terça-feira, março 24, 2020

Uma nova ordem mundial

Sebastião Ventura P. da Paixão Jr
Instituto Millenium

"A urgência hora exige inovadoras inflexões sobre a realidade, pois as velhas soluções não funcionam mais"

O tabuleiro geopolítico mundial pulsa aceleradamente; trata-se da alvorada de uma nova ordem mundial. Os sinais saltam aos olhos: o Brexit e o desmoronar do bloco europeu; a retração da ONU e dos órgãos plurilaterais do pós-guerra; a ruptura da OPEP e o naufrágio do valor do petróleo; a releitura do papel econômico chinês frente a urgentes ameaças sanitárias, ambientais e de saúde pública; os movimentos silenciosos da Rússia para fomentar um bloco oriental com China e Índia (CRI); a retomada hegemônica americana, o fortalecimento do dólar e fim do expansionismo bélico de Washington. Na avalanche de acontecimentos, a ameaça do Coronavírus surge como estopim de profundos rearranjos globais.

Definitivamente, estamos a viver o tempo do equilíbrio instável: a mudança como constante. Nesse cenário dinâmico, o traçar de panoramas objetivos se torna tarefa complexa, pois variáveis definidoras podem cair em milésimos de segundo. No redemoinho das dúvidas, o incalculável impacto econômico da pandemia corrente, o uso massivo das reservas cambiais chinesas, o desabamento do valor do petróleo e o desmanche da comunidade europeia podem gerar estragos sem precedentes na economia global. Isso sem falar que é ano eleitoral nos Estados Unidos.

Embora embrionário, o movimento das placas tectônicas parece indicar uma conformação de mundo aos flancos: de um lado, os EUA e Inglaterra, liderando o grupo ocidental e que potencialmente englobará o Brasil; do outro, China, Rússia e Índia, com primazia oriental e ampla vantagem demográfica. No meio, o decadente e endividado bem-estar europeu, que coloca Alemanha e França de joelhos diante das fundas assimetrias nacionais que compõem o velho continente. No fim do estamento, surge o Japão como possível ponta asiática do bloco americano.

O mundo, assim, caminha para um novo jogo de blocos extremos. As zonas centrais – tanto internas, como globais – afundam num labirinto de indecisões, anacronismos e impotências. O desafio é que, quando as convicções evaporam, as soluções de força ganham pressão. Portanto, antes de uma transição democrática, estamos vivendo uma vertical transformação civilizatória. Se positiva ou não, teremos que ver, vivendo. Todavia, as decisões políticas do hoje moldarão o acontecer do amanhã.

Quanto ao Brasil, nossos recentes movimentos diplomáticos indicam uma crescente aproximação com a Casa Branca. Mas não haverá almoço grátis. Historicamente, o Tio Sam é intransigente na defesa de seus interesses econômicos; acontece que a parceria com a China – imaginada e planejada pela inteligência superior de Henry Kissinger – parece estar em ponto de saturação, abrindo espaço para um redirecionamento estratégico americano com vistas a formação de uma nova zona comercial, o que, se bem conduzido, poderá ser benéfico ao Brasil. A questão é como negociaremos nossos valiosos termos de troca ou, se mais uma vez, aceitaremos sermos menos daquilo que devemos ser.

A urgência hora exige inovadoras inflexões sobre a realidade, pois as velhas soluções não funcionam mais. Os problemas do presente exigem inteligência criadora e ousadia política. Há um imenso greenfield de poder à deriva no mundo. As oportunidades são infinitas, mas os players são pouquíssimos. Na inércia tendencial de concentração dominadora, os extremos correm na frente, deixando ampla margem de composição central. Ao final, chegaremos a um novo equilíbrio. Mas até lá a instabilidade será a regra.

A MP 927 e o grande debate: como atenuar os efeitos da quarentena?

Lucas Amorim
Exame.com

Um país pobre e de economia informal como o Brasil aguenta os efeitos de um isolamento prolongado como o visto na Europa?


Avenida Paulista: impacto no PIB
 pode chegar a 1% por semana de quarentena (/)

Num intervalo de poucas horas o governo editou, e depois revogou parcialmente, nesta segunda-feira uma medida provisória (MP) que esquentou um debate crescente entre economistas e gestores públicos. A MP 927 permitia aos empregadores suspender por até quatro meses os contratos de trabalho de seus funcionários sem pagar salário.

Era uma forma de atenuar o peso da crise provocada pelo coronavírus sobre os empresários – mas também transferia o ônus para os funcionários. A contrapartida, segundo escreveu o presidente, Jair Bolsonaro, viria de ajuda governamental – mas o mecanismo não estava no texto da lei.

Em uma transmissão ao vivo no site da EXAME, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), afirmou que a medida provisória foi editada de maneira “capenga” e que causou “pânico”. O texto, publicado em edição extra do Diário Oficial neste domingo foi alterado no começo da tarde desta segunda-feira e o artigo que permitia a suspensão de contrato foi suspenso. Mas o debate está fervendo: como evitar que os efeitos do isolamento social provocado pelo coronavírus destruam as economias dos países?

O tema começou a ganhar corpo após um editorial publicado na quinta-feira pelo jornal americano Wall Street Journal com o título “Repensando a quarentena do coronavírus”. Segundo o jornal, se a quarentena imposta em boa parte dos Estados Unidos continuar por mais uma semana ou duas o custo humano de perda de empregos e de falências vai superar em muito o que os americanos imaginam”. Nos Estados Unidos, destaca o WSJ, a economia é primariamente privada, o que dificulta medidas de quarentena total, como na China, onde o estado tem mais ferramentas para manter a renda das famílias. Bancos de investimento calcularam em até 20% o recuo na economia americana no segundo trimestre.

No domingo, Thomas Friedman, influente colunista do jornal The New York Times, fez coro aos apelos do WSJ e defendeu uma abordagem mais cirúrgica no combate à pandemia. Para ele, faz sentido proteger e isolar os grupos de risco, mas dedicar ao resto da sociedade abordagens semelhantes às que são dedicadas a ameaças como a gripe.

Desde domingo, os artigos são compartilhados por economistas, investidores e empresários brasileiros. São Paulo, a cidade mais atingida do Brasil, afinal, vai começar duas semanas de quarentena nesta terça-feira, embora uma grande parcela de seus moradores já esteja de casa há uma semana.

Por aqui, o debate ganha uma problematização adicional: a economia informal e a pobreza são maiores que países que até aqui adotaram as quarentenas mais restritas, como China, Itália ou Espanha. Uma queda contundente na atividade econômica, portanto, deve deixar um número maior de afetados pelo caminho. Por outro lado, nosso sistema de saúde também está menos preparado que o de países como a Itália, o que faz com que a redução na velocidade do ritmo de contágio seja decisiva neste momento.

Com tudo isto na mesa, o que fazer? A certeza de que a economia deve estar presente na solução à crise do coronavirus será assunto obrigatório ao longo da semana. “Dois dias atrás era politicamente incorreto colocar essa questão. Estava todo mundo, com razão, desesperado com a questão humanitária, e falar do impacto econômico não era de bom tom. Isso está mudando“, diz Celso Toledo, economista da consultoria LCA. “Uma reação radical é natural, mas se o Brasil tomar esse medida vai gerar um baque econômico violentíssimo.

Se metade da atividade econômica parar por dois meses, calcula Toledo, o impacto no PIB já será de 4% ao final do ano. “O brasil tem PIB de 7 trilhões de reais. Precisaria de um pacote de 500 bilhões de reais só para acomodar o choque“, afirma. Até aqui o maior pacote anunciado pelo ministério da Economia para combater a crise é de 147 bilhões de reais.

“No limite, não adianta dar dinheiro para as pessoas se elas não tiverem o que comprar, se elas não tiverem como chegar ao restaurante ou supermercado. Podemos ter uma disrupção da oferta que leve até a uma convulsão social num país pobre como o Brasil. Estou pintando um cenário dramático, mas possível“, diz Toledo.

A solução? Para o economista, passa por comunicar bem à população o tamanho do problema, o que não tem acontecido em nível federal. Além disso, oferecer soluções que levem a economia em conta, com senso de urgência e de preocupação social. Sai muito mais barato que este impacto de centenas de bilhões de reais construir leitos, fabricar e importar equipamentos hospitalares, isolar as pessoas do grupo de risco.

“É preciso analisar de forma razoável, sem ideologia, sem ranço. Um país pobre como o Brasil pode não aguentar um lockdown como um país rico europeu“, diz Toledo.

O baixo mundo

J.R.Guzzo, 
O Estado de S.Paulo

País agressor, que recusa trégua, é o Brasil onde habitam membros das nossas ‘instituições’

  Foto: Dida Sampaio/Estadão
A estátua da Justiça, em frente ao STF, 
na Praça dos Três Poderes, em Brasília 

O Brasil está divido por uma guerra cada vez mais aberta, indigna e agressiva entre dois países. Na verdade, só um país move essa guerra; o outro, sem defesa, apenas sofre as misérias que vêm dela. Basicamente, o país agressor, que se recusa a qualquer trégua, é o Brasil onde habitam, prosperam e mandam os membros das nossas “instituições”. O país agredido é aquele onde você, e cerca de 200 outros milhões de brasileiros, têm de trabalhar todos os dias para viver e sustentar suas famílias; sua única função, para o outro Brasil, é pagar impostos que vão sustentar cada um dos seus confortos, necessidades e caprichos. Neste ano de 2020, antes da epidemia, estava previsto que o total a ser pago seria de 3,4 trilhões de reais – isso mesmo, trilhões, arrancados do seu bolso a cada chamada de celular, cada litro de gasolina comprado no posto, cada real que você ganha, num arco que só acaba no infinito.

A última agressão vem do Supremo Tribunal Federal, que tem a folha corrida que todos conhecem, e do “Tribunal Superior Eleitoral” – um desvairado cabide de empregos que só existe no Brasil e não tem função lógica nenhuma no serviço público. Suas Excelências, justo numa hora dessas, em que o Brasil sofre um dos mais chocantes dramas de saúde de sua história e se desespera em busca de recursos para combatê-lo, tiveram a ideia de pagar com o dinheiro do contribuinte suas vacinas contra a gripe e o coronavírus. Não só eles: eles, seus filhos e funcionários da nossa corte suprema. Serão, pelos cálculos iniciais, 4.000 vacinas, a um custo de R$ 140.000. O TSE, de imediato, copiou os colegas e já está se preparando para comprar 1.100 vacinas para si próprio; devem queimar nisso mais uns R$ 75.000.

O dinheiro é uma mixaria, dizem eles, mas a atitude moral dos ministros é uma calamidade. Com todos os privilégios que já têm, por que não pagam eles mesmos esses trocados? A resposta é um retrato perfeito dos dois Brasis descritos acima: não pagam porque podem meter a mão no seu bolso, de onde sai o dinheiro de todos os impostos, e tirar o dinheiro de lá. Não vai acontecer nada, vai? Então porque gastar, mesmo um centavo, se existe um país inteiro para pagar as suas contas?

A um certo momento, nessa crise toda, foi sugerido, imaginem só, que deputados e senadores, dessem para o combate ao coronavírus uma parte dos bilionários Fundos Eleitoral e Partidário que criaram para doar dinheiro a si próprios – tirado, é óbvio, dos impostos pagos por você. Santa inocência. Não deram, é claro, um tostão furado para combater doença nenhuma. Estás na fila do SUS há 12 horas esperando um atendimento que pode vir ou não vir, bonitão? Problema seu. No nosso ninguém tasca. E tratem de dar graças a Deus porque ainda não tivemos a ideia de lhe tomar mais uns trocos para fazermos nosso estoque de vacinas – como fizeram as maravilhosas instituições judiciárias aí do lado.

Este Brasil que está em guerra com os brasileiros é hoje um dos maiores concentradores de renda do mundo. Não são os “ricos”, os “empresários”, “o 1% do topo”, etc. que constroem a miséria nossa de cada dia. Não são eles os promotores da desigualdade em estado extremo no País. Não são eles que os impõem a ditadura dos privilégios. É essa gente que não admite, sequer, pagar a própria vacina. A imprensa faz esforços inéditos, todos os dias, para defender essa gente, pois são eles que compõem as “instituições”. E o que os jornalistas recebem em troca de congressistas e magistrados? Atos de crocodilagem explicita, um atrás do outro. Fica cada vez mais difícil achar alguma virtude nesse baixo mundo.






As pernas e as asas do vírus

Percival Puggina.  

 Nesta pequena cápsula que é meu gabinete de trabalho, onde quase tudo está ao alcance da mão, tenho me lembrado de Howard Hughes. Nos anos 60, encantava-me a pluralidade de seus talentos. Engenheiro, aviador, industrialista, diretor de cinema, riquíssimo, namorava as mais belas divas de Hollywood e afastou-se de tudo e de todas, internando-se em sua própria casa num misto de misantropia, fobia de contaminação e drogadição.

Encarcerou-se com grades que seus fantasmas impunham. Renunciou à liberdade que, por décadas, lhe proporcionou uma vida criativa e, sob muitos aspectos, extraordinária.

Diferentemente, nestes dias, eu e minha mulher, a exemplo de tantos em todo o mundo, nos tornamos prisioneiros. Não de fobias, mas de invisíveis ameaças reais e letais. Renunciamos à liberdade um dia antes de essa renúncia nos ser imposta pelas autoridades locais e nacionais. Ficou entendido, para nós, o sentido social, apropriadamente social, do esvaziamento das ruas. Quem não consegue entender o significado do bem comum, tem, agora, uma boa oportunidade de esclarecimento mediante o desenho dos fatos.

É preciso tirar as pernas do vírus. Ele caminha com nossas pernas. Voa com nossas asas metálicas.

Está mudando muitas vidas e não apenas as rotinas dessas vidas a invulgar experiência de protagonizar um desses filmes cujo script cria suspense em torno da luta contra a exterminação da humanidade. Reza-se nas redes sociais (quem diria?), reza-se em família. Lê-se como raramente sobra tempo para ler. E se tem uma erupção de sentimentos profundamente humanos proporcionados pelo desencarceramento do tempo. Entre eles, de um lado, o medo, o egoísmo, a desesperança rumo ao desespero, a mudança emocional para o reino da fantasia; de outro, a solidariedade, a compaixão, a esperança, a busca do transcendente e a necessidade de atribuir sentido a esse novo cotidiano.

Em Viena, no centro da Graben, um monumento domina a paisagem. É a Pestsäule, coluna comemorativa do fim da peste que atacou a cidade no final do século XVII. Obra coletiva de diversos escultores e pintores, o monumento barroco resulta confuso pela pluralidade de mensagens a ver, sentir e interpretar. Mas é essa característica que impõe, a quem o contempla, prolongada análise de seus elementos. Vê-se ali a celebração artística do fim do flagelo, o ódio à peste e o gratificado louvor à Santíssima Trindade.

Nunca pensei que, um dia, aquele monumento fosse ganhar atualidade e se fazer ensinamento na nossa vida.


Acredite, aqui há boas notícias

Carlos Brickmann
Brickmann & Associados Comunicação

 Boas notícias? Até mais: algumas notícias serão ótimas. Outras ainda dependem de mais estudos, mas o caminho é bom. Abaixo o coronavírus!

*A China fechou o último hospital de coronavírus em Wuhan, o berço da epidemia. Não há novos casos suficientes para justificar um hospital.

*A França estuda o uso de hidroxicloroquina, remédio usado desde 1940 para malária e artrite reumatoide. Um grupo recebeu só o medicamento; outro, a hidroxicloroquina associada a um antibiótico, azitromicina; o terceiro, tratamento convencional. A hidroxicloroquina reduziu bem a carga de vírus; associada à azitromicina, curou 70% dos doentes em seis dias. O grupo que foi tratado convencionalmente teve 12,5% de curas. O sucesso estimulou o presidente americano Donald Trump, que quer acelerar a aprovação de seu uso, mas a FDA, que cuida de medicamentos, pede mais testes clínicos. Trump já chegou a proclamar o sucesso do tratamento na TV americana.

*Na Índia, bons resultados no tratamento com Lopinavir, Oseltamivir e Retonovir associados à Clorfenamina. Os indianos sugerem à Organização Mundial da Saúde o uso internacional dessa combinação de medicamentos.

*A China relata o caso de uma senhora de 103 anos que se curou após um tratamento de seis dias em Wuhan.

Há pesquisas bem encaminhadas no Brasil, Estados Unidos, Alemanha e Israel. Diz a OMS que 41 grupos tentam criar vacinas contra o coronavírus.

 Otimismo

A Apple, empresa com maior valor de mercado do mundo, reabriu suas 42 lojas na China. Hoje, há menos doentes na China do que na Itália.

 Enfim!

A Cleveland Clinic americana criou um teste que dá resposta em horas, não em dias. O teste deve estar no Brasil em pouco tempo.

 O próximo passo

Mesmo que novos remédios cheguem logo ao mercado e o coronavírus seja esquecido, a pandemia já desorganizou a economia do país. Empresas pararam de funcionar e faturar e continuam a pagar aluguel, impostos, juros, contribuições, taxas. Se reabrirem nesta semana, mesmo assim terão a sobrecarga do período triste.

A Associação Comercial de São Paulo, que apoiou o fechamento do comércio, pede que as autoridades estejam à altura do momento. “É importante a mobilização das esferas governamentais na redução dos riscos ocasionados pela pandemia”, diz o presidente da entidade, Alfredo Cotait Neto. “São necessárias medidas rápidas para que os empresários possam adiar o pagamento de impostos. As empresas podem não aguentar uma paralisação tão longa”.

Imagine uma empresa aérea: paga o aluguel dos aviões, os salários, e teve de cortar vários países para onde voava. Paga também aluguel (e alto) para deixar os aviões parados nos aeroportos. Se as empresas fecharem, quem irá contratar funcionários?

 Impeachment a la carte

Não se preocupe com o pedido de impeachment que o deputado federal Alexandre Frota apresentou ao Congresso. Foi feito às pressas, não com o objetivo de derrubar o presidente Bolsonaro: sua função é outra, de estar à disposição para, se necessário, ser tirado das gavetas e votado.

Impeachment precisa ter elementos jurídicos que o amparem, mas só sai se houver força política por trás. Neste momento, embora já existam adversários que querem ver Bolsonaro pelas costas, não há qualquer possibilidade de afastá-lo. Isso pode mudar – os panelaços já mostram que há oposição fora do PT e partidos satélites. Mas os próprios panelaços estão longe daqueles contra Dilma.

 Panelaço

Há gente bloqueada em casa, preocupada com o emprego, as contas, tudo; com medo do coronavírus; cansada do computador e da TV. Vem então um panelaço contra Bolsonaro: por que não? No mínimo rompe a monotonia. Mas é importante lembrar que alguém favorável ao presidente não irá bater panelas contra ele. Quem bate panelas está irritado também com ele. E pode despertar, dentro do bolsonarismo, alguém que se julgue apto a substituí-lo. Já não existe quem queira Sérgio Moro candidato, em vez de Bolsonaro?

 É isso aí

Cinco deputados federais tomaram uma bela iniciativa: propuseram um projeto de lei (o PL646/2020) autorizando o uso de parte dos R$ 2 bilhões de dinheiro público destinados a pagar a campanha eleitoral no combate ao coronavírus. O projeto autoriza o uso de recursos do Fundo Partidário para o mesmo objetivo.

É ótimo – até para evitar que o caro leitor não apenas pague a campanha de gente mais rica do que ele como financie a eleição de pessoas com pensamento e comportamento contrários aos seus. Os parlamentares que tiveram a boa iniciativa são Felipe Rigoni (PSB), Vinícius Poit (Novo), João Henrique Caldas (PSB), Paulo Ganime (Novo), Rodrigo Coelho (PSB). Guarde esses nomes: só por apresentar este projeto, já merecem ser votados.

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Se tivéssemos dinheiro...

Carlos Alberto Sardenberg
O Globo

Vamos imaginar que as contas públicas no Brasil estivessem no azul. O governo federal e os estaduais com superávit, caixa elevado e fundos instituídos para ações anticíclicas — ou seja, governos com dinheiro para gastar em caso de uma crise, uma recessão global ou uma emergência como o coronavírus. Seria muito mais fácil, não é mesmo? A questão seria apenas escolher onde gastar e quais programas implementar.

A situação real é o contrário disso. Como há uma dívida pública enorme, e como todas as instâncias de governo operam no vermelho, passamos a ter dois problemas: primeiro, onde encontrar o dinheiro para gastar na crise; e, depois, onde gastar — mas gastar com parcimônia e extremo cuidado porque não vai ter para todos.

Dizem alguns: mas a opção liberal/ortodoxa não seria a de não gastar nada, em nome do ajuste fiscal?
Burrice. Essa opção nunca significou que o governo não deve gastar. E sim que deve gastar em saúde, educação e segurança, de um modo que leve a uma redistribuição de renda e redução de desigualdades. Ou ainda: cobrar mais impostos dos mais ricos e gastar com os mais pobres.

O desajuste fiscal brasileiro não decorre essencialmente do excesso de gasto público. Decorre de gasto ruim.

Se o governo não gastasse quase 80% da despesa com Previdência e pessoal, já teria sobrado mais dinheiro para a saúde. Tem mais: a Previdência brasileira é injusta e desigual. Tem a turma que se aposenta aos 50 anos, com valores no teto (e no extrateto no caso de funcionários públicos) e a imensa maioria que se aposenta aos 65 anos com vencimentos em torno do salário mínimo. E mesmo dentro do setor público há desigualdade: um funcionário do Judiciário, onde estão os maiores salários do país, se aposenta em condição muito melhor do que, por exemplo, bom exemplo, um enfermeiro de posto de saúde.

É evidente que a correção desse rumo não se faz de uma hora para outra, muito menos no meio de uma calamidade mundial.

Mas também é um baita erro dizer que, como se vai gastar mesmo, então esqueçamos isso de ajuste fiscal ou teto de gastos. É esse tipo de cabeça que nos trouxe ao ponto em que estamos hoje.

Assim, de modo muito simples: o governo, em todos os níveis, tem que caçar centavos para gastar no combate à epidemia e no combate à recessão que se avizinha. Por isso, o decreto de calamidade pública faz todo o sentido e está previsto na legislação. Há momentos em que se pode suspender a meta fiscal — mas, notem, suspender por tempo determinado, não a abandonar.

E o gasto tem que ser muito bem focado, porque o dinheiro é curto e vai gerar déficit, que terá de ser pago mais à frente.

O gasto principal, claro, é saúde: cuidar dos doentes e tentar controlar a epidemia. Cabe perfeitamente aqui — e é mesmo necessário —dar remuneração extra aos profissionais do setor que, no geral, são mal remunerados.

E depois, gastar com as pessoas em situação mais difícil, aquelas, por exemplo, que não estão no Bolsa Família, mas também não estão no INSS, não têm seguro-desemprego e não têm carteira assinada.

Finalmente, setores econômicos cuja queda pode gerar muito desemprego.

Não há nenhuma dúvida quanto a esse roteiro no mundo todo. Os governos estão fazendo coisa parecida.

A diferença está na eficiência e no tempo dos programas governamentais. A Coreia do Sul, por exemplo, foi rápida e eficaz. Já o governo italiano bobeou, assim como o da França. Ainda no começo deste mês, o presidente Macron dizia algo assim: tomem cuidado, mas não deixem de sair, de comer nos seus lugares preferidos …. Agora, quarentena total. Quanto mais se atrasa, mais radical é preciso ser.

Trump também tentou levar na surdina. Assustou-se com os estudos médicos mostrando o tamanho da catástrofe. Diz agora que se trata da maior ameaça deste a Segunda Guerra.

O governo brasileiro também se atrasou, por culpa do presidente Bolsonaro. Presidente que ainda ontem, estando de máscara na entrevista, disse que poderia pegar um metrô ou uma barcaça lotada para ficar ao lado do povo. Isso quando todas as autoridades sanitárias dizem o contrário — que é preciso esvaziar as ruas e ficar em casa.

Ainda bem que governadores estaduais têm se mostrado mais conscientes do tamanho da crise.


Medidas fiscais ajudaram Brasil a se fortalecer para enfrentar pandemia

Comunicação Millenium

Apenas as desestatizações geraram R$ 105,4 bi aos cofres públicos. Governo anunciou liberação de R$ 147 bi para o combate ao vírus

A economia global é uma das vítimas da pandemia do Coronavírus. O surto da doença abalou as bolsas de valores, sacudiu mercados e aumentou o medo de uma recessão. O vírus foi, também, uma surpresa inesperada para a economia brasileira, que vinha se recuperando de uma grave crise com o andamento de reformas estruturais e a adoção de medidas de controle fiscal. No início da semana, o governo anunciou a liberação de R$ 147 bilhões nos próximos três meses, com o intuito de blindar o Brasil dos impactos do avanço do Coronavírus. Uma parte do programa será destinada aos idosos; e a outra, um montante de R$ 60 bi, à manutenção de empregos.

Embora a situação esteja crítica, o cenário poderia ser pior caso a pandemia chegasse alguns anos atrás. Acumulando déficits bilionários e envolto em uma das maiores recessões da história, o Brasil teria mais dificuldades em aportar recursos para o combate ao vírus. É verdade que o processo de recuperação das contas públicas ainda não acabou: há muitas reformas e mudanças pela frente. No entanto, graças a medidas tomadas ao longo dos últimos anos, o país hoje se encontra mais forte e preparado para dar as respostas corretas diante deste grande desafio global que se impõe.

Muitas das reformas serviram como uma das armas para sustentar os recursos extras que o Brasil precisa dispor para enfrentar o Coronavírus. Um dos exemplos mais claros neste sentido são as privatizações. Em 2018, o Estado brasileiro detinha participação direta ou indireta em 698 empresas. Em um ano e três meses, 78 instituições foram desestatizadas. Além disso, estatais como Telebras, Ceagesp e Correios devem ser privatizadas até 2021. Essa medida gerou, apenas em 2019, um montante de R$ 105,4 bilhões aos cofres públicos.

Para se ter uma ideia da economia do programa de desestatização, entre 2009 e 2018, estatais dependentes e não dependentes custaram R$ 190 bilhões aos cofres públicos. Um dinheiro até então investido em empresas muitas vezes não lucrativas, que poderia ser destinado a outras áreas importantes para a população: incluindo o combate em momentos de crise, como este em que estamos vivendo.

Sim, é verdade que o Coronavírus afeta a economia: não só aqui, como em qualquer lugar do mundo. Também é verdade que, sem as reformas e medidas de austeridade, o cenário seria ainda mais crítico do que o atual. Após a pandemia, é o momento de avançar com a agenda de privatizações e reformas fiscais. É importante perseguir um superávit primário para que a dívida pública, a absurdos 80% do PIB, se estabilize. Isso porque o excesso de gastos e a atual ineficiência drenam recursos de investimentos e comprometem muito as políticas públicas. É bom reforçar, também, que o reconhecimento de calamidade pública não elimina a necessidade de cumprimento do teto de gastos ou da regra de ouro.

Não é hora de desanimarmos. Precisamos vencer, juntos, este momento crítico da história global. Agora, mais do que nunca, devemos exercer nosso papel como cidadãos. Cabe a nós, enquanto população, respeitar as orientações de prevenção e cuidado com o vírus. Por outro lado, os políticos devem priorizar as medidas importantes para a população e economia, tendo consciência de que a agenda pública deve continuar. Com a união de toda a sociedade, sairemos ainda mais fortalecidos deste desafio.

Quanto tempo vai durar?

Helio Gurovitz
Portal G1

Não adianta reclamar de Bolsonaro nem da China. A hora é de salvar vidas. Haverá custos econômicos? Sem dúvida. Será esse o problema de amanhã. Mas primeiro é preciso resolver o de hoje: deter o novo coronavírus. Não dá para esperar. Como conclui a série de posts que publiquei na semana passada, a hora de agir é agora.

Os números demonstram que não podemos nos dar ao luxo de vacilar nem de postegar as ações. Países que demoraram ou não levaram a Covid-19 a sério no início – como Itália ou Espanha – estão pagando um preço altíssimo em mortes e sobrecarga do sistema hospitalar. Só quando se ataca a doença com seriedade, os casos recuam.

Não imediatamente, é essencial entender. A incubação e evolução da Covid-19 até os sintomas leva uma semana, e o tratamento no hospital dura em média dez dias. Os primeiros resultados das ações só são perceptíveis, portanto, pelo menos quinze dias depois que são adotadas. Até lá, os mortos ou recuperados são aqueles que contraíram o vírus duas semanas antes.

Na Coreia do Sul, a doença começou a explodir no dia 20 de fevereiro. O governo estabeleceu 43 postos de coletas de amostras que hoje têm capacidade de testar mais de 15 mil pessoas por dia. Só em 3 de março os casos caíram. Wuhan, epicentro da pandemia na China, entrou em quarentena radical no dia 23 de janeiro. A queda nos diagnósticos só se fez sentir em 8 de fevereiro. Na semana passada, segundo as autoridades chinesas, não houve contágio interno.

Eis os dois tipos de medida essenciais para deter a Covid-19: testes em massa com isolamento dos infectados (a contenção, estratégia da Coreia do Sul) e a versão drástica do distanciamento social conhecida como supressão (adotada na província de Hubei, onde fica Wuhan).

Como o Brasil não se preparou satisfatoriamente para o combate à doença, por isso não dispõe da capacidade de testes suficiente necessária à estratégia coreana, será inevitável decretar quarentenas, como já foi feito no estado de São Paulo.

É uma situação inédita num país desacostumado a viver situações de guerra ou a lidar com catástrofes naturais recorrentes, como furacões ou terremotos. Decorrem daí dúvidas pertinentes: por quanto tempo? A que custo? E se a doença voltar depois? A economia aguentará ficar parada durante o período necessário para deter o vírus?

A experiência dos países asiáticos demonstra que é possível conter o surto com as medidas de supressão. O período depende de estudos mais precisos, mas é possível estimá-lo em algo como dois meses. Assim que o contágio cair abaixo do patamar que garante a erradicação natural do vírus – ou, tecnicamente, assim que o “número efetivo de reprodução” R for inferior a 1 (leia mais sobre esse indicador aqui) –, será possível relaxar as medidas mais draconianas.

Mas não a vigilância, pois o coronavírus é mutante e poderá irromper em novos surtos. O ideal é usar o tempo da quarentena para disseminar os testes por todo o país e garantir os equipamentos necessários para tratar os doentes mais graves (UTIs, respiradores artificiais etc.). De acordo com o Boston Consulting Group, o Brasil não está tão mal-equipado. Temos 20,3 leitos de UTI para cada 100 mil habitantes, mais que Itália, Espanha, Coreia do Sul ou China. Ainda é preciso garantir que os leitos estejam disponíveis a quem precisa, na hora que precisa.

Depois da supressão inicial, a partir do momento em que o contágio subir numa determinada região, será então possível adotar uma abordagem mais restrita, de quarentenas específicas, de modo a conter a transmissão e manter o resto do país funcionando. Como explica o consultor Thomas Pueyo num texto publicado na semana passada, primeiro é hora de usar o “machado”. Depois, de manter a “dança” em torno do indicador R. É o que têm feito países como a própria Coreia do Sul, Taiwan ou Cingapura, quando novos casos têm aparecido.

Pueyo sugere que, para manter o R abaixo de 1, as autoridades avaliem uma série de medidas que podem ser ativadas ou desativadas, de acordo com a evolução do contágio. Elas vão da adoção de testes agressivos da população até a quarentena absoluta. É um bom modelo para a tomada de decisões racionais, que não paralisem as atividades além do necessário para conter o vírus.

A vitória definitiva sobre a Covid-19 só virá quando tivermos um tratamento eficaz ou uma vacina. Para isso, também precisamos ganhar tempo. É verdade que só um grau razoável de imunidade coletiva, estimado entre 50% e 70%, terá capacidade de nos proteger em definitivo do vírus. Mas não dá para defender que ela seja alcançada deixando o vírus se disseminar, para que parte da população pegue a doença e, ao se curar, fique imunizada.

O Reino Unido, que apostava nessa estratégia até o último dia 12 de março, voltou atrás há uma semana quando apresentado aos resultados de simulações que previam 250 mil mortes – e o colapso dos hospitais – caso usasse apenas a estratégia de mitigação para grupos de risco.

No Brasil, não seria diferente. Suponha que a doença contamine uns 30% da população (metade do patamar necessário para alcançar a tal imunidade coletiva). Seriam 63 milhões de infectados. Quantos morreriam? Só é possível estimar de modo grosseiro, pois a mortalidade da Covid-19 ainda é uma incógnita.

Na Coreia, que implementou uma contenção eficaz, a mortalidade fica acima de 0,7% dos casos confirmados. Na Itália, supera os 8%. Um estudo publicado na semana na revista Science avaliou que, na China, 86% dos infectados não foram diagnosticados. Isso traria a mortalidade sobre a população infectada para algum valor entre 0,1% (exemplo da Coreia) e 1,2% (Itália). Imagine então que, no Brasil, fique no meio do caminho, em torno de 0,5%.

Deixando a doença se espalhar a 30% dos brasileiros, haveria nada menos que 315 mil mortos (0,5% dos 63 milhões). Isso faria da Covid-19 a segunda maior causa de morte no país, atrás apenas das doenças do coração (que mataram 356 mil em 2018, segundo dados preliminares do Ministério da Saúde), logo acima do câncer (227 mil). Mesmo que a estratégia de mitigação aplicada aos grupos de risco reduzisse a mortalidade a níveis coreanos, ainda haveria 63 mil mortos – mais que o total de homicídios.

Quantos mortos o país está disposto a aceitar para não ficar paralisado? Eis a questão real diante de nós.

Oportunistas da crise

Adriana Fernandes, 
O Estado de S. Paulo

Respostas têm sido lentas por causa das picuinhas tão ao gosto dos nossos governantes

Primeiro, a negação dos riscos da epidemia e briga com o Congresso. Agora, o embate político entre o presidente Jair Bolsonaro e governadores – muitos deles seus adversários políticos declarados nas próximas eleições – retardam uma ação coordenada de Brasília com os Estados para garantir a produção de alimentos, medicamentos e, acima de tudo, logística para que itens básicos cheguem aos brasileiros em isolamento domiciliar devido ao alastramento da covid-19.

A logística para garantir o transporte dos produtos depende do bom diálogo entre todos. Basta de palavras de efeito como as de que não faltará “arroz, feijão e carnes”. 

As pessoas querem se sentir seguras e ver as medidas efetivas. O pico da epidemia ainda não chegou e os próximos meses serão muitos duros, como relatou o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta. 

As respostas têm sido lentas também por causa das picuinhas políticas tão ao gosto dos nossos governantes atuais. O que se vê é uma corrida insana para quem fica melhor na foto. 

O presidente só tomou a decisão de pedir ao Congresso o reconhecimento da calamidade pública, na noite de terça-feira passada, quando viu que o Congresso tomaria a medida na sua frente. Logo depois de o senador José Serra (PSDB-SP) comunicar que estava com um decreto legislativo para ser apresentado imediatamente, o presidente agiu. 

No mesmo dia, o presidente da Câmara (DEM-RJ), Rodrigo Maia, também já havia antecipado em entrevista ao Estado muitas das medidas que seriam anunciadas no dia seguinte pela equipe econômica. Bolsonaro começou a agir empurrado por todas essas circunstâncias. 

Até então, o governo estava se debatendo sobre o que fazer: mudar a meta fiscal de resultado das contas públicas ou decretar a calamidade para ampliar os gastos necessários. Só depois da decisão é que o Ministério da Economia começou a disparar o anúncio de medidas para atender os informais, a população de baixa renda e antecipação do seguro-desemprego para uma parcela dos empregados. Nenhuma delas, porém, foi ainda efetivamente publicada. 

Em meio ao caos dos últimos dias, só ontem o ministro da Infraestrutura, Tarcísio de Freitas, em entrevista dada para a repórter Amanda Pupo, do Estadão/Broadcast, falou em formar um conselho de secretários de transporte dos Estados para ações coordenadas de enfrentamento ao novo coronavírus, e evitar “voluntarismo inadequado”.

Após o reforço no atendimento da saúde, dos hospitais, dos profissionais da área médica, a produção e a logística de distribuição são centrais.

O ministro Tarcísio Freitas calculou 54 decretos de Estados e municípios com medidas na área de transporte. Bolsonaro reclama dos governadores e prefeitos. 

O tom do presidente foi belicoso, o que ampliou o desgaste desnecessariamente. Na ausência de diálogo com o Palácio do Planalto, de onde o presidente Bolsonaro resistiu até quando pôde (ou, melhor dizendo, até onde sua popularidade despencou), governadores e prefeitos começaram a agir por conta para proteger seus moradores. Quem pode culpá-los?

É bom lembrar que a demora de ação também parte dos governadores de grandes centros urbanos preocupados com o tombo da atividade econômica e, consequentemente, na arrecadação. Foi assim com São Paulo, que saiu depois na reação. 

É preciso registrar também que a preocupação da equipe econômica com o tombo da atividade retardou a adoção de medidas mais duras no fechamento de fronteiras, comércio e serviços para o isolamento forçada dos brasileiros. 

Algumas medidas que já tinham sido tomadas por outros acabaram sendo replicadas por decisão de governadores e prefeitos, o que gerou novo motivo de discórdia política.

É torcer agora para que essa disputa não atrapalhe e retarde a organização do socorro federal aos Estados e municípios para o atendimento à população nesse momento tão dramático para o Brasil e o mundo. É para ontem. 

A crise não pode servir, no entanto, para oportunistas de plantão botarem a faca no pescoço do Tesouro. Todo cuidado é pouco para afastar essa gente.

*Jornalista

Decreto de Bolsonaro inclui imprensa em lista de serviços essenciais

Redação, 
O Estado de S.Paulo

Texto assinado pelo presidente veda que profissionais desta área sejam proibidos de circular, o que poderia afetar atividade jornalística

  Foto: Evaristo Sá/AFP
O presidente Jair Bolsonaro no Palácio da Alvorada 

BRASÍLIA – O presidente Jair Bolsonaro publicou decreto neste domingo, 22, que inclui a imprensa na lista de serviços essenciais e vedou que trabalhadores desta área sejam proibidos de circular, o que poderia afetar a atividade jornalística. Até agora, o governo já havia considerado 33 serviços públicos e atividades como indispensáveis à população durante o enfrentamento da pandemia de coronavírus.

 “São considerados essenciais as atividades e os serviços relacionados à imprensa, por todos os meios de comunicação e divulgação disponíveis, incluídos a radiodifusão de sons e de imagens, a internet, os jornais e as revistas, dentre outros”, diz o texto publicado neste domingo, 22.

O objetivo do governo federal é garantir o trânsito de trabalhadores destes setores enquanto diversos governadores começam a decretar o fechamento de parte do comércio e dos transportes por causa da pandemia do novo coronavírus. No sábado, 21, o governador de São Paulo, João Doria, determinou a quarentena no Estado ao determinar o fechamento de lojas e todos os estabelecimentos considerados não essenciais. Medida semelhante já havia sido tomada no Distrito Federal.

Na sexta-feira, o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, afirmou que algumas destas restrições poderiam afetar o fornecimento de insumos para fábricas que produzem produtos importantes para o combate ao coronavírus, como equipamento de proteção pessoal.

Além da imprensa, a lista de atividades consideradas essenciais inclui serviços médicos e hospitalares, segurança pública e privada, transporte de passageiros, telecomunicações e internet, entre outros.

No decreto publicado neste domingo, o governo também cita como essencial toda a cadeia produtiva necessária para a imprensa fazer o seu trabalho, sem especificar, porém, quais outras atividades estão incluídas.

O texto do decreto faz a ressalva de que, na execução das atividades consideradas essenciais, “deverão ser adotadas todas as cautelas para redução da transmissibilidade da covid-19.”


Só um terço dos brasileiros acha que País está preparado para combater coronavírus

Mônica Scaramuzzo, 
O Estado de S.Paulo

Visão mais pessimista sobre o combate da pandemia está na população mais jovem, de 18 a 29 anos

  Foto: Dida Sampaio/Estadão
Presidente Jair Bolsonaro e o ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta 
em coletiva na quarta-feira, 18 

Pesquisa feita pelo Instituto Locomotiva indica que as pessoas entendem que o governo bate cabeça e não há discurso alinhado com governadores e prefeitos. Uma pesquisa realizada, na sexta-feira (dia 20), pelo Instituto Locomotiva, obtida com exclusividade pelo Estado, mostra que só um terço da população brasileira acredita que o País está preparado para combater o coronavírus. Foram ouvidas 2.305 pessoas, por telefone, de todas as capitais do Brasil, além do Distrito Federal. "Apenas 3 em cada 10 brasileiros acreditam que o País esteja preparado para a pandemia", diz Renato Meirelles, presidente da Locomotiva, empresa de pesquisa especializada na classe C.

A visão mais pessimista sobre o combate da pandemia está na população mais jovem, de 18 a 29 anos. Nesta faixa, 86% não acreditam que o sistema público de saúde consiga conter o avanço da doença. Já entre as pessoas acima de 60 anos, a crença é maior: 37% estão otimistas e 63% não.

"Há alguns fatores que pesaram na pergunta sobre o Brasil estar ou não preparado para a pandemia. O principal era se o sistema público de saúde está preparado para receber os doentes. E a impressão geral é de que não. As pessoas também acham que o governo está batendo cabeça entre eles e de que não há um discurso alinhado do presidente Jair Bolsonaro com governadores e prefeituras. E isso é um fator de preocupação", explica Meirelles. 

Outro ponto de dúvida é sobre o que é gripe ou pandemia. "A população acredita que outros países estão mais organizados para combater o coronavírus."

A pesquisa mostra que 86% da população está muito preocupada com a epidemia. Outros 11% estão um pouco preocupados e apenas 3% não. A maior tensão com a doença se expressa em todas as faixas etárias de todas as cinco regiões do País. Foram ouvidas pessoas de 18 a 29 anos; de 30 a 39 anos; 40 a 49 anos; 50 a 59 anos e 60 para cima.

Para Meirelles, contudo, apesar da preocupação dos brasileiros, ainda não "caiu a ficha" das pessoas sobre a necessidade de fazer o confinamento. Isso fica claro na abordagem feita pela Locomotiva sobre a necessidade de fechamento das escolas e também  sobre restringir o transporte público. Quase a totalidade da população, ou seja, 96,5% da população é a favor do fechamento das escolas. No entanto, 42,3% dos entrevistados defendem que os transportes públicos devem ser continuar funcionando. 

  Foto: Divulgação/Locomotiva 
Renato Meirelles, presidente do Locomotiva 

"As pessoas não têm claro ainda o que é o confinamento. Não caiu ainda a ficha. Elas são favoráveis a fechar a escola, mas podem pegar ônibus. É contraditório. Isso também é difícil para outros países, como na Itália e Espanha. Mas se acentua aqui num país como tamanha desigualdade", disse.

A maioria da população também defende o fechamento do comércio. A resistência é maior na população mais velha (de 50 anos para cima). Na abordagem, 84% são favoráveis; 15% preferem que as lojas fiquem abertas e 1% não soube responder. 

Um terço dos entrevistados disseram que passaram a estocar produtos: 33% contra 67%. 

Outro fator de preocupação de Meirelles é sobre a avaliação das pessoas sobre as famílias estarem preparadas contra a pandemia. Neste caso, também, 62% das pessoas dizem que suas famílias estão conscientes sobre o combate da doença. Outros 38%, não. O maior pessimismo, neste caso, está na população das regiões Norte e Nordeste:  53% e 49%, respectivamente dizem não estar preparadas. A faixa etária entre 30 e 39 anos também não tem perspectiva positiva sobre o tema.

A pergunta, neste sentido, teve dois direcionamentos, segundo Meirelles. Do ponto de vista de conhecimento das informações divulgadas sobre a doença e sob o ponto vista econômico. "Quanto tempo dá para ficar na própria casa com seu dinheiro? Sob o ponto de vista econômico, na baixa renda, 8 em cada 10 brasileiros não têm poupança. Por não ter reservas, literalmente essa faixa da população vai ter de vender o almoço para comprar a janta." 

Segundo Meirelles, para um trabalhador autônomo, essa situação complica ainda mais. "Não estou falando das pessoas empregadas e que podem perder o emprego. Aqui também estão os trabalhadores informais. Pessoas que, de fato, vão sofrer porque seu empregadores estão isolados."

Na semana que vem, a Locomotiva vai divulgar pesquisa sobre raio x da economia. Ou seja, o impacto do coronavírus no bolso das pessoas e sobre a percepção de perderem seus empregos.

****** COMENTANDO A NOTÍCIA: 

A rigor, ninguém no mundo todo, independente de ser país rico ou pobre, estava preparado minimamente para enfrentar uma pandemia da magnitude do COVID-19. Basta ver o que se passa na Europa, em países como Itália, Espanha, França, Alemanha, Reino Unido, e até mesmo gigantes como China e Estados Unidos não previam a crise planetária que se formou e que fez o mundo parar. Se estes todos foram surpreendidos com um vírus desconhecido e com tamanha letalidade, imaginem países como Brasil que recém ensaiava uma pequena recuperação econômica!!!!

Assim, não podemos culpar ninguém pela crise instalada que terá o dom de prevenir a humanidade sobre suas próprias carências e fragilidades.  Que as lições do passado diante de outras pandemias e, principalmente, as lições do presente sejam melhor aprendidas.,


Combate à crise tem de passar pela área fiscal, dizem economistas

Exame.com
Com informações Estadão Conteúdo

Economistas afirmam que governo tomou medidas tímidas como resposta ao novo coronavírus e demorou a agir


(Ricardo Moraes/Reuters)
Governo Bolsonaro: medidas do governo contra o coronavírus foram criticadas 

O governo Jair Bolsonaro demorou para agir diante da crise do novo coronavírus e ainda tomou medidas tímidas demais dada a situação de calamidade global, segundo economistas ouvidos pela reportagem. Os especialistas pedem, principalmente, medidas mais profundas na área fiscal, a exemplo do que já foi feito em países desenvolvidos.

O Reino Unido, por exemplo, anunciou na sexta-feira passada que vai pagar até 80% dos salários dos trabalhadores nos próximos meses, enquanto o governo dos Estados Unidos articula com o Congresso um pacote emergencial que pode chegar a US$ 1 trilhão – ante -R$ 184,6 bilhões no Brasil.

Para o economista Paulo Leme, professor de Finanças na Universidade de Miami, o governo precisa injetar muito mais recursos na economia do que foi anunciado e, neste momento, seria melhor pecar pelo excesso. Monica de Bolle, pesquisadora do Peterson Institute for International Economics, nos Estados Unidos, afirma que a situação é de guerra e que, para bancar um aumento de gastos, o governo poderia se financiar através de instituições financeiras domésticas.

Teto de gastos. Se os especialistas são unânimes ao defender um aumento dos gastos neste ano, eles divergem em relação à manutenção do teto dos gastos (emenda constitucional que limita o aumento dos gastos à inflação). Segundo Monica, a regra deve ser temporariamente suspensa, já que a realidade é dramática.

Ex-ministro da Fazenda, Maílson da Nóbrega, no entanto, afirma que é possível aumentar os gastos abrindo um crédito extraordinário para despesas de calamidade pública, que não seria contabilizado no teto. A economista Zeina Latif também apoia a manutenção do teto. “Tem de haver um esforço para manter o teto. Tenho medo do precedente que se abre ao suspendê-lo. Grupos de interesse sempre tentam abocanhar partes crescentes do Orçamento.”

Além de criticarem o alcance das medidas anunciadas, os economistas também apontam problemas políticos que têm atrapalhado o combate à pandemia e à crise econômica. Leme destaca que o governo precisa retomar a capacidade de informar a população de forma clara. “O presidente tem de apoiar a equipe de Saúde. O País tem de remar na mesma direção.”

Zeina ataca a falta de articulação do governo e a demora do governo para reconhecer a gravidade da situação. “O governo subestimou o problema, agora será mais difícil lidar com essa crise. Não é que ela fosse inevitável, mas queimamos algumas etapas, como a da comunicação.”

PONTO DE VISTA

Monica de Bolle, pesquisadora sênior do Peterson Institute

“Plano de Guedes não basta. Tem de ser maior”

A economista Monica de Bolle, que há algumas semanas vem defendendo a suspensão temporária do teto dos gastos durante a crise, afirma que o pacote de medidas do governo é tímido demais para a recessão que virá – ela estima uma queda do PIB de até 6% no Brasil neste ano.

“Esse plano do Paulo Guedes não basta. Tem de ser algo muito maior. Tem de ser: o governo vai pagar os trabalhadores. O Reino Unido anunciou isso nesta semana.” Ela propõe que o governo repasse R$ 50 bilhões ao Sistema Único de Saúde (o governo destinou R$ 11,8 bilhões ao combate da pandemia sendo R$ 4,5 bilhões para o SUS) e outros R$ 30 bilhões para empresas mais afetadas pela crise.

Monica sugere ainda, entre outras medidas, o repasse de R$ 500 mensais por um ano aos 36 milhões do Cadastro Único que não recebem o Bolsa Família. Todo o pacote elevaria a dívida brasileira em 4% do PIB, calcula. “4% não é nada. Alguém acha que o Brasil acaba se a dívida aumentar isso?”

Paulo Leme, professor de Finanças na Universidade de Miami

“É melhor errar por fazer demais”

“Esquece o teto dos gastos, agora é preciso cuidar dos doentes”, diz o economista Paulo Leme, que já comandou o Goldman Sachs no Brasil. Para ele, dada a gravidade da situação, cumprir uma meta fiscal deixou de ter prioridade e a resposta para a emergência econômica é política fiscal.

“Reconheço que o pacote fiscal apresentado pelo governo é significativo, são 2,3% do PIB. Mas acho melhor errar por fazer demais, porque temo que ainda possa ser insuficiente.” O economista afirma que os R$ 11,8 bilhões que o governo destinou para a Saúde, é pouco. “Duplicaria, triplicaria esse valor para, por exemplo, a construção de hospitais.” Leme afirma ainda que o governo deveria ampliar linhas de crédito tanto para pequenas e médias empresas, como para algumas maiores, como as aéreas, e usar o BNDES para comprar debêntures de companhias.

Do lado do consumidor, outra rodada de liberação de recursos do FGTS deveria ser providenciada. “O jogo é ser gigantesco e rápido.”

Zeina latif, consultora e doutora em Economia pela USP

“Desarticulação do governo agrava situação”

Para Zeina Latif, o plano do governo de conceder R$ 200 por mês, durante três meses, aos trabalhadores informais não apenas é insuficiente para essa população como também é um projeto de difícil execução. Ela destaca que o governo se preparou mal para a crise e subestimou o problema, o que torna tudo mais complexo agora.

Segundo Zeina, quando o Ministério da Saúde colocou o alerta em nível um, ainda em janeiro, era preciso ter começado a traçar um plano emergencial. “O governo é desarticulado. Isso agrava a situação. As medidas anunciadas ainda estão na borda do problema. Como executar medidas para ter capilaridade e para que recursos cheguem aonde é preciso rapidamente?”, questiona.

Para Zeina, deve-se aumentar os gastos agora – “não fazer isso é um equívoco” -, mas o teto de gastos precisa ser respeitado. “Acho que tem de fazer um esforço para manter o teto. “A questão é reduzir o sofrimento e tentar fazer com que a crise não seja tão forte.”

Maílson de Nóbrega, ex-ministro da Fazenda

‘Governo tardou em agir na área econômica’

O ex-ministro da Fazenda Maílson da Nóbrega avalia que o governo Bolsonaro errou ao insistir que acelerar as reformas estruturais solucionaria a crise econômica decorrente da pandemia do coronavírus. “O governo tardou em agir na área econômica. Quando a situação começou a se agravar, insistia no discurso equivocado de que era preciso fazer reformas. Se aprovadas, elas terão impactos daqui a anos. A crise precisa de algo emergencial.”

O economista destaca que é preciso aumentar o orçamento da Saúde para evitar mortes e providenciar um alívio de caixa para empresas e famílias. Ele sugere ainda que a contribuição previdenciária seja dispensada temporariamente. “É preciso colocar dinheiro no bolso das pessoas.” Maílson admite que o déficit primário do Brasil vai aumentar neste ano, mas defende que o teto dos gastos não seja eliminado.

“O governo pode propor a abertura de um crédito extraordinário para cobrir despesas de calamidade pública, que não é contabilizado no teto.”

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

BNDES vai injetar R$ 55 bi em empresas com problemas de caixa

Denise Luna, 
O Estado de S.Paulo

O banco determinou a transferência de recursos do Fundo PIS-PASEP para o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), no valor de R$ 20 bilhões, a fim de possibilitar o saque extraordinário dos trabalhadores

 BNDES Foto: Fábio Motta/Estadão

RIO - O Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) anunciou há pouco, em nota, a injeção de R$ 55 bilhões na economia para reforçar o caixa das empresas e apoiar trabalhadores em meio à pandemia do coronavírus.

O banco determinou a transferência de recursos do Fundo PIS-PASEP para o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), no valor de R$ 20 bilhões, a fim de possibilitar o saque extraordinário dos trabalhadores.

Também decidiu pela suspensão temporária do pagamento de parcelas de financiamento diretos para empresas no valor de R$ 19 bilhões, e de R$ 11 bilhões para financiamentos indiretos. O prazo total do crédito será mantido e não haverá a incidência de juros de mora durante o período de suspensão, informou o banco em nota.

O BNDES anunciou ainda a ampliação do crédito para micro, pequenas e médias empresas (MPMEs) de R$ 10 milhões para R$ 70 milhões, buscando aumentar a capacidade de capital de giro do segmento. Os empréstimos terão carência de 24 meses e prazo de 5 anos para pagamento.

"Dessa forma, o BNDES oferecerá crédito rápido, ágil e flexível para as empresas de todos os portes, por meio da rede de atendimento de seus agentes financeiros credenciados, contribuindo para a manutenção de empregos. Esta medida deverá oferecer pelo menos R$ 5 bilhões em apoio rápido do banco às MPMEs, as empresas que mais empregam no país", informou o banco.

Segundo a nota, o banco continuará acompanhando a evolução do cenário e poderá tomar novas medidas, se necessário. O presidente do BNDES, Gustavo Montezano, concederá entrevista online em instantes.


Coronavírus: para onde caminha a economia brasileira — e como vamos sair dessa

Cássia Almeida e Pedro Capetti
O Globo

Por causa da pandemia, o banco americano JP Morgan já prevê retração de -1%, praticamente a mesma do banco Goldman Sachs, de -0,9%

  Foto: Edilson Dantas / Agência O Globo
O centro de São Paulo parou, assim como o de várias capitais brasileiras. 

Economistas costumam usar letras para descrever gráficos com projeções e, no atual momento, estão em dúvida sobre se a mais adequada é V ou U. Quem fala em V acredita que a economia global — e a brasileira junto — vai sofrer uma grande queda e, passado o pior momento da pandemia do novo coronavírus, voltará para perto do estágio em que estava numa velocidade alta. Um segundo grupo defende que a trajetória futura será em forma de U. Uma recaída forte, seguida de um período que pode ser mais curto ou mais longo de estagnação, para, somente mais tarde, voltar a crescer. Independentemente da letra que se escolha, o fato é que todos concordam em um ponto: a economia está engatando para ir ladeira abaixo.

O Brasil tem uma economia fechada na comparação com os maiores PIBs globais. Importamos e exportamos pouco em relação a nosso tamanho. Mas com os principais países e blocos dando marcha à ré, a economia brasileira não teria como ficar imune — mesmo que não tivesse de lidar com os efeitos negativos do novo coronavírus internamente.

Num primeiro momento, economistas brasileiros acreditaram que seríamos pouco afetados, mas a piora nas estimativas foi extremamente rápida. Hoje é dada como praticamente inevitável uma recessão, uma péssima notícia para uma economia que já não vinha entusiasmando. No primeiro ano do mandato de Jair Bolsonaro, o PIB cresceu apenas 1,1%. Para 2020, mesmo antes da pandemia, havia muitas dúvidas sobre se o Planalto pararia de guerrear com o Congresso e aprovaria uma série de reformas importantes para a economia, com a PEC Emergencial e a reforma administrativa. Agora, com o novo coronavírus, as projeções pioraram muito mais.

O banco americano JP Morgan já prevê retração de -1%, praticamente a mesma do banco Goldman Sachs, de -0,9%. No momento, a paralisação da economia brasileira ainda está se aprofundando. Nas dez maiores companhias com capital aberto na Bolsa, home office virou regra para a maioria dos trabalhadores. Fusões e aquisições foram colocadas em banho-maria por, pelo menos, seis meses. Viagens estão limitadas, comércio de rua, shoppings, restaurantes, bares estão sendo obrigados a fechar nas principais cidades. Isso é um baque sem igual no comércio, setor que movimentou no ano passado quase R$ 1 trilhão.


Em crise com governadores, Bolsonaro prevê R$85 bi a estados e municípios

Da redação, Exame
Com informações Agência Reuters

No Twitter, Bolsonaro afirmou que a maior parte dos recursos virá por "operações com facilitação de créditos"

(Carolina Antunes/PR/Flickr)
Bolsonaro: presidente promete pacote para auxiliar
 Estados e municípios no combate ao coronavírus 

O presidente Jair Bolsonaro afirmou nesta segunda-feira que o governo federal apresentou um plano de 85,8 bilhões de reais para Estados e municípios conseguirem arcar com demandas de saúde e impactos econômicos do coronavírus.

A maior parte desse montante – 40 bilhões de reais – virá por “operações com facilitação de créditos”, disse o presidente no Twitter, sem detalhar a investida.

Questionado, o Ministério da Economia não esclareceu o assunto imediatamente.

Atendendo a pleito dos entes subnacionais por suspensão do pagamento de suas dívidas junto à União, Bolsonaro afirmou que o alívio será de 12,6 bilhões de reais nessa frente.

O presidente também destacou a recomposição em 16 bilhões de reais para o Fundo de Participação dos Estados (FPE) e Fundo de Participação dos Municípios (FPM), além de 8 bilhões de reais em transferências para a saúde, o dobro do previsto, segundo Bolsonaro.

Completam o pacote 9,6 bilhões de reais em renegociação de dívidas de Estados e municípios com bancos e 2 bilhões de reais em orçamento para assistência social.

A soma das iniciativas extrapolou o valor inicialmente divulgado por Bolsonaro, chegando a 88,2 bilhões de reais.

No Twitter, o presidente afirmou que duas Medidas Provisórias (MPs) irão transferir recursos para fundos de saúde estaduais e municipais.

Na sexta-feira passada, o secretário especial de Fazenda, Waldery Rodrigues, disse que o governo não poderia atender pedido dos Estados por repasses mensais de 15 bilhões de reais para o enfrentamento ao coronavírus, mas afirmou que o pleito de suspensão de pagamento das dívidas estaduais estava em análise.

De acordo com Waldery, o governo também estudava atender à solicitação dos Estados por transferências de fundos da União para fundos dos entes subnacionais.

O Palácio do Planalto informou que Bolsonaro participará às 17h de coletiva de imprensa após reuniões nesta tarde com governadores das regiões Norte e Nordeste.
Os governadores do Sul e do Sudeste também marcaram para hoje reunião para discutir medidas contra os impactos do vírus nas áreas de logística, transportes e saúde da região. 

Clima de embate

As reuniões acontecem em meio a embates entre os chefes de estados e o presidente Jair Bolsonaro, que neste domingo, 22, os chamou de “exterminadores” de empregos, em função das medidas de isolamento adotadas em estados como São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia, Piauí e Distrito Federal.

Na semana, o presidente já havia chamado o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), de “lunático”. O governador respondeu ao presidente via Twitter: “Lidere seu país, presidente. Faça seu papel. Os governadores do Brasil estão fazendo o seu.” Também nesta segunda-feira, Doria se reunirá com um conselho de crise com 100 empresários que atuam no estado. Eles irão discutir a possibilidade de doações para o sistema de saúde.

Outro alvo de críticas de Bolsonaro é o governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, que baixou um decreto suspendendo o transporte interestadual e aéreo no Rio. Bolsonaro esclareceu que tal decisão só poderia ser tomada pelo governo federal e manteve a normalidade dos serviços.


'Choque' do vírus faz prever perspectiva sombria para setor petrolífero

O Estado de S.Paulo
Clifford Krauss, The New York Times

Produtores de petróleo nos Estados Unidos e em outras nações se preparam para obter receitas mais baixas, investimentos reduzidos e perda de empregos

  Foto: Chris Carmichael para The New York Times
Em épocas anteriores de declínio dos preços, as grandes companhias petrolíferas 
investiram em projetos a longo prazo como a perfuração em águas profundas.

HOUSTON, TEXAS – O repentino tumulto gerado nos mercados de petróleo poderá deixar vítimas no mundo inteiro, desde as empresas de energia e seus trabalhadores, aos governos cujos orçamentos estão atrelados ao preço do petróleo bruto. E talvez sejam necessários meses para que seja possível avaliar as suas consequências. Entretanto, o impacto na economia deverá ser considerável, particularmente para os países em que o petróleo domina o mercado de trabalho.

Com a epidemia do coronavírus reduzindo os intercâmbios, prejudicando os transportes e outras atividades econômicas, a demanda provavelmente se manterá fraca. Ainda que Rússia e Arábia Saudita resolvam as suas diferenças – o que levou os sauditas a reduzir de maneira drástica os preços depois que a Rússia se recusou a acompanhar os seus cortes da produção – o excesso global de energia manteve os preços baixos durante anos.

Muita empresas petrolíferas menores nos EUA poderão falir se a pressão dos preços continuar por mais algumas semanas, enquanto as maiores terão dificuldades para manter os pagamentos dos dividendos. A queda dos preços se refletirá de maneira diferente em cada país. China e Índia, grandes importadoras de petróleo, deverão ganhar com isso. Mas não a Venezuela, aliada da Rússia que depende das suas instáveis exportações de petróleo. 

O Irã, já pressionado pelo recrudescimento das sanções americanas, também será afetado pela queda dos preços, aumentando o descontentamento crescente. A Arábia Saudita poderá ser igualmente atingida, embora tenha precipitado a crise. As finanças e os programas sociais do governo saudita baseiam-se nas vendas de petróleo, que também têm como finalidade diversificar a economia.

“Trata-se do entrechoque de petróleo, geopolítica e o vírus que acarretou o colapso dos mercados”, afirmou Daniel Yergin, autor de The Prize: The Epic Quest for Oil, Money and Power. “ O declínio da demanda de petróleo se espalhará por todo o globo à medida que o vírus avançar”.

Arábia Saudita e Rússia têm razões para aceitar o compromisso, mas ambas têm condições de absorver os prejuízos por alguns meses. A Arábia Saudita tem os menores custos de produção em comparação a qualquer outro país produtor, de maneira que pode operar lucrativamente a preços baixos.

A Rússia dispõe de reservas financeiras suficientes e pode desvalorizar a sua moeda para manter o fluxo de dinheiro em toda a economia. O que deixa mais vulneráveis os produtores que operam com os custos mais elevados. As mais ameaçadas são as pequenas empresas privadas, com grande volume de dívidas, investidores impacientes e poços menos produtivos.

Mas as empresas de porte médio também correm perigo, inclusive a Chesapeake Energy, segundo o Morgan Stanley. A Chesapeake, uma importante companhia de petróleo e gás de Oklahoma, tem dívidas por US$ 9 bilhões de dívidas e dispõe de pouco dinheiro vivo por causa dos baixos preços das commodities.

Em uma nota recente aos investidores, o Goldman Sachs afirmou que as grandes companhias como Chevron e ConocoPhillips, estarão preparadas para suportar o choque, mas que Exxon Mobil poderá ser obrigada a cortar os gastos em prospecção e nova produção, que recentemente se concentraram no Texas, Novo México e ao largo da costa da Guiana.

A Halliburton e outras empresas de serviços – as que estão encarregadas da perfuração de polos e do fraturamento hidráulico que explode as rochas de xisto – estão expostas porque exploradoras e produtoras frequentemente  cortam em primeiro lugar os seus serviços nos períodos de crise.

As refinarias poderão beneficiar-se com o aumento da oferta de óleo barato, segundo o Goldman Sachs. Os executivos do setor petrolífero dos EUA observaram que muitas companhias reduziram os seus riscos nos últimos seis meses lançando mão de contratos de vendas a US$ 50 o barril, ou mais. 
Entretanto, acrescentaram, as demissões serão inevitáveis, como ocorreu quando os preços do petróleo despencaram, no final de 2014 e 2015, e mais de 170 mil trabalhadores perderam seus empregos. No entanto, os analistas observam que, mesmo um acentuado declínio da abertura de novos poços, não reduzirá a produção americana por mais de alguns milhões de barris diários, quando muito nos próximos dois anos.

Scott D. Sheffield, diretor executivo da Pioneer Natal Resources, uma das maiores companhias petrolíferas do Texas, previu que Rússia e Arábia Saudita serão mais afetadas do que as produtoras de petróleo americanas. “Nós ajustaremos o nosso capital e a mão de obra para preservar os balanços”, ele disse. “Muitas companhias falirão, mas novos acionistas serão os donos das áreas onde ocorrerá a perfuração”. 

O setor enfrentou diversas vezes acentuados declínios dos preços nas últimas décadas. As grandes companhias investiram durante estes ciclos principalmente com projetos de longo prazo como perfurações em águas profundas. Mas alguns analistas afirmam que, desta vez, talvez o setor não esteja bem preparado. As crescentes preocupações com a mudança climática e a relutância cada vez maior dos investidores em despejar dinheiro em um setor que, nos últimos anos, teve dificuldade para obter lucros prejudicaram a indústria antes mesmo do ataque do vírus.

“Em muitos aspectos, desta vez será diferente, mas não em termos positivos”, afirmou David L. Goldwyn, o mais alto diplomata da área de energia do Departamento de Estado no primeiro governo Obama. “Os baixos preços do petróleo não resultarão necessariamente em um aumento da demanda por causa do firme compromisso de muitos países a reduzir a emissões do gases do efeito estufa”. A tendência incerta do coronavírus sugere que a recuperação da demanda será lenta”. /

TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

Pesquisa mostra grande desinformação sobre coronavírus no Brasil

Julia Braun 
Veja online

Levantamento da FSB indica que população ainda tem dúvidas sobre quando procurar ajuda médica ou usar máscaras; 23% afirmam ter pouco ou nenhum medo

  Victor Moriyama/Getty Images Victor Moriyama/Getty Images
No metrô de São Paulo, pessoas começam a usar máscaras de proteção 
após confirmação de caso de coronavírus no Brasil 

Pesquisa da FSB indica que, apesar de 99% da população brasileira já ter ouvido falar no novo coronavírus, ainda há muita desinformação. Oito em cada 10 entrevistados acham que todo mundo que pega o vírus apresenta sintomas, o que não é verdade. Além disso, 71% dos entrevistados afirmam que, ao sentir qualquer sintoma, deve-se procurar um serviço médico, o que contraria as recomendações das autoridades sanitárias.

A pesquisa divulgada nesta sexta-feira 20 ainda indica falta de entendimento em relação ao uso de máscaras. Expressivos 58% dos brasileiros acreditam que o uso da proteção por uma pessoa contaminada garante que ela não passe o vírus para outras pessoas, o que, de acordo com os sanitaristas, também não é verdade. O uso da máscara é recomendado, pois ajuda a evitar, mas o que garante que o doente não transmita a doença é seu isolamento de indivíduos saudáveis.

Sobre a gravidade da situação atual, a situação da pandemia no Brasil é grave (65%), enquanto 35% consideram que o panorama é mais ou menos, pouco ou nada grave. O entendimento dos brasileiros é de que a situação é mais grave ao redor do mundo (91%).

De acordo com o levantamento, 65% dos entrevistados dizem que a população brasileira está com muito medo ou medo da pandemia, enquanto 24% dizem que os brasileiros em geral estão com grau médio de medo e 9% dizem que a população está com pouco ou nenhum medo. Mas quando instados a dizer seu grau individual de medo, cai para 48% os que dizem estar com muito medo ou medo; 27% dizem ter um medo “médio” e 23% afirmam ter pouco ou nenhum medo.