Adelson Elias Vasconcellos
Refleti muito sobre a oportunidade de publicar a Carta Aberta escrita pelo general Francisco Batista Torres De Melo veiculou nesta terça feira e dirigida à jornalista Mirian Leitão.
A reflexão se fazia necessária por algumas questões que, na carta do general, não foram abordadas, questões que acabaram transformando a ditadura militar num regime repelido pela sociedade. Aquilo que era para ser provisório acabou se transformando em permanente e, para que isto pudesse acontecer os militares que estavam no poder acabaram empregando meios que eles próprios condenaram nas ditaduras que ajudaram a combater.
As questões da tortura e da censura acabaram se transformando em dois pecados capitais e que serviram e ainda servem como o manto que encobriu a intervenção correta praticada em 1964. Sei que o desejo manifesto do marechal Castelo Branco era devolver o poder no máximo dois anos após o golpe de 31 de Março. Porém, foi impedido por uma corrente de generais que entendiam que o prazo era curto demais para sufocarem as ambições da esquerda brasileira. E foi este o grande erro cometido naquela época. A tentativa de permanecerem no poder por mais tempo acabou sendo como que decretada a partir do AI-5 que fechou o regime de vez.
Em vários aspectos, a abordagem feita pelo general De Melo está absolutamente correta, principalmente a participação positiva dos militares em fatos da história do país, assim como a reação dos militares, tanto da ativa quanto da reserva, em se posicionarem contrários a revisão da Lei da Anistia.
Se o leitor quiser mesmo saber a verdade sobre a lei da Anistia, basta saber que ela foi um movimento nascido no seio da sociedade civil que ganhou às ruas conforme inúmeros registros fotográficos da época. Anistia ampla, geral e irrestrita era a voz de comando para o povo sair às ruas e protestar. Não foram os militares que criaram a Lei de Anistia, eles apenas lhe deram existência legal atendendo às vozes das ruas.
Outra questão que me fez refletir sobre a oportunidade ou não pela publicação foi que, em sua Carta Aberta, faltou ao general De Melo aprofundar-se sobre a ação das esquerdas, o treinamento de terroristas em Cuba para aplicarem um golpe de estado com o objetivo único de implementar no Brasil uma ditadura comunista. Poderia o general ter feito algumas referências até para esclarecimento público, já que a grande maioria do povo brasileiro atual, sequer era nascida naquele período.
A história como hoje as esquerdas tentam encenar, não passa de uma visão distorcida e perturbada da realidade brasileira e até sobre si mesmas. Posam hoje como defensores da democracia, de terem sido a força resistente contra a ditadura militar, mas deixam de lado, por conveniência hipócrita e canalha, qual era sua verdadeira pretensão ao combaterem a ditadura militar. Como deixam de lado as dezenas de assassinatos de inocentes que eles cometeram. Querem julgar a história dos outros, mas negam-se em serem julgados pela mesma história. Incoerência? Fosse apenas isso e, ainda assim, até se compreenderia. Ocorre que, tendo tomado o poder em suas mãos pela via democrática, tentam reescrever, de modo falso, a história do país dentro de uma concepção mentirosa, com o propósito de solaparem as instituições democráticas existentes, como forma de uma revanche em que tentarão impor uma hegemonia política de partido único, seguindo os rituais e a ideologia de esquerda.
Rever a lei de anistia é apenas uma das formas de quebrarem as resistências que pensam ainda existir na sociedade para imporem seu ideário político-ideológico. A situação vexatória da nossa realidade política atual e, que o país aturdido assiste sem meios de impedir, segue o receituário destrutivo com a qual as esquerdas entendem poder solapar o regime democrático e do estado de direito.
As fronteiras da moralidade, da decência, da lei e da ordem estão sendo corroídas em velocidade espantosa. As instituições estão sendo minadas e desmoralizadas perante a opinião pública até o ponto de máxima decadência, quando então a própria sociedade, cansada de tanta vergonha, acabe aceitando como natural o regime do partido único que, nada mais é, senão a ditadura, agora de esquerda.
Por tudo que está em jogo no momento presente, acabei optando por publicar a Carta Aberta do General De Melo por entender, com as ressalvas que faço aqui, como momento oportuno de se quebrar a hipocrisia, a mistificação e leviandade com que se tenta justificar que a história recente do país seja reescrita de modo oblíquo.
Não, as esquerdas sequer falam a verdade sobre si mesma, quanto mais reúnem moral suficiente para redesenhar o passado do país segundo sua ótica canalha. Assim, aqueles todos que se juntam à visão destrambelhada de se jogar no lixo a Lei da Anistia, seja por desinformação, seja por premeditada ação espúria para dar concepção e consistência venal ao projeto hegemônico dos petistas e seus asseclas, precisam ao menos serem desmascarados sobre suas reais intenções, aquelas inconfessadas e que se escondem sorrateiras por detrás desta máscara de santificação com que se apresentam à opinião pública brasileira. Os militares que hoje militam na ativa, e até os que se encontram na reserva, reconhecem, mesmo que alguns de forma tímida e reservada, os erros do passado e cometidos por seus colegas de farda. Já a esquerda, não: sob o manto do cinismo hediondo, justifica seu erros, seus crimes, seus delitos com mais mentiras e mistificações.
Fossem sinceros os seus propósitos, fossem honestas suas pretensões, assumiriam os crimes cometidos, demonstrando-se arrependidos pelo assassinato de dezenas de inocentes que nada tinham a ver nem com a ditadura, muito menos com sua ideologia. É claro que a máscara de “perfeitos democratas” desapareceria de imediato e muitos seriam compelidos a se explicarem. Mas qual?, nem assumir suas culpas nem demonstração de arrependimento. Esta gente se construiu em cima da mentira, valor incrustado em seu DNA.
Assim, só resta mesmo desmascará-los o tanto quanto for possível. Lamento que a jornalista Mirian Leitão tenha se deixado contaminar pelo vírus que a esquerdas estão disseminando na sociedade. Como comentarista econômica, não me nego em transcrever no blog suas análises corretas e abordagens precisas neste específico campo. Contudo, preciso discordar de forma cabal de suas colocações e opiniões sobre os tempos duros da ditadura militar quando esquece, não sei por ignorância ou conveniência, o lado obscuro da atuação das esquerdas.
Por isso, acabei decidindo transcrever aqui a carta do General De Melo, com as ressalvas acima. Preciso que o leitor tenha a certeza de uma coisa: não me alinho às correntes que ainda defende “aqueles bons tempos”. Minha geração inteira sofreu as agruras de uma ditadura feroz. Contudo, os motivos que lhe deram origem foram bem defendidos pelo general De Melo. Como também, a minha geração assistiu o comportamento das esquerdas, sabíamos de seus propósitos, do seu projeto em relação ao Brasil, de onde provinham os recursos que os sustentavam e as ideias que defendiam e desejavam ver implantadas no país. Como ainda temos na memória, de maneira viva e cristalina, os muitos crimes que cometeram.
A Lei de Anistia serviu aos dois lados da moeda, aos criminosos de direita e de esquerda, e foi através dela que o Brasil reencontrou seu caminho e readquiriu suas liberdades. Portanto, tentar anular seus efeitos, para se instaurar um tribunal de exceção está fora de cogitação. O país não precisa disto. Competia ao Estado indenizar as famílias vítimas da repressão militar e isto está sendo feito. A pergunta que fica é: e as vítimas das esquerdas, quem as indenizará? A argumentação vigarista de que as esquerdas já foram punidas não passa disso: vigarice. Muitos sequer chegaram perto de alguma cadeia, e todos foram culpados de assassinatos, sequestros e assaltos. Se é a verdade que se quer apurar sobre o passado, ela não pode abraçar apenas um dos lados envolvidos. É preciso estender a todos a exposição e responsabilidade de cada um, fosse de direita ou de esquerda. A verdade não pode ser capenga, precisa ser límpida e cristalina, sobre um e sobre todos. Do contrário, não passará apenas de uma farsa, por mais colorida que ela venha ser contada.
Devo acrescentar ainda que o mote empregado pelos defensores de que a Lei de Anistia seja revogada e jogada no lixo, afrontando o STF, de quererem equiparar a situação brasileira com as do Chile, Argentina e Uruguai não é apenas palhaçada: é cretinismo levado à sua máxima potência. Cada caso é um caso, cada povo encontra caminhos próprios para a resolução de seus problemas.
Devo acrescentar ainda que o mote empregado pelos defensores de que a Lei de Anistia seja revogada e jogada no lixo, afrontando o STF, de quererem equiparar a situação brasileira com as do Chile, Argentina e Uruguai não é apenas palhaçada: é cretinismo levado à sua máxima potência. Cada caso é um caso, cada povo encontra caminhos próprios para a resolução de seus problemas.
Ao ingressar com ação contra um militar, o Ministério Público justificou-se com argumento que, num primeiro momento, pode até parecer correto. Mas não é. Trata-se de uma visão torta da própria Lei Anistia e de um posicionamento que representa muito mais um protesto contra a letra da lei, do que uma defesa do estado de direito. Mas esta análise deixaremos para outro post.
Por enquanto, o que vale mesmo é recolocar no debate a verdade que se tenta ocultar da opinião pública para justificar uma causa. E quando esta causa nasce de uma mentira repugnante e tenta sufocar o fato histórico tal qual ele aconteceu, então estamos diante de uma farsa. Aí não pode. Esta tentativa de falsear o fato histórico não passa de vigarice ideológica, feita com má fé. No caso do Ministério Público, quer me parecer que se tenta jogar prá torcida. E quando este jogo afronta o estado de direito, fica evidenciado que não é mais de justiça que se está tratando, e sim de fragilização e ruptura institucional do país. E, neste ponto, o Ministério Público não tem poder legal para tanto, muto menos legitimidade.


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