Por Bill Emmott, Revista EXAME
A economia mundial viveu quatro anos tão espetaculares que parece falta de educação, ou talvez imprudência, perguntar por quê. A resposta costumeira dada a essa questão é a globalização, o aumento em escala mundial de abertura comercial e fluxo de capitais que é associado ao rápido crescimento econômico nos Bric, o bloco de nações emergentes formado por Brasil, Rússia, Índia e China. Contudo, há algo de errado nessa explicação: trata-se de uma tendência de longo prazo utilizada para justificar um fenômeno que, por enquanto, é de curto prazo. Além disso, ela não leva em conta um dado importante: o papel do aumento explosivo dos preços das commodities. Agora que esses preços estão caindo, será possível ver o quanto foram importantes.
Existe, é claro, uma conexão entre globalização e o boom nas cotações das commodities desde 2002. O enorme apetite da China, de modo especial, e no futuro possivelmente também da Índia, por petróleo, minério de ferro, cobre, alumínio, níquel, estanho, trigo -- praticamente qualquer coisa que possa ser extraída da terra ou nela cultivada -- serve de explicação para o "superciclo" que hoje as commodities atravessam, um período longo de preços altos.
O problema é que essa é uma descrição de fatos, não uma explicação. A globalização existe há mais de duas décadas; ela cresceu enormemente no início dos anos 90 com a derrocada da União Soviética, a abertura do comércio indiano em resposta à crise econômica que assolava o país e a liberalização comercial em vários países da América Latina. Não houve nesses primeiros anos, porém, nenhum aumento dos preços das commodities, tampouco a economia mundial desfrutou de uma expansão tão sólida como a de agora. A recente onda de crescimento foi realmente uma grande surpresa. Há quatro anos o PIB mundial cresce entre 4,5% e 5,5% ao ano em termos reais, o melhor quadriênio em pelo menos quatro décadas. Mas, quando o FMI se reuniu em setembro de 2002, a previsão dos economistas era que 2003 seria um ano apenas ligeiramente melhor que o biênio 2001 e 2002, mas isso porque aquele fora um período bastante desanimador. Esperava-se que os preços do petróleo e de outras commodities se estabilizassem ou caíssem, e não que explodissem.
A economia mundial viveu quatro anos tão espetaculares que parece falta de educação, ou talvez imprudência, perguntar por quê. A resposta costumeira dada a essa questão é a globalização, o aumento em escala mundial de abertura comercial e fluxo de capitais que é associado ao rápido crescimento econômico nos Bric, o bloco de nações emergentes formado por Brasil, Rússia, Índia e China. Contudo, há algo de errado nessa explicação: trata-se de uma tendência de longo prazo utilizada para justificar um fenômeno que, por enquanto, é de curto prazo. Além disso, ela não leva em conta um dado importante: o papel do aumento explosivo dos preços das commodities. Agora que esses preços estão caindo, será possível ver o quanto foram importantes.
Existe, é claro, uma conexão entre globalização e o boom nas cotações das commodities desde 2002. O enorme apetite da China, de modo especial, e no futuro possivelmente também da Índia, por petróleo, minério de ferro, cobre, alumínio, níquel, estanho, trigo -- praticamente qualquer coisa que possa ser extraída da terra ou nela cultivada -- serve de explicação para o "superciclo" que hoje as commodities atravessam, um período longo de preços altos.
O problema é que essa é uma descrição de fatos, não uma explicação. A globalização existe há mais de duas décadas; ela cresceu enormemente no início dos anos 90 com a derrocada da União Soviética, a abertura do comércio indiano em resposta à crise econômica que assolava o país e a liberalização comercial em vários países da América Latina. Não houve nesses primeiros anos, porém, nenhum aumento dos preços das commodities, tampouco a economia mundial desfrutou de uma expansão tão sólida como a de agora. A recente onda de crescimento foi realmente uma grande surpresa. Há quatro anos o PIB mundial cresce entre 4,5% e 5,5% ao ano em termos reais, o melhor quadriênio em pelo menos quatro décadas. Mas, quando o FMI se reuniu em setembro de 2002, a previsão dos economistas era que 2003 seria um ano apenas ligeiramente melhor que o biênio 2001 e 2002, mas isso porque aquele fora um período bastante desanimador. Esperava-se que os preços do petróleo e de outras commodities se estabilizassem ou caíssem, e não que explodissem.
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A alegria da sincronia
Em vez disso, o crescimento mundial deu um salto, os preços do petróleo quase triplicaram e o valor de várias commodities subiu numa proporção ainda maior -- sem que a expansão fosse prejudicada pelo aumento da inflação. Economistas dos países ricos explicam o fenômeno com o argumento de que suas economias são mais flexíveis hoje, utilizam menos petróleo e outras commodities por unidade produzida e contam com bancos centrais que, no entender dos mercados, derrotarão a inflação se ela se tornar perigosa. Mas isso é apenas parte da história. A outra parte, importante para os países produtores de matérias-primas, majoritariamente pobres e situados no hemisfério sul, é que o boom nos preços de commodities distribuiu os frutos do crescimento e, pelo menos por enquanto, fez com que o mundo se mantivesse política e economicamente estável.
Essa sincronia no crescimento mundial tem sido, sem a menor sombra de dúvida, benéfica. Os preços do barril de petróleo, entre 50 e 80 dólares, têm conferido estabilidade aos governos da Arábia Saudita e de outras nações árabes num período em que a invasão anglo-americana do Iraque poderia ser uma ameaça. A África subsaariana, a região mais pobre do mundo e que vem perdendo terreno há décadas, cresce em torno de mais de 5% ao ano graças aos preços elevados do petróleo e dos metais. O Brasil não tem tirado proveito como deveria dessa situação, mas mesmo assim deve os cerca de 3% de crescimento esperados para 2006 a esse fenômeno, assim como o Chile, com seus 4,5% a 5%, ou a Venezuela, com quase 8%.
Sob alguns aspectos, esse cenário teve efeitos desconfortáveis: o comportamento provocador do Irã e da Venezuela de Hugo Chávez deve muito à percepção desses países de que hoje detêm poder econômico. De modo geral, porém, até George W. Bush deveria admitir que o aumento dos preços das commodities e o crescimento sincrônico resultante produziram um período de calmaria que poderia ter sido bastante turbulento no mundo todo, em vez de apenas no Oriente Médio.
A alegria da sincronia
Em vez disso, o crescimento mundial deu um salto, os preços do petróleo quase triplicaram e o valor de várias commodities subiu numa proporção ainda maior -- sem que a expansão fosse prejudicada pelo aumento da inflação. Economistas dos países ricos explicam o fenômeno com o argumento de que suas economias são mais flexíveis hoje, utilizam menos petróleo e outras commodities por unidade produzida e contam com bancos centrais que, no entender dos mercados, derrotarão a inflação se ela se tornar perigosa. Mas isso é apenas parte da história. A outra parte, importante para os países produtores de matérias-primas, majoritariamente pobres e situados no hemisfério sul, é que o boom nos preços de commodities distribuiu os frutos do crescimento e, pelo menos por enquanto, fez com que o mundo se mantivesse política e economicamente estável.
Essa sincronia no crescimento mundial tem sido, sem a menor sombra de dúvida, benéfica. Os preços do barril de petróleo, entre 50 e 80 dólares, têm conferido estabilidade aos governos da Arábia Saudita e de outras nações árabes num período em que a invasão anglo-americana do Iraque poderia ser uma ameaça. A África subsaariana, a região mais pobre do mundo e que vem perdendo terreno há décadas, cresce em torno de mais de 5% ao ano graças aos preços elevados do petróleo e dos metais. O Brasil não tem tirado proveito como deveria dessa situação, mas mesmo assim deve os cerca de 3% de crescimento esperados para 2006 a esse fenômeno, assim como o Chile, com seus 4,5% a 5%, ou a Venezuela, com quase 8%.
Sob alguns aspectos, esse cenário teve efeitos desconfortáveis: o comportamento provocador do Irã e da Venezuela de Hugo Chávez deve muito à percepção desses países de que hoje detêm poder econômico. De modo geral, porém, até George W. Bush deveria admitir que o aumento dos preços das commodities e o crescimento sincrônico resultante produziram um período de calmaria que poderia ter sido bastante turbulento no mundo todo, em vez de apenas no Oriente Médio.
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Um ponto de inflexão?
Apesar do avanço da globalização, houve uma queda substancial nos preços das commodities nos últimos seis meses. Os preços do petróleo chegaram ao valor máximo de 78 dólares por barril em junho. Em meados de janeiro, entretanto, haviam caído 35%, estabilizando-se numa faixa próxima a 50 dólares. Nenhum dos principais consumidores de petróleo sofreu uma desaceleração importante -- muito menos uma recessão --, portanto, não houve nenhuma queda abrupta na demanda que explicasse a redução nas cotações. Ao mesmo tempo, os preços do cobre caíram em mais de um terço desde o pico atingido em maio de 2006. O valor de outros metais caiu menos, mas, ainda assim, o índice de preços das commodities organizado pela The Economist acusava no início de janeiro queda de 9,8% em dólares em apenas um mês.
Todos esses preços continuam consideravelmente mais elevados do que há quatro anos. O petróleo a 50 dólares o barril ou o cobre a aproximadamente 6 000 dólares a tonelada continuam a ser produtos bastante atraentes para quem os vende. Mas e se os preços continuarem a cair? A queda observada até agora pode até ter sido causada por especuladores no mercado financeiro, que antes teriam empurrado os preços para um patamar mais elevado do que seria esperado pelos níveis de oferta e demanda e que agora tornaram-se vendedores -- seja por medo, seja pelas taxas de juro mais altas. Muito da alta anterior, no entanto, pode ser explicada pela escassez de oferta, decorrente dos baixos níveis de investimento das empresas de mineração e de petróleo durante as últimas duas décadas de preços reduzidos. O aumento da demanda, impulsionada pela globalização, chocou- se com a pouca oferta: os preços foram às alturas.
Contudo, como é fato mais do que sabido no setor de recursos naturais, a oferta sobe quando mais investimentos tornam um aumento de produção possível. Quem aposta na alta acredita que esse será um processo lento, porque as minas e os poços de petróleo levam anos para começar a produzir e porque os profissionais capacitados necessários para viabilizar esse aumento de produção são escassos.
O argumento oposto, no entanto, também depende do fato de que oferta e demanda de petróleo e outras commodities estejam num equilíbrio preciso. Sim, diz quem aposta na baixa das cotações, irá levar anos para que haja aumento substancial nas reservas ou na oferta atual de petróleo e outras commodities. Mas variação de preços não depende de grandes aumentos na produção; ela depende de pequenas alterações no equilíbrio entre oferta e procura. E essas oscilações podem ocorrer bem depressa.
Já há dois exemplos bastante significativos disso. A queda nos preços do petróleo durante as primeiras semanas de janeiro não foi causada pela tão temida recessão americana -- ela foi causada por um inverno mais ameno que o esperado em boa parte dos Estados Unidos e da Europa. A diminuição nos preços do cobre durante a segunda metade do ano passado pode ter tido muito a ver com especulação, mas outro fator que contribuiu foi a desaceleração da demanda e o aumento dos níveis dos estoques na China. Preços altos levaram os consumidores a procurar por substitutos; por sua vez, a oferta vem aumentando gradualmente. Essas são pequenas oscilações, mas que produziram efeitos enormes e repentinos.
De modo geral, me inclino aos que esperam queda nas cotações, inclusive nas de petróleo. Há espaço para outras baixas substanciais nos valores de todas as commodities, à medida que a demanda cair, a oferta aumentar e os fundos de investimento saírem do mercado. É claro que a instabilidade política pode atrapalhar o fornecimento de petróleo e de outras commodities. Mas, no final das contas, os brasileiros e os habitantes de outros países exportadores de matérias-primas precisam aceitar o fato de que as grandes quedas de preços são tão prováveis quanto os grandes aumentos. A globalização pode muito bem significar que a demanda vai crescer no longo prazo. No entanto, a tecnologia e o investimento, num mundo aberto e dotado de vários possíveis fornecedores, podem também elevar fortemente a oferta. O argumento para que países produtores de commodities diversifiquem sua economia continua poderoso -- para o longo prazo.
Um ponto de inflexão?
Apesar do avanço da globalização, houve uma queda substancial nos preços das commodities nos últimos seis meses. Os preços do petróleo chegaram ao valor máximo de 78 dólares por barril em junho. Em meados de janeiro, entretanto, haviam caído 35%, estabilizando-se numa faixa próxima a 50 dólares. Nenhum dos principais consumidores de petróleo sofreu uma desaceleração importante -- muito menos uma recessão --, portanto, não houve nenhuma queda abrupta na demanda que explicasse a redução nas cotações. Ao mesmo tempo, os preços do cobre caíram em mais de um terço desde o pico atingido em maio de 2006. O valor de outros metais caiu menos, mas, ainda assim, o índice de preços das commodities organizado pela The Economist acusava no início de janeiro queda de 9,8% em dólares em apenas um mês.
Todos esses preços continuam consideravelmente mais elevados do que há quatro anos. O petróleo a 50 dólares o barril ou o cobre a aproximadamente 6 000 dólares a tonelada continuam a ser produtos bastante atraentes para quem os vende. Mas e se os preços continuarem a cair? A queda observada até agora pode até ter sido causada por especuladores no mercado financeiro, que antes teriam empurrado os preços para um patamar mais elevado do que seria esperado pelos níveis de oferta e demanda e que agora tornaram-se vendedores -- seja por medo, seja pelas taxas de juro mais altas. Muito da alta anterior, no entanto, pode ser explicada pela escassez de oferta, decorrente dos baixos níveis de investimento das empresas de mineração e de petróleo durante as últimas duas décadas de preços reduzidos. O aumento da demanda, impulsionada pela globalização, chocou- se com a pouca oferta: os preços foram às alturas.
Contudo, como é fato mais do que sabido no setor de recursos naturais, a oferta sobe quando mais investimentos tornam um aumento de produção possível. Quem aposta na alta acredita que esse será um processo lento, porque as minas e os poços de petróleo levam anos para começar a produzir e porque os profissionais capacitados necessários para viabilizar esse aumento de produção são escassos.
O argumento oposto, no entanto, também depende do fato de que oferta e demanda de petróleo e outras commodities estejam num equilíbrio preciso. Sim, diz quem aposta na baixa das cotações, irá levar anos para que haja aumento substancial nas reservas ou na oferta atual de petróleo e outras commodities. Mas variação de preços não depende de grandes aumentos na produção; ela depende de pequenas alterações no equilíbrio entre oferta e procura. E essas oscilações podem ocorrer bem depressa.
Já há dois exemplos bastante significativos disso. A queda nos preços do petróleo durante as primeiras semanas de janeiro não foi causada pela tão temida recessão americana -- ela foi causada por um inverno mais ameno que o esperado em boa parte dos Estados Unidos e da Europa. A diminuição nos preços do cobre durante a segunda metade do ano passado pode ter tido muito a ver com especulação, mas outro fator que contribuiu foi a desaceleração da demanda e o aumento dos níveis dos estoques na China. Preços altos levaram os consumidores a procurar por substitutos; por sua vez, a oferta vem aumentando gradualmente. Essas são pequenas oscilações, mas que produziram efeitos enormes e repentinos.
De modo geral, me inclino aos que esperam queda nas cotações, inclusive nas de petróleo. Há espaço para outras baixas substanciais nos valores de todas as commodities, à medida que a demanda cair, a oferta aumentar e os fundos de investimento saírem do mercado. É claro que a instabilidade política pode atrapalhar o fornecimento de petróleo e de outras commodities. Mas, no final das contas, os brasileiros e os habitantes de outros países exportadores de matérias-primas precisam aceitar o fato de que as grandes quedas de preços são tão prováveis quanto os grandes aumentos. A globalização pode muito bem significar que a demanda vai crescer no longo prazo. No entanto, a tecnologia e o investimento, num mundo aberto e dotado de vários possíveis fornecedores, podem também elevar fortemente a oferta. O argumento para que países produtores de commodities diversifiquem sua economia continua poderoso -- para o longo prazo.