Adelson Elias Vasconcellos.
A situação é a seguinte: as famílias já esgotaram sua capacidade de endividamento, vivem no limite do calote que, por sinal, continua alto. Cheques sem fundos, devolvidos pela segunda vez, atingiram o maior patamar desde 1991. A indústria brasileira vai de mal a pior, com queda na produção, nas vendas, no faturamento e agora até no emprego. O setor de serviços e do comércio já andam com freio de mão puxado. Os investimentos, tanto públicos quanto privados, seguem em queda livre. Em resumo, o modelo do consumismo a qualquer preço já se esgotou e, tal qual a canção de Chico Buarque, “..e só Carolina não viu...”, o governo Dilma continua não enxergando que insistir no modelo, abarrotando o mercado com mais crédito, não dará resultado algum. Ora, o crédito fácil já nem existe mais, em razão de uma SELIC a 11,0%. O sujeito que já está endividado, passaria atestado de perfeita burrice em si mesmo se tomasse mais crédito, e um crédito agora mais caro.
Quando o governo da senhora Rousseff resolveu jogar o preconceito para o lado e abriu o caminho para concessões de rodovias, ferrovias, portos e aeroportos, resolveu querer manter entre os seus dedos o total controle da situação. Pretendeu tabelar os lucros com baixíssima rentabilidade, tirando dos interessados a capacidade de reinvestir. Aconteceu o óbvio: ninguém demonstrou o menor interesse pela brincadeira. Vendo que seu plano ia dar em nada, o governo começou a remover alguns dos gargalos que colocara nos marcos regulatórios e nos editais de licitação. A cada semana, lá vinha uma nova redação, criando mais confusão. Aí, já batendo o desespero, o governo resolveu inverter a lógica: ao invés dele impor regras e mais regras no atopelo e de forma autoritária, chamou alguns investidores e empresários para dialogar e tentar saber aquilo que todos já sabiam e comentavam abertamente. Se não aumentar a taxa de retorno das concessões, não aparecerá nenhum maluco dando dinheiro de graça para o governo, ou por outra, ninguém pagará para trabalhar. Na época, aqui se disse que o governo já não tinha plano algum, agia por puro desespero. Afinal, alguns aeroportos precisavam de urgentes investimentos e a Copa iria cobrar alto preço político se não fossem reformulados e sua capacidade ampliada.
Da mesma forma agora. Diante da perspectiva de encerrar seu mandato com uma das piores taxas de crescimento da história, a senhora Rousseff já passou a agir na base do desespero, tentando impor um crescimento qualquer ao custo que for. Então, dê-lhe jogar mais dinheiro num mercado já empanturrado de crédito. Por que não deu certo primeiro lote de R$ 45,0 bi de algumas semanas atrás? Porque não há demanda para este volume todo de crédito. E não tem como dar certo agora que se joga mais R$ 25 bi.
O governo insiste em prescrever o remédio errado para a doença que acomete a economia brasileira. E o faz uma vez que ainda não conseguiu traçar um diagnóstico correto desta doença. Então, dê-lhe comprimido para dor de cabeça, quando o mal é insuficiência respiratória. Juros altos, endividamento alto, carga tributária alta, falta de projeto de país, burocracia asfixiante, incapacidade de controlar gastos públicos, incompetência na determinação de prioridades são apenas alguns dos sintomas para a doença do baixo crescimento.
Faz tempo que, em seus discursos até na entrevista dada ao Jornal Nacional e nos primeiros movimentos do programa eleitoral, dona Rousseff teima em apregoar como causas para o crescimento insípido, a crise internacional, o pessimismo e mais um rosário de outras diatribes que não combinam em nada com a realidade. Crise internacional houve em 2008/2009 e 2010. Dali prá frente, todos os emergentes passaram a reagir e crescer mais do que o Brasil. E o pessimismo não é causa, e sim fruto do governo medíocre comandado por Dilma Rousseff. No desespero de querer manter o poder, o governo cuidou da política e esqueceu-se do país.
Como já disse aqui várias vezes: Dilma até pode ser reeleita, mas isto nada tem a ver com as virtudes de seu governo e, sim, muito mais, com a falta de uma oposição mais robusta, mais presente, com um discurso mais afinado com o eleitorado. Se todos os brasileiros tivessem uma formação intelectual de bom nível e pudessem ter acesso por inteiro à informação qualificada, não haveria a menor possibilidade dele conceder mais quatro anos para Dilma continuar errando.
Quando Lula vem na propaganda eleitoral afirmar que Dilma merece mais um mandato, porque ele, Lula, teve um segundo mandato melhor, na verdade ele próprio está reconhecendo que este primeiro governo de Dilma é ruim. Contudo, ao seu modo, Lula tenta distorcer os fatos a seu favor. Ocorre que, rigorosamente, foi o primeiro, não o segundo período, em que Lula realizou um governo voltado ao país, apesar do mensalão. Enquanto Antonio Palocci se manteve no ministério da Fazenda, os fundamentos básicos da economia herdados de FHC foram mantidos e permitiram à Lula ter poder de fogo para abrir as comportas da gastança desenfreada com o objetivo único de eleger Dilma.
Se é verdade que ele entregou o governo com uma taxa de crescimento superior a 7,0% em 2010, nunca é demais lembrar que, no ano anterior, em 2009,o PIB fechou o ano no vermelho. Contudo, houve ali uma circunstância que não se repetiria: a crise financeira internacional, obrigou os países da Comunidade Europeia mais os Estados Unidos a inundarem o mercado com muitos bilhões de dólares e por aqui o Brasil não fez diferente, espichando o crédito para um mercado com um bom potencial de absorção, muito embora, como sempre se advertiu, este potencial fosse limitado pela renda média do brasileira ser relativamente baixa. E isto fez a diferença. Porém, este vendaval passou. E, tal qual a canção do Chico, “... só Carolina não viu...”, só o governo da senhora Rousseff não viu a mudança dos ventos.
Teima em querer impor um diagnóstico cujos sintomas indicam quadro diferente. Prescreve medidas que sequer contemporizam os sintomas, e se rebela porque o mercado, mais ligado a realidade, insiste em dizer que o governo está errado e reage com pessimismo ao tratamento que o governo quer empurrar goela abaixo.
Não se sabe se a deterioração da economia até outubro, será suficiente para alertar a maioria do eleitorado, fazendo-o buscar outras alternativas que não Dilma Rousseff. Mas de uma certeza há quase unanimidade no país: o próximo governante, seja ele quem for, já terá comprometido metade de seu mandato na tentativa de arrumar a casa que lhe será entregue. Como afirmava, com propriedade, o ex-governador Eduardo Campos, Dilma será a primeira governante a entregar o país, nos últimos 20 anos, em situação pior da que encontrou. E tudo isto por insistir em não ver, como a Carolina da canção, que a realidade que a cerca, desde que assumiu em janeiro de 2011, mudou muito.
E aí entra a questão do que o governo teima em não enxergar: os juros subiram por conta da inflação fugindo do controle. Apesar disto, os preços continuam altos. Ora, jogar mais dinheiro no mercado, para aumentar o consumo, jogará mais pressão sobre os preços e, se eles começarem a subir para além do teto da meta, só restará aumentar ainda mais os juros. E juro alto significa refrear a atividade econômica, num país francamente estagnado. É, a senhora Rousseff vestiu mesmo a roupagem da Carolina da canção...Só ela não vê.
Esperteza demais faz mal
A informação trazida no meio da tarde pelo Globo online de que Graça Foster e Nestor Cerveró teriam transferidos bens imóveis de sua propriedade para familiares (ou laranjas), pegou mal. Não foram transferências feitas, digamos, há uns dois anos atrás. Não! Foram feitas neste ano de 2014, precisamente a partir março, quando estourou de fato o escândalo da compra da refinaria Pasadena pela Petrobrás.
Não sou do tipo de pedir a cabeça de quem quer seja baseado apenas em suspeitas ou boatos. Porém, Cerveró foi o ilustre redator da mensagem enviada ao Conselho de Administração da estatal pedindo a compra da refinaria. E, Graça Foster, fazia parte da diretoria à época da compra e tinha e teve acesso amplo a todas as informações. E como não esquecer o teatro montado na antessala da presidência da Petrobrás, para ludibriar a CPI instalada justamente para investigar os negócios da maior empresa nacional!
Tudo junto e misturado, creio que o melhor e mais saudável, seja para Graça Foster, seja para a própria Petrobrás, que a atual presidente pedisse licença temporária e se afastasse por um tempo. A estatal já sangrou em demasia com o represamento de preços imposto pelo governo Dilma. Manter uma presidente, sob suspeita e em investigação, é sangrar ainda mais a companhia. Não estou sugerindo, prestem atenção, a demissão de Graça Foster. Mas ela deveria pensar em sua própria biografia dentro da Petrobrás e, também, até por dever de ofício, no interesse maior em preservar a imagem já muito arranhada da companhia.




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