O Globo
Inadimplência em alta faz bancos restringirem concessão de crédito, e regras de estímulo podem não gerar efeitos esperados
RIO - As medidas anunciadas pelo Banco Central, nesta quarta-feira, para injetar dinheiro na economia brasileira terão efeito restrito na economia brasileira. Segundo especialistas, os maiores bancos do país estão indo na contramão do que deseja o governo federal, restringindo e encarecendo o crédito como resposta à alta da inadimplência. No lugar de aumentar a oferta, Itaú Unibanco, Bradesco e Santander, e até instituições públicas, estão reduzindo o ritmo de expansão do crédito. E, segundo os próprios bancos, esse cenário não deve mudar a curto prazo, dificultando o desejado incremento do consumo.
— No primeiro momento, o efeito prático vai ser muito limitado, porque os bancos estão com uma postura muito conservadora com o crédito. Eles temem o avanço da inadimplência e não estão emprestando, e o próprio Banco do Brasil, que é público, reduziu muito sua oferta. Acho que só poderá ter efeito quando o setor sentir que a economia voltou a crescer com mais força — disse um analista especializado no setor, que preferiu não ser identificado.
Luis Otávio Leal, economista do banco ABC Brasil, concorda que não está claro se as medidas terão efeito.
— A pergunta é se os bancos não querem emprestar ou se o consumidor não tem espaço para pegar o empréstimo. Se for essa segunda opção, de demanda, vamos ter que esperar. Vamos ter uma boa prova agora (após as medidas do BC) do que vai acontecer — disse Leal.
Nesta quarta-feira, o BC anunciou um novo conjunto de medidas para liberar R$ 25 bilhões em capital dos bancos e injetar dinheiro na economia para estimular o crescimento. A autoridade monetária fez uma nova mudança nos depósitos compulsórios, parte dos recursos dos clientes que os bancos são obrigados a recolher aos cofres do BC.
A autarquia também reverteu todas as medidas tomadas em 2010 para restringir o crédito, batizadas de macroprudenciais. Isso libera mais R$ 15 bilhões do capital dos bancos, o que poderia gerar empréstimos novos de até R$ 140 bilhões. Há menos de um mês, os técnicos da autarquia anunciaram mudanças que, juntas, tinham um potencial de irrigar a economia com R$ 45 bilhões.
Juros altos, inflação perto do teto da meta (reduzindo o poder de compra das famílias) e o enfraquecimento do mercado de trabalho contribuem para o crescimento do calote. E os bancos estão com maior cautela na concessão de crédito para lidar com esse cenário. Em julho de 2014, a inadimplência de consumidores no Brasil subiu 11% frente ao ano anterior e acumula alta de 0,6% nos sete primeiros meses do ano, na mesma base de comparação.
Dados levantados pela Austin Rating, empresa de classificação de risco, mostram que, no segundo trimestre de 2014, o aumento na oferta de crédito teve forte desaceleração: avançou 9,4% no Itaú e 7,6% no Bradesco em relação a 2013. No mesmo período de 2013, a expansão foi de 12,6% e 11,3%, respectivamente.
— Os grandes bancos estão numa posição muito retraída — avaliou o presidente do Banco BMG, Antonio Hermann de Azevedo.
A nova medida, porém, representa uma mudança importante no tratamento que a autoridade monetária dedica aos bancos:
— Com o anúncio, o BC dá um sinal de ser mais pró-mercado, mais amigável aos bancos. Ele poderia muito bem dizer que os depósitos simplesmente não seriam mais rentabilizados, como forma de forçar os bancos a emprestar. Mas não fez isso — afirmou o analista que não quis se identificar.
Segundo o especialista, o anúncio do BC também acrescentou risco ao setor bancário brasileiro, embora as exigências aqui continuem mais austeras que no restante do mundo.
— O setor vai ficar menos seguro do que era antes, mas as medidas estão dentro do padrão de Basileia (que mede a solvência do sistema). O índice mínimo de alocação de capital aqui é de 11%, enquanto no restante do mundo é de 8%. Mas não deixa de ser um relaxamento das regras — explicou.