sábado, janeiro 01, 2011

Dilma busca elevar tarifas para ofuscar efeito do real

Reuters

Força do real, que é uma das moedas mais sobrevalorizadas do mundo, foi a principal questão econômica nas reuniões recentes de Dilma com conselheiros

SÃO PAULO - A presidente eleita Dilma Rousseff planeja medidas agressivas, como aumento de tarifas e redução de impostos, para lidar com os prejuízos que o real valorizado causa a empresas manufatureiras.

A força do real, que é uma das moedas mais sobrevalorizadas do mundo, foi a principal questão econômica nas reuniões recentes de Dilma com conselheiros antes da posse em 1º de janeiro, disseram à Reuters fontes próximas ao futuro governo.

"Há uma preocupação aguda sobre o câmbio", disse uma autoridade sênior do governo de Dilma, falando em condição de anonimato porque a presidente ainda não tomou posse. "Nós estávamos esperando que a situação melhorasse antes (da posse), mas não há sinais disso ... e nós percebemos que precisamos agir rápido."

O real subiu 11% contra o dólar desde maio, e acumula alta de mais de 100% desde 2003, com a forte expansão da economia brasileira e as elevadas taxas de juros atraindo enormes fluxos de capital dos países desenvolvido.

Taxas de câmbio sobrevalorizadas têm sido um problema em toda a América Latina e no mundo em desenvolvimento, em parte devido aos desequilíbrios restantes da crise financeira de 2008 e 2009. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, alertou sobre uma "guerra cambial", enquanto países como Estados Unidos e China tentam deprimir o valor de suas moedas e tomam outras medidas para impulsionar a produção e as exportações locais.

Como exemplo do tipo de medida que Dilma adotaria para aliviar os problemas gerados pelo real forte, fontes citaram a decisão tomada nesta semana pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva para aumentar as tarifas sobre 14 tipos de brinquedos importados, de 20% para 35%.

"Você verá mais medidas nessa linha (das tarifas sobre brinquedos) nos próximos meses..., sempre respeitando nossas obrigações internacionais (sob acordos comerciais)", disse a autoridade sênior, sem especificar setores. "A defesa comercial é legítima", acrescentou.

A decisão de Lula é permitida sob as regras internacionais de comércio por causa das provisões que permitem que o Brasil proteja a indústria doméstica, disse uma autoridade do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior.

A indústria brasileira de brinquedos, como muitas outras manufatureiras nacionais, reduziu o número de vagas nos últimos anos, apesar do crescimento econômico geral. O real valorizado deixou os produtores locais incapazes de competir com as importações baratas da China -- que agora responde pela maior parte das vendas de brinquedos no mercado brasileiro, de acordo com a Associação Brasileira dos Fabricantes de Brinquedos (Abrinq).

A China é acusada por muitos outros governos, como os EUA, de manter sua moeda artificialmente depreciada.

As manufatureiras nacionais pedem há meses para o governo aumentar as tarifas de importação em certos setores. Lula hesita a fazê-lo em meio à expansão do consumo no último ano de sua Presidência e à crescente relação comercial entre Brasil e China. A alta das tarifas sobre brinquedos coincidiu com o fim do mandato de Lula e a passagem do Natal.

Ainda assim, autoridades disseram que a continuidade da forte entrada de dólares e os níveis menores de produção industrial ao longo de 2010 fizeram a equipe econômica de Dilma ter uma abordagem mais agressiva.

Incentivo 
A elevação de tarifas, se realizada em grande escala e imitada por outros países, pode espalhar temores de uma onda de protecionismo que poderia atrapalhar a recuperação econômica global.

Porém, a decisão de manter o foco de curto prazo na atenuação das consequências do real forte, ao invés de tentar enfraquecer agressivamente a moeda, pode ter consequências secundárias positivas nas ações e nos mercados de bônus.

O governo recorreu, nos últimos meses, a elevações do imposto (IOF) sobre investimentos em bônus e ações locais como uma forma de desencorajar o influxo de dólares. A possibilidade de taxar mais as transações acionárias pressionou a Bovespa nos últimos meses, disse Oliver Leyland, gerente de carteira de ações da Mirae Asset, em São Paulo.

Para Leyland, a alta em certas tarifas "fazem algum sentido" como método para aliviar a pressão gerada pelo real.

Ele disse, no entanto, que a política pode acabar sendo "neutra para o mercado", uma vez que tarifas mais elevadas em setores como aço - que ele considera um candidato "óbvio" - podem acelerar a inflação dos bens de consumo, erodindo lucros.

Dilma anunciou cortes moderados no Orçamento para 2011, que devem ajudar a reduzir a pressão sobre a taxa de câmbio. Impostos mais baixos e políticas que encorajem a inovação são outras ferramentas que a presidente eleita pode utilizar para ajudar as indústrias locais a recuperar competitividade em casa e no exterior.

"A melhor coisa (para enfraquecer o real) seria uma queda rápida nos juros, claro", disse uma das fontes. "Mas nós reconhecemos que isso não vai acontecer (no futuro próximo)."

As fontes disseram à Reuters que é provável que incentivos tributários sejam implementados no curto prazo para manufatureiras de alguns bens intermediários e finais, que foram especialmente prejudicadas pelo real forte.

"Nós vamos olhar para todas as partes da cadeia produtiva ... para incentivar as exportações e reduzir o dano", disse uma autoridade.

(Por Brian Winter; reportagem adicional de Raymond Colitt)