Adelson Elias Vasconcellos
O senhor Luiz Inácio é do tipo de político que não sabe perder, mas também não sabe ganhar. Na vitória, sua já suprema arrogância assume contornos explosivos, como nas declarações que deu no Piauí, em que afirmou que a vitória de seus aliados era uma vingança divina sobre seus adversários. Na derrota, então, se tiver crianças na sala, mande-as para o quarto imediatamente.
Os últimos dias têm revelado uma sensível mudança dos ventos e do humor do eleitorado. O encantamento do primeiro turno, parece ter esgotado sua quota de frouxidão e tolerância. Nesta segunda quadra da eleição presidencial, quando Lula imaginava que, a exemplo do que aconteceu com ele próprio em 2006, e Dilma iria dar uma forte arrancada rumo à vitória, as coisas parecem não querer repetir-se. O horizonte venturoso de antes, ainda no primeiro turno, parece turvar-se cada vez com maior intensidade neste segundo turno. E, na medida em que as notícias ruins se sucedem para a campanha Dilma, Lula vai assumindo um tom cada dia mais explosivo e seus discursos vão destilando um ódio de cão raivoso cada vez mais acentuado.
O clima no comitê de campanha se resume a isto: com a divulgação da pesquisa CNT/Sensus apontando empate técnico com José Serra (PSDB), na disputa do segundo turno: 46,2 x 42,7% deixou todo mundo enfurecido. Por ordem de Lula, o ministro da Propaganda, Franklin Martins, deu piti no comitê exigindo “pancadaria” no tucano. Antonio Palocci e o marqueteiro João Santana tentaram ponderar, mas o tempo fechou.
Razões para pânico: a distância entre Dilma e Serra caiu de oito para seis e ontem para apenas quatro pontos percentuais (CNT/Sensus).
O presidente do PT, José Eduardo Dutra, há dias deixou de tuitar: após entrevista admitindo erros no primeiro turno, levou uma bronca federal.
Assim, doravante, esqueçam o Lulinha paz e amor, a Dilminha paz e amor. Se nos últimos dias, a campanha já se emporcalhara de vez com vigarices, mentiras, mistificações e baixarias, a tendência de que o nível degringole de vez é total. Lula não aceitará de maneira alguma ser derrotado estando no poder. Não admite ser oposição, não aceita transferir o poder para aqueles que ele imaginava derrotados e quase extintos.
É como se tudo o que fez ao longo de quase oito anos no poder, não tivesse servido para nada. Claro que a manutenção de políticas sociais e transferências que herdou de Fernando Henrique e que até aprofundou, é lógico que as bases da política econômica implementadas no governo anterior e que manteve inalteradas, são conquistas do país a serem festejadas. Mas não convidem Lula para esta festa caso sua candidata perca a eleição, e Lula tenha que transferir a faixa presidencial para Serra. Porque no fundo, minha gente, Lula nunca governo o Brasil para o Brasil.
Seus dois mandatos foram dedicados, exclusivamente, para si mesmo, para sua mística, para tornar-se o rei idolatrado, único, incomparável, cantado em prosa e verso de norte a sul como o maior dentre os maiores estadistas não apenas deste recanto tupiniquim, mas de toda a história do universo. Na sua visão egocêntrica, nem a obra da criação divina é comparável a sua obra de governança. Ninguém foi mais perfeito do que ele próprio. Lula, e aí reside seu grande e imenso erro, não se deu conta de que os governantes, sejam quais forem, são apenas peças temporárias e removíveis do imenso tabuleiro da história política das nações. Para Lula, o Brasil jamais existiu antes dele, e não conseguirá sobreviver depois dele, sem ele no comando. Acho que Lula, ao deixar o poder, melhor faria se, após uma longa viagem de retiro, passasse um certo tempo em tratamento com algum analista para voltar à vida terrena, à realidade do dia a dia comum a todos os mortais.
Sabem o tal PAC, aquele programa que ele copiou, recortou e colou do Avança Brasil do Fernando Henrique? Ali, crescimento não se referia ao do Brasil, e sim ao do partido. Desde a seleção dos programas, até a repartição do butim, tudo foi planejado nos menores detalhes para dar certo. O tal PAC foi criado e gerenciado como um imenso cabo eleitoral, num primeiro momento, e segundo, como o maior mensalão da república.Conforme Rogério Werneck já demonstrara em artigo no Estadão, esta foi um campanha movida a gasto público, e não é recente, Lula usa e abusa da máquina e dos recursos públicos há pelo menos dois anos.Na semana seguinte à realização do primeiro turno, publicamos inúmeras denúncias de crime eleitoral em que a compra de votos mais se destacava. Mas, especialmente, uma ocorrida no Piauí me chamou atenção: a que dava conta da atuação de Alexandre Padilha, recentemente licenciado das funções de ministro das Relações Institucionais para se dedicar, integralmente, à campanha de Dilma. Padilha foi denunciado por trocar recursos públicos do Plano de Aceleração do Crescimento (PAC), no valor de R$ 108 milhões, por apoio político do prefeito de Teresina, Elmano Ferrer (PTB), em favor da candidatura de reeleição do governador Wilson Martins (PSB). O dinheiro será destinado para obras de infraestrutura e drenagem na capital do Piauí. Padilha pediu licença do cargo de ministro para se engajar na campanha de Dilma Rousseff.
Muito bem: não pense o leitor que este caso é único. Ele vem sendo utilizado desde que o PAC deu o ar da graça, com a conivência criminosa de governadores e prefeitos. Este é o verdadeiro mensalão do Lula, e seu uso demonstra claramente que o PAC tinha e tem outros objetivos, totalmente alheios ao interesse do país: ele financia a manutenção do poder, e não o desenvolvimento do país, que passou a ser de menor importância.
Querem outro exemplo? Hoje, em Goiânia, o governador Alcides Rodrigues (PP) e o candidato lançado por ele no primeiro turno, Vanderlan Cardoso (PR), anunciaram, com direito a muita festa, que no segundo turno apoiarão Iris Rezende (PMDB) ao governo de Goiás e Dilma Rousseff (PT) à sucessão de Lula.
Tudo bem, se não fosse por uma incômoda coincidência. Ontem, o mesmo Alcides estava em Brasília para outra reunião. Junto com Lula, assinou acordo que garantiu uma injeção de R$ 3,7 bilhões em dinheiro do governo federal na combalida CELG, a empresa de distribuição de energia de Goiás.
Dinheiro emprestado pela Caixa Econômica Federal. Com juros camaradas, 20 anos para pagar e dois anos de carência. Ou seja, conta para o próximo governador pagar.
Na sexta-feira da semana passada, Alcides e Vanderlan haviam se encontrado com Lula. Na ocasião, ficou decidido que a CELG receberia o dinheiro. Também foi combinado que o governador e seu candidato se bandeariam para o palanque de Dilma.
O anuncio oficial do apoio a Dilma e Iris, no entanto, só aconteceu depois da assinatura dos papéis do empréstimo. Sintomaticamente, o ex-secretário da Fazenda de Alcides, Jorcelino Braga, testemunhou a cerimônia de Brasília. Braga foi escolhido como marqueteiro da campanha de Iris no segundo turno.
O caso da CELG é uma das grandes questões da campanha de Goiás. Tanto Iris quanto seu adversário no segundo turno, Marconi Perillo (PSDB), já governaram o Estado. Perillo debita na conta do PMDB as dificuldades da empresa.
No discurso que fez durante a assinatura do empréstimo, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, acusou “gestões anteriores” do Estado pelas dificuldades da empresa.
Em agosto, a Assembleia Legislativa de Goiás aprovou uma lei que proibia o governo de usar o dinheiro do empréstimo federal para quitar débitos da CELG com o ICMS.
O governo Lula achou uma forma de contornar a proibição. Alem dos 3,7 bi para o governo do Estado, emprestou R$ 700 milhões para a própria CELG. Dinheiro que será usado para... quitar os débitos com o ICMS.
Na prática, o dinheiro faz uma escala na empresa e vai para os cofres do governo estadual e das prefeituras.
Em Goiás, as pesquisas indicam, para preocupação de Lula, o crescimento não apenas de Perillo, mas também de José Serra.
Se os políticos do Brasil fossem pessoas corretas, sérias, honestas, dignas de representar a sociedade no parlamento e, por certo, casos como os acima narrados, fariam a festa dos reportes todos os dias. Se os políticos em Brasília se alegram com a putaria de cargos de confiança, país afora, a distribuição de verbas públicas como moeda de troca na cooptação para compor alianças políticas, está disseminada. E isto só é possível acontecer num país em que o Estado, além do centralismo exacerbado e irracional, se confunde com a total ausência de transparência do gasto público. O velho costume cafajeste de se misturar interesses pessoais acima do bem público, e transformar o Estado num imenso balcão de negócios para favorecer a prática, se acentuou com o governo atual. Não é por outra razão que, a par do imenso volume na arrecadação de recursos vivido nos últimos anos, os serviços públicos essenciais padecem à míngua, cada mais esfoliados, cada dia mais indignos e abandonados à própria sorte. Quem padece? São exatamente aqueles a quem Lula diz dedicar sua preocupação, ou seja, os mais pobres que, sem recursos, dependem exclusivamente do Estado para sua sobrevivência e manutenção.
Mas, e como se vê, foram transformados em verdadeiras massas de manobras: dependentes do Estado para tudo, rouba-se- lhes a consciência cidadã em troca do voto, que passa a ser a moeda de troca dos bolsa vale tudo, menos a dignidade de serem livres e poderem exercer livremente suas escolhas.
O Mensalão do Pac, e conforme demonstramos em inúmeros artigos – relatórios do site Contas Abertas, jamais deixaram de ser o que de fato são: pactóides. Seu prazo de validade se inicia um pouco antes da campanha e se extingue na próxima eleição.
E este passa a ser o temor de um certo comitê a beira de um ataque de nervos: a possibilidade de uma cada vez mais provável vitória da oposição em 31 de outubro, e que provoca um rebuliço enorme dado o temor de, além de perderem o poder, os cargos, o acesso às verbas do tesouro, ter a oposição a oportunidade única talvez em toda a sua história, de desmascarar a mistificação que vem sendo contada ao país e ao mundo desde janeiro de 2003. E aí, meu irmão, não há orgulho que suporte tamanho prejuízo.