Josias de Souza, Folha.com
Em artigo levado às páginas da Folha, José Sarney escreve sobre os “bichos” de sua infância maranhense: duas vacas, um cachorro e três cavalos.
O texto foi escrito pelo Sarney membro da Academia Brasileira de Letras, não pelo presidente do Senado.
Ao correr os olhos pela peça, o signatário do blog viu-se como que compelido a fazer uma analogia entre os “bichos” do Maranhão e os de Brasília.
No quintal da meninice de Sarney “havia sempre uma vaca parida para o leite fresco”.
Recordou-se de duas: “Severina, boa de leite” e “Beijosa, mansa e fácil de ordenhar”.
Nos quintais do Sarney entrado em anos também há uma vaca de prontidão: a Viúva. Carrega úberes fartos e indefesos.
No terreno da casa onde cresceu o menino “havia também um cachorro, Seu Zezé -latia muito, mas não gozava da fama de ser valente”.
No pátio do senador há um cão parecido, Seu Petê. No passado, exibia um latido exuberante. Hoje, perdeu aquela valentia que o tornava diferente.
Os cavalos que trotam nas reminiscências do menino são: Papa Légua, Bom Marido e Ano Velho. “Mansos, prontos para tudo, a toda hora”.
A política, ensinam os entendidos, é a arte de saber montar os cavalos que passam encilhados.
Mercê da experiência adquirida em menino, Sarney, já adulto, revelou-se um jóquei imbatível.
Capaz de realizar acrobacias, saltou do lombo da ditadura para o dorso do Pemedebê. Cavalga a legenda-alimária até hoje.
Criança, familiarizou-se com a rédea num “cavalo mole, manso, ideal para ser montado pelos meninos como eu”. Natural que, adulto, tenha se afeiçoado ao Pemedebê.
Xucro na época da ditadura, amolengou-se após a redemocratização, tornando-se montaria ideal para experts como Sarney.
A cavalgadura preferida do garoto fora adquirida pelo avô das mãos de ciganos.
“Meu avô quis saber o nome do cavalo”, recordou Sarney no artigo. Chamava-se "Cacete". O velho inquiriu: "Que data é hoje?" Era "31 de dezembro".
E o avô do menino: "Então o nome do cavalo é Ano Velho". Sarney encerrou seu texto assim:
“Até hoje, nas noites de 31 de dezembro, vejo o Ano Velho trotando nas estradas da minha memória”.
Nas saídas da memória do presente, tudo parece arcaico ao redor do senador, inclusive o Ano Novo.
Sob Dilma Rousseff, Sarney conservará o controle das Minas e Energia, a teta elétrica Lula lhe concedera.
No Senado, o ex-menino galopa em direção à tetrapresidência. "Seu Petê" ensaiou um latido. Mas, puxando as rédeas do Pemedebê, Sarney deu encurtou o surto de valentia.
Por mais que considere sua infância feliz, Sarney há de concordar: sua velhice é muito mais maravilhosa.