quinta-feira, fevereiro 01, 2007

Para os não petistas que votaram no Chinaglia

Vocês escolheram o rumo e andaram pelo caminho que leva a derrocada do Legislativo brasileiro. Você deram ao país a condição de permanecer medíocre, e o que é pior, de vocês todos serem devidamente embalsamados como o cancro que corrói a nação nos seus anseios de democracia plena e liberdades e direitos conquistados após 21 anos de lutas, de dor, de repressão. Talvez vossa ganância por cargos e o lusco-fusco das câmeras de tevê, tenham nublado vossa percepção. Podendo ser dignos, optaram por se transformarem em canalhas amestrados.

Vocês estão condenando os próximos anos da vida política brasileira à imoralidade plena, autoritarismo caquético e ao mais pérfido sistema político de governo. O sistema canalha de ser saberá mostrar a cada um, o alto preço que cada um deverá pagar pelo baixo nível a que cada um se entregou e se submeteu sem resistência, apenas lambuzados da lama podre em que se mergulha vossa dignidade.

Saibam, pois, que o tempo saberá cobrar-lhes a traição cometida. E que o fogo ardente dos mil infernos que rodeiam as vossas patéticas figuras, os embale na sua estupidez e desvario. Nossa democracia acha-se ferida de morte pela cupidez de indignos cretinos chamados de representantes não do povo, mas da besta fera moral revestida em consciência mal-sã.

Vossa saúde mental, entorpecida pelas promessas indecorosas, cujo apelo indecente deveriam ter sido repelidas se acaso em vós morada fizesse a honra e o bom caráter que alimenta a missão de servir, acabará em desarranjo ignóbil e mordaz, por não resistir à cretinice idiotizada.

Pobre Nação a depender de boçais hipócritas travestidos em lídimos vorazes da boa fé. Seu apego à indecência superou de muito a legitimidade do mandato para o qual foram eleitos. Ao invés de servir, serviram-se, e depois de servidos, se deram à farra gananciosa da autocracia que habita o poder desde janeiro de 2003. Lá, exatamente lá onde a mentira fez morada, onde a corrupção tornou-se vício, num habitueé que nos transforma em pátria da indecência, da degradação moral e do costume decadente e voraz de desviar o produto retirado à fórceps daqueles que trabalham e amam a sua pátria. Sanguessugas ? Vampiros ? Gigolôs ? Mensaleiros vendedores de consciências ? Ou a fauna completa de mandarins abjetos, entronados na promiscuidade deslavada e desmedida a vilipendiar as energias e a riqueza do país, amealhando-os em contas individuais, fazendo figuração em paradisíacas ilhas, onde a fantasia se conspurca na bestialidade da alma canalha !

Vossa imundície moral feriu de morte esta democracia ainda criança, que tentativa engatinhar em passadas mais firmes e mais largas na longa avenida em que o aventureiro é largado para trás, a assistir, compungido, o andar alegre daqueles construtores dos ideais de progresso e liberdade. Nesta avenida, mudaram-se as direções opostas, seguindo-se agora em mão única em direção ao nada perdido num horizonte denegrido pelo caudilho que, com sua flauta mágica, entoa o hino do atraso num balé dantesco que arrasta a todos à submissão sem fronteiras, com total servilismo, diante da figura diabólica que sorri para os tolos a prestar-lhe tão cândida reverência. Entre o rabo e os chifres, balança a pança sedenta de alimentar-se de poder, com incrível volúpia, e desmesurado apetite insaciável.

Para os que souberam resistir e não se entregaram tão dóceis e frágeis criaturas de aluguel, resta o consolo de que no mundo nunca a estupidez conseguiu vencer a honra. Nunca o canalha logrou viver revestido pela máscara com que esconde sua verdadeira face macabra. Se a cada manhã um novo dia recomeça, a cada punhalada traiçoeira dos mentores da desfaçatez, há de fulgir vigorosa a esperança de que a opressão não convence em tempo integral: apenas sufoca, por algum tempo, o grito da indignação, esperando o melhor momento do agora-basta-e-acabou. Aos dementes incrédulos de que no mundo haja lugar para integridade moral, leiam a história humana, seus canalhas, e aprendam as lições fartas que ela vos oferece. Nenhum déspota se fez ilustre. A todos foi reservado o mausoléu dos imbecis, da corja imunda varrida para os esgotos onde cada qual foi parido, onde cada qual feneceu.

Portanto, aproveitem e gozem com puro deleite o momento consagrado ao jeito canalha de ser. Tais momentos serão breves e amorfos. Mas bastante intensos para amortalhar vossa cupidez decadente e degradante. Com a mesma medida com que traem a pátria, por ela serão varridos e engolfados com o desprezo que vossas pestilentas e repugnantes figuras merecem receber. Façam, pois, bom proveito de vossa desonra.

Muito barulho para nada

por Maria Lucia Victor Barbosa, socióloga
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Não sei se o presidente Luiz Inácio acredita realmente no que diz em seus momentos de suprema empolgação – consigo mesmo – ou se apenas segue o treinamento de seus marqueteiros. O fato é que Sua Excelência alterna encenações onde se compara a Jesus Cristo, Tiradentes, Getúlio Vargas, JK e, às vezes, pretende ser maior que todos eles. Em certos momentos regride à Terra e apresenta ao respeitável público a tocante imagem do pobre operário, do retirante que continua imerso na mais desgrenhada miséria, e que chegou à presidência da República com a missão de salvar seus iguais. Os ricos que o digam.Seja lá como for, a enorme platéia do circo Brasil demonstra complacência infinita para com as bravatas e despautérios do ilustre mandatário. E isso basta para que o PT, através de seu correligionário mais emblemático, se mantenha no poder. Até quando não se sabe.
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Os escândalos de corrupção acontecidos no primeiro mandato, e que derrubaram os homens mais próximos e importantes do presidente; as “piadas de salão” de Delúbio Soares e demais companheiros; os aloprados, as promessas não cumpridas; os programas sociais fracassados; os impostos exorbitantes; o crescimento econômico pífio, nada vezes nada tolda a confiança no salvador da pátria, o qual foi reconduzido ao cargo com expressiva votação.
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Embasbacada, a maior parte da população se identifica com aquele linguajar retumbante, com as metáforas futebolísticas, com as piadas e gracejos do senhor presidente. E o deslumbramento (talvez o mesmo que envolve os participantes do BBB) não pertence apenas aos mais pobres, mas a parcela significativa da classe média louca por quimeras esquerdistas, e aos ricos, felizes com os lucros auferidos através do capitalismo marxista do governo do PT.Entretanto, se o presidente faz sucesso internamente, o mesmo não acontece no plano externo. Foi o que se viu 32ª Reunião de Cúpula do Mercosul, havida nos dias 18 e 19 deste, no Rio de Janeiro.
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Na Reunião, Hugo Chávez, que com sua Lei Habilitante assumiu de vez a posição de ditador vitalício da Venezuela, mais uma vez foi a estrela do Encontro. Insultou como sempre os Estados Unidos, chamou a oposição venezuelana de lixo, discursou longamente apesar do presidente brasileiro ter pedido que todos falassem como ele, durante apenas treze minutos. Não contente, e do alto do seu nebuloso socialismo caudilhista do século 21, Chávez se arvorou em descontaminador da doença neoliberal no Mercosul, criticou o governo Brasil na pessoa de Marco Aurélio Garcia, debochou do companheiro Lula. Depois, se uniu ao seu seguidor boliviano, Evo Morales, para agredir o presidente colombiano, Álvaro Uribe. Evo Morales, na esteira do seu comandante da boina vermelha, também atacou o Brasil.
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Naquela inútil Reunião nada foi resolvido. Por exemplo, não se discutiu a “guerra da celulose” entre Uruguai e Argentina ou a recente queixa da Argentina contra o Brasil na Organização Mundial de Comércio. Uruguai e Paraguai saíram insatisfeitos e o bate-boca foi geral. Muito barulho para nada.
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Mas barulheira mesmo aconteceu por conta do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). O presidente havia afirmado que jamais seu governo faria um plano, mas está apresentando o Plano B com pompas e honras. Como Luiz Inácio passou quatro anos prometendo o “espetáculo do crescimento”, o que não aconteceu, é de se esperar que mais esse amontoado de intenções não passe de muito barulho para nada. No mais é torcer para que a economia não desande de vez sob a batuta da guerrilheira Dilma e do revolucionário Mantega. É preciso lembrar que o PAC está sendo criticado por governadores, empresários e centrais sindicais.
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Depois das turbulências sul-americanas, Sua Excelência partiu em busca de outro mundo possível, não no Fórum Social, em Nairóbi, África, mas em Davos, Suíça. Foi vender o PAC aos detestáveis capitalistas, manipuladores do vil dinheiro, esse excremento do diabo. Todavia, como na Reunião do Mercosul, o presidente brasileiro não fez sucesso. Além disso, impressionou mal seus poucos ouvintes quando defendeu Hugo Chávez dizendo que este “foi eleito três vezes consecutivas de forma mais democrática possível”. Quanto a Evo Morales, Luiz Inácio repetiu que “o gás é dele, é a única riqueza dele, tem que nacionalizar”. Vem aumento do gás por aí.
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Com outra mentalidade, o presidente do México, Felipe Calderón, disse ver na América Latina retrocesso na política com a volta de “ditaduras pessoais vitalícias”, e na economia com “expropriações e nacionalizações, que só empobrecem ainda mais os pobres”. Pelo menos ainda existem alguns líderes lúcidos nestes tristes trópicos. Coisa que anda a nos faltar. Aqui é muito barulho para nada.

A importância das aparências

Editorial do Estado de S. Paulo
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O presidente Lula parece ter um excelente conhecimento intuitivo da importância das aparências. Ele dá a impressão de saber, sem que ninguém o tenha ensinado, que o elixir da longevidade de seu prestígio popular se compõe de 1 parte de conteúdo efetivo das suas iniciativas como governante e de 9 partes do alarde com que são anunciadas e reiteradas, de modo a dominar pelo máximo de tempo possível o noticiário da mídia. A convergência do êxito do Bolsa-Família com a incessante publicidade que o entronizou na percepção ou no imaginário popular, sendo o próprio Lula o seu propagandista por excelência, é o caso típico da exceção que confirma a regra.
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A regra é a do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), como já foi a do Primeiro Emprego e a do “espetáculo do crescimento”. Em cada situação, o que conta é o espetáculo construído em torno do programa, que se torna um sucesso de público por ser conduzido, dia sim, o outro também, pelo presidente. A barragem de críticas também cotidianas ao PAC, fulminado na imprensa pela esmagadora maioria dos economistas e comentaristas econômicos do País, alcança apenas uma fração do grande público, a dos leitores de jornal - e mesmo entre eles, compreensivelmente, poucos têm apetite por um tema embebido em questões técnicas como esse.
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Se a economia, por exemplo, não tiver crescido 4,5% quando o ano terminar - o que ninguém espera seriamente, a ponto de o próprio Banco Central trabalhar com a previsão de 3,8% -, o PAC começará a fazer água, porque todas as suas projeções para a evolução das contas públicas se fundamentam nessa crendice (e na de um PIB de 5% a partir de 2008). Mas, então, não faltará talento ao presidente da República para seguir o conselho de Churchill: a arte de prever consiste em saber explicar por que as previsões falharam. Como pior do que está não vai ficar - e curta é a memória das pessoas -, ampla será a margem para mais lero-lero, uma operação em que a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, e o seu colega da Fazenda, Guido Mantega, têm tido papel preponderante.
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E o oba-oba continua: das alturas dos Alpes suíços, Lula decreta que “ou vai ou racha”, o que há de ser bastante bom para persuadir muitos brasileiros das virtudes do PAC, ainda mais quando, um depois do outro, os dois ministros garantem em entrevistas que a aceleração do crescimento é líquida e certa porque se nutrirá de dinheiro público “direto na veia” da economia - o que só é verdade no que diz respeito aos US$ 87 bilhões do programa de investimentos da Petrobrás que o PAC “perfilhou”. O resto ou definitivamente não existe ou é duvidoso que venha a existir. O lance publicitário seguinte já está definido, com a inestimável vantagem de permitir a Lula que faça o que mais gosta: viajar e discursar. Já a partir de amanhã, percorrerá o País como uma espécie de inspetor-geral das obras do programa - mesmo que não sejam dele - e de aplicador das injeções mencionadas por Dilma e Mantega, com uma fala em cada escala, para fixar na população a sua nova imagem de “presidente do PAC”.Pega? Pega. Porque a grande esperteza, o grande trunfo do programa é “a vitória da crença na competência do governo em distribuir benesses seletivas, na possibilidade de evitar reformas conseqüentes e continuar remendando a colcha de retalhos que caracteriza a legislação tributária brasileira”, como observou - pegando no nervo desse arremedo de projeto econômico - o professor Marcelo de Paiva Abreu, da PUC-Rio, no artigo publicado ontem neste jornal, sob o apropriado título Nivelando por baixo. Na montagem do espetáculo de ilusionismo, “o jogo de cena não foi acompanhado de esforço mais sério de reflexão sobre como tirar a economia do marasmo em que está mergulhada por mais de um quarto de século”, aponta Abreu.
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Decerto seria esperar muito desse governo que não sabe - ou se sabe, não quer - dar o passo seguinte ao paloccismo do primeiro mandato, indo finalmente às raízes da fragilidade das contas públicas. Nesses quatro anos, o governo só conseguiu compatibilizar o rigor fiscal com a violenta expansão das suas despesas correntes à custa do contribuinte, colocando nas nuvens a carga tributária do País. Agora, aposta no voluntarismo (“ou vai ou racha”, “o Brasil não tem como não crescer”) para tentar neutralizar a deterioração fiscal extra embutida no PAC - que promete, isso sim, alívio tributário algum.

Triste Brasil

por Ives Gandra, no Jornal do Brasil
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Antonio Delfim Netto, em seu artigo Triste verdade, publicado na Folha de S.Paulo, no último dia 10, mostra como três documentos anuais sobre a evolução da economia do mundo fornecem melancólica avaliação sobre a estagnação econômica brasileira.
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O World Economic Forum, entre 125 países, coloca o Brasil em 66º lugar, tendo em conta a taxa de crescimento; o IMD World Competitiviness Year Book, entre 52 países, coloca o Brasil na 43ª posição; e o Doing Business of the Year reserva-nos a 121ª posição, entre 125 países.
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Para um país em que executivos como o presidente da General Motors e autoridades como Rodrigo Rato, diretor-geral do FMI, não sabem dizer por que não cresce, a "performance" obtida pelo governo Lula é melancólica, visto que demonstra que seu governo pouco fez em prol do desenvolvimento. O que realmente cresceu, no Brasil, foi:
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1) a carga tributária - a mais indecente dos países emergentes;
2) os quadros do funcionalismo público, conformando uma máquina administrativa esclerosada, na qual ingressam muitos servidores sem concurso;
3) contratos superfaturados, como tem constantemente alertado o TCU, o que, talvez, esteja na base dos escândalos apurados em 2005 e 2006, hoje objeto de denúncia oferecida pelo procurador-geral da República e que fala em "quadrilheiros, parlamentares e amigos do rei", como noticiaram os jornais.
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Por outro lado, a convivência fraterna dos dirigentes do país com estes aprendizes de ditadores, que são Morales e Chávez - chefes do Executivo de dois países que, juntos, têm população inferior à do Estado de São Paulo - dificulta maior atração de capitais para investimentos no Brasil. É de se lembrar que, enquanto o fluxo de tais investimentos cresceu, no mundo (segundo a ONU) em 34,3%, caiu, na América Latina, em 4,5%, no ano de 2006. Mesmo no Brasil - que, por suas potencialidades, poderia tê-los recebido nos mesmos níveis que China, Índia e Rússia - cresceu apenas, 5,6%, abaixo, portanto, da média. Por esta razão, no volume global do IED (investimento estrangeiro direto), o Brasil teve reduzida sua participação, que caiu de 1,6% para 1,3%. É de se lembrar que, em 2004, nossa participação era de 2,6%, tendo em um único ano perdido 1% da participação global, ou seja, quase 40%, de um ano para o outro. E continuará caindo.
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Enquanto no Brasil o IED cresceu apenas 5,6%, contra a média global de 34,5%, o Chile aumentou 48,4%, a Rússia 94,6% e a Índia 44,9%, em clara demonstração de que estamos seguindo o caminho do retrocesso, impondo, o atual governo, uma violenta marcha-à-ré na economia.
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É bem verdade que está agora anunciando metas de desenvolvimento. Fala em 5% de crescimento e que pretende "flexibilizar" o orçamento - com nítido risco de perder o controle da inflação.
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Ocorre, todavia, que seus primeiros gestos - aumento do salário mínimo e da Bolsa Família, à custa de aumento da carga tributária e possível cerceamento do crescimento econômico privado - sinalizam que os caminhos que conduzem ao verdadeiro desenvolvimento continuarão distantes e os medíocres índices ostentados nos primeiros quatro anos poderão ainda ser piores, nos próximos quatro anos, à falta de uma política real de contenção das despesas da máquina administrativa esclerosada.
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Em outras palavras, o que emperra o Brasil é a máquina pública esclerosada. A carga burocrática é a principal responsável pelo seu fraco desempenho no cenário mundial. E, nesse setor, infelizmente, o presidente não pensa em tocar, até porque, dos 22 mil cargos públicos que tem à disposição para negociar, grande parte sai da entumecida administração pública federal.
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Pobre Brasil!

RCTV: um crime continuado contra o direito à informação

Por Pedro Porfírio, na Tribuna da Imprensa

"A TV domina o espaço público (ou a esfera pública) de tal forma que, sem ela, ou sem a representação que ela propõe do país, torna-se quase impraticável a comunicação - e quase impossível o entendimento nacional. (...) O espaço público começa e termina nos limites postos pela televisão". (Professora Rita Marisa Ribes Pereira, da Uerj).

Antes de tudo, é preciso definir o papel dessa poderosa máquina eletrônica, diante da qual crianças e adolescentes passam mais tempo do que na escola. Se não considerarmos os efeitos do seu uso, para além da própria transmissão de informações - a que dedica em geral espaço mínimo -, estaremos vivendo o mesmo cenário de quem "dorme com o inimigo".

A televisão ainda é uma arma de alcance mortífero, capaz de influir no comportamento da sociedade humana. Portanto, todo e qualquer posicionamento corporativo patronalista nos meios de comunicação expõe o desprezo pela responsabilidade social e institucional da programação de TV.
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Nos países em que essas emissoras integram complexos de comunicação a sua força vai além do razoável, correndo o risco de forjar um poder paralelo semelhante ao das igrejas católicas no seu apogeu.
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Onde o poder econômico tem origem externa, esses complexos de comunicação transcendem os valores nacionais e assumem sem limites posturas direcionadas a atender tão-somente a esses interesses.
Na Venezuela, mais do que em qualquer outro país, as redes privadas de televisão funcionam como ferramentas de uma aliança político-econômica, que, até o governo do presidente Hugo Chávez, ditava as cartas, manipulando os órgãos oficiais de controle, nomeando ministros e impunha decisões que beneficiavam seus interesses.
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Imprensa de interesses
É da Venezuela o grande magnata Gustavo Cisneros, descrito como o Murdoch deste lado do equador pelo jornalista Richard Gott, em artigo substancioso no número 39 da "New Left Review" (maio-junho de 2006). Operando em praticamente todos os setores da economia, de supermercados à Directv, Cisneros é o dono das redes de maior audiência da Venezuela (Venevisión), da Colômbia (TV Caracol) e ainda da Chilevisión.
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Sua fortuna de 4 bilhões de dólares engordou nas quatro décadas mais corruptas da Venezuela, particularmente no período do presidente Carlos Andrés Perez, destituído como ladrão em 1993, quando Cisneros nomeava o ministro da Fazenda e o presidente do Banco Central.
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Foi ele quem, junto com as outras três redes privadas de televisão, monitorou e ofereceu combustível para a tentativa de golpe contra o presidente Hugo Chávez, numa empreitada que envolveu as empresas petroleiras e gerou um caos com prejuízos superiores a 6 bilhões de dólares.
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A rigor, as quatro redes de TV foram peças físicas do golpe e, portanto, cometeram violações inaceitáveis num regime de direito. No documentário dos irlandeses Kim Bartley e Donnacha O'Briain, que estavam na Venezuela naquele abril de 2002, fica claro que os canais privados serviram como "diários oficiais", através dos quais o "presidente" do golpe, empresário Pedro Carmona, transmitiu seu decreto de fechamento do Congresso e do Poder Judiciário.
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Foi tal o envolvimento, que o jornalista Andrés Izarra, gerente de produção do jornal da RCTV, com passagem pela CNN, pediu demissão do cargo em plena crise, alegando "dever de consciência profissional".
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Ele não agüentou a sua própria transformação num agente de um complô que se valia da televisão para enganar o povo. Foi estabelecido um blecaute com a sabotagem no canal 8, a TV Estatal, e a adoção de diretrizes que privavam o povo da informação.
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"Nenhuma informação sobre Chavez, seus seguidores, seus ministros ou qualquer outra pessoa que de alguma forma possa ser relacionada a ele" podia ser divulgada - narrou Izarra. "Nós tínhamos um repórter em Miraflores e sabíamos que o palácio havia sido reconquistado por chavistas - diz -, mas o blecaute de informações foi mantido. Foi quando decidi dar um basta e fui embora".Ainda sobre o envolvimento das redes de TV na violação constitucional, Naonmi Klein escreveu em "The Nacion", dos EUA: "O que ajuda a explicar porque, nos dias que precederam o golpe de abril, a Venevision, a RCTV, a Globovision e a Televen trocaram a programação regular por insistentes discursos antichavistas, interrompidos apenas por comerciais convocando os telespectadores a ocupar as ruas: "Nenhum passo atrás. Saia! Saia agora!".Os anúncios eram patrocinados pela indústria do petróleo, mas as emissoras colocavam no ar como se fossem "de interesse público". E foram além.
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Na noite do golpe, a emissora de Cisneros serviu de lugar de reunião para os conspiradores, inclusive Carmona. O presidente do Conselho de Radiodifusão da Venezuela foi co-signatário do decreto que dissolveu a Assembléia Nacional, eleita democraticamente.
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E enquanto as emissoras celebravam abertamente a "renúncia" de Chávez, quando forças pró-Chávez se mobilizaram para trazê-lo de volta, houve um blecaute completo de notícias". Essas estações de TV fizeram até montagens sobre os conflitos que incitaram na Praça Altamira, numa insidiosa campanha que justificaria a cassação de todas elas, como hoje reclama Andrés Izarra: "Eu acho que as concessões deveriam ser revogadas".
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Livres, mesmo após o golpe
No entanto, o governo limitou-se a aplicar uma multa de 3,1 milhões de dólares, que elas se recusaram a pagar. Diante do quadro em que se recusou a caça às bruxas e "perdoou" a maioria dos golpistas, Chávez veio tolerando as quatro emissoras, que não mudaram em matéria de envolvimento político-partidário e se associaram diretamente aos partidos de oposição no último pleito. Na campanha, exibiam propaganda terrorista, num desesperado esforço para derrotar Chávez nas urnas. E não foram nem um pouco democráticas na transmissão das informações.
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Agora, vencem os vinte anos de prorrogação da concessão que a RCTV obteve em 1987 do presidente Jaime Lushinsi, em troca da demissão do jornalista Luiz Herrera, chefe de redação do "El Nacional", do mesmo grupo, que hoje vive em Miami. Como disse o ministro de Comunicações, William Lara, o governo venezuelano está apenas fazendo administrativamente o que lhe cabe legalmente, diante de um crime continuado contra o direito de informação. Esse caminho não tem contestação. Mas, a meu ver, já chega tarde, considerando o que me ocorreria, no Brasil ou em qualquer regime de direito, se eu tivesse feito o mesmo.

A nova ameaça chinesa

Por Malu Gaspar, Revista EXAME

Durante muito tempo, o continente africano foi fonte de lucros e oportunidades para um seleto grupo de companhias brasileiras. Para algumas delas, a África era uma espécie de quintal onde podiam fazer seus negócios com facilidade graças ao desinteresse de concorrentes do mundo desenvolvido pela região, muito pobre e dilacerada por guerras fratricidas. Acostumadas a operar em meio ao subdesenvolvimento, gigantes como Odebrecht, Petrobras, Marcopolo e Vale do Rio Doce realizaram boa parte de seu processo de internacionalização em países africanos nas décadas de 80 e 90. Para a infelicidade dessas empresas, porém, esse cenário de tranqüilidade faz parte do passado. Nos últimos meses, elas vêm colhendo sinais alarmantes de que uma ameaça poderosa está invadindo o "quintal": os chineses, com seu apetite insaciável por petróleo e demais commodities. Com generosas ofertas de financiamento concedidas por Pequim, as empresas da China estão ampliando rapidamente seu acesso às reservas africanas. E começam a levar a melhor em negócios que antes não escapavam aos pesos pesados do Brasil.

Uma das primeiras a se dar conta da nova realidade foi a Odebrecht, que está na África desde a década de 80. Dona de contratos importantes em Angola, como as obras da hidrelétrica de Capanda, a Odebrecht vinha propondo ao governo do país a reforma do aeroporto da capital, Luanda, desde 2004. Em meados de 2005, após a China anunciar um empréstimo de 2 bilhões de dólares para a reconstrução da infra-estrutura de Angola, a empreiteira descobriu que a idéia da reforma havia sido sepultada. Os recursos emprestados só poderiam ser gastos com empresas chinesas, e elas faziam questão de construir um aeroporto novo. O pacote incluiu ainda a reconstrução de três ferrovias e várias obras menores. "Os chineses fizeram barba, cabelo e bigode", diz Humberto Rangel, diretor de novos negócios da Odebrecht Angola. Em junho passado, foi a vez de a Vale amargar uma derrota que a fez reavaliar seus planos para o Gabão, também na África. Depois de investir 15 milhões de dólares no país, a empresa perdeu para os chineses a disputa pelo direito de explorar a mina de ferro de Belinga, tida como a maior jazida inexplorada do mundo, com potencial para 1 bilhão de toneladas. Os chineses se dispuseram a gastar 3 bilhões de dólares em infra-estrutura e a comprar toda a produção da mina. Meses antes, os governos chinês e gabonês assinaram vários acordos bilaterais, prevendo desde empréstimos em troca de óleo até cooperação técnica para desenvolvimento da pesca.

Além da abundância de capital, a mão-de-obra barata chinesa entra algumas vezes como parte da negociação -- o que torna o pacote imbatível. Segundo o diretor de uma empreiteira brasileira, os preços chineses chegam a ser 30% mais baixos. Como não há estatísticas confiáveis, as estimativas acerca do número de trabalhadores chineses na África variam muito -- de 10 000 a 80 000. Muitos desses operários são levados de navio. "Os navios chineses atracam na costa e ficam lá enquanto durar a obra", diz Ronaldo Chaer, da Câmara de Comércio Brasil-Angola, que visita o país regularmente. O avanço chinês alimenta lendas urbanas, como a de que os operários levados à África são, na verdade, prisioneiros. Também há quem acredite na existência do esquema da "cama quente", em que o mesmo leito é ocupado duas vezes ao dia por operários que fazem turnos alternados de 12 horas.

A África não é a primeira região do planeta a sofrer a ofensiva da China. Há algum tempo, indústrias de países ricos e pobres passam dificuldades por causa da concorrência de produtos chineses. A diferença é que essa "invasão" está mais sofisticada. Nesse novo tipo de ofensiva, os chineses emprestam dinheiro barato em troca de acesso ao subsolo e de bons contratos de obras públicas para suas próprias empresas. Também conta a favor o imenso peso geopolítico da China, um dos cinco países do mundo a deter um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU -- apoio particularmente valorizado por países em risco de sofrer sanções internacionais. Foi essa combinação que garantiu às empresas chinesas uma posição de destaque no Irã. Entre as obras feitas no país está a conclusão do metrô de Teerã, iniciado por uma empresa francesa e concluído pelos chineses. O Irã, que vive às turras com os americanos desde que relançou seu programa nuclear, tem se valido do apoio chinês para tentar evitar medidas mais duras da comunidade internacional -- em troca, claro, de vantagens comerciais. Esse expediente tem feito a diferença também na África, que concentra as últimas áreas inexploradas de recursos naturais do planeta. Desde 2003, os chineses já emprestaram mais de 9 bilhões de dólares à região, a maior parte em troca de petróleo. Também já cancelaram dívidas de países africanos no valor de 10 bilhões de dólares. E estão sempre prontos a dar apoio a países com má fama no cenário internacional -- demonstração do imenso pragmatismo que rege a política externa chinesa, em franco contraste com a retórica terceiro-mundista de poucos resultados praticada pelo Itamaraty.
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Para os chineses, os resultados vieram rápido. A China tornou-se o terceiro maior parceiro comercial da África, atrás de Europa e Estados Unidos. Em 1995, o comércio entre China e África movimentou 3 bilhões de dólares. Em 2006, quando Angola se tornou o principal fornecedor de petróleo da China, o volume total já era de 40 bilhões. Dados colhidos pelo Conselho Empresarial Brasil-China apontam que os chineses estão em cerca de 900 projetos na África, a maioria financiada por estatais chinesas de construção pesada.

A presença da China elevou também os patamares da disputa pelo petróleo africano. Em junho passado, a petrolífera Sinopec fez a maior proposta da história pelos direitos de explorar um campo em Angola -- 1,1 bilhão de dólares. Desta vez foi a Petrobras que teve de lidar com o jeito chinês de atuar. A estatal brasileira perdeu a concorrência, e só não foi excluída do negócio graças à tecnologia de exploração em águas profundas. Embora tivesse vencido a disputa, a Sinopec não tinha capacidade técnica para perfurar e operar o poço. A Petrobras só pôde ficar com uma participação de 30% no negócio, apesar de desembolsar o mesmo que os chineses, que ficaram com 40% -- o equivalente a 400 milhões de dólares. A estatal não divulga sua oferta inicial pelo poço, mas estima-se que tenha tido de aumentá-la em pelo menos 30% para conseguir manter-se na operação. "Só aceitamos porque consideramos que esse campo dará boa rentabilidade. Não temos as mesmas necessidades dos chineses e não faríamos um negócio que pudesse dar prejuízo", diz João Figueira, que ocupou até o final de 2006 a gerência executiva da área internacional da Petrobras.
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O caso da Petrobras mostra que as empresas brasileiras ainda conseguem manter a competitividade em projetos que demandam maior capacidade tecnológica e mão-de-obra mais qualificada. A Odebrecht, por exemplo, ainda cresce em Angola e é considerada a favorita para as obras de reconstrução da barragem do Gove, iniciada pelos colonizadores portugueses há mais de 30 anos e abandonada desde a independência do país, em 1975. A Marcopolo, que tem uma fábrica na África do Sul, já convive com concorrentes chineses, mas ainda não perdeu nenhum contrato para eles no continente. "Por enquanto, os ônibus chineses não são tão competitivos na relação custo/qualidade.
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Mas sabemos que uma hora eles vão conseguir chegar lá", diz Ruben Bisi, diretor de operações internacionais da companhia. Esse é o centro das preocupações brasileiras hoje. Uma das principais características dos chineses é sua rapidez em aprender e copiar a tecnologia dos rivais. "Logo eles vão começar a fazer o mesmo que nós, e aí vamos ter de dar pirueta", diz um empreiteiro que já foi sondado por chineses sobre sociedades em obras mais complexas na América do Sul.

Censo começa em julho

Rodrigo Gallo, Jornal da Tarde

A revisão de 4,5 milhões de aposentadorias por invalidez e auxílios-doença pagos pela Previdência Social começa em julho em São Paulo. Essa informação foi dada ontem pelo presidente do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), Valdir Moysés Simão. Segundo o governo, as convocações serão feitas por meio de correspondências e os segurados deverão comparecer aos postos na data marcada. O novo censo deverá se estender até 2008.O governo não definiu ainda todas as regras do processo de revisão dos benefícios. A medida é necessária, por determinação da Lei 8.213/91, que obriga o governo a refazer as perícias dos aposentados por invalidez a cada dois anos para identificar supostas irregularidades. Mas esse procedimento só foi feito uma vez, em 1992.
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Hoje, segundo Simão, o número de aposentadorias por incapacidade é muito elevado no Brasil: dos 32 milhões de benefícios concedidos, 4,5 milhões enquadram-se nesta categoria. “A meta é reduzir o número de segurados incapacitados e reabilitá-los no mercado de trabalho.”
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O ministro da Previdência, Nelson Machado, não entrou em detalhes sobre a revisão dos benefícios por incapacidade, mas adiantou que as regras serão anunciadas em breve. Ele ressaltou a importância da revisão das perícias médicas para as contas do governo. “Boa parte dos trabalhadores que recebem aposentadoria por invalidez ou auxílio-doença está em condições de trabalhar.” A Previdência fechou 2006 com um déficit de R$ 42 bilhões, número que o governo quer reduzir nos próximos anos.
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Em Davos (Suíça) onde participou do Fórum Econômico Mundial, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que o déficit não é da Previdência, mas do Tesouro Nacional e que será gradualmente reduzido. Mesmo assim, não descartou a possibilidade de uma reforma previdenciária.
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No censo, os segurados serão chamados a comparecer a alguma agência do INSS para a realização de uma nova perícia. Caso o médico comprove que a pessoa tem condições de trabalho, concederá a alta. Estes trabalhadores poderão passar por cursos de requalificação antes de voltarem ao mercado. Para isso, o governo está firmando parcerias com entidades como o Sesi, Senai e Senac.
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De acordo com Machado, a revisão dos benefícios por incapacidade é uma das três metas do ministério para o segundo mandato do presidente Lula. As outras prioridades são criar um sistema de gratificação para os servidores (leia nesta página) e a readequação dos postos de atendimento.
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FilasOntem, Machado fez questão de ressaltar que as filas na porta das agências formadas na madrugada acabaram. Pesquisa da Previdência realizada em dezembro de 2005 constatou que havia uma média de 80 segurados aguardando a abertura dos postos. O levantamento do mês passado identificou uma média de 20 segurados. “Mas muitas pessoas chegam poucos minutos antes da abertura. Temos equipes percorrendo o País para ver o que ocorre e onde ainda há filas.”
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Para melhorar o atendimento, o INSS vai inaugurar outras três agências na Capital neste semestre. Os novos postos ficarão instalados na Nossa Senhora do Sabará (Zona Sul), Paissandu e Glicério (Centro). O cronograma para as aberturas ainda não está pronto. Ontem, o INSS abriu uma agência no Jabaquara (Zona Sul), na Rua dos Cambuís, 326, que contou com as presenças de Machado e Simão.
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Como será o procedimento
Convocação para a revisão das perícias será gradativa, e os Estados darão início ao processo de acordo com a disponibilidade de agenda para a realização dos exames.
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Em São Paulo, a revisão dos benefícios por incapacidade começa em julho. Segurados serão convocados por carta e terão de ir até a agência em data e hora marcadas. Caso a pessoa não possa se deslocar até o posto, o INSS criará alternativas para garantir a realização da nova perícia.
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Dependendo da avaliação, os médicos peritos poderão liberar segurados para o trabalho. A Previdência Social está fechando parcerias com entidades como o Sesi, Senai e Senac para cursos de requalificação aos trabalhadores dispensados do pagamento do benefício.

A festa está no fim?

Por Bill Emmott, Revista EXAME

A economia mundial viveu quatro anos tão espetaculares que parece falta de educação, ou talvez imprudência, perguntar por quê. A resposta costumeira dada a essa questão é a globalização, o aumento em escala mundial de abertura comercial e fluxo de capitais que é associado ao rápido crescimento econômico nos Bric, o bloco de nações emergentes formado por Brasil, Rússia, Índia e China. Contudo, há algo de errado nessa explicação: trata-se de uma tendência de longo prazo utilizada para justificar um fenômeno que, por enquanto, é de curto prazo. Além disso, ela não leva em conta um dado importante: o papel do aumento explosivo dos preços das commodities. Agora que esses preços estão caindo, será possível ver o quanto foram importantes.

Existe, é claro, uma conexão entre globalização e o boom nas cotações das commodities desde 2002. O enorme apetite da China, de modo especial, e no futuro possivelmente também da Índia, por petróleo, minério de ferro, cobre, alumínio, níquel, estanho, trigo -- praticamente qualquer coisa que possa ser extraída da terra ou nela cultivada -- serve de explicação para o "superciclo" que hoje as commodities atravessam, um período longo de preços altos.

O problema é que essa é uma descrição de fatos, não uma explicação. A globalização existe há mais de duas décadas; ela cresceu enormemente no início dos anos 90 com a derrocada da União Soviética, a abertura do comércio indiano em resposta à crise econômica que assolava o país e a liberalização comercial em vários países da América Latina. Não houve nesses primeiros anos, porém, nenhum aumento dos preços das commodities, tampouco a economia mundial desfrutou de uma expansão tão sólida como a de agora. A recente onda de crescimento foi realmente uma grande surpresa. Há quatro anos o PIB mundial cresce entre 4,5% e 5,5% ao ano em termos reais, o melhor quadriênio em pelo menos quatro décadas. Mas, quando o FMI se reuniu em setembro de 2002, a previsão dos economistas era que 2003 seria um ano apenas ligeiramente melhor que o biênio 2001 e 2002, mas isso porque aquele fora um período bastante desanimador. Esperava-se que os preços do petróleo e de outras commodities se estabilizassem ou caíssem, e não que explodissem.
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A alegria da sincronia
Em vez disso, o crescimento mundial deu um salto, os preços do petróleo quase triplicaram e o valor de várias commodities subiu numa proporção ainda maior -- sem que a expansão fosse prejudicada pelo aumento da inflação. Economistas dos países ricos explicam o fenômeno com o argumento de que suas economias são mais flexíveis hoje, utilizam menos petróleo e outras commodities por unidade produzida e contam com bancos centrais que, no entender dos mercados, derrotarão a inflação se ela se tornar perigosa. Mas isso é apenas parte da história. A outra parte, importante para os países produtores de matérias-primas, majoritariamente pobres e situados no hemisfério sul, é que o boom nos preços de commodities distribuiu os frutos do crescimento e, pelo menos por enquanto, fez com que o mundo se mantivesse política e economicamente estável.

Essa sincronia no crescimento mundial tem sido, sem a menor sombra de dúvida, benéfica. Os preços do barril de petróleo, entre 50 e 80 dólares, têm conferido estabilidade aos governos da Arábia Saudita e de outras nações árabes num período em que a invasão anglo-americana do Iraque poderia ser uma ameaça. A África subsaariana, a região mais pobre do mundo e que vem perdendo terreno há décadas, cresce em torno de mais de 5% ao ano graças aos preços elevados do petróleo e dos metais. O Brasil não tem tirado proveito como deveria dessa situação, mas mesmo assim deve os cerca de 3% de crescimento esperados para 2006 a esse fenômeno, assim como o Chile, com seus 4,5% a 5%, ou a Venezuela, com quase 8%.

Sob alguns aspectos, esse cenário teve efeitos desconfortáveis: o comportamento provocador do Irã e da Venezuela de Hugo Chávez deve muito à percepção desses países de que hoje detêm poder econômico. De modo geral, porém, até George W. Bush deveria admitir que o aumento dos preços das commodities e o crescimento sincrônico resultante produziram um período de calmaria que poderia ter sido bastante turbulento no mundo todo, em vez de apenas no Oriente Médio.
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Um ponto de inflexão?
Apesar do avanço da globalização, houve uma queda substancial nos preços das commodities nos últimos seis meses. Os preços do petróleo chegaram ao valor máximo de 78 dólares por barril em junho. Em meados de janeiro, entretanto, haviam caído 35%, estabilizando-se numa faixa próxima a 50 dólares. Nenhum dos principais consumidores de petróleo sofreu uma desaceleração importante -- muito menos uma recessão --, portanto, não houve nenhuma queda abrupta na demanda que explicasse a redução nas cotações. Ao mesmo tempo, os preços do cobre caíram em mais de um terço desde o pico atingido em maio de 2006. O valor de outros metais caiu menos, mas, ainda assim, o índice de preços das commodities organizado pela The Economist acusava no início de janeiro queda de 9,8% em dólares em apenas um mês.

Todos esses preços continuam consideravelmente mais elevados do que há quatro anos. O petróleo a 50 dólares o barril ou o cobre a aproximadamente 6 000 dólares a tonelada continuam a ser produtos bastante atraentes para quem os vende. Mas e se os preços continuarem a cair? A queda observada até agora pode até ter sido causada por especuladores no mercado financeiro, que antes teriam empurrado os preços para um patamar mais elevado do que seria esperado pelos níveis de oferta e demanda e que agora tornaram-se vendedores -- seja por medo, seja pelas taxas de juro mais altas. Muito da alta anterior, no entanto, pode ser explicada pela escassez de oferta, decorrente dos baixos níveis de investimento das empresas de mineração e de petróleo durante as últimas duas décadas de preços reduzidos. O aumento da demanda, impulsionada pela globalização, chocou- se com a pouca oferta: os preços foram às alturas.

Contudo, como é fato mais do que sabido no setor de recursos naturais, a oferta sobe quando mais investimentos tornam um aumento de produção possível. Quem aposta na alta acredita que esse será um processo lento, porque as minas e os poços de petróleo levam anos para começar a produzir e porque os profissionais capacitados necessários para viabilizar esse aumento de produção são escassos.

O argumento oposto, no entanto, também depende do fato de que oferta e demanda de petróleo e outras commodities estejam num equilíbrio preciso. Sim, diz quem aposta na baixa das cotações, irá levar anos para que haja aumento substancial nas reservas ou na oferta atual de petróleo e outras commodities. Mas variação de preços não depende de grandes aumentos na produção; ela depende de pequenas alterações no equilíbrio entre oferta e procura. E essas oscilações podem ocorrer bem depressa.

Já há dois exemplos bastante significativos disso. A queda nos preços do petróleo durante as primeiras semanas de janeiro não foi causada pela tão temida recessão americana -- ela foi causada por um inverno mais ameno que o esperado em boa parte dos Estados Unidos e da Europa. A diminuição nos preços do cobre durante a segunda metade do ano passado pode ter tido muito a ver com especulação, mas outro fator que contribuiu foi a desaceleração da demanda e o aumento dos níveis dos estoques na China. Preços altos levaram os consumidores a procurar por substitutos; por sua vez, a oferta vem aumentando gradualmente. Essas são pequenas oscilações, mas que produziram efeitos enormes e repentinos.

De modo geral, me inclino aos que esperam queda nas cotações, inclusive nas de petróleo. Há espaço para outras baixas substanciais nos valores de todas as commodities, à medida que a demanda cair, a oferta aumentar e os fundos de investimento saírem do mercado. É claro que a instabilidade política pode atrapalhar o fornecimento de petróleo e de outras commodities. Mas, no final das contas, os brasileiros e os habitantes de outros países exportadores de matérias-primas precisam aceitar o fato de que as grandes quedas de preços são tão prováveis quanto os grandes aumentos. A globalização pode muito bem significar que a demanda vai crescer no longo prazo. No entanto, a tecnologia e o investimento, num mundo aberto e dotado de vários possíveis fornecedores, podem também elevar fortemente a oferta. O argumento para que países produtores de commodities diversifiquem sua economia continua poderoso -- para o longo prazo.

Pacientes terminais esperam 60 dias por remédio

Emilio Sant´Anna e Simone Iwass, Estadão Online

SÃO PAULO - De um lado, secretarias estaduais de Saúde com prazo de até 60 dias para entregar medicamentos importados de alto custo. De outro, pacientes que apelaram à Justiça e conseguiram o aval para receber remédios em dias ou semanas. Somam-se a isso procedimentos burocráticos pouco claros.

O resultado: diferentes interpretações da legislação influenciam no começo ou na continuidade de tratamento de casos graves ou terminais, para os quais cada dia de uso de remédios pode fazer a diferença.

Segundo os Estados, o prazo atende a uma portaria da Secretaria de Comércio Exterior, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, criada para regulamentar a compra desses produtos. Para a secretaria, medicamentos não têm licenciamento automático, ou seja, os trâmites burocráticos para a entrada no País podem demorar até 60 dias.

O Conselho Nacional de Secretários de Saúde informou, por meio de sua assessoria de Imprensa, que não existe um procedimento único em todos os Estados para responder a essa questão. Assim, cada secretaria usa um sistema, o que resulta em prazos diferentes para o fornecimento dos remédios.

A Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo, por exemplo, diz que apenas cumpre a legislação e que o processo de importação não pode levar menos que os 60 dias. Secretarias da Bahia, Goiás e Rio Grande do Sul também afirmam que tentam trazer o medicamento o quanto antes, mas se amparam na portaria para justificar o prazo.

"Tentamos atender o maior número de pacientes, responder o quanto antes às ações. Mas a lei nos permite fornecer em até 60 dias, é o tempo médio", explica o diretor da Central de Medicamentos da Secretaria de Saúde de Goiás, Luiz Edgard Tollini. "No ano passado, gastamos R$ 6 milhões com isso".

Interpretações distintas
No entanto, de acordo com advogados acostumados a esse tipo de ação, a portaria não é entendida de forma consensual e pode ser interpretada de outras maneiras - inclusive usando as liminares dos juízes que estipulam um prazo para que o produto seja entregue, obtendo assim a compra de maneira mais rápida.

"Eles (secretarias de Saúde) nunca comprovaram em nenhum processo a necessidade desse prazo", revela o advogado Raul Peris, especialista em ações na área de saúde. Peris diz que alguns pacientes conseguem receber o medicamento antes dos 60 dias. "Existem casos de até 20 dias. E sempre que o juiz manda o governo juntar aos autos do processo a documentação da importação, no dia seguinte o remédio está disponível".

Lula repete tática eleitoral para ‘vender’ PAC

Escrito por Josias de Souza

“Serei o mercador do PAC, o garoto-propaganda do programa”, disse Lula a um auxiliar na última quinta-feira. Para “vender” o seu Plano de Aceleração do Crescimento, o presidente decidiu repetir a tática que usou no ano passado, para arrebanhar votos na campanha reeleitoral. Vai visitar obras. “Uma atrás da outra, três ou quatro por mês”, segundo afirmou.

Lula tem pressa. Começa a correr o país já na próxima semana. Deve visitar pelo menos quatro Estados. Em todos eles participará de solenidades relacionadas a obras incluídas no plano de investimentos do PAC. Foi o modo que encontro de se contrapor ao discurso ácido com que alguns governadores vêm se referindo ao plano que anunciou na última segunda-feira (22).

Entre os mais críticos está o tucano José Serra (PSDB). O governador de São Paulo tachou as medidas do PAC de “fracas” e “vazias”. Disse que não produzirão a onda de crescimento econômico antevista pelo governo –4,5% em 2007 e 5% ao ano até 2010. Pois bem, São Paulo é um dos Estados que Lula visitará neste primeiro périplo da “caravana do investimento”, como um auxiliar do presidente refere-se ao ciclo de viagens.

Será na sexta-feira (2 de fevereiro). No final da manhã, Lula vai “inaugurar” a pedra fundamental de uma usina de polipropileno da Petrobras na cidade de Paulínea –uma das mais de cem obras listadas no PAC. Antes, de “pisar o calo de Serra”, o presidente massageará o ego no Nordeste. Percorreu, na quarta-feira (24), três Estados governados por aliados do PSB.

Vai à Pernambuco do governador Eduardo Campos (PSB), ao Rio Grande do Norte de Vilma Faria e ao Ceará de Cid Gomes. Os três são entusiastas do PAS. Enxergam no pacote a perspectiva de uma derrama de verbas federais em suas searas.

“Não estamos interessados nem no jogo de perde-ganha nem no jogo de perde-perde. O nosso jogo é o do ganha-ganha”, diz, por exemplo Eduardo Campos, que espera obter para o seu Estado, nos próximos quatro anos, algo como R$ 21 bilhões. Ele acompanhará Lula numa visita ao porto pernambucano de Suape. Ali, serão assinados contratos para a construção de uma dezena de navios da Transpetro, subsidiária da Petrobras.

Com suas viagens, Lula espera popularizar o PAC junto à sociedade. Quer criar na cabeça do brasileiro a idéia de que o plano nem é “fraco” nem é “vazio”, como dizem os críticos à José Serra. Seria, ao contrário, "forte" e "consistente", com obras bem definidas e dinheiro reservado.

As viagens do presidente não constituem segurança de que o crescimento econômico virá na proporção imaginada pelo governo. Mas, como estratégica de marketing, tendem a surtir efeito. Lula aproveita-se de investimentos que, com ou sem o PAC, já constavam do cronograma de investimentos de estatais como a Petrobras.

Confira se seu PC está pronto para o Windows Vista

Alexandre Barbosa, Estadão Online

SÃO PAULO - A partir do dia 30 de janeiro, o público brasileiro poderá conhecer de perto o Windows Vista, o novo sistema operacional da Microsoft, nas diversas versões preparadas para o aplicativo (são sete pacotes diferentes).

O sucessor do Windows XP chega após alguns atrasos em seu desenvolvimento, motivados, segundo a Microsoft, por investimentos em melhorias na segurança e estabilidade do sistema, que trará melhorias na execução de mídia, em atividades multitarefa, aperfeiçoamentos em gráficos e, segundo a companhia, mais segurança.

Mas o sistema também é um devorador contumaz de recursos de hardware, exigindo processadores parrudos e muita, muita memória RAM (mínimo de 1 GB de RAM e processador de 1 GHz para rodar a nova interface gráfica).

Embora se espere o upgrade para esta nova versão, máquinas novas vendidas com o sistema serão mais favorecidas, mas a internet pode ajudar o usuário interessado na atualização a saber se sua máquina é ou não compatível com o Windows Vista, graças ao Windows Vista Upgrade Advisor, ferramenta criada pela Microsoft e que pode ser baixada gratuitamente.

O software checa se a configuração do seu micro dá conta de rodar o Vista. O aplicativo faz uma varredura no sistema do usuário, mostrando se a máquina tem condições ou não de rodar o sistema, mesmo quando houver partes que possam ser substituídas, como placas aceleradoras gráficas que sejam insuficientes para rodar a interface Aero, que exibe imagens de uma forma diferente da atual, ou expansões na memória RAM.

Atraso
O Vista chega com atraso de meses em relação a sua previsão inicial, prometendo ser mais fácil de utilizar, tornando mais simples, afirma a Microsoft, encontrar informação no PC, fornecendo resultados em uma caixa de busca à medida que o usuário digita o que quer encontrar (os dados guardados no PC já ficam pré-indexados, evitando as demoradas buscas que o XP faz).

Ofensiva global de marketing lança o Vista

Veja Online

Depois de um monumental trabalho de programação e desenvolvimento - foram cinco anos de pesquisa e 6 bilhões de dólares de investimentos em 50 milhões de linhas de comando - a Microsoft aposta em uma grande operação internacional de marketing para começar bem as vendas de seu novo sistema operacional, o Windows Vista. A nova versão do sistema mais usado no planeta chega às lojas de 70 países nesta terça-feira em meio a grande expectativa dos consumidores e dos especialistas do setor.

A ofensiva para promover o novo Windows inclui propagandas estreladas pelo astro do basquete LeBron James e entrevistas ao vivo com o co-fundador da empresa, Bill Gates - que participaria dos programas mais famosos da TV americana, como o Today, da NBC, e o Daily Show with Jon Stewart, do Comedy Central. Outros eventos promocionais serão realizados na Times Square, em Nova York, e em várias grandes lojas dos EUA e de outros países.

De qualquer forma, os analistas do mercado têm poucas dúvidas sobre o êxito da empreitada. "O Vista fará sucesso. Ele tem muitos recursos novos e interessantes, e as pessoas vão gostar", disse o especialista Toan Tran, da Morningstar. Em sua resenha do produto, o Wall Street Journal foi menos elogioso, e destacou a falta de ferramentas realmente novas e inovadoras: chamou o Vista de um produto "que vale a pena, mas é muito pouco empolgante".
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Vantagens -
Em países como o Japão, as lojas começaram as vendas à meia-noite, pelo horário local. Em todo o mundo, estima-se que cerca de 700 milhões de máquinas rodem com sistemas operacionais da Microsoft. Especialistas do setor acreditam que as vendas neste primeiro ano de lançamento serão boas - até o início de 2008, o Vista deverá equipar mais de 100 milhões de PCs. A Microsoft não lançava uma nova versão do Windows desde 2001.

Segundo informações da empresa, o Vista trará várias vantagens sobre o sistema operacional anterior. Entre elas, uma interface gráfica mais moderna e atraente, recursos de terceira dimensão, um sistema de busca de arquivos instantâneo e filtro de conteúdo que permite barrar sites e arquivos impróprios para crianças, por exemplo. Além disso, a Microsoft promete um sistema mais seguro e menos vulnerável a ataques de vírus e invasões eletrônicas.

Nem vai nem racha

por Fernando de Barros e Silva, na Folha de S. Paulo
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Não é preciso ler nas entrelinhas ou saber pescar em águas profundas para fisgar o traço esquizofrênico do governo Lula. Pudemos vê-lo hiperexposto na semana que passou, até ser condensado na sexta, de forma involuntária, pela frase de efeito do presidente: "Ou vai ou racha" -soltou Lula em Davos, como se clamasse pelo crescimento no templo dos negócios.
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Do anúncio do PAC na segunda -vai!- à decisão sobre os juros na quarta -racha!- deve-se deduzir o quê? Primeiro, que as duas orientações, obviamente conflitantes, são obra do mesmo senhor, embora Lula procure se abraçar ao pacote e transferir o ônus da decisão do Copom a instâncias misteriosamente técnicas, alheias à vontade do governo. Cascata ideológica, é claro.
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Deve-se deduzir ainda que, sob o 2º Lula, o país nem vai nem racha. O êxito ou a frustração (mais provável) serão suaves, doces, brasileiros.
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O presidente gosta do chavão futebolístico -não se mexe em time que está ganhando. O estilo de jogo do governo traduz isso: é amarrado, de modo que, para cada aposta, parece haver uma contrapartida, ambas submetidas ao princípio da prudência, cujo ponto de fuga é a sobrevivência do próprio Lula -ou o seu pânico de pisar em falso e tropeçar.
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Lula é conservador e sobretudo conciliador. O seu PAC, um arremedo de programa, resulta menos de propósitos firmes, convicções elaboradas e objetivos definidos do que da pressão difusa em torno do senso comum de que é preciso crescer. Na sua origem não havia nada além de um número mágico: 5%.O plano vem exprimir, naquilo que junta meio a esmo e naquilo que recusa, os apetites e os limites de uma coalizão política balofa, muito heterogênea e quase toda habituada às benesses fisiológicas.
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Feitas as contas, o segundo tempo de Lula parece empurrar o Brasil para a frente, mas com a barriga. Talvez estejamos vendo a expansão do Estado assistencialista sob a miragem de termos nos reencontrado com o desenvolvimentismo.

Eta pacote fracote!

por Ubiratan Iorio, no Jornal do Brasil
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Planos de governos costumam ser fracassos com datas marcadas. Este Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), anunciado com pompa, circunstância e jactância, até que, em alguns itens, tateia pontos corretos, como destributação, desburocratização e investimentos em infra-estrutura. Só que entre sonho e realização, entre desejos e ensejos, existe sempre esta chata de galocha, a realidade.
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O programa não é gradualista, como disse a ministra Dilma: é apenas fraco e de uma timidez de freira carmelita descalça, ao não tocar no essencial, o inchaço do Estado! A obviedade disto é claríssima, mas o óbvio ululante a Lula parece não dizer nada... Será muito difícil nossa economia crescer 5% neste ano e manter essa taxa nos anos seguintes, por muitas razões.
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A principal é que o programa não se dispõe a desfazer a disparidade que existe em nossa economia, entre um setor privado moderno, dinâmico e inserido nos moldes do mundo globalizado e um setor público ineficiente, pesado e inchado, que só tem feito atrapalhar o primeiro. Por não ter o governo petista-peemedebista disposição e cacife político para promover um forte choque de gestão no setor público e para cortar efetivamente gastos correntes - e não apenas contê-los - o plano vai gorar rapidamente. A hora de modernizar o Estado seria agora, início do novo mandato; "depois", à luz da evidência, costuma ser o advérbio dos incompetentes.
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Outra falha é que se trata de um plano heterodoxo e os economistas heterodoxos são como aqueles lutadores de boxe que sempre vão à lona, mas levantam-se rapidamente, apenas para caírem de novo, sem que o juiz jogue a toalha. Tudo, rigorosamente, o que fizeram "neste país" deu errado, desde aquela quimera de Juscelino Kubitscheck de crescer "50 anos em cinco", passando pela desarrumação que provocaram na economia no governo Jango, por algumas invenções de Delfim e desaguando nos cinco pacotes que quase mataram de inanição a produção e engordaram a inflação: os planos Cruzado, Bresser, Verão e os dois capitaneados por aquela senhora, no governo Fernando Collor.
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A piadinha sem graça do ministro da Fazenda sobre a taxa básica de juros, bulindo com Henrique Meirelles, revelou um racha no governo, entre o Banco Central, ortodoxo, e os demais ministérios, heterodoxos, estes sempre se arrogando o monopólio de um pretenso "desenvolvimentismo".
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Um terceiro equívoco é que os autores do PAC ainda acreditam na falácia de que gastos públicos geram crescimento. Dos R$ 503,9 bilhões a serem empregados em infra-estrutura até 2010, apenas R$ 67,8 bilhões, ou seja, parcos 13,5%, sairão do orçamento da União; os restantes 86,5%, que somam R$ 436,1 bilhões, virão das estatais federais e do setor privado - e, mesmo assim, parte dos recursos públicos será desviada do FGTS e uma parcela do dinheiro das estatais será obtida com a venda de ações em mercado. Parece que os autores do PAC inventaram o keynesianismo com recursos privados. Nobel para eles! É o Pacote Muquirana, em que o governo entra com as ordens e os empresários e trabalhadores, com a grana...
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A quarta "trava" não removida pelo programa é seu caráter absolutamente centralizador na União, sem o menor respeito para com o federalismo e o respectivo princípio da subsidiariedade. Permanecem o terrível vício brasileiro de tudo decidir em Brasília e a crença de que os iluminados burocratas do governo têm o poder de puxar e repuxar as cordinhas do crescimento, fazendo dos agentes privados simples marionetes sem vontade e sempre prontos a agirem de acordo com os comandos dos planejadores.
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O pacote é tão fracote que o próprio presidente solicitou à sua gerente Dilma, dois dias depois de anunciado, uma lista dos descontentes com seus efeitos, para uma eventual revisão.
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Pensei que a triste época dos planos havia ficado para trás. Doce ilusão!

Uma maquiagem cretina

Governo transfere déficit para mudar Previdência Social
João Caminoto, Luciana Xavier, Sueli Campo, Jacqueline Farid E Wilson Tosta, Estadão
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Apesar de garantir que a medida provisória que vai transferir para a conta do Tesouro cerca de R$ 18 bilhões de gastos da Previdência Social é “mero arranjo burocrático”, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, enfatizou ontem a disposição do governo em fazer mudanças na Previdência. As declarações do ministro foram feitas em encontro com um grupo de 15 analistas graduados de bancos e fundos de investimentos da City londrina, no qual Mantega chegou a citar o termo “reforma”.
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“A MP não tem efeito fiscal. Ela foi mal entendida. É apenas uma medida de realocação de espaço fiscal”, disse o ministro, referindo-se a reportagem publicada ontem no jornal O Globo. De acordo com a reportagem, o Tesouro assumirá gastos com subsídios a aposentadorias de trabalhadores rurais, domésticos e pequenas empresas e o objetivo da MP é reduzir o déficit do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
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Ontem a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, disse que os gastos do Tesouro com a Previdência serão divulgados com maior transparência a partir de agora, sem conseqüências para o superávit primário. “O que achamos é que é computado como déficit previdenciário uma série de políticas públicas que não têm nada a ver com Previdência”, disse. Como exemplo, ela citou que toda a política de subsídio ao idoso e toda a política de aposentadoria rural são computadas como déficit. A ministra já admitiu que, no segundo mandato, o governo Lula vai fazer as reformas tributária e previdenciária.
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Ajuste de contas
“(O governo) não está passando para o Tesouro o déficit da Previdência. Aliás, todo o déficit da Previdência já é arcado pelo Tesouro, diga-se de passagem. Então, não dá para fazer a mesma coisa duas vezes. Não está mudando nada em relação ao Tesouro e à Previdência. É apenas uma medida burocrática de ajuste de contas”, garantiu Mantega, em entrevista à Agência Estado.
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Segundo o estrategista-chefe para Mercados Emergentes do Royal Bank da Escócia, Gene Frieda, que participou do encontro com o ministro, Mantega deixou claro que a estratégia do governo é fazer mudanças graduais. “Ele foi claro ao dizer que a intenção é reformar o sistema previdenciário, mas passo a passo e sem afobação.”
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A situação da Previdência e seu impacto de longo prazo sobre a estabilidade fiscal do País é um dos pontos que mais preocupam investidores estrangeiros. A maioria critica o fato de no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) não terem sido incluídas medidas concretas para a redução dos custos nessa área. O fórum de discussão da Previdência, criado com o PAC na semana passada, é encarado com ceticismo.
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Em sua participação no Fórum Econômico Mundial, em Davos, na semana passada, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva não descartou reformas na Previdência, mas deixou claro acreditar que a aceleração do crescimento do País e a melhora de gestão serão suficientes para atenuar o problema nos próximos anos. Lula também responsabilizou a política social pelo rombo da Previdência, e afirmou que o déficit deve ser bancado pelo Tesouro.
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Atraso
Preso no trânsito de Londres, Mantega se atrasou em mais de uma hora para o encontro no fim da manhã com os analistas na sede da embaixada brasileira, ao qual a imprensa não teve acesso. Por isso, vários foram embora antes da chegada do ministro. “Quem sabe da próxima vez o ministro é mais cauteloso e pega o metrô”, brincou uma estrategista de um fundo britânico, que decidiu ir embora.De acordo com os participantes, Mantega apresentou as linhas gerais do PAC e respondeu a algumas perguntas. “Foi mais do mesmo, sem novidades”, disse um analista de um banco europeu. Logo após esse encontro, o ministro almoçou na residência oficial da embaixada brasileira com executivos de três grandes bancos europeus - HSBC, Deutsche Bank e Dresdner Kleinwort -, além de um representante do Banco do Brasil.
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Frases
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Guido Mantega, Ministro da Fazenda
“Todo o déficit da Previdência já é arcado pelo Tesouro. Então, não dá para fazer a mesma coisa duas vezes”
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Dilma Rousseff, Ministra da Casa Civil
“O que achamos é que é computado como déficit previdenciário uma série de políticas públicas que não têm nada a ver com Previdência”
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COMENTANDO A NOTÍCIA: E vem cá, gente fina, vergonha na cara nem pensar ? Tão pensando o quê, que somos todos otários para engolir esta palhaçada !!! Chega de mentiras, enganação e teatro, ok ? Não é empurrando o déficit para o Tesouro Nacional que ele deixa de existir ! Ele vai continuar existindo, apenas que com uma diferença: ao ser empurrado para o Tesouro, estão transformando a dívida de alguns, na dívida de todos. Diz o governo, por seu Ministro da Previdência, que o rombo é devido por causa das renúncias promovidas pelo Governo. Muito bem: e as aposentadorias privilegiadas de alguns, quem vai pagar ? Vão continuar existindo as mesmas leis em favor de poucos ? Para quem conhece como funciona a previdência no Brasil sabe perfeitamente bem que a reforma é indispensável, não apenas por razões econômicas, mas por questão de justiça social, equanimidade de tratamento dentre todos os assistidos pelo sistema. É disso que se fala. A questão de caixa, é apenas a conseqüência. Se as razões persistirem, os déficits se sucederão ad eternum. Sem esquecer da questão atuarial.

Bancando o Tiradentes com o pescoço dos outros

Lucia Hippolito, Blog do Noblat

É difícil imaginar que o Palácio do Planalto e as principais cabeças pensantes do governo Lula pudessem nutrir a ilusão de que o Plano de Aceleração do Crescimento viesse a ser aceito sem restrições.

Seria de uma perigosa ingenuidade, e ali não existe nenhum ingênuo. A começar pelo presidente.

O governo central fez um programa de obras que interfere diretamente nos estados, sem sequer ter tido a gentileza de perguntar aos governadores quais eram as suas prioridades.

Assim como se alguém metesse o pé na porta de minha casa e declarasse que vai reformar a minha cozinha. "Mas a sala está em pior estado..."

Em segundo lugar, o PAC propõe a desoneração de vários setores da economia, e para isso lançará mão da arrecadação de impostos e contribuições, que não partilha com os estados.

Fazendo cortesia com o chapéu alheio, ou, como se diz lá no interior de Minas, bancando o Tiradentes com o pescoço dos outros... No caso, o pescoço dos governadores.

Daí porque as reuniões entre governadores da oposição e da base aliada não configuram nenhuma rebelião contra o poder central, mas uma tomada de posição da federação.

É preciso repensar a partilha dos impostos e contribuições entre União, estados e municípios. É preciso discutir melhor os projetos, adaptando-os às necessidades de cada estado.

É preciso, enfim, rediscutir o pacto federativo.

Não adianta tentar empurrar pela goela dos governadores abaixo um projeto gestado no governo central por ministros e burocratas sem voto.

Assim como o presidente Lula, os governadores também foram eleitos, alguns até com votação consagradora. Não podem ser desconsiderados.

Da mesma forma, o pacote deverá ser alterado no Congresso, o foro adequado para discutir e votar as várias Medidas Provisórias e projetos de lei. Deputados e senadores não gostam de prato feito. Vão discutir e modificar os projetos do Executivo. Em alguns casos, o resultado sairá até melhor.

Por isso, os próximos meses deverão ser de intensa negociação. O presidente Lula tem-se dedicado a negociar com os partidos políticos, mas precisa de um número maior de articuladores.

Afinal, não fica nem bem para um presidente da República negociar o varejo. Esta tarefa cabe a subordinados.

Depois que se resolver a eleição na Câmara e no Senado é que o carro vai começar a andar. Por enquanto, ninguém arrisca um palpite sobre o tamanho da fratura na base aliada, e muito menos sobre o tamanho da fatura que se será apresentada ao Palácio do Planalto.

A quem o Congresso representa e seus compadres

Adelson Elias Vasconcellos

Vamos lá. Escrevo antes da decisão de quem será o Presidente da Câmara, mas com Renan Calheiros reeleito no Senado Federal.

Desde que acabou a ditadura militar, esta seguramente foi a eleição para o Presidente da Câmara que mais interesse despertou, seja na mídia ou na opinião pública. O momento talvez tenha contribuído, mas outros fatores também serviram para incendiar este interesse.

De um lado, o quadro político brasileiro perdeu combatividade desde que Lula ganhou em 2002. A política brasileira passou a ser feita num baixo nível doloroso. Basta ver os escândalos ocorridos dentro do Congresso, independente das absolvições, das cretinices e da impunidade constante que ali se vive há tanto tempo.

De outro, porque foi se gerando no interior dos espíritos críticos, a sensação de que tudo o que contrariar a cartilha petista, é ruim para a democracia. É isso mesmo. Quando o petê esteve na oposição, jamais ele estendeu a mão para coisa alguma, jamais aceitou participar de coalizões ou de entendimentos para o desenvolvimento de um projeto nacional de consenso. O petê, dentro do estilo xiita cafajeste, sempre chutou o balde de todo o mundo, sempre fez uma oposição raivosa e de alto poder de destruição. E sempre agiu trazendo e desfraldando a bandeira da ética, da moralidade da coisa pública.

Instalado no poder federal, a primeira ação petista foi a de empreender seu programa chamado de POC – Plano de Ocupação de Cargos. Depois, tratou de apagar a história do país. Depois, tratou de comprar consciências, estivessem elas instaladas no Congresso, ou nas entidades ditas sociais, nos sindicatos, nos MST’s da vida, nas ONG’s, através de farta e generosa distribuição de verbas públicas, sem a necessária contrapartida ou contraprestação de serviços e de contas. Fruto disso, o Tribunal de Contas da União passou a colecionar relatórios e mais relatórios de irregularidades na distribuição, uso e destino dos valores dados em “doação”. Mas, por outro lado, na época do escândalo do mensalão, não se viu nenhuma destas entidades saindo às ruas pedindo fora dirceu, fora lulla, fora o que quer que fosse, e que estivesse envolvido nas patifarias.

A partir do momento em que a sociedade estupefata presenciou a cretinice praticada sem que ninguém fosse punido ou julgado ao menos, a sociedade perdeu a noção de si mesma, saiu dos trilhos. Esbudegou-se. Mas o escândalo também serviu para mostrar uma coisa que já se suspeitava, mas da qual não se tinha prova concreta, ainda: a de que o Congresso pode ser representante de qualquer coisa, menos daqueles que os escolhe e elege, que é o povo. O desprezo e descaso para com a opinião pública foram jogados em nossa cara de forma acintosa. E o cenário que se abriu aos nossos olhos foi a de uma casa de pilantras representando apenas seus únicos, exclusivos e escusos interesses pessoais. Este talvez seja o primeiro preço daquilo que deveria ser um direito e se transformou apenas em um dever. Sem sentido, sem finalidade democrática, mas apenas um dever. E não de civismo. Mas de coroamento do cretinismo nacional. Tome-se os três poderes da república, legislativo, executivo e judiciário. Os três são independentes ? Não no Brasil. Aqui, o Executivo manda o Legislativo legislar o seu arbítrio para o Judiciário emprestar-lhe a legalidade necessária. Depois, atira-se esta porcaria toda no colo do povo, que deverá pagar os juros e os impostos mais escorchantes do mundo para sustentar a canalhada toda. E anotem: o que pagamos não é para nos ser devolvido na forma de serviços decentes. Não mesmo ! O que pagamos é o preço dos senhores donos do bordel que nos permitem aqui viver, mediante o caro aluguel.

E, para culminar com a palhaçada toda, vende-se isto tudo como uma democracia representativa. Pura encenação. Trata-se do chiqueiro fino em que os porcos chafurdam-se na lama da exploração e da selvageria. Somos seus escravos, eles nossos senhores e donos. Eis o retrato dantesco da realidade brasileira. Engana-se quem tenta iludir-se imaginando o contrário.

A eleição para presidente na verdade se dá para saberem quem comandará o processo escravocrata da danação do Executivo sobre a massa falida da população. Saberem quem será o sinhozinho na senzala, já que na Casa Grande o grande “nhô-nhô” continuará a ditar sua própria história, feita de malandragens e sacanagens, agora sob o manto de um guarda –chuvas estampado onde se lê PAC. Vamos inaugurar assinatura de contratos para construção de qualquer droga, até festins bacanais na inauguração de consertos de buracos rodoviários. E tudo para legitimar o embrulho de nos enfiarem uma ditadura civil goela abaixo. Não uma ditadura qualquer. Uma mais refinada, onde você terá o direito de escolher de quem você quer apanhar e por quem você quer ser explorado. É isso aí, ditadura com representatividade é coisa chique, coisa de quarto mundo, mas coisa do século XXI, coisa de louco, claro, mas é produto legitimamente nacional, bordado em bandeira verde-amarela, onde as estrelas se tornaram vermelhas. Aquele carimbo de MADE IN BRAZIL, era coisa de neoliberal, exigência dos senhores do FMI. Agora estará em seu lugar: "FEITA PELOS CRETINOS DO BRASIL ". Coisa muito fina. Coisa brasileira. Coisa de petista retrógrado-progressista.

Ah, e aquela mania de privatização também acabou. Agora nada será vendido. Tudo na mais perfeita parceria pública na privada financeira. A previdência está com rombo histórico ? Simples, acabe-se com o déficit, mudando a sua contabilidade ora bolas. O déficit a gente empurra para o Tesouro Nacional e tá resolvido o rombo. E, de quebra, a gente entrega aos banqueiros a administração da folha do INSS. Deixa os “omi” ganhar dinheiro, seu moço ! Ah o clima está esquentando ? Pronto, o Brasil vai resolver o problema do mundo, entregando 11 áreas de florestas para a iniciativa privada engarrafar o oxigênio antes que as queimadas acabem com ele. Não é simples ? Ah, esta história de conselho político para ajudar a fazer os projetos é lorota de antes da eleição. Depois de ganha, que cada um faça seu PACzinho. Gente idiota estes governadores não é mesmo ? Será que eles não sabiam que aquele história toda de entendimento era pura lorota ? E que falta de patriotismo este deles, em se negarem a abrir mão de alguns milhões de impostos ? Deixa prá gente cuidar. Como ninguém, sabemos onde se encontram os melhores paraísos fiscais do Planeta. E sem deixar rastros. Temos know-how para enganar. Basta ver o caso do dossiê: até hoje ninguém sabe de quem é aquele 1,700 milhão ! Viram ? E se der problema, temos os melhores criminalistas à nossa disposição, e quem comanda a Polícia Federal vocês já esqueceram ? Então seus latinos bundões, parem de chorar miséria e continuem se enganando achando que nós nos preocupamos com vocês, será que já não bastam os bolsa-qualquer-coisa que inventamos para mascarar nossa cretinice? Será que não temos direito de sermos governantes cafajestes !!! Vocês são muito exigentes, muito exigentes.