Virulência fracassada
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Por Adriana Vandoni
Publicado no Argumento & Prosa
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A gestão Lula foi um grande desastre em todos os sentidos. Logo de início teve dificuldade para preencher os cargos federais com pessoas competentes, achou que bastaria colocar companheiro derrotado em postos estratégicos. Quando viu que precisaria compor com outros partidos, teve a capacidade de buscar os piores dos piores partidos. Foi pródigo, isso não podemos negar, ao ressuscitar ou renovar as energias de tantos políticos absolutamente desnecessários. Só faltou, talvez por esquecimento, Hildebrando Pascoal, aquele que serrava pessoas com motoserra. Pois ele se daria muito bem com a gangue de Lula, sem dúvida seria um aprendiz.
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No quesito ética, honestidade, transparência e outras coisinhas do gênero que durante anos foram a bandeira do PT, foi um fracasso. É gangue do mensalão, do valerioduto. Gangue do caixa 2 e da cueca. Gangue do sanguessuga. Gangue do dossiê. Lula desmoralizou até o crime. Trabalho mesmo, só para o Ministro do Crime Marcio Thomaz Bastos que teve que livrar desde companheiro em briga de galo, até companheiro suspeito de assassinato.
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E a economia companheiros? Pouco tempo sobrou, é lógico. Entre um bordel e outro, sobravam alguns segundos, mas o suficiente para cometer algumas atrocidades econômicas.
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Por Adriana Vandoni
Publicado no Argumento & Prosa
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A gestão Lula foi um grande desastre em todos os sentidos. Logo de início teve dificuldade para preencher os cargos federais com pessoas competentes, achou que bastaria colocar companheiro derrotado em postos estratégicos. Quando viu que precisaria compor com outros partidos, teve a capacidade de buscar os piores dos piores partidos. Foi pródigo, isso não podemos negar, ao ressuscitar ou renovar as energias de tantos políticos absolutamente desnecessários. Só faltou, talvez por esquecimento, Hildebrando Pascoal, aquele que serrava pessoas com motoserra. Pois ele se daria muito bem com a gangue de Lula, sem dúvida seria um aprendiz.
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No quesito ética, honestidade, transparência e outras coisinhas do gênero que durante anos foram a bandeira do PT, foi um fracasso. É gangue do mensalão, do valerioduto. Gangue do caixa 2 e da cueca. Gangue do sanguessuga. Gangue do dossiê. Lula desmoralizou até o crime. Trabalho mesmo, só para o Ministro do Crime Marcio Thomaz Bastos que teve que livrar desde companheiro em briga de galo, até companheiro suspeito de assassinato.
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E a economia companheiros? Pouco tempo sobrou, é lógico. Entre um bordel e outro, sobravam alguns segundos, mas o suficiente para cometer algumas atrocidades econômicas.
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O que Lula fez com o setor produtivo do Brasil foi uma temeridade. Vamos tirar por base o estado de Mato Grosso que vive da agricultura. Sentimos e ainda vamos sentir a fundo o que foi a gestão do meliante que quase dizimou a produção agrícola ao insistir em uma política cambial absurda, que reduziu a renda do pequeno e médio agricultor. Isso sem contar com a constante ameaça de invasões, a inconstante e inconsistente política ambiental, a moratória parlamentar causada pela emergência em forjar apurações de atos delinqüentes.
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Ao reduzir a renda do agricultor este governo inconseqüente vai causar o desemprego de mais de 100 mil pessoas só em Mato Grosso. O que fazer com essa massa de trabalhadores que possui mão-de-obra especializada sim, mas para a agricultura? Qual é a capacidade dos municípios para absorção dessa mão-de-obra? Simplesmente não existe. A crise no campo matogrossense já atingiu todos os setores, menos um, o da especulação financeira. Esse setor prospera em todo o Brasil.
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Agora eu pergunto: quem aqui em Mato Grosso vota em Lula?No primeiro turno as opções eram maiores, mas agora a disputa está polarizada. Não se trata apenas de ser PSDB ou PT, mas as opções são essas. É Geraldo ou Lula e pronto. Quero saber qual produtor rural, qual daqueles que em um momento de extremo desespero e desesperança foi para a beira das estradas gritar por socorro, qual deles vota em Lula?
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Agora eu pergunto: quem aqui em Mato Grosso vota em Lula?No primeiro turno as opções eram maiores, mas agora a disputa está polarizada. Não se trata apenas de ser PSDB ou PT, mas as opções são essas. É Geraldo ou Lula e pronto. Quero saber qual produtor rural, qual daqueles que em um momento de extremo desespero e desesperança foi para a beira das estradas gritar por socorro, qual deles vota em Lula?
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Então quem vota em Lula? Basta raciocinar. Quem lucrou no governo Lula? Quem cresceu com a política cambial de Lula? É claro que apenas quem vive de especular em cima da produção alheia. Quem trabalha e produz aqui, não vota em Lula. Quem acompanhou desde o início o martírio dos produtores rurais, causado por este governo delinqüente e mesmo assim votar em Lula, ou está traindo o povo, ou se beneficia financeiramente, ou faz parte dessa torpe trupe. Ai meu anjo, é uma questão umbilical.
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Antes que me acusem de ser “alckmista” eu já respondo: sou anti-Lula e seus meninos aloprados. E para aquele jornalista que tem espasmos incontroláveis ao me chamar de virulenta eu lamento, mas nisso sou um fracasso. Quisera eu ter a virulência que me é atribuída pelo jornalista Enock Cavalcanti.
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Já teria derrubado Lula muito antes.
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Prezado Lula, ou recordar é viver
Por Pedro S. Malan
Publicado em O Estado de São Paulo
Por Pedro S. Malan
Publicado em O Estado de São Paulo
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Prezado Lula foi o título de carta pública que dirigi ao então candidato em abril de 2002 e reproduzida a seguir (não na íntegra, por razão de espaço), dadas as tentativas de esquecer o passado recente e distorcer o passado já mais distante.
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Prezado Lula foi o título de carta pública que dirigi ao então candidato em abril de 2002 e reproduzida a seguir (não na íntegra, por razão de espaço), dadas as tentativas de esquecer o passado recente e distorcer o passado já mais distante.
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'Lamento incomodá-lo. É bem provável que você considere o que me leva a escrever como um assunto menor na ordem maior das coisas ou das suas legítimas preocupações com seu futuro político. O problema é que o assunto não é menor para mim. Porque tem a ver com minha honra, com meu nome, legado maior que deixarei a meus filhos. Algo que vou defender até o fim de meus dias. Espero que você entenda por quê...
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Em longa entrevista publicada pelo Correio Braziliense em agosto de 2001, você se referiu à minha pessoa nos seguintes termos: '... o ministro Pedro Malan... parece que tem uma chave sagrada dos cofres públicos, guarda o dinheiro só para ele... e em época de eleição libera dinheiro para obras de amigos...'
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Bem sei que no mundo da política as pessoas, por vezes, se deixam levar pela emoção e pela paixão e que nem sempre medem com cuidado o uso e o significado de suas palavras, principalmente quando atacam pessoalmente supostos adversários políticos. Com muito boa vontade, talvez a sua entrevista pudesse ser lida, como sugeriu uma grande admiradora sua, como uma simples metáfora, destituída de maior significado, própria do calor da hora. Infelizmente, como fui acusado diretamente, não foi assim que a interpretei.
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Bem sei que no mundo da política as pessoas, por vezes, se deixam levar pela emoção e pela paixão e que nem sempre medem com cuidado o uso e o significado de suas palavras, principalmente quando atacam pessoalmente supostos adversários políticos. Com muito boa vontade, talvez a sua entrevista pudesse ser lida, como sugeriu uma grande admiradora sua, como uma simples metáfora, destituída de maior significado, própria do calor da hora. Infelizmente, como fui acusado diretamente, não foi assim que a interpretei.
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A entrevista ocupou duas páginas inteiras do jornal. É uma entrevista importante e merece ser lida por petistas e não-petistas, pelo que revela sobre você e suas idéias. O jornal a apresentou como a primeira grande entrevista em que você assumiu, publicamente, a sua quarta candidatura à Presidência...... em meados de novembro de 2001, antes de se encerrar o prazo-limite legal de 90 dias após a publicação da acusação, ajuizei contra você uma interpelação judicial, na 16ª Vara Federal do Distrito Federal, sem fazer divulgação dessa iniciativa. Na interpelação, reproduzi as suas próprias palavras, extraídas da entrevista, e pedi que, em juízo, você as confirmasse, desmentisse, desse as explicações que lhe parecessem necessárias, ou apresentasse as provas que justificassem as suas declarações a meu respeito.
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A carta precatória enviada em dezembro pelo juiz de Brasília à 2ª Vara Federal de São Bernardo do Campo (SP) foi devolvida com a sua resposta apenas no fim de fevereiro, pois somente na oitava tentativa o oficial de Justiça conseguiu citá-lo, e assim mesmo depois de o juiz determinar que o fizesse com dia e hora marcados...
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Lamento, mas a curta resposta à interpelação judicial, assinada por você e por um advogado pelo qual tenho grande respeito, Márcio Thomaz Bastos, é absolutamente insatisfatória para mim, e me leva não só a tornar pública agora a minha indignação, como a considerar a possibilidade de medidas judiciais cabíveis. A sua resposta apenas defende algo que eu jamais imaginaria questionar: o direito à crítica como inerente ao debate público. Para mim, é absolutamente trivial a observação de que homens públicos estão sujeitos, gostem ou não, a intenso escrutínio e dele não podem reclamar. É dispensável, portanto, para quem é ministro da Fazenda há sete anos e três meses, período de plena vigência das liberdades democráticas, a lembrança de que a crítica é direito assegurado a qualquer cidadão brasileiro, e também a referência óbvia de que o debate franco e aberto sobre qualquer tema é condição essencial para o desenvolvimento do processo democrático.
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Vamos ser claros, Lula. O que você fez não foi uma crítica política. Apesar de na última linha de sua resposta à minha interpelação afirmar que 'em nenhum momento pretendeu atacar a honra do interpelante', o fato é que você o fez. Você me acusou de um crime. Porque guardar dinheiro público para si, e o liberar pessoalmente para 'obras de amigos', é crime, Lula. É crime grave. O acusador tem que ter provas, evidências, e você não as tem, não as tinha e nunca as terá, porque nunca fiz, não faço e nunca farei tal coisa. E você sabe ou deveria saber disto.
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Não tenho absolutamente nada contra críticas. Ao contrário. Eu próprio as faço e farei, inclusive quanto ao que considero insustentáveis ambigüidades de seu discurso e de seu partido. Sou servidor público há mais de 35 anos. Nos últimos 15 anos ocupando posições de responsabilidade: representante do governo brasileiro nas diretorias executivas do Banco Mundial (Bird) e do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), negociador-chefe da dívida externa brasileira, presidente do Banco Central e ministro da Fazenda... E sempre, volto a repetir, sem qualquer projeto político pessoal. Nunca, em momento algum ao longo de minha carreira, qualquer pessoa acusou-me de crime ou fez qualquer ofensa à minha honra. Você foi o primeiro - e único. E gostaria que fosse o último a me acusar de crime grave - sem qualquer evidência.
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Posso estar equivocado, mas acredito que a opinião pública está se cansando desse cipoal de baixarias, agressões pessoais e acusações sem provas. Creio que a população espera - e merece - um debate público sobre idéias, projetos e programas viáveis, que possam consolidar os ganhos já alcançados pelo País e avançar mais no sentido de melhorar as condições de vida da população brasileira. É com esse espírito que sempre trabalhei, aceitando quaisquer críticas como normais. .
É com esse espírito que sempre procurei participar do debate público...'
Peço perdão ao leitor que até aqui chegou pela longa reprodução de texto antigo (O Globo, 14/4/2002). Mas tive o privilégio de servir a um governo honrado, com muitos colegas de integridade e caráter, em nome dos quais creio que me expresso. E para os quais, definitivamente, não era 'a mesma coisa' de agora, como pretendem alguns.
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Peço perdão ao leitor que até aqui chegou pela longa reprodução de texto antigo (O Globo, 14/4/2002). Mas tive o privilégio de servir a um governo honrado, com muitos colegas de integridade e caráter, em nome dos quais creio que me expresso. E para os quais, definitivamente, não era 'a mesma coisa' de agora, como pretendem alguns.
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Pé na estrada
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Por João Ubaldo Ribeiro
Publicado em O Globo
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O segundo turno está aí, não adianta, que o assunto é eleição. Planejava reportar-me a um certo papo sociológico muito esclarecedor, sobre a famosa mulher-de-hoje-em-dia, vista pelos olhos dos coroas que ouço em um boteco ou outro do Leblon. Mas há que adiar-se o palpitante tema, em função do sério momento nacional em que se elegerá o próximo presidente da República. O atual pensava que esta semana estaria comemorando sua reeleição e até deu-se ao luxo ('deu-se ao luxo' é somente uma expressão consagrada que, neste caso, certamente será entendida ao contrário por grande número de leitores) de fazer gracinhas como beijar as mãos do deputado Jader Barbalho (aliás, segundo ouço, o deputado mais votado da história do Pará - parabéns, Pará!) negar-se ao debate ou duvidar um só instante de que estaria consagrado no primeiro turno.
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Pé na estrada
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Por João Ubaldo Ribeiro
Publicado em O Globo
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O segundo turno está aí, não adianta, que o assunto é eleição. Planejava reportar-me a um certo papo sociológico muito esclarecedor, sobre a famosa mulher-de-hoje-em-dia, vista pelos olhos dos coroas que ouço em um boteco ou outro do Leblon. Mas há que adiar-se o palpitante tema, em função do sério momento nacional em que se elegerá o próximo presidente da República. O atual pensava que esta semana estaria comemorando sua reeleição e até deu-se ao luxo ('deu-se ao luxo' é somente uma expressão consagrada que, neste caso, certamente será entendida ao contrário por grande número de leitores) de fazer gracinhas como beijar as mãos do deputado Jader Barbalho (aliás, segundo ouço, o deputado mais votado da história do Pará - parabéns, Pará!) negar-se ao debate ou duvidar um só instante de que estaria consagrado no primeiro turno.
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Fui votar, como muitos outros que vi ou com quem conversei, com uma espécie de melancolia. Espécie não, melancolia mesmo. O dia que fazia aqui contribuía, uma chuvinha miúda e fria que parecia infiltrar-se nos ossos, o sol escondido, os galhos das árvores pendentes e tristonhos, nem um passarinho piando, as calçadas úmidas e escorregadias, as ruas penumbrosas e mudas, as pessoas encolhidas e enroladas em abrigos. Cheguei lá, mostrei meu título, fui para trás da 'cabine', peguei minha listinha e, com a sensação que tinha na infância quando me julgava vítima de injustiça, apertei os botões, vi as caras, confirmei, acabei. Seja o que Deus quiser, pensei, como também imagino que outros pensaram.
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Infeliz estava, infeliz fiquei, se bem que ainda agradecendo à Providência podermos votar. Bem ao contrário do que se parece acreditar, votar não é sinônimo de democracia, até porque não acredito que a nossa seja das mais autênticas e, pelo contrário, me parece bastante safadinha e sonsa. Mas é alguma coisa. E nosso Congresso, nesta legislatura que agora se finda sem deixar saudade alguma, foi definido por muitos, inclusive parlamentares também, como o mais abominável de nossa História, mas continua verdade inescapável que ruim com ele, pior sem ele.
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Claro, já é tão viciado que talvez nunca venha a ser o que deveria ser, mas podemos ter sempre a esperança de que no futuro, atravesse alguns acessos de vergonha e conserte um pouco seus incontáveis defeitos de funcionamento.
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Mas estava infeliz da mesma forma que o ambiente não parecia feliz. Que tinha feito eu? Tinha votado, claro, tinha dado meu sagrado (e último até a próxima eleição, porque, como sabemos, doravante não seremos nem ouvidos nem cheirados, não só para o que decidirem em nosso nome como para o que roubarem nosso e assim por diante) palpite sobre nosso destino coletivo nos próximos anos. Mas era o palpite que eu queria dar?
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Não, não era, faltavam escolhas. E, em rigor, o eleitor não pode queixar-se simplesmente porque faltam escolhas. É bem comum que o candidato escolhido não seja o nosso ideal, mas o que esteja menos distante dele e isso é natural, não se faz uma eleição ao gosto de cada um. Só que, desta feita, achei que faltavam escolhas não só para mim mas para muita gente, talvez, quem sabe, a maioria. Poucas pessoas, muito poucas mesmo - na verdade, não me lembro de nenhuma agora - tinham o ar satisfeito de quem acabou de fazer o que tinha vontade, o que lhe contentava. A maior parte entrava e saía como quem cumpria uma rápida tarefa levemente incomodativa, que foi como eu acho que muitos de nós viram as eleições até agora.
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Até porque sabemos mais ou menos o que vai acontecer daqui a pouco. O sistema de dois turnos (prometo que não vou tentar dar aula de ciência política, era só o que faltava para completar o seu domingo) foi em grande parte criado com a consciência de que promoveria uma aproximação de quase todos os partidos em torno do centro, ou o que lá seja isso hoje em dia. Em outras palavras, os concorrentes mais fortes ao poder procuram não radicalizar em demasia, porque, no segundo turno, podem precisar de eleitores que, se eles tivessem posições muito extremadas, jamais votariam neles. O que quer dizer que, em muitos mais casos do que a gente lembra, os candidatos têm propostas parecidas, embora freqüentemente fantasiadas até de seu oposto.
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O jogo já começou, aliás. De repente, o PT não expulsou mais a senadora Heloísa Helena ou, se expulsou, está arrependido e era de brincadeirinha, ela não gostaria de uns dois ministérios no futuro Gabinete? Por outro lado, é bem fato, ou pelo menos li nos jornais, que o presidente demitiu o doutor Cristovam Buarque por telefone, método considerado não dos mais deferentes porque até um chefe dos boys, se tinha que demitir um, chamava o infeliz para uma conversinha particular, embora, pensando bem, com ministro de Lula possa ser diferente. De qualquer forma, ele agora sempre amou o dr. Cristovam com a mais pura das afeições fraternais e o que pretende o diletíssimo Cristovam fazer com seus preciosos votinhos?.E por aí irá, como já sabemos. O dr. Geraldo, por exemplo, não vai poder ver um nordestino sem lançar-se em seus braços entoando Asa Branca, vai prometer puxar quadrilha em Mossoró e pulará em cima de um trio elétrico em Salvador, no próximo carnaval. É isso mesmo, sabemos todos, faz parte. E as semelhanças às vezes se denunciam nos detalhes. Por exemplo, ambos, depois de anunciado o segundo turno, falaram em 'pôr o pé na estrada'. Saúdo-os pela nota otimista, já que, como todo mundo sabe, quase não tem estrada nenhuma, só tem buraco e assaltante. E, valha-nos Deus, espero que não se trate de um aviso para a gente se mandar enquanto é tempo.
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UM DOSSIÊ SÓ NÃO FAZ VERÃO
Por Dora Kramer
Publicado em O Estado de São Paulo
Por Dora Kramer
Publicado em O Estado de São Paulo
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O presidente Luiz Inácio da Silva analisou com clareza os fatos quando, em entrevista a emissoras de rádio do Nordeste, atribuiu o malogro do projeto de vitória em primeiro turno a uma série de fatores, e não apenas aos efeitos da tentativa do PT de desmoralizar o adversário por meio da montagem de um dossiê - ou vários, como vai sendo revelado por indicação da existência de outras ações semelhantes em Minas Gerais e na Bahia.
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O presidente Luiz Inácio da Silva analisou com clareza os fatos quando, em entrevista a emissoras de rádio do Nordeste, atribuiu o malogro do projeto de vitória em primeiro turno a uma série de fatores, e não apenas aos efeitos da tentativa do PT de desmoralizar o adversário por meio da montagem de um dossiê - ou vários, como vai sendo revelado por indicação da existência de outras ações semelhantes em Minas Gerais e na Bahia.
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Lula citou alguns - o 'salto alto' decorrente da certeza da vitória de véspera, o 'jogo da oposição', a ausência no debate da TV Globo -, mas ignorou o mais importante: o conjunto da obra.
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No quadro geral, o dossiê foi apenas uma obra mal feita e inacabada que funcionou como o resumo de uma ópera que parecia, mas não estava esquecida na cabeça do eleitorado.
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No quadro geral, o dossiê foi apenas uma obra mal feita e inacabada que funcionou como o resumo de uma ópera que parecia, mas não estava esquecida na cabeça do eleitorado.
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Atribuir só ao dossiê Vedoin o descompasso entre as pesquisas e o resultado das urnas é acreditar piamente no mito da blindagem sem causa e na hipótese absurda de que o eleitorado julgaria quatro anos de governo por um episódio único, isolado e oficialmente provocado por uma campanha estadual.
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O presidente candidato à reeleição percebe que não foi e quase toca no ponto quando conjectura: 'Um diz que foi o debate, outro que foi a quantidade de inverdades ditas. Acho que tem a ver com muito otimismo da minha tropa, tem a ver com as denúncias do dossiê, tem a ver com o trabalho dos adversários.
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O presidente candidato à reeleição percebe que não foi e quase toca no ponto quando conjectura: 'Um diz que foi o debate, outro que foi a quantidade de inverdades ditas. Acho que tem a ver com muito otimismo da minha tropa, tem a ver com as denúncias do dossiê, tem a ver com o trabalho dos adversários.
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'Tem a ver', sobretudo, com as 'inverdades ditas' nas diversas crises e escândalos, desde o primeiro, em fevereiro de 2004, quando o governo e o PT quiserem convencer o País de que o fato de o principal assessor parlamentar do ministro-chefe da Casa Civil pedir propina e negociar financiamentos de campanhas com um bicheiro era um caso isolado. Tão normal que não havia razão para negar ao autor do flagrante delito o privilégio da demissão 'a pedido'.
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Daí em diante, tudo o que apareceu foi tratado na base da 'inverdade' e do propósito de confundir a cabeça do cidadão, levando-o a concluir que o exercício do poder público, no Executivo e no Legislativo, resume-se a uma competição entre corruptos.
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Reconheça-se, houve sucesso parcial. Tanto que o presidente passou pela primeira etapa da eleição como favorito. Só não pôde saborear com mais entusiasmo o feito porque ele próprio e sua 'tropa' trataram de pintar o cenário do segundo turno como adverso, resultado só possível como fruto de 'golpe' da oposição empenhada em interditar a vontade do eleitor.
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Agora o presidente não tem outro jeito a não ser saudar como 'positiva' a realização de uma nova etapa, mas também não tem como escapar do julgamento de que esta seja mais uma 'inverdade'.
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Consolida a desconfiança quando uma hora desqualifica o dossiê, na outra o legitima, pedindo atenção para seu conteúdo, e ao mesmo tempo não desautoriza a propagação da versão segundo a qual tudo não passou de uma armadilha montada pelo PSDB para pegar os petistas.
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O jogo de declarações desencontradas, de histórias mal contadas e justificativas mal-ajambradas acabou voltando-se contra o PT - como demonstra a perda de mais de 2 milhões de votos em relação à eleição parlamentar de 2002 - e fez o eleitorado decidir não entregar o cheque em branco que Lula esperava ter recebido domingo passado.
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Quanto ao debate, é muito capaz de ter pesado mais contra Lula o faz-de-conta do vai-não-vai durante todo o dia do que propriamente sua ausência, de resto amplamente anunciada desde o início da campanha, quando acreditava na vitória do primeiro turno e, portanto, na possibilidade de escapar dos debates, confirmando presença só na etapa final.
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Face à frustração provocada pelo segundo turno, seria de se esperar uma alteração de procedimentos. Houve, mas outra vez de maneira artificial.
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A humildade estudada do presidente na sua primeira aparição pública depois do resultado foi confrontada com a soberba anterior e ontem produziu outra maquiagem no episódio do afastamento de Ricardo Berzoini da presidência do PT. Tudo combinado para dar a Lula o argumento da 'punição exemplar' no debate de amanhã na TV Bandeirantes.
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Ainda assim, Lula insistiu em fantasiar, defendendo a permanência de Berzoini para simular a independência das decisões tomadas pelo PT - aí incluída a operação dossiê -, engrossando o plantel de 'inverdades ditas'...
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O SUSTO NÃO PASSOU
Editorial em O Estado de São Paulo
Os percalços da candidatura Alckmin na primeira semana da campanha do segundo turno - o constrangedor apoio do casal Garotinho e o conflito entre tucanos e pefelistas na Bahia sobre a conduta a adotar em relação ao futuro governo estadual do petista Jaques Wagner - remeteram a segundo plano no noticiário as expressões de um dado político muito mais importante. Trata-se dos efeitos, nas hostes lulistas, do susto do primeiro turno que não só não passou ainda, como dá mostras de virar pânico. Uma amarga descoberta passou a assombrar o apparat do candidato e ele próprio: a de que os resultados do último domingo puseram em xeque a crença na invencibilidade de Lula, que era a sua maior força.
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De outro modo não se explicariam nem o terrorismo eleitoral desencadeado, sem um pingo de pudor, pelo esquema petista de poder, nem a sofreguidão de Lula e do seu xingador oficial, Ciro Gomes, o oligarca de Sobral, entre outros, para neutralizar a força estadual do governador tucano Aécio Neves, nem tampouco o açodamento para tirar do caminho das urnas, por quaisquer meios, o escândalo do dossiê, que impediu Lula de 'matar' a eleição de uma tacada só. Por isso, ele está exigindo agora a cabeça de Berzoini para poder exibi-la numa bandeja - qual nova Salomé - como prova de seu amor pela ética, no debate com Alckmin, no domingo. Além disso, o presidente, no Rio, e a nova chefe de sua tropa de choque, em São Paulo, a ex-prefeita Marta Suplicy, partiram sem recato para a mentira pura e simples para semear entre os eleitores o medo de uma vitória do tucano. A sincronia de suas manifestações deixa evidente a jogada ensaiada.
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Ao sacramentar a adesão do PT à candidatura do peemedebista Sérgio Cabral ao governo fluminense, Lula acusou o adversário de querer demitir servidores e cortar salários. 'É isso que significa cortar despesas com gasto corrente', declarou, numa alusão a uma promessa de Alckmin de reduzir o custo do governo, que as 'bondades eleitorais' de Lula fizeram disparar. De seu lado, Marta passou seu primeiro dia de campanha gritando que Alckmin vai acabar com o Bolsa-Família, se for eleito.
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Ao sacramentar a adesão do PT à candidatura do peemedebista Sérgio Cabral ao governo fluminense, Lula acusou o adversário de querer demitir servidores e cortar salários. 'É isso que significa cortar despesas com gasto corrente', declarou, numa alusão a uma promessa de Alckmin de reduzir o custo do governo, que as 'bondades eleitorais' de Lula fizeram disparar. De seu lado, Marta passou seu primeiro dia de campanha gritando que Alckmin vai acabar com o Bolsa-Família, se for eleito.
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O pior, de todo modo, não são nem as previsíveis caneladas do petismo.
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No que se refere a seu programa econômico, Lula e os seus dizem uma coisa nos palanques e o contrário em encontros reservados.
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Nestes, também eles falam em cortar gastos, manter a austeridade fiscal e tomar medidas impopulares no segundo mandato. Já em público, negam que, num segundo governo, Lula irá continuar o que o primeiro teve de melhor - a política econômica descontaminada de tentações populistas. De qualquer forma, o presidente e a ex-prefeita exalam paz e amor perto da incontinência verbal do oligarca de Sobral. Temendo que Aécio Neves consiga reduzir a vantagem que Lula teve em Minas, Ciro Gomes foi de um só fôlego sicofanta e grotescamente ridículo.
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Nestes, também eles falam em cortar gastos, manter a austeridade fiscal e tomar medidas impopulares no segundo mandato. Já em público, negam que, num segundo governo, Lula irá continuar o que o primeiro teve de melhor - a política econômica descontaminada de tentações populistas. De qualquer forma, o presidente e a ex-prefeita exalam paz e amor perto da incontinência verbal do oligarca de Sobral. Temendo que Aécio Neves consiga reduzir a vantagem que Lula teve em Minas, Ciro Gomes foi de um só fôlego sicofanta e grotescamente ridículo.
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Sicofanta, ao dizer que 'quem defende Aécio em Minas deve defender Lula'. Ridículo, ao dizer que 'São Paulo quer destruir Minas e o Rio Grande do Sul para reinar' e que 'a tragédia brasileira é a classe dominante de São Paulo'. Mas não pára aí. O ódio hidrofóbico do deputado por São Paulo levou-o a afirmar, ainda, que o PT e o PSDB em São Paulo são 'fruto de uma sociologia que não é brasileira'. Ou seja, São Paulo não é Brasil. Só que Lula não teria tido a trajetória que teve e não teria chegado onde chegou se São Paulo fosse 'da mesma sociologia' do Ceará.
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Desesperadamente necessitado de mais votos dos paulistas, Lula age em duas frentes. Numa, o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, anuncia que só depois do segundo turno se chegará ao resultado das investigações sobre a origem da bolada de R$ 1,7 milhão com que os petistas iam comprar o falso bilhete premiado. Não é de excluir que o medo que ameaça virar pânico nas hostes petistas decorra de conhecerem os seus hierarcas - a começar do próprio Lula - as conclusões impublicáveis da apuração. Por isso, decidiu-se tirar o paulista Ricardo Berzoini do comando do PT, depois de afastado da chefia da campanha reeleitoral. Foram subordinados dele, em parceria com o assessor do senador Aloizio Mercadante, os 'aloprados' do dossiê.
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Por tudo isso, é quase certo que se chegará ao turno final falando de corrupção, sem um debate efetivo sobre políticas de governo.
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Investigação fica longe do Palácio do Planalto
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Publicado no Estadão
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Escolhas feitas pela Polícia Federal para desvendar que pessoas estão por trás do dossiê Vedoin direcionaram até aqui as investigações para longe do Palácio do Planalto. A estratégia de manter o foco no empresário Valdebran Padilha, que já foi interrogado três vezes, tem como subproduto efeitos políticos que beneficiam o governo.
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Escolhas feitas pela Polícia Federal para desvendar que pessoas estão por trás do dossiê Vedoin direcionaram até aqui as investigações para longe do Palácio do Planalto. A estratégia de manter o foco no empresário Valdebran Padilha, que já foi interrogado três vezes, tem como subproduto efeitos políticos que beneficiam o governo.
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Essa linha de investigação acabou por responsabilizar Hamilton Lacerda, ex-assessor do senador Aloizio Mercadante (PT) na campanha ao governo de São Paulo. A PF acredita que foi ele quem entregou a Valdebran e Gedimar Passos parte do R$ 1,1 milhão e dos US$ 248,8 mil destinados a comprar o dossiê. Boa parte dos depoimentos, perícias e trabalho de inteligência da PF serviu a esse propósito. Ex-vereador em São Caetano, Lacerda leva a marca de ser um homem da máquina paulista do PT.
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A PF demorou a apurar as operações de compra de dólares nos dias anteriores à prisão de Gedimar e Valdebran. Agora, já sabe de 20 mil operações em valores picados, em 24 corretoras. Mas não se empenha na identificação de pessoas ligadas aos dois que possam ter feito os saques.
Tentar identificar os sacadores olhando nomes e valores, como tenta fazer a PF, é, para especialistas do mercado financeiro, procurar uma agulha no palheiro. A única opção é cruzar o dados sobre operações com nomes extraídos de investigações estratégicas. Segundo apurou o Estado com fontes do mercado, a PF não procurou nenhuma das corretoras intermediárias na distribuição do lote de US$ 15 milhões que inclui os US$ 248,8 mil.
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Tentar identificar os sacadores olhando nomes e valores, como tenta fazer a PF, é, para especialistas do mercado financeiro, procurar uma agulha no palheiro. A única opção é cruzar o dados sobre operações com nomes extraídos de investigações estratégicas. Segundo apurou o Estado com fontes do mercado, a PF não procurou nenhuma das corretoras intermediárias na distribuição do lote de US$ 15 milhões que inclui os US$ 248,8 mil.
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Também não há notícia de que a PF tenha buscado o depoimento de doleiros e donos das 24 casas de câmbio que venderam os dólares ou tenha levantado os que são alvo de investigações, mais suscetíveis a colaborar. A investida seria importante, no mínimo, para apontar laranjas que sacaram o dinheiro.
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Ao descartar a participação de Freud Godoy, segurança e ex-assessor especial do presidente Lula, a PF indica que prefere focar as investigações mesmo em Lacerda, confinando mais uma vez o escândalo - neste momento, ao PT de São Paulo. A justificativa é de que, pelos dados obtidos com a quebra de sigilos telefônicos, Gedimar, Valdebran e Godoy só trocaram ligações em agosto.Seria ingênuo imaginar que Godoy, um homem especializado no ramo da segurança, usaria o próprio telefone, caso tenha, como afirma Gedimar, participado da operação de compra do dossiê Vedoin. Um caminho seria identificar os homens de confiança de Godoy.
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Por fim, a PF não conseguiu, até o momento, solucionar um dilema nas investigações: quer prender um dos envolvidos (o mais próximo da alça de mira é o ex-assessor de Mercadante) para, numa situação de pressão, obter depoimento revelador. Mas na própria polícia avalia-se que, pelo menos no caso de Lacerda, as chances de um pedido deste tipo vingar na Justiça são pequenas, sem informações concretas sobre a origem do dinheiro.
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O crime (eleitoral) perfeito
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Por Jorge Serrão
Publicado no Alerta Total
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A eleição foi totalmente limpa? Ou houve fraude na eleição? Só Deus sabe. E alguns corruptos, também. Especialistas advertem: a segurança e a fidelidade do resultado da urna eletrônica são tão fiéis quanto a mulher de um marido corno (e vice-versa). O Tribunal Superior Eleitoral jura que o pleito transcorreu no melhor dos mundos possíveis. A falecida velhinha de Taubaté acreditaria nisso, com certeza. Mas quem entende do assunto sentencia: fomos vítimas de um crime eleitoral perfeito.
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O certo é que 104 milhões 819 mil e 213 eleitores brasileiros votaram em 1º de outubro. Só a confiança absoluta no processo eletrônico, em um País governado pelo poder mundial do crime organizado, garante que o voto dado pelo eleitor foi mesmo para o candidato cujo número digitou. A realidade dos fatos não fornece a mesma garantia, e nem permite que alguém tenha confiança absoluta em um processo eleitoral que não permite uma posterior auditoria dos votos dados pelos cidadãos. Temos de confiar na lisura do processo tecnológico e pt saudações (sem trocadilho infame).
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Agora, tal desconfiança ganha ares de revolta. Dezenas de candidatos a deputado, no Estado de São Paulo, começaram a se articular, na semana passada, para ingressar com uma ação no Tribunal Regional Eleitoral, pedindo a anulação da eleição. Eles apontam vários indícios e suspeitas de fraudes. Um candidato até denuncia que recebeu uma tentadora proposta de corrupção para garantir sua eleição na totalização dos votos. A idéia, segundo Paulo Kasseb (do PRP), veio de gente graúda lá no Tribunal Superior Eleitoral. Os candidatos, que prometem se rebelar, advertem que a Polícia Federal já teria até provas de clones da urnas que foram usadas no município de Guarulhos.
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Se o caso não for abafado, será um escândalo de proporções gigantescas, só comparável às fraudes nos tempos da famosa “eleição no bico de pena”, na década de 20 do século passado, que acabou sendo um dos motivadores para a chamada “Revolução de 30” (que não foi revolução, mas mexeu no sistema eleitoral que era uma fraude só). No entanto, como denúncias graves, mesmo com elementos objetivos, não são levadas a sério no Brasil, tudo indica que o caso vai se resumir a mais uma gritaria de candidatos derrotados (com ações judiciais que serão indeferidas, de cara, pela corporativa Justiça Eleitoral). No fim das contas, o grotesco episódio será retratado por uma famosa frase do lendário João Saldanha: “Quem reclama já perdeu!”. E vida que segue...
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Algumas verdades objetivas doem (sobretudo no ouvido dos magistrados), mas precisam ser ditas. A Justiça Eleitoral, com sua estratégia de marketing, pratica um verdadeiro crime de estelionato contra o eleitor, quando sua publicidade veicula a falsa informação de que “a eleição é sinônimo de democracia”. Não é. Isto é mentira. Primeiro, porque o processo eleitoral é parte do processo democrático. Segundo, porque, no Brasil não temos Democracia. A constatação é simples e objetiva. Democracia é a Segurança do Direito. Em nosso País, não temos Segurança do Direito. Ou minha velhinha de Taubaté, mortinha da Silva, acredita no contrário?
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Outra verdade que dói – e muito – é que o processo eleitoral, historicamente, sempre serviu para coonestar o “Poder Real” e o status quo vigente do sistema que manda no mundo e controla o Brasil. Tal poder comanda o chamado “Governo do Crime Organizado”. Doutrinariamente, o governo do crime organizado é a sinistra associação objetiva de criminosos formais de toda a espécie com membros dos poderes estatais, para a prática de ações delituosas. Os bandidos utilizam a corrupção sobre as instituições republicanas como o principal meio para atingir seus fins.
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O crime não se organiza sem a participação do Estado. Por isso, principalmente no Brasil, mas também em outras nações, podemos ironizar que vivemos sob um “Estado Cleptocrático sem Direito”. A palavra grega Cleptocracia, significa, literalmente, "Estado governado por ladrões". O crime organizado utiliza a corrupção, a violência e as sutilezas ideológicas como instrumentos de dominação da sociedade. Na Cleptocracia, não existe Democracia na prática objetiva. Neste regime, impera a injustiça. Institui-se o legítimo “direito de roubar” ou de “usurpar as leis”, que é a negação de qualquer Direito.
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Na conjuntura cleptocrática, o poder Judiciário se transforma, na melhor hipótese, em agente inconsciente da legitimação do crime organizado, em parceria com os poderes Executivo e Legislativo. E tem a classe política, como força motriz no poder, para servir de principal agente consciente do crime organizado. Esta classe é quem se elege. Os marginais da política controlam o processo eleitoral que a Justiça eleitoral tem a vã pretensão de administrar. Eles fazem as leis. Os magistrados apenas se limitam a interpretá-las.
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Aliás, no Brasil, o TSE acaba sendo, ao mesmo tempo, executivo, legislativo e judiciário do próprio processo eleitoral que coonesta o Poder Real. O Tribunal, com super-poderes, faz tudo isso simultaneamente. Por ironia, são seus ministros quem recebem as queixas das leis que não foram cumpridas (às vezes, porque o próprio TSE acho por bem não cumpri-las). Seus ministros super-poderosos têm o poder de receber as denúncias, protelar as decisões, absolver e condenar. Tanto poder, quando fica fora do controle da sociedade, acaba transformando o processo, literalmente, em uma “Zona Eleitoral”.
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Outro pecado cometido pelo TSE é vender aos eleitores a verdade subjetiva de que o voto eletrônico é seguro. Sem auditoria posterior, não é. A urna eletrônica não garante a lisura do pleito. No máximo, assegura a rapidez da apuração. Outra ilusão é o voto secreto no processo eletrônico. Especialistas – como o engenheiro Amilcar Brunazo Filho e Walter Del Picchia – denunciam que o nosso voto pode ser identificado, no atual sistema de votação. Pior ainda, através de uma programação de computador, o voto pode ser desviado.
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Eis o crime perfeito. Não deixa prova. Nem Sherlock Holmes ou o trapalhão detive Adrian Monky desvendariam o mistério do voto desviado e da eleição fraudada da maneira mais “honesta” possível. O sistema eleitoral, no país governado pelo crime organizado, precisa promover uma prestidigitação (eletrônica e bem moderna, de preferência) para convencer à platéia de eleitores de que o voto é seguro e de que o detentor de um título eleitoral é o “patrão” dos políticos (conforme sugeriu a curiosa propaganda oficial deste ano, que merecia um Grammy de Melhor Filme Humorístico). Seria o prêmio merecido para quem gasta rios de dinheiro público (reembolsando emissoras de rádio e televisão pelo espaço publicitário do Horário Eleitoral NADA Gratuito), apenas para convocar o eleitor a jogar seus votos no verdadeiro cassino eleitoral do Al Capone (pois elege bandidos e mafiosos).
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Querem mais um pecado capital do nosso processo eleitoral? Especialistas em Direito Eleitoral asseguram que nosso Código Eleitoral, de décadas atrás, está totalmente defasado para lidar com eleições em urnas eletrônicas. Além disso, especialistas também reclamam que os juízes eleitorais, que cuidam dos pleitos nos Estados, não estão tecnicamente preparados para a função, pois, dificilmente, um magistrado é especialista em Direito Eleitoral. O juiz estadual recebe uma gratificação de 1/3 do salário de um Juiz Federal para cuidar da Zona Eleitoral.
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Antes que o leitor-eleitor fique de saco cheio, precisamos partir para soluções. O problema já existe e não vai mudar, se tudo for mantido como está. Algumas providências são urgentes, para que não se fique chorando sobre o leite derramado após cada eleição. A primeira é modificar, radicalmente, nosso modelo eleitoral. Precisamos pensar no voto distrital, no distrital-misto ou no distrital de média magnitude, para que o poder local seja valorizado e possa ser fiscalizado, mais de perto, pelo cidadão-eleitor-contribuinte. A segunda ação urgente é aprimorar a votação eletrônica, incluindo o voto impresso (para posterior auditoria do pleito, com a fiscalização dos cidadãos). A terceira seria profissionalizar a Justiça Eleitoral, com magistrados realmente especializados no assunto.
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Apesar das boas idéias e intenções – que lotam o inferno -, não podemos nos iludir. De nada adianta aprimorar os mecanismos institucionais do voto, se o governo do crime organizado continuar operando no Brasil e se aqui não construirmos e consolidarmos uma Democracia (baseada na Segurança do Direito), com soberania e auto-determinação nacionais. Sem estes pressupostos básicos, teremos apenas “reformas eleitorais” e “reformas políticas” tão mal feitas (e feitas pelo mal) que vão fingir que mudam tudo, para que tudo fique do mesmo jeito que está.
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O remédio é amargo, mas resolve (como as velhas “Gotas Amargas”, boas para o fígado, porque haja fígado para agüentar o governo do crime). Ou adotamos a solução de romper com o modelo atual, ou ficaremos, como torcedores de futebol, fanáticos e idiotizados, vibrando com a secundária disputa entre políticos que são meros representantes de interesses dos controladores reais da economia mundial. Eles sempre ganham da gente de goleada. Mas, um dia, a parte organizada e consciente da “torcida” se rebela contra eles e promove a mudança verdadeira. O jogo não acabou. Tem muita bola para rolar. Vida que segue...