, mas um antropólogo chamado Arnold Van Gennep. Foi ele que num livrinho com esse titulo, publicado em 1909 (divulgamos essa obra no Brasil em 1978, numa coleção que dirigimos com o professor Luiz de Castro Faria), enxergou o padrão dos ritos de crise de vida individuais ou coletivos, que sempre, e em toda época ou lugar, seguem os mesmos princípios. O primeiro é que, embora eventualmente ligados a processos fisiológicos, eles são de fato ideológica (ou socialmente) definidos; o segundo é que são sempre dramatizados e, assim, compartimentalizados em algum palco ou local onde devem ser ignorados ou obrigatoriamente vistos por todos; e, finalmente, o terceiro, é que todos eles têm uma fase de separação (que remove a pessoa ou o objeto do seu campo habitual); uma fase limite ou fronteiriça, onde não se está na velha posição social nem fora dela; e uma fase final de incorporação no novo papel, ambiente ou momento.

Ora, é exatamente isso que todos nós temos feito nesse período de festas. Fase inaugural de uma estação de consumo obrigatório que culmina no Ano Novo, porque Papai Noel tem que encher o seu enorme saco de brinquedos e nós a nós mesmos e os nossos próximos de “lembranças”. Tal período termina no carnaval e, se você quiser fazer alguma coisa séria nesta época, você vai ouvir um brasileiríssimo e preguiçoso: “Isso só depois do carnaval!”

*****

Cada qual sai do Ano Velho e entra no Novo com um rito de passagem peculiar. Conheço gente que toma banho de cheiro, outros que bebem e comem desbragadamente. Meu saudoso pai dava tiros de revólver para o ar; um amigo, antropólogo estruturalista, batia tampas de panela; outros comem lentilhas (símbolos de fartura) pela meia-noite. Dizem que quem faz algo bom na virada do ano repete essa coisa o ano todo. Ademais, no Brasil, somos arregimentados a nos vestir de branco e ir à praia, onde fazemos um ano morrer e dele partejamos um tempo novo. Neste Natal eu, modesto, fui ao barbeiro. Como vocês sabem, o barbeiro é a prova mais patente e gritante de como nós precisamos do outro e somos feitos pelos outros. É o testemunho que não podemos nos enxergar dormindo do mesmo modo que estamos impedidos — a não ser usando algum instrumento — de ver nossas próprias nucas, costas e traseiros. A nossa proverbial lateralidade (esquerda/ direita, alto/baixo, frente/ fundo, fora/dentro) não nos permite coçar nossas costas. Precisamos de outras mãos e a coceirinha gostosa, mas irremediável, pode ser prova de terrível solidão.

Tudo isso faz com que o barbeiro seja a primeira e talvez a mais fundamental experiência de alteridade, pois ninguém corta — como sabem melhor do que ninguém os indianos — o seu próprio cabelo a ser trabalhado por um outro que nos vê pelas costas sem, entretanto, nos mandar embora ou nos desprezar.

— O que deseja? — Um corte de cabelo.

— Qual?

— Como?

— Sim, meu senhor, que cabelo?

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Um querido amigo me deve, por conta de um outro rito de passagem, o eleitoral — que seria vencido no primeiro turno e por larga margem pela candidata petista, hoje a primeira presidente mulher da nossa história —, duas garrafas de uísque Johnnie Walker, Blue Label. Mas até agora eu, de azul, só vi o céu, como naquela belíssima música de Irving Berlin. “Blue sky/Smiling at me/Nothing but blue sky/ Do I see…”

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Estamos também transitando de governo, mas mantendo a tradição de Lula. Como teria reagido um feroz e oposicionista PT diante da proibição de uma greve no governo FHC? Salve a neomendacidade política lulista, que talvez seja o sintoma mais flagrante de que transitamos para um meio termo efetivamente burguês, iluminado pelo bom senso dos interesses próximos e, queira Deus, dos distantes também.

Aliás, a César o que é de César: o governador Sérgio Cabral falou franca, corajosa e abertamente de dois temas que temos que discutir e não podemos mais marginalizar: o aborto e o jogo como parte da bagagem da liberdade englobada pela cidadania republicana. Não sou favorável a nenhum descontrole, sei da gravidade e das contradições implicadas, mas penso que se pode estabelecer controles, sem os quais seria impensável diminuir ou limitar o hedonismo desabrido que conduz ao consumo de drogas, à dissipação pela jogatina e ao crime.

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Finalmente, aproveito a oportunidade para desejar ao leitor um Feliz Ano Novo. Viva os bons momentos produzidos pelas festas. Aproveite essa brecha de alegria e despreocupação que a Sagrada Família e os Reis Magos, com seus inefáveis presentes, exemplificam. O sofrimento é permanente, mas ele é a maior prova de que o amor existe.

Lula 2011 (e para sempre)

Guilherme Fiúza, Revista Época

O ano de 2011 começa com uma certeza: o Brasil mudou. E agora é para valer. A passagem de Luiz Inácio da Silva pela presidência da República refundou as raízes nacionais.

A prova inconteste deste fato está numa decisão anunciada pela Petrobras no apagar das luzes de 2010: o campo de Tupi, na bacia de Santos, passa a se chamar campo de Lula.

Justa homenagem. Afinal, quem são os índios Tupi diante do novo descobridor do Brasil?

Se índio ainda quer apito, vai ficar querendo. Na história oficial, quem apita agora é o messias do ABC.

A simbologia nacional entra, por assim dizer, na era da desinibição. A homenagem que varreu os índios Tupi para uma camada inferior ao pré-sal partiu de uma estatal comandada pelo homenageado.

Em outras palavras: Lula deu a Lula o que é de Lula – ou, pelo menos, que ele acha que é. Chega de falsa modéstia.

Pensando bem, o filho do Brasil está sendo humilde. Ele poderia, por exemplo, ter rebatizado o Banco do Brasil de Banco do Lula – o que não seria nenhum abuso, considerando toda verba que saiu dali para os cofres do PT, sob sua regência.

Chega também dessa história de esperar o sujeito morrer para botar seu nome nas placas. Se Lula já é praticamente um santo em vida (te cuida, São Bernardo do Campo), permita-se que ele assista à sua própria eternização.

A única dúvida é sobre como o ex-presidente chamará o ex-campo de Tupi: “campo de Lula”, ou “meu campo”? É esperar para ver. Será mais um momento histórico da apoteose sindical, daqueles em que o ex-operário diz que seu ego “não está cabendo dentro da calça”, e, infalivelmente, chora.

Em sua última viagem como presidente a Pernambuco, Lula chorou três vezes. Também, pudera. Estava em sua terra natal, diante de uma multidão arrebanhada com anúncios na TV pagos pelo contribuinte. É mesmo de chorar.

É o conto de fadas do presidente pobre e bondoso, o Jesus Cristo de Garanhuns, incensado pelos reis magos do marketing. Uma saga que pode até não ganhar o Oscar de melhor filme estrangeiro, mas haverá de levar o prêmio de efeitos especiais.

Steven Spielberg é um aprendiz diante da tecnologia lulista. Um projeto de poder que aterrissou em Brasília sem lenço e sem documento, trazendo apenas, além da fome por cargos, o Fome Zero – idéia revolucionária que morreu de inanição antes do primeiro prato.

Mas o ministério do ilusionismo era bom, e operou o milagre. Botou Lula sentado na mesa posta por Fernando Henrique, jogou água no feijão da estabilidade econômica e ainda convenceu a freguesia de que o neoliberalismo deixara as panelas vazias.

Foi a herança maldita mais saborosa da história.

Em entrevista ao “Manhattan Connection”, Fernando Henrique arriscou dizer que quem mudou o Brasil foi ele, não Lula. Tarde demais, prezado sociólogo. O mito do filho do Brasil chegou até o pré-sal das consciências. Os que vieram antes de Lula, hoje, não passam de uns Tupis.

Na USP, na PUC, no Ipea, na FGV borbulham estudos altamente criativos, cada um tentando provar mais do que o outro como o ano da graça de 2003 fundou o Brasil feliz.

Não adianta trombetear que o poder de compra do pobre é filho do Plano Real. Que plano foi esse mesmo?

Não adianta gritar que não haveria Bolsa Família se a economia nacional não tivesse sido resgatada do pântano, a duras penas, no final do século XX. Se é que existiu o século XX.

Quando o Brasil mostrou solidez financeira na crise de 2008, Lula chegou a se ufanar da tecnologia de reestruturação dos bancos. Ou seja, até o torpedeado Proer foi anexado pelo messias.

Diante disso, realmente, tomar posse do campo de Tupi é um detalhe.

Na virada para a era Dilma, os reis magos do governo sumiram com 20 bilhões de reais do livro-caixa, para fazer a gastança caber na meta de superávit primário – criada pelos Tupis pré-históricos. A lenda não pode morrer.

Feliz ano velho.

Sobre Sarney, vacas, leite fresco e o velho Ano Novo

Josias de Souza, Folha.com

Em artigo levado às páginas da Folha, José Sarney escreve sobre os “bichos” de sua infância maranhense: duas vacas, um cachorro e três cavalos.

O texto foi escrito pelo Sarney membro da Academia Brasileira de Letras, não pelo presidente do Senado.

Ao correr os olhos pela peça, o signatário do blog viu-se como que compelido a fazer uma analogia entre os “bichos” do Maranhão e os de Brasília.

No quintal da meninice de Sarney “havia sempre uma vaca parida para o leite fresco”.

Recordou-se de duas: “Severina, boa de leite” e “Beijosa, mansa e fácil de ordenhar”.

Nos quintais do Sarney entrado em anos também há uma vaca de prontidão: a Viúva. Carrega úberes fartos e indefesos.

No terreno da casa onde cresceu o menino “havia também um cachorro, Seu Zezé -latia muito, mas não gozava da fama de ser valente”.

No pátio do senador há um cão parecido, Seu Petê. No passado, exibia um latido exuberante. Hoje, perdeu aquela valentia que o tornava diferente.

Os cavalos que trotam nas reminiscências do menino são: Papa Légua, Bom Marido e Ano Velho. “Mansos, prontos para tudo, a toda hora”.

A política, ensinam os entendidos, é a arte de saber montar os cavalos que passam encilhados.

Mercê da experiência adquirida em menino, Sarney, já adulto, revelou-se um jóquei imbatível.

Capaz de realizar acrobacias, saltou do lombo da ditadura para o dorso do Pemedebê. Cavalga a legenda-alimária até hoje.

Criança, familiarizou-se com a rédea num “cavalo mole, manso, ideal para ser montado pelos meninos como eu”. Natural que, adulto, tenha se afeiçoado ao Pemedebê.

Xucro na época da ditadura, amolengou-se após a redemocratização, tornando-se montaria ideal para experts como Sarney.

A cavalgadura preferida do garoto fora adquirida pelo avô das mãos de ciganos.

“Meu avô quis saber o nome do cavalo”, recordou Sarney no artigo. Chamava-se "Cacete". O velho inquiriu: "Que data é hoje?" Era "31 de dezembro".

E o avô do menino: "Então o nome do cavalo é Ano Velho". Sarney encerrou seu texto assim:

“Até hoje, nas noites de 31 de dezembro, vejo o Ano Velho trotando nas estradas da minha memória”.

Nas saídas da memória do presente, tudo parece arcaico ao redor do senador, inclusive o Ano Novo.

Sob Dilma Rousseff, Sarney conservará o controle das Minas e Energia, a teta elétrica Lula lhe concedera.

No Senado, o ex-menino galopa em direção à tetrapresidência. "Seu Petê" ensaiou um latido. Mas, puxando as rédeas do Pemedebê, Sarney deu encurtou o surto de valentia.

Por mais que considere sua infância feliz, Sarney há de concordar: sua velhice é muito mais maravilhosa.

Enquanto a revolução não vem

João Mellão Neto - O Estado de São Paulo

Dilma Rousseff, durante a campanha eleitoral, não se cansou de afirmar: "A gente nunca pode apostar nas virtudes dos homens, porque todos os homens e mulheres são falhos. Precisamos apostar na virtude das instituições." Ela diz ter ouvido esse pensamento do ex-ministro Márcio Thomaz Bastos.

Pelo visto, Dilma gostou. Tanto que vem repetindo esse mantra em todas as ocasiões cabíveis. O argumento valeu até mesmo quando lhe perguntaram se aceitaria o adversário José Serra em seu futuro governo. Tudo bem, ela aceitaria. E, pelo seu raciocínio, as instituições se encarregariam de vigiá-lo.

Quanto a Bastos, embora não seja o autor do conceito, soube expressá-lo com propriedade Foram dois economistas liberais, Ronald Coase e Douglass North - ambos Prêmios Nobel de Economia -, os pioneiros no trato da questão.

É surpreendente ouvir tais assertivas da boca de pessoas que, ao menos em tese, comungam as ideias da esquerda. Isso porque os economistas citados são mais identificados com o pensamento dito conservador. Seus estudos têm como pano de fundo o "livre mercado" e a "iniciativa privada". Coisas do capitalismo, como se sabe. Vale a pena abordar esse tema.

Em primeiro lugar, uma pergunta: por que será que as pessoas praticam atos arriscados como empreender e criar empresas, ou a emprestar dinheiro, comprar e vender mercadorias?

Afinal, como afirmam os intelectuais - em especial os da sucursal latino-americana -, o mercado é um ambiente hostil, no qual os indivíduos estão sempre tentando se prevalecer da boa-fé alheia e enriquecer à custa da exploração do próximo... Quem garante os cordeiros contra os lobos? Não é mais seguro ficar em casa e não se prestar a aventuras de final imprevisível?

A resposta é que as pessoas têm confiança. Empreendem e comerciam porque sabem que estão garantidas pelas instituições. As pessoas confiam umas nas outras. E não é por causa das virtudes que os outros alegam ter, mas porque as instituições nos obrigam a todos a agir com retidão.

Que instituições são essas? O Estado? Não apenas ele. O Estado nada mais é do que um reflexo dos costumes, crenças e valores da sociedade. Não é o Estado, mas a sociedade, que cria as instituições. E as modela de acordo com o que pratica e com aquilo em que acredita.

Existem, assim, dois tipos de instituições: as formais, que são as igrejas, a escola, o poder público, as leis, as Forças Armadas, a universidade, etc.; e as ditas informais, como os preceitos religiosos, a ética, a moralidade e tudo o mais em que as pessoas acreditam e que norteia o seu comportamento.

Mesclando as instituições formais e informais, as pessoas sentem-se à vontade para interagir economicamente. Podem confiar no próximo porque sabem de antemão que este não vai lográ-las. É num ambiente assim que florescem o progresso e a prosperidade.

Os povos que mais se desenvolvem são justamente aqueles onde existem instituições mais maduras e apropriadas.

E onde fica o Brasil nessa história? No meio do caminho. A democracia, o Estado de Direito, a Constituição e o quase consenso que existe com relação às diretrizes da economia: tudo isso é garantido por instituições fortes. Alguém já disse que as instituições são como linhas de alta tensão. À primeira vista, parecem inertes e inofensivas. Mas quem ousa tocar nelas leva um coice e morre torrado.

Por falar nisso, vale ressaltar que nossas esquerdas também têm consciência da importância das instituições, que no dicionário delas são chamadas genericamente de "superestrutura".

Antes de alcançar o poder, os petistas e que tais diziam que era necessária uma insurreição popular para que pudesse ser implantado o socialismo. Agora, depois que chegaram lá, trocaram as ideias incendiárias de Ernesto Guevara pelas mais amenas, de Antonio Gramsci.

Explicando melhor: os ensinamentos e o exemplo de Che Guevara na década de 1960 passaram a todas as esquerdas latino-americanas a noção de que - existindo ou não "condições objetivas" - a transição para o socialismo deveria ser feita de imediato. E se a sociedade local não estivesse madura para tanto? Não importa. A luta armada obrigaria todas as pessoas a tomar posição e assim se desencadearia a "revolução".

Em toda a América Latina, essa incontinência revolucionária levou muita gente à guerrilha e à clandestinidade. A maioria foi torturada e boa parte morreu.

Quatro décadas depois, nossas esquerdas descobriram que poderiam chegar ao poder de modo pacífico. Como? Via eleições, dentro das regras democráticas.

Guevara foi convenientemente deixado de lado. O novo guru, agora, é o pensador italiano - também marxista - Gramsci. Segundo este, para que a revolução se dê de forma efetiva, antes de tudo é preciso aperfeiçoar o modo de pensar da sociedade. Nos corações e mentes das pessoas, os valores capitalistas têm de ser substituídos pelos socialistas.

E para tanto o que deve ser feito pelos militantes da causa?

Esta é a parte mais confortável. Devem, tão somente, incrustar-se no ensino, nos círculos acadêmicos e, principalmente, na administração pública, para - ocupando os postos estratégicos - poderem mudar a mentalidade geral.

Ou seja, chega de sangue, suor e lágrimas! O certo, agora, é "aparelhar" o Estado e tratar de reformá-lo "por dentro".

Foi assim, por meios tortos, que, no Brasil, o pensamento de esquerda incorporou o papel fundamental das instituições.

Até por que, enquanto a revolução não vem, o melhor a fazer é refestelar-se, em segurança, nos bons empregos públicos.

Toc! Toc! Toc! É 2011 pedindo passagem!

Claudio Schamis, Opinião & Notícia

Esse final de ano é especial, pois acaba a Era Lula. Acaba ou pelo menos se interrompe.

Parece que foi ontem que estávamos fazendo nossa listinha de promessas e indo romper o ano e nem bem chegamos ao final desse nossa lista e já estamos indo romper outro ano. E foi assim que se passou um ano: Num piscar de olhos. Só que esse final de ano não é um simples final de ano. É um final de ano especial. Para ambos os lados. Afinal tudo tem seus dois lados. É o lado A e o lado B. É como se tivéssemos uma moeda, onde temos a cara e a coroa. Não sei se nesse caso seria o “cara”, se for assim, fico com a coroa e vou de férias pro Haiti.

Mas então, esse final de ano é especial, pois acaba a Era Lula. Acaba ou pelo menos se interrompe – isso se for verdade o que andam falando por ai que Lula volta – o que para muitos foi o melhor governo que a história desse país já teve registrado em seus livros. Ao mesmo tempo em que para o outro lado é o fim de um dos governos mais corruptos que a história desse país também já registrou. Rixas e rachas à parte a verdade é que Lula é um fenômeno. Tanto para o bem quanto para o mal.

É muito difícil definir Lula. Não acho ser possível se chegar a um consenso. Sempre teremos brigas, acusações. De ambas as partes. O problema é que geralmente a outra parte é mais radical e acha que tudo é fruto de uma conspiração do inferno, que não conseguimos ver a magnitude do mito Lula. Eles não aceitam críticas. Eles não dão nunca o braço a torcer. Tudo é sempre culpa da outra parte que não enxerga, não sente e não sabe. E a outra parte acha justamente tudo isso e um pouco mais. E então ficamos nesse impasse.

Acho que não existe a verdade absoluta. Deveria existir sim o bom senso. Mas isso custa e custa caro. E ninguém está disposto a pagar o preço. O preço é alto.

Não estou aqui para dizer que nada prestou. Sempre se consegue aproveitar alguma coisa. Até o bagaço da laranja é aproveitável.

O problema é na hora de fazer o balanço geral. De se colocar tudo na balança. É nesse momento que as coisas se perdem e ganham contornos de guerra declarada. De um lado do ringue os amantes e adoradores de Lula e do outro lado os contestadores, acusadores e sem coração, inimigos mortais de Lula. Não é para ser assim.

Mas em se tratando de Lula, não tem como se separar o joio do trigo. Parece que tudo vem em pacote fechado. Ou você leva o Lula-Paz-E-Amor-O-Melhor-Presidente-Que-O-Brasil-Já-Teve ou leva o Lula-Sem-Noção-O-Presidente-Com-O-Governo-Mais-Corrupto-Que-O-Brasil-Já Teve.

E agora José?

Agora não sei ainda não.

Sei que no geral eu pelo menos não gostei muito do que vi. E eu vi, diferentemente de Lula que por (muitas) diversas vezes disse que não viu, não ouviu nada e que tudo é culpa da oposição e da imprensa. Que tudo foi e é uma tentativa de golpe de pessoas invejosas. Lula fez muita coisa que quando ele estava do outro lado da moeda ele não aceitava batia o pé. E que hoje ele como presidente começou a pensar diferente. Se ele se diz o homem do povo, está aquém disso.

Mas como foi feito um ótimo trabalho de marketing da imagem dele como sendo um presidente que veio de onde ele veio, tudo que Lula faz, fala, deixa de fazer todos os adoradores dele acham lindinho, fofinho, bacana. Legal. Nuca se gastou tanto com publicidade num governo como no de Lula. Não vou negar que ele é um dos mais populares presidentes que o país já teve. Mérito dele. Mas isso não deveria ofuscar a real realidade. Não a realidade inventada.

Só que agora não há mais nada. Lula entra na contagem regressiva para como ele mesmo disse ‘viver a vida das ruas’. E isso pode ser uma linda fala, uma fala fofa, mas será que Lula depois de oito anos sabe o que é isso? Será que veremos Lula fazendo malabares nos sinais fechados, ou com uma banquinha de camelô, ou até mesmo vendendo balas dentro dos ônibus dizendo que podia estar roubando, matando? Lula viveu um sonho. Um sonho de Ícaro. Comeu como um príncipe. Viajou. Deu a volta ao mundo. Visitou 84 países. Tornou-se PhD em eleições internacionais quando disse que as eleições do Irã foram legítimas. Foi comentarista esportivo e nutricionista quando disse que Ronaldo estava gordo. Virou consultor em inaugurações de obras inacabadas. Foi advogado quando defendeu pessoas que não tinham defesa. Se tornou especialista em analisar imagens dizendo que aquilo que estávamos vendo não era bem isso e que poderia aquilo.

Lula foi isso tudo. Lula é isso tudo. Sei que vai deixar saudades. Mas quem sabe ele não volta em 2014 para alegria de muitos e desespero de outros?

Já dizia a música de Ivan Lins: “desesperar jamais”. Pode até ser!

O que não poderia é Lula quando se encaminha para apagar a luz falar que o acordo para o aumento do salário mínimo não pode ser só para ganhar mais. O que ele quis dizer com isso, não sei. Só sei que é ridículo um presidente como ele do povo, achar que o mínimo de aumento para o salário que é mínimo tá de bom tamanho e que se precisar a Dilma depois resolve. E que em nenhum momento ele falou que o aumento dos parlamentares era abusivo. E que vetaria. Não, deixou o barco solto, ou vai ver nem viu, nem soube.

Esse é o Lula.

Salvem as baleias. Não joguem lixo no chão. Não fumem em ambientes fechados.

FELIZ 2011!!

A presidente de todos os brasileiros

O Estado de São Paulo

A partir de hoje, o Brasil tem uma nova presidente. E o que desde logo se pode esperar é que haja uma mudança radical, para melhor, do estilo de governar. É claro que o que será feito importa mais do que o como se fez. Mas em política essa relação entre forma e conteúdo, estilo e ação tem lá suas sutilezas. É muito comum, aliás, que se dissociem. Oito anos de governo Lula o demonstram. Luiz Inácio Lula da Silva ajudou a mudar o País para melhor em muitos aspectos, mas tudo o que fez e, principalmente, o que deixou de fazer levam a marca profunda de seu estilo populista de governar, de sua preocupação obsessiva de ser reconhecido como um líder de raízes populares fiel a suas origens e, por isso, idolatrado por seu povo. Sob esse aspecto Dilma Rousseff difere em tudo do homem que a conduziu à Presidência. Das origens ao tipo de militância que os introduziu na vida pública. Do temperamento à consequente maneira de se relacionar com o mundo. De modo que após a overdose de um Lula boquirroto, megalômano e narcisista, é de esperar que o País possa conviver agora com uma chefe de Estado e de governo que se comporte de acordo com a compostura que a liturgia da Presidência exige. Tudo indica que assim será. O que já é um bom começo.

Agora que passa a ser a primeira mandatária de todos os brasileiros, é justo que todos, a despeito de divergências que provavelmente se manterão, se disponham a conceder-lhe um crédito inicial de confiança. Cada um no seu papel - o que implica, para a imprensa, manter diante do poder público a postura de permanente fiscalização e cobrança -, devemos agora encarar o futuro como um recomeço. É assim que funciona a democracia.

A mudança de estilo pode significar pouco em termos da consolidação dos avanços duramente conquistados nas últimas décadas e das profundas transformações de que o Brasil ainda necessita em benefício de todos. Mas, vale repetir, já será um bom começo. Essa previsível e desejável mudança pode significar, por exemplo, o fim da tentativa de manter o País dividido entre "nós" e "eles", entre os bons e os maus; da capciosa ladainha de que só os "predestinados" e "iguais" são capazes de compreender e lutar pelos interesses dos fracos e oprimidos. Governar é obra coletiva que tanto melhor se realiza quanto mais se persegue a unidade dentro da diversidade.

Até porque, ao que tudo indica, estando disposta, com os pés no chão, a se preocupar mais com o enorme desafio real que tem pela frente do que em lapidar a própria imagem, Dilma Rousseff certamente estará atenta às armadilhas que as circunstâncias de sua eleição criaram, com as quais terá que se haver desde logo. A mais delicada delas - de resto, óbvia - será seu relacionamento com Lula. Na primeira prova a que foi submetida Dilma superou as dificuldades com discrição e espírito conciliatório: a formação do Ministério, na qual a influência de Lula é notória e não se poderia esperar outra coisa. Sem alarde, a nova presidente deixou claro que essa é a equipe de governo que foi possível formar, dadas as condições de temperatura e pressão. Mas, de agora em diante, o presidente será ela. E isso de alguma maneira afetará a qualidade de seu relacionamento com o antecessor-preceptor, principalmente considerando que estará lidando com uma figura, para dizer o mínimo, ubíqua.

Ninguém se iluda com as últimas manifestações de Lula em favor da candidatura à reeleição de Dilma em 2014. Não há a menor hipótese de que um político extasiado com o próprio êxito, sempre "na sua", abandone a droga do poder.

Quer dizer, se nos quatro anos de Dilma a economia brasileira não continuar mantendo o desempenho que faz as delícias de empresários, trabalhadores com carteira assinada, classe média, emergentes recém-habilitados ao consumo - o que, considerando as perspectivas adversas da conjuntura econômica internacional, talvez acabe se tornando inevitável -, ninguém se desespere: o salvador da Pátria estará pronto para o sacrifício. Ou alguém duvida de que Lula passará os próximos anos cultivando seus vertiginosos índices de popularidade?

Boa sorte a Dilma Rousseff, agora presidente de todos os brasileiros. Ela vai precisar.

Lula tem legado importante, mas deixa atrás herança maldita — e já vai tarde

Ricardo Setti, Veja online

O presidente Lula encerra o mandato com uma decisão vergonhosa — a de não extraditar o terrorista e assassino Cesare Battisti para a Itália, como mandaria a legislação, o bom senso, o sentimento de justiça e as relações com um país amigo.

É como um escultor que dá seu toque final a uma obra. No caso, uma obra que o presidente parece ter perseguido com obstinação — a permanente tentativa de desmoralização das instituições. É esta a herança maldita que passará à frente, hoje, à presidente eleita, Dilma Rousseff.

Lula deixa um legado positivo em realizações, que não se pode negar: a manutenção da estabilidade econômica que herdou dos antecessores Itamar Franco (1992-1995) e Fernando Henrique Cardoso (1995-2003), na qual se baseou o grande crescimento do PIB e a formidável geração de empregos ocorridos em sua gestão, e, entre outros aspectos positivos, a marcante distribuição de renda, também estribada na “rede de proteção social” do antecessor FHC, que seu governo ampliou e aprofundou.

Em compensação, em matéria de herança maldita, o presidente que hoje deixa o Planalto…

* Viu seu governo ser tisnado por escândalos nos Correios, na compra de ambulâncias, na montagem de dossiês fajutos para prejudicar adversários, na transformação da Casa Civil em balcão de negócios.

* Desmoralizou o quanto pôde o Congresso Nacional, por meio de seu então braço direito, o chefe da Casa Civil, José Dirceu, que edificou um esquema de compra de apoio parlamentar, o mensalão, qualificado pelo procurador-geral da República como “formação de quadrilha”.

* Silenciou espantosamente diante da explosão do mensalão, para se pronunciar tardiamente dizendo-se “traído”, sem jamais apontar quem o traiu e por quê.

* Como parte do mesmo processo, fez composições com qualquer grupo político disposto a trocar apoio parlamentar por benesses governamentais, “não importando o quanto de incoerência essas novas alianças pudessem significar diante do que propunha, no passado, a aguerrida ação oposicionista de Lula e de seu partido na defesa intransigente dos mais elevados valores éticos na política”, como brilhantemente recordou o Estadão em editorial de 9 de setembro do ano passado. No saco de gatos governista o antes purista PT passou a conviver com o que há de pior na política brasileira, gente como José Sarney, Jader Barbalho, Renan Calheiros, Paulo Maluf e Fernando Collor.

* Envergonhou os brasileiros de bem ao comparar com bandidos comuns trancafiados em prisões brasileiras os dissidentes da ditadura cubana, e confraternizando com o ditador Raúl Castro no exato momento em que um deles morria em consequência de uma greve de fome.

* Envergonhou os brasileiros de bem ao estreitar laços com regimes ditatoriais, como os de Cuba ou do tenebroso Irã, ou com caudilhos autoritários como o venezuelano Hugo Chávez, e concordar em que o governo se abstivesse sistematicamente na ONU de condenar as violações de direitos humanos nesses países e em outros como a China, o Sudão e a Síria, aliando-se, na organização internacional, ao que há de pior em matéria de regimes autoritários.

* Desmoralizou as agências reguladoras, que deveriam ser órgãos técnicos e apartidários, para normatizar e fiscalizar áreas fundamentais da economia e da vida do país como o petróleo, as telecomunicações, a saúde pública ou a aviação, loteando-as entre políticos, cortando sua autonomia e reduzindo seus recursos no Orçamento.

” Desmoralizou o Tribunal Superior Eleitoral, zombando em público das sucessivas multas e advertências que recebeu por violar a lei ao fazer campanha para sua candidata à Presidência, Dilma Rousseff, em horário de trabalho e utilizando espaços e outros recursos públicos.

* Desmoralizou o Tribunal de Contas da União, ao apontá-lo seguidamente como entrave à execução de obras públicas nas quais a corte detectou problemas, e mandando seguir obras cuja paralisação havia sido determinada pelo TCU.

* Desmoralizou uma instituição que por décadas figurava entre as mais confiáveis entre os brasileiros, os Correios, ao aparelhá-los politicamente e deixar que o que antes era um centro de excelência em ninho de corrupção.

* Desestimulou os brasileiros que se esforçam por estudar e avançar em seu progresso educacional, ao passar invariavelmente a impressão de orgulhar-se de não possuir um diploma universitário e de, mesmo podendo, não ter estudado além do ensino elementar.

* Desmoralizou com frequência a majestade do próprio cargo, transformando a figura do presidente em palanqueiro vulgar, encantado pela própria voz, proferindo uma catarata diária de discursos e frequentes e constrangedores disparates, que dividiu o país entre “eles” e “nós”, falou em “extirpar” um partido político legítimo, o DEM, e zombou do candidato da oposição à Presidência, José Serra (PSDB), quando este se viu envolvido em incidente provocado por baderneiros no Rio de Janeiro.

* Fez o possível para desmoralizar a História, ao martelar em seus discursos e, indireta e insidiosamente, na caríssima propaganda de seu governo, que o Brasil começou com sua chegada ao Planalto, há oito anos, quando “os brasileiros se reencontraram com o Brasil e consigo mesmos” — desconsiderando e desrespeitando o trabalho de antecessores, principalmente FHC, e agindo como se o que a propaganda oficial chama de “reencontros” não ocorresse em surtos desde, pelo menos, a Inconfidência Mineira (1789). E depois passando pela Independência (1822), a República (1889) e, mais recentemente, pelos anos JK (1955-1961), as esperanças suscitadas com a eleição de Jânio Quadros (1961), o “Brasil Grande” da ditadura militar, o extraordinário movimento das Diretas-Já (1983-1984), o surto de civismo que significou a vitória de Tancredo Neves no Colégio Eleitoral, em janeiro de 1985, e a comoção gigantesca que acompanhou sua morte, em abril do mesmo ano, o delírio otimista do Plano Cruzado (1986), o apoio ao Plano Real (1994) e a eleição em primeiro turno de FHC (ainda em 1994).

Nesse sentido, não importam seus índices de popularidade: Lula deixa uma herança maldita.

E já vai tarde.

Brasil 2011: sob nova direção

Antonio Corrêa de Lacerda (*) - O Estado de São Paulo

O primeiro dia de 2011 coincide com a posse da nova presidente Dilma Rousseff. Depois dos dois mandatos do presidente Lula, Dilma herda uma situação econômica dúbia, como analisaremos a seguir. Se por um lado a nova gestão será sempre comparada à sua predecessora, sob outro aspecto, há características singulares a serem destacadas. Lula se destacou pelo seu carisma, intuição, capacidade de articulação política e comunicação, o que lhe proporcionou terminar o seu segundo mandato com recorde de aprovação popular.

Dilma, por sua vez, dotada de formação técnica em questões econômicas e uma trajetória profissional de gestora bem-sucedida, poderá conduzir avanços para solidificar a posição brasileira. Se o governo anterior se pautava fortemente no personalismo do presidente, o novo precisará de coesão na equipe para fazer os ajustes de sintonia fina, de forma a garantir a continuidade. Contraditoriamente, neste ponto, é preciso mudar para manter. Isso porque as escolhas de política econômica em vigor estão esgotadas. Para sustentar o crescimento da economia será preciso uma melhora qualitativa, tanto da cominação das políticas econômicas quanto da gestão. Não se trata de uma tarefa fácil, mas, por outro lado, passível de ser realizada. Para isso, o perfil da presidente e dos principais membros de sua equipe é um fator que joga a favor da mudança.

Garantir as condições para a expansão do investimento continua sendo um dos principais desafios para a economia brasileira. Somente a expansão da capacidade de oferta da economia, em um sentido amplo, eliminando gargalos na infraestrutura e na capacidade de produção das empresas, vai evitar três constrangimentos estruturais: risco de crescimento da inflação provocada por descompassos entre oferta e procura; o excessivo aumento das importações, provocando desequilíbrios na balança comercial; e, por último, e mais grave, em consequência dos dois primeiros, a necessidade de restringir o consumo e o crescimento econômico.

Nesse sentido, os dados mais recentes de desempenho da economia brasileira denotam um quadro dúbio. Aspectos bastante positivos contrastam com outros, preocupantes. O dado positivo é que a economia brasileira deve ter crescido cerca de 8% em 2010, o que representará o melhor desempenho dos últimos 25 anos. Alvissareiro é ainda o fato que o investimento tem crescido bem acima da demanda. A formação bruta de capital fixo, que representa o total de investimentos em construção civil e máquinas e equipamentos, cresceu 20,2% nos últimos 12 meses acumulados até outubro. Isso é mais de três vezes o crescimento do consumo das famílias, que no mesmo período cresceu 7%, ambos os dados apurados e divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Esse quadro reflete uma forte recuperação do investimento, item que mais caiu na crise de 2008/2009 e que, embora ainda aquém do desejável e necessário, mantendo-se esse ritmo, propiciará uma maior sustentabilidade do desempenho futuro da economia.

Mas há um outro lado, bastante preocupante: o crescimento exponencial das importações, em detrimento da produção local e das exportações. As importações brasileiras vêm crescendo a um ritmo próximo de 40%, comparativamente a 2009, enquanto as exportações, apenas cerca de 10%. Produtos vindos de fora estão roubando parte do crescimento interno. A economia brasileira se transformou em uma fonte geradora de empregos na China, na Coreia do Sul e em outros países dos quais importamos.

Essa é uma trajetória indesejável por nos privar de criar empregos e renda de qualidade, e insustentável no médio e no longo prazos pelos seus efeitos deletérios sobre o balanço de pagamentos e, consequentemente, para a saúde da economia brasileira.

O déficit em conta corrente do balanço de pagamentos acumulado nos últimos doze meses já se aproxima de US$ 50 bilhões, o equivalente a aproximadamente 2,5% do Produto Interno Bruto (PIB). Embora em números absolutos - e mesmo relativos - ainda não representem um risco para a solvência da economia brasileira, principalmente levando-se em conta o nível atual recorde de reservas cambiais, próximas de US$ 300 bilhões, há que se ter cautela. O ritmo de crescimento do déficit corrente tem sido muito rápido, o que poderá fazer com que dobre nos próximos dois anos se, nada for feito para corrigir a trajetória.

Os primeiros sinais das mudanças qualitativas da política econômica são, em contrapartida, bastante bem vindas. Há uma percepção clara de que é preciso descentralizar as medidas de política monetária ainda fortemente respaldadas na taxa básica de juros (Selic) elevada e ampliar o leque de instrumentos. Isso evitará a pressão sobre a valorização do real e o aumento do custo de financiamento da dívida pública.

Não se deve, por outro lado, esperar que medidas fiscais e monetárias possam por si sós corrigir o desalinhamento do real. É preciso aprimorar a política cambial brasileira, fazendo uso de todos os instrumentos possíveis para enfrentar os desdobramentos da chamada guerra cambial internacional.

Ao mesmo tempo é preciso garantir que os gastos correntes do governo cresçam abaixo do desempenho médio da economia e da arrecadação. Isso tudo combinado pode propiciar uma importante mudança qualitativa no mix das políticas macroeconômicas em vigor. Há ainda medidas em curso para estimular o crédito e financiamento de longo prazo, algo crucial para suportar a demanda dos novos projetos de investimentos.

Sob o ponto de vista das políticas de competitividade há ainda todo um capítulo de aspectos de políticas industrial, comercial e de tecnologia e inovação que podem ser aperfeiçoados para fomentar o fortalecimento e criação de novas competências da indústria brasileira. Não podemos nos dar ao luxo de corrermos o risco da desindustrialização da economia brasileira. Já está mais do que na hora de enfrentarmos o problema com determinação. Os dados sobre a desarticulação de cadeias produtivas denotam um quadro dramático, que carece de ações imediatas.

(*) Economista, Doutor pelo IE/Unicamp e Professor-Doutor do Departamento de Economia da PUC-SP, Coautor, entre outros livros, de "Economia Brasileira" (Saraiva).

Ministros agradecem voto com a verba parlamentar

Fernanda Odilla e Maria Clara Cabral, Folha de São Paulo

Três futuros ministros da presidente eleita, Dilma Rousseff (PT), gastaram parte da verba da cota parlamentar para agradecer a eleitores pelos votos recebidos.

Próximo titular da Previdência, o senador Garibaldi Alves Filho (PMDB-RN) usou R$ 23,2 mil da verba indenizatória para mandar 22 mil cartões e veicular mensagem de agradecimento a eleitores nas emissoras de televisão do Rio Grande do Norte.

Luiz Sérgio (PT-RJ), que comandará o Ministério de Relações Institucionais, pagou do próprio bolso os cartões de agradecimento, mas usou o dinheiro da Câmara para bancar a postagem-- R$ 11,2 mil da cota de Correio.

Ato da Mesa da Câmara que regulamenta o uso da cota que os deputados têm direito é explícito ao proibir "gastos de caráter eleitoral".

No Senado, não há referência clara a eleições, mas o ato diz que a verba deve ser usada para pagar "despesas direta e exclusivamente relacionadas ao exercício da função parlamentar", "nos moldes" da Câmara.

ALIADOS
"Agradeço a você pela marca histórica de mais de 1 milhão de votos, prometendo retribuir toda essa confiança com mais trabalho e empenho, por todos os municípios aqui e em Brasília", diz o texto de Garibaldi, que deseja "Feliz Natal e um Ano Novo de grandes alegrias".

O depoimento de 31 segundos gravado pelo senador segue a mesma linha e está sendo exibido em emissoras de aliados políticos.

O futuro ministro pagou R$ 18,5 mil à TV Cabugi, que pertence ao primo e líder do PMDB na Câmara, Henrique Eduardo Alves, e ao sobrinho Aloízio Alves Neto. Também repassou R$ 2,1 mil à Tropical, do senador José Agripino (DEM-RN) e da família dele.

Os gastos com vídeos e cartões constam na prestação de contas de Garibaldi de dezembro e foram contabilizados na rubrica "divulgação da atividade parlamentar".

Luiz Sérgio (PT-RJ) também usou a cota de dezembro para enviar o material de agradecimento, serviço feito numa única agência dos Correios no Rio de Janeiro.

"Quero agradecer a cada um de vocês pela bela votação que obtive neste domingo. Foram 85.660 votos que renovam o meu mandato parlamentar e o meu compromisso com cada um de vocês e com o estado", diz trecho do cartão.

O texto é o mesmo do que está na página do futuro ministro na internet, segundo a assessoria de Luiz Sérgio. A Folha não conseguiu obter cópia do cartão.

Futura ministra dos Direitos Humanos, a deputada Maria do Rosário (PT-RS) também aproveitou o informativo com balanço de sua atividade parlamentar para agradecer aos eleitores pelos 143 mil votos que recebeu.

Além de desejar "um Natal de paz e um ano novo repleto de realizações", Rosário cita Dilma Rousseff, Tarso Genro (eleito governador do RS) e o senador eleito Paulo Paim (PT-RS).

Ela gastou R$ 14,5 mil em dezembro e R$ 23,8 em novembro numa gráfica de Porto Alegre para confeccionar o material, que traz na apresentação um mapa do Rio Grande do Sul com os municípios onde foi mais votada.

Políticos dizem que mensagens não são ilegais e que gastos foram aprovados
Garibaldi Alves Filho (PMDB-RN) afirmou, por meio de sua assessoria, que todos os anos "presta conta" com mensagens em vídeo e cartões. Disse que, por ter sido um ano de eleições, aproveitou para agradecer pelos votos que ganhou.

Ele é um dos três ministros da presidente eleita, Dilma Rousseff (PT), que gastaram parte da verba da cota parlamentar para agradecer a eleitores pelos votos recebidos, conforme reportagem publicada nesta sexta-feira (31) na Folha.

Segundo a assessoria, há um setor do Senado que analisa as notas e barra o ressarcimento de gastos fora do contexto. Ainda de acordo com Garibaldi, as prestações de contas dele sempre foram aprovadas sem problemas.

O futuro ministro afirmou ainda que não houve favorecimento a familiares nem ao aliado José Agripino (DEM-RN) no pagamento por espaço em emissoras de televisão.

Ele disse que a TV da família Alves é retransmissora da TV Globo e, por isso, pagou cerca de nove vezes mais que as demais para exibir vídeo entre 20 e 31 de dezembro.

Luiz Sérgio (PT-RJ) afirmou que preferiu não usar a verba em gráficas para imprimir os cartões de Natal, pois usou um modelo diferente dos fornecidos pela Câmara, mas que a postagem é permitida pela Casa. Disse ainda que a comissão que avalia as notas autorizou o envio.

A futura ministra dos Direitos Humanos, deputada Maria do Rosário (PT-RS), afirmou que pagou a mensagem de agradecimento do seu bolso.

Ela disse ainda que a cota para exercício da atividade parlamentar foi usada para custear apenas os folhetos com balanço de seu mandato. Os dois assuntos, porém, constam do mesmo folheto.

***** COMENTANDO A NOTÍCIA:

Pode até ser legal,  com as autorizações de praxe, etc, mas que é tremendamente imoral, não há a menor dúvida.

Com a palavra, a Faixa

Ivan Marsiglia, O Estado de São Paulo

Ela acaba de completar 100 anos e fala de seus ritos de passagem – o próximo, daqui a pouco

Quer saber? Vou falar. Sempre fui uma faixa discreta, mas ando atravessada com isso. Quase ninguém lembra que existo. Pensam que sou mera formalidade, peça de museu, resquício do passado. Quanta injustiça!

Não que eu queira os louros só para mim – a bem da verdade, nasci foi para substituir isso aí, os louros da Roma antiga, mas essa é uma longa história. Peço apenas um pouco de consideração pelas minhas funções.

Não é para reclamar não, mas alguém como eu tem que andar na linha, viu? Vivo trancada num cofre e só tenho direito, se muito, a duas voltinhas por ano: no desfile de 7 de Setembro e quando tem festa de posse. Nessa, às vezes nem banho de sol tomo, pois chove quase sempre. E sempre é aquilo: carro aberto ou carro fechado?

Carro aberto ou carro fechado? Não desenrola nunca. Eu ali, prontinha, querendo dizer: “Tem graça andar num Rolls-Royce conversível de capota fechada?”

Menos mal que nas duas últimas vezes o chefe ignorou a garoa. Confesso que a umidade danificou um pouco meu delicado tecido. Mas pelo menos pude saudar o povo na esplanada, do jeito que eu gosto.

Antes que alguém cometa a deselegância de perguntar, vou logo dizendo: tenho 100 anos, recém-completados essa semana. Qual o problema? Sou mais jovem que o Niemeyer. Está na minha certidão de nascimento: Decreto nº 2.299, de 21 de dezembro de 1910.

Faço saber que o Congresso Nacional decretou e eu sancciono a resolução seguinte: Art. 1º. Como distinctivo de seu cargo o Presidente da Republica usará, a tiracollo, da direita para a esquerda, uma faixa de seda com as cores nacionaes, ostentando o escudo da Republica bordado a ouro.

A faixa, cuja largura será de 15 centimetros, terminará em franjas de ouro de 10 centimetros de largo e supportará, pendente do porto de cruzamento das suas extremidades, uma medalha, de ouro, mostrando no verso o mesmo escudo de que falla o artigo anterior e no anverso o dístico - Presidencia da Republica do Brazil.

Assina o marechal Hermes Rodrigues da Fonseca, na data do 88º ano da Independência e 21º da proclamação da República.

Já que esticamos a prosa, vou falar um pouco mais de mim. A medalha que eu tenho é de ouro 18 quilates, cravejada com 21 brilhantes – o número de toques de canhão disparados em honra aos chefes de Estado.

Não foi para fazer fita que o marechal Hermes decidiu me sancionar. Militar, ele era sobrinho do marechal Deodoro da Fonseca, que destronou dom Pedro II e foi o primeiro presidente do Brasil. Olha, não é fácil competir com um imperador. É coroa, cetro, anel, manto... O povo se deslumbra.

Já reparou que até hoje todo o mundo diz “rei do futebol”, “rei da soja”, “rei Roberto”? Ninguém fala em “presidente” de nada, embora existam muitos aí com o rei na barriga.

Então, quando o marechal Hermes assumiu, ele era o oitavo mandatário da República, mas as coisas não andavam assim tão estáveis. Havia um medo generalizado em relação à volta da monarquia. Até aqueles pobres diabos de Canudos, massacrados 13 anos antes, eram tachados de monarquistas.

E o novo presidente, que vivia fardado desfilando fama de grosseirão, tinha sido eleito contra Rui Barbosa, um civil cheio de estilo e de oratória. O clima no País era de decepção, conta o historiador Boris Fausto. E convinha ao supremo mandatário trazer no peito, além das condecorações de guerra, um símbolo que marcasse a presidência civil. Para ninguém ter dúvida, Hermes ainda introduziu o Pavilhão da República, aquela bandeira verde que fica hasteada onde quer que o eleito esteja.

Poucos dias depois da posse, o primeiro presidente enfaixado enfrentou um motim de marinheiros. A Revolta da Chibata, contra os bárbaros castigos corporais que eram hábito na Marinha, só foi debelada à custa de prisões e mortes. E, em 1912, veio a Guerra do Contestado, com a população cabocla lutando nas ruas contra as forças federais – encrenca que sobreviveu a seu mandato, até 1916, quando eu já estava envolvida no sucessor Venceslau Brás.

“É uma época em que os símbolos e modelos republicanos penam para se afirmar e intelectuais como o escritor Lima Barreto falam na ‘República que não foi’”, me disse a antropóloga Lilia Schwarcz. Faz sentido.

Com que roupa? Onde estava mesmo?

Eu me enrolo toda nessas reminiscências. Ah, no meu tecido danificado pela chuva nas últimas posses. Para ser franca, antes mesmo eu já estava meio rota. Tanto que o cerimonial da Presidência, que é o setor responsável pela minha guarda, decidiu que era hora de dar uma repaginada no meu visual. Mas acha que é fácil mexer com armas e símbolos nacionais?

Tiveram que montar uma comissão para estudar os farrapos de minha biografia e costurar o processo licitatório de minha renovação. Em 2006, uma empresa de confecção de Brasília venceu a concorrência por R$ 38 mil. O preço alto deu pano pra manga. Não dou palpite nessa coisa de governo, que o meu negócio é de Estado. Mas queriam o quê? Que fosse na faixa?

Melhorei, mas a bem da verdade, depois da renovação ninguém rasgou elogios. Fiquei uma faixa meio pedestre, por assim dizer. O que mais me magoou foi a reação do presidente Lula, a quem sempre tive como amigo do peito: “Eu não vou usar esse molambo no desfile da Independência de jeito nenhum”.

Toca os assessores correrem para remendar o problema. O chefe da diretoria de documentação histórica da Presidência, Claudio Soares Rocha, se enfurnou nos livros e descobriu que o novo tecido, embora de seda como manda a lei, não era idêntico ao original. Além de brilhoso demais pro meu gosto, aquele cetim ficava mal-ajambrado no corpo – sem comparação com o chamalotado de seda pura de minha juventude.

Como quase ninguém faz mais esse tipo de pano no Brasil, o diligente Claudio garimpou numa pequena confecção de Americana, interior de São Paulo. Para transferir o Brasão da República e a medalha para a roupa nova, foi escalada Renata Barretto, uma restauradora do Iphan, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.

Renata removeu os fios de ouro com bisturi, para não danificar a peça e bordou um a um no chamalotado. Também refez a emenda original dos tecidos, com as tiras verdes costuradas por baixo da amarela. O trabalho terminou em agosto de 2010 e ficou uma beleza. O presidente até brincou: “Dia 31, quando der meia-noite, não vou entregar a faixa. Estou pensando em colar a bichinha na barriga e sair correndo”. Eu, hein?

Sem ser pretensiosa: todo o mundo me deseja. Só que não fui feita para ser de ninguém. Nesse ponto, do alto de meu centenário, até que sou moderninha. Gosto de variar, mudar de dono, exercitar o desapego. Romances não me faltaram.

Getúlio chegou como quem não queria nada e praticamente me tomou à força em 1937. Depois voltou, se desculpou e acabou me conquistando. Senti sua falta quando ele se foi daquele jeito trágico.

Já o Jânio fazia o gênero difícil: te quero, não te quero mais... Ele me deu o fora no dia 22 de agosto de 1961, mas só saiu de perto de mim no dia 26. Esperando, sei lá, que eu me rebaixasse, implorasse. Lo siento, cariño.

Diz a lenda que quando me arrancaram de Jango, seu cunhado, Leonel Brizola, me levou para o exílio na esperança de devolvê-la ao legítimo dono. Mas não me lembro bem disso não. Deve ser a idade...

Veio, então, aquele período que não gosto nem de lembrar. Eu, passando do general da vez para outro. De todos, Médici foi quem me tratou pior. Figueiredo também era complicado. Foi o primeiro que parou de me usar debaixo da casaca, como sempre fui acostumada, e me pôs por cima do terno: casaca, para ele, só a de equitação. Em 1985, ele não teve nem a delicadeza de me entregar ao Sarney.

Hoje, já me habituei a ficar em cima do terno. Não é tão elegante, mas é mais jovial. Só Collor de Mello fez questão de me vestir à moda antiga. O Itamar, esse nem foto oficial comigo fez. Azar dele.

O que me traz, enfim, aos amores da maturidade: FHC, tão fino e cultivado, e Lula, amante apaixonado. Na passagem de um para outro, em 2003, fiquei tão nervosa que quase derrubei os óculos do príncipe. Ainda bem que o sucessor segurou. Um fim de relacionamento bem civilizado, eu diria.

Agora,faltam [poucas horas] para uma nova cerimônia de posse e, pela primeira vez, de uma mulher. Imaginem minha emoção. Aqui, dentro do cofre da sala 302 do terceiro andar do Palácio do Planalto, mal contenho a ansiedade. Há anos guardam o cofre no banheiro privativo do embaixador chefe do cerimonial – o que não é lá muito glamouroso –, mas a minha nova grande hora está para chegar.

Vai ser as 16h30, quando a mineira Dilma Rousseff chegará ao Palácio do Planalto, depois de fazer o juramento constitucional no Congresso. Quero estar esperando no alto da rampa, ainda abraçada com Lula.

De lá, vamos os três direto para o parlatório, onde, pela 42ª vez na história da República, o poder presidencial será passado de uma pessoa para outra.

Vestida de mim, Dilma dará posse aos ministros às 18h30, descerá a rampa e então embarcará no Rolls-Royce presidencial. Se São Pedro ajudar, vou me exibir com a presidente em carro aberto para o povo todo na capital federal. Minha única preocupação, enquanto faixa, é estar bem bonita e composta. Vai que eu desato a chorar...

Lula deixa para Dilma o reajuste dos aposentados

Veja online

Sem acordo, os benefícios podem ser corrigidos apenas pela inflação, de 5,5%

O governo federal deixou para a próxima semana a publicação da medida provisória que define o reajuste dos aposentados e pensionistas que recebem mais que o salário mínimo. Como não houve negociação e acordo entre centrais sindicais, representantes dos aposentados e do Executivo, os benefícios deverão ser corrigidos apenas pela inflação, ou seja, com base na estimativa do Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) de 5,5%.

A expectativa do presidente da Confederação Brasileira de Aposentados e Pensionistas (Cobap), Warley Martins Gonçalles, no entanto, é de que os aposentados ganhem um pouco mais que isso. O índice oficial da inflação de 2010 só será divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 20 de janeiro e, na avaliação do presidente da Cobap, ele pode ser maior do que os 5,5% projetados. Se o índice for maior do que previsto atualmente, os aposentados podem ter um complemento do valor em março, de acordo com Gonçalles.

Ontem, foi editada uma MP estabelecendo que, a partir de hoje, o salário mínimo passará de 510 reais para 540 reais. Com esse aumento de 5,88%, o teto de aposentadoria do INSS sobe dos atuais 3.467,40 reais para 3.671,28 reais. O cálculo do reajuste do mínimo deste ano considerou a inflação do ano anterior mais a variação do Produto Interno Bruto (PIB) de dois anos atrás. Como o PIB foi negativo em 2009, os trabalhadores estão recebendo apenas a variação da inflação.

Descontentes, as centrais sindicais prometem fazer muito barulho no Congresso Nacional para conseguir elevar o mínimo para 580 reais. Surfando na mesma onda, os aposentados e pensionistas vão reivindicar uma correção igual a que foi concedida para quem recebe o salário mínimo.

(Com Agência Estado)

Um ano intenso

Miriam Leitão - O Globo

O ano de 2010 teve mais crescimento, mais inflação, mais emprego, mais incerteza externa, mais alta nos preços de commodities do que se esperava. Foi um ano que surpreendeu pela intensidade, mas não pela direção dos eventos. Já se esperava uma alta do PIB, mas foi ainda maior. Sabia-se que os países emergentes puxariam o crescimento, mas não que dependeria só deles.

Foi um dos melhores anos da história recente da América Latina, e terminou com uma alta do PIB regional de 6%. Apesar de o Brasil ter crescido bem mais do que os 5,5% que o mercado previa, não foi o país que mais cresceu. Ficou atrás do Paraguai, Uruguai, Peru e Argentina. Mas na Argentina é bom lembrar que a qualidade do crescimento não é a mesma, porque o país está flertando com inimigos perigosos: a inflação em dois dígitos e a manipulação do índice de preços. Só o Haiti e a Venezuela tiveram desempenho negativo do PIB. O Haiti pelas tragédias que se seguiram ao terremoto; a Venezuela como resultado do desatino do seu governante.

A China crescendo ajudou a puxar o mundo e elevou os preços de produtos que o Brasil exporta, o que nos ajudou a terminar o ano com exportações recordes. Por outro lado, pôs mais um pouco de lenha na fogueira da inflação. O IPCA terminou o ano bem acima do centro da meta e os IGPs na perigosa marca dos 11%.

A Europa foi o grande centro de incerteza, mas não o único. O persistente baixo crescimento dos Estados Unidos levou a uma política de expansão fiscal e monetária que espalhou seus efeitos pelo mundo inteiro.

Apesar de estarem se tornando relativamente menores, em relação ao PIB global, os Estados Unidos têm uma economia grande demais para ser "gostoso" vê-lo entrar em crise, como disse em mais uma declaração despropositada o incorrigível presidente Lula. A crise americana foi ruim para o mundo todo. Um dos seus efeitos foi a onda de queda da moeda americana em vários países, principalmente nos emergentes.

A política de controle do câmbio na China ficou ainda mais destoante. O debate concentrou as atenções nas reuniões das maiores economias do mundo e foi batizado pelo ministro Guido Mantega como guerra cambial. É assunto inconcluso e destinado a produzir efeitos em 2011 e além. O mundo das moedas tem ainda vários desequilíbrios. O yuan chinês não flutua como outras moedas, dando ao produto exportado pela China uma competitividade extra e desleal; o dólar, moeda de referência do comércio internacional, cai em relação à maioria das moedas; o euro tem dúvidas sobre seu próprio futuro.

Governo prorroga até 2035 encargo na conta de luz

Leila Coimbra, Folha de São Paulo

O governo prorrogou por mais 25 anos a RGR (Reserva Geral de Reversão), encargo cobrado na conta de energia elétrica que deveria ter acabado ontem.

Caso o tributo fosse extinto, poderia haver uma queda de 2,7% nas tarifas de luz, segundo cálculo da Abrace (Associação Brasileira de Grandes Consumidores Industriais de Energia e de Consumidores Livres).

A extensão da cobrança foi inserida de "contrabando" na medida provisória 517, publicada no "Diário Oficial da União" ontem. A MP trata também do pacote de crédito e do cadastro positivo.

A RGR serve atualmente para bancar o programa de universalização elétrica do governo, o Luz para Todos, que beneficiará cerca de 13 milhões de pessoas quando concluído.

O programa também deveria ter sido encerrado ontem, mas foi estendido até 31 de dezembro --24 anos antes da extinção do encargo que o financia.

A Eletrobras, gestora da conta, possuía em caixa R$ 7,9 bilhões referentes ao encargo no dia 30 de setembro, data de publicação de seu mais recente balanço contábil. Há ainda uma quantidade significativa dos recursos da reserva nas mãos de empresas do setor, sob a forma de financiamentos.

Para dar uma ideia, apenas em 2009 a Eletrobras recolheu R$ 1,5 bilhão de RGR dos consumidores e recebeu outro R$ 1,3 bilhão em pagamento de empréstimos e aplicações financeiras.

Criada em 1957 para arrecadar recursos destinados à compra pela União de ativos de geração, transmissão ou distribuição em eventuais casos de fim da concessão pelas empresa, a RGR nunca foi utilizada para esse fim.

Do total da RGR hoje, 40% são aplicados no financiamento de projetos de transmissão; 35%, no programa Luz para Todos; 18%, no financiamento à geração; 4%, em distribuição; e 3%, em programas de conservação de energia.

O ministro de Minas e Energia, Marcio Zimmermann, afirmou ontem que é importante e necessária a prorrogação do tributo até 2035, porque o fundo ajuda a levar luz a todos os cidadãos.

CRÍTICA
Para o presidente do instituto Acende Brasil, Cláudio Salles, não há motivos para o encargo continuar existindo, pois, mesmo depois da aplicação dos recursos em diversos programas, ainda sobra dinheiro.

"O RGR tem recursos em caixa bem elevados, suficientes para financiar as operações de universalização."

Por ter um elevado saldo em caixa, a RGR representa um trunfo para o governo federal. No plano de resgate da concessionária de energia Celg, de Goiás, por exemplo, estava prevista a utilização da reserva.

O saco sem fundo da Eletrobrás

O Estado de São Paulo

A Eletrobrás anuncia que vai injetar R$ 700 milhões em distribuidoras de energia elétrica sob seu controle em seis Estados do Norte e do Nordeste - empresas fortemente endividadas e que vêm apresentando seguidos prejuízos. Para isso, a holding tomará empréstimo de US$ 495 milhões do Banco Mundial (Bird), cabendo-lhe a contrapartida de R$ 214 milhões. A estatal espera que aquelas empresas - antes administradas pelos governos estaduais e que foram federalizadas - possam funcionar em 2014 segundo parâmetros da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). Uma maneira mais eficaz e econômica de sanar os problemas existentes seria transferir as concessões para a iniciativa privada, como foi feito, com êxito, com outras distribuidoras de energia elétrica.Essa alternativa, porém, não chegou nem mesmo a ser cogitada, embora haja interessados na aquisição desses ativos.

O governo quer ampliar o império da Eletrobrás. Além das distribuidoras já federalizadas e que vêm apresentando problemas - as antigas Manaus Energia (Amazonas), a Boa Vista Energia (Roraima), a Ceron (Rondônia), a Eletroacre (Acre), a Ceal (Alagoas) e a Cepisa (Piauí) -, a holding poderá encampar mais duas estaduais: a CEA (Amapá) e a CERR (Roraima), também deficitárias.

O argumento oficial é de que se trata de uma questão de desenvolvimento regional. Como a demanda de energia no Norte e no Nordeste tem sido superior à média nacional, seria urgente recuperar essas empresas, sob o pressuposto de que, financeiramente saneadas e recebendo novos investimentos, elas podem apresentar bons resultados a mais longo prazo. Mas os que defendem essa tese não explicam as razões pelas quais isso deve ser feito pelo setor público, com limitada capacidade de investimento, que o faz recorrer a um endividamento crescente. Como já foi demonstrado, o setor de distribuição de energia elétrica no Brasil é capaz de atrair investimentos privados e há empresas dispostas a participar de leilões de privatização, comprometendo-se, por contrato, a atender às exigências legais e às normas que a Aneel julgar cabíveis.

Para o governo federal, que vem utilizando resultados de estatais para fazer caixa e cumprir as metas fiscais, os leilões de tais distribuidoras seriam uma fonte de receita. E - o que é mais importante - a privatização desoneraria o setor público, transferindo para o setor privado a responsabilidade pelos investimentos necessários.

Os resultados que as distribuidoras privatizadas vêm apresentando mostram, com absoluta clareza, quão mais eficiente tem sido a gestão privada de concessionárias de energia elétrica em relação ao setor estatal. Se ainda houvesse dúvidas sobre isso, bastaria lembrar o caso da Celg Distribuição, de Goiás. Para "salvar" a companhia, controlada pelo Estado de Goiás, o BNDES e a Caixa Econômica Federal (CEF) se uniram em outubro último para conceder um empréstimo de nada menos do que R$ 3,7 bilhões à companhia. Para dar também uma ajudazinha à empresa goiana, a Eletrobrás aumentou a sua participação no capital da empresa de 0,5% para 6%. Há quem preveja que a Celg acabará fazendo parte do vasto Sistema Eletrobrás.

Já deveria estar claro para o governo que "federalizar" distribuidoras estaduais de energia elétrica está longe de ser uma solução. Quando isso ocorre, essas empresas, administradas mais por critérios políticos do que estritamente técnicos, tornam-se simplesmente um sorvedouro de recursos públicos.

Em entrevista ao jornal Valor (16/12), o representante dos acionistas minoritários da Eletrobrás, Arlindo Magno, sugeriu que se faça uma "privatização branca" das controladas da estatal no Norte e no Nordeste, por meio da criação de uma holding de distribuidoras, que emitiria ações no Novo Mercado da BM&F/Bovespa. Pode haver impedimentos legais para que isso ocorra. Não há, contudo, nenhum obstáculo para uma privatização nos moldes dos leilões de outras concessionárias de energia. Infelizmente, não há nada que justifique a esperança de que o governo Dilma Rousseff venha a romper o vezo antiprivatizante do governo Lula.

Moleque, inconsequente e irresponsável até o fim

Adelson Elias Vasconcellos

Se houvesse a mínima possibilidade que fosse de, a partir de hoje, 01º de janeiro de 2011, o Brasil livrar-se de Lula e seu partido de cafajestes, acreditem, haveria motivos para comemorar. Mas não acredito que o doido deixará o Brasil em paz, respirar livre e levar uma vida normal.

Ontem ainda comentávamos sobre a insistência com que o “cara” tem se insurgido nos últimos dias. Dia sim, dia também, sobe nos palanques da vida para vociferar jumentices e cretinices dos mais variados tipos e estilos.

Apesar de todo o imenso discurso em favor de uma herança bendita, os números estão aí a comprovar o quanto este “carinha” comprometeu o equilíbrio fiscal do pais, com sua megalomania, irresponsabilidade e arrogância. Não apenas isso: não há um único serviço público que se possa dizer: bom, pelo menos nisso, nos salvamos. Não, nada, tudo está abaixo da crítica e da indigência, situação levada por esta figura grotesca que, com sua ação descontrolada, coloca em risco, definitivamente, a estabilidade duramente conquistada.

E se tal não bastasse, no último dia teve a ousadia de, destrambelhado por natureza, rasgar um acordo internacional aprovado pelo Congresso Nacional e jogar na lama a honra do país, acolhendo um assassino e terrorista, como se já não nos bastassem as centenas de criminosas, totalmente soltos e que seu governo de drogas não teve a menor competência de combater.

Dar refúgio ao assassino italiano, ignorando completamente os crimes que o cafajeste cometeu, é o mesmo que esbofetear as pessoas honestas do Brasil e Itália.

Este moleque irresponsável, mau caráter e inconsequente, enxovalha de forma torpe a honra brasileira, a respeitabilidade do país que ele desgovernou em oito anos de reinado. Este mesmo mistificador, fruto de discursos estúpidos e da propaganda mentirosa, tem ainda a desfaçatez de querer apagar um dos maiores crimes de estado cometidos na história do país que foi o mensalão.

Não, não me venham pedir reconhecimento, aprovação e aplausos para um governo feito de farsas, corrupção e incompetências. Este camaradinha petulante, comandou por oito anos o governo do crime organizado, e aprofundou, como jamais antes alguém conseguiu, a a insegurança pública do país.

Sua aprovação recorde, já disse aqui, ficou desmoralizada quando se confrontou aqueles números com os resultados das urnas que elegeu Dilma presidente, numa eleição vexatória onde os limites legais, segundo critérios que só a turma do Tribunal Eleitoral consegue explicar, valeram apenas para um dos lados. Para a turma do governo, tudo foi permitido, liberado e validado.

Ao acolher Battisti, e da forma como o fez, Lula demonstra, de forma definitiva, o demônio que sempre morou no seu instinto, a malvadeza das linhas de caráter degradado e imoral.

Dias antes, ao relacionar a turma que seria convidada para a transmissão de cargo, propositadamente deixaram de convidar um único presidente das Américas:o presidente eleito de Honduras em eleições livres, democráticas e legais, devidamente acompanhada pela comunidade internacional, uma atitude mesquinha e de baixo nível, o que caracterizou bem toda a política externa deste governo inescrupuloso.

Vá, Lula, vá para São Bernardo do Campo e trata de ficar por lá e deixe o Brasil seguir seu rumo. Pare de atrapalhar e se indispor contra nossas conquistas democráticas, nossos avanços econômicos, contra os quais seu partido se posicionou contra, mas no poder tentou parecer o benfeitor das conquistas. Está mais do que na hora de Lula parar de envergonhar o país.

Vê se te toca , cara, e nos livre da tua mediocridade.

Decisão vergonhosa de Lula no caso Battisti é bofetada no rosto de um país amigo, de que descendem mais de 30 milhões de brasileiros

Ricardo Setti, Veja online

Cesare Battisti: a decisão de manter o terrorista no Brasil
desmoraliza o país diante da opinião pública internacional

Tanto fez, que ele acabou conseguindo: na véspera da posse da primeira mulher eleita presidente em 121 anos de República, Lula com seu ego inigualável conseguiu retirar de Dilma Rousseff e voltar para si as atenções do país e de boa parte da opinião pública internacional com a vergonhosa decisão de não extraditar para a Itália o terrorista e assassino Cesare Battisti. Um infeliz roubo de cena.

Trata-se de um atropelo ao Direito Internacional que parte de um absurdo: baseado em quilométrico e palavroso parecer de 65 páginas da Advogacia Geral da União, o governo brasileiro age na suposição de que o terrorista, condenado por quatro assassinatos em seu país, em julgamentos fundados na lei e com direito a plena defesa e em três instâncias diferentes, fosse ser vítima de perseguição política, como se a Itália fosse uma Coreia do Norte, um Irã, uma Venezuela.

“Há fundadas razões para suposição de que o extraditando possa ter agravada sua situação pessoal”, delira a AGU. “A questão exige que se proteja, de modo superlativo possível, a integridade de pessoa eventualmente exposta a perigo, em ambiente supostamente hostil”.

O fato de o primeiro-ministro Silvio Berlusconi comportar-se como um cafajeste abominável não subtrai à Itália o caráter de ser uma das democracias mais livres do planeta. Battisti não seria “vítima de perseguição política” alguma caso fosse extraditado: ele cumpriria, com base na Constituição e nas leis de um Estado democrático, os 30 anos de cadeia a que se viu condenado (na verdade, recebeu prisão perpétua, mas o Brasil não extradita sentenciados a menos que seu país de origem concorde em que cumpra o máximo de tempo de prisão previsto no ordenamento jurídico brasileiro).

Battisti não é um “perseguido político”, como queria seu grande amigo Tarso Genro, atual governador do Rio Grande do Sul e ministro da Justiça de Lula quando o terrorista foi preso, em 2007. Condenado na Itália, teve sua situação reiterada pela França, onde andou foragido, e seu caso passou pelo crivo da Corte Europeia de Direitos Humanos. É um criminoso responsável pela morte de dois comerciantes, um agente de segurança e um policial.

A decisão vergonhosa de mantê-lo no Brasil desmoraliza o país diante da opinião pública internacional e significa uma bofetada no rosto da bela Itália, país amigo do qual descendem mais de 30 milhões de brasileiros, além de arranhar as relações do Brasil com importantíssimos parceiros comerciais, financeiros e culturais — os países da União Europeia, da qual a Itália é membro proeminente.