Adelson Elias Vasconcellos
Antes de iniciar este texto, uma recomendação especialmente às mulheres brasileiras: não deixem de ler o artigo postado mais abaixo, Dilma, não fale pelas mulheres, da Márcia Vaz. Imperdível e reflexivo o suficiente para por um pingo de juízo nesta discussão toda sobre aborto.
Em frente. O grande mote da propaganda da candidata governista ao longo de toda a sua campanha, pré-campanha e até mesmo a da pré-pré-campanha, tem sido a de que ela representa a continuidade do governo Lula que, por estar bem avaliado, representava um precioso capital político ao qual Dilma pretendia ligar-se de forma definitiva, com o objetivo de transferir para si os votos necessários para sua eleição.
Veio o inesperado segundo turno, e lá estava o “poste” cantando as glórias do governo do qual participara de forma integral, do primeiro ao último dia, prometendo dar continuidade a tudo o que Lula começara e que, a rigor, já era continuidade de tudo o que começara com Fernando Henrique e Itamar Franco. Até o programa nacional de privatização, este instalado por Fernando Collor, que recebeu no governo FHC o máximo de transparência e solidez, mas que o PT abomina, Lula aprofundou, apesar de dona Dilma aparecer na campanha da tevê pregando o mesmo discurso vigarista que o próprio Lula encenou em 2006, tentando desconstruir a candidatura de Serra.
O que é interessante e vale ressaltar que Dilma, desde que chegou ao Planalto pelas mãos de Lula, primeiro no Ministério de Minas e Energia e, mais tarde, guindada à Casa Civil, pela queda de José Dirceu pilhado como chefe da quadrilha do Mensalão, em 2005, jamais, em momento algum, se ouviu de Dilma Rousseff uma única crítica às decisões de Lula. Para ela, não tem esta de Deus no Céu e Lula na Terra. É Lula no céu, na terra e, se necessário, no inferno também.
Assim, entende-se o discurso pregando-se como a legítima herdeira de Lula, e seu provável governo nada mais será do que mera continuidade de tudo o que está aí. Para o bem ou para o mal.
Mas campanha eleitoral tem o dom de fazer as pessoas caírem na tentação da demagogia barata, da política rasteira, e da hipocrisia explícita. E é justamente isto que se percebe estar acontecendo com Dilma nesta reta final de campanha.
Como não levou o caneco no primeiro turno, tentou-se arranjar uma desculpa perante a opinião pública, para justificar a frustração. E como o baú de maldades do Petê é imenso, logo saiu-se a campo com a “campanha de calúnias e mentiras da oposição”, ou, “campanha de ódio da oposição” e assim foi até que o Datafolha exibiu que o caso Erenice teve mais influência sobre a não vitória no primeiro turno, do que qualquer outra coisa. Entre tapas e beijos, aturdidos ainda sobre causas e desarranjos, o comitê de Dilma, de repente, viu-se no meio de um tiroteio para o qual ainda não encontrou a porta de saída. A questão do aborto, e as declarações de Dilma favoráveis à sua descriminação, além daquelas duas situações que a lei já prevê, tomou conta do debate. Dilma tenta negar aquilo que está gravado. O vídeo do youtube, em que, numa sabatina da Folha de São Paulo, a candidata diz com todas as letras ser favorável à descriminalização, derrubou qualquer outro argumento que Dilma e sua campanha pudessem contradizer sobre sua opinião. É claro que, num país de maioria cristã, a questão do aborto envolve não o que alguns tentam dissimular como “preconceitos”. É uma questão fechada, ela envolve valores arraigados no sentimento das pessoas. Não se trata apenas de tabu, e sim de uma posição a que podemos classificar como “valores pétreos da sociedade”. Quem bulir neste ponto, vai se queimar. E foi a partir daí que a candidatura Dilma começou a se desmoronar. Não que o tema aborto tenha sido o pontapé inicial da queda: a questão dos sigilos e o caso Erenice acenderam na população um sinal de alerta que se tornou mais ruidoso ainda quando se confrontou a opinião em passado recente de Dilma e sua negativa em assumir o que disse. Assim, não é pela posição de Dilma, como de resto é política do governo Lula e faz parte do programa do Petê a descriminalização, é sim a sua tentativa descarada de tentar ludibriar a população, mentir acintosamente sobre um tema que requer mais seriedade e compromisso.
Não se pode dizer que Dilma, ao declarar-se favorável à descriminalização, estivesse sendo incoerente. Pelo contrário: tanto o governo Lula pratica uma política favorável à descriminalização que financiou à Fiocruz um filme com uma posição favorável. O próprio PNDH, versão 3.0, montado e revisado pela própria Dilma quando ainda chefe da Casa Civil, é definitivo nesta questão. Só voltaram atrás dada a forte reação negativa da sociedade, o que não quer dizer que tenham mudado de opinião.
Mas o que chama mais atenção é que, de repente, a Dilma, na tentativa de reconquistar os votos que perdeu e estancar a sangria que se percebe nas pesquisas, resolveu adotar um comportamento diferente da tal continuidade.
Além de agora ser assumidamente contrária ao aborto, e tentando captar os 20 milhões de votos de Marina Silva – essenciais para ganhar a corrida -, de repente, resolveu ressuscitar o Plano Amazônia que, diga-se, foi o estopim que levou a ex-ministra Marina a sair do governo e do partido. Há declarações da Dilma dizendo que o projeto da Marina não era o projeto do governo Lula. Mas, na campanha, aquilo que foi defenestrado por Dilma, Lula & Cia., como que por encanto, passou a ser o sonho dourado de consumo do governo e da própria Dilma.
Mas a calhordice não resume apenas a estes dois pontos. Em seu site, Dilma resolveu publicar a sua pauta de temas sindicais. Assim, em troca de apoio político, sua campanha abraçou a pauta de reivindicações da Força Sindical pela redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais e o fim do fator previdenciário para a aposentadoria. A petista jamais endossou essas bandeiras, mas seu site oficial apresentou nesta quinta-feira um vídeo no qual essa promessa é apresentada pelo deputado reeleito Paulo Pereira da Silva, o Paulinho da Força (PDT-SP), que se tornou o anfitrião da candidata no segundo turno em São Paulo.
Em um encontro nesta quinta-feira no comitê intersindical de Dilma em São Paulo, líderes das seis centrais sindicais - CUT, Força Sindical, CTB, CGTB, UGT e Nova Central - definiram uma agenda de mobilização diária pró-Dilma. A iniciativa ganhou destaque no site da campanha, onde Paulinho anuncia:
A presidenciável já se manifestou de forma contrária à redução geral da jornada, que considera ser um assunto a ser negociado entre patrões e empregados.
Dilma também elogiou, em junho, o veto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à extinção do fator previdenciário, que foi aprovada pelo Congresso, em desacordo com a vontade do Executivo. A petista sustenta que uma reforma da Previdência não é necessária devido ao "bônus demográfico" do país, mas já citou que poderão ser feitos pequenos ajustes, sem grandes mudanças nas aposentadorias.
Ora, para quem prega a continuidade, pura e simples, do governo Lula e do qual participou até abril deste ano, fica difícil aceitar uma mudança de posições tão abruptas, sobre temas em que, antes da campanha chegar no ponto atual, dona Dilma tinha e defendia posições fechadas e que se contradizem com seu ideário atual.
É bom que o eleitorado se mantenha alerta para esta ambiguidade, porque, se na campanha Dilma promete coisas que no poder votou contra, ao retornar ao poder nada nos garante que manterá a promessa de campanha. Lula, na oposição demonizou, por exemplo, a mudança constitucional que garantiu a reeleição para presidente, governadores e prefeitos. No poder, já se assistia nos últimos meses a bravata de que “oito anos” é pouco.
Não sei e não aposto em quem vencerá a eleição para suceder Lula. Mas uma coisa nos é possível concluir: o fato de Dilma não ter vencido no primeiro turno, somado ao resultado das últimas pesquisas, está fazendo com que a campanha governista comece a desgovernar-se. É visível a falta de coerência, nesta perturbada lógica de dar tiro para todo o lado. É visível a falta de segurança que se nota até nas falas e discursos. O teor que a campanha na tevê tem mostrado, é de se tentar apostar em táticas do passado que deram certo, para ver se colam mais uma vez para a retomada do favoritismo que se desenhou no primeiro turno. E, neste sentido, dê-lhe vigarices em cima de vigarices, e sobre as quais já desmontamos uma a uma.
Dilma pode reverter o quadro atual? Por certo que sim, afinal, ainda faltam 16 dias até a eleição, tempo muito longo para os imprevistos de oliveira silva se apresentarem e mudarem todo o cenário. Mas de uma coisa já é possível sacar: o tal mote da continuidade já foi prô brejo e levou junto toda a coerência da campanha. Agora vale tudo aquilo que os petistas sempre traziam na bagagem em tempos de oposição: chute nas canelas, no fígado, abaixo da linha de cintura, e muitas mentiras, calúnias, discursos indecorosos destilando um ódio atroz contra adversários, além, claro, do uso cada dia mais intenso e mais ilegal seja da máquina ou dos mesmo dos recursos públicos.
Para finalizar: Dilma prepara uma carta ao povo brasileiro em que “assumirá” o compromisso em relação à não levar adiante a ideia embutida no programa de seu partido quanto às legalização irrestrita do aborto. De minha parte, prefiro manter reservas quanto a este compromisso. Sabem por quê? Dilma não tem crédito para hoje dizer uma coisa, e amanhã manter e fazer o que disse e o que prometeu. Assim já foi com o próprio tema. Em relação a tal carta, parece que a coisa complicou um pouquinho (vejam nesta edição artigo do Reinaldo Azevedo a respeito). Em relação a Deus, então, minha gente, chega a ser cômico. A candidata foi à Basílica de Nossa Senhora Aparecida para uma missa. Coitada, a recém convertida, sequer conseguiu fazer o sinal da cruz direitinho...
No vídeo abaixo, e contrariando completamente o primeiro mandamento que determina “amar a Deus acima de todas as coisas”, vejam que “beleza” a declaração da cristã nova... E depois eles querem que a gente os leve a sério! Devem estar de brincadeira, não é mesmo?

