Adelson Elias Vasconcellos
Muitos atribuem a Marina Silva que a eleição presidencial tenha ido para segundo turno. Outros, que os escândalos das violações de sigilos dos tucanos e do bolsa-família de Erenice Guerra na Casa Civil, tenham feito Dilma perder preciosos votos que, no final, fizeram falta. Outros mais, que o defende/não defende sobre aborto de Dilma, a tenha prejudicado junto aos evangélicos e católicos, empurrando-os para a chapa de Marina.
A meu ver é tudo isso aí e mais um pouco. Senão vejamos: Marina pontuou quase 20%, Serra marcou pouco mais de 32%. Só aí, já se teria segundo turno. Ora, não é de hoje que sabemos que o país se divide em 1/3 do eleitorado favorável ao Petê, outro 1/3 favorável aos tucanos e o terço final é aquela parte do eleitorado que flutua conforme campanha ou fatos de última hora. Serra, se sua campanha foi pífia – e foi, é inegável -, teve ao menos o dom de preservar quase a totalidade dos votos cativos do seu partido. Dilma arrebanhou o 1/3 do Petê e mais um pouco do terço flutuante. Marina foi a estrela da eleição mas não a única causadora do segundo turno.
Os escândalos influenciaram negativamente? É claro que sim, mesmo que, boa parte da população, sequer tenha tomado conhecimento do noticiário.
Mas também as atuações patéticas de Lula nas últimas semanas provocaram segundo turno. Ou ninguém terá se assustado diante de afirmações de “extermínio à oposição” e os seguidos e repetidos ataques à imprensa?
Mas há mais: o intenso uso da máquina e recursos do Estado em favor de um partido em campanha, que pela lei eleitoral são crimes e que apenas o TSE não os vê, também interferiram. Os programas do governo Lula lançados unicamente com vistas ao resultado das urnas também empurraram dona Dilma. Peguem as joias raras da coroa: Minha Casa Minha Vida, sequer passou de 5% da meta prometida. O PAC 1.0, metade está no papel, 11% apenas foi concluído, e o restante está devagar quase parando. E a ver: 90% do prometido, se trata de obras iniciadas em governos anteriores, portanto, são continuidade do que já existia e não obras novas. Isto impactou o lado positivo da campanha de Dilma.
E qual terá o negativo? O Jornal Nacional da Rede Globo, com o seu JN no AR, mostrou aos brasileiros em geral, uma realidade bastante diversa da que o programa eleitoral da candidata Dilma exibia todas as noites. E uma realidade, diga-se, horrorosa. Enquanto no programa da Dilma não havia miséria, todo mundo era atendido em excelentes hospitais, as estradas são uma maravilha sem buracos, todo mundo morando em casas com luz, água e esgoto, escolas em prédios excelentes, com crianças todas bem nutridas e recebendo uma educação de primeiro mundo (arre!), o que as imagens no noticiário demonstraram, contudo, era o Brasil verdadeiro, com pobreza, atraso, serviços públicos precários e indignos, falta de saneamento na maior parte do país, infraestrutura medíocre abaixo da crítica.
Assim, se não se pode negar a “vitória política” de Marina Silva e seu discurso em favor do meio ambiente, também não pode negar o valor de um José Serra, que movido por uma campanha ridícula, mesmo assim conseguiu se sustentar por um aspecto inegável: fez um governo muito bom em São Paulo e tem um passado contra o qual ninguém pode atacá-lo. Portanto, como se vê, já temos dois fatores positivos e não apenas um. E, por fim, os pontos negativos de Dilma e Lula.
Assim, seria simplório demais querer reduzir-se os acontecimentos desta eleição a um único fator ou fenômeno.
Desta vez, mais do que em qualquer outra eleição, o segundo turno será sim uma nova eleição. Começo pelo lado de Dilma Rousseff. Pesa contra ela sua dupla posição em relação ao Aborto. De algum modo, não se livrará tão fácil. Houve momentos em que se disse favorável quanto a descriminalização, em outros, negou. Todos estão gravados e testemunhados. Neutralizar ? Bem, isto é o ela que deverá fazer. Depois, como destaquei no final da noite de ontem, ela terá que se mostrar mais. Vimos aqui que Lula em 2010, na campanha de Dilma, apareceu muito mais do que na sua própria campanha de 2006. A candidata governista foi como que isolada, com Lula lhe dando cobertura e apoio incondicionais. Agora, ficará obrigatoriamente mais exposta, até porque será mais cobrada, e na tevê serão iguais.
Quanto a Serra, bem o caminho do tucano já seria não fácil em condições normais de enfrentamento com uma candidata apoiada por Lula, fosse quem fosse. Tendo chegado a um terço do eleitorado , não apenas precisará atrair a grande parte dos que votaram em Marina Silva, mas, ainda, precisará recuperar um pouco dos que perdeu para a própria Dilma. E diga-se: perdeu por conta de sua campanha inepta e não porque se mostrasse melhor ou pior. Melhor, sim, foi a campanha petista, mas não o discurso e a presença perante o eleitorado.
Seria interessante que Serra olhasse a campanha vitoriosa de Aloysio Nunes para o senado, pelo Estado de São Paulo. Sempre, de acordo com as “famosas pesquisas”, ele esteve na rabeira. Dias antes do pleito, aparecia em terceiro, com Marta R&G Suplicy e o cantor Netinho praticamente, sendo declarados já eleitos. Na hora da apuração, Aloysio surpreendeu e chegou, disparado, em primeiríssimo lugar. Mas como foi possível vencer o ceticismo dos analistas e das pesquisas? Bem, o senador paulista a partir de 2011, bateu duro no governo Lula, não teve medo de mostrar Fernando Henrique em sua campanha, destacou o legado do ex-presidente que plantou toda a estabilidade econômica e social que o país desfruta atualmente, exatamente tudo aquilo que o marqueteiro Luiz Gonzales não permitiu que Serra fizesse. Ou seja, Aloysio Nunes, ao contrário do ex-governador, fez o que parecia impossível: O-P-O-S-I-Ç-Ã-O. Não uma oposição descompassada, mas inteligente, porque o que não faltam no governo Lula são serviços públicos precários e abandonados, corrupção e mentiras.
Portanto, fica evidenciado que, a par da popularidade de Lula estar na casa dos 80%, nada impede que os pontos fracos de seu governo – e são muitos – sejam atacados e criticados. Afinal, boa parte desta popularidade se concentra justamente no fato de que o PSDB, simplesmente, desistiu de fazer o que mais lhe competia fazer, oposição. Lula jamais foi contrariado nem confrontado. Remou sozinho e com vento a favor o tempo todo.
As vitórias que o PSDB conquistou nas urnas são sinais positivos para que a campanha de José Serra tome novo impulso. Manter sua hegemonia em São Paulo e Minas Gerais e trazer ainda Paraná e Tocantins, ter Santa Catarina com DEM, seu principal aliado, e com chances de conquistar outros estados importantes como o Pará e Goiás, por exemplo, e mais o Distrito Federal, são palanques importantes para que Serra dê este novo impulso e ganhe terreno para se bater de igual para igual com Dilma Rousseff.
Mas Serra precisará, antes de tudo, ter a capacidade de agregar apoios, ouvir mais, aproximar-se mais de seus aliados e, principalmente, adotar uma posição mais crítica em relação ao governo Lula. E, fundamental em qualquer campanha, mostrar um projeto de país mais coerente com a nossa realidade onde privilegie melhor qualidade de vida com sustentabilidade tanto no crescimento econômico e social quanto nos recursos naturais. Mostrar a realidade dos números dos programas federais, mentirosa na propaganda oficial. Ou seja, ir para o confronto com as armas e recursos de que dispõem.
Deixe para Dilma e Lula o discurso do continuísmo irresponsável. As contas públicas aí estão visíveis para quem quiser ver, o quanto de irresponsabilidade tem sido cometido, principalmente, neste segundo mandato de Lula. Os tais programas decantados com a realidade não se coincidem. Mostre-se em que posição o país se encontra no ranking da competitividade, da educação, exiba-se o quanto de investimentos em saneamento básico foi investido por Lula e o que fez FHC, relembre-se ao país não o Brasil que FHC entregou, mas o que ele encontrou, o que era economia mundial para se avaliar quem faz com menos, e quem praticamente comprometeu a estabilidade econômica com uma política fiscal frouxa e perdulária. Enquanto Lula e Dilma falam de paraísos, mostrem-se os hospitais, as estradas, o estado de ruína de postos de saúde e de muitas escolas, mostre-se os números dos déficits em conta corrente, os juros, e o comprometimento das contas públicas, que impedirá espaço para redução carga tributária, a se continuar aplicando dinheiro no gigantismo desnecessário do Estado.
Mostrem-se também os números reais da dívida, externa e interna, mostre-se também que o Brasil está sendo monitorado pelo FMI tanto quanto era antes. E exiba-se também a centena de escândalos de corrupção do governo em oito anos.
Ou seja, para ser presidente, José Serra terá que agir muito mais politicamente do que o fez até aqui. E, neste caso, demonstrar que o continuísmo de Lula tem dois lados: de um lado, um continuísmo que nada mais é do que o continuísmo que ele próprio deu ao que Fernando Henrique começou, nas áreas social e econômica. E de outro, um continuísmo que precisa ser revertido urgentemente em nome da estabilidade, que é a farra fiscal. Em outras palavras: Serra precisará desarmar a bomba-relógio instalada por Lula e descaracterizar o mistificado “nuncadantez” com coragem e precisão cirúrgica.
Tarefa fácil? Claro que não, mas quem foi que disse que governar o Brasil é uma tarefa fácil? Assim, é na campanha que ele precisará demonstrar que tem capacidade para fazer. E a hora é essa.