quinta-feira, agosto 21, 2014

As crianças sem pátria

Helena Celestino
O Globo

Fátima, um bebê de 11 meses, virou o novo símbolo de um velho drama. Ela chegou sozinha à Espanha, deixada numa balsa pelos pais, em sua rota de fuga da polícia marroquina. Resgatado pela Polícia Costeira, o bebê foi salvo e rebatizado de Princesa. Final feliz? Não exatamente: no outro lado do estreito de Gibraltar, a mãe chora há uma semana por sua Fátima, e o pai mostra o machucado na cabeça como prova de que não premeditou abandonar a filha em seu caminho para a Europa. A mochila e a boneca de Fátima foram mandados por intermédio de uma voluntária da Cáritas, mas a reunião da família depende de difíceis trâmites burocráticos.

É um triste retrato do êxodo diário, vivido em várias partes do mundo. Como nas fronteiras dos EUA, nas portas de entrada da Europa também é cada vez maior o número de menores desacompanhados a chegar na Espanha e Itália, fugidos de guerra, do vírus assassino do ebola, da miséria e das milícias. Semana passada foram ondas de imigrantes em barcos infláveis, para lá de precários, atravessando o estreito de Gibraltar em direção ao porto de Tarifa, entre eles o solitário e desprotegido bebê. Terça, chegaram 830 pessoas, todas sem documentos. Em dois dias, o número foi tão grande quanto o de todo o ano passado. Desconfia-se que o fluxo de travessias ilícitas foi orquestrado pelo Marrocos para ressaltar sua importância estratégica na prevenção da imigração ilegal e mostrar o seu desagrado com uma investigação ordenada por juiz espanhol contra a polícia marroquina, acusada de abusos de direitos humanos.

A lista de horrores é grande. Para entrar por Ceuta e Melilla, os imigrantes ficam pendurados no alto de uma cerca de ferro com arame farpado à espera do melhor momento para pular em solo espanhol. Às vezes caem e ficam sem atendimento médico durante muito tempo. Ou, quando são surpreendidos tentando a travessia, apanham selvagemente da política.

“Muitos foram parar no hospital”, informou o site Huffington Post. A maioria foi identificada e recebeu um salvo-conduto de “liberdade sob proposta de expulsão”, ou seja estão livres enquanto a deportação não vem. Perseguidos pela instabilidade política nos países de origem, os imigrantes têm dificuldades de provar as ameaças sofridas para ter direito ao asilo. Se conseguem ficar na clandestinidade, acabam subempregados ou engrossando as máfias, as mesmas a quem não puderam pagar 4 mil euros para garantir uma travessia em motos aquáticas, com direito a receber óculos escuros e roupas para se disfarçarem de turistas. A Anistia Internacional e a Human Rights Watch reclamaram que a Espanha está mais preocupada em proteger suas fronteiras do que dar proteção a pessoas em perigo.

É exatamente esta a questão moral que enfrentam EUA e Europa. A ONU contabilizou 51,7 milhões de pessoas obrigadas a fugir das suas cidades por causa da violência, e pelo menos 1,2 milhão desses refugiados pedirão asilo na Europa. Na Itália, também na semana passada, foram resgatados 1.495 imigrantes do mar Mediterrâneo, número que aumenta a cada troca de guarda no porto. De janeiro até quarta-feira passada, a quantidade de gente resgatada chega a 100.047, um número recorde. A maioria vem da Síria, Eritreia, Paquistão, Senegal, Líbia e Sudão do Sul.

O fim da era Berlusconi — ainda bem — acabou com as cenas dantescas dos milhares de imigrantes mortos afogados perto de Lampedusa. Desde o início do governo do primeiro-ministro Matteo Renzi, todas as embarcações próximas ao canal da Sicília recebem ajuda, num esforço de evitar novos naufrágios. Os imigrantes continuam chegando com pneumonia, queimaduras de sol e sal, mas, pelo menos, chegam vivos. Dos desembarcados, 29% escaparam da Eritreia, 18% fugiram da Síria e com os novos conflitos no Iraque o êxodo só vai crescer, diz a agência de refugiados da ONU. A chegada contínua e massiva de refugiados é um estresse para os serviços médicos, a polícia e voluntários que acolhem os imigrantes em terra. Também cria tensão política e leva a extrema direita italiana a exigir que a União Europeia patrulhe o Mediterrâneo e destrua as máfias de traficantes de gente.

Nada é simples assim. O presidente Obama já aprendeu que imigração não se resolve com polícia. Depois de ganhar o apelido de deportador em chefe, ele agora prepara-se para enfrentar o problema da imigração sem esperar o Congresso, permanentemente hostil a acordos. Pressionado por milhares de crianças entrando desacompanhadas nos EUA, fugindo das milícias da América Central, ele sabe que fortificar fronteiras não adianta e reconhece a obrigação de um país civilizado dar proteção a crianças e cidadãos fugindo da violência.

Só falta unir a teoria à prática. Não dá para achar normal um bebê de 11 meses ser achado sozinho numa balsa...